12/03/2018

Fran & Jock

Oi, creepers amados do meu coração! Não avisei antes, mas por motivos pessoais, L.A não está no momento em nossa equipe, mas fui avisada e notei que haviam vários cometários perguntando sobre Vox e Rei Beau. Então conversando com L.A, decidi que darei continuação dessa série, tentando trazer um capítulo toda sexta. Não sei se nessa sexta conseguirei, mas já fica o recado dado que em breve estará de volta. 
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Eu fui o último em uma longa fila de netos em ambos lados da família. Ninguém nunca falou nada, mas tenho quase certeza que fui um "acidente"; o resultado de muitas taças de vinho de um casal quarentão que achava que gravidez indesejada era coisa de adolescentes. 

Oops.

Quando nasci, ambas minhas avós já tinham falecido e meus avôs eram idosos que viviam estados diferentes. Tentar planejar viagens para uma família de cinco, incluindo um bebê, era difícil e caro. Meus avôs também não podiam viajar muito, então visitas eram raras e espaçadas em longos períodos de tempo. 

Mesmo assim, meus pais queriam que tivéssemos uma relação, então fazíamos ligações para que eles ouvissem meu balbuciar sem sentido de bebê, eles escreviam cartas, as quais meus pais liam para mim e eu respondia com rabiscos em giz de cera. 

Quando eu tinha três anos, ambos começaram a ter declínios em suas saúdes. Primeiro meu avô materno, depois o paterno. Temendo o pior, minha mãe comprou dois ursinhos de pelúcia, aqueles que você consegue fazer uma gravação e essa gravação fica salva para ouvir quando o bichinho é apertado. Conseguiu fazer com que os dois gravassem uma mensagem. 

O pai da minha mãe faleceu quando eu tinha quatro anos. Alguns dias depois de seu funeral, recebi o ursinho branco com olhos azuis que brilhavam debaixo de um boné xadrez e um suéter verde. Quando eu o apertei, ouvi a voz abafada de meu avô saindo de sua barriga. 

"Amo você, Sadie." 

Dois anos depois, quando o pai do meu pai morreu, eu recebi o outro. Era de um cinza mármore e a costura em seu rosto fazia com que tivesse uma expressão bastante séria para um ursinho de pelúcia. Suspensórios vermelhos seguravam seus shorts marrom. Eu dormi abraçando-o naquela noite e alguns anos depois, meu mais me contou, com lágrimas em seus olhos, que naquela noite ficava ouvindo aleatoriamente a voz de seu pai, vindo do meu quarto. 

"Amo você, Sadie." 

Dei o nome de Fran para o urso branco e Jock para o cinza e colocava os dois juntos em uma prateleira em cima da minha cama, onde ficaram sentados por toda minha infância. Honestamente, não pensava muito neles; tinham se tornado apenas objetos em meu quarto, assim como uma luminária ou uma cômoda. De vez em quando, quando chegava da escola, encontrava meu pai ou minha mãe sentados na minha cama, olhando para os ursos ou apertando-os de leve. Mesmo com o passar dos anos, continuavam a falar a frase sem falhar. 

Apesar dos pesares, Fran e Jock foram muito mais que colecionadores de pó da minha infância. 

Quando fui para a faculdade, os dois não participaram da viagem e ficaram para trás enquanto eu conhecia o mundo pela primeira vez. Acho que meus pais ficaram um pouco desapontados de que eu não tinha uma ligação emocional mais forte com os ursos, mas todas as memórias que eu tinha dos meus vovôs eram no máximo nebulosas e não tinha a mesma compatibilidade sentimental como eles. 

Quando minha mãe me perguntou se eu gostaria de ficar com eles quando me mudei para meu primeiro apartamento, falei que não, que provavelmente ficariam melhor com ela. 

"Ok." Me respondeu. "Bem, estarão aqui se mudar e ideia."

Eu estava confiante de que esse não seria o caso. 

A próxima vez que fui para a casa dos meus pais foi para cuidar de lá enquanto os dois faziam sua tão esperada viagem para o ocidente. Ele vinha prometendo que os dois iriam fazer essa viagem de presente de trinta anos de casados, e ela estava em animadíssima. Mas claro, sendo uma típica mãe, também estava super nervosa. 

"Você se lembra onde estão todos os documentos importantes caso algo aconteça com nós dois, certo?" Perguntou seis vezes, sentada no banco de trás enquanto eu os levava de carro até o aeroporto. 

"Sim, estão em um baúzinho branco de baixo da sua cama."

"E os testamentos?" 

"Caixa à prova de fogo no fundo do armário."

"E os-"

"Acho que ela sabe de tudo, querida." Meu pai falou, apertando o joelho dela de leve. 

Ela se encostou no banco, cruzando os braços contra o peito. "Só ligue, se precisar de qualquer coisa." 

"Vai ficar tudo bem, não se preocupe! Vocês vão voltar em uma semana!"

"Muito pode acontecer em uma semana," me respondeu. 

Eu sorri pelo espelho retrovisor, sem me preocupar, e recebi uma careta de volta, mas ela pareceu relaxar. 

Depois de largá-los, dirigi de volta para a casa e comecei a me sentir novamente confortável no meu velho lar. Joguei minha mala na cama e fui para a cozinha fazer uma janta e assistir minhas séries. Fazia muito tempo que eu não tinha uma semana livre só para mim. Depois de comer, coloquei meus pés para cima, as mãos atrás da cabeça e estava oficialmente na minha semana da preguiça. 

Consegui ver quase três episódios antes de começar a adormecer. Olhei o relógio que ficava em cima da TV e suspirei. Não era nem onze e meia ainda. Realmente tinha me tornado uma mulher velha que vai pra cama cedo? O terror! Rolei para fora do sofá, desliguei a TV e todas as luzes, deixando a casa em total escuridão. 

Mesmo no breu total, não sentia nem um pingo de nervosismo. Tinha crescido naquela casa, conhecia-a como a palma da minha mão, todas os rangidos e barulhos eram quase reconfortantes. Fui até meu quarto e liguei a luz. Faziam pelo menos cinco anos que eu não morava ali, mas meus pais não tinham mudado quase nada ali, a não ser algumas coisas dentro do closet. Falaram que deixaram assim para que eu soubesse que sempre teria um lugar perto deles. Mas acredito que só não mudaram porque na verdade aquilo significaria que eu tinha realmente me mudado para sempre. 

Seja qual for a razão, fiquei feliz com a familiaridade. 

Comecei a desfazer minha mala, até que meus olhos foram atraídos para a prateleira em cima da cama. Fran e Jock, sempre vigilantes, estavam sentados no mesmo lugar que ficaram por basicamente toda minha vida. Não sei porque, mas tudo que consegui fazer foi sorrir e pegá-los. 

Peguei Fran primeiro e dei um peteleco em seu boné antes de apertar sua barriga. 

"Amo você, Sadie." Vovô disse. 

Depois de devolver Fran para seu lugar, fiz o mesmo com Jock, que ficava me encarando com sua cara séria de sempre enquanto eu puxava de leve seus suspensórios. 

"Amo você, Sadie." Vovô disse. 

Foi a primeira vez que ouvi aquilo em bastante tempo. Mesmo que não me tocasse tão profundamente quando como acontecia com meus pais, fiquei feliz que as gravações ainda funcionavam. 

Uma viagem rápida até o banheiro e trocar as roupas por pijamas, logo já estava na cama e adormecendo rapidamente. 

Não sei dizer exatamente o que me acordou. Um pesadelo, achei, sendo que meu coração estava batendo bem rápido, mas não me lembrava dos detalhes. Respirei fundo e virei de lado, já quase caindo no sono de novo, e me encontrei cara a cara com um vulto escuro no meu travesseiro. Dei um gritinho e me sentei, pegando meu celular, que era a fonte de luz mais próxima. Iluminei a coisa. 

Fran estava deitado de lado ao meu lado. 

Dei um risinho e me chacoalhei para deixar o medo que me assolava sair de mim. 

"Você caiu da prateleira, foi?" Perguntei baixinho. Devia ter colocado-o perto demais da beirada mais cedo. 

Dei uma apertadinha nele.

"Saia daqui." 

Olhei para o urso e pisquei, lentamente. Eu devia estar mais sonolenta do que imaginava, pensei. Estava ouvindo coisas. Para me provar que aquilo fazia parte da minha imaginação, apertei de novo sua barriga. 

"Saia daqui."

Ainda era a voz do meu avô, mas ao invés do tom suave e acolhedor de sempre, parecia frio, quase ameaçador. Joguei Fran para o outro lado do quarto, onde ele bateu contra a parede. 

De cima da minha cabeça, ouvi a voz mais grave do meu outro avô. 

"Saia daqui."

Espiei para cima e olhei Jock. Ainda estava sentado no mesmo local que eu colocara, mas agora virado para a porta, ao invés de para frente. Eu o colocara daquela forma? Não lembrava. 

"Saia daqui!" A voz do meu avô materno soou de Fran de novo, mais alto dessa vez. 

"Saia daqui!" Ecoou  a voz do outro, vindo de Jock. 

Os dois gritavam o tempo todo, cada vez mais alto, até eu colocar as mãos tapando os ouvidos e deitar na cama. Eu queria gritar, mas as minha voz estava presa pelo medo. Levantei, cambaleando pelo quarto, perseguida pelas vozes dos meus avôs já falecidos. 

"Eu sabia que você estava aí em baixo!" Jock berrou com voz de meu avô. 

Congelei. Aí em baixo? Em baixo da prateleira? Olhei por cima do meu ombro para o urso cinza me observando silenciosamente de cima da cama. Eu tinha que sair daquele quarto. Tinha que sair daquela casa! Abri a porta com força. 

"Estou te vendo!" Fran falou rispidamente. 

Estava na metade do corredor, com lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas. Eu não sabia o que estava acontecendo, estava enlouquecendo? Estava sonhando? Tudo que sabia era que meus brinquedos de infância estavam gritando ameaças e me dizendo para eu ir embora dali. Fui em direção das escadas. 

"Se você der mais um passo, farei questão que seja o seu último!" Jock avisou. 

"SAIA JÁ DAQUI!" Fran rosnou.

De algum lugar lá de baixo, um degrau rangiu. 

Tinha mais alguém na casa. 

Eles não estavam gritando para mim, percebi com um misto estranho de confusão e alívio e uma nova onda de terror. Estavam gritando para o invasou que estava subindo as escadas, na minha direção. 

"SAIA DAQUI!" Meus avôs berraram em uníssono. 

Passos clamaram pelo piso de madeira no andar de baixo. Algo caiu na sala de estar com um barulho alto e novamente na cozinha, até que a porta dos fundos batesse contra o balcão, quando foi aberta violentamente.  Um motor de carro rugiu alto. 

De alguma forma, recuperei parte da minha inteligência para correr até o quarto dos meus pais e olhar pela janela lá para a rua. Uma caminhonete quatro portas estava estacionada na frente da casa. Ele atropelou a caixa de correio do vizinho, depois foi para estrada e sumiu pela noite. 

Um silêncio pesado caiu novamente pela casa. 

Depois de alguns minutos longos e tensos, voltei lentamente pelo corredor e espiei meu quarto. Fran e Jock estavam aonde eu tinha os deixado, em completo silêncio. Hesitantemente, me aproximei de Fran, que estava deitado de lado no chão, com seu bonézinho caído ao seu lado. Peguei-o, com as mãos tremendo, e apertei sua barriga. 

"Amo você, Sadie." Meu avô falou calorosamente. 

Coloquei seu boné de volta e gentilmente o coloquei na prateleira ao lado de Jock, enquanto saia do quarto de ré, mantendo sempre os olhos nos dois. Fui para o corredor, indo em direção das escadas para o telefone fixo, quando ouvi a voz do meu avô paterno suavemente pela casa. 

"Amo você, Sadie." 

A polícia chegou não muito mais tarde, depois da ligação frenética que fiz. Fiz o B.O, deixando de fora a parte dos meus ursinhos falantes, e permiti que coletassem todas as provas que precisavam. Toda hora me pegava olhando para o topo das escadas, esperando ouvir a voz de meus avôs. Nada mais aconteceu e logo mais a polícia me deixou sozinha de novo. 

Quando liguei para meus pais para contar do intruso, queriam voltar imediatamente para casa, mas falei que não era necessário. 

"Sério," falei. "Acho que não temos nada para se preocupar." 

"Podemos voltar no próximo voo." Minha mãe insistiu. 

"Não, estou bem. Seja lá quem era esse cara, tenho certeza que não volta mais." 

Demorou um pouco, mas consegui convencê-los que estava segura. 

E eu me sentia segura, também. Depois do choque inicial e de ter tempo de processar o que acontecera, eu fiquei bem. Não conseguia explicar, não podia contar para ninguém o que tinha realmente acontecido sem parecer uma louca, mas sabia que era real e que, enquanto estivesse com Fran e Jock, ficaria tranquila e poderia dormir tranquilamente. 

Alguns dias depois, os policiais descobriram quem era o cara que tinha invadido a casa. Era um colega de trabalho do meu pai que havia ouvido um conversa onde ele falava que iria viajar. Achou que a casa estaria vazia e fácil de roubar. Quando tentou contar sobre os dois caras no andar de cima que gritavam ameaças violentas, a polícia riu da cara dele. Ficou muito surpreso em saber que apenas uma mulher de vinte e dois anos estava na casa durante sua tentativa de assalto. 

Quando voltei para meu apartamento uma semana depos, Fran e Jock foram comigo. Deixo-os na estante da minha TV da sala, onde eles tem uma boa visão da porta da frente. Sempre que começo a me sentir um tanto ansiosa por estar sozinha, dou um apertãozinha na barriga de cada um e fico contente quando ouço a frase familiar. 

"Amo você, Sadie."

E agora eu respondo. 

"Amo vocês também." 





Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


23 comentários:

  1. Já quero esses ursos... Ansiosa 100% pela próxima parte de Vox e Rei Beau...

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  2. Vish ...malditos ninjas invisíveis cortadores de cebolas... Toda creepy agora eu choro, eu hein

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  3. Respostas
    1. Na minha também. Olhinho inconveniente... Kkkk...

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  4. Essas últimas creppys estão fabulosas. A mistura de sobrenatural e emocional, tá perfeita. Parabéns aos tradutores.

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  5. E Divina, obrigada por cuntinuar a Serie Vox e Rei Beau. VC Sempre com as melhores creeps

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  6. Melanie martinez. Teddy Bear. MT boa

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  7. Achei que ia arrepiar de medo, arrepiei de emoção...
    Mensagem da creepy, na minha humilde opinião:

    O AMOR NÃO MORRE!

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  8. Nunca chorei lendo uma creepypasta, mas essa é diferente

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  9. Caraio, essa foi foda, n me emocionei como os outros, mas me arrepiei forte na hora dos "SAIA DAQUI", sem falar no alívio quando explica, 10/10

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