21/03/2018

Minha esposa deixou instruções muito específicas depois que morreu

Minha esposa gostava de manter um planejamento. 

Bem, na verdade não só gostava, ela tinha que fazer. Sem seus cronogramas, Rosa não funcionava. Seus pais não gostavam de reconhecer suas "peculiaridades", e disse que tentaram afastá-la disso quando era pequena, e funcionou por um tempo. 

Não gosto muito dos pais da minha esposa. Nem ela gostava. É por isso que, no caso de sua morte prematura (Rosa gostava de fixar, gostava de planejar) o primeiro passo era o seguinte:

NÃO DEIXAR MEUS PAIS ENTRAREM NA CASA (sublinhado duas vezes). 

Eu podia rir de seus cronogramas e bilhetes que ficavam arrumados na geladeira, porque eram apenas partes de Rosa. Alergias também eram parte de Rosa. Em uma agradável noite de verão, um marimbondo entrou na cozinha enquanto ela estava fazendo janta para Alex, e a picou no pescoço. Sua garganta fechou completamente, seus lábios ficaram azuis, e ela morreu no chão da nossa cozinha. Alex ficou sentado por uma hora em sua cadeirinha até que um vizinho o ouviu berrando e arrombou a porta dos fundos quando Rosa não o atendeu. 

Dois dias antes, Rosa tinha me deixado um bilhete para que eu checasse na nossa garagem um ninho de marimbondo, mas eu andava ocupado com o trabalho e acabei esquecendo. Encontrei os bilhetes sobre sua morte quando estava planejando seu velório.


QUERIDO TY, ela escreveu em letras maiúsculas. 

SE EU MORRI, POR FAVOR, FAÇA O SEGUINTE.

OBRIGADA.
  • RO :)


Eu ri, e então comecei a chorar, mas li suas instruções. 

  1. NÃO DEIXAR MEUS PAIS ENTRAREM NA CASA (sublinado duas vezes)
  2. CUIDAR DOS ANIMAIS POR MIM.
  3. FALAR PARA ALEX ALGO SOBRE MIM TODOS OS DIAS.
  4. DÊ GORJETAS PARA OS LIMPADORES! ELES PREFEREM COMIDA.

Entre lágrimas, sorri perante suas instruções, até chegar na última. Limpadores? Nós não tínhamos limpadores ou faxineiras. Nunca tivemos um caseiro, empregada ou qualquer coisa do tipo. O que ela estava querendo dizer? Perguntei sobre isso para Ellie, irmã de Rosa, mas ela só deu de ombros. "Você sabe como Ro era, sempre viajando em sua cabeça. Provavelmente era uma piada que não teve tempo de te falar". 

Rosa me contava suas piadas assim que formulava-as, para que fossem novas. Mas o resto da lista era bem séria. Rosa estava falando sério sobre não deixar seus pais entrarem em nossa casa, estava séria sobre eu cuidar de seus pequenos animais de vidro colorido, e séria sobre não deixar que Alex a esquecesse. Porque ela faria uma piada sem sentido no final?

Então, contra meu bom senso, e porque fazia parecer diminuir o buraco que estava em meu peito, eu deixava uma bolachinha, ou uma barrinha de cereal, ou uma maçã, qualquer coisa mesmo, toda noite em cima da mesa da cozinha. E pela manhã, a casa parecia estar mais arrumada e a comida sumia. Talvez o luto estivesse me deixando um pouco louco. Ou talvez realmente tínhamos 'limpadores'. De qualquer forma, isso não me perturbava. Seja lá o que estivesse acontecendo, Rosa tinha a ver com isso, e ela nos amava.

Fiquei acordado uma noite inteira para tentar ver os 'limpadores', parecendo uma criança tentando ver o papai noel, mas acabei adormecendo no sofá em algum momento da madrugada e acordei nas primeiras horas da manhã, ouvindo barulho de louça na cozinha. Cautelosamente, fui devagarinho até a cômodo escurecido, mas os barulhos de tintilar de prato pararam abruptamente quando liguei a luz. Não havia nada lá. Mas a banana que eu tinha deixado havia sumido.

Se eu deixava louça na pia, estariam lavados e secos pela manhã. As roupas estariam dobradas. Manchas no carpete desapareciam. Eu sempre dava gorjeta para os limpadores.

E então os pais de Rosa se convidaram para vir aqui, cerca de dois meses depois da morte dela. Espertos como eram, chegaram quando eu não estava em casa e Alex estava sendo cuidado por Ellie, e quando cheguei em casa do trabalho, já tinham se instalando no quarto de visitas. Um pai que trabalha não tinha condição de cuidar de um bebê de um ano de idade, falaram. Como eu iria conciliar, sem uma mulher em casa?  Entretanto, a mãe de Rosa fez questão de dar sua opinião, não que Rosa tinha sido muito boa nisso em vida, muito ocupada cuidando dos animais de vidro ou desenhando criaturinhas, simplória demais para usar uma máquina de lavar. 

Rosa não era simplória, ela era brilhante. Tinha artigos publicados em revistas científicas. Tinha mais educação formal que eu. E cuidava muito bem de Alex, e cuidava muito bem da casa. E daí que colecionava coisas e desenhava quase que obsessivamente? E a máquina de lavar era barulhenta demais para ela. Machucava seus ouvidos. Eu sabia dessas coisas, porque eu a conhecia faziam sete anos. Eles a criaram, mas nem sabiam a cor predileta dela (vermelho, que usava o tempo todo), ou seu artista preferido (John Coltrane, tocava-o quase todos os dias). Eu queria que fossem embora, mas eu estava de luto, lidando com um bebê, e eram muito teimosos. 

Segurei a língua, esperando que fossem emboras sozinhos, até que um dia eu surtei quando cheguei em casa e a mãe de Rosa estava mexendo em seus animais. Alguns deles estavam quebrados no chão na frente do armário da sala onde ficavam guardados. 

"Saiam daqui."

"Somos avós de Alex!" A mãe de Alex guinchou enquanto eu os enxotava escada abaixo. "Temos direitos! Ele vai acabar que nem a mãe! Você vai ARRUINÁ-LO!" 

"SAIAM DAQUI, PORRA!" Eu rosnei, e pálidos e trêmulos, saíram pela porta da frente. 

Esqueci de dar gorjeta para os limpadores naquela noite. 

As duas da manhã, acordei com o som de gritos no andar debaixo. A mãe de Rosa, que tinha roubado as chaves de Elli, tinha entrado pela porta dos fundos para encontrar, o que apenas posso assumir ser, limpadores muito chateados. Não tenho muita certeza o que fizeram ou não fizeram com ela, mas havia um par de tesouras enfincados na moldura da porta em torno da altura de uma cabeça, e os armários e as gavetas estavam revirados. O sofá da sala de estar parecia que alguém tinha esfaqueado-o. As cortinas estavam em frangalhos.

As únicas coisas que continuavam intactas eram os animais de Rosa. 

Os pais dela não vem mais aqui. Na verdade, fizeram dois B.O contra mim, mas acho que a polícia começou a ignorá-los. Comecei a olhas os desenhos de Rosa, para mostrar para Alex quando ficasse mais velho, e ela desenhava os limpadores de vez em quando. Pareciam fadas, quase, mas tinham olhos totalmente negros, sem asas e com dentes e garras muito, muito afiadas. 

Mesmo assim, acho que eles gostavam de Rosa. Rosa tinha esse efeito nas pessoas. Então acho que a primeira coisa que vou contar sobre ela para Alex será sobre os limpadores. 

Além do mais, ele vai poder me lembrar de dar gorjeta. Só pra ter certeza. 



13 comentários:

  1. Respostas
    1. Como assim? Os limpadores são algum tipo de criatura não explicitada, que por algum motivo também não explicitado gostava da esposa dele. No dia que ele esqueceu de deixar a comida, as criaturas ficaram meio putas e atacaram a mãe da esposa dele que entrou na casa escondido. No fim ele só diz que vai contar essa história dos limpadores pro filho dele, até porque o filho dele pode ajudá-lo a não se esquecer das "gorjetas" .

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  2. Pelas peculiaridades e descrições muito específicas que são dadas a Rosa, acredito que ela tenha Síndrome de Asperger. Só achei interessante comentar. Ótima creepy!

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  3. Gostei... Queria ter um limpadores desses aqui em casa... Seria ótimo.

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  4. As criaturas de "O pequeno jardim" ♡

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  5. Acho que os limpadores eram os animais da Rosa. Que por terem sido quebrados pela mãe dela atacaram ela e ficaram meio putos. A gorjeta parece que só servia pra eles limparem a casa

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  6. Lembrei de outra creepy que tinham uns limpadores, eles limpavam a casa e deixavam as pessoas mais bonitas, mas eles nunca paravam, então eles começavam a lixar os ossos e os músculos e as pessoas morriam

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