16/03/2018

Vox e Rei Beau: Vox e os Encontradores (PARTE 11)


Estou de volta. Como prometido, venho escrevendo as histórias para que tudo mova-se com um pouco mais de rapidez. 

Passei maior parte dos dias dormindo, tenho que ser honesta. Depois das perguntas e resposta, desmaiei. A noite estava tão silenciosa, e está congelando e chovendo aqui no meu pequeno canto do mundo. O tempo perfeito para dormir, normalmente. Escorrego para dentro e para fora de sonhos. Alguns eram memórias. Alguns eram completamente sem sentido. Muitos eram sobre Beau. Em um, eu estava caindo. 

Não posso dizer que isso tenha consumido meus dias, mas faz um grande peso na minha mente. Minha cabeça está me matando. Essa dor de cabeça vai e vem, mas quando a tenho, é horrível. Tem um zumbido em meus ouvidos, e comecei a apreciar o bizarro cobertor de silêncio que vem ocasionalmente. Só aconteceu uma vez hoje, mas foi sensacional.

Foi mal. Não estou tentando reclamar. Só quero que todos saibam os fatos. Gostaria também de agradecer quem ainda está comigo aqui. Se não fosse por essas sessões de escrita, acho que já teria desistido e cometido algo ou sei lá. Não consigo evitar de sentir que existe algo nessas histórias, e se eu deixar que me arruínem agora, nunca descobrirei o que é. 

Sei que falei que escreveria sobre Beau e o Raptor de Crianças, mas acho que precisa de um prefácio. Esse é Vox e os Buscadores. 

Tenho que ser honesta; antes disso começar, nunca pensei muito no meu velho tempo com Beau. Era apenas outra parte da minha infância, que é algo que penso cada vez menos a cada dia que passa. Acho que ontem a noite alguém perguntou se eu podia contar um pouco mais sobre minha vida pessoal. Não houve nada errado durante minha criação. Meu pai foi embora de casa antes mesmo de eu nascer (não sabia que minha mãe estava grávida) mas o divórcio foi civilizado e eu o via a cada dois finais de semana mais ou menos, e nas férias de verão. Ele é um bom homem e minha mãe é uma boa mulher. Só não eram o par ideal um para o outro, mas nunca pararam de amar a mim e meu irmão. Além disso, éramos apenas mais uma família de classe média no meio dos Estados Unidos. 

Agora que tirei um tempo para escrever as coisas e examinar aqueles anos, posso ver o meu crescimento e amadurecimento. As brincadeiras que eu e Beau fazíamos tiveram um efeito em mim, sendo ou não reais. Talvez tivesse me tornando um ser humano pensante, e não um pequeno monstrinho feroz como todas as outras crianças. Talvez Beau estivesse mesmo me ensinando algo. Independentemente, acho que não comentei sobre os outros jogos que nós fazíamos e as formas que o mundo mudava em minha volta por estar com Beau. 

Beau. Amado. Esconde-esconde. Ele adorava provar que podia me caçar, e adorava mostrar como podia me encontrar em qualquer lugar, não importa onde eu me escondesse. Minha mãe sempre se perguntava porque eu me surpreendia tanto toda vez que Beau me achava. Afinal de conta, ele era um produto da minha imaginação. Ainda assim, eu amava brincar com Beau, e vê-lo feliz me fazia feliz. Era meu amigo. Um amigo perigoso, que roubava vozes, vaidoso, desagradável e assassino.

Um dia, perguntei a Beau por que gostava tanto de brincar de esconde-esconde.

Disse, "Você não gosta? O seu tipo está sempre brincando disso." 

Perguntei o que queria dizer com isso. O meu tipo não se escondia todo o tempo dos outros. Só quando estávamos em perigo ou brincando uns com os outros. Ou quando não queríamos ser encontrados. Ele sorriu e se inclinou na minha direção para sussurrar no meu ouvido. Olhando agora, lembro que achei estranho que seus lábios e boca nunca se mexiam quando falava. Desencostou as fileiras de dentes e deixou que sua voz esparramasse, sua garganta fazendo todo o trabalho.

"Veja só, pequena Jeep, é por isso que você sempre perde nossos jogos. Você não entende como se joga. O seu tipo é muito bom em se esconder, mas procurar é muito mais divertido. Há muitas coisas que querem te encontrar. Vamos jogar uma rodada de esconde-esconde agora. Você se esconde primeiro."

Mesmo sendo nova e facilmente impressionável, eu era cética.

"Acho que você só quer um motivo para brincar," falei. 

"Mantenha seus sentidos apurados," instruiu. "Veja quem te encontra primeiro."

Não sabia muito bem o que isso queria dizer, mas ele se virou para encarar a parede e começou a contar. As sombras reinaram em sua volta e ele abaixou sua cabeça branca, envolvendo o braço inumano nos olhos, para provar que não estava espiando. Percebendo que isso sinalizava o fim de nossa conversa e tentar argumentar mais só faria eu perder um tempo precioso, corri. Nesse dia em particular, estávamos brincando dentro de casa, pois chovia lá fora. Isso limitava meus bons esconderijos. Minha avó, que devia estar cuidando de mim, estava tirando um cochilo no sofá da sala, e eu sabia que lugares óbvios como armários e closets seriam os primeiros lugares que Beau procuraria. Então decidi me esconder em um local mais óbvios, no banheiro de visitas. 

O melhor jeito de enganar Beau era o deixando confuso. Eu sabia que ele seguiria trilhas até que acabassem, não importa onde ou porque. Me aproveitei de sua compulsão. Fechei uma porta de armário enquanto passava pois sabia que ele ouviria o som. Coloquei uma pilha de roupas sujas no chão como se houvesse alguém escondido em baixo, dentro do closet do meu irmão. Esses truques fariam com que ele perdesse tempo e o frustrariam, e isso me daria tempo para mudar de esconderijo se necessário.

O banheiro de visita era quase nunca usado e estava sempre cheio das nossas melhores toalhas de banho bordadas com desenhos natalinos, assim como pequenos sabonetes que cheiravam a baunilha. Entrei silenciosamente e fechei a porta antes de pular para dentro da banheira e fechar a cortina. A única luz no cômodo vinha de uma pequeno abajur em forma de concha de mar. Nem sei porque aquilo ficava lá. Pressionando meu rosto contra a superfície fria da banheira, encolhida o máximo que conseguia, fechei os olhos e tentei deixar minha respiração mais lenta e silenciosa o possível, tentando ouvi alguma movimentação de Beau. 

Bem, obviamente o Rei Caçador do Lugar Quieto e Além não deixaria que uma menininha de cinco anos ganhasse dele, mas eu tinha a leve impressão de que ele se divertia procurando por mim tanto quanto quando ganhava. Diretamente acima de minha cabeça, jurei ouvir uma série de gavetas abrindo e fechando rapidamente. Beau estava mostrando para mim que o jogo começara. Tentei ouvir mais alguma coisa além do que as batidas de meu coração, e não demorou muito até eu ouvir batidinhas na porta do banheiro. A maçaneta girou levemente. A tábuas do chão de madeira rangiam suavemente enquanto alguém trocava o peso  em cima delas. Com meu olho da mente eu podia ver tudo isso acontecendo. 

Isso me deixou confusa. Beau nunca precisou abrir portas. As únicas vezes que fizera isso era puramente teatral. Algo se esgueirou para dentro do banheiro, e me ocorreu que seja lá o que fosse, não era Beau. Quanto mais eu cerrava os olhos, mas eu percebia algo: Uma respiração ofegante, desconhecida.

Por mais que me aterrorizasse, me forcei a abrir os olhos. Olhando para o teto acima do chuveiro, não me mexi para ver melhor o resto do banheiro. Entretanto, a luz da concha mudou e fez uma sombra em sua luz fraca. 

"Vox? Querida? Eu te vi entrando aqui?" 

A voz pertencia a minha vó. Com medo de ser castigada, quase respondi, mas as palavras que Beau tinha dito antes me fez ficar quieta. 

"Amorzinho?" 

O ser trocou o peso no piso e o som de seu andar era parecido com o da minha avó. A sombra até tinha a mesma altura. Ainda assim eu estava perturbada com a ideia que algo terrível estava brincando comigo, usando-a para me atrair. Ou isso, ou era um novo truque que Beau estava praticando. Não daria para ele satisfação de me enganar. 

"Ah, sim. Você está brincando com o seu amiguinho? Bob? Apareça, apareça, seja lá onde estiver! Bob está aqui e quer ver você!"

Bem, isso descartava Beau completamente. Sua vaidade jamais o permitiria de trocar o próprio nome. Na sua mente, todos os seres do mundo deviam saber como se chamava. Com minha ótima audição, ouvi uma porta de armário se fechando na cozinha. Se Beau ainda estava me caçando, significava que era apenas eu e a criatura que estava usando a voz da minha vó ali. De repente, me senti como a Chapeuzinho Vermelho. Sempre odiei essa história.

A criatura parou, provavelmente também ouvindo a porta bater. Se aproximou da banheira, e ouvi algo. Era algo bem, bem, mas bem baixo. Não alto o suficiente para ser um ressoar, mas nem tão baixo para ser uma invenção da minha mente. Por algum motivo, o barulho fazia meu estomago se enrolar em nós e meu coração parecia querer fugir do peito. 

"Vox, isso não tem graça. Vou contar até três e se você não estiver aqui, vou ter que ter uma conversinha com sua mãe quando ela chegar em casa."

Eu não queria essa coisa perto da minha mãe. 

"Um..."

Segurei a respiração e observei a sombra se aproximando. 

"Dois..."

O suspense e a tensão estavam começando a me enlouquecer. Não tenho vergonha de dizer que algumas lágrimas escorreram por minhas bochechas. Eu era apenas uma menininha. Estava acostumada com um monstro que deixava eu cantar para ele,mas não com um que se fantasiava de minha avó e ameaçava minha mãe. Eu quera gritar, pular e correr, mas não tinha escapatória. 

"Três."

A cortina do box começou a se mover na minha direção. A forma de um rosto apareceu entre o padrão floral. Não tinha características únicas. Podia ser o rosto de minha avó, mas poderia muito bem ser o de qualquer outra pessoa. O zumbido nunca aumentou de volume, mesmo com a criatura bem perto de mim. Continuava a olhar reto para frente, e mesmo que o rosto não se mexia, sua voz ecoou pela banheira. 

"Onde está aquela menina danadinha?" 


Eu não conseguia mais aguentar. Um gemido saiu por entre meus lábios. A coisa congelou, e tive certeza que tinha me ferrado. Eu não fazia ideia do que aconteceria comigo, mas sabia que não seria legal. Naquele ponto, eu já tinha ouvido Beau contar histórias suficientes para saber que essas criaturas não brincavam ou gostavam de ouvir crianças cantando. Entretanto, o barulho parou. O rosto se afastou da cortina, e o ser parou por um segundo antes de voltar de onde tinha vindo. O zumbido foi trocado por um silêncio pesado e reconfortante.

Esperei pelo que pareceu o tempo de uma vida inteira antes de espiar pela borda da banheira. Havia uma figura lá, mas pensei conhecer aquela forma alta e disforme. 

"Beau?" Choraminguei. Lembro que meus lábios tremiam. Puxei a cortina para o lado para revelar seu rosto pálido, levemente inclinado para baixo para me encarar. No escuro, ele brilhava levemente, e inclinou sua cabeça me vendo. 

"Vejo que não ganhei," disse.  

Beau era um desgraçado. Até naquela época, eu sabia que ele tinha esperado e deixado a coisa-vovó me assustar. Não respondi nada, apenas franzi o cenho. Ele viu que eu não queria cair em seus truques e seu sorriso se alargou. 

"Você não entendeu ainda as regras do jogo?" Perguntou. "Sempre há Encontradores te caçando, Vox. Só podem te pegar se você deixar ser pega."

Quase sai de meu próprio corpo quando a voz da minha vó ecoou da cozinha. Estava me chamando para lanchar. 

"É ela mesmo?" Perguntei. 

Beau encolheu os ombros estranhamente, parecia ter juntas demais. 

Estufei as bochechas e juntei coragem, passando determinadamente por Beau e saindo do banheiro. Na cozinha, encontrei minha avó de verdade com lanchinhos. Eu a abracei pela cintura o mais forte que pude, e ela perguntou porque eu estava chorando. Falei que tinha batido o dedão em uma cadeira. 

Admito, fiquei surpresa e não muito feliz depois do lanche e de assistir os programas chatos na TV com a vovó, Beau me chamou lá do meu quarto, esperando para terminarmos nosso jogo. 

"A chuva parou," Beau insistiu. "Você que encontra agora. Se deixarmos o jogo inacabado, vamos quebrar as regras." 

Argumentei que dentro de casa era uma alternativa melhor, mas Beau ameaçou me deixar sozinha com a coisa-vovó de novo. Ele sabia onde encontrá-lo, me disse. Podia vir aqui e terminar o que tinha começado. Contra-ataquei dizendo que não cantaria mais naquela semana para ele. Ganhou dizendo que então roubaria minha voz e teria todas as músicas quando bem quisesse, para sempre. Perdi. Para o canto eu fui. Com ódio, contei até dez. Quando terminei, me virei e, por algum motivo, tive certeza de que Beau não estava dentro de casa. Já tínhamos passado tempo demais dentro, e mesmo para Beau lá fora era tentador. Gritei para vovó que iria para o quintal e marchei até o jardim.

A casa em que morávamos era a mesma que meus pais tinham morado juntos quando casados. E o antigo barracão de ferramentas do meu pai ainda estava em um canto do quintal, abandonado. Me era proibido brincar lá dentro. Ele nunca tinha voltado para pegar a maioria de suas ferramentas, e haviam vários tipos de pesticidas vazando dentro, mas a porta estava aberta, só uma frestinha. Me perguntei porque Beau estava tentando fazer eu me encrencar, mas me aventurei a entrar de qualquer forma. 

"Beau?" Sussurrei, enquanto enfiava minha cabeça lá para dentro. "Nós não podemos entrar aqui. Vou me meter em encrenca." 

Observei o lugar, tentando olhar além do antigo cortador de grama, ferramentas de jardinagem, luzes de natal e várias outras coisinhas normais de uma família comum suburbana. No canto mais distante do barracão, atrás de um Papai Noel de plástico e uma lata enorme de lixo, vi uma sombra que não pertencia ao lugar ou algum de seus objetos. Senti uma sensação de triunfo e dei um passo para dentro, abrindo a porta um pouco mais para que um pouco de luz iluminasse a escuridão. Essa luz foi o que projetou um reflexo em um velho serrote que estava pendurado na parede, e foi esse serrote que fez com que eu recuasse e saísse do local, fechando a porta.

No metal distorcido, notei um reflexo. O rosto, mesmo estando distorcido, não pertencia a Beau. Vi grandes olhos negros e uma boca aberta, não cheia de dentes pontiagudos mas de um vácuo faminto. Se movia levemente enquanto a coisa se virava, mas acho que nem chegou a me ver. De qualquer forma, eu não iria checar novamente. O que eu vi podia muito bem ser só o reflexo de outros objetos esquecidos lá dentro, assim como a coisa-vovó podia ser só fruto da minha imaginação, mas como Beau dissera, só podiam me encontrar se eu deixasse. 

"Beau!" Gritei no jardim. "Não quero mais brincar!"

Ouvi a voz dele vir de trás de uma árvore. 

"Já matei por menos," choramingou, "mas você nunca teria me encontrado, de qualquer forma." 

Não quero dar a impressão de que estou fazendo birra e dando as costas aqui, porque não é o que está acontecendo. Estou reagrupando. Acho que me sinto como uma visitante aqui, pois sou a única que precisa de ajuda e não é da obrigação de vocês ouvir minhas bobagens de infância ou, quem sabe, minha recaída esquizofrênica. O que posso fazer é tentar meu melhor. 

... E eu não me lembro muito bem aonde eu queria chegar com tudo isso, o que é meio aterrorizante, então acho que é isso. Preciso me deitar um pouco.... voltarei em breve. 


9 comentários:

  1. Vei no moral, dessa não agrado ... Leio mesmo assim pra passar o tempo ... Obrigada pela postagem

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  2. Finalmente!!! Não aguentava mais esperar hahaha valeu divina!

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  3. "Ja matei por menos" Beau o excentrico

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  4. Divina, obrigado por continuar a postar esta série.
    Pot favor, agradeça a L.A por trazer essa creepy para nós! Diga também que desejo sucesso no que ela esteja fazendo e, que eu espero, que ela possa voltar para a equipe.

    Abraços o/

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