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Ambulâncias Pretas

17 comentários
A primeira vez que vi uma das ambulâncias pretas, minha mãe tinha acabado de me pegar da consulta com meu cardiologista para ir para casa. Ela estava com a rádio ligada e cantava junto de Patsy Cline, então encostei a cabeça no vidro e observei os motoristas putos da vida tentando nos ultrapassar. (Minha mãe se recusa acreditar que dirigir muito devagar é igual a ser uma péssima motorista. Siga o tráfego, mãe!) No retrovisor, vi um lampejo de  cor preta, e franzi o cenho quando um Audi passando por nós com uma ambulância colada atrás.

Bem, se tem uma coisa que conheço muito bem, essa coisa é uma ambulância. Faço passeios com elas algumas vezes por ano. São grandes e retangulares e cheias de socorristas gatos, e vem com o pacote completo: luzes, sirenes, policiais, carro de bombeiros. Uma vez, a casa do outro lado da rua pegou fogo ao mesmo tempo que comecei a sentir dores no peito, e minha pequena rua suburbana virou uma rave mórbida. 

E claro, isso significa que eu sei o que não é uma ambulância. Tipo, não são pretas. Ou silenciosas - principalmente quando estão de luzes acesas. A ambulância ficou na cola do Audi - tão perto que provavelmente era ilegal, posso dizer - e tentei chamar a atenção da minha mãe. 

"Stacy!" ela finalmente disse, diminuindo ainda mais a velocidade. 

"O que diabos é aquilo colado com o Audi verde que acabou de nos passar?" 

"É algo que vai receber uma multa logo logo se a polícia ver."

"Você não viu... a coisa preta?"

"O que, a caminhoneta? Ele nem está na mesma faixa."

Suspirei. "Deixa pra lá." 

Minha mãe perdia várias coisas, especialmente quando dirigia. Entretanto, você tinha que ser surdo, cego e morto para não ver aquela ambulância preta e gigante que estava grudada na traseira de outro carro.

Paramos em um restaurante para almoçar. Meu ombro deslocou quando sai do carro, mas consegui colocar de volta no lugar antes que minha mãe visse. Ela pediu um enorme Kielbasa e me deu um olhar maligno quando roubei algumas batatas fritas dela. Olhei para a TV enquanto as comia.

Ficaram frias e secas na minha garganta quando vi o Audi da estrada na notícia. Tinha estourado um pneu e capotado. Nenhum sobrevivente. 

Devo ter ficado muito pálida, porque minha mãe pegou meu pulso e ficou avaliando minha pulsação. Quando terminou, se levantou da nossa mesa. "Espera um minutinho, querida. Vou pegar uma caixa e você vai poder ir para casa descansar."

Pela primeira vez, não discuti. 

***

Quando você tem uma doença genética que faz você ir para o hospital toda faz que tem dor de barriga, você acaba conhecendo a galera. Técnicos de enfermagem, paramédicos, bombeiros, até uns policiais. Então, quando não consegui encontrar nada na internet além de algumas coisas da Marvel e de alguns lugares no mundo que pintam suas ambulâncias, fui procurar Nóia.

Bem, Nóia não se chama realmente Nóia. Seu nome é Harlan G.Gate Jr. Devido a seu antigo "hobby" antes de virar um paramédico, tinha esse apelido. Vou deixar que você decida porque começou a ser chamado assim. De qualquer forma, Nóia já me buscou e verificou meu sinais vezes o suficiente para sermos basicamente casados. Ele é um cara legal, me convidou para seu casamento. Até sua esposa já ligou para ver como eu estava e conversar. Então liguei para ele. Só para saber se ele sabia o que estava acontecendo. 

"Nãã..." foi a primeira coisa que disse. "Faço nem ideia do que você tá falando." 

Coloquei meu travesseiro por cima do rosto. "Não fode, Nóia." 

"Parece que você deu uma desmaiada e teve um sonho bizarro."

"Olha, é uma ambulância. Totalmente preta. Corre com as luzes acesas, janelas com películas, mas sem fazer barulho. Nem barulho de motor. Tipo esses carros fodas." 

Nóia riu. Rosnei como um gatinho brabo, e ele falou, "Um carro foda. Sério."

"Só pergunte por aí, cuzão."  

"Tá, tá - olha, estamos recebendo um chamado. Nos falamos."

"Boa sorte," falei e ouvi ele colocando o celular no bolso enquanto a ligação era desligada.

 Me sentei e parei por um tempo quando senti um queimar no meu peito. A síndrome de Ehlers-Danlos é uma merda, especialmente quando fica querendo atacar seu coração. Depois de um minuto, desmaiei. Algum dia desses, isso vai me matar. Mas por agora, o que eu queria mesmo era um biscoitos que minha mãe estava assando. 

No momento em que me viu, me conduziu para o andar de cima e de volta para a cama. "Você parece estar meio pálida, mocinha-" 

"Eu tenho quase trinta anos!"

"-então você vai ficar bem sentadinha aí. Boa menina." 

Só depois de colocar a coberta em cima de mim e me dar um beijinho na testa como uma criancinha, foi que me deu alguns biscoitos e uma bebida. Olhei pelo meu quarto, para a belíssima cama ajustável, a porta larga e os posters de diversas cidades que eu nunca visitaria. Na maior parte do tempo, fazia eu me sentir melhor. Hoje, só queria me afundar e ver TV. 

Morte inevitável. Você nunca sabe quando ela vai te pegar. 

***

Algumas noites depois, acordei com as chamas do inferno queimando por dentro da minha barriga. Peguei meu telefone e liguei para minha mãe. Ela pode estar do outro lado do corredor, mas ela consegue (e já conseguiu mesmo) dormir durante um tornado. 

"...que?" falou depois de 27 toques, e mandou meu pai ficar quieto. 

"Liguei pra emergência, mamãe."

Suas cobertas se remexeram e ela se sentou. "Já estou ligando, meu bem."

Fiquei deitada esperando. O calor em minha barriga subia agora para meu peito. Fechando os olhos, implorei para o universo que isso fosse apenas uma pedra no rim. Apendicite. Pedra na vesícula. Qualquer coisa que não fosse aquilo. 

A ambulância chegou e um cataclismo de luzes e sirenes. Nóia correu com os cara no meu quarto. Um olhar, e inclinou a cabeça para o microfone preso em sua camiseta. "Mulher, vinte e nove anos, Ehlers-Danlos tipo vascular, possível dissecção aórtica. Estamos levando-a para o Saint Michael o mais rápido possível." 

Ele segurou minha mão por um instante, enquanto me prendiam na maca. Alguns minutos depois, eu estava dentro da ambulância, olhando para o teto enquanto os caras me avaliavam. 

"Você vai ficar bem," Nóia disse enquanto voávamos entre o tráfego. Ele estava parado, com a mão em cima da minha. Entretanto, seus olhos, escuros e gentis, pareciam um muro. 

As sirenes pareciam estar a quilômetros de distância. Fechei meus olhos e deixei o balanço do veículo acalmar meu medo. Eu não queria morrer. Eu queria ir para as cidades nos meus posters: Londres, Reykjavík, Edimburgo, Machu Picchu, Honolulu, Seul, o mundo todo.

"Eu não quero morrer," falei, e Nóia fez carinho em minha mão. 

"Eu sei, querida." 

Levantei a cabeça, mas uma onda de tontura não deixou eu olhar em volta. Foi só quando chegamos no hospital que comecei a me sentir bem de novo. Apendicite. Pedra na vesícula. Talvez o jantar estivesse azedo e eu só precisava vomitar. Levantei a cabeça e vi um flash de luz vindo pelo vidro com película e-

Luzes. Nenhuma sirene perto do hospital. Segurei a mão de Nóia e fiz sinal com a cabeça para a ambulância preta atrás da nossa. 

"Nóia-"

"Shhh," falou, olhando a coisa. Apertei sua mão o mais forte que consegui. 

"Você acha que as pessoas sabem quando vão morrer?"

Nóia balançou a cabeça, seus olhos brilhando mais do que deveriam, e suspirou. "Espero que não, Stace. Meu Deus, espero que não." 

17 comentários :

  1. Nuss. Que história maneira. Adoro esse tipo de final

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    1. As ambulâncias pretas, são um sinal de morte, provavelmente a ambulâncias que vai te levar dessa vida.

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  3. Queria um livro com uma história assim..
    Amei :')

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  4. Só eu achei q ela tinha 13 anos?
    MT boa. Daria um bom filme

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  5. Respostas
    1. Vamos chamar essa ambulância de "socorrista de almas". Quando a pessoa vai morrer, ela vai atrás. Pessoas mais sensíveis, como a Stacy, podem ver.Aí. ..Fim da linha!

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  6. tão triste que chega a ser brutal

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  7. Eu acredito que as pessoas saibam sim quando estão prestes a morrer :/ trágico (agr vou ficar com medo de ambulância preta dnsndb)

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  8. Como sempre a Divina postando Creepypastas divinas 10/10 achei ótima!

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  9. Que triste mano, ela vai morrer :/

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