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Eu implorei para minha mulher não dar à luz em casa

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Em implorei para minha esposa não fazer seu parto em casa. 

Ela insistia em ter uma parteira. Queria ter o bebê na água. Mais natural e mais relaxante para a criança, disse. 

"O bebê não vai se afogar quando sair na água?" 

Minha esposa riu da minha casa e me contou que recém nascidos tem o instinto natural de segurar a respiração. 

"Tá, mas e se o nosso não tiver?" 

Ela só sacudiu a cabeça e me disse que já tinha pensado muito bem naquilo e essa era a sua decisão. Eu não queria estressá-la por estar grávida. Já tínhamos passado por dois abortos espontâneos e eu sabia que se acontecesse de novo, ela não aguentaria. Então só concordei com o que ela queria. 

Quando o grande dia chegou, minha esposa estava nua dentro da piscina de plástico. Aquela coisa custou mais de 900 reais, mas valia a pena se a deixasse feliz. 

A parteira tinha uma aparência um tanto quanto... notável. Seu cabelo era preto petróleo, feito em duas tranças ao lado da cabeça que iam até seus joelhos. Sua pele era bastante bronzeada. Seus olhos amendoados com cílios grossos seriam lindos se não fosse o fato de suas pupilas serem anormalmente grandes. Como se estivessem permanentemente dilatadas. 

Ela também usava um batom roxo escuro e longas unhas vermelhas, pontudas e afiadas, como garras. Não consigo dizer se eram realmente dela ou se eram unhas falsas. Me lembro de achar estranho que uma parteira tivesse unhas daquele jeito. Fiquei vagamente preocupado dela acabar cortando acidentalmente o bebê ou... você sabe, aquela... parte da minha esposa.

Meu trabalho toma muito do meu tempo, então fico envergonhado de dizer que a primeira vez que conheci a parteira foi no dia em que minha filha nasceu. Mas era claro que ela e minha esposa tinham se tornado bastante amigas. Na verdade, me senti um pouco de fora o tempo todo. Elas pareciam se comunicar entre si apenas por olhares, gestos mínimos e sorrisos. Entretanto, fiquei feliz de ver que minha mulher estava confortável. Isso era tudo que importava, de verdade. 

O parto em si foi agradavelmente sem problemas. Minha mulher teve que fazer força apenas três vezes antes da minha filha sair. Eu estava esperando muitos gritos, choros e palavrões, como se vê na TV. Mas minha esposa apenas se agachou, franziu o cenho,  algumas respirações curtas e rápidas e fim. 

Apesar das minhas preocupações, foi fascinante de assistir. Depois da parteira tirar meu bebê da água tingida de cor-de-vinho, beijei a testa de minha esposa e silenciosamente a agradeci pelo milagre que acabara de conceber. 

Finalmente, depois da parteira limpar o bebê com um pano e enrolá-la, minha menininha estava em meus braços. Eu sei que todo pai acha que sua prole é perfeita, e nesse caso não foi diferente. Ela era perfeita. Pura.

Eu quase nem notei quando a parteira desapareceu na cozinha e voltou com um copo de vidro vazio. 

Quando voltou, ela enfiou o copo na piscina em que minha mulher ainda estava dentro e encheu pela metade com água, sangue, placenta e provavelmente um pouco de excremento. 

A mulher olhou para mim, olhos brilhando, e perguntou em uma voz baixa se eu gostaria de participar. Perguntei sobre participar do que, e ela mandou eu beber. Foi aí que perguntei para aquela mulher com todas as letras se ela tinha ficado louca. 

Minha mulher sorriu e calmamente me disse que é perfeitamente normal consumir o pós-parto, que em algumas culturas isso é quase que obrigatório. Os olhos da parteira piscaram e ela entregou o copo para minha esposa. Nisso, ela acabou com a bebida nojenta em alguns goles.

Eu podia sentir o meu almoço subindo para minha garganta, então desviei o olhar. Fiquei olhando para minha filha. Era tão linda que eu quase nem notei a parteira murmurando em tom baixo. Quando olhei para cima, eu a vi acariciando o cabelo da minha mulher e sussurrando em algo que parecia... alemão, talvez? Talvez grego? Não tenho como ter certeza, mas fiquei bem aliviado quando a mulher pegou suas coisas e foi embora.

Depois disso, eram apenas nós três. Os dias seguintes do parto foram um tanto difíceis para minha esposa. Eu já tinha ouvido falar de enjoo na gravidez, mas não vomito pós-gravidez. Fiz piada com ela, dizendo que talvez não tinha sido uma boa ideia beber seu próprio sangue e água de parto. 

Bem, quando falei isso, ela me deu um olhar que jamais esquecerei... fez meu coração parar de bater por alguns segundos e me arrepiei todo. Eu já tinha recebido um ou dez olhares de desaprovação em nosso relacionamento, mas entenda. Aquele olhar era quase inumano. Podia jurar que seus suaves olhos verdes tinham se transformados em preto por um momento.

Minha esposa começou a se comportar estranhamente depois disso. Nada muito bizarro no começo, mas estava esquecendo de algumas coisas. 

Por exemplo, ia andando para a cozinha e parecia não saber para onde estava indo. Um dia, deixou a torneira da banheira ligada e quase inundou toda a casa. Ela sempre foi uma pessoa atenta e alerta, até na gravidez, então fiquei meio preocupado. Mas tinha ouvido minha irmã comentar sobre ter passado um período chamado " mom brain¹ " quando teve meu sobrinho e sobrinha. Achei que era algo do tipo. 

A única coisa que posso dizer sobre a minha esposa é que ela era uma mãe muito atenciosa. Antes da minha filha pensar em começar a chorar, ela já ia andando até o quarto, seja com o peito para fora ou com uma fralda na mão. Nunca ambos. Parecia sentir o que a bebê precisava. 

Ainda assim, eu acreditava que algo estava errado. Depois de uma noite em particular, estava certo que era muito mais do que um sintoma do puerpério.

Alguma vez você já acordou no meio da noite com a sensação de que alguém estava te observando? É uma sensação perturbadora. Eu sei que isso acontece com as pessoas enquanto estão acordadas, mas quando isso te tira da inconsciência é algo totalmente diferente.  Você começa a se sentir gelado e com o pressentimento de que não está mais seguro em sua cama. 

Era por volta das três da manhã, acho, quando abri os olhos. Eu estava na cama, mas minha mulher estava de pé, olhando para mim. Sei que era por causa do angulo, mas parecia ter quatro metro de altura. Levou uns minutos para meus olhos se ajustarem e vi que segurava uma chaleira. Mesmo na escuridão, consegui ver o vapor saindo do bico. 

"O que você está fazendo, querida?" Perguntei. Minha voz transmitia confiança e calma, mas estava me segurando muito para não me mijar todo. 

Ela inclinou a cabeça para o lado, mas sua expressão não mudou. "Eu fervi água," disse. "Quer chá?"

Tenho certeza que ela podia ouvir meu coração batendo. Falei "não" mais alto do que eu pretendia.

Ela riu e sacudiu a cabeça. Mas não era a sua risada. Seu riso era leve, doce e airado. Essa risada era profunda. Cavalar. Tinha uma dureza nela. Como uma mulher velha que fumava desde a adolescência. 

Foi aí que ela colocou a mão no bolso e puxou um saquinho de chá. Colocou-o na boca. Antes de eu conseguir pará-la, ela levantou a chaleira e começou a derramar a água fervente em sua garganta. 

Eu gritei de um lugar profundo de minha alma. Pulei para fora da cama, arrancando a chaleira de sua mão, fazendo queimaduras feias nos braços e peito no processo. 

Merda merda merda. Não sei se falei isso alto ou só na minha cabeça. No escuro, procurei pelo telefone. Tudo que eu conseguia pensar é que precisava chamar uma ambulância. Tinha certeza que ela havia derretido todo seus sistema respiratório.

Foi aí que minha esposa saiu da cama e ligou a luz. Eu não olhei para ela. Não conseguia. Esperava ver seu rosto derretido pela metade. Minhas mãos tremiam pela dor e medo, enquanto sofria para digitar 1-9-0 no telefone fixo. 

"Querido," falou. "Está tudo bem. Olhe para mim. Eu estou bem." 

Sua voz parecia normal. Puxei o ar e olhei para onde ela estava. 

Seu rosto estava molhado e pingando - assim como o resto de seu corpo, resultado da nossa luta pela posse da chaleira. 

Mas além disso parecia... bem. Normal.

Olhei para o outro lado do quarto, onde estava a chaleira no chão de madeira. Eu caminhei até lá, toquei, olhei e, mesmo que a maior parte da água tivesse sido derramada, ainda havia um pouco de vapor emanando do bico. Ainda estava quente.

Olhei para as minhas mãos. Pareciam cruas e bolhas estavam começando a se formar onde a água tinha me queimado. 

Minha esposa calmamente pegou a chaleira e desceu as escadas. Quando voltou, tinha trazido várias toalhas, um esfregão e um kit de primeiro socorros. Quando o dia amanheceu, tudo estava seco, minha mão já estava com curativos, e era como se nada tivesse acontecido. 

Incrivelmente, minha filha não acordou durante todo o incidente. 

Eu devia ter ido embora naquela noite. Ou no dia seguinte. Mas eu só esperava que as coisas voltassem ao normal. Amava minha esposa e achei que superaríamos aquilo. Era só uma bizarrice passageira pós-parto. Melhoraria em alguns meses.

Obviamente, eu estava errado. Nunca estive mais errado na vida. Mas não posso voltar atrás e mudar as coisas. 

Cerca de uma semana ou um pouco mais do incidente com a chaleira, minha esposa tinha acordado antes das quatro da manhã para dar de mamar para nossa filha. Normalmente eu continuaria deitado, mas essa vez, depois de alguns minutos, decidi ir até o quarto da bebê. 

As cortinas estavam abertas e a luz das estrelas dava ao quarto uma aparência sonhadora. 

Depois de alimentá-la, minha esposa arrumou sua camisola e ficou sorrindo para nossa nenê. De onde eu estava, também fiquei sorrindo feito um bobo. Minha esposa ainda não tinha notado que eu estava na porta. Estava olhando fixamente para nossa filha. Não falei nada, porque sabia que aquele era um momento só delas. Não queria interromper. 

Minha esposa levantou minha filha para pressionar seu rosto no rosto dela, bochecha com bochecha. 

Tão lindas, pensei. Nunca tinha visto nada tão perfeito.

Foi então que minha esposa - minha amada, meu anjo, a mulher com quem escolhera passar minha vida, a pessoa com quem eu tinha criado uma vida - inclinou a cabeça levemente, expôs seus dentes, e cravou-os no rosto do bebê. 

Ainda ouço os gritos de minha filha quando fecho os olhos para dormir. Alguns sons ficam para sempre com você, permanentemente invadindo seus pensamentos, preenchendo os cantos silenciosos da sua mente. 

E ela não simplesmente mordeu. Segurou com os dentes e sacudiu, como um cachorro com raiva. Sua boca espumava e seus olhos azuis reviraram na órbita de um jeito que só a parte branca dos olhos ficavam amostra. 

Eu apaguei, acho. Meu corpo agiu, mas minha mente saiu de cena.

Só voltei a mim quando vi que segurava minha filha no colo, seu rosto grudento de sangue e lágrimas. Minha mulher estava no chão do quarto, com o pescoço quebrado e com pequeno pedaço da bochecha do nosso anjo entre os dentes.

Originalmente, fui condenado por assassinato de segundo grau. Mas o juiz decidiu mudar para homicídio culposo quando o meu advogado ameaçou mostrar as fotos do rosto de minha filha para todos do júri. 

Após mais algumas negociações, concordamos que não eu não pegaria nenhum ano de prisão. Em vez disso, eu passaria alguns anos em uma instituição onde poderia obter ajuda. No começo, fiquei em uma ala altamente restrita, mas os médicos logo descobriram que eu não era realmente um perigo para ninguém, então eles me mudaram para uma instituição onde tenho muito mais liberdade.

Eu meio que gosto daqui. A única parte ruim é que não posso ver minha filha tanto quanto gostaria. Mas meu terapeuta diz que estou indo muito bem, então espero sair logo. O meu progresso parece ser tão bom que agora estou na Classe A, que basicamente significa que tenho mais privilégios, incluindo acesso à internet por 15 minutos diariamente. 

Ainda assim, não posso deixá-la. O que significa que sinto muita falta da minha menininha. Mal posso esperar para vê-la de novo. Será muito difícil ver aquela cicatriz em seu rosto. Ficará com aquilo pra sempre, provavelmente. 

Mas está viva. Está segura. 

Meu consolo está em uma carta que recebi alguns dias atrás. Bem, achei que era uma carta, mas era apenas um envelope branco com uma foto de minha filha deitada em seu berço.

Lágrimas queimaram meus olhos enquanto eu lembrava da maneira como o berço ficava em seu antigo quarto. Minha esposa e eu passamos meses aperfeiçoando-o - escolhendo o papel de parede azul-celeste, os tapetes de rosa claro, a cadeira de balanço de madeira. O berço simplesmente não parecia o mesmo no quarto de convidados bem planejado da minha irmã. Mas não importava. Era lindo que minha irmã tinha sido tão considerativa de me mandar a foto. 

Foi quando eu olhei para o envelope novamente e percebi que não havia nenhum endereço de retorno. Eu nem sabia que você poderia mandar uma correspondência assim. Talvez minha irmã tivesse usado um desses adesivos com o endereço impresso e caiu de alguma forma. Ou talvez a equipe médica tenha removido ou trocado o envelope. Mas por que fariam isso?

Olhei melhor a foto. Não sei como não tinha notado antes. Segurando uma das barras de madeira branca do berço, vi dedos amorenados com longas unhas vermelhas. 

Acho que devo ter hiperventilado. Talvez desmaiado. Quando acordei, uma enfermeira estava me oferecendo um copo de água e perguntando se me sentia tonto. 

Foi aí que decidi escrever minha história. Isso aqui não é um exercício de história criativa. Também não é um uma confissão de peito aberto para aliviar minha consciência. 

É um aviso. 

Minha esposa está apodrecendo debaixo da terra, mas estarei arruinado se perder minha filha também. Não sei o que você quer. Não sei se você é uma bruxa, um demônio ou o próprio diabo encarnado. 

Mas sei que vou sair daqui em breve. E te garanto que sou bem mais mortal do que qualquer espirito que você possa encontrar. 

Fiquei longe da minha filha, sua desgraçada. 

-
¹ Em tradução literal, cérebro de mãe. Não achei uma tradução apropriada para o termo, mas é um expressão usada para sintômias de confusão mental e cansaço excessivo no pós-parto.

FONTE

18 comentários :

  1. Pera, os olhos eram verdes e depois ficaram azuis?

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  2. Sabia que a enfermeira tinha algo a ver...

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  3. Bela Gil curtiu a parte de engolir a placenta

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  4. essa merece continuação! O homem contra o monstro, uma creepy de redenção terminada em muuuuuuito sangue! Muito bom Divina!

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  5. 9/10

    Bem escrita, me senti agoniado quando li que a esposa cravou os dentes no bebê, e esse plot twist no final...pqp...

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  6. Mano, q triste. Logo a criança, pq?
    Me doeu o coração.

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  7. Ai não né, odeio violência com bebês, não podem nem se defender ;-;

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  8. Quando se trata de criança, a cena fica muito pesada.

    Boa escrita e história envolvente.

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  9. A parte que a mãe cravou os dentes na bb me lembrou algum episódio de Supernatural... gostei muito!!

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  10. Ótima Creepy Divina. É muito bem escrita também! 10/10

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