18/04/2018

Não posso ir para casa

Bem, estou em um café em Estocolmo. Não está tão tarde, mas já está escuro lá fora, e absurdamente frio. Um inferno típico da Suécia. Meu Deus, as pessoas aqui em volta estão me encarando. Devo estar parecendo que vi um fantasma, mas... talvez eu tenha visto. Não posso ir pra casa agora, não sei o que fazer. 

Começou na faculdade (estou fazendo Design gráfico). Nós usamos nossos notebook na aula e estávamos fazendo um trabalho onde tínhamos que dar instruções de como chegar da estação central até o Palácio Real de Estocolmo (é uma caminhada de 15 minutos, no máximo). Era para aprender a escrever uma instrução pedagógica, basicamente. De qualquer forma, como meu senso de direção é uma merda, fui direto no Google Maps para ser mais fácil. Fui até a estação central e mudei para a Street View, assim eu faria uma caminhada virtual por lá. Fiquei procurando prédios específicos, placas ou qualquer coisa que podia usar nas minhas instruções. Tudo estava normal até ali. Então eu vi. Um livro. Não era um livro de verdade. Era claramente animado, colocado no chão como uma coisa de realidade aumentada. Quando cliquei nele (é claro que eu cliquei naquela bosta) deu zoom nele. "Myst," dizia a capa. Bem, isso me deixou surpreso de um jeito bom. Eu amava esse jogo quando era criança. Para vocês que são novos demais para conhecê-lo: É um jogo de enigmas antigo onde você caminha por uma ilha deserta enquanto clicando para ir para a frente, como no Google Street View. 

A primeira coisa que pensei foi que era algum tipo de Easter Egg sensacional no Google Maps, então naturalmente cliquei na capa do livro. De repente, eu estava na ilha do jogo. Eu não a via desde que era criança, mas reconheci de imediato. Entretanto, parecia diferente. Não conseguia identificar o que mas... sei lá. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Só consigo descrevê-la como uma nostalgia sombria, como entrar em um lugar esquecido do seu passado que não havia mudado. Tipo se estivesse esperando pelo seu retorno. 

Cliquei para andar um pouco por lá. Não tinha som, mas o jogo original também não tinha, de qualquer forma. De repente, meu professor queria nossa atenção, então fechei o notebook e fingi que ouvia o que ele tinha a dizer. Na verdade, eu só queria continuar explorando aquela ilha animada pobremente em 3D. Quando sai da aula, já estava escuro lá fora. Fui ligeiro para casa, tanto curioso quanto ansioso. 

Em casa, abri meu notebook quase que imediatamente. Eu ainda estava na Ilha Myst no Google Maps, parado nas docas, olhando para uma estranha construção que parecia enormes engrenagens. A ilha tinha muitas dessas construções misteriosas. Aumentei o volume e foi aí que noite algo muito estranho sobre o jogo. Veja bem, no jogo original, você só ouve barulho da água, vento e alguns pássaros. Acho que as vezes também tinha umas musiquinhas. Ma agora... Meu Deus, fiquei até arrepiado! 

O que ouvi nas caixinhas de som foi um choro baixo. Não era o choro de um bebê, mas definitivamente era uma criança. Me sentindo um pouco mal, continuei a clicar pela ilha. Notei que o choro ficava mais baixo quando eu ia em direção as engrenagem, então me virei e cliquei em direção da biblioteca (um prédio que parece um pequeno templo Romano ou algo do tipo). 

Quanto mais próximo eu chegava da biblioteca, mais alto ficava o choro. Mesmo sendo arrepiante, não achei ser algo muito pior do que um vírus Russo ou algo do tipo, então continuei. Logo, cheguei na biblioteca e o choro parou imediatamente. Havia um livro no chão que não deveria estar lá (entretanto, o jogo usava livros como portais para outros mundos). O livro era preto. O estranho é que, mesmo que eu soubesse que o livro não pertencia ao jogo, mesmo assim eu meio que o reconhecia de algum lugar distante na minha memória.  Uma lembrança que tinha um vago porém forte gosto amargo de tristeza.

Cliquei no livro e vi o título. "Fblurbg," dizia em letras douradas contrastantes com o preto. Não entendi aquela palavra e me deixou em um estranho estado primitivo de pânico. Comecei a suar enquanto meu coração batia pesadamente em meu peito. Eu não podia entrar naquele livro, ou melhor, não me atrevia. Ao invés disso, cliquei no canto da tela para dar um passo para trás. Depois, me virei para ficar de frente para a porta da biblioteca. E lá estava, a fonte do som. Eu não estava preparado para o que vi, e me levantei da cadeira colocando as duas mãos na boca. Na tela, na frente da porta da biblioteca, estava um menininho. Mas não foi por ter aparecido de repente que me assustei, mas por sua aparência. Eu conhecia seu rosto. De algum jeito tinha me esquecido, mas agora tudo vinha à tona. Comecei a chorar. Fazia tanto tempo... Como era possível?! A criança na minha frente... Era meu amigo! Aquele com quem eu jogava Myst a muitos anos atrás. O menino que desapareceu no verão de 1994 e que nunca foi encontrado. Então me lembrei de tudo. Eu já tivera um melhor amigo. Seu nome era Peter. Mas desapareceu. Como podia ter esquecido daquilo?

Com as mãos tremendo, segurando a respiração, cliquei no menino. Mas na próxima tela, ele estava mais distante, de costas para mim. Cliquei de novo. Mesma coisa. Era como se estivesse andando para longe de mim. Continuei clicando. Peter, ou seja lá quem fosse mesmo, andou até as docas onde eu tinha iniciado no jogo. 

Quando cheguei lá, ele tinha sumido. Mas havia outro livro no chão. "Casa" estava escrito na capa. Cliquei e imediatamente voltei para o lugar na ponte onde tinha encontrado o primeiro livro. Olhei em volta e encontrei o menino. Continuei a segui-lo. Ele estava em todos os quadros do Street View nas direções da estação central. Eu continuei seguindo, aterrorizado. Eu chorava violentamente agora, mas também sentia outra coisa no fundo do meu ser que não podia explicar; culpa. 

Segui o menino pela cidade pelo que pareceu ser uma hora, e então percebi. Eu sabia para onde ele estava indo. Ele estava apenas a uma quadra do meu apartamento. Entrei em pânico como nunca tinha ficado antes! Fechei o PC e joguei-o no chão (sim, estou escrevendo pelo celular agora), depois me vesti e corri. Corri como um louco, tá? E agora estou aqui, nesse café onde estou escondido de meu amigo... que desapareceu quando eu era uma criança. Me ajudem, por favor, não posso ir para casa. Não tenho nenhum amigo próximo para ligar. Pensando agora, percebo que nunca tive nenhum amigo próximo desde criança... Desde que meu amigo desapareceu sem deixar vestígios. Como pude esquecê-lo?

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!  

FONTE


14 comentários:

  1. Não tenho certeza se entendi direito... O amigo estava seguindo ele pelo fato dele ter se esquecido? É isso?

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    1. Deu a entender que ele tem certa culpa do pq o amigo dele estar lá

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    2. Acho que ele o matou. Parece, pelo menos, pelo final.

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    3. ele se esqueceu do seu amigo desaparecido e esse começou a persegui-lo
      foi o q entendi

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  2. Nem quero imaginar o que houve na hora do encontro...

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  3. Ótima,parece que o amigo se sentiu abandonado.

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  4. Muito boa! Passa uma sensação de creepypasta antiga. A estranheza de uma situação inicialmente inocente, uma ameaça se aproximando, o pedido de ajuda. Talvez pela vítima ser uma criança me lembrou de Orquestra Cigana, uma creepypasta publicada por aqui em 2013.
    Mudando de assunto, mas na esperança de que algum administrador leia: recentemente traduzi duas creepypastas pra postar num grupo fechado. São creepypastas que considerei bem interessantes e, caso tenham interesse nelas, ficaria muito feliz em mandar! Enviei a primeira no e-mail de vocês já tem uns meses, e a segunda é In Between The Dry-Heaves.

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  5. Única coisa que me incomoda e que ele falou que o jogo original não tinha som, mas no próximo parágrafo falou que tinha .-.
    Sem querer ser chato, a Creepypasta é boa, só isso realmente me incomodou TwT

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  6. A creepy cria uma expectativa pra no final nos deixar sem respostas, também gosto de mistérios, mas achei esse bem chatinho...

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Ótima Creepy, cria uma sensação de angústia enquanto você está lendo, me senti na história, muito bem traduzida, a Creepy está como a tradutora, divina!

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  9. Eu gostei! Dá uma tensão grande lendo. Assim que é bom!

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