06/04/2018

Vox e Rei Beau: Você Não é Caçadora (PARTE 14)


Como maior parte das crianças que tem amigos imaginários, Beau levava a culpa por probleminhas que aconteciam na casa. Alguém roubou cookies da tigela? Beau. Alguém deixou a porta aberta? Beau. As vezes aconteciam coisas estranhas que não podiam ser explicadas por uma criança de seis anos, como objetos sumindo e barulhos desconhecidos durante a noite. A piada era que tudo isso era sempre culpa de Beau. Só eu sabia que era ele que realmente estava por trás da maioria dessas coisas. Beau não tinha interesse em ser notado por ninguém, mas agia bem como queria na casa. Mesmo que colocassem a culpa em mim.

Eu amava meu tio. Ele era o parente "legal" e sempre me levava para tomar sorvete e conversava comigo como se eu fosse uma pessoa, não um bichinho. Isso é algo muito importante para as crianças. Até contei para ele sobre Beau, o que levou bastante a sério e até perguntou a opinião de Beau em pequenas coisas sem dar a entender que Beau estava no mesmo recinto que nós, só que invisível (ele nunca estava "invisível" para adultos e "visivel" para mim, e odiava quando davam a entender isso). Tio Joe era provavelmente o outro único ser humano que Beau não achava ser desprezível.

Era o irmão mais novo de minha mãe, e Tio Joe teve várias e várias namoradas. Na verdade, meninas, ele ainda está solteiro até hoje, então, já sabem. De qualquer forma, a maioria delas eram ignoradas por mim e me ignoravam de volta. As vezes eram especialmente legais, mas não me apegava muito. Uma, entretanto, se destaca detre tantas. Seu nome era Amber. Tinha cabelos longos e castanhos, com dentes perfeitos. Naquele verão, minha mãe precisou viajar para o trabalho ou sei lá o que, e Joe se ofereceu para cuidar de meu irmão e de mim, na casa de praia dos nossos avós. E é claro, Amber foi conosco. Ela amou e estava adorando brincar de casinha, me chamando de adorável e querendo brincar o tempo todo comigo. 

Eu realmente não gostava dela. Era uma reação instintiva. Algo nela era estranho, e eu me tornava incrivelmente tímida, algo que era bem fora do normal para mim. Um dia, deve ter me ouvido brincando e depois, na hora do jantar, perguntou quem era Beau. Menti e falei que era um dos meus ursinhos e Joe nunca me corrigiu. Sempre achei que foi uma boa reação de sua parte. 

Beau não se impressionava com Amber. Contei para ele o quão desconfortável ela me deixava, e ele começou a fazer uma lista de coisas que podia ser. Vários seres, me disse, disfarçados de humanos. Alguns nem precisavam fingir. Os olhos humanos, falou, preenchiam lacunas e mentiras, tornando essas criaturas em seja lá o que queríamos ver. Disse que, se eu me sentia desconfortável, devia haver um motivo. Minha voz era importante demais para deixar ser cuidada por cegos olhos humanos e a sorte. Tínhamos que cuidar daquilo com nossas próprias mãos.  

Creio que vocês já podem adivinhar que isso era uma péssima ideia. Não vou incomodá-los com detalhes pois são honestamente bem idiotas e vergonhosos para mim. Fiz várias coisas tipo passar um dia todo sem olhar para ela ou olhar somente com os olhos semicerrados para ver se sua forma mudaria. Inventei um jogo onde eu "fingia" que ela era um monstro e corria pela casa gritando "Amber é um monstro! Corram!". Tenho que dar crédito à mulher. Ela aguentou muito mais do que várias aguentariam, e lá pelo terceiro dia na casa, sua paciência começou a diminuir. Temendo uma punição pior do que O Rei do Lugar Quieto podia relevar e, pior ainda, ver o olhar de frustração e vergonha no rosto de meu tio fez com que eu desistisse desses jogos. Cheguei a conclusão que, se Amber realmente fosse um monstro que iria me machucar, eu teria que esperar e pensar algo no dado momento.

Entretanto, tenho certeza que Beau não era de desistir tão fácil assim. 

Me lembro de ouvi-la gritar do quarto onde ela e Joe estavam ficando. Algo sobre seu colar ter sumido e que tinha certeza que eu que tinha pego. Eu a odiava, falou. Tinha pego ódio dela. Eu era uma criancinha bizarra com a porra de um amigo imaginário fodido da cabeça. Era bem coisa minha fazer algo do tipo. Joe falou que aquela acusação era ridícula, mas algum tempo depois me levou até a praia e perguntou se eu estava com o colar de Amber. Era realmente importante para ela e não estava encontrando-o. Falei verdadeiramente que não estava comigo. Então me perguntou se Beau tinha feito algo com a joia. Foi aí que percebi que Joe não acreditava de verdade em Beau. Só estava rindo pelas minha costas, como todo mundo. 

Não vou importuná-los com os detalhes melodramáticos porque percebi que estou enrolando, mas mais tarde naquela noite, depois de um jantar tenso e extremamente silencioso, meu irmão me levou até a praia para que Amber e Joe conversassem a sós. Disse que eu estava arruinando tudo com meu amigo idiota de mentira. Falou que Joe merecia ser feliz e não que tudo desse errado, que nem acontecera com mamãe e papai. Eu concordava com ele, na verdade. Era meu irmão mais velho, e eu me espelhava nele e o amava mais do que qualquer coisa no mundo. Muito mais do que o Rei do Lugar Quieto.  

Então eu e Beau brigamos feio. Eu o acusei de pegar o colar e arruinar com tudo. Ele falou que os caçadores de verdade pegavam o que queriam. A memória do que acontecera com Fuzzy ainda estava fresca na minha mente, e falei que nada ali pertencia a ele e que devia ir embora. Eu não queria vê-lo de novo. Não queria vê-lo pelo resto das férias na praia. Quando voltamos, passei maioria das noites chorando e me sentindo solitária, mesmo tentando esconder. Parecia idiota ter "rompido" com meu amigo imaginário por causa de um colar, mas é claro que era mais que isso. Além do mais, eu tinha dito para mim mesma que era o momento de crescer. Meninas grandes não tinham amigos invisíveis. Era tudo de mentira, então não tinha motivos para ficar triste. Acabei esquecendo maior parte das histórias e gastando minha energia em coisas mais importantes.

Isso, acho, nos trás de volta ao meu eu presente, no corredor, com o demônio invisível na minha frente. 

O misto de emoções me abalou mais do que a memória em especifico. Me sentia envergonhada, encabulada e triste por e ele e minha versão pequena. Seja lá o que Beau era, seja lá o que Beau não era, percebi então e ainda acredito que preciso aceitar. É uma parte de mim que tem um grande significado.

Perguntei, "Você está tentando me proteger de algo?" 

"Não você", cuspiu. "Sua voz me pertence. Não vou deixar que você a estrague. Não há mais tempo." 

"Olha", comecei, percebendo que estaria ferrada se não desse um jeito. "Por que você só não pegou minha voz quando me conheceu, pra começo de conversa?"

Ele fechou os olhos e se alongou. Meu pobre amigo invisível parecia cansado. Assustador, sobrenatural, aterrorizante, porém cansado. 

"Você me encarou sem medo. Me perguntou porque eu estava triste. Eu vi uma parte de mim." 

"Então deixou que eu ficasse com minha voz porque mesmo assim continuava com você?"

Ele não falou nada, mas levei seu silêncio como um sim. A quietude estava fazendo pressão em mim e minha náusea estava voltando com sede de vingança. Tentar racionalizar tudo isso fazia minha dor de cabeça pulsar, mas sabia que era importante. Fechei meus olhos e tentei pensar. Eu também devia parecer cansada. 

"Tá bom, então... Então porque não pegou-a quando foi embora?" 

Ele chiou em frustração e bateu os dentes. Apertei o saleiro e fechei meus olhos ainda mais apertados. Se isso não funcionasse, achei que poderia fazê-lo ir embora com minha imaginação. 

"Talvez você não tenha ido embora?" Continuei. "Talvez você estivesse esperando apenas algo de ruim acontecer. E algora algo ruim aconteceu."

"Chega!" Seu rugido me fez temer que meus vizinhos viriam reclamar dos barulhos, mas eu ainda não tinha aberto os olhos. O mundo estava girando um pouquinho. 

"Só espere um pouco, tá? Então algo de ruim está acontecendo! Você disse que eu era como você. Isso significa que precisa confiar em mim. Não posso encarar isso." 

"Você não é caçadora!" Chiou. "Tentei te ensinar e você falhou." 

"Eu sei," falei. Estava tentando manter minha voz calma e constante. "Mas acho que isso não é um monstro, Beau. Não acho que você pode me salvar disso. É por isso que está preocupado. Só porque você não pode lidar com isso, não quer dizer que eu não possa. Então não desista de mim, tá bom? Por favor, confie em mim. Que nem confiou na Lua, tá? Você teve que a deixar partir, não é?" 

Esperei uma resposta, mas não houve nenhuma. Vagarosamente, abri meus olhos para ver que as sombras tinham se dissipado. A luz do sol estava banhando os cômodos, vindo das janelas do meu quarto e da sala. Não sei por quanto tempo eu tinha ficado lá de pé. Não sei se isso significa que Beau concorda comigo, me entende ou que minha mente simplesmente desistiu por um tempo. Mas me sinto mais calma. Me sinto melhor sabendo que encarei isso. 

De qualquer forma, sei que isso parece ser totalmente idiota, sou muito melodramática ou estou me sentindo culpada. Só não consigo parar de sentir que, no seu próprio jeito, a escuridão se importa comigo. Mesmo assim, falta só um dia entre eu e a Quarta-feira. 


CONTINUA...


8 comentários:

  1. Eu amo essa série *-*
    Divina, obrigado por continuar a publicação. Por favor mande um abraço pra L.A.!

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  2. CHEGUEI A TEMPO! Eu tinha um bug com o beau, porque ele é um monstro, depois amei ele porque ele foi fofo, mas aí me toquei que ele pode ser mau, então, ele é legal, mas n sei :v Mas de qualquer modo, EU QUERO MAIS, PORQUE EU QUERO VER O QUE A MACONHVOX VAI FAZER NO FINAL <3 SELO TOPERSON DE ESCURIDÃO

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  3. Beau <333



    Sou apaixonada pelo Soberano Rei do Lugar Quieto...

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  4. Achei curta. Mas boa, como todas do Beau. Amo essa série. 😍

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  5. Pessoal, venham ver este blog: http:///1oLPGr

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  6. Estou apaixonada pela série. Não ter certeza sobre o Beau me fascina; se ele é uma ameaça ou não. Ansiosa pelas outras partes s2

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