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Casamento de Conto de Fadas

27 comentários

Minha irmã e eu... somos pessoas muito diferentes. 

Eu tenho o que pode se chamar de "proporções giráficas", desengonçada, alta. Amy tinha altura normal com corpo de ampulheta. Eu era socialmente reclusa, ela era popular. Eu me declarei assexual com quinze ano e durante a adolescência fazia questão de me dizer que eu era uma esquisitona e que nunca seria amada.

Então, três anos atrás, ela me liga do nada e me convida para seu casamento. 

Eu havia me mudado para o outro lado do país, vivia decentemente trabalhando como fotografa freelancer e acabara de me desprender de minhas inseguranças quando recebi a ligação. Ela estava se relacionando com o mesmo namorado desde o colegial, desatavam e reatavam de vez em quando desde a formatura, e finalmente ele teve bolas para fazer o tão sonhado pedido. Depois de se desculpar pelos anos que nosso contato ficou morto, desde que eu parti para a Califórnia, se ofereceu para comprar minha passagem de volta para casa e até pagar minha estadia no hotel. 

Resolvi fazer as pazes e perguntei a data. 

Claro, não fiquei surpresa quando seus motivos óbvios deram as caras. Sabia que eu era fotógrafa e sabia que eu não diria não quando pedisse para fotografar o casamento. Fez olhos de cachorrinho e me lembrou que tinha pago para eu estar ali. Então falei que sim. Recuperaria meu dinheiro quando colocasse as fotos no site, pelo menos esperava que sim. 

Amy teria um casamento na temática conto de fadas. Conseguiu encontrar uma clareira no meio de uma floresta que ficava na nossa cidade natal que era absolutamente de tirar o folego. Até eu tinha de admitir - os céus permaneceram de um azul celeste e o tempo estava agradável, era perfeito para o seu casamento dos sonhos. 

Acho que foi aí que começou. Amy estava falando sem parar de como a grama estava de um verde exuberante quando pisou em um cogumelo. 

Gemeu algo sobre o quão nojento era e foi para outro local tirar fotos. O cogumelo fazia parte um círculo, um fenômeno da natureza que eu já tinha visto pessoalmente. 

"O que você está fazendo?" Perguntou, me olhando como se uma segunda cabeça tivesse nascido no meu pescoço. 

Dei de ombros. "Círculo de fadas. É como chamam. Perfeito para um casamento de conto de fadas, hein?" Meu deboche sobre seu nojo provavelmente estava evidente demais.

"Bem, vamos ter que arrancá-los!" Amy pegou seu celular e se afastou do círculo. "Não vou deixar cogumelos espalhados por aqui, vai matar a grama e deixar tudo marrom! Vou ligar para o Dane, você fica e ajuda a arrancar?" 

Um arrepio desceu pela minha coluna imediatamente. Balancei a cabeça e levantei as mãos. "Sem chance. Deixe isso aí, Amy. Vai adicionar todo uma magia a temática, juro." 

"Sem chance! É nojento!" Amy fez careta. "Você não pode só ir embora. Não é como se eu não tivesse pagando para você vir ou algo do tipo!"

Guardei minha câmera e dei o fora. Não queria ter que lidar com mais um ataquezinho de Amy. Além do mais, eu gostava do círculo de fadas. Era uma pena que minha irmã iria destruí-lo só porque iria arruinar sua idealização do que é belo.

No dia seguinte, Amy me 'convidou' para fotografar seu vestido de noiva, uma pequena sessão de fotos antes do casamento. Naturalmente, concordei para não ter que lidar com o surto de negar qualquer coisa.

Amy se emperiquitou toda para a câmera. Fez biquinho, enrolou a franja e, honestamente, era uma das melhores modelos que eu já tivera. Sabia como ficar bonita em fotos. 

Então deu um gritinho em direção de uma das madrinhas, acho que Julie, que estava do seu lado. "Julie, que merda é essa? Por que me beliscou?" Berrou.

Julie levantou as duas mãos. "Eu não te belisquei!" 

"Então quem- ai! Ai!"

Abaixei a cama enquanto assistia minha irmã das tapas em suas pernas e braços, a noiva elegante saíra de cena. Seu penteado e o cabelo caiu todo no rosto, algo que só a deixou mais enfurecida. Não demorou muito para as madrinhas acompanharem-na naquela dancinha ridícula regada a gritinhos, estapeando insetos invisíveis. 

Voltamos todas para o carro enquanto minha irmã fazia beicinho para mim. "Não é justo, você não estava na frente da câmera, porque não se machucou?" Disse. 

Encolhi os ombros. "Sei lá? Eu coloquei repelente hoje."

Julie examinou os braços, franzindo o cenho. "Não parece picada de inseto. Olha." Esticou o braço para que eu pudesse olhar melhor. 

Seus pobres membros estavam cobertos em vergões bem feios, já virando roxos escuros. Fiz careta. "Espero que isso suma antes do casamento." 

"Melhor que suma mesmo, Julie, se não você não vai ficar do meu lado no altar," Amy ameaçou. 

Os olhos da pobre Julie encheram-se de lágrimas e enfiou o rosto nas mãos enquanto começava a soluçar. Rapidamente dei partida no carro para tirá-las o mais rápido possível dali. Levei Julie para tomar uns drinques naquela noite, depois dela tirar o vestido de madrinha e passar gelo nos braços. Na manhã seguinte os vergões haviam se transformado em hematomas multicoloridos entre roxo, azul e verde, mas eu a assegurei que provavelmente já estariam desaparecendo no dia da festa. 

Fui até a casa de Amy tentar convencê-la de trocar o local do casamento, sendo que parecia haver uma infestação de insetos lá, mas ela já estava furiosa com outra coisa. 

"Eu acabei de comprar! São dois litros de leite e está já está estragado!" Jogou o galão de leite na pia e o mesmo explodiu. Pedaços de leite coalhado esparramou-se pelo ralo e um cheiro terrível tomou conta da cozinha. Fiquei visivelmente com ânsia de vômito e cobri o nariz enquanto corria para abrir a janela. 

"Acontece, Amy. Olha só, vamos tomar café da manhã, ok? Você ainda come seus ovos com gema mole?" 

Amy suspirou e se apoiou na bancada, assentindo lentamente com a cabeça. Ela tinha sido a mais picada. Até seu rosto estava com hematomas. "Não consegui dormir ontem a noite, desculpa estar sendo uma megera. Não consegui achar nenhuma posição confortável! Meu corpo todo parece ser um hematoma gigante!"

Assenti enquanto pegava os ovos da geladeira e esquentava a frigideira. "É o nervoso por causa do casamento. Apenas mais alguns dias e tudo ficará bem." 

Que cheiro é pior do que leite estragado? Ovos podres. 

Amy gritou antes de começar a fazer ânsia e vomitou na pia. O ovo estava horrível, mofado em marrom e verde e fedia a morte. Estalou e chiou na frigideira antes da gema se romper e um líquido vermelho derramar-se de dentro. O cheiro do sangue frito foi o que me fez acompanhar Amy na pia. 

"Ovos ruins, leite ruim, o que vem depois?!" Amy começou a chorar e caiu no chão, suas pernas tremulas não conseguindo aguentá-la. 

Joguei os ovos no lixo e pensando melhor joguei a frigideira também - o cheiro apodrecido nunca sumiria. Depois que tudo tinha sido resolvido e depois que todas as janelas foram abertas, sentei com minha irmã no sofá, esfregando-lhe as costas para acalmá-la e falando que ficaria tudo bem. 

Os hematomas das madrinhas sumiram no dia seguinte, mas os de Amy só ficavam piores. Vergões terríveis que inchavam e viraram roxos. Juro que estavam aparecendo novos machucados, mesmo ela jurando que não tinha voltado para a clareira.

Amy ficava cada vez mais desmiolada a cada dia que o casamento se aproximava. Perdeu seu celular, suas chaves, a carteira, perdeu até o colar que tinha alugado para o casamento. Era de prata com pedras de safira, que complementariam lindamente os detalhes em rosa de seu vestido. Não conseguia parar de lamuriar sobre ter deixado o colar em sua penteadeira, mas agora não estava mais lá. No final das contas, eu emprestei um colar simples de pérolas para ela. Algo emprestado, mas nada azul.

(Nota da tradutora: Nas tradições americanas/européias de casamento, a noiva deve carregar consigo algo novo, algo velho, algo emprestado, algo azul. Essa tradição é para dar sorte.)


O dia do casamento chegou e recebi uma mensagem de Julia. 

"Não vá ao casamento."

Liguei para ela imediatamente, caiu direto na caixa de mensagens. Devo ter ligado umas dez vezes antes que a madrinha de honra enfiasse a cabeça para dentro do meu quarto e falasse para eu me apressar e me arrumar logo. 

Não vesti nada espalhafatoso, apenas uma saia rosa e uma blusinha branca com detalhes verdes. Eu estava parecendo uma princesa de primavera, Amy era a rainha. Mas Deus, dava pra perceber o quão exausta estava. Maquiagem escondia alguns roxos mas fiquei aflita quando vi que em suas costas haviam muitas e muitas manchas que variavam entre roxo, preto e azul. Mal podia imaginar o quanto seu corpo doía. 

Mas estava determinada. Quanto mais rápido terminasse com aquela maldita festa de casamento, mais rápido terminaria a desgraça. 

A cerimonia foi linda, tirando as expressões de dor que Amy fazia por entre os sorrisos. Estava sendo picada de novo, pude ver enquanto os vergões começavam a aparecem em seu torso. Tirei fotos dos momentos em que sorria. As boas partes do dia mais especial de sua vida. 

Quando o noivo a beijou, alguém agarrou a parte de trás da minha blusa e me puxou.

Quase gritei, mas a mão tapou minha boca e fui puxada em direção a floresta e para dentro de um carro. 

Quando as portas foram trancadas, me virei e encarei meu sequestrador. 

"Julie?"

Julie parecia ter vindo diretamente do inferno me buscar. Os vergões em seus braços pareciam ter voltado querendo vingança, alguns lugares na pele estava aberta, criando úlceras muito feias. Em suas mãos, havia uma tesoura segurada firmemente e seus olhos estavam carregados de uma loucura absurda. 

Fiquei pálida. "Julie? O que houve?"

"Estão vindo. Vieram me pegar quando eu descobri. Eu... Eu não sei se conseguem entrar no carro, mas por favor, por favor, por favor, Alana, segure isso comigo!" Ela colocou a tesoura nas minhas mãos, um artefato velho e enferrujado com algo que parecia ser sangue salpicado em suas lâminas. 

Quando tentei tirar as mãos, ela segurou mais forte e balançou a cabeça negativamente. Olhei pela janela, não conseguindo ver muito além por estarmos estacionadas no meio da floresta, mas podia ver que as mulheres estavam se preparando para pegar o buquê. "Julie, você ficou louca?" Parecia algo péssimo a se dizer, mas ela parecia totalmente insana.

Julie balançou a cabeça de novo, seus olhos se umedecendo. "Minha família imigrou da Irlanda para cá quando eu era pequena. Achei que algo me parecia familiar sobre os hematomas mas não consegui relacionar até que vi que o leite na minha geladeira estava estragado.  Sinto muito, Alana. Sinto muito mesmo..."

Ouvi um grito e virei minha cabeça em direção à clareira. Havia uma luz. Uma luz dourada, brilhando em um círculo onde... onde os cogumelos estavam antes. 

"... Sua irmã me contou o que fez com o círculo de fadas. Não há o que fazer por ela." 

O grito único virou um coro de berros. Vi convidados correndo da clareira enquanto a luz ficava cegante. As roupas que vestiam estavam chamuscadas, os rostos queimados em vermelho. 

Arranquei a tesoura da mão de Julie e sai do carro, ignorando seus pedidos para que eu voltasse. 

A luz agora estava na mesma intensidade de quando você olha para o sol. Vi uma galera doc asamento desmaiada no chão, suas peles da mesma cor de uma lagosta cozida. Dane estava esparramado no grama, os olhos queimados e um punhal de prata enfiado em seu peito. Corri para a fonte da luz. 

Minha irmã estava sendo escoltada para a luz, seu vestido branco estava esvoaçando como se estivesse em uma tempestade. Seu rosto sem cor parecia estar hipnotizado pelo o que via na luz. 

Tudo que eu podia ver era o torso e os braços esticando em sua direção, e gritei também. 

Em volta do pulso do braço que tetava alcançá-la, estava o colar de safiras que havia perdido.

Amy lentamente segurou a mão... e foi puxada para a luz. 

Apaguei depois disso. Quando acordei, já estava no hospital, Julie dormia na cadeira ao lado de meu leito.

Fiquei com queimaduras de primeiro e segundo grau em todos os locais onde minha pele estava exposta, mas tive sorte. Todos os outros no chão estavam mortos. Ninguém nem se importou em perguntar o que eu vira, aquilo só podia ser uma arma química ou um vazamento de gás. 

Algo aconteceu com minha irmã. Mas seu corpo nunca foi recuperado. Eu a perdi. 

Mas porque trazer isso tudo agora? 

Bem, Julie e eu vamos nos casar. 

E hoje de manhã quando acordei e olhei pela janela enquanto tomava meu café, havia um círculo de fadas no jardim. 

No meio do círculo estava o colar de pérolas que emprestei para minha irmã, com adição de uma pedra de safira bem no meio, na garganta. 

Algo emprestado, algo azul. 

27 comentários :

  1. Hm, em relação ao colar dado a ela no final (com a pedra azul, significando boa sorte), e ao desenvolvimento da história em torno do fato dela sentir inveja da irmã, por ter a vida ''perfeita'', eu senti que o autor quis demonstrar uma certa felicidade por parte da protagonista em razão da morte de sua irmã Amy. Como se as fadas tivessem feito ''justiça''. Isso é reforçado pelo fato dela ter sobrevivido. Seria porque ela quis proteger o círculo, ou algo mais esotérico, como um ''karma'' universal? Enfim, creepy bem escrita, parabéns ao autor, e obrigado pela tradução.

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  2. A Amy destruiu o círculo das fadas e pagou com a vida

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  3. Suspeito essa ser a creepy do dia logo quando decido ler contos de fadas antes de dormir.
    Essa creepy é ótima! Li no Reddit na época que foi postada e a tradução está impecável!
    Essa creepy parece mostrar a dualidade dos contos de fadas e das próprias criaturas: enquanto o público geral conhece histórias infantis e mini-moças dóceis, um olhar aprofundado viu a obra de fadas cruéis e vingativas que povoavam contos assustadores e trágicos.
    Algo nessa creepypasta destoa das outras que costumo ler, ouso dizer que soa feminina demais, mas ainda assim e muito boa.

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    1. Sou uma verdadeira fã dos teus comentários e "críticas" ♡

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    2. Andei lendo seus comentários e digo o mesmo! Você tem um ótimo gosto pra creepypastas e sempre formula bem comentários e críticas, falando de pontos realmente importantes na creepy analisada.
      E tudo isso sem ser babaca que nem eu! Ganhou uma fã <3

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    3. Eu fico honrada demais!!! Isso me deixa muito feliz, de verdade ♡♡♡♡♡♡

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  4. Tava esperando por algo bom assim. Ótimo conto.

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  5. Incrivelmente satisfatória! A escrita, a formulação e o caminho pelo qual a narrativa nos leva é simplesmente... Mágica.
    Estou tão feliz que mal posso expressar em palavras! Obrigada por trazer sempre histórias com tanta qualidade, Divina. Você alegra os meus dias ♡♡♡

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  6. Grupo destinado à aqueles que gostam de terror, creepypastas ou coisas do gênero: https://chat.whatsapp.com/1csqhqZkMIMGZkp77Cn37D

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  7. Arrepiei real aqui, lindo afu, fadas fazendo seu nome <3

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  8. Que obra <3 essa é uma boa creepy.

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  9. Gostei do conto, de verdade. Mas estou com uma duvida... Ela não era assexual?

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    1. Ela achou que era aos quinze anos

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    2. pessoas assexuais sentem atração romântica porém não sexual

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  10. o pior é que fadas realmente ficam bem putas se você destrói algo delas

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