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Mágica "real" não existe

Sou um mágico amador. Já fiz apresentações em festas infantis e fiz alguns tours. Não me classificaria como um especialista, mas estou no meio do mudo dos mágicos. Adoro ver os profissionais se apresentando, não há nada melhor do que ver um truque tão bem executado que você fica totalmente sem ideia de como feito.

Mês passado, estava lendo um fórum quando encontrei um link que redirecionava para um vídeo no Youtube, 10 Vezes Que Mágicas Deram Errado. Dei uma olhada, e como pode imaginar, o conteúdo era aterrorizante. Dois eram sobre o truque do prego debaixo do copo de papel. É um bom truque, se o mágico for qualificado. Se não for, então pode acabar na posição sete ou três de um vídeo de desastres mágicos.

Um mágico mistura alguns copos de papel, um deles cobre um pedaço de madeira com um grande prego enfincado, ponta afiada para cima. Os outros tem pequenos pesos dentro, para todos parecerem o mesmo ao toque. O mágico coloca uma venda e pede para o voluntário guiar suas mãos por cima dos copos. Então o mágico força a mãos do voluntário para baixo, esmagando os copos. Geralmente dá errado quando só restam dois copos. E quando isso acontece, é um show bem sangrento.

Entretanto, o vídeo em questão, é de um homem serrando uma mulher ao meio. Todos já vimos isso. Mas na filmagem granulada, a mulher grita, a caixa é separada, sangue espirra da abertura e a perna da mulher é separada de seu corpo. Sem membro inferior cai com um baque no chão, sofre alguns espasmos, depois para. As cortinas são fechadas rapidamente e o show termina.

Muitos comentários foram feitos nesse vídeo, dizendo que é mentira, até que alguém postou o truque na íntegra. No final do vídeo, a mulher pode ser vista novamente no palco, inteira, nada de errado com sua perna.

Algumas pessoas discutem que a mulher devia estar na caixa da parte de cima e que a parte de baixo continha uma perna falsa. A discussão acaba com alguém dizendo que jura que é verdade, que viram pessoalmente.

Comentei, "Sou cético, mágica não passa de ilusões, ninguém é partido no meio; mas a filmagem é impressionante." 

No dia seguinte, recebi uma mensagem privada de alguém com o username Tricked4Life:

Hey Baz1987, o cara do vídeo vai se apresentar mês que vem. O nome dele é O Russo, só dá pra assisti-lo se você for convidado. Posso conseguir ingressos para você, se quiser. 

Respondi, Claro! Eu super quero, por favor!

Enquanto esperava um retorno, fui assistir o vídeo da apresentação completa de novo. O link não funcionou, uma mensagem aparecia dizendo que havia sido retirado por causa dos direitos autorais. Tentei o vídeo do Top 10, também havia sumido, Erro 404. 

Era um sábado, então já tinha tomado um copo de Uísque e assistia Netflix. Acho que estava terminando de ver Breaking Bad pela terceira ou quarta vez. 

Tricked4Life respondeu com um link. Abri. Parecia aqueles sites de 1997. Havia um print do vídeo e um formulário em baixo. Meio bêbado, preenchi os detalhes e continuei até a forma de pagamento. Eu tinha que pagar em BitCoin... Mas que porra é essa?

Mandei uma mensagem para Tricked4Life, "Eu não sei o que é BitCoin."

"Me mande o dinheiro pelo PayPal que eu compro pra você."

"Como posso saber que não é um golpe?"

"Não tem como saber, mas sendo um mágico, você devia saber o que ou não um truque por instinto ;)"

Parecia que ele estava colocando uma isca para eu morder. 

"Quanto?"

"540 Euros." 

"Jesus Cristo, que pesado."

"Mas vale a pena."

"Você já viu ele ao vivo antes?"

"Não, vai ser minha primeira vez. Conheço umas pessoas que vão ir também. Disseram que o cara é incrível. Você terá que ver com os próprios olhos." 

Sai do computador e continuei a assistir TV, mas não conseguia me concentrar. Eu realmente precisava saber como aquele truque era feito. Bebi mais uísque e fiquei mais bêbado.


***

Acordei nas primeiras horas da manhã. Confuso, olhei o local em minha volta e percebi que adormecera mais uma vez enquanto assistia TV. Minha cabeça pulsava, então fui para a cozinha e bebi um pouco de suco de laranja, antes de jogar na frigideira a melhor cura para ressaca: bacon. 

Enquanto a o bacon fazia seu som característico no fogo, abri meu celular. Tinha um e-mail na minha caixa de entrada. Confirmação de Ingresso. Meu coração despencou. Abri para ver o número de confirmação e o endereço... na Ucrânia. 

Eu já havia comprado coisas enquanto bêbado, mas não um ingresso para um show de mágica na Europa Oriental. Não só tinha acabado de gastar 540 Euros, agora tinha que comprar passagens de avião e alugar um quarto de hotel. 

Olhei para a garrafa de uísque, vendo que estava quase vazia, nem uma dose inteira restava. Me senti envergonhado.

Entrei no fórum e li as mensagens que havia mandado. 

Foda-se! era a primeira. A segunda eram minhas informações e a terceira dizendo que havia transferido o dinheiro pelo PayPal, com uma resposta dizendo para eu comprar um smoking, se não tivesse um.

Não irei entediá-los com detalhes de como tive que implorar para o meu gerente me dar uns dias de folga de última hora, e tive que aceitar me apresentar na festinha de aniversário da filha dele. Fiquei surpreso e aliviado de quão barato eram as passagens para a Ucrânia. Esse foi o único raio de sol que me banhou durante esse ordálio idiota. Aluguei um smoking e estava pronto para ir.

O voo foi turbulento. Voamos por uma tempestade e pela primeira vez na minha vida, vi um raio atingir a ponta do avião. Pessoas ficaram em pânico e bebês choravam. Fiquei bastante nervoso. Fiquei muito feliz quando aterrizamos. 

Sentei em silêncio no táxi até o hotel. Quando desci, percebi que era uma porcaria. Pedi para o motorista esperar, ele assentiu. Não faço ideia se tinha me entendido ou não. A avaliação do hotel supostamente eram três estrelas, mas parecia mais um prédio abandonado do que um hotel. 

Fiz check in e troquei de roupa. Fiquei feliz de que ficaria ali só por uma noite. Meus planos apressados significavam que eu não tinha nada mais que algumas horas antes da apresentação. 

Fiquei agradecido em ver que o táxi ainda estava me aguardando quando sai. Entreguei para ele o endereço impresso e partimos na noite. 

Era uma cidade estranha, nada parecida com a Londres que eu conhecia como a palma da minha mão. Era como se não tivesse sido planejada, apenas começaram a criar prédios e casas em aleatoriamente. Paramos no fim de um beco. Aponto para até onde o carro não ia. 

"Tem certeza?" Perguntei. 

Eu esperava que fosse em um lugar chique. 

"Isso mesmo," o homem disse, finalmente quebrado seu silêncio. 

Sai do carro. Quase como se o motorista estivesse com pressa, saiu cantando pneu. Me senti solitário, em um pais desconhecido que não conhecia nada. 

Uma chuva começou a cair e encharcou meu smoking. O tecido de lã ficou pesado com a água. Fiquei refletindo se conseguiria meu dinheiro de volta. 

Adentrei o beco. Luz escapava de uma porta debaixo de uma saída de incêndio. Bati com os nós dos dedos e aguardei. 

Um homem usando uma calça jeans respingada de tinta e um colete térmico abriu-a. 

"Desculpa incomodar, não sei onde estou. Procuro esse endereço."

Entreguei o papel.

"Supostamente vou assistir uma apresentação de mágica..."

Ele levantou o queixo e abriu mais a porta. Fiquei feliz em sair da chuva. A parte de dentro tinha a aparência de um corredor de uma fábrica. 

"Por aqui," me disse e apontou para o final do corredor. 

A minha visão de estar entrando em um porão que parecia mais uma cena do filme O Albergue perturbou minha mente e tudo que eu queria era virar as coisas e voltar diretamente ao aeroporto. A porta de saída fechou com um baque surdo.

Respirei fundo e continuei andando. Meus passos ecoavam pela passagem pequena e me senti vulnerável. Empurrei a barra de metal da porta que encontrei no final e esperei pelo melhor. 

Fiquei em choque. Murmúrios de mil vozes preencheram o grande cômodo que entrei. Não era como eu esperava. Era cavernosa. Parecia um palhaço. Grandes colunas de mármore erguiam-se do chão até o teto ornamentado, de onde pendiam lustres complexos. 

Diversos homens em ternos bebiam de taças de champanhe, todos engajados em conversações. Ninguém se virou para me olhar. Era como se não houvesse nada de errado em eu estar entrando pela porta dos fundos. Para um show de mágica, achei bem apropriado. Entretanto, ficar lá parado, não sei se me sentia mais fora de lugar ali ou no beco. 

Uma garçom se aproximei e quase entrei em pânico. 

"Bebida, senhor?" disse, me oferecendo uma taça de champanhe. 

"Peguei a taça de cristal e resisti a vontade de tomar tudo em um gole só. 

Beberiquei e tentei me enturmar. 

"A apresentação começará em trinta minutos," anunciaram em um sotaque ríspido do Leste Europeu.  

As pessoas olharam para cima como se observassem a pessoa que fazia o anúncio. 

Mais um garçom veio e me ofereceu uns canapés. Peguei um e agradeci. 

"Baz?" alguém gritou e eu olhei em volta. 

Tranquei o olhar com um home que não reconheci. 

"Eu te conheço?" Perguntei.

"Sou o Dan," falou, estendendo a mão. 

"Desculpa, não me recordo..."

"Tricked4Life? Eu que te consegui o ingresso."

Confuso, perguntei, "Como você me reconheceu?"

"A foto do seu perfil, cara," falou sorrindo, "Bom te conhecer pessoalmente. Não tinha certeza se você realmente viria."

"Eu não ia gastar 540 Euros para ficar em casa."

"Está animado? Já vi alguns mágicos famosos por aí." 

Eu estava nervoso. Dan não parecia estar.

"Puta merda, aquele é o <nome ocultado>?" Questionei.

Ele se virou. 

"Sim, porra," respondeu, "<nome ocultado> e <nome ocultado> também estão aqui." 

"Que loucura, então isso aqui é muito foda."

"Acho que sim," falou, dando goles longos em sua bebida. 

"Qual o nome verdadeiro dele?" 

"Não sei, ninguém sabe." 

"Isso é meio sinistro." 

"Ele é o melhor dos melhores, quem se importa como é chamado?" 

Dan olhou seu relógio de pulso. 

"Melhor irmos para os nossos lugares."

"É."


***

As luzes da casa começaram a diminuir e aplausos e gritos de felicidade foram dados pela platéia. Um foco de luz iluminou as cortinas de veludo vermelho. Esperaram a multidão se acalmar antes de abri-las.

Fiquei desapontado quando o vi no palco. Seu cabelo era grisalho, não preto como no vídeo. Também era muito baixo de estatura do que aparentava no vídeo. Assistentes rolaram uma caixa alta e grande.

O mágico guiou uma das assistentes para dentro e prosseguiu trancando os cadeados na parte frontal da caixa. Contou até três, e na batida do três, fogos de artificio explodiram na parte da frente do palco e as paredes das caixas pressionaram umas contra as outras. Ele se aproximou e girou a caixa para mostrar que agora estava achatada. A assistente restante rolou a caixa para as coxias e a platéia aplaudiu.

"Essa é fácil," falei me virando para Dan, "Fogos de artificio - distração visual e alçapão em baixo." 

Ele sorriu. 

Berlindas de tortura medievais foram trazidas para o palco. O mágico pediu por um voluntário da platéia. Uma moça jovem se levantou (a única mulher de toda platéia) e foi convidada ao palco. O mágico fingiu que batia palmas, a audiência aplaudiu. A mulher foi presa no lugar. Ele distribuiu alguns ovos para a platéia e ofereceu-a como alvo. A maioria errou, exceto o último que bateu bem no meio de seu rosto. Risadas brandaram. Uma assistente voltou com uma melancia. O mágico pegou uma espada, a lâmina brilhou na luz do holofote. Ele levantou e abaixou rapidamente, cortando a melancia no meio. 

Aproximou-se da mulher presa e com um golpe só, suas mãos e cabeça caíram na cesta que havia no chão. A multidão rugiu em aprovação. 

"Já está impressionado?" Dan me perguntou e fiquei um tanto irritado. 

Não acontecera nem um flash de luz para fazer a troca por partes de corpo falsa, mas também não havia sangue. 

"Era obviamente uma boneca, tem mais alguma mulher na multidão?" 

Mais ajudantes vieram para o palco, fingindo limpar o sangue inexistente do chão. A plateia riu em uníssono. 

A ilusão final era o clássico câmara de tortura Chinesa, conhecido por causa de Harry Houdini. 

Um grande tanque de água foi colocado no meio do palco. O mágico tirou suas roupas para revelar um traje-de-banho-vindo-diretamente-do-século-dezenove, quase como um grande macacão bege que cobria todo seu corpo até as coxas. Colocou um clipe de proteção nas narinas e esfregou as mãos em antecipação. 

Subiu as escadas acopladas no tanque e pulou pra dentro. Água espirrou pelos lados e uma tampa de ferro foi colocada em cima, tampando. Cadeados foram trancados em seus devidos lugares e uma cortina foi arrastada para frente. Um homem começou um cronometro e olhava seriamente para o mesmo. 

O tempo passou. Chequei meu relógio, ele já estava lá dentro por 90 segundos. A cortina foi removida, revelando apenas suas mãos por cima, tentando destrancar os cadeados, então o pano tapou a cena de novo. 

Mais um minuto se passou e batidas podiam se ouvidas lá de trás. O homem com o cronometro olhou para as coxias e fez um sinal passando o dedo pela garganta, sinalizando para acabar com aquela apresentação. 

Alguém correu para o palco com um machado e as cortinas foram abertas. Os cadeados ainda estavam no mesmo lugar, mas o tanque estava vazio. A audiência ofegou. 

"Olá," ouviu-se da platéia. 

Me virei para ver O Russo nas fileiras mais acima, pingando água. 

Felicitações ecoaram pelo salão e todos aplaudiram.  

"Então como ele fez isso, Sr. Sabichão?" Dan perguntou, claramente feliz consigo mesmo. 

"Não faço ideia," comentei, aplaudindo sem pensar sobre. 

As luzes foram acesas. 

"Haverá um intervalo de dez minutos antes da segunda parte do show, convidados com ingressos de número..." o anunciante disse, anunciando alguns números, "...por favor, dirijam-se à porta ao lado do palco." 

"Esse é meu número?" Falei para Dan, confuso. 

"Sim, meu também. Está animado?"

"Não estou entendendo." 

Ele sorriu largamente e segurou minha mão, me levando para uma fila. 

"O que está acontecendo?"

"Você realmente não se perguntou porque era tão caro? Nós fazemos parte do show!" 

Um pavor silencioso tomou conta de mim. 

"Eu não quero participar." 

"Ah, vamos lá, você é um mágico, não quer saber como é feito?" 

"Sim, mas não quero ir para o palco."

"Você já fez isso antes." 

"Já, mas para crianças! No máximo cinquenta pessoas. Não para um teatro com mais de quinhentas pessoas, com mágicos famosos do mundo todo!" 

"Uma pena, porque agora você vai," falou, me segurando com mais força. 

Esperamos no final de uma fila com oito pessoas. Um homem conferia ingressos um por um enquanto íamos para os bastidores. 

Dan entregou seu ingresso e me soltou. Pensei em ir embora, mas antes que pudesse dar um passo, o homem pediu meu ingresso e como um robô, entreguei-o. 

Estava silencioso nos bastidores.

"Puta merda, aquele é o <nome ocultado>?" Falei enquanto o homem se aproximava. 

"Olá," falou animadamente, "Sou..."

"Sei quem você é," Falei em choque por <nome ocultado> estar falando comigo. 

"E aí, meninos, estão animados?" 

"Muito," Dan falou. "Baz aqui está um tanto nervoso." 

"Não fique nervoso," <nome ocultado> disse, "é para isso que você está aqui, não é?" 

"Não faço ideia do que está acontecendo," deixei escapar. 

"Não dê ouvidos a ele," Dan disse, "só está com medo." 

"E devia estar, não é sempre que se está na presença de um mágico de verdade." 

"Como assim?"

"Você sabe, alguém que faz magia de verdade." 

Zombei, "Não existe magia de verdade." 

"Qual é a desse cara?" <nome ocultado> falou apontando para mim. 

Dan deu de ombros. 

<nome ocultado> se direcionou à mim, "Então porque você está aqui?" 

"Eu só queria ver pessoalmente."

"E você verá, filho. Será parte." 

"Não sei se quero." 

"É uma oportunidade única," falou, gesticulando as mãos. "É a oportunidade com qual todos sonhamos." 

Ouvimos uma salva de palmas. 

"Está na hora," <nome ocultado> disse, ficando atrás da fila que havia se formado. 

"Não sei não, Dan," falei. 

"Vai dar tudo certo, prometo." 

Observei enquanto os primeiros de nós entrava no palco. Uma salva de palmas, depois silêncio. Um minuto ou um pouco mais se passou, então ouvi um grito horripilante e meu coração acelerou. 

"Mas o que diabos foi isso?!" 

"Shhhhh," Dan falou em concentração absoluta. 

Então, o próximo foi levado e depois o outro. Com cada um acontecia um momento de silêncio, depois o final do truque era marcado por grito. 

"Dan!" Falei em um sussurro, "Aquele homem está coberto de sangue!"

Olhei para o assistente enquanto saia do palco. Havia respingos de sangue em sua camiseta e rosto. 

"É parte da diversão," Dan falou, dando tapinhas nas minhas costas. 

Meu estômago estava revirado, e um por um, a fila ficava menor. 

"Me desejem sorte," <nome ocultado> falou enquanto era acompanhado até o palco. 

O homem estava encharcado de sangue agora, mas não parecia incomodar Dan. 

"Temos um convidado especial hoje, por favor, uma salva de palmas para <nome ocultado>," bramiu nas caixas de som. 

Estávamos quase no topo da escada. Dan assistia a apresentação, seu rosto acendido de pura felicidade antes de fazer uma careta e desviar o olhar. 

"O que está acontecendo?" Perguntei. 

"Puta merda, isso foi intenso demais. Não sei se consigo," Dan falou. 

Mas era tarde demais, o assistente já tinha o agarrado e o arrastado para o centro do palco. Subi os últimos degraus e agora podia ver o piso de madeira. Arfei quando vi Dan andando pelo sangue empoçado. Seus sapatos encarchavam-se enquanto andava pela líquido coagulado. 

Uma caixa horizontal foi aberta e ele colocado dentro. Do meu ângulo, era óbvio que não havia ninguém colocado na parte das pernas, como acontecia no modo clássico. Assisti ele enfiar os pés nos buracos e a caixa ser fechada em cima dele. O mágico pegou uma serra elétrica, puxou a corda para ligá-la. Uma fumaça cinza-azulada saiu do lado do motor da ferramenta. Sem um segundo para pensar, enfiou a serra na caixa. O rosto de Dan se contorceu enquanto se encolhia em agonia. 

"Pare! Pare!" Berrou. 

O mágico o ignorou. Sangue espirrou, cobrindo-o e esparramando um líquido vermelho vivo na platéia, que gritava animadamente em resposta. 

O motor da serra morreu. Os assistentes puxaram as caixas, separando-as assim como no vídeo, as pernas de Dan caíram no outro final da caixa. Foi então que percebi que a caixa era propositadamente inclinada para que isso acontecesse. Esse era o truque. Me senti enjoado e corri. 

Não tinha para onde ir. Um homem enorme estava parado de braços cruzados na frente porta por onde havíamos entrado. Por sorte, não percebeu que eu estava em pânico. Tentei andar o mais normalmente possível e peguei as escadas que desciam para o porão. Enquanto descia, ouvi abafadamente algo ser falado pelas caixas de som e aplausos. 

Parei na porta no final do lance de escadas. Achei que era uma saída de incêndio. Tentei girar a maçaneta mas não se moveu. Pude ouvir vozes no outro lado. Coloquei meu ouvido contra o metal gelado. Era um cântico. Vozes tenor baixas repetindo a mesma frase de novo e de novo, em uma língua que eu não entendia. Mudaram para um coro mais cantado, depois voltaram para a frase de antes. 

"Senhor, você não pode ficar aqui embaixo," o grandalhão da porta falou pra mim. 

Obedeci-o sem retrucar. Me levou de volta para o salão. A multidão nem me percebeu. Garçons pacientemente passavam oferecendo champanhe. 

Sem pensar, gritei, "Ele está os matando! Todos eles! Todos eles estão mortos!" 

A audiência me observou silenciosamente.

"<nome ocultado> está morto, todos estão mortos. Eu vi. Não é um truque!"

"Senhor," um dos garçons levantando a mão para que eu parasse de falar. 

"Não vou me calar, é um abatedouro! Vocês não veem?!"

As pessoas começaram a entrar em pânico. Corri para a saída. As portas ficavam camufladas nos cantos. Apressei as mãos pelas paredes tentando achar um trinco. 

"Se acalme, senhor."

Me virei e vi o guarda-costa grandalhão. 

"Foda-se, aquele cara é louco! Me deixe ir embora." 

Ele segurou meu braço, me impedindo de sair. 

As luzes do salão diminuíram de novo e a multidão se acalmou. 

"Por favor, aplausos para o mágico da noite e seus maravilhosos voluntários!"

O homem me segurou com força, e desisti de tentar ir embora, então fiquei olhando para o palco. 

O Russo apareceu no centro do palco, se curvando. Seus assistente da noite também. Todos aplaudiram. 

Então, um por um, as pessoas que estavam na minha frente na fila entraram no palco, usando ternos brancos antigos. 

<nome ocultado> acenava enquanto andava pelo palco, a audiência festejava. O último a entrar foi Dan. Eu estava em choque. 

A platéia se levantou e aplaudiu. 

"Não vamos esquecer do nosso amigo ao fundo," O Russo disse, o holofote de luz em mim. 

Congelei. O guarda-costa me soltou e começou a aplaudir também. Passei as mãos pelos cabelos e forcei um sorriso. 

"Espero vê-los de novo logo," O Russo falou pela última vez e as luzes se acenderam. 

Murmúrios começaram instantaneamente no salão. 

"Bom trabalho, fez o final ficar ainda mais intenso," um homem disse enquanto passava por mim. 

"Obrigada," falei sem pensar. 

Todos queriam apertar minha mão, mas tudo que eu conseguia era ficar confuso com a admiração inesperada. 

As últimas pessoas foram embora, e eu também. Enquanto entrava o mesmo corredor largo do começo da noite, avistei Dan. Ele segurava uma caixa de papelão debaixo do braço. 

"Bom trabalho, amigo," falou sorrindo de orelha à orelha. 

"Mas que porra foi essa que acabou de acontecer?" 

Dan colocou sua mão em meu ombro, "Eles precisam de alguém para causar uma cena, sabe, para parecer mais real." 

"Mano, eu vi você ser cortado no meio! O que esperava que eu fizesse?"

"Foi sensacional," <nome ocultado> disse. 

"Achei que vocês estavam mortos." 

Ele tentou sorrir, mas pude ver a culpa em seu rosto. 

"Foi mal, cara. Foi um golpe baixo. Se a gente te contasse, não ia parecer tão real. O Russo não gosta de usar atores." 

"E a mulher da Berlinda?" 

"Aquilo era só o começo. Olha só isso!"

Dan abriu a caixa, revelando seu terno do começo da noite, cortado aos pedaços. 

"Ainda bem que não aluguei," falou rindo. 

"Foi ótimo conhecer você," <nome ocultado> falou, "aqui está meu cartão. Se você quiser ver alguma apresentação minha, me dá um toque. Te dou ingresso VIP." 

"Não vai tentar me matar também, né?"

Ele riu. 

"Vejo vocês por aí," falou, saindo pela porta do beco. 

Fomos alguns minutos depois. 

Uma fila de limousines esperava para pegar as pessoas enquanto iam saindo. 

"Você primeiro," Dan disse. 

"Você não vem?" 

"Nãã... vou pegar a próxima." 

Falei para o motorista o endereço do hotel.

Entrei no hotel cegamente e fui dormir, meus sonhos foram atormentados por imagens da noite anterior. Voei de volta para a Inglaterra na manhã seguinte. 

Fiquei longe daquele fórum por algum tempo, mas a curiosidade era mais forte. Havia um post sobre <nome ocultado>, dizendo que havia cancelado seu tour. Li os comentários, cheio de ódio de seus fãs que estavam putos dele ter cancelado tudo sem dar explicação. 

Eu tinha uma mensagem privada. Cliquei. Era do Tricked4Life. Havia apenas uma foto. Parecia ser o torso de alguém, hematomas rosa-arroxeado corriam horizontalmente pela barriga, sangue parecia escorrer de algumas feridas no ferimento. De baixo da foto havia um comentário. 

"Preciso de ajuda, acho que a magia está parando de fazer efeito."

Respondi dizendo que ele devia procurar ajuda médica. Isso faz 48 horas, não obtive respostas até agora. 

FONTE