02/05/2018

Minha filha nasceu surda e cega

Minha esposa e eu sempre quisemos ter filhos. Sete anos atrás, descobrimos que estávamos esperando um menino. Infelizmente, nem toda história tem um final feliz. Elijah morreu logo depois de seu nascimento por complicações da gravidez. Minha esposa e eu ficamos despedaçados, mas com o passar do tempo decidimos ter outro bebê. Depois de muitas tentativas, recebemos a notícia que tanto esperávamos - ela estava grávida. 

De novo, nem tudo é o que parece. Novamente tivemos complicações na gravidez, e Autumn nasceu cega e surda. Isso não mudou como sentíamos a seu respeito - ela era nosso anjo. Fomos informados das dificuldades que nos esperavam. Ela nunca falaria ou faria as tarefas mais fáceis sozinha. Precisaria de cuidado constante e, mesmo que isso pudesse parecer um fardo para muitos, era um pequeno preço a se pagar para ter um bebê saudável em outros quesitos. 

Autumn não era uma causa perdida - era o nosso anjo. 

As vezes era frustrante, mas nunca paramos de amar Autumn. Eu tocava violão para ela, pois sabia que podia sentir as vibrações do amplificador. Ela sempre amava quando eu tocava "Ring of Fire", sempre ficava com um sorriso no rosto. Ela nunca seria capaz de ver como deixava eu e sua mãe felizes, mas tenho certeza que sabia.

Na maioria das vezes, nossos dias eram sempre iguais. Eu ia trabalhar enquanto minha esposa, Melissa, cuidava de Autumn durante o dia. Autumn precisava de alguém com ela o tempo todo, e mesmo que uma babá fosse uma possibilidade, não achamos que seria apropriado por conta de suas deficiências. Para minha sorte, o meu salário era bom o suficiente para nós três. Cheguei em casa um dia, depois de um turno de doze horas, e encontrei Melissa e Autumn dormindo no sofá. Sorri e dei um beijo em suas testas, depois cobri as duas com um cobertor. 

Eu raramente tinha tempo só para mim, então coloquei uma pizza congelada no forno e sentei na mesa da cozinha, começando a ler um livro no meu Kindle. Quando eu estava prestes a virar a última página do capítulo, senti uma batidinha na minha perna - era Autumn. Ela estava de pé ao lado da minha perna, olhando diretamente no meu rosto. 

"Papai..."

Meu coração despencou. Ela nunca tinha falado uma palavra sequer antes, isso não era possível. Jurei estar ouvindo coisas. 

"Estou com sede. Me dá um pouco de água?" 

Engoli o medo a seco. 

"C-claro, querida. Só um segundinho. Deite-se mais um pouco com a mamãe, tá bom?"

Ela assentiu com a cabeça e voltou para a a sala, se aconchegando ao lado de Melissa. Me levantei e enchi um copo d'água para ela. Esfreguei os olhos, desacreditando e rindo quase que histericamente - isso era tudo coisa da minha cabeça. Assim que comecei a dar a água para Autumn como sempre faço, ela pegou o copo da minha mãe e começou a tomar como se soubesse o que fazer. De novo, fiquei estupefato.

"Obrigada, papai."

Meu corpo todo estava entorpecido. Enquanto eu forçava um sorriso e assistia Autumn voltar a dormir, voltei para a cozinha e me sentia fisicamente enjoado. Não conseguia entender o que estava acontecendo, sentei de novo na mesa da cozinha e voltei a ler meu livro. Devo ter adormecido, pois acordei com dor no meu pescoço por estar em uma posição muito desconfortável. Autumn foi a primeira coisa que meu veio na mente ao acordar, então fui ver como estava. Melissa estava sentada no sofá assistindo TV, enquanto Autumn dormia no divã em sua frente. Pensei em falar para Melissa o que tinha acontecido, mas achei que tinha sido apenas um sonho bizarro; afinal de contar eu tinha adormecido.

Os dias seguintes continuaram normais como sempre, sem nenhum outro incidente. Voltei para casa em uma noite e vi Autumn sentada na mesa de jantar enquanto Melissa fazia a janta. Autumn estava com o mesmo olhar vago de sempre, então tudo parecia normal. 

"Querido," minha esposa falou. "Pode me fazer um favor e pegar o cobertor de Autumn no quarto?"

Assenti e subi as escadas até o quarto dela. Em cima da cama estava seu cobertor favorito, mas outra coisa me chamou atenção. Era um pedaço de papel e um giz de cera vermelho. Ela havia desenhado três bonecos de palito. A boneca menor tinha cabelo longo e loiro, que nem o dela, outra era mais alta e com o cabelo médio e loiro, como Melissa, e o terceiro tinha o cabelo curto e marrom. Em cima de cada boneco tinha escrito uma coisa. "Eu", "Mamãe", e "Papai". 

Meus olhos estavam arregalados e em choque. Não tinha como ela saber como desenhar, ou como escrever. Algo muito estranho estava acontecendo. Tirei uma foto do desenho com meu celular e deixei o desenho onde tinha o encontrado, e desci com o cobertor. Melissa percebeu que tinha algo me incomodando, e falei que falaria para ela assim que Autumn fosse dormir. Para minha surpresa, a folha de papel não estava em cima da cama como eu deixara. Achei que tinha caído em algum lugar ou se perdido por aí. Pelo menos, era o que eu esperava.

Depois que Autumn já estava adormecida, ligamos a babá eletrônica e saímos de seu quarto. 

"Tá, o que está acontecendo? Você parece estar a ponto de surtar," disse, com um olhar de quem está preocupada em seu rosto. 

"Não sei como explicar, então vou só te mostrar. Vamos pra cozinha," falei. 

Melissa e eu nos sentamos à mesa. Meu corpo todo estava entorpecido e minhas mãos estavam tremendo. Puxei meu celular do bolso e entreguei para ela, com a foto na tela. 

"Que merda é essa, Zachary?" falou com raiva. "Não tem graça. Quem fez isso?"

Engoli a seco.

"Encontrei isso no quarto de Autumn quando fui buscar o cobertor. Eu acho - eu acho que ela desenhou." 

Melissa riu em deboche. 

"Não seja idiota. Ela não poderia ter desenhado isso, ela nem sabe como escrever. Se isso é a sua ideia de uma brincadeira, pode ficar sabendo que é de muito mal gosto," falou entre os dentes. 

"Amor, eu nunca faria piada sobre algo desse tipo. E tem mais uma coisa que você deveria saber," falei suavemente. "Outro dia, quando cheguei em casa do trabalho e você e Autumn estavam dormindo no sofá, fui para a cozinha e senti algo encostando na minha perna. Era ela. Ela falou. Falou 'papai', e conversou comigo..." 

Melissa me olhou como se eu estivesse falando um monte de bobagens. Depois de alguns segundos, olhou em meus olhos e percebeu que eu não estava brincando. Ela começou a hiperventilar, mas assegurei que era algo que podia ser explicado. Tipo quando alguém sofre um acidente sério e depois que volta do coma e sabe tocar piano perfeitamente, mesmo nunca tendo tido aulas - talvez esse fosse o caso. 

Sei que parecia uma loucura, mas eu tinha que dizer algo para acalmá-la. Ela chorou em meu peito pelo que pareceu horas, e tudo que eu podia fazer era acarinhar seu cabelo e cantar baixinho sua música preferida. Conversamos e decidimos discutir melhor sobre aquilo de manhã, pois ambos estávamos exaustos. Autumn estava dormindo pesadamente em seu quarto, agarrada em seu cobertor. Vê-la toda fofa ali parecia fazer todos os eventos recentes não importantes, mesmo que por meio segundo.

Melissa e eu nos jogamos na cama e colocamos a babá eletrônica em um lugar onde ouviríamos qualquer barulho que acontecesse no quarto de Autumn. As vezes ela acordava inquieta, e um de nós tinha que ir confortá-la. 

Acordei suando frio por volta das 4 da manhã. Meus olhos estavam embaçados, mas pude ouvir um barulhinho vindo da babá eletrônica. Tudo parecia calmo, até que ouvi a voz de Autumn. Acordei Melissa imediatamente e disse para ela ouvir com atenção. Foi isso que nossa filha disse. 

"A mamãe e o papai não sabem. Não podem saber nunca."

Ouvimos apavorados enquanto Autumn falava fluentemente, e quando ouviu a voz dela, Melissa colocou a mão sobre a boca e começou a chorar. 

"Eu te amo."

Quanto mais ela falava, mais dava pra perceber que estava falando com outra pessoa, não consigo mesma. 

"Melissa, eu-"

Antes que eu pudesse terminar a frase, ouvimos uma voz na babá eletrônica. Não era de Autumn, nem outra voz conhecida por nós. 

"Eles estão ouvindo."

CLICK

O som a babá eletrônica desligando fez com que pulassemos para fora da cama e disparamos para o quarto de Autumn. Não tinha ninguém lá, além de Autumn acordada, mas olhando para a parede que sua cama ficava encostada. Me aproximei lentamente dela, ainda um pouco temeroso pelo o que tínhamos ouvido. Quando toquei seu ombro, ela se virou e olhou diretamente para mim. Sorriu e disse "Eu amo você, papai. Estava com saudades." Melissa começou a chorar, enquanto eu forcei um sorriso e respondi. "Eu também te amo, querida." Autumn sorriu de novo. 

"Estou cansada, papai. Boa noite. Boa noite, mamãe."

Melissa estava engasgada com o choro e sussurrou "boa noite" entre soluços. Autumn adormeceu quase que imediatamente. Não podíamos deixá-la sozinha de novo, e não fazíamos ideia de onde aquela outra voz tinha vindo. Em silêncio, vasculhamos todo o quarto para ver se estava realmente sozinha, mas não encontramos nada. Olhamos por toda casa, mas não havia nada nem ninguém além de nós três.

Como se falar fluentemente não fosse estranho o suficiente, talvez ela tinha feito aquela voz estranha? Como isso podia estar acontecendo? 

Melissa e eu ficamos em seu quarto, eventualmente adormecendo no chão. Quando acordei, Autumn ainda dormia, mas havia um pedaço de papel do seu lado. Olhei para a folha e fiquei totalmente atordoado com o que vi. 

Dois bonequinhos de palito, um masculino e outro feminino. Um tinha um cabelo muito longo e escuro, sem rosto, e outro tinha cabelo loiro e um sorriso. Estavam de mãos dadas. Em cima da menina havia escrito "Eu" e em cima do boneco masculino tinha um nome escrito que me deixou petrificado. 

"Elijah"



14 comentários:

  1. Whatafoka, que louco tio.
    Gostei

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  2. Eita, cuzão! Esse final arrepiou cada pêlo do meu corpo. Sensacional!

    10/10 fácil, fácil

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  3. Achei fofo e assustador kkjkjkkj ❤ adorei!!!

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  4. Caramba... Muito imprevisível, foda de mais 9/10

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  5. Crl My god que creep foda 1000000/10 divina nunca decepciona

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  6. Oxi... coisa que resume como fiquei: ÉUQ??
    Mais tipo eeê? Oq acontece depois eles morrem?? Ou só isso mesmo...

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