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Meu filho sempre dormiu mal

21 comentários
Meu filho sempre dormiu mal. Várias noites por semana saía aos tropeços de seu quarto, esfregando os olhos e lutando contra as lágrimas. Eu estava sempre acordado, geralmente assistindo TV bem tarde da noite, enquanto minha esposa cochilava ao meu lado. Não é como se eu não quisesse dormir. Claro que queria. Mas eu era um policial de patrulha e também tinha insônia. Não ter sono, afinal, me serviu para alguma coisa. Mas aqueles anos não estavam nem perto dos melhores da minha vida.

"Você está bem, papai?"

“Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

Eu entrava no quarto dele e fazia uma verificação profunda em seu armário, debaixo da cama e na janela. Era a janela que tinha o assustado. "Tem um cara mau lá fora", sempre dizia. "Eu vou ajudar você a pegá-lo."

Noah queria sempre pegar os caras malvados. Era de se esperar; Eu já era policial desde antes de ele nascer. Me dizia o tempo todo que quando crescer também iria pegar bandidos.

Eu parei de verificar seu quarto por volta do seu quarto aniversário. Ele ainda saía, com os lábios trêmulos, e fazia a mesma pergunta: "Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte a dormir." 

Noah piscou os olhos, sonolento. Um dos olhos estava sempre apertado; nunca conseguia abri-lo até que estivesse acordado por uns bons dez minutos. Então ele olhou para mim, um dos olhos fechado como um pequeno pirata, assentiu e voltou para a cama.

Era o mesmo roteiro, noite após noite. Talvez eu tenha lidado com isso de forma errada. Sempre me perguntei se seria melhor ignorá-lo, ou até ficar com raiva. Mas além desse ritual frequente tarde da noite, ele dormia sozinho. Na maioria das vezes, ele nem lembrava de ter acordado.

Essas noites se fundem calorosamente umas com as outras. Era egoísta da minha parte, mas eu ansiava por esses momentos. Eu trabalhava no terceiro turno com uma dispersão justa de horas extras da madrugada. Devido ao sono e ao trabalho, raramente via Noah. Isso é o que fez nosso ritual noturno ser tão precioso. Era o único momentos que realmente tínhamos só para nós.

Minha esposa estava sempre dormindo quand Noah aparecia. Entre sua doença, cuidar de Noah e o estresse geral, ela não tinha muita energia. Então, na maioria das noites, eu ficava acordado até altas horas, assistindo TV em uma tentativa inútil de suprimir a escuridão que estava me comendo vivo.

Noah afastava um pouco dessa escuridão. Não muito, mas o suficiente para que eu não me jogasse no abismo. 

Seguiu-se assim por mais dois anos, noite após noite. Na última vez que teve um pesadelo, o ritual finalmente mudou. 

Noah saiu aos tropeços do quarto, esfregando os olhos. Estava meio choroso, e seu rosto levemente inchado. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem." Essas palavras - quase um cântico - o acalmava visivelmente. 

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

Ao meu lado, minha esposa se remexeu. 

"Eu quero pegar os caras malvados." 

"Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

Ele soltou um último suspiro. "Eu te amo."

"Eu também te amo. Agora vá para a cama e volte a dormir."

Eu nunca mais o vi.

Bem cedo na manhã seguinte, minha esposa levou Noah para passear. Ele adorava andar de carro. Era o que mais gostava. A viagem estava quase no fim. Eles estavam a três quarteirões de casa. Ela esperou até que a luz do semáforo - a dois quarteirões de distância - ficasse vermelha. Aguardar o fluxo de tráfego reduzir é a única maneira segura de atravessar o cruzamento. E foi o que ela fez. É o que ela sempre fez.

Mas, dessa vez, no momento errado, alguém passou pela luz vermelha a cem quilômetros por hora, acertando o lado do passageiro e matando Noah. Basicamente o pulverizou. Não conseguimos nem sequer ter um funeral de caixão aberto.

Minha esposa nunca se recuperou. Eu não a tratei bem depois disso. Ela teve muitas dores crônicas por causa dos ferimentos e, além de seus problemas de saúde, não conseguia funcionar sem medicação. Eu nunca ousei culpá-la abertamente pela morte de Noah, mas eu a ridicularizava por causa de seus analgésicos. Chamava-a de peso morto. Uma drogada.

Nós nos divorciamos e nunca mais nos falamos. Morreu alguns anos atrás, por causa de complicações de sua doença. Eu sinto saudades dela todos os dias. E eu nunca falei isso para ela, e nunca poderei falar. 

Tento dizer para mim mesmo que ela não se importaria, mas sei que é mentira.

Depois do divórcio, recebi algumas promoções no trabalho por um tempo. Mas eu parei em detetive sênior. O departamento me designou para a unidade de crimes sexuais e me manteve lá por dez anos.

Achei que a patrulha acabasse comigo, mas isso era outro tipo de monstro. Fiz muitos inimigos, alguns de alto calão. Até mesmo revelei merdas de alguns dos meus colegas oficiais, inclusive meu melhor amigo. Me tornei um alcoólatra funcional e me afastei de todos. Amizades e relacionamentos não valiam a pena. Como poderiam valer, quando não havia como saber quem era bom e quem era um monstro?

No final das contas, eu queria morrer. Todas as noites, pegava minha arma e colocava na mesa de centro. Depois, rezava para ficar bêbado o suficiente para tirar minha própria vida.

Cheguei perto algumas vezes. Mas sempre que isso acontecia, acordava da neblina e por apenas um instante, voltava a ter 31 anos, com minha esposa cochilando ao meu lado e meu filho andando pelo corredor perguntando se eu estava bem.

É por esses momentos que vivo.

Semana passada, eu estava tentando chegar nesse ponto. Sentado na sala de estar vazia como sempre, dividindo meu foco entre a TV e a arma, enquanto bebia até ficar entorpecido.

Algum lugar na casa, uma porta rangiu. Não prestei atenção. A casa já era velha quando eu a comprara. Era bem desconfortável e eu não ligava muito para os reparos que precisavam ser feios. Rangia e fazia barulhos com frequência. 

Mas então algo se arrastou pelo corredor. Me virei quando uma voz baixinha e familiar perguntou: 

"Você está bem, papai?" 

E lá estava: Noah, quatro anos de idade de pijama vermelho, um olho fechado e esfregando o rosto enquanto o lábio inferior tremia. 

Por um minuto delirante, eu quase acreditei que os últimos vinte anos não passavam de um pesadelo. "Sim, amigão. Estou bem." 

"Vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Ele assentiu e voltou tropegamente para o quarto. 

Depois de alguns minutos, me levantei e fui até seu quarto. Vazio. Limpo, como estivera nas últimas duas décadas. 

Deslizei até o chão. Articulações ruins, músculos doídos, e enjoo pelo álcool trouxe à mim o fato de que tinha mais de cinquenta anos e era totalmente solitário. Nenhum sonho ruim. Apenas uma vida ruim. 

Chorei até dormir.

Noah veio até mim várias noites depois disso. Saindo do quarto vazio, olho apertado e choramingando. O mesmo script. As mesmas palavras. 

"Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."  

"Vi algo assustador." 

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Aprendi rapidamente a não ir checar seu quarto depois disso.

Não era muito, sei disso. Mas para ser honesto, era tanto quanto o que eu tinha quando ele estava vivo. Se eu pudesse ter esse ritual - só esse ritual - para o resto da vida, já ficaria feliz. 

Mas ontem, ele veio chorando. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

"Papai, eu quero pegar os caras malvados." 

Minha boca ficou seca. Um desespero profundo tomou conta do meu peito. Então esse era o fim. Nem uma semana, e já era o fim. "Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

"Não! Quero agora!"

Uma série de batidas abafadas vieram do antigo quarto de Noah. 

Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram. "Vem cá, Noah." 

Noah sacudiu a cabeça, inconsolável. "Não."

Mais batidas e um xingamento abafado. 

Minha arma brilhava na mesinha de café, sinistra e convidativa. Peguei-a e fui lentamente em direção do corredor. 

Passos pesados vinham lá de dentro. A maçaneta se mexeu e a dor rangiu enquanto abria. 

A ponta de uma espingarda apareceu primeiro, seguido do invasor. Congelou quando me viu. Seus olhos brilhavam estranhamente, me lembrando de porcelana envernizada. 

Eu atirei. 

A parte de trás do crânio dele explodiu, cobrindo a parece em sangue e miolos. 

Me virei para Noah, preparado para abraçá-lo e confortá-lo. Mas ele não precisava de conforto, estava radiante. As lágrimas haviam secado e ele sorria. Ele nunca havia sorrido durante nosso ritual. 

Aquilo dizia tudo que eu precisava saber. Meu coração se partiu novamente. 

"Eu peguei o cara malvado!" Ele tropeçou sonolentamente para seu quarto. 

"Sim, você pegou," eu disse. 

Ele parou na porta do quarto, e deixou escapar um suspiro contente, sem parecer perceber o cadáver que estava em seus pés. "Eu te amo, papai." 

"Eu também te amo." Minha garganta parecia inchada, engasgando nas palavras. Noah esperou pacientemente. Foi difícil me manter no controle. Tínhamos uma rotina. Um ritual. Eu estava devendo um término para ele. "Vá para a cama," sussurrei, "e volte a dormir." 

Ele entrou no quarto. 

Depois de um segundo agonizante, corri atrás dele. Claro, estava tão vazio quanto sempre estivera. O vazio me destruiu de uma maneira que nunca tinha feito antes. Me arrastei até o canto onde costumava ficar sua cama e chorei.

Liguei para a polícia algumas horas depois. Pedi desculpas pela demora, disse que tinha tido um ataque de pânico e desmaiado. Ninguém se importava. Fui colocado em uma investigação interna, mas isso é só por fazer, mesmo. 

Meu quase-assassino era um cara que eu tinha colocado na prisão anos atrás. Estuprador de crianças, escória da terra. Nem sequer me lembrava dele. Eu nem quero.

Sei que não verei Noah novamente. Meu filho dormiu mal por vinte e quatro anos, por minha causa. Mas agora ele pegou o cara malvado e salvou seu pai, então tenho certeza que vai descansar agora.

E onde quer que esteja, espero que esteja dormindo bem.




FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

21 comentários :

  1. Divina, tem alguma forma de eu encontrar todos os seus posts pra ler sem ser da forma que faço agora? (Clicar no título, rolar o texto ate o final e ver teu nome)

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    1. http://www.creepypastabrasil.com.br/search/label/Divina Só clicar na minha tag, eu atualizei ontem com a maioria das creepys que traduzi de 2016 pra cá. Semana que vem eu vou tentar taggear as minhas mais antigas também (é um trabalho meio demoradinho). Mas espero que isso já te ajude.

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  2. Ahhh Divina... raramente uma creepy me faz chorar. Que linda história. Amei

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  3. Que linda essa história divina.Tu continua escolhendo as melhores.

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  4. Divina eu realmente amei a sua obra, mas queria entender uma coisa que ficou perdida, duas para ser exata. O menino sofria abusos? E qual a doença da mãe ?

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  5. Depois do acidente e da morte ele teve alucinações com o filho (fazendo o "ritual" de sempre durante a noite) em uma dessas alucinações um homem que ele prendeu invadiu a casa e ele fez o desejo do filho morto que era "pegar" o cara malvado

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    1. Ahh obrigada agora sim 😌 legalzinha.. 7/10

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    2. Na vdd eu entendi outra coisa, pra mim era o espírito do filho que não conseguia descansar até pegar algum cara malvado, ai no final ele consegue e sua alma fica em paz

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  6. Chorando litros. É incrível como certas Creepypastas conseguem ser tão profundas á ponto de transmitirem uma mensagem tão profunda.
    O ódio e medo aos quais o homem deixou-me sucumbir por causa da morte do filho, ódio este que fez o homem tratar sua mulher como uma culpada (como os crimes que tratava no trabalho), não lhe dando o devido tratamento e deixando-me morrer, adquirindo mais uma culpa para carregar consigo.
    Suportar tudo isso sozinho enquanto tinha que lidar com o trabalho de policial (principalmente numa área tão estressante e delicada como crimes sexuais) o esgotara completamente, e ele sentia-se pronto para morrer; seu filho voltando para alertá-lo e salvá-lo talvez tenha feito-o voltar aos eixos e sentir vontade, ou ao menos necessidade de viver outra vez.
    Eu creio que na verdade, Noah era somente uma alucinação sua; talvez ele ja suspeitasse de seu quase assassino, por tê-lo prendido e notar seu rancor por si, mas no estado em que estava, tomou o filho falecido como incentivo para defender-se.
    É um lado mais "cético" do conto, há a possibilidade de o espírito do garoto ter realmente voltado para salvar seu seu pai da morte, mas, sempre podemos ver os "dois lados da moeda"; tanto um quando o outro são interessantes.
    A história em si é DIVINA (que velho, haha)! Me deliciei com cada palavra bem traduzida, agradeço muito por terem publicado aqui.
    Eu nao sei se já disse, mas histórias desse tipo com tema "familiar" são as minhas favoritas.
    ~

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    1. Correção: "[...] conseguem ser tão profundas á ponto de transmitirem uma mensagem tão linda [...]".
      Eu definitivamente ODEIO escrever pelo celular, me perco nas palavras. >:c

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  7. Nossa...Chorei nessa. Parabéns Divina, você como sempre, arrasa.

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  8. Espetacular, nem sabia que poria ter essas emoções kksks

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  9. Tá mal contada essa história.. Nao falou do que o menino sofria, ou então sobre a doença da mãe. Mais tá legal.

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  10. Muito emocionante quase chorei 10/10

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