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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 5)

28 comentários
Não seja desagradável, respeite os outros leitores! Se você já leu a original em inglês, não dê spoilers nos comentários.

PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4



Olá, pessoal, 

Essa tem sido uma longa semana, mas finalmente consegui sentar na frente do computador para postar a próxima entrada do diário. Tenho trabalhado mais do que o normal para conseguir pagar o aluguel aqui em Londres e também os presentes de Natal. Nada muito divertido. De qualquer forma, não quero falar muito, sendo que essa próxima parte é provavelmente a mais longa de todas. 

Obrigado pela ajuda de todos.

***

O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 11/02/2017

Na manhã seguinte, tudo estava igual.

É estranho. Geralmente somos tão cegos em relação a consistência de nossas vidas cotidianas, só prestamos atenção quando alguma coisa muda. Ainda assim, enquanto coloco uma espiral de mel em meu mingau de aveia, é a falta notável que se destaca.

Desde a noite anterior, a atmosfera que cobria o comboio, e cada um de seus membros, não parece ter se alterado nem um pouco. A noite tinha falhado em seu papel de ser um grande meridiano, falhando em dividir o passado e o futuro, sem trazer perspectivas ou um fechamento. Como se o ontem tivesse sido derramado, como uma lata de tinta, na manhã seguinte; colorindo tudo com os mesmos temperamentos, medos e divisões.

Lilith e Eve estavam sentadas uma de frente para a outra, as pernas cruzadas em cima da toalha de plástico. Nenhuma delas falou muita coisa, por diversas razões. Lilith ainda está preocupada com sua própria indignação, enquanto Eve parece estar cheia de um assombro sútil mas penetrante. Nenhuma delas comeu da comida de Rob, uma decisão que creio ter sido feita por Lilith para ambas.

Apollo, Bonnie e Clyde estavam na minha frente. Apollo tentava conversar, tentando reviver seu famigerado bom humor. Bonnie e Clyde o ajudam, rindo de suas piadas, e sorrindo com as histórias.

Bluejay não saiu do carro durante nenhum momento da manhã, comendo de seu próprio racionamento e assim manteve uma boa distância do resto do grupo. Meus olhos se encontraram com os dela enquanto a examino, e sou dispensada com uma expressão sarcástica. 

E Rob? Rob estava fazendo suas praticidades de viagem; servindo café da manhã, depois enchendo o tanque do Wrangler com seus galões gigantescos. Fica claro que essas rotinas são reconfortantes para ele. Posso até imaginar que é assim que lida com a maioria de seus problemas. Compartimentalização. Colocar-se em um novo papel, como um instrumento sem corte, que realiza milhares de processos necessários. Se fez ocupado demais para ficar de luto, e provavelmente ficará nesse estado até que o sentimento se dissipe.

Como qualquer mecanismo de defesa, não é nada saudável. Eu que sei. Estava fazendo basicamente a mesma coisa. 

AS: Clyde, posso ter uma palavrinha com você?

Clyde levantou seu olhar da comida para mim, um pouco surpreso. 

CLYDE: Você quer falar comigo? 

AS: Hm, sim... se não for incomodar. 

CLYDE: Não, não, incomodo algum. Quer conversar agora? Não estou com muita fome. 

AS: Também não estou. Se importa se nos afastarmos do fogão? 

Clyde assentiu profundamente. Deixando minha tigela de lado, me dirijo junto dele até um pé de macieira. Ninguém olha para nós. 

CLYDE: Como está se sentindo, Bristol?

AS: Melhorando. E você?

CLYDE: Eu... bem, estou indo. 

AS: Então, queria perguntar... por que escolheram Bonnie e Clyde como seus codinomes? 

CLYDE: [risos] Foi uma decisão fácil. A gente costumava brincar de foras da lei quando crianças, uma vez Bonnie assaltou um banco. 

AS: É mesmo?

CLYDE: Bem, não, era um caminhão de sorvete. Mas Bonnie estava fingindo que era um banco e então correu para longe, com seus dedos apontados como armas. Falou para o Sr. Giford que era um assalto. 

AS: Uau, isso não parece algo que ela faria. 

CLYDE: Ah, ela era uma criança rebelde. Sempre vivendo em um personagem. Bem, ganhamos sundaes de graça e apelidos na cidade. Quando Rob disse para arranjarmos codinomes, não foi preciso pensar muito. 

AS: Foi uma boa escolha. 

Fiz uma pausa, tentando fazer com que o assunto anterior misture-se com o próximo. Considerando tudo, provavelmente essa será a última vez que eu e Clyde teremos conversas de papo furado. 

AS: Bonnie me falou que ela conversou com o caroneiro.

O estado de espirito de Clyde muda. De repente, está alerta de um jeito que não estava antes, apressando-se para responder minha acusação. No silêncio que se seguiu, enquanto me encarava com seus olhos arregalados, eu tinha jogado verde e estava prestes a colher algo bem maduro. 

CLYDE: Qua-quando ela te contou?

AS: Sinto muito, Clyde... Na verdade ela não contou. Você acabou de contar.

Quase consigo ver a pedra que se instalou na garganta dele. A vergonha profunda e o ressentimento de ter sido enganado, de ter um segredo obscuro sendo jogado ao mundo. Eu mesma não me sinto tão melhor que isso. Mentir para Clyde, levá-lo para longe de Bonnie com a desculpa de supostamente fazer uma entrevista... além do aborrecimento pessoal, vai contra tudo que tento ser enquanto jornalista. 

Clyde não consegue falar, então eu o pressiono. 

AS: Acho melhor que você chame Bonnie. 

Assentindo vagamente, Clyde se afastou sem falar nada em direção da irmã, sussurrando em seu ouvido. Vejo-a colocar a mão no ombro dele, apoiando-se para levantar. Seja lá o que tenha falado, Bonnie não parece aborrecida enquanto se junta a nós às sombras das macieiras.

BONNIE: Eu não queria causar problemas... e Clyde estava ansioso a tanto tempo por essa viagem, eu não queria voltar. Sinto muito. 

AS: O que aconteceu?

BONNIE: Só falei duas palavras. Não estava conversando com ele; eu estava fazendo como Rob mandou mas então ele... eu só disse "Deus abençoe". Só isso. 

AS: Só isso?

BONNIE: Bem, eu... ele me agradeceu e era tão... tão fácil de se conversar com ele, então pensei "Bem, eu já falei, então acho que mais algumas palavrinhas não farão mal." 

CLYDE: Ela quase não falou mais nada. 

AS: E ele? Ele falou alguma coisa?

Bonnie começou a sorrir, do mesmo jeito que sorrira na noite passada. Uma expressão sonhadora, entusiasta, que brilhava com uma felicidade do passado. 

BONNIE: Ele contou sobre esse lugar maravilhoso. Não era maravilhoso, Martin?

CLYDE: Bonnie-

BONNIE: Algumas casinhas perto do mar, mas fez parecer tão bom. 

CLYDE: Bonnie, por favor....

BONNIE: Qual o problema? Eu posso falar sobre, né?

Quando olho novamente para Clyde, seus lábios estão pressionados juntos, seus músuculos faciais tensos. Ele está escondeno algo, mas logo deixa escapar.

CLYDE: É só sobre o que você fala, Bonnie. Você... você já mencionou isso algumas vezes... e desde Júbilo não parou mais. 

AS: Vocês estão falando de Wintery Bay?

Quando cito o lugar, Clyde faz uma careta, Bonnie sorri.

AS: Bonnie, nós estamos indo para lá?

BONNIE: O caroneiro disse que é no nosso caminho. Estou ansiosa para ver. 

Não posso dizer que sentia o mesmo, e tenho certeza que Clyde concordava comigo. Antes daquele momento, eu só ouvira Bonnie mencionar Wintery Bay em duas ocasiões, mas parecia que ela estava falando sobre muito mais que isso. Me simpatizo com Clyde, pelo o que precisava aguentar. Entretanto, não deixo passar a irresponsabilidade nojenta de suas ações.

AS: Rob sabe?

CLYDE: EU não queria que-

AS: Você não queria preocupá-lo? Ou só não queria que ele mandasse vocês irem embora?

BONNIE: Eu estou bem, sério. 

AS: Bem, de qualquer forma, vocês precisam contar para Rob antes de voltarmos para a estrada. 

Clyde se balança desconfortavelmente.

AS: Eu não farei isso por vocês. Mas coisas demais já aconteceram nessa viagem. Ace... é um lugar perigoso, tá bom? Não há mais espaço para mentiras. 

Esperei que Clyde não visse a ironia da minha frase, sendo que não faziam mais de cinco minutos que eu mentira para ele. Assentiu, pegou a mão de Bonnie, e andaram juntos em direção do Wrangler. Rob estava colocando as últimas cadeiras de praia para dentro do carro. A conversa não dura muito, mas no fim, Rob coloca a mão no ombro de Bonnie e logo os dois voltam para seu carro. Ele não parece bravo. Provavelmente só está preocupado com outras coisas.

Essa é a segunda coisa que faço hoje que não é nada jornalistico da minha parte. Eu deveria ser apenas uma mosquinha na parede nessa história, uma passageira, gravando eventos sem me apegar ou influenciar os processos. De certa forma, queria que ainda fosse assim. Mas agora as apostas estão mais altas e, embora mentiras sejam interessantes nas matérias, são potencialmente perigosas demais para a segurança de nosso grupo. Depois do incidente com Ace, estou mais preocupada em voltar para casa e contar essa história do que deixá-la imparcial.

Rob estava pronto para fazer seu discurso matinal. O grupo se dirigiu até ele, alguns mais relutantes do que outros, e se reuniram em volta do Jeep. 

ROB: Primeiramente, quero dizer que... bem... os ânimos ficam muito à flor da pele ontem a noite, e sinto muito que eu seja parte disso. Quero agradecer por todos que ainda continuam aqui comigo, por termos chego tão longe, e se quiser voltar, fiquem a vontade.

O grupo continuou em silêncio. 

ROB: Se quiserem voltar, aviso para ir um carro por vez, continuem conectados pelo rádio, refaçam a rota e sigam as regras que foram feitas para vir até aqui. Agora, por favor, todos aqueles que pretendem continuar na estrada, levantem as mãos. 

Observei meus compatriotas de perto. Obviamente, ainda teríamos a companhia de Bonnie e Clyde, que já haviam expressado suas vontades de seguir em frente. Bluejay também, já que achava que não tinha nada com o que se preocupar. Apollo provavelmente estava na berlinda, e Lilith e Eve deviam ter opiniões diferente. Contudo, esse podia ser o momento em que nosso querido grupo se dividiria no meio. 

Bluejay levantou a mão preguiçosamente. Bonnie e Clyde, como previsto, levantam as mãos. Pouco depois, é a vez de Apollo. 

APOLLO: Bem, já chegamos tão longe. 

Isso nos leva até Lilith e Eve. Depois de trocar um longo olhar com a amiga, Lilith levantou a dela e Eve seguiu-a, embora seja clara sua hesitação.

Fiquei surpresa que ninguém iria voltar depois de tudo que aconteceu ontem, mas está claro que cada um tem seus motivos. Fico feliz de saber que não precisarei me despedir de ninguém. Eu estava tentando adivinhar mentalmente a motivação de cada um para continuar, mas paro rapidamente, quando percebo que todos estão me olhando. 

AS: Ah, desculpa. Sim, tô dentro... vou continuar... nesse caminho. 

Gesticulo para a estrada e levanto o braço em um gesto redundante.

ROB: Então tá bom. Seguimos com todos. Temos muito chão para percorrer hoje, mas pouco para ver. Apenas sigam as regras enquanto forem sendo ditas, acho. 

Enquanto saíamos do acampamento, comecei a me sentir um tanto ansiosa. A natureza sedentária da viagem está começando a me afetar fisicamente, me sentindo familiar demais com o banco de carona do Wrangler. Fico feliz que tive chances de esticar as pernas na noite passada. 

Rodando, milharais infinitos tomam conta dos dois lados da estrada nas cinco horas seguintes. As viradas são poucas e muito distantes uma da outra, mas o foco de Rob nunca se desvia. Consigo sua atenção poucas vezes. 

AS: Jeeps não são conhecidos por não serem muito econômicos em relação ao combustível?

ROB: Realmente não são os melhores nesse campo. Mas é por isso que sempre trago alguns galões. 

AS: É que... o sinalizador de combustível quase nem se quer se mexeu desde que saímos hoje de manhã. 

ROB: [risos] Você notou, então? Estava me perguntando se você ia pegar essa. 

AS: Como assim? O que você fez?

ROB: Nada. É a estrada. Faz com que o combustível vá mais devagar. 

AS: Sério?

ROB: E não é só isso. Você terminou de comer hoje de manhã?

AS: Não, por quê?

ROB: Quase ninguém comeu até o fim, exceto Apollo. Quanto mais longe você vai, menos precisa para continuar. 

AS: Tá... espera, mas você disse que a estrada fica contra nós. 

ROB: Unhum. 

AS: Mas agora está fazendo parecer que ela está nos ajudando. 

ROB: Unhum.

AS: Então ela é hostil e ao mesmo tempo nos incentiva? Isso não faz nenhum sentido pra mim. 

ROB: Para mim, parece a vida. Motivos para parar, motivos para continuar. 

Acho que isso faz sentido. Apesar de sua obsessão muito bem documentada com a estrada, Rob parece ter uma atitude bastante "Laissez-faire" com a lógica interna. É quase como se a estrada nem precisasse fazer perfeito sentido, ou pelo menos ele não espera que faça. 

Enquanto um ar fresco do interior entrava pela janela, me perco no infinito hipnótico dos campos por quais passamos. Fico me perguntando quantos olhos já viram o que estamos vendo. Me pergunto onde estamos, não geograficamente, mas no sentido geral. Ainda estamos no mundo que conhecemos tão bem? Fomos além? Fomos aquém? Ou apenas passamos pelas frestas, em um domínio intermediário?

Rob diminuiu a velocidade do carro para um arrasto, uma preocupação que sempre toma antes de uma virada. Meus olhos voltam gentilmente para o interior do Wrangler, finalmente fixando o olhar no espelho retrovisor.

Tem algo atrás de nós. Uma figura humanoide, desfocado por causa da distância considerável. Cambaleia rapidamente em direção ao comboio, instável em seus próprios pés. 

AS: Rob, o que é aquilo?

Rob seguiu meu olhar até o retrovisor, e então franziu o cenho. 

ROB: Algo novo. 

Rob pega o receptor. Antes de fazer o anuncio, o rádio chia, seguido pela voz frenética de Eve. 

EVE: Gente, tem alguma coisa atrás de nós... gente? Alguma coisa vindo atrás de nós. Bluejay, você está vendo?

Bluejay não responde. Provavelmente considerou ser algo que não valia a perda de seu tempo. Um gemido de pânico soa do rádio de Eve. 

EVE: Isso é de Júbilo? Pessoal? Pessoal?!

ROB: Fiquem todos calmos. Vamos apressar um pouquinho o passo.

Rob pesou o pé no acelerador. O Wrangler acelera gentilmente, com o resto do comboio seguindo junto.

APOLLO: Quem é aquele, Rob? 

ROB: Eu não tenho certeza, mas temos uma curva em breve. Vamos sair dessa estrada e ver se ele vai nos seguir. 

A figura continuava a tropeçar em nossa direção. Seus braços estavam pendurados desjeitosamente no ar e, quando começa a ficar mais em foco, posso perceber que há algo de errado com seu rosto. 

EVE: Gente, mais rápido, por favor. Por favor! 

LILITH: Se acalma. 

EVE: Está vindo nos pegar!

Simpatizo com o pânico de Eve. Eu desfrutava do luxo de viajar no fronte do Comboio. Eu fui a primeira a passar por aquele pinheiro esquecido-por-deus que estava caído na estrada. Eve agora está em penúltimo lugar, dependendo de outros três carros escaparem primeiro para que tenha sua chance. Ace teve de esperar por todos nós, e isso lhe custou... tudo. Agora Eve e Lilith estão a um carro de estar onde ele estava. 

EVE: Olha a cara dele! Meu deus do céu! Gente, pelo amor de deus! 

BLUEJAY: Jesus cristo, cale a porra da boca! 

APOLLO: Ei! Isso não ajuda em nada. Rob, ele está se movendo rápido demais, nós-

ROB: Continuamos no nosso curso. Ele não chegou ainda, apenas-

EVE: Meu deus. Meu deus, MEU DEUS!

Os avisos de Rob são interrompidos por gritos de pneus. Eve sai de seu lugar na  fila do comboio e segue pelo trecho vazio da estrada ao nosso lado. O carro acelera passando Bonnie & Clyde. Depois Apollo. 

Eu tenho um breve vislumbre de Eve e Lilith enquanto nossas janelas se alinham.


Lilith está gritando com Eve, tentando acalmá-la. Eve está gritando loucamente, parecendo um personagem de si mesma, embalada por um terror frenético. O carro passa por nós e segue pela longa estrada. Rob solta um xingamento e pega o rádio. 

A figura continua a vir em nossa direção. 

ROB: Ferryman para Eve e Lilith. Parem o carro agora. 

LILITH: Eve, desacelera! 

ROB: Eve, puta merda, você vai-

Assisto pelo para-brisas quando o carro delas para. Não uma parada suave, mas uma parada abrupta. Seus corpos são jogados em direção do vidro e o carro fica totalmente imóvel.

AS: Rob, o que está acontecendo?

ROB: Eu disse para ter cuidado!

AS: Mas o que-

Não preciso mais de respostas, pois a mesma estava bem na minha frente, bem no cantinho da estrada. Uma passagem pequena no meio do milharal infinito, que não era muito mais largar do que o próprio Jeep. Uma estrada de terra na esquerda, cerca de dez metros na nossa frente, cerca de quinze metros antes de Lilith e Eve. Agora eu entendia o motivo para Rob ser tão cuidadoso, e porque Eve também deveria ter sido. 

Elas deixaram a virada passar. 

ROB: Ferryman para todos os carros. Encontrei a curva, virem logo. Eve e Lilith, fiquem onde estão. Vou voltar para pegá-las. 

Rob ligou o pisca-alerta, preparando o grupo para virar à esquerda, e enfiou o pé no acelerador. Lilith e Eve desaparecem atrás de uma parede de milho enquanto descemos a trilha de terra. Rob continua dirigindo, até que haja espaço suficiente para o resto do grupo.


Uma vez que todos estavam em segurança, Rob sobiu na traseira do carro, pegou seu rifle e pula para a estada. Rapidamente saio e sigo atrás dele.

Quando chegamos na estrada principal, a figura já tinha percorrido uma distância considerável, chegando finalmente perto o suficiente para eu ver o que havia de errado com seu rosto. No meio do topo da cabeça, correndo em linha reta pelas bochechas e sob a mandíbula, a cabeça simplesmente não existia mais. É como se a parte anterior de seu crânio tivesse sido cortada de maneira limpa e certeira, com o rosto ficando todo côncavo e envolto completamente por uma sombra profunda. Um capuz horrível e orgânico, que parecia mais profundo do que a física deveria permitir.

Mas não era só isso que havia de errado com a coisa. Seus braços estendidos eram dobrados em vários lugares. Contusões roxas escuras floresciam em todas as juntas, como se seus braços tivessem sido quebrados várias vezes. Sua perna também eram dobradas para os lados, e esse era o motivo para o seu andar até nós ser tão estranho.

Rob parecia abalado enquanto colocava o rifle no ombro, ameaçando a criatura, querendo que a coisa desse meia volta. 

O ser ignorou a demanda de Rob, continuando sua marcha. Mesmo quando uma bala atinge a figura no peito, mal desacelerou. Somos forçados sair de seu caminho enquanto ele continua correndo na estrada, Eve e Lilith se encolhendo dentro de seu carro trancado quando ele se aproxima.

O medo se transformou em confusão quando a criatura passa por elas e continua pela estrada. É como se nem percebesse que estávamos ali.

Rob deu um suspiro de alívio, abaixou a arma e correu de volta para o resto do comboio. No momento em que ele saiu, minha mente notou algo peculiar. É uma observação completamente bizarra, especialmente considerando as muitas facetas sobrenaturais da criatura em retirada, mas há  algo familiar nele. Especificamente, seu modo de vestir.

A camiseta, as calças jeans cobertas de barro. Não são diferentes daquelas que encontrei dentro da mochila de couro, as roupas que estavam em cima do bloco de C4. 

Colocando a mão no bolso, pego meu celular, visualizo minha lista de contatos. Enquanto o homem se joga pela estrada, ligo para o segundo número que descobri na noite anterior. Aquele na lista de chamadas recebidas do Nokia. O número que provavelmente pertencia a quem criou a bomba e quem estava dirigindo o carro naquele dia.

Depois de alguns momentos, um toque interrompe a caminhada silenciosa da criatura. Cancelo a ligação, percebendo como fui imprudente, rezei para que a coisa não veja minha ação como uma desculpa para voltar.

Tive sorte, pelo menos desta vez. Quando o celular para, a criatura volta a tropeçar em direção ao horizonte.


A próxima coisa que ouvi foi um grito.

Procurando a fonte, vejo Eve, a porta de seu carro aberta, um pé para fora do carro. Ela estava freneticamente puxando a perna, parecendo não conseguir erguê-la do cimento. 

AS: Eve, o que foi?

Com os dedos tremendo, Eve desajeitadamente desamarrou o cadarço da bota e colocou a perna de volta para dentro do carro. A bota dela ficou no mesmo lugar, e é possível perceber uma ligeira elasticidade na estrada, uma leve depressão no asfalto ao redor da base do sapato. Lento e constantemente, a sola da bota foi desaparecendo dentro do cimento. Eve assistia enquanto o asfalto escuro lentamente sugava sua bota, envolvendo o calcanhar e puxando para baixo da superfície. 

Eve e eu pensamos a mesma coisa ao mesmo tempo. Fixamos nossos olhares na parte de trás do carro, onde o mesmo recuo suave estava gradualmente envolvendo os pneus.


O grito aterrorizado de Eve é abafado pelo rugir de motores acelerando. Pulei para fora do caminho quando o resto do comboio volta de ré para a estrada principal. Bluejay, Bonnie & Clyde, Apollo e então finalmente Rob, e estacionaram caoticamente ao meu redor. Rob saltou para fora e se aproximou.

ROB: Elas não deram a ré ainda?

Assim que fez a pergunta, ele viu. Só o pescoço da bota de Eve ainda é visível, afundando cada vez mais no asfalto. A estrada gradualmente, porém vorazmente, consumia os pneus do carro, engolindo a borracha e devorando a borda mais baixa da tampa da roda.

Tendo uma visão de algo tão... impossível, tudo que consegui dizer foi:

AS: Elas estão tentando.

As meninas tentam acelerar o carro no máximo. O motor ronca enquanto tentava sair furiosamente do lugar, a parte de trás do carro rangendo e rangendo devido à tensão mecânica. Mas as rodas não se movem nem um centímetro. Agora os pneus pertenciam à estrada, tomados pela força infinita que continua a arrastá-las para o fundo da terra.

O motor engasgou, derrotado, e eu pude ver Eve gritando com as mãos no rosto enquanto a estrada continuava seu trabalho.

ROB: Mas que diabo, não vamos conseguir chegar até elas. Mande-as subir em cima do teto do carro. 

APOLLO: Que porra... O que está acontecendo, Rob?

ROB: Bristol! Fala pra elas subirem! 

Rob marchou até o Wrangler. O resto do comboio se reuniu na estrada, alinhados com a curva à esquerda, onde achamos ser seguro para ficar de pé. Todos, menos Bluejay, assistem em silêncio, ansiosos.

AS: Eve! Lilith! Vocês precisam ir para o teto do carro, ok? Meninas? 

EVE: ESTAMOS AFUNDANDO! Caralho... puta merda, estamos-

AS: Eve! Estou tentando ajudar aqui! Rob está trabalhando em alguma coisa para tirá-las daí, mas preciso que subam no teto do carro. Não pensem em mais nada. Abra a porta, abaixe a janela e use como um degrau. 

Eve ainda estava surda pelo desespero. Lilith nem sequer hesitou. Colocou uma mão na borda superior da porta aberta, um pé na base da janela aberta e a palma da mão livre no teto do carro. A porta balançou nas dobradiças enquanto colocava seu peso sobre ela. Em um movimento rápido, se empurrou para trás até que ficou sentada em cima do carro.

O asfalto já havia engolido até o chassi inferior do carro. Eve olhava fixamente, fixada pela estrada enquanto era puxada para mais perto. 

LILITH: Sarah, olhe para mim! 

Lilith estava agachada no teto do carro, com a mão esticada para Eve. A voz de sua amiga pareceu ser a única coisa que conseguia quebrar a barreira do pânico de Eve. Ela se virou, a mão de Lilith a poucos centímetros de seu rosto.

LILITH: Sobe aqui, agora. 

Com os olhos cheios de lágrimas, lutando contra as respirações rápidas e curtas, Eve agarrou a mão de Lilith. Lilith segura do outro lado do carro firmemente e consegue arrebatar sua amiga para o teto. Eve gritou quando a porta balançou um pouco, colocando toda sua confiança em Lilith e seu aperto de mão. 


Ela se juntou a outra no teto ao mesmo tempo em que estrada começou a engolir a borda inferior da porta, derramando-se dentro do veículo como magma.

ROB: Merda, elas estão longe demais. 

Rob tinha voltado do Wrangler, desenrolando rapidamente uma corda de alpinista azul-claro, enrome. Eu já tinha a visto na parte de trás do carro, parada, e nunca achei que teria uma ultilidade real. 


Rob amarrou uma das extremidade da corda com ajuda de um mosquetão e de um nó apertado. Ele a segurava enquanto ele gritava para Lilith e Eve.

ROB: Ouçam! Vocês só vão ter uma chance. Eu vou jogar o gancho para vocês e vocês vão ter que pegar e tensioná-la bem, ok? Depois vão prendê-la em alguma parte do carro e escalar até aqui. Não deixem cair! 

Lilith estava pálida. Assentiu antes de ficar de pé, ficando mais próxima da traseira do carro. Eve só assistia, com as mãos envoltas nos joelhos. 

ROB: Bem, é tudo ou nada.

Rob começou a girar a corda sobre sua cabeça, um grande círculo ondulante que rapidamente se nivela enquanto o peso do mosquetão alivia a corda. Eu instintivamente me abaixo quando a corda passa sobre a minha cabeça, balançando cada vez mais rápido. Rangendo os dentes, seu rosto ficando cada vez mais vermelho com a pressão imensa desse única tentativa, Rob solta e deixa a corda voar. Ela se arqueia no ar, como uma linha de pesca lançada, em direção às mãos estendidas de Lilith.

Vejo o objeto passando na frente dela, o metal do mosquetão brilhando ao sol enquanto cai.

E ela pega, segurando a corda com as mãos trêmulas.


Apesar de sua pequena vitória, vi seu rosto se contorcer com um pânico repentino e primitivo. Ela segurava a corda acima de sua cabeça, olhando freneticamente para a estrada entre nós. Seguindo seu olhar, meu coração despencou do peito. Ela tinha pego a corda, mas não havia puxado rápido suficiente.

Mesmo que Rob tivesse segurado a outra ponta acima de sua cabeça, a corda ficou muito folgada quando Lilith a pegou. Caiu em um arco inclinado, e no ponto mais baixo acabou raspando no asfalto. E só ficou lá por um segundo antes de Lilith não conseguir mais puxar.

ROB: Puta merda! Tá... temos que arranjar outro jeito. Algo que podemos colocar no caminho. 

AS: Galões vazios? Elas poderiam pisar e-

ROB: Instável demais, e teríamos que jogar perfeitamente. Tá... tá...

A estrada já havia engolido metade do carro agora, engolindo a placa do carro cada vez mais. Lilith nos observava sem pode fazer nada enquanto discutíamos, Eve chorava feito um bebêzinho. 

CLYDE: Talvez uma lona? 

ROB: Não temos uma tão grande. 

AS: Quem sabe-

APOLLO: Eu vou lá.

A declaração de Apollo feita do nada nos surpreendeu. Virando em sua direção, notei uma confiança poderosa nele.

APOLLO: Elas não vão durar muito lá. Demora um segundo para a estrada te pegar, e foi nesse segundo que o caro foi pra tão longe antes de parar. Eu dirijo até lá, elas pulam no meu carro, e dai a gente escala pra cá. 

ROB: Não tem mais corda. 

APOLLO: Você tem o cabo de guincho, né?  Se eu for com ele no meu colo, posso ter certeza de que nunca ficará folgado. Então eu conecto as barras do meu teto e nós nos voltamos. 

ROB: Você realmente tem o melhor carro para ir até lá; mas é melhor que eu dirija. 

APOLLO: Você tem que ficar cuidando do cabo. E Bonnie ou Clyde não vão conseguir escalar até aqui. 

Ele nem sequer pensa em escolher Bluejay, não querendo perder tempo com uma conclusão precipitada.

AS: E eu? Eu sou mais leve, a volta seria mais fácil.

APOLLO: Mas você não vai poder ajudar quando elas precisarem pular. Estamos perdendo tempo, você sabe que a minha ideia é a melhor.

Rob levou um tempo para pensar em tudo, sua mente lutando para achar uma solução melhor.

ROB: É melhor que você volte para cá, Apollo. 

APOLLO: Não pretendo ficar lá, Rob.

Apollo sorriu com seu jeito simpático antes de correr até seu Rover. Rob, sem perder mais tempo, vai pegar o cabo de guincho, mudando para manual e soltando o cabo de metal pesado. 

Me volto para Lilith. 

AS: Você ouviu, Lilith?

Lilith estava agachada perto de Eve, tentando confortá-la enquanto os faróis afundavam no magma do asfalto. Virou a cabeça em minha direção quando a chamo.

LILITH: O que está acontecendo? 

AS: Apollo vai ir até vocês. Vocês vão ter que pular para o carro dele escalar até aqui, tá bom? 

LILITH: ... tá bom!

Ela se volta novamente para Eve, apertando os ombros da amiga enquanto explicava o plano. 

ROB: Tá, isso vai segurar.

Rob desceu do capô do Wrangler. Tinha colocado o cabo do guincho ao redor e por dentro do equipamento de iluminação, garantindo um bom nível de folga na saída e, mais importante, para a subida. A corda já tinha sido esticada até a janela do lado do motorista do carro de Apollo.


Bonnie e Clyde estavam ajudando a atirar as bagagens do porta-malas de Apollo e colocavam na estrada em um monte. Quanto menos perdesse na viagem, melhor.

ROB: Tudo certo aqui. 

APOLLO: Tá bom. Te vejo do outro lado, Rob.

Apollo meteu o pé no acelerador. O Range Rover voa para a frente e vai em direção da barreira. O motor rugia enquanto ele passava pela curva à esquerda e seguia em frente, para o além. Nos poucos preciosos segundos que ele tinha, ele cruzou a distância em barreira invisível e às duas garotas aterrorizadas. O cabo do guincho desenrola pela janela e, de repente, se esticou intensamente. 


Apollo foi jogado para a frente quando o carro fez sua parada brusca, cerca de um metro de distância de Lilith & Eve. O impacto parece brutal, mas de alguma forma, Apollo conseguira segurar a corda e, inexplicavelmente, segurava também seu senso de humor.

APOLLO: Acho que meu seguro não cobre isso. 

Desajeitado, ainda sentindo o impacto da parada brusca, Apollo abriu a porta e começou a escalar para o topo. 

APOLLO: Pode puxar, Rob!

Minha atenção estava fixa em Apollo, ouvindo o zumbido mecânico quando o guincho entrava em ação. Quando ele escala para fora do carro e sobe para o teto, prende o gancho do cabo em uma das barras do teto, prendendo firme.  Alguns momentos depois, a corda foi puxada bem reta. 


Apollo pisou no capô do carro, com os braços estendidos em direção das meninas. Era um salto curto, mas elas iam ter que fazer isso de uma elevação mais baixa, já que o porta-malas do carro delas já estava no nível do chão. 

APOLLO: Certo, estou aqui, podem vir, precisamos fazer isso rápido. 

Lilith se levantou, ajudando Eve a ficar de pé antes de pisar no capô que sumia rapidamente. 

LILITH: Tá... tá...

Lilith deu um gritinho enquanto se jogava na direção de Apollo. Seu pé da frente se plantou no capô do carro, a outra perna batendo no ar atrás dela. Apollo agarrou-a pelos braços e puxa-a para o carro, abraçando-a enquanto se equilibram no metal liso do capô. Quando ela ficou estável, ele deixou que ela engatinhasse até o teto, e então olhou imediatamente para Eve. 

APOLLO: Viu, Eve? Não é nada de mais. Pode vir.

A Eve dá alguns passos para trás, as mãos tremendo enquanto contempla o salto. Lutando contra seus instintos gritantes, Eve berra enquanto atravessa o capô e faz da o pulo. A ponta de sua bota levantando alguns segundos antes do carro ficar totalmente submerso pelo asfalto.

Eve caiu longe de onde deveria cair. Seus braços desesperado encontra Apollo,  enquanto suas pernas batem e raspam no para-choque do Rover, lutando para encontrar qualquer apoio. Apollo é puxado para o lado pela força do pouso de Eve, desequilibrado-se pela aplicação inesperada de todo aquele peso. Nos instantes que se seguiram, ele puxou Eve  em direção de seu peito e a envolveu um braço ao redor dela, seu centro de gravidade passando pelo limite do carro.

A queda levou uma vida inteira. Embrulhados um nos braços do outro, Eve e Apollo caem em direção ao solo paciente porém voraz. Na fração de segundo antes de cair do capô do carro, Apollo usou o último centímetro de pé encostado no carro para empurrar e se virar em uma curva lenta. A virada de corpo continua enquanto caem, até que ela ficou olhando para a estrada, enquanto ele encarava o céu azul pálido. Em uma ação final, Apollo empurra a cintura de Eve, segurando-a apenas pelos braços.


As costas de Apollo bateram contra o asfalto, a cabeça batendo audivelmente contra o chão. Atordoado e confuso, conseguiu segurar Eve para cima, impedindo que nenhuma parte além dos pés dela encoste no chão faminto. 

APOLLO: Suba... rápido, vai, suba. 

O rosto da menina se contorce em medo e culpa, e Eve olha no fundo dos olhos de Apollo enquanto chora. Se recompondo, se empurra, desamarrando o cadarço, deixando um pé de bota e uma meia para trás enquanto escalava de volta para o Range Rover. A cada segundo sussurrava pedidos de desculpa. 

APOLLO: Tá tudo bem. Tudo certo. Continue. Tudo certo. 

Ele repete essas palavras em um loop infinito, e chega a um ponto em que já não sei para quem ele estava falando aquele mantra. A estrada se estica ao seu redor, arrastando-o para suas profundezas. Eve olha para trás, seu rosto era pura angústia. 

Bonnie afundou o rosto no peito de Clyde, sem conseguir assistir os momentos que seguiriam. 

EVE: Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito. 

APOLLO: Está... está tudo bem. Só continue, tá bom? Não está doendo... não está doendo mesmo. 

As orelhas de Apollo entram no asfalto. Adentrando um novo mundo de um silêncio absoluto, Apollo percebeu que o seu fim estava próximo. 

APOLLO: Meu deus. Rob! ROB!!!

Não iriei transcrever os últimos momentos em detalhes, mas, antes de afundar completamente na estrada, Apollo pede para Rob falar com sua família. Queria que Rob dissesse que ele os amava. Rob assentiu, sabendo que Apollo não ouviria sua resposta. 

Depois de alguns berros de desespero, Os olhos e boca de Apollo são completamente envolvidos pela estrada. Seus gritos são abafados pelo cimento grosso e impiedoso. 

Eve assistiu o resto do corpo dele afundar, enquanto Lilith arregaça as mangas, puxando-a para o teto. 

LILITH: Temos que ir. Sarah, temos que ir! 

EVE: Me desculpa.

Sussurrando mais um pedido de desculpa pelos ares, Eve anda para frente e encara o cabo. 

AS: Gente, é só se pendurar e vir se arrastando, ok? 

LILITH: Tá! Você está pronta? 

Eve olhou para sua amiga. 

EVE: Eu... eu não...

LILITH: Só me observe, tá? E depois me segue.

As rodas do Range Rover já tinham desaparecido.  A cada segundo que passava, a folga do cabo diminuía e o ângulo entre a barra do teto e a plataforma de iluminação do Wrangler se tornava mais íngreme. Precisavam sair de lá imediatamente.

Eve observava o tamanho da distância que teria de percorrer. Eu até podia sentir a mente dela protestando. 

EVE: Eu não consigo. 

LILITH: Sarah... nós temos que fazer, tá? Me segue!

Lilith envolveu os braços ao redor de Eve, abraçando-a forte, tremendo visivelmente, antes de soltá-la e começar seu caminho pelo cabo. Suas mãos envolvem o cabo, depois prende as pernas firmemente, e então foi se empurrando. Ela fixa os olhos em mim quando chega na metade do caminho. 

LILITH: Ela tá vindo?! 

O asfalto já tinha engolido o carro até a parte inferior das portas. Eve não tinha movido um músculo sequer ainda. O asfalto enegrecido deveria parecer para ela como uma ravina sem fundo, um Grand Canyon. A ideia de ter que se pendurar em cima disso a deixou paralisada. 

AS: Sarah! Sarah, não é tão difícil quanto parece, por favor! Por favor, venha!

Lilith logo cruzou a divisão. Seus dedos estavam brancos. Rob vai até ela e ajuda-a a descer do cabo, abraçando-a e dizendo que estava segura. Assim que seus pés encostam no chão, suas pernas ficam bambas e Lilith cai no chão, chorando. 

LILITH: Sarah! Sarah, pelo amor de deus! 

EVE: Eu não consigo! Eu não... Eu... não...

LILITH: Por favor, Sarah. Eu preciso de você aqui. 

Com a respiração curta e pesada pela ansiedade, Eve se abaixa em direção do cabo. Devagar mas continuamente, o asfalto consumia a placa do carro a menos de um metro dela. Eve se coloca na corda e, em um desespero desajeitado, começa a atravessar. 

Mas ela saiu de lá tarde demais. Suas costas estão a centímetros do chão faminto enquanto vem se arrastando até onde estamos.

EVE: Eu não vou conseguir!

LILITH: Você vai sim! Continue!

As janelas do Range Rover já estavam quase sumindo e, dentro do carro, o painel já não era mais visível. A cada centímetro que consegue subir, o carro desce mais, fazendo com que suas costas ficassem mais próximas do solo. 

Meu coração congela quando seu pé escorregar.

Acontece quase rápido demais para conseguirmos entender. Enquanto Eve muda o pé na corda para conseguir se arrastar, a perna escorrega, batendo no chão. Ela até tentou puxar imediatamente, mas descobriu que não conseguia. 

LILITH: Não! Não, não, por favor, não! 

Desequilibrada, Eve tentou se levantar. No entanto, com a perna entrando no mar negro  e espesso, não conseguiu se manter em posição. Cai, seu corpo se contorcendo enquanto desaba na estrada.


Lilith deu um grito estridente. Eve choraminga enquanto o lado de sua cabeça descansa contra o asfalto, sua bochecha já submersa.

EVE: Desculpa! Desculpa!

LILITH: Não. Não. Por favor, não peça desculpas. 

EVE: Eu.. eu te amo. Eu te am... amo, Jen.

LILITH: Eu também te amo... Desculpa eu não... desculpa. 

Eve tentou responder, mas metade de sua boca já estava tapada pelo asfalto impiedoso. Sua respiração curta vira uma respiração profunda, enquanto seu nariz e boca são completamente emergidos. 

Um olho solitário olha uma última vez em direção de Lilith, antes de desaparecer para sempre. 

Desvio o olhar do resto do corpo que ainda está por afundar, não há nada mais para ver ali.

Lilith cai de joelhos, um grito de torrente de tristeza expelida de seus pulmões em chamas. Rob está completamente imóvel, provavelmente procurando alguma praticidade para se enterrar. Bonnie e Clyde simplesmente parecem perdidos, virando de costas para o Rover que termina de mergulhar. 


A reação do Bluejay me surpreendeu. Ela olhava para o asfalto, o sorriso característico arrancado de seu rosto, substituído por um olhar familiar de estado de choque. Repetia algo bem baixinho para si, que parecia ser: 

"Não é real... não é real..."

Ficamos ali parados pelo que pareceu séculos, acompanhados de uma brisa e os lamentos graduais de Lilith. Depois de exorcizar seu tormento, seus gritos diminuíram para um silêncio mortal. 

Rob dá o primeiro passo, se aproximando dela. 

ROB: Eu... eu posso te levar de volta para casa se você quiser-

LILITH: Não... não. 

Lilith seca o rosto, enquanto as lágrimas continuam a cair em suas bochechas. Quando se vira para nós, parece estar com raiva. 

LILITH: Não. Eu ainda vou continuar. Eu vou ir até o fim. 

ROB: Você sabe que não posso dizer aonde será o fim. 

Lilith se volta para Bonnie e Clyde. 

LILITH: Vocês vão ainda continuar? Posso pegar carona com vocês?

Os irmãos se entreolham. Bonnie assente. 

CLYDE: Você tem um lugar no nosso carro se quiser continuar.

LILITH: A parte de trás está aberta? 

CLYDE: Hm... sim. 

LILITH: Então estamos esperando o que, porra? 

Lilith marchou até o Ford de Clyde e sentou no banco de trás. E então ficou esperando impacientemente por nós. 

ROB: Alguém quer voltar?

Rob olha para mim e para Bluejay. Ela olha para ele com deboche antes de voltar para seu próprio carro. 

ROB: Bristol? 

Nesse momento o Range Rover já havia afundado completamente. A estrada agora tinha voltado para seu estado sólido. Não é como se Rob estivesse me oferecendo uma carona para casa, e sentia como se talvez eu precisasse convencê-lo à isso. Mas existem perguntas demais sem resposta, muitos mistérios incontestáveis entre os tecidos dessa jornada. Voltar agora não seria um retorno, seria uma derrota.

AS: Vou continuar.

Alguns minutos depois, os três carros restantes partiam pela estrada de terra. Deixando mais uma atrocidade incompreensível para trás. Há uma parte de mim que não consegue acreditar que continuo nessa estrada, e uma parte maior de mim está surpresa por ninguém ter aproveitado a oportunidade para voltar.

Enquanto Rob me leva para a próxima curva, e para a outra depois dessa, percebo que todos nós temos nossas razões. Eu me tornei obcecada em descobrir a verdade, assim como Bluejay. Bonnie tinha seus próprios motivos para continuar, e Clyde não podia abandoná-la. Lilith fez com que sua raiva e seu luto virasse sua nova motivação, buscando a libertação no final. E Rob? No que diz respeito a ele, há apenas uma direção a seguir.

Ainda assim, quando penso nas tristezas que já passamos e no potencial de uma ruína indescritível que está por vir, percebo que apenas loucos continuariam nesse caminho.


Eu suponho que todos nós somos.

FONTE

PRÓXIMA QUARTA-FEIRA (29/08/2018), Alguém já ouviu falar do Jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 6) ESTARÁ DISPONÍVEL A PARTIR DAS 08H00! 

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

28 comentários :

  1. A estrada parece um sistema percebendo o vírus e tentando expulsar. Como desta vez tem mais gente, o sistema aumenta suas a defesas, é como se fosse mais fácil perceber o invasor. A falha na matrix é o fato dos elementos atravessarem para o conjunto do qual não pertencem. Novamente, essa Creepy é ótima.

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    1. essa referência faz mto sentido. a estrada se comporta como um ser vivo. os moradores de júbilo podem ser parte da força de defesa, uma especie de sistema imunológico. a analogia é perfeita.

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    2. Essa é uma boa, mas parece que as merdas tão acontecendo mais pq tão descumprindo as regras, não pq tem mais gente

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    3. Durante a trama Rob cita novos eventos e, o fato de ter mais pessoas, é ligado a isto.

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    4. Porém é evidente que não seguir as regras é um fator crucial para problemas.

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  2. Estou amando essa crepy... Ansiosa pela parte 6!

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  3. muito insane, queria que postassem 2x por semana hahahahaa

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  4. Que dó do Apollo e da Eve!! :(
    Essa creepy é maravilhosa.

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  5. melhor creepy da história do site! mto foda.

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  6. Onde posso ler essa creepy em inglês?

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    1. No final de todo conto está escrito "Fonte", clicando ali, você será redicionado para a original.

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  7. Quase chorei, mas só de lembrar meus olhos se enchem de lágrimas, é horrível e grotesco imaginar a sensação do que Apollo e Eve passaram, e ainda mais Lilith. Não sei pq eles continuam na estrada... E sobre bluejay,fico sem palavras, ela vai morrer logo logo, só acho kkk

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    1. Por ser tão "contraditória" e cega, ela tem um papel de certa importância na creepy, e talvez, por isso, ela dure bem mais tempo que a maioria espera, mas tenho quase certeza que a morte dela além de fazê-la acreditar no sobrenatural e no oculto, irá ser uma das, senão a mais dolorosa e grotesca de todas.

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  8. Falei que ia ler de novo quando vc traduzice e valeu a pena espera... Vc e foda Divina <3

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  9. Aaahh, ta muito boa, não ta decepcionando, apesar da tristeza ;;-;
    expectativas grandes para o final

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  10. Eu ainda estou em choque. Essa creepy tem me ferido e me conquistado nas mesmas proporções. Se tornou impossível parar de ler, e uma tortura esperar pelo próximo capítulo.
    Ansiosissíma para ler a tradução do desfecho, apesar de que, a urgência é tanta em meu ser que estou cogitando seriamente ler a creepy original.
    Muito obrigada equipe, por me apresentar esta creepypasta maravilhosa.

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  11. Essa série é muito boa, assim como a tradução. Toda quarta no almoço venho correndo ler. Obrigado Divina o/

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  12. Porra mano, que morra todo mundo, mas o apollo não ;-; triste, bem triste

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  13. Embora eu goste da creepy ainda estou triste e de luto pela morte da eve :s

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    1. Eu tbm... até pq conheço alguém que apelidei de eve

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  14. Nossa , quase chorei quando li a parte da morte do Apollo 😔 tentou ajudar a idiota da Eve e não sobreviveu . Essa creepy tá demais , apesar da agonia e tristeza dessa parte

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