Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
==========

Domingo
==========

Todo mundo é falso pra caralho

24 comentários
Pra começo de conversa, você nunca deve ir para a casa de uma pessoa que conheceu pela internet no primeiro encontro. Existem histórias demais por aí de pessoas que fizeram isso e acabaram desaparecidas ou mortas. Eu sabia disso, é claro, mas achei que, se desse o endereço de onde estava indo para minha amiga Karen e também estivesse carregando spray de pimenta na bolsa, estaria preparada. 

Comecei a conversar com Martin no Tinder três meses antes de decidirmos nos encontrar pessoalmente. Eu havia acabado de sair de um relacionamento bastante tóxico, então estava ansiosa par seguir adiante. Usando a versão Tinder Plus, esperava encontrar alguém fora da cidade. Martin foi o primeiro cara com quem eu combinei, e achei seu perfil muito atrativo. 

Era recém divorciado, adorava cozinhar e tinha três cachorros. Tinha várias piadinhas em sua descrição que me fizeram rir de verdade, e para ser honesta, fiquei feliz de ver um perfil que não era igual a quinhentos outros. Vocês gostam de tomar café e fazer caminhadas, já entendemos, e quem não gosta?

Todas as fotos de Martin tinham alguns retoques óbvios de photoshop, mas as minhas também. Usava chapéu em todas elas, o que gritava 'estou ficando careca!', mas eu não importava para isso. Me mandou uma mensagem assim que combinamos, e o papo foi bom desde o começo. 

Começamos a conversar pelo telefone todas as noites. Seu tom de voz tinha uma entonação meio infantil que eu curtia; era um bobão. Conversávamos longamente sobre nossas vidas... e então o primeiro mau sinal apareceu. Estávamos falando sobre empregos antigos.

"Já fui médico, policial, bombeiro, astronauta, o que pensar, já fui," declarou. 

Eu ri, "Você é demais."

"Não, estou falando sério." 

"Sério? Eu... quero dizer, você não acha mesmo que vou acreditar nisso, né?"

"Mas é a verdade absoluta."

Achei que ele estava apenas brincando comigo, não podia esperar que eu realmente acreditasse naquilo. Deixei para lá achando ser uma piada idiota que não entendi muito bem e fomos para outro assunto. Ainda assim, algo no fundo da minha mente ficara... alerta. Olhando agora, fui completamente idiota de me encontrar com ele. Mas, pra falar a verdade, estava desesperada.

Alguns dias depois, decidi que era hora de nos conhecermos pessoalmente. Ele me convidou para jantar na sua casa e aceitei. Depois de mandar o endereço para minhas amigas, embarquei para uma viagem de duas horas em direção da 'Vila do Amor'. 

Achei que o nome era palhaçada. 'Vila do Amor', sério? Entretanto, coloquei o endereço no meu Google Maps e esse lugar realmente existia. Passei as duas horas seguintes me entretendo com podcasts para tentar acalmar o nervosismo enquanto dirigia para lá. Achei que o melhor jeito de lidar com a minha ansiedade era indo lá e acabando com isso logo.

Enquanto me aproximava da Vila do Amor, meus podcasts começaram a falhar, não tinha mais sinal no meu celular, mas pelo menos meu Google Maps já tinha feito e salvado a rota, então continuava me guiando. 

Era estranho não conseguir sinal ali, levando em consideração quão ajeitadinha a cidade de Vila do Amor era. Casarões, jardins bem cuidados, sem lixo nas ruas; talvez Martin não estivesse mentindo sobre suas milhares carreiras, afinal de contas. Devia ser cheio da grana. 

Quando cheguei na rua de Martin, comecei a entrar em pânico. Observei a área até encontrar sua residência. Era uma casa bem grande em tons de verde claro. Parecia algo saído do filme Eduardo Mãos de Tesoura.

Respirando profundo quatro vezes, peguei meu celular para mandar uma mensagem para Martin, avisando que eu havia chego. 

Falha no envio de mensagem

Ótimo.

Hiperventilando, sai do carro. O sol estava claro, e todas as cores pastéis da vizinhança não estavam ajudando, então coloquei meus óculos escuros enquanto me aproximava da casa. Apertei a campainha e ouvi badaladas soarem lá dentro. A porta se abriu e meu coração parou. 

"Cameron? Olá, como vai!"

Afinal de contas, Martin não retocava suas fotos. Ele tinha uma pele perfeita. Eu não conseguia ver um poro se quer. Sua cabeça redonda quase brilhava, era tão lisa. E não estava ficando careca, já era completamente careca. O sol refletindo em sua cabeça poderia ter me cegado caso eu não estivesse usando óculos. Usava uma camiseta pólo rosa-bebê e calças jeans azul claras. Não era um estilo que eu particularmente gostava, mas ele deve ter me achado parecida com uma prostituta. Vida que segue. 

"Estou ótima, Martin. E você?"

"Nunca estive melhor!" Martin tinha um sorriso enorme e brilhante no rosto. "Entre!"

Soltei o ar dos pulmões lentamente e entrei em sua casa. Era decorada perfeitamente. Tons pastéis por todos os cantos, o que parecia ser o tema da cidade. Era estranho, mas não estava lá para argumentar contra gente rica.

"Por que não se senta no sofá? O jantar está quase pronto."

Me sentei no sofá, tirei meus óculos, chequei meu celular. Ainda sem sinal.

"Vocês não tem uma área de cobertura muito boa por aqui, né?"

"Não, fica sempre sumindo!" Gritou da cozinha.

Isso não fazia sentido. Nós tínhamos conversado pelo telefone várias vezes e as ligações nunca caíam nem sequer falhavam. Mas não é como se eu pudesse culpá-lo por isso, ele não controlava o sinal de telefone. 

Fiquei tamborilando os dedos na tela do celular enquanto esperava Martin voltar. 

"Então, como foi a viagem?" Martin se sentou em uma cadeira ao meu lado. 

"Foi boa. Eu tinha alguns programas de podcast que não ouvia fazia algum tempo, então passou rápido. Você acompanha algum?"

"Vou ter que dizer que não."

"Ah."

Olhamos um para o outro e sorrimos. Comecei a examinar seu rosto mais de perto. Eu não havia notado antes enquanto usava os óculos escuros, mas tinha algo de estranho. Percebi que ele estava me encarando enquanto eu o examinava, então comecei a falar. 

"Ah! Seus cachorros! Onde estão?"

"Estão no quintal. Não queria que ficassem pulando em você," eu uma risadinha. 

"Ah, não me importo. Amo animais." 

Novamente olhamos um para o outro, sorrindo. 

Quanto mais eu olhava para ele, mais ficava com a sensação que tinha algo de errado. Algo em seu rosto definitivamente era estranho, mas não conseguia definir o que. Quase parecia ser feito de... plástico. 

Eu devia estar encarando por tempo demais, pois Martin quebrou o silêncio. 

"Tudo certo?" 

"Ah! S-sim, eu s-só—”

Um plim! alto ecoou pela casa. Dei um pulo, levando um susto.

"É o jantar. Vou colocar os pratos na mesa e já volto." Martin se levantou e voltou para a cozinha. 

Comecei a examinar a sala de estar, absorvendo os detalhes. Um relógio de pêndulo, uma mesa de centro, luminárias, vasos de plantas. Notei que não havia uma TV, algo que não daria muito certo se nossa relação se desenvolvesse para um namoro. Olhei para a parede e vi uma foto de Martin pendura. Ele vestia um uniforme policial.

Havia uma verdade em sua piadinha, então. 

Martin voltou e me encarou.

"O jantar está servido!"

Eu o segui até a sala de jantar onde ele havia arrumado a mesa com pratos cada um em uma extremidade da mesa. No centro da mesa havia uma travessa de prata com uma tampa. Sentamos cada um em uma ponta e Martin colocou um babador em sua pólo.

Eu não conseguia parar de olhar para o seu rosto. Tinha algo tão estranho ali. No começo eu me sentia grosseira por encarar, mas eventualmente eu já nem ligava mais. Havia algo de errado, algo que eu nunca havia visto antes. Ele parecia um boneco, robô, algo... não orgânico. 

Martin esticou o braço até a cloche e colocou a mão na alça. Olhou para cima e sorriu para mim. 

"Bom apetite."

Levantou a tampa e meus olhos se arregalaram. 

Bife, ervilhas, milho, batata, pizza, frango, hambúrguer, cachorro quente, macarrão, maçãs, bananas, alface, tomates, sorvete, bolo, biscoitos, batata frita, tacos e sushi... 

... Tudo feito de plástico. Versões em miniatura, aqueles encontrados em kits de culinária de brinquedo.

Comecei a rir. 

Martin começou a colocar os brinquedos em seu prato e eu não conseguia parar de rir. Martin também começou a gargalhar. Uma risada muito mais agressiva que a minha. Sua risada era alta e dura. Enquanto seu riso crescia, o meu diminuía e fiquei lá sentada, sem expressão em meu rosto. 

Mesmo com a risada histérica, não haviam lágrimas em seus olhos. Ele parecia um gif curto em loop de alguém forçando uma risada, apenas repetindo a mesma expressão cômica e novo, e de novo, e de novo. Finalmente, depois de alguns minutos desconfortáveis para mim, seu riso cessou.

"Essa foi ótima!" Falou, usando uma faca e garfo de brinquedo. Esse cara era um psicopata do caralho. Eu precisava ir embora. 

"Onde é o banheiro?" Perguntei. Eu devia ter saído correndo pela porta. 

"Última porta no corredor," apontou para uma direção genérica. Sua mão era estranha. Quando colocava-a em uma certa posição, parecia que ficava daquele jeito por tempo demais. 

Pedi licença e fui para o banheiro. Era um banheiro pequeno, decorado em tons pastéis assim como o resto da casa. Eu não consegui evitar, vomitei no vaso. Era tudo demais para mim. 

Depois de várias gorfadas, levantei a cabeça e tentei puxar a descarga. Não funcionava. 

"Foda-se," falei baixinho. Fechei a tampa e fui até a pia para lavar a s mãos. 

Tentei abrir a torneira, mas não girava. 

"Que lugar... bizarro do caralho... é esse?" Falei entre minha respiração rápida. 

Olhei para o espelho e fiquei em choque. 

Não havia reflexo. Era feito de plástico. 

Abri a porta do banheiro e voltei pelo corredor, me afogando em um mar de ansiedade. Sentia como se estivesse prestes a desmaiar. 

Olhei para as fotos nas paredes e meu coração gelou. Eram todas fotos de Martin. De bombeiro, de médico, de astronauta, professor, corredor de carro de corrida, ator, chefe de cozinha, engraxate, e até vestido com a porra de uma faixa presidencial.

O cara era louco pra caralho. Comecei a ir em direção da porta da frente, mas vi Martin de pé perto de mim. Um sorriso enorme no rosto. Um sorriso maior do que é fisicamente possível de se dar. 

"Tudo certo?" Martin perguntou com os dentes cerrados. 

Estava diferente de antes. Ou eu estava haluciando, ou ele estava mudando diante dos meus olhos. Sua sobrancelhas estavam mais grossas, quase como se fossem pintadas. Seus olhos pareciam suavizados, como se o brilho e detalhes houvessem desaparecido. 

Não respondi, me virei e fui para o outro lado. Fui até o final do corredor, onde havia visto uma porta de correr de vidro. E era vidro de verdade. Abri e sai sem pensar para o quintal.

No chão haviam três cachorros. Três cachorros de plástico. 

Minha respiração ficou mais ofegante, meus olhos encheram de lágrimas. Eu só queria ir para casa. Olhei em volta procurando um jeito de sair de lá. Não tinha saída. Me virei de novo para a porta de vidro e Martin estava parado lá. 

"Tudo certo?"

Ele ainda estava sorrindo. Sua pele plástica brilhava como se estivesse coberta de óleo. 

"Eu gostaria de ir embora," falei com um expressão de dor. 

Martin de um passo em direção da grama.

"Tudo certo?"

"Não estou me sentindo bem e quero ir para casa."

Martin continuou se aproximando. 

Alarmes pareciam soar na minha cabeça. Peguei o spray de pimenta da bolsa e estiquei em sua direção. Quando continuou a se aproximar, lancei um jato em seu rosto, mas isso não parou. Continuava a andar na minha direção.  

Seu rosto mudou para uma expressão de raiva, seu sorriso parecia literalmente estar apenas de cabeça para baixo. 

Colocou uma mão no meu ombro e eu gritei, dando um soco em sua cara com toda a força do meu ser. 

A cabeça de Martin caiu. 

Não caiu simplesmente, caiu com um pop!, um barulho alto e curto, como se tivesse desencaixado por pressão. Havia um buraco em baixo de sua cabeça, e no corpo um pino longo onde devia estar o pescoço.

Berrei. Berrei bastante Seu corpo vagava cegamente, procurando a cabeça. 

O tempo de pensar tinha acabado. Corri de volta para casa, direto para a porta. Enquanto saia, pue jurar ouvir os três cachorros latindo. 

Peguei minhas chaves dentro da bolsa e entrei no carro o mais rápido possível. Tentei usar o GPS para sair de lá, mas não conseguia o sinal da 3G. 

Vaguei com o carro, procurando ajuda de alguém ou placas enquanto chorava. Não havia ninguém nas ruas. Finalmente encontrei um posto de gasolina e corri para dentro da lojinha, esperando encontrar algum funcionário. 

Limpei as lágrimas e entrei na loja de conveniência. Era bem pequena, menor do que qualquer lojinha que eu já vira na vida. Procurei por um caixa ou cliente, mas não tinha ninguém.

Enquanto olhava ao redor, vi itens que normalmente encontraria em qualquer posto de gasolina. Salgadinhos, doces, refrigerantes, cigarros, comidas congeladas. Todos era adesivos.

Toda prateleira e toda parede era coberta de adesivos para parecer com aqueles produtos. Novamente, sai correndo de lá. 

Eu não ligava mais. Sai dirigindo feito o capeta fugindo da cruz. Na contra mão, por cima de jardins, eu nem ligava. Só queria sair daquela Vila maldita do Amor. Não havia uma alma viva nas ruas. Finalmente reconheci uma estrada e segui por lá. 

Vários minutos depois, consegui sair da cidade para a rodovia. Estava em alta velocidade, saindo e voltando para minha pista. Era difícil ver entre as lágrimas continuas. Segui assim por muito tempo, até me acalmar e conseguir estacionar no acostamento.

Peguei meu celular, esperando conseguir sinal. E finalmente, a barrinha estava cheia. 

Haviam 47 mensagens de texto e 52 ligações perdidas de Karen. Falou que estava prestes a ligar para a polícia, e mandei uma mensagem dizendo que estava bem. Ela havia escrito algo que fez meu estômago se revirar. 

O endereço era falso. 

"Falso?" Respondi a mensagem. 

Não podia ser. Eu tinha colocado no Google Maps e havia me mandado diretamente até Martin. Não podia ser falso. 

Coloquei o endereço novamente no Google Maps para conferir o que eu tinha certeza. Para minha surpresa, não havia resultados. Meu coração acelerou enquanto recebia aquela novidade. Todas evidências da existência daquele lugar tinha sumido. Não podia ser real. 

Não entendi o que tinha acabado de acontecer comigo. Nada parecia real. Um cara falso e uma cidade falsa. A experiencia mais aterrorizante da minha vida e eu não tinha nenhuma prova de que acontecera. 

Pensei em voltar para tirar fotos do lugar. Para ter uma prova de que não era louca. Mas a ideia de me forçar a reviver aquele pesadelo me deu vontade de vomitar. 

Fechei os olhos e respirei fundo. Acima de tudo, estava feliz por poder voltar para casa. Para um lugar onde as coisas fazem sentido. Não sei quanto tempo fiquei parada, de olhos fechados, com as mão no volante até que meu celular vibrou no meu colo. Desbloqueei a tela, esperando ser uma mensagem de Karen. 

Mensagem de Martin:

Eu só queria te alisar.

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

24 comentários :

  1. "Eu só queria de alisar?" não entendi ué..
    SCR Q DESCONFORTANTE LER, NÃO POR SER RUIM, MAS É TÃO AAAAAAAAAA SLA SO QUERIA QUE ELA SAISSE LOGO DAÍ

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Em inglês faz mais sentido, mas o que ele queria dizer é que ele queria deixar a sua pele lisa como a dele, assim a transformando em uma boneca também

      Excluir
  2. Lembrei de um episódio do Bob esponja em que ele vira "normal" kkjkkjjk creepy sinistra!

    ResponderExcluir
  3. Muito boa história, assim como a maioria que o pessoal traz. Sou leitor assíduo do Creepypasta Brasil haha.

    Tenho uma dica: atentem-se mais aos erros de português. "Chego" e "gorfadas" não existem, o certo é "chegado" e "golfadas". Essa última palavra talvez tenha sido escrita de um jeito mais coloquial propositadamente, mas erros nos tempos verbais realmente são incômodos.

    No mais, parabéns pelo trabalho de vocês e valeu por mais um ótimo conto!

    ResponderExcluir
  4. Me lembrou daquele filme com a Paris hilton, casa de cera acho

    ResponderExcluir
  5. Interessante... Quem imaginaria que ela iria encontrar uma vila de bonecos.
    Nesse ponto, quem se lembrou do clipe "Dollhouse" da Melanie Martinez? Esse conto me parece bem inspirado na ideia do vídeo?

    ResponderExcluir
  6. Mas genteee 😱 adorei! Americano parece que ja nasce com dom p/ escrever creepy, incrivel.. parabens pela escolha super criativa... 10/10 😊

    ResponderExcluir
  7. carai curti mt kk
    mas achei o final do "queria te alisar" estranho xD

    ResponderExcluir