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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 8)

22 comentários
PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4
PARTE 5
PARTE 6 
PARTE 7



Olá pessoal,

Desculpas pelo atraso na postagens mais recentes. Se eu pudesse dedicar todo o meu tempo para encontrar Alice, eu o faria. Infelizmente, preciso trabalhar o máximo de trabalho que puder agora na época do Natal, especialmente agora que decidi que não posso continuar essa investigação de dentro do meu apartamento em Londres.

Tenho pensado nisso por um tempo e decidi que, depois do Natal, estarei viajando pelos Estados Unidos para acompanhar as pistas que vocês forneceram. Espero que uma vez que eu esteja lá, possa ser capaz de fazer algum progresso de verdade.

Enquanto isso, por favor, continuem mandando todo e quaisquer ideias sobre isso, por menor que seja. Eu sempre leio tudo.

Ok, aqui está a próxima entrada:

O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 14/02/2017

No breve interlúdio antes de atingir o chão, me vejo sozinha com as estrelas.

Quando caio para trás em direção à encosta, meu olhar se eleva, encontrando o céu noturno, sinto uma repentina falta de peso, como se estivesse tendo uma audiência com os céus. O firmamento rico e interminável brilha através do dossel, sem luzes terrestres para enfraquecer seu brilho. Apesar de tudo o que aconteceu, não consigo ignorar o quão magnífico aquilo me parece, totalmente diferente da feiura lá de baixo. Embora o momento não dure mais do que um segundo, pareceu mais longo, como se eu tivesse sido presenteada com uma folga passageira, um intervalo transitório de tempo para apreciar o cosmo calmo e quieto. Um momento para escapar, ainda que brevemente, dos eventos que estão por vir.


Não sei quanto tempo durou. Acho que nunca saberei. Foi uma sensação de genuína tristeza que me afasto daquela vista, torcendo meu corpo no ar. As estrelas desaparecem e fico olhando para baixo, para as profundezas escuras e intransigentes do vale. Minha comuna com os céus terminara e voltei para a terra fria e implacável.

Mas parece que não sou bem vinda ali.

Eu bati contra a encosta, imediatamente saltitando de um ombro e aterrissando no outro, rolando morro abaixo com uma força imparável. Meu corpo inteiro é jogado pelo caos, jogada em uma dança frenética e incontrolável, arrastada pela terra, correndo em direção ao impaciente vale do chão.


A parte de trás do meu tornozelo se choca contra uma rocha dura e irregular. Meu rosto se arrasta por um pequeno arbusto de urtigas, suas folhas cáusticas raspando contra a minha bochecha. Luto para que minha descida seja mais sera o possível, minhas mãos agarrando a vegetação rasteira, arranhando a terra em uma busca frenética de estabilidade.

As pedras e a terra caem ao meu redor enquanto me coloco de costas, finalmente conseguindo descer com os pés apontados para baixo. Recuperei o controle a tempo, olhando para frente, vendo uma grande árvore, saindo da encosta alguns metros abaixo de mim. Uma fração de segundo antes que de colidir com o tronco grosso e nodoso, eu me joguei para o lado, meu pulso ricocheteando contra a madeira dura, disparando uma dor aguda por todo meu braço.


O pé do vale entra em cena, avançando em minha direção enquanto eu caio através da vegetação rasteira. Pude distinguir os corpos dos cervos que fizeram a mesma jornada perigosa que eu. Pude ouvir o zurro doloroso dos sobreviventes, gemendo em resignação enquanto lutam para ficar de pé sobre as pernas quebradas.

Um momento depois, me junto a eles.

A inclinação não era nivelada gradualmente. Pouco antes do chão, a inclinação acentuada pela qual eu atravessava sem esperança vira um terreno rochoso. Antes que eu possa parar, sou lançado da encosta, chutando a terra no ar. Passo os últimos três metros em queda livre, antes de pousar em minhas mãos e joelhos, todo o meu corpo em uma uma parada absoluta.

Meu corpo ficou tenso e dolorido, e me levantei do chão. No segundo em que me ponho de pé, um feixe de luz de  lanterna atinge o chão à minha direita. Com meus músculos reclamando, pulei de volta contra a parede de pedra enquanto a luz se movia em minha direção, varrendo o local onde acabei de pousar.


Bluejay estava me procurando. Não esperava menos dela. O feixe desliza pelo chão, examinando a base da encosta, iluminando os corpos retorcidos dos inúmeros cervos. Felizmente, a sombra projetada pela parede de pedra me oferece uma espécie de santuário, protegendo-me da luz perversa da lanterna.

Cerca de meio minuto depois o raio sobe através das árvores e some.

Eu não acho que ela virá atrás de mim. Certamente não creio que irá descer a ladeira. Talvez pudesse voltar andando pela estrada, pegando uma rota mais suave em declive, e me perseguir pelo vale quando nivelasse a estrada, mas essa caminhada provavelmente levaria meia hora. Mas se eu fosse ela, não ia querer deixar o Wrangler desprotegido por tanto tempo.


Apesar do fato de não estar mostrando sinais de que entraria no vale, Bluejay está claramente ansiosa para me achar. A lanterna de repente ilumina o solo úmido à minha frente enquanto apontava novamente para o vale. Suspeito que ela tinha desligado a luz por um pouco de tempo só para eu achar que já estava sozinha, para que eu saísse do meu esconderijo. Também suspeitei que, se a luz da lanterna me encontrasse vagando pelo chão do vale, uma bala rapidamente a seguiria, me derrubando como um cervo. A partir desse ponto, tudo o que ela precisaria fazer seria descer e tirar a chave do Wrangler dos meus dedos frios e flácidos.

Tentando voltar com a minha respiração normal, com minhas costas pressionadas contra a parede de pedra áspera, eu divago sobre minhas prioridades atuais. Precisava estabilizar Rob, precisava atrair Bluejay para longe do Wrangler, e, o mais urgente, eu precisava entrar em contato com Lilith.

Coloco a mão na parte de trás da cintura, minha mão procurando meu walkie talkie. Meus dedos tocam o jeans, encontrando um espaço vazio onde o transceptor deveria estar. Meu estômago embrulha enquanto eu procuro-o nas minhas costas. Não estava lá. Eu estava com ele quando eu caí pela encosta, mas em algum momento durante a minha descida violenta, deve ter se voado para longe de mim.


A luz da lanterna volta mais uma vez.

Embora seja algo que nunca pensei que teria que fazer, me peguei fazendo um inventário mental dos transceptores de rádio do comboio. Antes de sairmos pela estrada, Rob entregou um walkie talkie para cada um de nós. Desde então, posso presumir que os que pertencem a Ace, Apollo, Eve, Bonnie e Clyde não estão mais em jogo. Lilith deve ter perdido o dela quando o carro se afundou no asfalto, e é por isso que eu dei a ela o de Rob antes de entrar na floresta. Isso só deixou o meu, que poderia estar em qualquer lugar na encosta, e também o de Bluejay.


A luz da lanterna desaparece mais uma vez.

Cautelosamente me inclinei para fora das sombras, examinando a floresta ao meu redor. O walkie talkie de Bluejay estava em seu carro quando a criança o empurrou para fora da estrada. Se estiver correto, o transceptor dela é o único que posso usar para entrar em contato com Lilith. O carro em si não parece estar em nenhum lugar perto de mim, mas quando virei a cabeça e examinei a encosta escura, pude vê-lo repousando na encosta. O carro inteiro foi parado em meio voo, repousando precariamente de lado, desmoronado ao redor do tronco de uma árvore velha e maltratada.

Se eu queria entrar em contato com Lilith, teria que subir lá.

Ando encostada na rocha até que o carro de Bluejay fique quase diretamente acima de mim. Me virando e correndo as mãos contra a parede úmida, sou capaz de discernir alguns apoios. Colocando meus dedos em um grande sulco acima da minha cabeça, apoio minha bota em uma pequena protuberância logo acima da parede e me puxo para cima.

Não foi uma subida fácil. Minhas mãos estavam frias, meus braços estavam cansados e certamente não estava usando os sapatos certos. Minhas botas escorregavam diversas vezes dos apoios, fazendo meus braços latejarem enquanto eram forçados a suportar meu peso. Depois de sofre com os dois primeiros metros, fico sem lugares para colocar minhas mãos, meus dedos não conseguiam passar os 25 centímetros que faltavam até o topo. Tento recuperar o ar rapidamente, deixando ambos os braços esticados enquanto me inclino para trás e observo a parede acima de mim. Quando a luz da lanterna aparece mais uma vez, iluminou uma pequena raiz retorcida na beira do penhasco.

Eu não tinha ideia se conseguia alcançá-lo, e havia chances de que ele cedesse no momento que recebesse meu peso, fazendo com que eu caísse impotentemente de volta à terra. No entanto, eu já podia sentir as minhas mãos enfraquecendo, uma dor perceptível nos antebraços. Não iria conseguir ficar naquela posição por muito mais tempo, e eu suspeitava que não teria energia para chegar tão longe de novo. Colocando meus pés mais na ponta do apoio, arranhei o lado da minha bota contra a parede até que ela ficasse no lugar com firmeza. Eu dobrei ligeiramente minhas pernas, me equilibrando para dar o salto. Rangendo meus dentes, prendendo a respiração, eu me impulsionei no ar e soltei a parede.

Me sentia vulnerável de um jeito que me embrulhava o estomago, pendurada com um pouco mais esperança do que nada além de uma queda terrível ou uma escalada angustiante a minha espera. Joguei meus braços para frente conseguindo agarrar a raiz com as duas mãos. Uma fisgada pesada irradiou pelos meus ombros, ameaçando me jogar de volta para o chão. Só  o medo e adrenalina sozinhos conseguiram manter minhas mãos firmes, meus braços em chamas enquanto balançava minha perna procurando apoio, prendendo meu calcanhar depois de algumas tentativas desajeitadas.


Eu me puxei para cima, bem a tempo da luz da lanterna começar a circular de volta para mim.

Com uma onda final de força, empurrei meu corpo dolorido para cima e lutei para subir na árvore mais próxima, caindo em sua base e pressionando meu peito contra o tronco. A luz passou de um lado para o outro rapidamente. A sombra escura da árvore se deslocava da direita, me cobrindo, e depois desaparecendo novamente à medida que se estendia para a esquerda. A luz me deixava na escuridão, mas certamente voltaria em breve enquanto Bluejay continuava sua vigilância frenética.

Começou a chover um pouco. Umas gotículas esporádicas caiam esparsamente através da copa e pousando na palma estendida da minha mão. Não demorou muito para que essas solitárias gotas fossem reforçadas por uma chuva constante, batendo contra as folhas e a grama, encharcando o chão lamacento. A inclinação que já era maquiavélica por si só, agora molhada ficaria inescalável se a chuva tivesse tempo suficiente para ensopar a grama e a terra. Eu também duvidava que conseguiria fazer a escalada inicial novamente, especialmente se a parede de pedra ficasse coberta por uma camada de água gélida.

Por mais que eu tenha que me mover rapidamente para o carro, também precisava me mover com cuidado. Estava cada vez mais claro que esta seria minha única chance de pegar o walkie talkie.

Era uma pequena escalada até o veículo. Eu posso ver que a parte de baixo estava encostada na árvore, todo o lado esquerdo do veículo pressionado  contra o chão. Só agora que estou próxima eu escuto o som rangente que vem do carro, enquanto ele balança quase imperceptivelmente ao redor de um pequeno eixo.

Esperei que a luz da lanterna passasse por mim mais uma vez antes de sair da sombra da árvore. Com minhas mãos cobertas de terra, agarrando-me a qualquer ao meu alcance, subo o banco em direção ao veículo de Bluejay. Meus pés escorregavam na grama a cada passo enquanto a chuva penetrava no chão, encharcando minhas roupas.

Estou completamente exposta enquanto caminho em direção ao carro. Embora continue sendo uma preocupação constante, a lanterna parece estar explorando outra seção da colina enquanto chego embaixo do chassi, a parte de baixo do carro pendendo sobre mim. Olhei brevemente para cima para checar os movimentos do Bluejay, então, lentamente, me firmo contra a inclinação, escalando mais uma vez. Me puxo para cima até que fiquei alinhado com o capô retorcido. 

O transceptor do Bluejay ainda estava preso em seu suporte. Apesar do carro estar destruído, o pára-brisa estava frustrantemente intacto, com nada mais do que um pequeno buraco irregular quebrado perto do centro. Demoraria um pouco e teria que me esforçar um pouco, mas devia ser o suficiente para alcançar o rádio e puxá-lo. Lentamente, e cautelosamente, eu enfiei meu braço pelo centro da abertura, pedaços de vidro serrilhado circundando minha pele. Minha mão alcançou o painel, lentamente roçando por sua superfície em direção ao walkie-talkie enquanto me inclino para o carro.

A luz da lanterna começou a se mover novamente pela colina. Bluejay estava andando ao longo da borda em uma missão frenética de me encontrar. Na minha posição atual, aberta e presa naquele processo lento e delicado, não havia como sair de seu caminho a tempo.


Minha mão apertou o botão do rádio quando a luz chegou em mim. Embora eu tenha vergonha de admitir isso, por um breve momento, afoguei-me no brilho revelador da lanterna e me senti atordoada. A luz parou de se mover, fixada diretamente em mim, lançando minha sombra no vale. Posso imaginar o olhar triunfante de Bluejay enquanto sua busca desesperada finalmente foi recompensada.

Voltando aos meus sentidos tarde demais, cerrei os dentes e arranquei o walkie-talkie de seu descanso. Sem tempo para gracinhas ou para tomar o devido cuidado, tirei meu braço do pára-brisa, arfando bruscamente quando um pedaço de vidro pontudo cortou as costas da minha mão.


Acontece que eu tinha coisas muito mais importantes para me preocupar, pois ouvi um estrondo alto vindo do topo da colina, seguido instantaneamente por um som de um zumbido repugnante que passou raspando pela minha orelha. Recuei instintivamente por causa do barulho, minha reação repentina fazendo minhas botas deslizarem abaixo de mim. Caí de lado no chão e rolei colina abaixo. Com o pouco controle que eu tinha da situação, dei meu melhor para rolar para debaixo das sombras do carro e sair da luz. ão tive tempo de me endireitar enquanto era arrastada caoticamente, novamente indo para o pé da encosta. 

A base do vale aparece na minha visão segundos antes de meu corpo colidir na mesma. O ar foi arrancado de meus pulmões, minha tentativa de choro formando uma lufada de névoa que rapidamente se dissipou no ar da noite fria. Fiquei deitada de lado, com o rádio agarrado nas mãos. Tinha conseguido mantê-lo comigo, pelo menos.

A luz dançava perturbadoramente pelo local onde eu me encontrava. Levantei e arrastei meu corpo os metros restantes que faltavam, desabando contra a parede enquanto o clarão iluminou o chão à minha frente. Enquanto levantava o rádio até o rosto, percebi que minhas mãos tremiam violentamente. Acho que nunca estive tão perto da morte quanto quando aquela bala passou raspando pelo meu rosto e, embora o som tivesse se dissipado rapidamente, parecia ainda ecoar dentro do meu crânio. Bluejay havia atirado em Rob em uma tentativa de negociação, para sairmos de dentro do Wrangler. Para mostrar sua força. Que estava em posse do poder do jogo. A bala que disparara em minha direção não tinha nenhuma nuância, nenhuma pretensão, nenhum objetivo a não ser de me matar.

Bluejay estava preparada para me matar, o que quer dizer que está preparada para matar qualquer um de nós. Levantei o rádio, e mudei os canais até encontrar a frequência de Rob. 

AS: Aqui é Bristol para Lilith. Bristol para Lilith. Está me ouvindo?

O rádio chiou quando soltei o botão. Esperei vinte intermináveis segundos pela resposta de Lilith. Mas não me respondeu. 

AS: Aqui é Bristol para Lilith. Consegue me ouvir?

Dessa vez deixei passar um minuto. Ainda nada. Tudo pelo o que eu havia lutado desde que mergulhara no vale tinha sido colocado contra uma parede de silêncio. Senti a frustração se inchando no meu peito. 

Não era justo. 

AS: Jen... Jen, você está aí?

Mais um minuto se passa. Fico sentada em silêncio o tempo todo, observando enquanto o rádio por qual eu havia arriscado minha vida se transformava em um pedaço de plástico inútil. Depois eu tempo, minha mão se abre e deixo que caia no chão macio e úmido. 

Levei minhas pernas para perto do meu peito e abracei-as, descansado a cabeça contra os joelhos. Naquele momento de descanso, minha respiração parece superficial. Lágrimas frescas começam a se formar em meus olhos, escorrendo pelo rosto. A chuva cai em minha volta enquanto choro fracamente, sentada no meio de uma floresta escura, coberta de terra, machucada e sozinha.

Sou arrancada do meu momento melancólico quando a chuva começa a cair de todas as direções possíveis, batendo contra meu rosto, respingando contra as rochas com uma força incrível. O vento explode em um som violento porém familiar para mim. 

VOZ: Eu venho assistindo seus esforços. 

Tão de repente quanto chegou, a voz some. O vento se aquieta e a chuva começa a cair verticalmente de novo.

AS: Olá?! Olá?! Quem é você?! 

O ar estava parado, não se ouvia nada além da chuva. Sequei as lágrimas do meu rosto enquanto falava com o nada. 

AS: Pode me ajudar? Por favor, você... só...

A voz havia sumido, e suspeitei que não a ouviria em breve. Talvez só queria deixar claro que estava me observando. Mas uma coisa é certa, se essa voz está fazendo uma tentativa de me confortar, ou fazer-me sentir menos solitária, então seus métodos são horrivelmente inafetivos. 

LILITH (VOZ): Alice, você está aí?

Meus olhos se fixaram no rádio.

LILITH (VOZ): Alice, você ainda está aí? Desculpa, eu não consegui...


AS: Jen! Jen, você está bem? Você está segura?

LILITH (VOZ): Sim, estou bem, achei que você tinha... o que aconteceu?

AS: Eu, hm... Eu pulei ribanceira abaixo, peguei o rádio do carro de Bluejay, ela atirou em mim... e você, como te passado?

LLITH (VOZ): Ela enlouqueceu pra caralho. Consegui encontrar uma clareira na floresta. É reto na direção do carro, pelo menos espero que seja. Eu ainda não vi... aquela coisa por aqui. 

AS: Bem, é uma floresta enorme. Vamos esperar que esteja bem longe. Consegue ficar perto da clareira?

LILITH (VOZ): Ahan, consigo ficar escondida aqui por perto. O que você vai fazer?

AS: Vou ir até você e nós vamos tirar Bluejay de perto do Wrangler. 

LILITH (VOZ): Como?

AS: Ainda estou trabalhando nisso. Estou cerca de trinta minutos de distância. Mantenha seu volume baixo mas continue em contato, tá bom?

LILITH (VOZ): Tá. Tá bom... farei isso. Estou feliz que você está bem, Alice. 

AS: Você não sabe como é bom ouvir sua voz. Até mais, Jen.

Prendi o rádio no cós da calça. Meu corpo ainda doía da queda, o sangue pingando lentamente da minha mão, meus dedos quase dormentes por causa do frio. Mas, ainda assim, ouvir a voz de Lilith me trouxe de volta algo que eu havia perdido no vale. Uma sensação de resolução que impulsionava meus músculos cansados, que m levantava e me guiava de volta ruma a estrada. 

Eu ainda estava presa no meio de uma floresta escura, ainda estava coberta de lama, machucada, mas não estava mais sozinha. 

Não demorou muito para minhas botas tocarem o asfalto. Segui a estrada, mantendo-me na linha das árvores enquanto subo novamente a colina. Me sinto relutante em me colocar à vista do Wrangler, onde certamente Bluejay estaria acampada, me esperando. Infelizmente, é o único ponto de referencia naquela maldita e interminável floresta para encontrar Lilith.


Assim que a estrada se nivela, tomo mais cuidado para ficar mais oculta entre as árvores. Está quase impossível de ver a estrada agora, mas preciso ficar escondida dos olhos de Bluejay. Mesmo estando poucos metros longe do asfalto, o bosque me cobre com uma sensação palpável de desconforto. Todas as sombras parecem ser predatórias, todo graveto que estala embaixo dos meus pés soam como um estalo de um chicote. 

Quando o Wrangler se tornou visível, Bluejay não estava em lugar algum onde meus olhos alcançavam. Com a curiosidade tirando a maior parte do meu juízo, me aproximo da estrada, observando a cena enquanto as árvores se tornam menos densas. O lugar está deserto, nem Bluejay nem Rob estavam por perto. Não faço ideia o que poderia ter levado-a a tirá-lo dali. Talvez ele tenha escapado. 

Algo está errado. 

Me aproximando lentamente do Wrangler, vi que o vidro do lado do passageiro estava quebrado, milhares de cacos de vidro espalhados peo chão, amontoados na lama. O porta-luva estava aberto, a caixa de munição provavelmente estava vazia ou nem se quer estava mais lá. A próxima coisa que notei fez meu sangue correr gelado, e me forcei a amaldiçoar a minha própria burrice. 

A luz da caixa do rádio transmissor estava acesa. 

Quando estava lá em baixo no vale, tinha calculado corretamente o número de rádios ativos, chegando a conclusão que apenas eu e Lilith poderíamos nos comunicar. Tecnicamente, estava certa, nó éramos as únicas que podíamos falar, mas isso não significava que éramos as únicas que podíamos ouvir. Eu havia esquecido que a caixa do rádio no carro de Rob tinha sua própria bateria, e com isso, caixas de som embutida. E mais importante, durante toda a viagem ele tinha usado-o para comunicar-se e receber notícias dos outros carros.

Mudei a frequência no radio para um canal qualquer, então levei-o até a boca e apertei o botão. 

AS: Bristol para todos os carros. 

Minha voz soou pelas caixas de som dentro do carro. Bluejay devia saber que eu tinha a intenção de me comunicar com Lilith, e tinha arrombado o carro para espionar nossa conversa. Não consigo acreditar que não havia pensado nisso antes.

Voltei para a frequência de Lilith.

AS: Lilith, você precisa sair daí. Bluejay nos ouviu. Ela não está ouvindo agora, mas sabe que estou indo me encontrar com você na clareira. Venha para cá, ok? Lilith, você está me ouvindo?

BLUEJAY (VOZ): Me de a merda da chave, Alice. 

Meu coração despencou. Agora fazia sentido o motivo de Bluejay não estar cuidando do Wrangler. Ao ouvir nossa conversa, tinha feito a decisão de ir atrás de Lilith ao invés de me esperar. Apesar de todos meus esforços, todas minhas boas intenções, eu levei Bluejay até ela. 

AS: Bluejay, cadê a Lilith?

BLUEJAY (VOZ): Ela está aqui.

Ouvi um choro fraco de fundo, posso entender que Lilith tentava chamar pelo meu nome fracamente. 

AS: Tá bom, tá bom... deixa eu falar com ela. 

BLUEJAY (VOZ): Que? Não, não. Você não vai me enganar de novo, Alice. Você perdeu seus poderes de deliberação. A única coisa que vai fazer é trazer a porra da chave do meu carro, e depois vocês podem ir para casa andando. O que mais precisa discutir? 

AS: Bluejay, isso não é... nós não somos seus inimigos, tá bom, Denise? Por favor... por favor, você tem que acreditar em mim...

BLUEJAY (VOZ): Você acha mesmo que eu vou acreditar em uma mísera palavra que sair da sua boca imunda? Me dê a porra das minhas chaves e se você tentar qualquer coisa eu vou meter uma bala na sua cabeça. Você acredita nisso agora?

Ela esperou pacientemente pela minha resposta. De repente, sinto como se estivéssemos em um mundo totalmente novo. Bluejay estava com a vantagem, e sob a constante ameaça dela não estar nem aí para qualquer consequência inimaginável, estávamos sob seu domínio. Razão, diplomacia e sanidade já não controlam nossos processos. Enquanto tiver Lilith na mira daquele rifle, estou atada a sua loucura. 

AS: Tá. Estou indo. 

BLUEJAY (VOZ): É bom mesmo. Você tem que lembrar, Alice, eu não queria que nada disso acontecesse. Você que me trouxe aqui. 

Bluejay soltou o botão, e deixo o silêncio familiar me abraçar. Se eu não entregar as chaves, Lilith estará sob seus cuidados e, embora eu não ache que esteja disposta de matar a sua mercadoria de troca, não tenho dúvidas que seja capaz de machucá-la tanto quanto for necessário até me forçar a dar o que quer. Mas se eu deixá-la levar o Wrangler, de qualquer formas nós duas estaremos mortas. 

Fiquei um tempo pensando nas minhas opções. Não demorou muito. Não há muitas delas. 

Minha jornada pela floresta é desconfortável, e parece soar como um ponto final inquietante. Como uma criança andando em direção a uma repreensão inevitável, sou coberta de um medo perverso que vai crescendo a cada passo. Dou meu melhor para me manter na linha do Wrangler, andando em linha reta pela floresta. No final das contas, levei menos de cinco minutos para encontrar a clareira.

Bluejay estava parada bem no meio do espaço, deixando espaço o suficiente de todos os lados para evitar quaisquer emboscadas que eu pudesse conceber. A lanterna de Rob está no chão perto de seus pés, e tinha as duas mãos bem ocupadas segurando o rifle. Lilith estava ajoelhada do seu lado, a arma encostada na sua têmpora, o rosto manchado de lágrimas contorcido em uma mistura de desespero e ódio profundo. Suas mãos estão pousadas em seu colo, seus pulsos presos com o mesmo tipo de amarras que eu havia usado em Bonnie. Podia até imaginar como Bluejay havia se sentindo poeticamente justiceira ao ordenar que Lilith prendesse os próprios pulsos.

As duas me olham assim que eu saio por entre as árvores. 

BLUEJAY: Você está atrasada. 

AS: Eu me perdi. Lilith, você está bem?

BLUEJAY: Pare de andar. Pare de andar!

Bluejay segurou o rifle com mais força, mandando para mim uma mensagem que não podia ser ignorada. Queria que eu ficasse a uma distância considerável. Ela sabia que levava um ou dois segundos para carregar o rifle, e queria que eu ficasse distante o suficiente para ter pelo menos dois tiros consecutivos. Tudo que faz, cada ação que planeja, demonstrava que estava muito bem preparada contra nós, e nada tomaria seu lugar. 

AS: Lilith, você está bem?

LILITH: Eu... eu estou bem. Estou bem. 

BLUEJAY: Passe as chaves, Alice.

AS: Bluejay, leve-a com você. Por favor. Você não precisa deixá-la... você pode deixá-la em uma delegacia assim que chegarem em casa. Mas por favor, leve-a para caa. 

BLUEJAY: Me dê a porra das chaves.

AS: ... Tá. Estão nas minha mochila, deixa eu só-

BLUEJAY: Ei! EI! O que você está fazendo?

Bluejay gritou para mim enquanto tento pegar a mochila das costas, pressionando o rifle contra a cabeça de Lilith com mais força. Lilith começou a chorar mais desesperadamente enquanto o metal bate repetidamente no seu crânio. Tirei as mãos da mochila, e tiro lentamente dos meus ombros. Todos meus movimentos são considerados ameaçadores para ela. 

AS: Tá bom, tá bom, tá bom. 

Balancei a mochila lentamente e a joguei na direção dela, pousando na terra molhada cerca de um metro das duas. 

BLUEJAY: Melhor assim.

Bluejay avança, momentaneamente deixando o cano da arma escorregar da têmpora de Lilith. Ela rapidamente se abaixa e coloca a bolsa por cima do ombro, pegando a chave do Wrangler e colocando no bolso da jaqueta. Nos fugazes segundos de distração, vejo Lilith levantando as mãos acima da cabeça e balançar os cotovelos para os lados em um único movimento fluido.

A algema de tiras de plástico se arebenta, e sem perder um segundo Lilith se jogou em Bluejay, agarrando sua cintura por trás e tentando jogá-la ao chão. Chocado com a rapidez de tudo, mas ciente de que esta pode ser a nossa única chance, me vi correndo pela clareira em direção delas.


Bluejay havia sido pega de surpresa após o ataque de Lilith, mas ela se adaptou rapidamente à situação. Plantando um pé na frente para sustentar seu impulso repentino, evitou ser derrubada. Ao mesmo tempo, ela balança o cabo do rifle para o lado, que bate com um barulho repugnante no rosto de Lilith.

BLUEJAY: Sua puta desgraçada!

Lilith cai de costas, tonta e machucada. Sem hesitar, Blujay pega o rifle e dá um tiro na barriga da garota. 

Me sinto presa aquele momento, como se a própria realidade estivesse surpresa com a loucura que se instalou naquele local, sem saber o que fazer a seguir. O som do tiro ecoa pela minha consciencia, e ainda assim parece distante, de outro mundo. Não conseguia falar, meus lábios inutilmente separadas enquanto os gritos de Lilith ressoavam por toda clareira. 

AS: O que você fez.... o que você-

Bluejay começou a se afastar de Lilith rapidamente, colocando alguns metro entre nós duas enquanto se atrapalhava ao recarregar. Estava certa em me manter à distância desde o começo, assim deu a si mesma tempo o suficiente para colocar uma segunda bala dentro da câmara e ajustá-la em posição.

BLUEJAY: Sem mais truques, Alice.

Antes que eu pudesse perceber, corri em uma disparada final e desesperada, jogando lama molhada para atrás de mim enquanto eu corria em direção ao abrigo da linha das árvores. Pude imaginar Bluejay nivelando o rifle, baixando-o para altura dos olhos.

Outro tiro ecoou através do ar gelado, viajando pelo ar selvagemente e perecendo com um baque distante. Quando cheguei à beira da clareira, me joguei atrás de um tronco grosso da árvore mais próxima.Pressionei minhas costas contra a casca áspera, enquanto prestava atenção para qualquer som atrás de mim. 


Galhos estalavam em baixo dos pés de Bluejay enquanto avançava em minha direção.

BLUEJAY: Isso é culpa de vocês! Vocês que criaram toda essa situação com suas mentiras e truques e a merda de seus joguinhos. Bem, eu não estou jogando mais, porra!

Um tiro foi disparado em direção das árvores, ricocheteando nas árvores em direção da floresta, conseguia ouvi-la troteando em direção da minha posição, equilibrada e pronta para atirar assim que me visse. 

BLUEJAY: Você continuou mentindo e mentindo até o fim. Tudo que você fez, tudo que você é, você é um monstro! Vou meter uma bala na sua cabeça e não sentirei remorso nenhum!

Desde o primeiro momento que ela abrira a boca, cuspindo seu cinismo amargo e dogmático em nosso grupo, eu esperava que Bluejay percebesse que estava errada. De vez em quando, em momentos de quietude, eu me pegava fantasiando sobre qual seria o fenômeno berrante e esotérico que calaria sua boca e iria forçá-la a aceitar a verdade. Naquele momento eu percebia que tal momento jamais aconteceria, que nada pode atravessar sua parede de auto-ilusão. Era um caso perdido para nós, perdida na estrada; uma mulher destruída, enlouquecida por sua própria racionalidade.

Escorreguei a mão para dentro do bolso. 

AS: Quer saber, Bluejay? Eu acredito em você.

A próxima coisa que ouvi foi um leve toque monofônico nostálgico, e então um estrondo repentino e ensurdecedor.


No breve tempo em que tive, andando tensamente pela floresta até Bluejay, eu tinha usado uma das facas de Rob no bloco de C4, cortando quase tudo ao redor da tampa de detonação. O bloco estava pesando menos de um quilo quando eu o coloquei em um bolso da minha mochila e abotoei-o. Quando Bluejay pediu a chave, eu me certifiquei de pegar minha bolsa com entusiasmo, eu tinha a certeza de que veria minha ansiedade como uma armadilha em potencial, me dando a chance de lhe jogar a mochila.

Ela não confiava em mim, e isso tornou-a previsível. 

Sai de trás da árvore e olhei em sua direção de Bluejay, deitada no chão da clareira, uma grande parte de seu estômago explodido pela bomba, seu braço, ombro e coxa virtualmente inexistentes. Respirava com dificuldade enquanto o sangue preenchia suas vias aéreas. 

BLUEJAY: Eu estava cer... E-eu esta...

Me afastei dela, e corri na direção de Lilith. Cai de joelhos ao seu lado, segurando uma de suas mãos. Ela apertou meus dedos fracamente, seus olhos já desfocando, fechando e abrindo em intervalos cada vez mais breves. 

AS: Olá, Jen...

LILITH: O-oi, Alice.

Falava suavemente, suas palavras mal passavam o zunido constante dos meus ouvidos. 

AS: Tente ficar acordada, Jen. Você vai ficar bem, tá bom? Vamos parar o sangramento e fazer um curativo... lá no Wrangler. Temos a viagem pra Roswell... na primavera. Assim que você melhorar, nós vamos juntas, tá?  Jen? Jen...

Quando abriu seus olhos novamente, o olhar que meu deu foi de pura bondade, com um entendimento de quebrar o coração. Não consegui evitar de lembrar daquele nosso momento no penhasco, olhando o vasto oceano de campo. Tinha me perguntado quantas pessoas já haviam morrido ouvindo mentiras reconfortantes. Perguntou também quantas delas sabiam. Não posso dizer sobre mais ninguém, mas enquanto me olhava, me calando com um olhar, eu sabia que ela sabia. 

LILITH: Eu queria ter sido sua amiga por mais tempo. 

Eu não consigo falar, todas as palavras do mundo parecem insignificantes demais, fúteis, pequenas demais para serem as últimas palavras a ouvir em vida. Tudo que consegui fazer foi ficar olhando nos olhos dela enquanto sua respiração era diminuída a pequenas nuvens de vapor, que iam cada vez ficando menores, até que sumiu por completo. 

Coloquei sua mão no chão, desentrelaçando nossos dedos. 

Minhas pernas me carregaram até Bluejay. Minha mão escorregou dentro de seu bolso e peguei a chave do carro. O metal estava retorcido de uma maneira que jamais caberia na ignição. Esse era um dos motivos por qual eu queria usar a C4 como última opção, usaria só se minha vida estivesse inegavelmente em perigo. A bomba fizera seu trabalho, eu estava viva, mas ainda estava presa naquela floresta. 

Mas eu não conseguia ligar para aquilo naquele momento. Minha mente estava entorpecida demais para se preocupar com o conceito de sofrimentos futuros, sem espaço para contemplar as provações em potencial do amanhã. Os horrores do presente eram difíceis o suficiente de se enfrentar, minha mente eclipsada por mais trevas do que podia processar. O único resplendor cintilante de consolo que podia reunir vem da crença de que agora já tinha presenciado todos os temores que a noite tinha a oferecer.

Enquanto me virei na direção em que o Wrangler estava, vejo que mais uma vez estava errada. 

Permaneci imóvel enquanto a criança deformada saia da linha das árvores. Estava obviamente diferente, agora era uma malformação de retalhos da adolescência, idade adulta e velhice. O rosto, no entanto, ainda era juvenil e cheio de uma tristeza inocente, enquanto se arremessava em direção a Bluejay com suas pernas de tamanho diferentes.


Não pareceu ter me notado. Me afastei de Bluejay e fui devagar em direção a Lilith, onde a lanterna de LED de Rob ainda estava no chão.

A criança chegou até Bluejay, observando-a silenciosamente, aquela cena mutilada. Com minha audução prejudicada, consigo distinguir um choro angustiante. Continuei a me afastar enquanto ele levanta o braço sem vida de Bluejay, balançando-o violentamente em uma tentativa frustrante de animá-la. 

Lágrimas frustradas correram pelo se queixo, e a criança joga o pulso morto de Bluejay de volta para o chão. Quando tira seu olhar do corpo despedaçado, olhou para mim, e vi suas expressões de uma doce inocencia se transformarem em uma raiva juvenil, demonstrando a angústia de uma birra que poderia destruir qualquer coisa em seu caminho.

Nos últimos segundos de calmaria, senti meu pé tocar a lanterna. Me abaixando lentamente, mantendo meus olhos na criança o máximo que podia, eu estico o braço direito para o chão e peguei. Minhas esperanças de que não precisaria usá-la somem instantaneamente. A criança fica de quatro sob suas mãos e pés, dando um grito torturante de fúria, e corre na minha direção a toda velocidade.

Me esquivei de seu caminho no último momento possível, batendo na terra fofa enquanto a criança parava atrás de mim. No tempo  em que levou para se virar, eu já liguei a lanterna.

Mais uma vez, a criança foi atingida por um poderoso raio de luz. Com solavancos e espasmos, seu corpo e sua pele se estica e distende por cima de seus ossos alongados. Chorando de dor, sua voz ficando cada vez mais grave a cada segundo que passa, aquela coisa desarticulada deu um rompante na minha direção, agarrando meu braço com suas mãos e me jogando no chão. 

A lanterna balançou indomavelmente enquanto a criatura montava em cima de mim, rasgando a manga direita do meu casaco, suas unhas cravando na minha pele logo acima do cotovelo. Não parou na pele. Sinto a agonia quente e eletrizante dos meus nervos sendo rasgados, e depois ouvindo o estalo do osso quebrando. Antes de perder minha última chance, joguei a lanterna de uma mão para a outra, e lancei a luz diretamente no rosto da criança. 

Gritou um grito centenário. Os olhos da criança giraram na própria órbita, dominado pelo poder brutal da iluminação. Olhei para aquele rosto enquanto se derretia e se contorcia em vislumbres de adolescência, passando pela idade adulta e então meia idade. O grito se transforma em um urro fraco enquanto sua pele enrugava e caia, passando rapidamente pelos anos humanos até a forma mais decrépita possível. Eventualmente voltou a olhar para mim, e seu grito que momentos atrás fora poderosíssimo, agora não passava de um gemido seco. Deixo a criatura desfalecida e penosa cair ao meu lado enquanto me colocava de joelhos. 

Tropecei pelo caminho em direção de Bluejay, caindo repetidamente, um córrego vermelho formando-se na terra atrás de mim. Assim que cheguei até ela, usei minha mão esquerda para desprender a alça do rifle de seu ombro. Fiz um laço na alça e passei por debaixo do meu ombro direito. Minha cabeça parecia leve, sentindo dificuldade de manter o foco. Eu peguei um galho do chão e o coloquei dentro do nó do laço, usando meus dentes para apertar firmemente fechado em torno dele. Minha mão esquerda torceu o galho uma vez e depois outra, cada vez apertando mais a alça de couro até beliscar minha pele. 

O sangramento diminui, mas não o suficiente. 

Levantando o meu ser cansado, mal conseguindo ficar reta, levando um pé dolorosamente na frente do outro, lutando contra o chão úmido e fofo, saindo da clareira em direção das árvores. 

Eu precisava ir para o Wrangler.

Eu sentia que tudo estava desaparecendo lentamente ao meu redor, até o zunido em meus ouvidos parecia baixo, minha visão embaçada. Prendi o galho com a axila, deixando minha mão esquerda livre para ir me apoiando nas árvores enquanto tropeçava pela floresta. Quanto menos capacidade sentia, mais incapaz  me tornava de perceber os declínio.

Enquanto me esforçava para atravessar o bosque, uma figura saiu de trás das árvores, me freiando. Balancei no meu próprio eixo, quase caindo para frente, enquanto tentava identificar o que estava vendo, o próprio ato de estar em pé me exigia uma atenção e energia dobrada. 


Nunca tinha visto aquela coisa antes. Parecia ser composto de um turbilhão de faíscas monocromáticas que crepitavam constantemente. Uma nuvem elétrica de preto, branco e cinza, formando um ser humanoide. Assim que me viu, a criatura humanoide caiu para trás, se afastando de mim pelo chão, com mais medo de mim do que eu dele. 

Eu não sabia se a entidade era maligna ou benigna, mas naquele meu estado, minha mente lentamente gritando contra a luz moribunda, eu não conseguia distinguir. Enquanto se recosta em um monte de terra, tentei pedir ajuda. As palavras necessárias já tinham se perdido no nevoeiro, e tudo o que pude fazer foi estender a mão para ele. Implorando por alguma faísca de humanidade dentro daquela figura cambaleante e inconstante.

Em resposta ao meu vago apelo, a entidade foge para a floresta, tropeçando em si mesmo antes de desaparecer da minha vista. Enquanto o vejo partir, um único raio de luz ilumina-se nos cantos mais distantes da minha mente, desaparecendo rapidamente. Uma única luz, mas aquela foi o que eu precisava para ter forças e atravessar o bosque. 

Pude ver o Wrangler através das árvores. Estava perto, mas ao mesmo tempo, impossivelmente distante.


Havia algo de errado com meus olhos. O carro entrava e saia de foco, mas toda vez que voltava, a imagem era menos nítida, até que era nada mais que um borrão verde-escuro pulsante contra um pano de fundo que ondulava lentamente. 

Minha bota batia uma contra a outra, um tropeço final que me trouxe de volta à terra. Quando tentei me levantar novamente, percebi que já não era capaz. Não havia forças no meu corpo, e nenhuma resolução podia me levantar mais.

Embora talvez pudesse ser minha imaginação, achei ouvir um farfalhar constante na vegetação rasteira, como se algo estivesse vindo na minha direção. Logo depois disso, meus sentidos começam a morrer, deixando-me com nada mais que do muito frio e o silêncio para me acompanhar. 


A luz fraca brilhou até o fim, no entanto, tive um misero fio de entendimento, um pensamento solitário que tentei suspender do nevoeiro que tudo consumia.

Era uma lembrança, uma vaga lembrança da minha primeira entrevista com Rob J. Guthard.

Foi no dia em que nos conhecemos. O dia em que me contou sobre sua longa e sinuosa vida, sobre o Japão, Hiroji, Aokigahara e o estranho fenômeno que vira, que despertou sua obsessão pelo sobrenatural. O evento singular que o levou ao caminho do jogo da Esquerda/Direita, que liderou esta excursão… o momento que nos trouxe até aqui.

ROB (VOZ): Ele andou até mim por entre as árvores. Parecia com a estática que você vê em uma TV dessintonizada, mas quase na forma de um humano. 

AS (VOZ): Quase?

ROB (VOZ): Não tinha um braço. 

FONTE

PRÓXIMA QUARTA-FEIRA (19/09/2018), Alguém já ouviu falar do Jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 9) ESTARÁ DISPONÍVEL A PARTIR DAS 08H00! 


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

22 comentários :

  1. Eu tô adorando essa Creepy! Voces podiam postar uns links pras outras partes também não? Ajuda bastante a mandar pros amigos kkk

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  2. EU TO APAIXONADO POR ESSA CREEPY!
    Voces podiam por uns links pras partes anteriores né? Ajuda bastante a compartilhar a Creepy.

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  3. mano seloco que doidera, todo mundo morreu D:
    Alice só se lasca =(

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  4. Mano nem sei o que pensar kkkk foda demais

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  5. Eu já li ela no Nosleep... E puta que pariu que creepy foda

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  6. Que ódio dessa vagabunda dessa Bluejay. Alice tinha que ter fuzilado essa puta por matar a Lilith! >:(

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    1. Pois é, mas pelo menos essa puta morreu,só acho que precisava sofrer um pouquinho mais pelo que ela fez com a Lilith

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  7. Essa com toda certeza vai entrar para a minha lista de creepys preferidas, que historia foda. Mais alguém veio pelo Dossiê do Felipe ?

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  8. aaa Essas ultimas frases aí(????) wtf, não entendi ;;
    Eu to adorando e chorando lendo essa creepy, agr só próxima semana naooo

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    1. Fazem referencia ao primeiro capitulo, onde ela conhece o Rob

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  9. Simplesmente genial, pra só perde pra "1999"!

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  10. É impressão minha ou a figura de faiscas é o Rob e a figura de faiscas que ele viu é a Alice? O tempo parece fluir quase que aleatoriamente no Another World.

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  11. Puta merda mano, se o cara ali em cima estiver certo do tempo fluir aleatoriamente no mundo da estrada, é possível que todos sobrevivam! Caralho, que fita, essa creepy é boa demais apesar de me deixar puto o fato de todo mundo morrer

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  12. Infelizmente eu não me aguentei e li o resto da Creepy original.
    Lendo a versão traduzida eu não consigo fazer nada mais que chorar, e lembrar de quando me amaldiçoei a madrugada inteira, após ler a última entrada, por ter descoberto "Alguém Já Ouviu Falar Do Jogo da Esquerda/Direita?".
    Mas agora que tudo passou, eu só posso responder com um orgulhoso "Sim, eu já ouvi falar, felizmente"; Essa história entrou na minha vida da mesma forma bruta com que saiu dela, deixando um vazio imenso...
    E eu vou parar por aqui antes que eu bombardeie meus colegas leitores com spoilers indesejados.
    Apenas... Obrigada por terem me apresentado essa história, de verdade. Cada segundo de leitura, desespero e confusão valeu á pena.
    Obrigada, Divina.
    E isto.

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    1. senti a mesma coisa quando terminei de ler o original em ingles, fiquei meio, nossa acabou, e agora o que faço?

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  13. Finalmente, 1999 nem chega perto dessa.

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    1. Isso é uma creepy ? Esse é mesmo o nome ?
      Procurei mais não achei nada.

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  14. Viagem no tempo? Looping?
    Dimensões paralelas?
    Ahhhhhh, isso explode minha cabeça.

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