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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 9)

PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4
PARTE 5
PARTE 6 
PARTE 7
PARTE 8

Desculpa se não tenho postado com frequência. Foi um mês conturbado. Entretanto, queria anunciar que, desde ontem a noite, final coloquei meus pés em Phoenix, Arizona. 


Estou postando essa entrada do meu primeiro hotel Americano, que oferece uma linda vista: de um lado um hospital e do outro uma prisão. São tempos promissores. 

Me avisem se estiverem por perto e se tiverem mais informações.

***

O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 15/02/2017

Enquanto a escuridão se fechava em mim, me encontro cada vez mais e mais enterrada na minha própria subconsciência,  até afundar para o fundo da minha mente para um lugar indescritível. Um limbo vazio, sem direções e atemporal que existia apenas no ponto mais frágil da vida.

Posso sentir que estava me distanciando, rendida a uma maré quase imperceptível, carregada lentamente, porém inexoravelmente do mundo.

O resto da noite se desdobrou em lampejos efêmeros. 


Senti meu corpo brevemente levantando do chão, a gravidade puxando meus membros enquanto sou transportada pela floresta.

Um incognoscível período de tempo depois, senti uma distinta sensação de ardor à minha direita. No mundo em que naquele momento habitava, apenas um eco da dor me atingiu, mas pude dizer que um dia fora substancial. Incapaz de adivinhar seu propósito, deixei a sensação desaparecer, antes de descer mais uma vez na escuridão plácida.

Quando meus olhos finalmente se abriram, o sol estava começando a se levantar. Sem uma gota de força no meu corpo, tudo o que posso fazer é espiar através dos meus cílios, observando a vaga cena diante de mim.


Eu estava na parte de trás do Wrangler, encostada em uma pilha macia de bagagem. Tinha alguém ajoelhado ao meu lado, puxando meu ombro direito. Quando tento abordá-lo, descubro que minha voz se transformou em um sussurro espectral, tão frágil que quase nem sequer existia.

AS:… Rob…

Ouvindo minha voz, a figura se arrastou e se ajoelhou diante de mim, olhando nos meus olhos enquanto lentamente recuperam o foco.

ROB: Você só fique deitada, Senhorita Sharma, eu acabei de te remendar, mas tenho que ter certeza que fiz um bom trabalho.


AS: O que... o que aconteceu com você?

ROB: Eu estava na mira da arma de Denise, tive que agir como se eu estivesse quase morto. Quando ela entrou na floresta, me soltei, levei o kit médico para o bosque, me remendei um pouco. Eu estava indo para ajudar vocês quando ouvi aquele barulho horrível. Fuii ver o que era... foi quando te encontrei.

AS: ...O motor está funcionando?

ROB: Queria aquecer o lugar para você. Você estava em choque, e como a bateria não morre mais, achei que...

AS: Não, quero dizer… como? A chave-


ROB: Você acha que eu arriscaria ir para tão longe com apenas uma cópia da chave do meu carro?

Rob pareceu quase ofendido, e pensando em tudo que aprendi sobre ele ao longo desta viagem, posso ver por que poderia mesmo estar. Mesmo no meu estado enfraquecido, não pude deixar de rir; apesar de admitir que saiu quase como chiado, difundindo-se silenciosamente no ar.

AS: Não, isso... na verdade é muito "você". Acho que Bluejay teria gostado de saber disso na noite passada.

ROB: Sim, bem, ela não me perguntou.

AS:… Fico feliz que você sobreviveu, Rob.

ROB: Estou feliz que você também sobreviveu. Vejo que o povo de Londres é forte.

Desscansei minha cabeça contra a bagagem.

AS: Eu sou de Bristol.

ROB: Claro… sim claro que é… desculpa…

Rob tentou recuperar o sorriso, mas escapou dele como água por entre os dedos. Na sua ausência, suas feições se encolhem em tristeza súbita e incontrolável.


ROB: Senhorita Sharma, me perdoe! Me perdoe!

O rosto envelhecido de Rob Guthard explodiu em uma confusão de lágrimas. Ele repetia essas duas palavras enquanto ele se aproximava de mim, jogando os braços em volta da minha cintura e descansando a cabeça no meu ombro esquerdo. Minha mão parecia ser feita de chumbo quando a levantei e  acariciei seu cabelo, segurando-o contra mim.

Enquanto o homem continua a soluçar, deixo minha cabeça rolar lentamente para a direita, observando o dano no meu braço. Ontem à noite, perdida nos espasmos entrecortados do choque, o dano tinha sido imensurável, os detalhes abafados pela neblina abrangente de perda de sangue severa e um alarme primitivo estridente que me forçou a me por em movimento sem questionar o porquê. Agora que estava do outro lado, banhada pelo calor do Wrangler, posso avaliar totalmente a extensão da minha lesão.


Tudo que antes existia abaixo do meu cotovelo direito já não está mais lá.

Parecia quase um sonho. Meu braço estava praticamente imaculado, exceto por alguns hematomas escuros da queda da noite anterior, mas ele descia uma distância incrivelmente curta antes de terminar em um toco rude e surreal. A ferida em si estava escondida, envolta em bandagens brancas e frescas.

Eu não sabia como deveria me sentir e, consequentemente, não senti nada.

AS: Tudo bem, Rob. Está tudo bem.

ROB: Eu nunca... eu nunca quis que nada disso-

AS: Eu sei… eu sei.

Rob se afastou, os olhos ainda lacrimejando.


ROB: Eu vou te levar pra casa, tá bom? Eu vou encontrar um lugar para dar a volta e nós vamos te levar para casa.

Eu posso perceber que a oferta de Rob era genuína e, para ser sincera, estou um pouco surpresa. Ainda me lembro de nossa concordância verbal, feita na boca do túnel; que ele não iria dar meia volta até chegar ao fim da estrada. Eu nunca achei que seria ele quem quebraria o acordo. 


Eu sei que aquela provavelmente era minha melhor chance de deixar tudo aquilo para trás; fugir dos horrores da estrada, antes que eles tomem ainda mais de mim. Eu sabia o caminho de volta. Eu sei que aquilo me levaria à segurança, para minha família, à abençoada normalidade. No entanto, enquanto a insidiosa voz no fundo da minha mente me lista essas coisas, não é com ela que respondo. 

AS:... Ainda estou dentro se você também estiver. 

Rob me deu um sorriso que personificava seu coração partido, que eu também daria, se tivesse forças. Naquele momento, um entendimento sombrio foi selado entre nós. Um entendimento de que depois de tudo o que vimos, tudo o que aconteceu, os segredos da estrada ainda é nossa escolha. A decisão revelou algo sobre nós, expondo uma força motriz por trás de nossas ações que nega nossa preocupação com a sobrevivência e ofusca os protestos imaginários de nossos entes queridos.


É uma decisão que apenas duas pessoas loucas tomariam.

Rob passou a manhã empacotando o Wrangler, me dando tempo para descansar. O fato de ele estar andando era impressionante, quanto mais realizando sua rotina habitual em seu ritmo habitual. Quando comecei a sentir a vida lentamente voltando a correr em minhas veias, me perguntei se a estranha força que sustentou nós dois, bem como o tanque de combustível do Wrangler, também poderia ter um leve efeito restaurador. Esse pensamento deveria me trazer conforto; em vez disso, me faz sentir como uma lagosta em um tanque de um restaurante chique.


Algumas horas depois, Rob me tirou do carro, me deixando descansar no batente da porta. Na minha frente jazem três montes de terra suaves. Dois estão identificados com cruzes, formados por galhos atados juntos. O túmulo à extrema esquerda estava sem nada, desprovido de qualquer filiação religiosa.

AS: Essa é a... Bluejay? Sem a cruz?

ROB: Não acho que ela ia querer.

AS: Ela não teria feito isso por você, você sabe.

ROB: Ainda bem que não sou ela, então. Eu enterrei o que deu para enterrar, mas ela estava em um estado... complicado. Foi a criança que a matou?

Rob foi até a parte de trás guardar uma pá dobrável que estava usando antes. Por um breve momento, considero deixar sua declaração sem resposta.

AS: Não, não… fui eu.

Rob voltou imediatamente, com a testa franzida, confuso.

AS: Eu escondi uma C4 na minha mochila. Quando ela pegou a bolsa eu ... bem ...

Eu gesticulo para a sepultura. Rob parecia que me via pela primeira vez na vida. 

ROB: Onde você-


AS: No carro do seu filho.

Observei enquanto minha afirmação suave atingiu os ouvidos de Rob, enquanto seu significado penetrava em sua consciência, suas implicações contorcendo suas feições em um olhar de vergonha e revelação condenatória.

Posso ver pela sua reação que eu estava certa.


Nós não tínhamos tido a chance de conversas desde que o nome de seu filho me fora revelado. Essa informação formou o fio crucial, unindo as descobertas estranhas e irracionais que fiz na estrada. No começo da semana, talvez teria tido medo de confrontá-lo com essa informação, mas as coisas eram diferentes agora. Nós chegamos longe demais, já passamos por muito e de qualquer forma, se ele estava realmente me transportando para algum lugar com intenções maliciosa, não tenho poder para pará-lo.

Levantei a mão fracamente em sua direção; um pedido silencioso por ajuda.

AS: Acho que é hora de termos uma segunda entrevista.

Após um silêncio tenso e culpado, Rob simplesmente acenou com a cabeça e me ajudou a entrar no banco do passageiro.


***
ROB: Não eram militares. Eram comerciais.

O Wrangler continuava a adentrar na floresta. Eu tinha ficado quieta por meia hora, deixando Rob formular uma resposta em suas próprias palavras, no seu próprio tempo.

AS: Comercial?

ROB: Sim, cargas explosivas para demolição controlada. Bobby estava nesse ramo, tinha sua própria firma.

AS: Você devia estar orgulhoso.

ROB: Sim ... sim, ele construiu aquele lugar do nada. Passear pelo escritório dele foi um dos melhores dias da minha vida.

AS: Então ... como ele veio parar aqui?


Rob ficou quieto, relutantemente de aceitar que teria que contar tudo desde o início.

ROB:… Bobby era um garoto inteligente… mais esperto do que o normal. Com quinze anos já conseguia administrar a frazenda, mas a vida no campo não era para ele. Em vez disso, se mudou para Phoenix, conseguiu seu diploma universitário eu uma carreira estável.

AS: Uma carreira estável? Isso é algo meio rebelde para um Guthard.

ROB: Haha ... bem, éramos pessoas muito diferentes... nem sempre nos damos bem. Eu ainda era um mensageiro naquela época, sempre partindo para um lugar novo. Claro, fui para o Japão, fiquei lá por um tempo. Então…

AS: Aokigahara.

ROB: Isso mesmo. Tudo mudou. Cheguei em casa depois de cinco anos com um novo hobby. Bobby não ligava para as histórias, mas... a mãe dele morreu repentinamente enquanto eu estava fora; nós dois queríamos começar de novo, estar mais na vida um do outro... ele veio comigo para o Pacífico Noroeste, perseguindo o Pé Grande. A criatura não apareceu, mas Bobby se divertiu acampando, então continuou se juntando a mim. Não demorou muito para que ele fizesse suas próprias pesquisas, organizando viagens, perseguindo rumores de coisas estranhas por todo o país.

AS: Pra mim parece algo bom, para os dois.

ROB: E era.


AS: Então... foi Bobby quem descobriu o jogo da esquerda/direita?

ROB: … Ele me ligou um dia, do nada. Isso foi cerca de três anos atrás. Disse que tinha encontrado um conjunto de regras; disse que deveríamos tentar. Para ser honesto, achei que nossos dias de viagem tinham acabado; Eu estava de volta ao Alabama e ele estava criando uma família, mas de repente ele está me dizendo para encontrá-lo em Phoenix, então é claro que fui junto.

AS: E desta vez, vocês dois perceberam que era real.


ROB: Bobby soube assim que chegamos no túnel. Ele passava por ali todos os dias, sabia que não deveria estar lá, mas... lá estava. Disse que foi a coisa mais incrível que já tinha visto. No ano seguinte, sempre que tínhamos um tempo passávamos juntos mapeando a estrada, mas era um processo lento, mapeamos um pouco, voltando no mesmo dia. Levou um tempo até que tivéssemos a coragem de passar uma noite na estrada, nós dois ficamos com medo de que o túnel desaparecesse ou algo do tipo.

Posso ver que Rob estava revivendo os eventos em sua cabeça. A reminiscência quase o fazia sorrir.

ROB: A esposa de Bobby era uma verdadeira boneca. Costumava trabalhar em seu escritório. A menina mais gentil que eu já conheci, engraçada também. Havia uma década de diferença entre eles, mas você podia ver que os dois eram feitos um para o outro. Ele compartilhava tudo com ela, incluindo a estrada. Na verdade, uma vez que Bobby ficou um pouco mais seguro com as regras, e começaram a mapear juntos... explorando seu próprio mundinho.

Depois de uma breve pausa, a expressão de Rob afundou ligeiramente; a reminiscência estava ficando mais obscura.


ROB: Alguns meses se passaram, eu estava recebendo cada vez menos notícias de Bobby, mas era algo que eu esperava. Então, um dia recebi uma ligação do hospital, me dizendo que meu filho tinha dado entrada em um pronto-socorro em Phoenix.

AS: Ele estava bem?

ROB: Não. Estava mal. A perna toda arrebentada, delirante, perguntando por Marjorie. Eles encontraram a bolsa dela no carro dele... mas não a encontraram em lugar nenhum.

AS: Bobby a perdeu na estrada.

ROB: Sim, isso mesmo.

AS: Na nossa segunda noite aqui, depois que perdemos o Ace, você me disse que a estrada nunca tinha machucado ninguém antes.

ROB: Bem, na verdade isso não foi uma mentira. Não foi a estrada.

AS:…Como assim?

ROB: Eles chegaram à floresta. Nenhum de nós tinha chegado tão longe antes, mas desta vez eles foram um pouco mais do que o habitual.


AS: Você sabe o motivo?

ROB: Eles iam ter um bebê. Marjorie estava quase no final da gestação... não estava viajando tão bem. Acho que sabiam que iam ter que se afastar da estrada por um bom tempo. Foi como um ... como uma breve despedida, eu acho. 

AS: Mas só Bobby voltou?


ROB: Exploraram a floresta até o anoitecer. Quando Bobby disse que tinham que voltar... Marjorie não queria. Ele nunca me disse por que, nunca me contou o que aconteceu. No final da viagem, Marjorie ainda estava por aí e ele estava em uma cama de hospital.

Rob demorou alguns momentos para se recompor, colocar os fatos em ordem. Lá fora, as árvores estavam começando a ficar mais finas, a luz do sol rompendo através das aberturas crescentes do dossel. Parecia que estavamos nos aproximando do final da floresta.

ROB: Bobby levou mais de um mês  para se recuperar. O garoto estava desesperado para encontrar sua esposa, e é claro que ele se tornaria um suspeito em seu desaparecimento. Nem preciso dizer que a primeira coisa que ele fez depois de sair do hospital foi cair na estrada para encontrar Marjorie.

AS: Mas não encontrou.

ROB: Não, não foi isso... Ele encontrou. Só que… um pouco mais cedo do que esperava. 

Levei um momento para processar a informação. De repente eu senti como se uma pedra caísse no meu estômago.

AS: Ela estava no 34º virada.


Rob assentiu solenemente.

ROB: Não era a mulher que conhecia e amava, é claro. Ficava lá o dia todo, apenas murmurando sobre a estrada. Nem o reconhecia. Lembro que me ligou logo depois que a viu pela primeira vez, de coração partido. Tentou quase todos os dias a partir de então, sempre parando naquela esquina. Ele gritava, implorava, trazia fotos e presentes, mas ela nunca respondia. Não sei se era realmente ela mas, o que quer que estivesse naquele canto, pertencia à estrada.


ROB: Bobby perdeu algo de si naquela esquina. Depois de um tempo, seu fascínio pelo jogo azedou, virou ódio. Ele achava que a estrada era algo maligno, que não devia estar conectado ao nosso mundo.

ROB: Eu estava sempre verificando como ele estava naquela época, a cada dois ou três dias. E um fim de semana disse que estava melhor, até mesmo disse que estava no trabalho. Pensei que talvez as coisas estivessem voltando ao normal... então ele ficou quieto; não atendeu o celular por três dias. Eu tinha um apartamento em Phoenix naquelea época e uma chave reserva para a casa dele. Foi aí que encontrei o bilhete; me dizendo que ele tinha voltado. Uma última tentativa de encontrar sua esposa ... e se ele não pudesse trazê-la de volta, bem-

AS: Ele ia destruir o túnel.


ROB: Destruiria a entrada daquele mundo. Eu joguei o jogo em Phoenix, Chicago, alguns lugares diferentes, mas aquele túnel era o que liga você à estrada. Eu olhei ao redor da garagem dele, encontrei a caixa de um telefone, muitas parafernálias eletrônicas em todo o lugar... era uito claro o que tinha feito. Então corri para o carro.

Tínhamos saído da floresta, começando a viajar por uma estrada longa e estreita. Ao longe, vejo nossa rota subindo por uma imensa parede de arenito, desaparecendo em um conjunto de montanhas ondulantes.

ROB: Ele passou por mim no caminho de volta, pouco antes de eu atingir Júbilo. Dirigindo como um raio pela estrada a toda velocidade, como um louco. Foi quando eu soube que não a tinha encontrado... que estava indo para o túnel, terminar o jogo de uma vez por todas.


AS: Mas ele nunca chegou tão longe.

ROB: Eu tentei falar com ele. Liguei para o celular dele, tentei as frequências de rádio, havia um número do cartão SIM na caixa do celular, por Deus, até mandei uma mensagem de texto para ele. No final, era só eu e ele, voltando para Phoenix. Ele foi mais rápido do que eu, mas eu estava dirigindo melhor. Depois de algumas curvas, eu o alcancei...

AS: Você o tirou da estrada.

Rob olhou para os cumes distantes, suas mãos segurando o volante.

ROB: O serviço de celular não funcionava no túnel. Ele sabia disso. Ou ele iria explodí-lo enquanto ainda estava aqui deste lado... ou lá dentro. 


AS: Então você estava tentando salvá-lo ou tentando salvar a si mesmo?

ROB: Nenhum dos dois. Eu estava tentando salvar a estrada... Fale o que quiser sobre este lugar, Srta. Sharma, mas é uma porta de entrada que leva para longe de tudo que conhecemos. É a estrada que sai da realidade. Pode ser a fronteira mais importante que já cruzamos e isso é... parte de mim sabia que isso era importante demais para um homem destruí-la.

Pela segunda naquele dia, Rob lutou contra as lágrimas e, pela segunda vez, falhou. Rolaram silenciosamente pelo rosto enquanto continuava.


ROB: Ele estava mais machucado do que eu pensava. Havia se machucado antes de me encontrar, é por isso que estava indo para o túnel a toda velocidade. Queria destruí-lo enquanto ainda podia.

ROB: A estrada tinha tirado quase tudo dele, e então eu tirei o resto… Eu lhe neguei sua esperança, tirei sua chance de deixar o mundo em seus próprios termos. No final, ele nem parecia estar com raiva... apenas perguntou por Marjorie. Perguntou-me por que ela fez aquilo, porque foi embora. Coloquei-o para descansar lá, visitei o lugar com frequência, mas… nunca tive uma boa resposta para ele. Foi quando comecei a preparar a próxima viagem.

AS: Então você postou as descobertas dele online e fingiu que tinha descoberto. 

ROB: Achei que as pessoas fariam menos perguntas desse jeito.

AS: E onde todos nós nos encaixamos nisso? Por que você nos trouxe aqui com você?


ROB: Achei que... achei que era hora do mundo conhecer esse lugar. Não queria que tudo isso acabasse sendo apenas o segredo de um homem velho. Honestamente, se eu soubesse que a estrada ia... Eu juro que nunca teria te trazido. 

As feições de Rob se apertaram, toda sua vergonha e culpa se destacando. Não posso dizer que não é merecido. Apesar das suas intenções, de sua penitência, o homem tinha se cegado aos perigos óbvios, feriu aqueles mais próximos dele e, em uma estrada onde os segredos mataram tantos, manteve o mais significativo de todos.

Bem, talvez não seja o mais significativo.

AS: Você não nos trouxe aqui, Rob.

Rob se virou para mim, confuso.


AS: Eu conheci alguém na floresta na noite passada, uma figura, assim como a que você viu no Japão, 'parecia estática que se vê na tela de uma TV dessintonizada'... Eu acho que era você, Rob. Eu acho que te vi e acho que... naquela vez, tantos anos atrás...

Naquele meu meu estado, a mecânica e as impressionantes consequências daquele evento estavam além da minha capacidade explicativa. No final, eu apenas levantei o braço direito inexistente e esperei  Rob fazer a conexão.


Um momento depois, o carro parou bruscamente.

Rob olhava para frente, os nós dos dedos brancos contra o volante. Estou ciente de que, por trás de sua personalidade de pedra, cada centímetro quadrado da sua matéria cinzenta está lutando para processar a nova revelação. Se for verdade que, naquele bosque tranquilo, eu me encontrei com um jovem Rob Guthard através de décadas, então isso muda tudo. As narrativas sinuosas que nos levaram a esse ponto, a crescente obsessão de Rob, o trágico destino de seu filho, todos se enraizaram naquele único momento. Mais de uma década antes do meu nascimento, eu nos coloquei no caminho que me levaria até a porta de sua casa.


Por mais caótica que a estrada pareça ser, aquele momento na floresta sugeria que, na verdade era algo mais profundo, algo intencional.

Rob saiu do carro por um tempo, e depois subiu sem proferir uma palavra e disparar o Wrangler. A partir desse ponto, continuamos sendo dois passageiros silenciosos, perdidos em pensamentos, desaparecendo nas montanhas de arenito.


Nós viajamos pela estrada estreita da montanha pelas próximas duas horas, uma parede de rochas tortas nos cercando. Quando passamos para o outro lado, e com o afloramento, a paisagem abaixo de nós mudou completamente, e somos agraciados com uma visão estranha e de tirar o fôlego.

O Wrangler estava atravessando os penhascos acima de um vasto e plano deserto; uma tundra de laranjas vibrantes que se estendem até onde os olhos podem ver. Eu posso apenas ver a estrada, cortando um caminho sinuoso pela areia bem abaixo de nós. No centro dessa expansão sem igual, uma coleção de estruturas monolíticas, colunas imponentes de vidro e metal, se elevam do chão, conectadas por uma teia de longas ruas perpendiculares.

AS: Tem uma cidade... tem uma cidade na estrada.


Rob mantinha os olhos fixos na frente. Apesar da majestade épica da paisagem urbana abaixo de nós. Posso ver que sua mente está em outro lugar, que ainda está digerindo o conteúdo da nossa entrevista. No final, achei melhor deixá-lo sozinho com seus pensamentos.

Ficamos na montanha por mais uns vinte minutos, antes de finalmente descermos para o chão desértico. O espaço à nossa frente é de dois tons; o tom de açafrão do deserto e o céu de um azul intenso, separado por um fino e reto horizonte. Os únicos objetos que cortam esse limite perfeito, são as enormes torres cinzas da cidade, subindo da areia e erguendo-se em direção aos céus.

Nos rastejamos pela estrada deserta, a cidade pairando ainda maior enquanto nos aproximamos hesitantemente da fronteira. Há um contraste misterioso com o limiar quando o atravessamos; o brilho da areia se transforma em cinza, o calor abrasador esfria instantaneamente, e talvez mais notavelmente, o pouco som que existia lá era é totalmente negado. À medida que percorremos por um caminho mantido perfeitamente vazio, percebo que não conseguia ouvir nada, exceto pelos rugidos constantes do Wrangler.

AS: Está tudo quieto. 

ROB: Por mim, ótimo. 

AS: Quem você acha que construiu esse lugar?

ROB: Não sei. Talvez seja lá quem nos trouxa até aqui. Talvez ninguém tenha construído... talvez apenas esteja aí.

Fico me perguntando se estava certo. É difícil pensar que um lugar como aquele existiria por qualquer propósito prático. A cidade parece fora de contexto de certa forma, como se feita por uma opinião própria, por um arquiteto que apenas ouvira falar sobre cidades por algum boato muito mal traduzido. As características gerais estão ali, arranha-céus, postes de luz, plataformas de limpeza de janelas, mas nada muito além disso. É uma concha vazia. Um ornamento no meio do deserto. 

Enquanto vamos virando nas próximas esquinas, olho para cima, encarando as estruturas monolíticas, cada uma delas com pelo menos cem andares cada. Meus olhos se arrastam de volta para baixo, observando as incontáveis janelas escuras, enquanto contemplo o que será que moraria em tal lugar.

Quando meu olhar chega no térreo, sou presenteada com uma resposta. 

Havia um homem de pé na janela do térreo, sua mão encostada no vidro. Está vestido em um terno cinza escuro, junto com um olhar de puro estado de choque. Sua boca pendia aberta, suas mãos tremiam, seus olhos que não piscavam nos acompanhavam enquanto o Wrangler passava por ali.

Meus olhos rapidamente rastreiam a fachada de vidro do arranha-céu, examinando cada fileira de janelas. Eu esperava ingenuamente que os prédios estivessem vazios, que este lugar não seria nada além de uma colossal cidade fantasma. Agora que sei o contrário, cada painel de vidro parece uma piscina de águas escuras; ainda na superfície, mas com um potencial sinistro à espreita em suas profundezas.

Alguns segundos depois, mais deles aparecem. Não haviam muitos de começo; apenas algumas figuras dispersas aparecendo em suas janelas, pressionando seu corpo contra o vidro. No entanto, como uma chuva que começa leve e irrompe em uma chuva torrencial, a freqüência do aparecimento se duplica rapidamente, depois triplica, até que nem um único espaço ficou desocupado. O Wrangler se encolhe, colocado sob o milhares de olhares que analisava-o minunciosamente, em todos os andares, em todas as janelas, todos vestidos com a mesma roupa formal monocromática e olhando para nós como os emissários de um grande tribunal. Enquanto o Wrangler passava, continuavam a olhando para frente, embora esteja claro que estavam cientes da nossa presença.

AS: Rob. Rob, você está-

E: Estou vendo. 

Rob colocou o pé no acelerador, sentindo o peso de mil pares de olhos enquanto ele deixavamos o prédio para trás. Quando a última coluna de janelas passa por nós, olho para trás, esperando vê-los voltar às profundezas do prédio. Em vez disso, nesses últimos momentos, testemunho seu comportamento virar um frenesi coletivo, suas bocas abrindo em um grito silencioso enquanto batem os punhos contra o vidro.


Voltando a olhar ao meu redor, encaro os edifícios que atualmente flanqueiam nosso veículo. As figuras já tinham chego às janelas e a calma neles já está desaparecendo.

AS: Rob, precisamos ir mais rápido.

ROB: Sim, estou fazendo isso. 

O Wrangler ruge com uma ferocidade renovada enquanto Rob aperta ainda mais seu pé no acelerador. Nós nos lançamos na próxima esquina, acelerando pela estrada enquanto Rob procurava por ruas escondidas. Eu dolorosamente mudo no meu lugar, mantendo os olhos na cena que se desenvolvia em nosso rastro.


Cacos de vidro quebrado começaram a chover no asfalto. Observando os pedaços quebrados caírem pelo ar, era evidente que o silêncio nesta cidade não é simplesmente devido sua falta de movimentação. A enxurrada de cacos de vidro é completamente silenciosa, mesmo quando caia contra o solo impenetrável. 

Nada naquela cidade produzia som. Nada além de nós.

O estrondoso motor do Wrangler nunca soara tão alto.


Olhando para cima, testemunho centenas de mãos segurando as molduras quebradas da janela, incapaz de desviar o olhar enquanto milhares de sapatos pretos bem polidos passam por cima do batente. As figuras jorram de todos os andares, formando um incompreensível dilúvio humano.

A primeira onda atinge o chão, com mais e mais aterrissando em cima deles; um monte de corpos emaranhados lutando para se separar. Com a aparência próxima dos moradores de Júbilo, e com todos os outros que encontramos na estrada, pareciam imunes aos danos fatais que tal ato deveria produzir. Aqueles que pousaram em seus pés nem sequer param, virando-se para nós e correndo em direção do Wrangler. Não demora muito para que o resto da massa contorcida se resolva, seus indivíduos constituintes se juntam à debandada frenética, sua força caótica e seus gritos desesperados não produziam nenhum som perceptível. 

Mesmo no meio daquela perseguição intensa, enquanto uma chuva de vidro que só trazia um mau presságio caia de todos os edifícios por onde passávamos, o mundo lá fora permanecia em silêncio; o caos tornado ainda mais incompreensível emoldurado contra aquela quietude impiedosa.


Os pneus do carro berraram enquanto Rob virava o carro na esquina seguinte, entrando em uma rua longa e aberta. A estrada à frente é ladeada por arranha-céus que desaparecem em sua altura. Enquanto corremos por aquele trecho da estrada em direção a um grande cruzamento, a multidão cada vez maior emanava na rua atrás de nós, virando a esquina com uma coordenação suprema e continuando incansavelmente em nossa direção.

Uma fração de segundo depois, sou arrebatada por uma ideia abrupta e penetrante. Parecia diferente de qualquer pensamento que eu já tivera antes, nada a ver com noção, e mais um híbrido entre e intuição e Déjà vu, como se as ações que deveríamos tomar fossem óbvias para mim, apesar de eu não saber o porquê.

Forço minha voz a sair sendo nada mais que um breve sussurro. 

AS: Rob. Precisamos deixar algo atrás de nós... algo barulhento.

ROB: O que você está pensando?

AS: Eu… você só tem que confiar em mim, ok? Ainda temos a maior parte das C4, e você poderia-

ROB: Não, se você tirar detonador, não tenho tempo para fazer um novo.

Rob olha pelo retrovisor, depois de volta para a estrada. Quase posso ouvir as engrenagens funcionando em sua cabeça.

ROB: Mas esse não é o único explosivo a bordo. Acha que pode dirigir?


AS: Acho que podemos descobrir.

O carro trovejou pelo asfalto quando eu desajeitadamente agarro o volante, me deslocando e colocando meu pé no acelerador. Rob se levanta e passa por mim para parte de trás do Wrangler. No meu estado enfraquecido, qualquer movimento fazia meus ossos tremerem. Com cada mudança de marchas subseqüente, sou forçada a tirar a mão que sobrou do volante e estender o braço até a marcha. O esforço é precário e desajeitado, meus membros doloridos manipulados pela simples força de vontade e pela adrenalina, a cada segundo que passava, uma batalha para manter o controle.

As janelas à frente estavam começando a se quebrar. O barulho do Wrangler continuava e toda a cidade estava começando a antecipar nossa chegada. Atrás de mim, podia ouvir o som de fita adesiva sendo partida, tecido sendo rasgado e o barulho de uma mala sendo derrubada. Não tinha certeza do que está acontecendo atrás de mim. Eu só precisava confiar na ideia de que Rob tinha um plano. 

Ouvi a porta de trás se abrir antes de chegarmos ao cruzamento, o barulho de metal raspando no chão do Wrangler, e um grunhido de dor vindo de Rob enquanto ele jogava algo na estrada atrás de nós.


Chegando ao cruzamento, deslizei minha mão ao longo do volante e torci a direção bruscamente para a direita. Enquanto o carro se virava na próxima rua, sinto meu coração afundar no peito. Nós tínhamos sido ultrapassados. As janelas à nossa frente já estavam quebradas, as portas estavam quebradas no meio da rua, e os moradores desesperados dos prédios estão correndo em nossa direção, bloqueando nossos únicos meios de fuga.

Enfiei o pé no freio, e o  Wrangler estremeceu, o motor parando. As ruas agora estavam transbordando, um enxame opressivo vindo em nossa direção de todos os lados. Olhei para trás em direção de Rob, e ele encontrou o meu olhar, seus olhos cheios de finalização preocupante.


Uma explosão irrompe pelos ares atrás de nós. Olhei pela janela dos fundos para ver um galão de gasolina detonado, uma das reservas supérfluas de combustível de Rob, o corpo verde-escuro do objeto violentamente comprometido, seu conteúdo derramado do outro lado da estrada, incendiado. Agora que o motor não estava funcionando, o eco da explosão e do rugido da chama dançante e primal preenche o ar da tarde.

A trajetória da multidão enlouquecida mudou instantaneamente, o Wrangler silencioso já não era o foco da atenção, enquanto se concentram nas chamas ardentes. Os que estavam na nossa frente apenas passavam por nós, fazendo a volta no Jipe enquanto se amontoam na poça de gasolina, enterrando as mãos nas chamas, agarrando-se irremediavelmente ao fogo.

Delicadamente, com cuidado para não fazer um único ruído, sai do banco do motorista, me juntando a Rob na parte de trás do Wrangler.

Ele se dirigiu a mim em um sussurro confuso.

ROB: Por que eles não se importam com a gente? O que estão fazendo?


AS:… É o som. Querem o som para eles.

Não sei como tinha tanta certeza, mas sabia que era o caso. O galão estalava e guinchava enquanto os moradores da cidade rasgavam-o em pedaços cada vez menores, examinando freneticamente todos os pedaços irregulares. A cada segundo que passava, à medida que o fogo ia se apagando, a multidão ficava cada vez mais angustiada, como se uma mercadoria preciosa estivesse escapando de seus dedos.

AS: Eles não entendem. Eles vão destruir tudo, tentando descobrir e nunca chegarão a uma conclusão... e então vão ficar quietos novamente.

ROB: De onde você tirou isso?

AS: Eu não sei, apenas ... é apenas um palpite. 

ROB: Bem... tenho certeza que também nos destruíriam. Eu diria que somos muito sortudos.


AS: Ah, sim… muito sortudos.

Quando os último resquício da gasolina foi devorado e o fogo morreu, os moradores da cidade permanecem nas ruas. Desprovidos de seu sentido propósito momentâneo, o troféu desaparecendo no éter, o desespero da multidão se desvaneceu em um rápido abatimento. Observo-os enquanto passam, inúmeros rostos cheios de tristeza, seu arrastar sem rumo que formava um mar solitário, um oceano em tons de cinza que atravessava a cidade desolada.


Agora, o Wrangler estava à deriva no meio daquele oceano. Estava claro que qualquer tentativa de ligar o motor traria a cidade inteira para nós, reacendendo sua esperança fútil, fazendo com que destruíssem o carro e qualquer coisa dentro dele.

No futuro próximo, estavamos completamente presos ali.

ROB: Não se preocupe, tá bom?

AS: Não acho que eles vão  ir embora, Rob.

ROB: Eles vão ir embora.

AS: Ok… e depois? Eles ainda estarão por todo o lugar.

ROB: Ei, somos uma dupla inteligente. Vamos pensar em algo.


Na misteriosa e penetrante calma que nos rodeava, sentei-me ao lado de Rob e me encostei contra a parede, sem nada mais a fazer além de esperar que a nossa situação mudasse. Depois de ver os seres do lado de fora por mais de uma hora, a única coisa diferente era uma estranha sensação de agulhadas que parece emanar no meu agora ausente antebraço.

AS: Meu ... meu braço está doendo... como isso é possível?

ROB: Não se preocupe, isso... é chamado de Membro Fantasma. Você está com uma certa sensação, não é? Como se você ainda tivesse algo lá? Muita gente sente isso depois de amputações. Toma…

Rob alcançou seu kit médico e retirou um frasco azul de comprimidos. Retirando a tampa, ele me deu dois comprimidos.

ROB: Você vai precisar disso para a dor.

Olhei para as pílulas por um momento, antes de pegá-las da palma de sua  da mão. Ele me passou seu cantil e engoli em dois goles fracos.

AS: Você tem muita experiência com amputações?


ROB: ...Mais do que você imagina.

Franzi a testa. Embora tinha feito aquele comentário como uma piada infame, a resposta de Rob parece conter uma verdade alarmante. Demorei um momento para perceber o motivo.

AS: Eu  tinha esquecido... que você serviu. Você nunca falou muito sobre isso.

ROB: Venho pensando muito sobre isso. Um bando de estranhos reunidos sob falsos pretextos, com um velho mentiroso dizendo que estávamos servindo por um grande propósito. Acho que é interessante como a história se repete. Pensando agora, ele também dirigia um jipe.

AS: Rob... eu já falei, não foi você que nos trouxe aqui...


ROB: Isso não muda nada. Não muda o que eu fiz... para você, para Bobby, para qualquer um deles. Talvez você estivesse lá na floresta, no Japão, mas fui eu quem começou tudo isso, aquele que ficava se perguntando o que existia no fim da estrada.

AS: O que você que existe lá no final?

ROB: Estou começando a acha que não é para eu saber. Tenho andado de um lugar para outro por tanto tempo, visto todo mundo se aquietar. Pelo que tenho visto, o final da estrada é simplesmente aonde você decide parar.

Descansei minha cabeça no ombro de Rob. Ele gentilmente colocou o braço em volta de mim. Não demorou muito para que a medicação começasse a fazer efeito, reconfortando o meu ser enfraquecido. A dor desaparecera, mas levou junto todos meus outros sentidos. O sol ainda está passando pelo pára-brisa quando meus olhos começaram  a se fechar.

Observei aqueles seres vagamente humanos passando pela janela, minhas pálpebras ficando mais pesadas.

AS: Não quero que esse seja o fim da estrada, Rob.

ROB: Eu sei, senhorita Sharma, eu sei.

A última coisa que vejo antes de cair num sono artificial sem sonhos é a mão de Rob Guthard pegando o rifle.


Quando meus olhos se abrem, o sol estava começando a se pôr.

Eu havia sido movida de lugar. Conforme minha visão se ajustava, ficou claro que ainda estava dentro do Wrangler. Minha cabeça descansava contra uma pilha de roupas limpas, e um cobertor macio me cobria.

Olhei em volta e vi que Rob não está em lugar algum.

Momentaneamente, esquecendo a situação fora do carro, tentei chamar por ele. A sílaba ficou presa na minha garganta enquanto uma figura trôpega passa pela janela, torcendo as mãos em desespero e lançando uma longa sombra na janela do carro.


Com a sensação de cautela voltando a mim, deslizei o cobertor para o lado e, lentamente me desloquei para os bancos da frente.

Estava também vazio, com exceção de um único pedaço de papel dobrado ao meio, arrancado do meu caderno. Estava em cima banco do motorista, com um pequeno objeto dentro da dobradura do papel. Quando abro, encontro meus fones de ouvido e seis palavras bem escritas:

"Canal Um Para Todos os Carros"

Minhas mãos começaram a tremer enquanto coloquei a nota no painel, me movendo lentamente para me sentar no banco do motorista. Com o coração na garganta, insiro os fones de ouvido na porta da caixa do rádio, respirei fundo e apertei o primeiro botão.

AS: Rob?

ROB: Eu sinto muito, senhorita Sharma.

AS: Rob, onde você está?

ROB: Em algum lugar, na estrada. No topo de um dos telhados. Eu sei que sempre odiei cidades grandes mas, uma vez aqui em cima, a vista é de tirar o fôlego. 


AS: Volte, Rob. Volte, por favor.

ROB: Eu gostaria de poder fazer isso. Gostaria mesmo. Mas nós dois sabemos que essas coisas não vão sair da estrada. E você precisa do carro para chegar onde precisa ir, então... o melhor que posso fazer é criar um tumulto, tirá-los do seu caminho.

Descansei a testa contra o volante, me segurando contra o peso de suas palavras.

AS: Eu não posso fazer isso sem você.

ROB: Não acho que isso seja verdade, senhorita Sharma. Acho que o que quer que esteja nessa estrada... quer que você faça todo o caminho. Tudo o que eu tinha que fazer era trazer você até aqui. Bem, você não precisa me dar ouvidos, pode  muito bem dar meia volta e ir para casa... mas de qualquer forma, apenas um de nós sairá vivo daqui. Então acho que a única pergunta que resta é... para que lado você vai?

AS: Bem... você está à minha frente ou atrás de mim?


ROB: Posso estar em qualquer lugar. A escolha é sua, Srta. Sharma.

Com as palavras de Rob, na sombra daquela decisão, sou enterrada pelo silêncio; não porque a escolha era difícil, mas porque tenho vergonha de tão fácil que era. Há havia sido feita no momento em que entrei pela primeira vez no Wrangler e, desde então, renovada em cada momento desconcertante. A necessidade de saber, de compreender, de descobrir a verdade esteve comigo durante toda a minha vida, mas nunca soube que suas raízes eram tão profundas que se fixariam tão ardentemente quando todo o resto, todo mundo, tivesse sido arrancado de mim.

Olhei pelo espelho retrovisor, me vendo pela primeira vez, e tenho que admitir que estava com medo.

AS: Fique onde você está, Rob.

ROB: Haha… Ok, senhorita Sharma… você está pronta?

AS: … Sim. Estou pronta.

ROB: Certo, então... suponha que já seja hora dessa coisa fazer algum bem.


O tiro explodiu pelos meus fones, antes que um eco fraco paire no ar da cidade.

O efeito sobre os moradores da cidade foi imediato. Sua melancolia coletiva se rompe em um instante de segundo, substituída por uma nova fixação. Antes que eu perceba, a multidão densa se une mais uma vez em uma horda de debandada, passando pelas janelas do Wrangler e voltando pela estrada em direção à fonte do barulho.

ROB: Eles estão vindo?

Quando o último dos habitantes da cidade desaparece atrás de mim, corri minhas mãos pelo volante e depois até a ignição.

AS: Sim... Sim, estão indo.


ROB: Tá bom, então... O que você está esperando?

Com uma torção fatídica da chave na ignição, o Wrangler rugiu de volta à vida. As rodas raspam contra o asfalto, me levando pelas ruas da cidade. Enquanto me afasto do cruzamento, vejo um pequeno contingente de perseguidores correndo na esquina atrás de mim.

Rob dispara o rifle novamente, mantendo a atenção da maioria. Os atrasados desaparecem no meu espelho retrovisor, perdendo a corrida contra o Jipe.


Peguei a primeira à esquerda, depois a próxima direita, então outra à esquerda, alguns minutos depois eu finalmente me vejo no último trecho da estrada, levando-me de volta ao deserto vasto e vazio.

ROB: Então, você vai conseguir?

AS: Sim, eu vou.

ROB: Bom. Isso é bom. Senhorita Sharma, se você encontrar a Marjorie, se conseguir me avisar... bem, é mais do que mereço, mas...

AS: Claro… claro que sim.

ROB: Agradeço por isso. Tá bom, eles vão estar aqui em breve, então... vou ficar em silêncio por um tempo. Se eu ligar, você saberá que consegui. Se eu não ligar... pode supor que cheguei ao fim, tá bom?

AS: Por favor, diga que você vai ficar bem, Rob.


ROB: ... Foi uma verdadeira honra dirigir com você, senhorita Sharma.

O som de um tiro final ruge pelo rádio, seu eco abafado pelo rugido motor do Wrangler. O mundo muda ao meu redor quando saio da cidade e volto para a estrada deserta.

O caminho à frente é carregado de imensas possibilidades, mas à medida que desapareço pela imensidão do deserto, só consigo pensar no que deixei para trás. Rob J. Guthard teve suas falhas, marcadas pela perda, impulsionadas pela obsessão, suas boas intenções, muitas vezes abrindo caminho para a tragédia e o corações partidos.

Quando as lágrimas começaram a rolar pelas minhas bochechas, decido me lembrar dele de forma diferente; como um amigo de valor, um bom homem e, acima de tudo, uma grande história.


Não importa como contada.

FONTE

PRÓXIMA QUARTA-FEIRA (26/09/2018), Alguém já ouviu falar do Jogo da Esquerda/Direita? (FINAL) ESTARÁ DISPONÍVEL A PARTIR DAS 08H00! 

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!