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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (FINAL)

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Tenho que ser honesto; quando postei a primeiro entrada desses registros, lá no meu quarto no norte de Londres, não achei que iria tão longe. Afinal, por que iria? Eu não era um colaborador regular aqui nesse fórum, nem um experiente veterano sobre assuntos paranormais. Eu era apenas um homem que sentia falta de uma amiga, buscando algumas palavras de sabedoria em um fórum  online, aberto à ideia de que não levaria a lugar nenhum.

Não preciso dizer o quão errado eu estava. 

Nos últimos dois meses, os incríveis conselhos que recebi deste fórum e as dicas que você me enviaram abriram mundos inteiros de possibilidades. É graças a todos vocês que estou onde estou agora; sentado em um carro alugado em uma rua tranquila em Phoenix, Arizona, postando a última entrada da Alice.

Percebi que escrevi mais do que o habitual da minha parte. Desculpas por isso. Se você quiser pular direto para a parte de Alice, tudo bem.

Caso contrário, considere este o prólogo do epílogo.

É muito, muito cedo da manhã aqui, com com os coveiros dos turnos mais madrugais da noite. Por todos os direitos, eu deveria estar na cama e não desperdiçando gasolina em uma viagem sem destino pela cidade. No entanto, o ritual me ajuda a pensar, e recentemente eu tive muito no que pensar, cortesia de uma moça que conheci em um bar da região.

Ela é membro do fórum, que entrou em contato comigo através da caixa de mensagem. Quando nos encontramos no início da noite, ficou claro que havia feito muitas pesquisas; Mapeando cada loja de espelhos em Phoenix em uma tentativa de reconstruir a rota que Alice fez em 07 de fevereiro de 2017.

Nós conversamos por um bom tempo; sobre o jogo, sobre Alice e sobre a vida em geral. Logo mais chegou o horário de fechamento do bar, então me entregou uma cópia da rota mais provável, com todos os locais-chave circulados. Então, nos minutos finais antes de nos separarmos, nervosamente me fez duas perguntas. A primeira me deixou com o humor azedo. A segunda me forneceu o combustível para minha viagem das três da manhã.

Primeira pergunta; Você tem certeza que quer encontrá-la?

Recentemente, eu tenho ouvido o mesmo questionamento vindo de alguns de vocês, especialmente desde que a Parte 9 foi postada. Pessoas comentaram que Alice fez uma escolha clara quando deixou Rob na cidade silenciosa. Que eu estava procurando por alguém que não quer ser encontrada.

Eu gostaria de esperar um momento antes de responder isso, pois responderei posteriormente nesse texto. Para ser claro, a Alice que conheço não faria isso. Ela estava planejando voltar, ela nos falou isso. Não vou gastar seu tempo com minhas teorias, mas vimos o que a estrada pode fazer na mente das pessoas, como podem perder o melhor de seu juízo. Entendo por que esse questionamento está sendo feito, mas se esse tipo de pergunta for tudo que você tem a oferecer, peço que encontre outra maneira de ajudar.

A segunda pergunta era mais fácil de entender; O que você vai fazer agora?

vocês também têm me perguntado isso, mas essa foi a primeira vez que eu ouvi a pergunta em voz alta. No silêncio constrangedor que se seguiu, tornou-se óbvio para ela, e de certa forma para mim, que eu ainda não tinha uma resposta.

Eu decidi dar uma volta para ver se descobria... E fiquei vagando com meu carro pelo resto noite.

Depois de uma hora de meandros sem rumo, percebi que estava perto de um dos locais marcados; o beco onde Alice entrou pela primeira no túnel, o ponto em que ela desapareceu pela primeira vez na estrada. Entrando na rua lateral, logo depois de um grande cruzamento, fiquei brevemente aliviado por não ver nenhum sinal do túnel. Parte de mim que ainda esperava que este jogo fosse apenas um conto de ficção, aumentou com a falta repentina de provas. Minha reação foi curta, é claro, quando percebi que o túnel não teria se mostrado para mim de qualquer maneira. Mesmo que o jogo fosse real, eu dificilmente teria aderido às regras no meu caminho até ali.

Entretanto não havia como negar que o lugar se parecia com as descrições de Alice, e sem sentir ainda um pingo de cansaço em mim, decidi refazer seu caminho, refazendo os passos de Alice em direção à rua de Rob Guthard.

Tá, tenho que admitir neste momento, sofri de um lapso momentâneo de inteligência. Em uma névoa de distração, talvez fosse um jetlag residual e uma ignorância no geral, dirigi por muito mais tempo do que eu gostaria de admitir sob o equívoco de que eu não estava jogando o jogo da Esquerda/Direita. Achei isso por estar indo na direção oposta e ter começado a voltar virando em uma direita, quando as regras explicitamente afirmavam que tinha que começar virando na esquerda. É claro que, como tenho certeza que vocês teriam percebido se estivessem lá, não queria dizer que eu estava fora do jogo, porque obviamente, depois de pegar a direita, eu havia começado o jogo pegando a esquerda seguinte.

Alice sempre foi a mais esperta entre nós dois.

O que estou tentando dizer é que, devido a essa falta de atenção, eu não estava exatamente olhando para a Mulher de Cinza quando passei pelo que deveria ser sua esquina. Não houve uma loja de espelhos dessa vez, é claro,  a loja ficava lá apenas quando a virada 34º está vindo do outro lado. É estranho, porém, quando penso em minha jornada, sinto que devia ter a notado. As ruas estavam praticamente desertas, tanto que os pedestres se destacavam imediatamente. Sei que deveria estar mais atento, mas, se você perguntar a minha sincera opinião, não acho que ela estivesse lá.

No momento em que percebi isso, senti de novo; a esperança fraca e perversa de que eu havia sido enganado, que toda essa história não era nada mas que uma invenção muito  bem elaborada.

Não demorou muito até eu passar por uma antiga loja de espelhos e, 34 viradas depois, chegar ao que deve ter sido o ponto de partida de Alice. Era um bairro do centro da cidade cujos moradores estavam todos dormindo. A partir do momento em que percebi que estava dentro do jogo, eu estava pensando cada vez menos sobre essa rua em particular, e mais sobre a que viria logo a seguir, parada, me esperando no próximo cruzamento. Vim para o outro lado do mundo com a força da narrativa de Alice, mas ainda não tinha visto nenhuma prova em primeira mão de que o Jogo da Esquerda/Direita era real. Se a coisa toda fosse uma farsa, então a próxima rua deveria ser apenas... mais uma rua. Se fosse real, então eu saberia em breve.

Arrastei o carro para a próxima esquina com o coração na garganta. A cada centímetro de estrada por onde meus pneus passavam, me vi esperando mais e mais que aquilo não fosse verdade. Que seja alguém fazendo uma piada com a minha cara, que os textos fossem mentira... Que Alice estivesse em qualquer outro lugar, menos naquela estrada.

Virei a esquina em um arco amplo, estacionando no meio do cruzamento, meus faróis iluminando a próxima rua. 


À minha frente havia uma rua residencial tranquila; carros alinhados e cuidadosamente estacionados nos ambos lados da rua, pátios bem cuidados e janelas de vidro quadradas. No entanto, bem no meio, em total desafio ao modesto bairro residencial, a estrada afundava em um corredor profundo e mal iluminado, cortando a rua e desaparecendo na escuridão total.

Eu sempre soube que era verdade.

Na presença daquela sombria confirmação, a pergunta que me fora feita mais cedo naquela noite começou a apitar em meus ouvidos, como se ecoasse pelo próprio túnel. Depois de uma noite inteira dirigindo, depois de dois meses inteiros de pesquisa, eu ainda não tinha uma resposta.


No final, deixei o motor ligado, como se desligá-la fosse como se eu estivesse saindo do jogo, e decidi digitar esse texto que você está lendo agora. Pensei que talvez o processo de colocar tudo no papel me traria clareza, e me deixasse com ou uma nota de despedida ou uma nota de desculpas para Alice, por não ter conseguido encontrá-la. 

E agora... estou aqui; ainda indeciso, ainda escrevendo, ainda sentado neste carro alugado em uma rua tranquila em Phoenix, Arizona.

Entretanto, talvez a rua não seja tão silenciosa quanto eu pensava.

Olhei de volta para a rua anterior, a rua onde Alice começou sua jornada. Enquanto digito este mesmo parágrafo, vejo uma figura parada na calçada, do lado de fora de uma das casas. Não é a mulher de cinza desta vez.

Embora esteja quase escuro demais para distinguir, posso dizer que a figura é um homem mais velho, bem construído e imponente, com as feições ásperas do rosto envelhecido, meio iluminado pelo luar. Eu nunca vi essa pessoa antes, mas ele tem uma notável semelhança com outro homem; um homem cuja descrição foi bem registrada nas páginas dos registros de Alice.

Ele me observa em silêncio, olhando pela janela do meu carro ainda em funcionamento.


Me pergunto se ele me ajudaria. 

***



O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 20/02/2017

O Jogo da Esquerda/Direita já foi nada mais que um documento de 9 páginas, com as suas páginas escapando de dentro um envelope amarelo, descansando tranquilamente na minha mesa.

Lembro de ter lido-o no meu horário de almoço.

Lembro que me fez rir.

A submissão chegou com as primeiras encomendas do dia pelo correio, circulando silenciosamente pelo escritório, tratado por todos como uma novidade de pouco valor jornalístico. A história era facilmente descartável, sendo muito parecida com as histórias de fantasmas e avistamentos de OVNIs que enchiam nossa caixa de correio diariamente, e que a maioria da equipe sênior tinha aprendido a ignorar instintivamente. Condenado por associação, o documento foi rapidamente desprezado, minha mesa era apenas um pit stop antes de cair na pilha de rejeição.

Entretanto, fiquei curiosa e, depois de alguns meses sem novidades no meu novo cargo, não tive escrúpulos em pescá-lo no lixo. Colocando o envelope na minha mochila, ao lado de milhares e milhares de tantos outros também rejeitados, fui até um café local, lendo-o em uma poltrona perto da janela.

Em algum momento da página três, entre a descrição das regras do jogo e a lista exaustiva de “habilidades exigidas”, minha boca começou a se enrolar em um sorriso irreprimível.


Todos estavam gloriosamente errados sobre aquilo. Não foi uma dissertação paranoica, nem um pedido sensacionalista de atenção. Dentro daquelas páginas, havia um vislumbre introdutório da obsessão apaixonada de um homem. Enquanto eu lia, algo sobre sua sincera excentricidade, incrível meticulosidade e confiança inquestionável tornavam impossível ignorá-lo. Quando eu virei a última página, lendo a última apresentação de Rob Guthard, encantadora e bem formatada, eu sabia que essa era a história que eu queria contar.

Mais tarde naquele dia, eu estava no escritório do editor argumentando sobre tudo isso. Eles não enxergaram exatamente o que eu enxerguei, mas eu estava decidida a conquistá-los de qualquer forma. Falei a eles que a história seria cheia de personagens, colorida, instigante e, no mínimo, que eu não ficaria longe muito tempo. 


Faz doze dias desde então; dez desde que eu entrei pela primeira vez no Wrangler em Phoenix, Arizona, cinco desde que me tornei a motorista, deixando Rob para trás na cidade silenciosa. Não fiz muitas atualizações recentemente, salvo por algumas anotações regulares feitas para mim mesma. Para ser honesta, depois que terminei de escrever minha visão sobre a cidade, me senti dominada por um sentimento irresistível de desnecessidade. Não havia mais ninguém para quem entregar esses registros, nenhum amigo para revisá-lo. Parecia inútil manter o mesmo formato prosaico de antes.

Ainda concordo amplamente com essa pré-avaliação. É apenas devido a um conjunto de circunstâncias excepcionais por ter escolhido continuar a digitar integralmente os eventos seguintes. 

Seja lá a quem isso chegue, quero agradecer você por ter lido até aqui. 

Tenho certeza de que esta será minha cota final. 

A lua está quebrada, e em toda minha vida, nunca vi uma noite tão parada.

O ar estava frio e silencioso, e o Wrangler cortava-o completamente enquanto deslizava por um trecho de asfalto. A cena era definida pela calma e também pela ausência. Não havia uma nuvem no céu, nem um sussurro solitário da brisa, nem uma única folha de grama  se mexia nas margens verde-escuras ao meu lado.

No entanto, mesmo em uma noite tão tranquila como aquela, não pude deixar de me sentir longe de casa. A cidade servira como ponto de mudança nesse sentido. Antes de chegarmos até aqueles monólitos titânicos, as paisagens pelas quais passamos geralmente se assemelhavam ao mundo que eu conhecia. Algumas exceções óbvias à parte, não havia nada sobre os ambientes que parecessem verdadeiramente desassociados da realidade. Agora, tudo havia mudado. Os aspectos aberrantes desse novo mundo são inegáveis, constantemente aparecendo na minha visão periférica, injetando passivamente uma sensação de perplexidade e desconcerto enquanto adentro a tão parada noite. 

Há poucos dias a lua começou a rachar como porcelana antiga. Eu mal notei no começo, meus olhos fixos na estrada enquanto ela pairava acima de mim, silenciosamente se fragmentando em três pedaços irregulares. A partir daquela noite, o espaço vazio entre cada fragmento aumentava significativamente. Se paro e me concentro em ficar observando o céu por algum tempo, quase posso ver os pedaços se afastando um do outro, traçando trajetórias infinitas e solitárias através de um cosmos estéril, em um cenário de constelações estrangeiras.

As próprias estrelas caem mais do que deveriam. O céu noturno desce passando o horizonte e continua abaixo deste, envolvendo-se embaixo das margens gramadas. Era como se a estrada e as estreitas planícies de ambos os lados estivessem suspensas no meio de um vasto abismo; uma plataforma no meio do espaço aberto.


Pelo menos era o que eu achava no começo. Não demorou muito para que eu percebesse que a lua quebrada estava aparecendo duas vezes no céu, uma acima e outra abaixo de mim. Um par de satélites em órbita; idênticas e em perfeito alinhamento. Foi quando percebi que não havia estrelas abaixo de mim. Eu estava apenas olhando através de uma superfície plana tão perfeita e lisa  que, como um espelho, refletia perfeitamente os céus acima.

Eu estava dirigindo pelo centro de um lago.

A água estava incrivelmente parada. Desde que saí da costa na noite anterior, não vi nem uma onda, nem uma ondulação sequer em sua superfície plácida. Também era inegavelmente vasto, indo além do horizonte em todas as direções e continuando ainda mais para longe. Sem ter certeza de como sei, estava ciente de que as águas continuam por uma distância indescritível, que eu chegaria mais rapidamente até as estrelas antes de colocar os pés nas margens opostas.

Me inclinei e mudei as marchas. O ato de dirigir o Wrangler tinha sido assustador no início, mas depois dos primeiros dois dias consegui sobreviver. Um cachecol velho enrolado ao redor do volante serve como uma manivela improvisada, permitindo que eu fizesse as curvas com uma mão só. Eu não tinha uma solução elegante para a mudança de marchas, mas rapidamente me acostumei com o processo. Se aprendi alguma coisa na estrada, é que a elegância é a primeira coisa que você perde quando começa a lutar para sobreviver. A adaptabilidade, por mais desajeitada que seja, supera tudo. 

Alguns minutos depois, o Wrangler chega a uma margem espaçosa. Um grande círculo de terra cercado inteiramente por águas escuras. No outro extremo, a grama parecia cair, caindo abruptamente no lago com uma parada brusca. A estrada continua, é claro, mas é a única coisa que faz. Sem nada de lado nenhum, formava uma ponte estreita de asfalto perfeitamente reto, erguida sobre uma camada de lama e rocha.

Pressionei minha bota no freio, facilitando a parada do Wrangler no centro da clareira. Pela primeira vez naquele dia, abri a porta do carro e sai do meu banco. A única coisa que ouvia era farfalhar suave enquanto eu fazia meu caminho até a beira do lago.


Havia algo na margem, um objeto quase imperceptível, quase totalmente oculto por causa da vegetação rasteira. Era um milagre eu ter conseguido espiá-lo de dentro do carro, embora talvez algo sobre a uniformidade absoluta da paisagem tenha feito se sobressair.

Conforme eu avançava em direção da água, e me aproximava do objeto, sua forma indeterminada se solidifica em minha mente.

Era um braço humano, emergindo da água e tentando alcançar o a margem. Me agachei para examinar os poucos detalhes pertinentes. Os dedos ainda estavam incorporados firmemente no solo. A unha estava quebrada, colorida por uma camada descascada de esmalte desbotado. A pele parecia ser pálida e macia, espalhando-se pelo braço até desaparecer sob uma manga grossa de lã. No ponto em que encontrava a superfície, a água encharcava o tecido, fazendo o cinza virar preto.


Soltando o ar tristemente, me inclino sobre a beira da água.

O corpo de Marjorie Guthard estava encostado no lodo, sua bochecha descansando no leito do lago, os olhos arregalados e confusos olhando para o lago aberto. Estava quase perfeitamente preservada. Exceto pela estonteante firmeza de sua pele e sua palidez manchada e acinzentada, era idêntica a mulher que vi no 34º virada, que tentou me expulsar da estrada, que tinha falado sobre um lago bebendo suas feridas até ficarem limpas.

Parece que suas divagações não eram completamente inválidas. É claro que Marjorie tinha passado por um processo de exsanguinação, na verdade, a única evidência de que sangue um dia fluíra em suas veias era uma grande mancha escura em sua blusa rasgada.


Não demorou muito para o autor do crime desse as caras.

Enquanto encaro a água, um fluxo sussurros sem forma mergulhavam nas profundezas do lago. Os murmúrios suavemente falados chegavam aos meus ouvidos, criando raízes no fundo da minha mente e instantaneamente florescendo em uma onda de promessas profundamente persuasivas.


Me vejo completamente paralisada pela água parada, enquanto uma milhares de generosas oferendas se desdobram em toda a minha consciência. Os sussurros sugerem o fim das dores fantasmas no meu braço ausente, talvez até um membro completamente novo, mais forte do que antes. Além disso, mostra-me um vislumbre de suas extensões incompreensíveis, sua margem mais distante alcançando mundos longínquos, seu ponto mais profundo, abaixo de tudo. Me oferecem conhecimento total de cada légua, todas as profundidades, cada litoral inconcebível. 

Minha mão descia enquanto os sussurros continuavam, cada barganha mergulhada em suas doces beneficências. Um momento depois, meus dedos esticados roçam a grama macia e envolvem o braço exposto de Marjorie.


Cavando meus calcanhares no chão, eu me inclino para trás e puxo. A água ondula e espirra enquanto eu arrasto o corpo sem vida de Marjorie lentamente para a terra. Eu sinto as vozes em minha cabeça ficarem cada vez mais altas, irrompendo em ódio enquanto me afasto do lago.

As promessas haviam sido convincentes, cada solicitação silenciosa era inegavelmente persuasiva. Mas depois de ver o terrível destino de Marjorie e o olhar de traição eterna em seus olhos vagos, me vi ciente de uma sutil contracorrente por trás de cada sílaba, uma sensação de desespero e fome atemporal emanando de baixo da superfície daquele lago. Já tenho uma compreensão clara do que aconteceria se eu me perdesse naquelas águas. Suspeito que não seja coincidência, pois das incontáveis praias que me apresentaram, todas pareciam estar desertas.

Marjorie não teria tido nenhuma chance contra eles. Saiu da floresta sozinha, gravemente ferida e sem veículo. Andou por todo o caminho até aqui, sangrando sem parar, o poder rejuvenescedor da estrada lutando a cada segundo contra a inclinação natural daquele corpo que estava para morrer. Suspeito que a influência da estrada não era forte o suficiente, e quando uma voz sussurrante prometia o mundo, de forma tão gentil, que tudo seria consertado, não estava em posição de recusar.

A outra manga do blusão roçou na terra seca, seu corpo saindo da água pela primeira vez em décadas. Continuei puxando até minhas botas baterem no asfalto, deitando-a na grama ao lado do Wrangler.

Depois de um momento de vigília, andei até a parte de trás do carro e busquei a pá dobrável de Rob.


Longas horas se seguiram. Eu nunca havia cavado o túmulo antes e meu ferimento não facilitava a tarefa. Minha jaqueta amarrada em volta da minha cintura, gotas de suor escorrendo pela testa, lentamente consegui cavar a terra úmida. Cinco horas depois, com as costas doloridas, com a mão dormente por agarrar a pá por tanto tempo, tentei colocar Marjorie no buraco áspero em uma tentativa de delicadeza, suas pernas caíram frouxamente no solo macio, apesar dos meus melhores esforços.

Demorou mais de uma hora para devolver a terra para o buraco. Era uma tarefa sóbria e feia. Enquanto uma camada de terra cobria seu rosto, percebo que esta seria a última vez que uma pessoa viva colocaria os olhos em Marjorie Guthard. Enterrá-la assim, tão de repente pareceu desrespeitoso, como se fosse um ato que eu não tivesse o direito de realizar.


Uma vez terminado, cai de joelhos, uma dor surda em meus músculos enquanto eu aliso o chão remexido com as costas da pá.

MARJORIE: Você.

Mesmo antes de me virar para encará-la, pude sentir a cara emburrada em sua voz. Há uma profundidade odiosa dentro daquela única palavra, um desprezo potente e uma acusação que parecia ter estado sufocando em seus pulmões afogados por décadas.

Relutantemente, me levanto e me viro, encontrando-me cara a cara com a mulher que acabo de enterrar. Ela parece diferente agora, suas roupas estão secas, sua pele clara, sem nada para ser visto através corte profundo e escuro em sua blusa.


AS: Marjorie.

Ao contrário do casco sem vida que estava abaixo do solo, a mulher à minha frente não parecia estar de modo algum em paz. Ela treme e move com a mesma fúria indignada que testemunhei quando nos conhecemos. Quando fala, suas palavras estremecem sob o peso das suas próprias emoções turbulentas.

MARJORIE: Eu te persegui. Eu corri na sua direção. Eu... eu desisti dele por você.

AS: Desculpa , Marjorie, não sei o que você quer dizer. Me explica o que você quer dizer.

MARJOIRE: As coisas que eu vi, coisas tão lindas. E eu vi  ela andando sozinha pelos novos mundos. Eu dei tudo por você!

Eu não sabia bem o que dizer. Não fazia sentido perguntar o que ela queria dizer, tentar entender suas divagações frenéticas. No final, só podia tentar falar a língua dela.


AS: Marjorie, eu ... não era minha pretensão.

A respiração trêmula de Marjorie explodiu numa gargalhada desesperadora.

MARJORIE: Ah... ah sim, era sim. Sim, você fez. E agora... agora você está aqui.

O comportamento selvagem e volátil de Marjorie mudou mais uma vez, seu riso se degradando ainda mais em um choro desesperado, em pânico. 


MARJORIE: E o que eu faço agora? O que eu faço?!

Marjorie se encolhe com o pavor que a própria pergunta a causa, colocando a cabeça entre as mãos e repetindo-a várias vezes. Enquanto a vejo lutando com seu desespero, fico impressionada com uma ideia que nunca havia considerado antes. A desconcertante noção de que, na morte, não somos transportados para um destino determinado por algum atendente etéreo. Na verdade, nada é decidido para nós. Talvez a maneira pela qual passamos a nossa morte seja uma decisão que temos nós mesmos que tornar.

Marjorie estava de pé em cima de seu próprio corpo sem vida, ainda perdido, ninguém estava de luto por aquele corpo.


Não há sinal de um paraíso ilimitado, nem da condenação inescapável ou nada eterno, e a linha comum que essas duas opções compartilham, uma liberação final do peso de nossas ações, está similarmente ausente. Talvez nunca tenhamos essa liberdade, talvez continuemos como sempre fazemos, acompanhados por todas nossas imperfeições, incertezas e descontentamentos.

Talvez a nossa única escolha seja nossa eternidade.

Depois de todo o meu tempo na estrada, essa era possivelmente a ideia mais aterrorizante que me deparei

AS: Ele nunca parou de procurar por você, sabe.

Marjorie saiu de seu estado de desespero, instantaneamente consciente de quem estou me referindo, olhando para mim com uma expressão que eu nunca a vi usar antes.

AS: Eu o vi andando na estrada. Ele não parou. Ele nunca iria parar. Acho que ele estava procurando por você, Marjorie, ele ainda é.


Marjorie olha através de mim. Pela primeira vez desde que nos encontramos naquele tranquilo canto esquecido por Deus, pude ver a fraca faísca de algo além da miséria e da raiva naquele seu rosto manchado de lágrimas.

Sustento seu olhar por mais um momento, antes de puxar meu celular do bolso. Em uma única varredura de meus contatos, apago todos os números, exceto um. Um número que tirei da Nokia durante a nossa segunda noite na estrada. Um número que se conecta a um errante perdido da estrada.

AS: Eu não sei se isso pode ajudar, mas ... coisas estranhas aconteceram.

Enquanto ela olha nos meus olhos, sinto que finalmente estamos nos encontrando pela primeira vez. Sem uma palavra, Marjorie estende a mão trêmula e pega o telefone dos meus dedos estendidos.


Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, Marjorie Guthard se foi.

Alguns momentos depois, uma brisa refrescante bateu contra a minha bochecha, um suave zéfiro, esfriando meu rosto ainda quente. É uma sensação bem-vinda, e é a primeira movimentação do clima que testemunhei desde que chegara no lago. Limpando o suor da minha testa, olhei calmamente ao longo da ponte, a brisa rodando ao meu redor.


Era um vento sutil no início, batendo os cabelos na minha testa, gelando o suor da minha nuca. No entanto, quando estico minha mão e sinto o ar deslizar entre meus dedos, testemunho de um constante aumento de força e magnitude.

O som do vento cresceu de um sussurro para um uivo. Segundos depois, as mangas amarradas da minha jaqueta que pendiam na minha cintura começam a voar para os lados. Meu cabelo não repousa mais nas minhas costas, ondulando no meio de um vendaval em desenvolvimento.


Eu recuo em direção ao capô do Wrangler quando o ar finalmente entra em erupção em um ciclone barulhento e estrondoso. Minha mão procura reflexivamente a estrutura robusta do Wrangler, meus dedos envolvendo a grade, meu braço enrijecendo enquanto o vento implacável ameaça me arrastar pela estrada.

Olhando para a violenta tormenta, me concentro em um único ponto no espaço, logo acima do limiar da ponte. No meio da tempestade, uma linha irregular de luz branca quente irrompe do éter, rasgando o tecido da noite, uma fissura crepitante que se alarga e se abre, forçando para separar as cortinas da realidade enquanto  essas freneticamente lutam para se entrelaçarem novamente. 

Olhando através da ruptura tremula, sou sujeita ao mais breve vislumbre de uma vista ilimitada e impossível. Era um lugar muito longe, tanto na distância quanto no tempo. Um sonho dolorosamente belo e aterrorizantemente glorioso, suportando as majestosas margens do infinito. Cada momento se estende por um milênio e se desdobra em inúmeras direções de uma só vez. Cada sombra carrega uma escuridão que não pode ser medida, suas bordas queimadas pelo brilho de um sol acordado que olha através de todo e qualquer mundo concebível com uma intenção oca e rancorosa.

Em meio aquela paisagem enlouquecedora, uma entidade singular se aproximava, deslizando em direção ao portal com a intenção clara de ultrapassá-lo. Quando atravessa o portão estremecido,e o vento morre ao redor dele, olhei para sua grandiosa forma celestial.


O ser era diferente de tudo que eu já vi; composto inteiramente de arcos elétricos de luz magnésicos brilhante que estouravam de um núcleo central volátil e cegante. Soava como uma tempestade de relâmpagos, seus tentáculos plasmáticos estalando e crepitando, estourando caoticamente pelo ar da noite antes de desmoronarem sobre si mesmos. Quando voltam para dentro do ser, emitem nuvens pálidas vaporosas que desaparecem suavemente no ar.

De certa forma, mesmo quando meus olhos mal se ajustavam à luz cegante, percebo que a entidade geralmente produz uma luz milhares de vezes mais intensa que aquela. Ele  havia amortecido seu brilho por minha causa, de modo que possa aparecer diante de mim sem chamuscar minha retina.

AS: É você... não é? Você é a voz que tenho ouvido. Foi você que me trouxe até aqui. 


O redemoinho de luz paira no ar, crepitando e mudando de forma, seus membros transitórios estremecendo com uma incandescência caótica. Parte de mim quer se esconder, parte de mim quer fugir, mas nenhuma delas é uma opção de verdade. Soltando minha mão da grade do Wrangler, dou um passo à frente, ficando de pé, sozinha, olhando para o núcleo ardente da entidade.

AS: Me concede uma entrevista?

A criatura não reagia. No seguinte silêncio, me sinto sendo observada. Quando finalmente responde, sua voz rompe a noite, ecoando por todo meu corpo.

VOZ: Temos pouco tempo, mas pode me perguntar as perguntas que tem.

Cada sílaba reverberante forma uma cadeia de ondas no lago ao redor, emanando para fora do ser em um círculo perfeito. Observo as ondas rolando à distância, sem mostrar sinais de diminuir, e penso em que pergunta fazer primeiro.

No final, me vem rapidamente; uma promessa é uma promessa, afinal de contas.


AS: O que aconteceu com Marjorie? Por que ela fez o que fez?

O ser fez uma pausa, como se considerasse sua resposta. Quando respondeu, falou com uma calma sóbria.

VOZ: Ela teve um vislumbre do futuro, sonhou com a estrada, das coisas pelas quais passaria.

AS: Tipo, as coisas do outro lado?

Gesticulei em direção do portal, que agora estava quase totalmente bloqueado pela forma espiralada da criatura.

VOZ: Ela sonhava com fronteiras incontáveis. Ela viu uma mulher solitária andando com eles. Com o tempo, aquela visão se tornou tudo que via.

AS: Mas não era ela... ela pensou que estava vendo seu próprio futuro... mas era-


VOZ: Era você, Alice.

Essas três palavras, ao irromperem no ar, lançou três ondas estreitas através das águas ilimitadas, me atingindo com uma força profunda e pesada. Sem saber, décadas antes de eu nascer, Marjorie ficara louca por sonhos de uma grandeza enlouquecedora, de uma vida com possibilidades ilimitadas e um verdadeiro significado. Ela tinha dado tudo para perseguir uma sombra... uma sombra que eventualmente acabou por ser minha.

Eu não tinha apenas puxado Rob para este jogo, eu era o motivo de tudo. Eu era o motivo de todas as tragédias dessa família. 


AS: Ela não sonhava com essas visões. Você a influenciava. Você deixou ela ver... do mesmo jeito que você fez Rob me ver em Aokigahara. Você empurrou e cutucou onde quer que você precisava para que eu acabasse aqui. É por sua causa que Bobby conseguiu as regras em primeiro lugar, não é?

VOZ: Sim.

AS: Mas… por quê? Você brincou com tantas vidas ao longo das décadas. Por que eu? Por que é importante eu viajar pela estrada?

VOZ: Porque em toda a humanidade, em todas as permutações concebíveis, você é quem vai mais longe.

Ele falava claramente, como se a declaração fosse uma conclusão antecedente. No entanto, suas palavras me atingem em silêncio.


O ser continuava.

VOZ: Assisti você vir até aqui, usando suas habilidades e sua tenacidade... e pela sorte, inegavelmente. Você foi trazida para cá por causa dessas qualidades, e elas a levarão mais longe na estrada do que qualquer outro.

AS: Então porque você simplesmente não me trouxe aqui? Tudo que influenciou e você não levantou um dedo... depois de tudo o que aconteceu-

VOZ: Eventos ocorrem como precisavam ocorrer.

AS: Como precisavam ocorrer?! Pessoas morreram! Marjorie. Bobby. Ace. Apollo. Eve. Lilith. Todos. Todos se foram. Você não se importa?


Em resposta às minhas palavras, a entidade permaneceu em silêncio por mais tempo do que o habitual.

VOZ: Eu me importo muito mais do que você imagina. Existem coisas maiores do que seu entendimento, forças que existem além dos reinos da sua compreensão e que você consideraria uma ameaça a tudo o que você ama. Minhas ações foram guiadas por um padrão mais elevado de conhecimento. Seus protestos são baseados em uma falsa compreensão.

AS: Você está dizendo que eu não entendo a morte?

VOZ: Você não entende.

AS: ...Isso ainda não torna isso certo.

VOZ: Independentemente disso, minha influência é necessária. Aquilo que é necessário deve ser feito.

AS: Afinal o que você é?

VOZ: Eu não posso responder essa pergunta de uma maneira que você entenderia.


AS: Isso não é o suficiente.

A criatura não respondeu, como se não achasse que precisava. Até aquele momento, repondia todos os meus argumentos com uma certeza impenetrável. De seus domínios, sabendo o que sabe, meus argumentos deveriam parecer inteiramente dóceis. Mesmo que tenha sentido a necessidade de se justificar, depois de ver o lugar de onde vinha, me pergunto se existe mesmo alguma maneira de  um dia eu compreender seus motivos.

Ainda assim, isso não significava que meus argumentos eram inválidos, e o alto nível de indiferença da criatura estimulava meu desejo de se opor a ela.


AS: E se eu não quiser fazer parte disso?

VOZ: Você está viajando pela costa do anormal; uma falha singularmente estável no tecido da realidade. Enquanto a leva mais longe do mundo que você conhece, você estará livre da influência das velhas leis. Você já percebeu os efeitos naqueles que continuam na estrada, aqueles que se perderam nela e neles mesmos; energia sem consumo, conhecimento sem experiência requerida. Você está perdendo a entropia e a causalidade e, com o tempo, alcançará reinos de entendimento que você não pode imaginar no momento. Você encontrará respostas para perguntas que nunca pensou em perguntar. Você descobrirá a verdade absoluta. Por esse motivo, você continuará.

AS: Esse é o único motivo?

VOZ: Você precisa de outro?

Não é uma pergunta, mas sim outra afirmação contundente. Entendo o efeito de que está falando. Desde a cidade, tenho descobrido algumas noções vagas e idéias fragmentadas que me ocorrem aleatoriamente e sem anúncio. Novas avenidas de pensamento que me levam a revelações que de outro modo estariam além do meu alcance mortal.

Comecei a compreender coisas que eu mal poderia ter concebido em casa, e embora o início dessas noções tenha sido aterrorizante no começo, ficam cada vez mais necessárias a cada dia que passa.

AS: Não... não, eu não confio em você. Eu não-

VOZ: Sua confiança é imaterial. Independente disso, você continuará a viajar pela estrada. 

O brilho já intenso da criatura começou a se intensificar.

VOZ: Eu te acompanhei em todos os momentos... em todos os momentos da sua jornada.

Uma das incontáveis protuberâncias da criatura esvoaça para o ar vazio, formando outra fissura ríspida e brilhante. Se abriu em alguns solavancos, uma membrana transparente quase cristalina esticada no espaço infinito. Através dela, posso me ver, no centro de um milharal, examinando um bloco de explosivo C4. 


É como se eu estivesse olhando para o passado por um espelho falso.

VOZ: Estivesse assistindo seus questionamentos. 

Embora não possamos ser vistos através da abertura, vejo a a fissura envidraçada tremer com a força da voz da criatura. Quando o vidro colapsa, vejo as fileiras de milho em frenesi.


Um segundo arco aparece no céu, formando uma segunda abertura. Desta vez eu já sei que visão terei. Me vejo chorando na floresta... um rádio silencioso ao meu lado.

VOZ: Eu venho assistindo seus esforços. 

A segunda abertura se fechou. O ser tinha suas razões.

VOZ: Eu assisti você lutar... para chegar até aqui.

VOZ: Você não vai voltar.

AS: Você faz parecer que eu não tenho escolha.

VOZ: Você tem, Alice, mas você já fez a escolha.

Por mais que eu detestasse presunção da criatura, naquele momento, sabia que estava certo.

O que ele dizia era a verdade. Fiz coisas que nunca teria imaginado para chegar onde estou agora. Na verdade, se esse ser não tivesse chegado, eu já estaria indo pela ponte. 

Eu não tenho orgulho do que me motiva; era o mesmo impulso horrível que me levou a recusar a oferta de retorno de Rob, que tornou tão fácil deixá-lo na cidade silenciosa. Mas não há como negar que o impulso estava presente. Tem estado comigo o tempo todo, muito antes de eu chegar em Phoenix, Arizona... e está enterrado mais fundo do que eu queria admitir.


AS: Posso… posso dar adeus?

A entidade não diz nada. Ficou suspenso no ar, suas luzes piscando e correndo com seus raios de luz que se irrompiam. A próxima coisa que ouvi foi um leve zumbido mecânico vindo do Wrangler atrás de mim. Me virando, volto rapidamente para o carro, abro a porta e alcanço o banco do passageiro. Meu notebook está inicializando, aparentemente por vontade própria.

Pegando o notebook, levantei a tela enquanto caminho de volta para a ponte. Eu olho para o ser silencioso diante de mim. Quando olho para o notebook, meu e-mail já está aberto.

AS: Quanto... quanto tempo eu tenho?


VOZ: O suficiente.

A entidade começa a voltar, seus arcos diminuindo à medida que o ser voltava para o seu núcleo. Sua mensagem tinha sido entregue. Não havia mais o que ser discutido.

Ao passar pelo portal, em um mundo incognoscível distante do meu, chamo por ele.

AS: Ainda não tenho certeza se posso confiar em você.

O ser se concentra em mim mais uma vez, quando a fissura começava a se fechar. Um conjunto final de ondas atravessa a superfície do lago enquanto me respondia.

VOZ: …Eu me lembro.


Um momento depois, se foi.

Permaneço imóvel no meio da estrada, os comentários finais da entidade passando por cima de mim, sua curiosa escolha de palavras ecoando na minha cabeça. No renovado silêncio, os fracos movimentos de uma revelação esmagadora e terrível começam a se formar em minha mente.

Pode ser que você tenha sido a pessoa mais significativa da minha vida. Foi uma honra conhecê-lo e espero que, entre essas páginas, você encontre as respostas e a paz que você merece.

Para minha mãe e meu pai, lamento que não vou enviar isso para eles. No final, eu fui levado por esse caminho por um profundo egoísmo, e eu simplesmente não consigo encará-los. Nem posso imaginar a dor que eu estou depositando em vocês, e não tentarei justificar minhas ações. Tudo o que posso dizer é que eu os amo e lamento que meu último ato em relação a vocês tenha sido de covardia.


E finalmente para você; a pessoa a quem estou mandando esse e-mail. Eu sinto muito. Eu sempre pensei que te veria novamente um dia, que as estradas que eu tomaria eventualmente me levariam para casa. Isso não me parece mais tão provável agora. Embora pudesse dizer muitas coisas para você, não  vou fazê-lo. 

Mas eu queria ter sido sua amiga por mais tempo.

Parece que faz uma vida desde que cheguei na tranquila rua de Rob Guthard. Lembro-me da incerteza enquanto esperava que ele abrisse a porta, sem nenhuma ideia imaginável do que estava prestes a acontecer.


Como tantas outras coisas, isso já mudou. Apesar de estar em um mundo totalmente novo, mais longe de casa do que qualquer um já esteve, sei exatamente o que vai acontecer a seguir.

Vou fazer uma viagem. Virarei à esquerda, então a próxima rua possível à direita e, em seguida, a próxima esquerda. E repetirei o processo ad infinitum, até que eu termine em algum novo lugar.

E de lá eu continuarei dirigindo, além dos mundos, além do tempo, além dos limites da minha imaginação. Para um lugar onde o lago seca, onde a lua quebrada se reparte, e as estrelas desaparecem no espelho retrovisor.


 Vou para um lugar onde tudo desapareceu e a estrada é a única verdade.

FIM
AUTOR: /NeonTempo

PRÓXIMA SEMANA JÁ TEMOS SÉRIE NOVA! SUGESTÃO DO LEITOR GOLF WANG:
" DESAFIEI MEU MELHOR AMIGO A ARRUINAR MINHA VIDA"

Esse conto foi traduzido a exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

30 comentários :

  1. Simplesmente amei. Valeu cada segundo do tempo que dediquei a leitura, cada segundo de espera entre um capítulo e outro. Parabéns pela excelente tradução e pela incansável dedicação aos leitores do blog. Eu realmente amo isso aqui.

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  2. Oh, esse final foi tão... Não tem do que se emocionar, mas voce começa a chorar. Não tem do que de alegrar, mas você está contente...

    É horrívelmente uma incrível obra de arte

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  3. O final mais poético de todos os tempos. É só o que posso dizer. Ah, e claro que amei.

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  4. Esse final... cara, valeu cada minuto lendo cada parte dessa série. Obrigada Divina e CreepypastaBrasil por terem traduzido e postado uma série tão maravilhosa assim para nós <3 Espero algum dia ler uma série como esse ou melhor que essa kkk ^-^ Tô mal por ter acabado, queria saber mais sobre os coisas que iriam acontecer pelo resto da estrada :/ Mas foi bom mesmo assim! Valeu pessoal <3

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  5. Eu estou arrepiada com esse final. Simplesmente sensacional essa creepy, estou ansiosa pelas próximas.
    À toda equipe de tradutores, meus mais sinceros parabéns!

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  6. Meu deus do céu que obra de arte, sem dúvidas a melhor história que eu já li, isso daria um filme incrível. Só deixo aqui meu agradecimento especial ao canal Dossiê do Felipe, ele está fazendo uma versão adaptada audiovisual muito boa por sinal, e graças a ele conheci esta obra de arte, obrigado a quem traduziu. Incrível!

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  7. O autor desse Creepypasta devia sinceramente considerar escrever profissionalmente. Manteve minha curiosidade até o fim, e olhe que me considero relativamente exigente em história de terror. Parabéns pela tradução!

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  8. Esse final foi lindo, mas estou ligeiramente revoltado. Estava com a sede de entender tudo, de saber do que se tratava a estrada, de saber todos os segredos desse lugar. A conversa com a entidade me deu um gostinho disso, mas não é o suficiente. Eu entrava em desespero ao ir chegando perto do final é perceber que as respostas que eu queria não iriam aparecer. Tantas perguntas! Quem diabos é o caroneiro? Por que a AS é importante? O QUE é a estrada? Aaaaah tanta coisa que eu quero saber e não me conformo que a história já acabou. Alguém sabe quem é o autor da história? Queria fazer uma entrevista com ele hehe

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    1. Cara eu senti a mesma coisa kkkk mas acho que o autor fez isso propositalmente,deixar essa duvida,essa sede,igual como a Alice ficou,o desejo de saber mais,chegar no final de estrada,tenho certeza que ele quis passar isso

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    2. Você também tá na estrada e ainda não percebeu, amigo.

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  9. Senti até um arrepio ao finalizar a creepy. Arrisco dizer que foi a melhor que já li,mesmo que o blog geralmente poste creepys excelentes, acho que essa superou qualquer outra.

    Parabéns pelo trabalho e obrigado pela creepy. Toda quarta foi um "quero a próxima parte, mas não quero que acabe logo".

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  10. Olha,sempre me perguntava se alguma creepy um dia superaria Tommy Taff,e lá pela terceira parte dessa a pergunta já tava meio que respondida.E olha que sobrou material para 1)sequencia,nao necessariamente com AS,mas pode ser com o amigo dela fazendo a viagem;ou novos personagens mesmo2)spin -offs(tipo como Rob voltou ou algum personagem ainda tiver consciente de alguma forma-tipo Ace em Jubilo-,ou creepys específicas sobre ,por exemplo ,o Caroneiro ou outra entidade que apareceu na história;3)prequels,como contar a história de Rob jovem em Aokigahara .4)Crossovers..ok ,talvez eu esteja viajando um pouco agora,mas imagina saber ,tipo,que esse mundo paralelo é o lar do Slender,ou Tommy ...

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    1. Continuações assim são perigosas, podem quebrar o clima por completo da história em que se baseiam e as chances de não corresponderem as expectativas são enormes, principalmente se feito por alguém que não seja o verdadeiro autor da história. Masssss, quem sabe né?

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  11. A criatividade do autor é realmente incrível. A história te prende o tempo todo, sempre queria ver a parte seguinte, mas ai parece que o autor simplesmente cansou de escrever, acabaram as ideias. Final extremamente decepcionante! Vou ler de novo e ver se deixei escapar algum detalhe. Valeu a pena ter lido o conto por toda a narrativa, mas o final foi péssimo!

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  12. Mas acho que a vida é isso, não?! E uma estrada onde você é o motorista, que tem que prestar atenção no caminho pra não se perder. Por mais que se tente, numca vamos conseguir viver, saber ou conhecer tudo. O passado não muda e o futuro são infinitas possibilidades, o que resta é a viagem do presente é a certeza que não se saberá o final

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  13. Essa história é absolutamente maravilhosa

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  14. Merece um filme! Muiiito bom me prendeu demais essa série

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  15. Nunca achei que choraria com uma Creepypasta, mas parece que a otária achou errado não é mesmo? História genial, personagens cativantes (Clyde, Apollo e Rob eu os amarei pra sempre), cada reviravolta que PORRA!Tudo nessa história está na medida certa, o terror, o drama, o suspense, é tudo tão bem construído que você se vê na estrada junto com eles. Dificilmente uma historia superará essa. Obrigada ao site por nos apresentar a essa obra prima. <3

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  16. Caramba... Que história .... Que história... Tô chocado com essa história

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  17. Essa história foi incrível! Fiquei imaginando um filme dela... Já pensaram, que filmaço?👊

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  18. Eu estou simplesmente encantada! valeu cada minuto de leitura leitura cada semana de espera, demorei mais de uma semana pra ler esse último capítulo porque não queria aí terminasse ķkkk
    Mas, sério, perfeita a creepy. Deixou algumas pontas soltas mas creio que tenha sido a propósito pra imaginarmos o que seria a estrada, o que aconteceu com ace, o que é o caroneiro, se rob sobreviveu e etc. Muito, muito obrigada por uma das melhores leituras em muito tempo! O autor poderia com certeza escrever profissionalmente.Está de parabéns, poderia ficar o dia inteiro falando sobre essa série, mas me despeço por aqui. Muito obrigada!

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  19. Tem um detalhe que ta martelando na minha cabeça. A criatura da floresta, a criança que envelhecia ao ser exposta a luz, será que ela nao era o Neto do Rob? Pois se bem entendi o filho e a esposa foram para estrada enquanto ela estava grávida e nunca mais voltou de la!!!! História incrível!

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  20. Só eu que estou com uma puta vontade de jogar esse trem?

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  21. No final existem mais perguntas que respostas, mas que creepy sensacional!

    As teorias são inevitáveis né? Se Bob, Marjorie, o bebê e o Rob que morreram na estrada e se tornaram parte daquele mundo, como será (ou o que será) que todos os passaram a viver, será que o caroneiro era uma pessoa que morreu ali tb? E as outras pessoas das duas outras cidades? Aaaaaaaah

    Pela primeira vez na vida estou tendo depressão pós creepy

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  22. Alguém entendeu o que o "ser" quis dizer quando fala pra Alice "...eu me lembro". Isso tá que não sai da minha cabeça pq a Alice parece ter entendido.

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  23. Cara...

    Série excelente! Arrisco dizer que é a melhor creepy que já li.

    Todas as vezes que leio uma história desse porte, eu me pergunto: E Se nós estivermos tratando algo real como algo ficcional? Tratando a dor e tristeza reais de alguém como uma forma de entretenimento.

    Creio que alguns de vcs já pensaram nisso, mas sinceramente me pego preocupado com isso sempre que uma história tem este nível de envolvimento

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