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Anthony Willis

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ATENÇÃO: ESSE CONTO ESTÁ CLASSIFICADO COMO +18. PODE CONTER CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. CONTÉM CONTEÚDO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHERNÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS. PODE TER ACIONADORES DE GATILHOS E/OU TRAUMAS.  LEIA COM RESPONSABILIDADE. 


Hoje, Anthony Willis está sentado na minha cadeira - um jovem que é de certa forma magro e gordo ao mesmo tempo e tem cabelos oleosos e sujos. Passou pela minha mente que talvez seja melhor eu limpar a cadeira depois que ele for embora. Esta é sua primeira vez e ele ainda é jovem, imaturo e estúpido. Espero que, quando ele sair de minha cadeira, tenha algum conhecimento e talvez, apenas talvez, ganhe um pouco de compreensão.

"Então, quantos tempo de vida tem a criança?"

"Ah, hmm, dois meses." Interessante. A maioria dos pais de primeira viagem contam a idade de um recém-nascido através de semanas e dias. Faz sentido quando toda semana é um novo marco. E a maioria não precisa de um segundo para pensar a quanto tempo a criança está em suas vidas quando estiveram lá por tão pouco tempo.

"Você tem uma esposa?"

"Sim. Ela tem 21 anos." Uau. Essa é a coisa mais significativa que ele consegue pensar sobre ela? A idade? Não há quanto tempo estão casados ou até mesmo o nome dela? Agora que penso nisso, ele também não mencionou o nome de seu bebê. Ou mesmo se era um menino ou uma menina. É claro que eu já sabia que era uma menina porque li o arquivo dele antes de entrar.

"Como eles estão?" Agora estava tamborilando os dedos na cadeira. Interessante.

“Bem. Eles estão muito bem." Muito bem? Tão descritivo. E ele até quebrou o contato visual comigo para dizer isso. Esse cara é um péssimo mentiroso. Graças a Deus. Esse será fácil de quebrar.

"Sim, mas não estamos aqui para falar sobre eles, não é mesmo?" Ele me olha novamente e se senta direito quando percebe que a conversa acabou e é hora de começar a tratar de negócios. "Estamos aqui para falar sobre você. Então, como eles estão em relação a você?"

"Hmm..." Devo ter pego-o desprevenido. Estava desconfortável. Na verdade, estava até esticando os braços e colocando as mãos atrás da cabeça em uma tentativa subconsciente de ocupar mais espaço. Normalmente, para homens humanos, isso significa que estão intimidados ou tentando impressionar alguém que os atraem. Algo me diz que nesse caso não era a segunda opção. Depois de alguns segundos de um silêncio doloroso, decido ajudá-lo.

"Vamos começar com sua esposa. Você diria que tem um bom relacionamento com ela?” Eu estava inclinado para a frente, minhas sobrancelhas franzidas, as mãos juntas em cima da mesa. Parece que quanto mais atenção eu dou, mais desajeitado fica. Isso é delicioso.

"Sim,bem... é de boa." Deus, esse cara não quer falar. Mas tudo bem, já lidei com coisas muito piores. Muitos bandidos já haviam passado por uma sala como essa e sentaram na minha cadeira. E quebrei todos eles.

“Você já discutiram? Tiveram desentendimentos?” Agora eu o peguei. As pessoas que estão à beira do divórcio ou do assassinato sempre falam mais vezes  que o casamento está bem do que não. Acho que as pessoas têm muita dificuldade em revelar coisas assim para estranhos. Nós fomos condicionados, afinal de contas, a colocar um bandaid em um buraco de bala e um sorriso em nosso rosto durante tempos difíceis. Especialmente conflitos conjugais.

“Bem, sim. Nós discutimos."

"Sobre o que vocês discutem?"

"Hm..." Estava desviando o olhar novamente. Acho que desta vez ele estava tentando esconder a emoção em seus olhos. O Senhor proíbe o homem de demonstrar qualquer emoção. Ele dá uma risadinha que pareceu ter saído com um grande esforço. "Sobre tudo, na verdade."

"Tudo? Isso não parece bom. Parece... miserável."

“Sim, miserável. As vezes é. Desde que ela engravidou." Ele ainda não olhava para mim. Na verdade, ele estava se esforçando tanto para evitar o contato visual que seu rosto estava quase completamente virado para o lado contrário. O quadro de uma planta  que está pendurada na parede deve ser extremamente interessante, porque muitas das pessoas que sentaram nessa cadeira passaram um bom tempo olhando para as paredes. Engraçado, porque sempre achei que era apenas uma pintura idiota de uma planta qualquer.

"Como as coisas mudaram entre vocês desde que ela engravidou?"

“Mais brigas. Muito mais brigas.” Agora chegou ao ponto onde, ao invés de se esticar, estava começando a ocupar cada vez menos espaço. Estava segurando as coxas e sentando mais reto. 

“Sobre o que vocês brigam? Tente ser específico." Ele estava passando as mãos para cima e para baixo em suas coxas - Deus, por que simplesmente não para de se mexer?

“Só coisas, tipo, eu nem sei. Sempre tem alguma coisa. Toda vez que eu entro pela porta, tem algo errado, tipo, eu fiz algo de errado. Simplesmente não faço nada certo."

"Você ajuda com o bebê?"

"Cara, eu tento." Então agora ele está me chamando de cara? Parece que já estou derrubando as paredes. “Mas, tipo, o que eu faço? Eu não consigo fazer a coisinha parar de chorar," Ah, interessante, muito interessante. Então agora o bebê é uma coisinha? "E ela ainda está amamentando, então não é como se eu pudesse ajudar com isso. Ela nunca quer deixar só chorando. Ela acha que é nosso trabalho simplesmente pular em cima da criança toda vez que fizer qualquer som para descobrir o que está errado. E eu acho, tipo, ela não vai se tornar uma criança mimada assim?" Quanto mais chateado fica, mais confusa suas frases se tornam. Mas já era um avanço. Se referiu a sua filhinha como ela e não coisinha

"Então, você diria que tem um jeito diferente de criação dos de sua esposa?"

"Ah, sim." Ele está me olhando nos olhos agora, balançando a cabeça furiosamente. "Às vezes fico bravo e fico tipo, 'e daí? Deixe a maldita criança chorar um pouquinho!' E então ela fica louca!”

"Fica louca?"

"Ah, sim" Agora ele está imitando meu comportamento, inclinando-se para frente e fazendo o mesmo movimentos de mãos. De repente torno-me seu melhor amigo. "Diz que sou um péssimo pai. Diz que me odeia. Eu odeio quando ela diz isso."

"É por quê você a ama?"

"Porque isso me irrita!" Sua reação é quase explosiva, mas já lidei com coisas piores, então não reajo.

"Por quê você a ama?"

"Sim, eu acho." Murmura.

“E a sua filha? Você a ama?"

"Claro que eu amo! Quero dizer, ela me deixa doido. Mas ela ainda é minha filha. Só não acho que ela deveria ser tratada como a rainha da Inglaterra, sabe?" Ah sim, eu sei. Eu sei tudo sobre você, Anthony Willis, e sei exatamente como você se sente sobre sua esposa e filha.

“Sua esposa te dá apelidos maldosos ou te coloca pra baixo quando vocês brigam?”

"Sim. Preguiçoso de merda. Bunda gorda. Idiota. Peso morto. Ela acha que é minha culpa de eu não conseguir um emprego nesta economia de merda. Como se eu não estou me candidatando."

"Quanto tempo faz desde que teve um emprego fixo, Anthony?" Eu já sabia a resposta, mas pergunto da mesma forma, só porque quero vê-lo se contorcer.

“Faz, sei lá, algum tempo. Talvez uns meses?” De repente, ele não está mais olhando para mim e está recostado em sua cadeira, como se achasse que, se estivesse longe o suficiente, a pergunta não o atingiria. Ou talvez eu não o ouça. Mas eu nem sequer preciso ouvi-lo porque sei o motivo para estar ali, sentado na minha cadeira. 

“Então, sua esposa trabalha?”

"Não, claro que não. Ela não pode trabalhar por causa do bebê, certo? Ela largou o emprego alguns meses antes de o bebê nascer. Isso não é uma bosta? Ela pode ficar com os pés para cima o dia todo enquanto todos correm ao seu redor como se ela tivesse acabado de dar à luz a Jesus e então todos gritaram comigo para  que eu arranje um emprego.  Como se fosse fácil." 

“Se nenhum de vocês trabalha, então como se sustentam?” Claro que sei a resposta para isso também. Mas é muito importante que ele diga essas coisas em voz alta. É a única maneira da verdade ser revelada. 

“Os pais dela, sabe? Eles têm um pouco de dinheiro, acho. Nós dormimos no quarto de hóspedes. As vezes. Às vezes eu durmo no sofá porque eu não sinto vontade de lidar com tudo. Às vezes só quero ter uma noite inteira de sono sem aquela criança me acordando, sabe?” Sim, Anthony, eu sei. Eu sei muito bem. “Ela insiste para que o bebê durma na cama. Não vejo por que  não pode simplesmente colocar o berço no banheiro ou na sala de estar e depois deixar o bebê chorar um pouco. Nem que seja por apenas algumas horas, se isso significar que vamos dormir, sabe? Mas não. Não, não, não, não, não. Preciso de uma noite inteira de sono às vezes, sabe?"

“E sua esposa? Ela tem noites inteira de sono?"

“Pra que ela precisaria disso? O que ela faz o dia todo? Ela está sempre dormindo, assistindo TV ou simplesmente colada na bebê. Mas então ela reclama que eu deveria estar lavando a louça ou fazendo o jantar. Mesmo que eu literalmente passe horas todos os dias na internet procurando emprego. Mas sempre que eu tento fazer uma pausa, posso garantir que ela vai entrar no quarto e começar a gritar comigo." Eu acho engraçado que alguns momentos atrás ele não estava falando frases inteiras e agora ele está vomitando parágrafos. Ele não está mais desconfortável. Mas, ainda está inquieto. Mantinha os olhos em mim, mas sua mão está viajando por todo seu corpo como se estivesse coberto de formigas. Consciência suja, Anthony?

"Conviver com seus sogros deve ser estressante para você." Eu estava tentando atingir todos os pontos fracos. Quão chateado posso deixá-lo? E o que posso fazer para que confesse? 

"Cara, você nem sabe." Eu sei, Anthony, eu sei tudo, mas eu quero que você me diga. "O pai dela? O cara me odeia pra caralho. Tipo, me odeio do fundo do coração. Sempre dizendo para ela me largar e realmente quer me expulsar de casa. Ou me matar, provavelmente.  E a mãe dela é  só mais uma vadia. Uma simples puta. Ela não gosta de palavrões. Não gosta de beber. Ou de fumar. Ou de qualquer coisa, exceto pela neta. Trata aquele bebê como se viesse de Deus. Mas eu? O homem que fez o bebê? Ela trata como uma merda. Vai entender."

“Você briga com os pais dela?”

"Sim e não. Tipo, eles não dizem nada na minha cara. Apenas falam pra ela. E depois acabamos brigando por causa disso."

"Você fica com raiva?" Minha voz está tão baixa agora que é quase um sussurro. Estou inclinado para a frente, preparando-me para o ataque.

"Quem não ficaria?"

"Quanta raiva você sente?"


"Bem, às vezes", sua voz estava ficando mais baixa também. “Eu só, tipo, eu meio que… eu ouço aquele bebê. Aquele maldito bebê gritando. E, eu juro por Deus, eu tenho vontade de matá-la." Ele estava segurando as mãos na frente de si, com os dedos cerrados. Os tendões em suas mãos estavam  saltados e eu posso ver claramente as veias sob sua pele translucida.

"Então, o que você faz quando está com raiva?" Ele já estava na minha mão. Responderá qualquer pergunta que eu fizer, mas ainda quero que ele perceba. Além do mais, eu ainda não estou brincando com ele.


“Eu - eu arremesso coisas. Quebro coisas. A mãe dela não gosta quando eu bebo, então às vezes eu só jogo garrafas vazias nas paredes quando elas não estão em casa. Eu bato as portas, soco as paredes, chuto os móveis. Fiz um buraco na porta do nosso quarto uma vez. Não consigo evitar. É muito difícil, sabe? Ser um homem, mas ser tratado como um garoto. Eu só quero um pouquinho de liberdade."

“Como sua esposa reage quando você fica com raiva?"

“Ah, você sabe, todo assustada e tal. Como se realmente achasse que vou machucá-la. Ela fica toda apavorada. Uma vez ela me disse que, se eu colocasse uma mão nela, o pai dela atiraria em mim. Cara, naquela hora? Aquele velho gordo poderia atirar na mesma hora! Seria a porra de uma benção para mim!"

“E o bebê? Você já machucou ela?

“Deus, não, claro que não! Eu já gritei com ela. Mandei calar a boca. Mas todos os pais ficam frustrados. Na verdade, é normal ficar frustrado às vezes. Mas sou tratado como se eu fosse um monstro ou algo do tipo. Às vezes, quando ela está chorando muito alto, é como se eu não aguentasse mais e tenho que socar alguma coisa."

“Tipo a parede? Ou a porta?"

“Sim, isso mesmo! Você me entende?"


“E lâmpada? Você às vezes quebra as lâmpadas?"

“Às vezes, sim. É que tipo, eu  só quero dormir um pouco. E sexo. Isso é difícil de admitir, especialmente para um homem. Mas, você sabe, nós não trepamos desde de que deu à luz? Ela não entende porque, para ela, não é uma grande coisa. Ela nem sequer para pra pensar um segundo em como isso me afeta! Especialmente porque eu não consigo mais nem sequer bater umazinha por dia, já que não temos absolutamente nenhuma privacidade. Tenho que me esconder no banheiro como se eu fosse um adolescente de novo. É humilhante ". A essa altura, já estou sentindo uma raiva inexplicável. Mas aprendi a esconder isso muito bem. Meu rosto permanece praticamente inexpressivo, embora por baixo eu esteja tenso, louco para matá-lo.

“Pense na última vez que você discutiu com sua esposa. Como foi?"


“No começo era porque eu queria que ela demonstrasse que me amava, sabe? Tipo lagar a bebê por dois malditos segundos e prestar atenção em mim, pra variar. Ah, ela não gostou disso. Claro que ela não gostou. Como eu podia ousar em demonstrar que sou um ser humano com necessidades, certo?"

"Por necessidades você quer dizer sexo?"

"Não exatamente. Eu sou uma pessoa física, sabe? A linguagem do amor e tal? Bem, eu sou físico. Eu gosto de ser tocado. Você sabe, beijos ou algo a mais de vez em quando, né? Se isso leva ao sexo, beleza, mas não precisa. Mas, pelo menos, ela poderia pelo tentar. Ela sempre reclama que se tentar vai doer, mas, tipo, como diabos ela vai saber se vai doer se ela nem ao menos tenta?” Uma vez que esse cara começa a falar, não para mais. Eu poderia fazê-lo contar toda a sua história de vida para mim, se quisesse. Mas não. Eu só quero uma coisa e estou chegando cada vez mais perto.


"O que aconteceu depois?"

"Eu não me lembro muito bem, para falar a verdade." Agora ele estava agindo como se eu fosse seu melhor amigo. Se inclina para trás na cadeira e se alonga. Falar um monte de merda sobre sua esposa parece torná-lo mais confiante. Homens como ele gostam de falar merda. E quando realmente encontram alguém que vai sentar lá e ouvir sem dispensá-los, se sentam e despejam. A parte mais difícil do meu trabalho é fingir que não fico enojado com homens como ele.

"Você saiu de casa, não foi? Você ficou muito bravo?"

"Cara, bravo nem sequer descreve. Eu estava chateado. Acho que saí. Talvez eu tenha ido a um bar ou algo assim? Devo ter me metido em merda porque não consigo me lembrar de nada."

"Não consegue ou não quer?" Tenho que falar devagar e enunciar cada sílaba para não gritar.


"O que você quer dizer?"

“Deixe-me ajudá-lo. Você não foi a um bar. Você foi para um posto de gasolina. Você comprou muita cerveja. Você bebeu muita cerveja. Tudo sozinho em um estacionamento de um posto de gasolina. Então, o que aconteceu?"

"Uhh, eu fui para casa?" Aquele pobre cérebro idiota estava quase pifando. Acho que pela primeira vez estava começando a questionar onde ele estava naquele momento. E quem diabos eu sou. Mas não há tempo para isso e ele ainda não entendeu. Tenho que mantê-lo no caminho certo. Estamos nos aproximando do ponto de ruptura.

"Sim, você foi para casa, agora se concentre em lembrar." Eu ainda estava inclinado sobre a mesa, e agora estava praticamente deitado sobre ela. Meus olhos estão fixo nos dele com tanta ferocidade que ele não ousa desviar o olhar. Tenho que mantê-lo focado.

“Os pais dela não estavam em casa ainda. Fiquei muito feliz com isso. Eu não conseguia parar de pensar em como eu era sortudo. Mas então fiquei muito bravo."


"Qual era o motivo da sua raiva?"

"Hm, porque a porra da porta estava trancada e eu não tinha uma chave. E eu estava batendo na porta e gritando e ela não queria abrir. Não  queria me deixar entrar de propósito! Na minha própria casa!" Não é a sua casa, Anthony, mas isso não importa agora. Ele está fazendo progresso.

"Então, como você entrou?"

"Ah, fácil." Ele olhou para baixo para sua mão direita ensanguentada. “Quebrei a janela da porta e apenas estendi a mão e a destranquei. Foi bem simples. E eu estava tão bêbado que nem chegou a doer.

"E sua esposa - ela estava lá dentro?"

"Sim, eu acho que sim..." Ele ainda estava olhando para a mão como se não entendesse. Ainda não posso deixá-lo finalizar o quebra-cabeça. Ele precisa juntar as peças em ordem.

“Anthony! Sua esposa - o que ela estava fazendo? O que ela fez quando viu você?"

“Ela começou a gritar. Alto. Dizendo-me para ficar longe dela. Ah sim, então ela disse, adivinhe só? Que os pais dela estavam na delegacia! Estavam tentando me colocar na cadeia! Por causa de um misero soco, tipo, nem metade da minha força!"


"E o que você falou?"

“Eu disse que, se eu fosse para a cadeia, ela iria para o hospital. Então ela correu como uma putinha para quarto de seus pais e trancou a porta. Eu pudia ouvir a cadela burra através da porta. Ela está no telefone dizendo 'ai meu deus, ele vai me matar, me ajude, ai deus'. Estava bravo, então comecei a chutar a porta. Estava apenas tentando assustá-la, mas a porta quebrou. E a próxima coisa que eu sei é que  tinha uma arma apontada na minha cara. Ela estava apontando uma arma para mim, e teve a coragem de chamar os policiais para mim? Mas eu não estava com medo. Quer dizer, eu sabia que ela não faria aquilo, sabe? Não tinha coragem. Então comecei a andar para frente. E ela para trás. E chorando. E dizendo 'não me faça atirar em você'. Então sabe o que eu fiz? Eu andei até ela, peguei a arma e segurei contra meu peito. E falei, 'se você vai fazer isso, porra, faça logo'. E você sabe o que ela fez? Jogou a porra da arma no chão. E então chorava e dizia 'por favor, não me machuque'. Aquela cadela ia atirar em mim! Você acredita?” Ele não estava mais na linha entre chorar e rir, ele está brincando pulando amarelinha nessas opções.

“Mas ela não atirou em você. Ela não podia fazer isso.” O jogo acabou. Anthony Willis deixará minha cadeira e levará seu cabelo sujo e oleoso junto com ele. Ele não sairá daqui como um homem melhor - já é tarde demais para ele. Mas talvez eu possa livrar o mundo de seu cheiro fétido de uma vez por todas. Talvez eu possa terminar corretamente o trabalho que ele deixou já meio pronto.

"Não, ela não podia. Ela era doce demais. Gentil demais. Bebêzinha demais. Assustada demais. Caralho, sei lá. Mas ela cometeu a porra de um grande erro. Eu vi algumas luzes brilhando na janela. Sim, ela tinha chamado a porra dos polícia. Ela me negava sexo como se eu fosse indigno disso, me trancou para fora da minha própria casa, apontou uma arma para mim e depois chamou a polícia. E, claro, quem são os policiais que vão acreditar? Não eu, com certeza. Eles sempre ficam do lado da garota. Sempre. Provavelmente porque acham que ela dar pra eles, sabe?" Não, Anthony, eu não sei. "Um ombro para chorar se torna um pau para cavalgar, é o que disse."

"O que você fez com sua esposa, Anthony?"

“Bem, eu pensei, sabe de uma coisa? Talvez eu deva mostrar a ela como é ter uma arma  apontada para o seu rosto. Então peguei no chão e apontei para ela. E então… eu não sei, eu estava muito bêbado”.

“Você se lembra sim. Você se lembra exatamente o que fez."

“Eu lembro que ela gritou ou algo do tipo, os policiais estavam batendo na porta. Isso me assustou."

“Diga o que você fez! Diga!" Percebo que não estou mais sentado e não consigo me acalmar o suficiente para voltar a sentar. Eu quero quebrá-lo. Ele me olha com os olhos cheios de lágrimas - um olhar patético que não fica bonito nele. 

"Eu estava com tanto medo."

"Não, Anthony, ela estava com medo."

"Acho que aconteceu algum tipo de acidente, tipo, ela caiu..." Suas mãos sangrentas  cheias de veias estavam em seu rosto. Puxa a pele para baixo, ficando com os olhos esbugalhados e flácidos.


"Não houve acidente. O que você fez?"

"Acho que,eu acho que eu..." Estava se balançando agora. Estava lutando contra a verdade. Estava lutando para sair e se livrar mas logo será derrotado. "Eu acho que atirei nela..."

“Atirou em quem? Quem era ela?” Estou andando para lá e para cá, de vez em quando pairando de pé em sua frente. Eu queria bater nele, mas sei que seria inútil. Então eu lutei contra aquele homem da única maneira que posso.

"Mi-minha esposa... ela..."

“Não, Anthony, o nome dela. Qual era o nome dela?"

“Ah, meu Deus, o que está acontecendo? Onde estou? Quem são essas pessoas?” Ele tentou se levantar da minha cadeira apenas para descobrir que estava amarrado, mas não eram por amarras. "Por que eu não consigo sair? Por que não consigo ficar de pé?"

“Esta é minha última pergunta, Anthony. Apenas responda e eu responderei suas perguntas. Eu vou te contar tudo. Qual era o nome dela?" Ele encolhe os joelhos e esconde o rosto neles, como uma criança cansada.

"Eu não posso dizer isso."


"Você tem que dizer ou você nunca vai sair desta sala. Você nunca sairá desta cadeira."

"Por favor, não me faça... por favor..." Ele está soluçando e chorando abertamente e não pude deixar de lembrar como ele se sentia em relação a sua esposa enquanto ela chorava e soluçava.


“Você não pode sair a menos que você diga. Não há outro jeito.” Este é o momento mais difícil, mas sei que já venci. Tudo o que tenho que fazer é continuar pressionando, ele estava muito perto de quebrar. Seu choro cessou e pareceu ficar calmo por alguns segundos. Respirou profundamente algumas vezes e eu permito-lhe esse momento de alívio. Quando me olha com seus olhos vermelhos, sei que não há necessidade de estimulá-lo mais. A verdade está borbulhando. O silêncio é espesso, pesado e sufocante, o que sei que ficará ainda mais suave quando for quebrado.

"Priscilla. O nome da minha esposa é Priscilla." As palavras saem fácil e sem emoção. Me pergunto se foi assim que olhou para ela quando puxou o gatilho. 

"O nome dela era Priscilla." Eu o corrijo. Levantando, saio e me sento na minha cadeira do outro lado da mesa. É hora de responder algumas perguntas.

“Seu nome é Anthony Willis. Você morreu quando tinha 23 anos. Esta é a casa aonde você matou Priscilla e depois você mesmo há 10 anos. Estas são as pessoas que vivem aqui, agora. Você pode vê-los, mas eles não podem te ver. Ou ouvir. Eles têm uma mensagem para você."


O jovem casal sentado do outro lado da sala estava observando com os olhos arregalados. Eu sei que não podem vê-lo ou ouvi-lo. Mas os arrepios em seus braços e o pânico em seus rostos me dizem que eles podem senti-lo. Um deles está segurando o braço do outro com tanta força que consigo ver as impressões pálidas dos dedos no braço dele. Anthony está sentado na cadeira e finalmente se parece com o que é: um morto. Seus olhos são monótonos e separados, a boca ligeiramente aberta.

“Eles querem que você saiba que esta é a casa deles agora e você não é mais bem-vindo aqui. Você nunca foi bem vindo aqui. É hora de você parar de quebrar as lâmpadas, parar de fazer buracos nas paredes e de aterrorizar os filhos deles. É por isso que estou aqui. Para lhe dar esta mensagem e para que você pare." Ele não responde por alguns segundos, mas estou disposto a esperar. Aprendi que a morte é uma coisa muito difícil de aceitar - mesmo para aqueles que a mereceram. Eu não estou surpreso quando ele finalmente começa a lutar contra suas amarras invisíveis. Estava se esforçando tanto para ficar de pé, mas sei que aquelas correntes são inquebráveis. Pessoas muito mais fortes do que ele já lutaram contra  e perderam. As correntes são feitas por poderosos itens pessoais dele. Seu obituário, uma foto sua e uma de sua esposa morta, os dois no baile de formatura do colegial e também uma foto da esposa e da filhinha. O casal que agora é dono da casa está cada vez mais assustado enquanto ele tenta se soltar. Sua presença deve estar mais forte agora com toda a energia que ele está gastando. Se continuar assim, eles poderão ver sua presença física.

"Não! Essa casa é minha! Você não vai tirar isso de mim! Você não pode me fazer sair daqui!” Ele estava lutando com força total agora, o que é realmente mais forte do que eu esperava.

"Não, Anthony, você vai ter que ir embora." Eu puxo um isqueiro do bolso, acendo nele e produzo uma pequena chama. Anthony pareceu ficar ainda mais pálido quando a viu. "Quando eu queimar estes itens você será libertado deste mundo, para onde quer que você vá."

"Espere!" Sua voz é alta, em pânico, "Para onde eu vou?"

“Isso é algo que terá que descobrir sozinho, Anthony. Eu ainda estou vivo, então não sei." Levo a chama para as fotos na minha frente, mas ele grita de novo e eu permito que diga suas últimas palavras.


"Eu vou para o inferno?" Ele pergunta baixinho e me lança um olhar suplicante.

"Eu não sei, Anthony, mas que tal você me mandar um cartão postal?" Ponho fogo nas fotos. Sei que o casal pode ouvir os gritos porque ambos pulam e ficam um pouco mais pálidos. Um deles na verdade grita alto e age como se fosse correr pela porta da frente. Para minha surpresa, encontram coragem suficiente para ficar. Sei que também fiquei apavorada na primeira vez que ouvi os gritos de morte de um espírito relutante sendo violentamente arrancado deste mundo. Mas agora acho uma pequena quantidade de prazer nisso. O mundo sempre fica melhor com menos Anthonys Willises. É claro que são as pessoas mais horríveis que se agarram à essa vida mesmo depois da morte. Deve ser porque estarem aterrorizados com o que os espera do outro lado, ou talvez seja por eles só querem infligir o máximo de dor possível nos outros. De qualquer maneira, não é meu trabalho saber. Meu trabalho é só me livrar deles. Não é um trabalho que eu escolhi, mas o trabalho que foi escolhido para mim.

Os últimos resquícios de Anthony Willis estão desaparecendo deste mundo em longos fios de fumaça que continuam a incendiar de uma maneira irreal. O jovem casal está abraçando um ao outro e escondendo seus rostos da horrível visão que, para mim, é normal. Eventualmente a fumaça começa a clarear, mas um cheiro almiscarado e sulfuroso ainda permanece na sala nebulosa. Sim, definitivamente vou ter que limpar a cadeira.


Os próximos momentos são silenciosos, exceto pelos ecos assombrosos da passagem de Anthony. O casal finalmente olha para mim. Um dos rostos está marcado de lágrimas e estão tremendo, os outro caminha para frente e se dirige à mim, sem soltar a mão do outro.

"Já-já se foi?" Perguntam em um sussurro.

“Sim, ele se foi. E não vai voltar. É claro que, se eu fosse vocês, continuaria atento a quaisquer outras ocorrências. Apesar de incomum, essa foi uma morte traumática envolvendo mais de uma pessoa, então eu ficaria de olho na esposa só por precaução. ”

"A esposa? Que ele matou?”A pergunta deles me lembra só podiam ouvir o meu lado da conversa.

“Sim, é improvável que ela ainda esteja aqui, e mesmo que esteja, não acho que ela realmente causaria problemas. Mas se houver problemas, não hesite em me chamar novamente.”

“Ok, obrigada. E o, hmm, o pagamento?” Perguntam timidamente. Eu nunca peço pagamento adiantado porque, no meu meio qualquer um que pede pagamento adiantado é uma fraude.


“Meu assistente vai entrar em contato com você sobre isso. Existe algum lugar onde possam passar a noite? Possivelmente amanhã à noite também?"

“Na casa da minha mãe, é onde as crianças estão agora. Por quê? Não é… seguro ainda?” Eles parecem tão inadequados falando sobre isso. É sempre assim. Acho que muitas pessoas, quando confrontadas com o sobrenatural, preferem varrê-las para baixo do tapete e excluí-las de suas mentes. Não posso culpá-los, na real. Não é o tipo de coisa que você pode mencionar em um piquenique da empresa como se fosse um assunto normal. 


“Sua presença se foi, mas há uma névoa remanescente e um mau cheiro que provavelmente persistirá até pelo menos amanhã à noite. Possivelmente na manhã seguinte, também. Algumas pessoas acham que esse cheiro insuportável e algumas até tiveram efeitos colaterais negativos devido a isso. Nada muito sério; dores de cabeça, náusea, tontura, mau humor.  Ficar em outro lugar nos próximos dias é o melhor a se fazer."

"Acho uma ótima ideia. Vou ligar para sua mãe.” O que estava chorando parece ansioso para sair deste lugar e retornar quando as memórias não forem mais tão tangíveis. Saíram da sala rapidamente e, assim que a porta é aberta, a pressão na sala escura e mofada parece aliviar.

"Eu não sei o que dizer. Eu não entendo. Mas dou graças a Deus por pessoas como você. O que teria acontecido se não tivéssemos telefonado para você? Quero dizer, poderia ter piorado?"


"Bem, se você tivesse esperado muito tempo, eu não conseguiria ajudar. Sinto muito pelos problemas que sua família teve que passar e espero que sejam capazes de superar isso rapidamente. As crianças podem demorar um pouco mais. Quanto mais jovens são, mais parecem se lembrar."

"Até a nenê?"

“Especialmente a nenê. Ela provavelmente se lembrará disso por anos e anos a partir de agora, mesmo depois disso já ter sumido da sua memória. Me desculpe, não quero ser rude, mas eu tenho um vôo para pegar, então não posso ficar por muito mais tempo. "


“Não, não é claro. Tudo bem. Obrigado de novo.” Sou levado até a porta e sinto a familiar corrente de ar fresco, o sol e a vida em geral.

FONTE

8 comentários :

  1. Interessante. "Essa é a coisa mais significativa que ele consegue escrever sobre a creepypasta"?

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  2. E eu aqui achando que apenas séries de Creppypastas tinham essa qualidade incrível. Parabéns, palmas! (Clap,Clap,Clap,Clap)

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  3. Caralho meu, Muito bem escrita, muito bem traduzida, consigo imaginar cada detalhe. Primeiro começou como se fosse um consultorio, depois a casa. Otima Creepy, parabéns

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