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Debaixo da varanda dos fundos

Quando criança eu vivia, na melhor das hipóteses, com pais negligentes. Nos piores momentos, meu pai virava seus punhos e gritos contra mim, mas aprendi a desviar da pior maneira. Minha mãe não era de muita ajuda, só fumava na cozinha e reclama dele por ficar fora até tarde da noite.

Na época, vivíamos basicamente no meio do nada, os vizinhos mais próximos ficavam a uma longa caminhada de distância para uma criança de seis anos de idade e haviam árvores entre nós. Não havia ninguém para pedir ajuda. Mas eu era bem pequeno para uma criança da minha idade. Aprendi que cabia em basicamente qualquer lugar. No armário. Máquina de lavar. Acho que uma vez consegui até me enfiar dentro da cama dobrável de um jeito que ainda era possível respirar e ninguém podia me ver.

Eu era mestre em me esconder. Mas não era por um bom motivo. 

Entretanto, uma noite, decidi fazer algo diferente. 

Eu podia ouvir os gritos de papai, estava muito bravo e prestes a ficar violento. Mamãe não era de muita ajuda, apenas jogando gasolina naquele poço em chamas. Então eu sabia que tinha que encontrar um bom lugar para me abrigar. Tinha tido a ideia alguns dias antes, quando percebi que a grade de madeira que tapava a parte inferior da varanda dos fundos tinha um buraco. Não grande o suficiente para caber uma pessoa adulta, mas com certeza um menino magrinho de seis anos passava por ali sem dificuldade.

Então, me enrolando no meu cobertor e pegando meu hipopótamo de pelúcia, sai pela janela do quarto e corri pelo jardim. No meio do outono. Quando estava por volta dos 5ºC e caindo drasticamente. 

Rastejei para baixo da varanda, arranhando os cotovelos e enfiando farpas nas palmas da mão, mas consegui entrar. Era, na verdade, bem espaçoso comparado com meus outros esconderijos, não conseguia me sentar reto, mas podia esticar todos meus membros.

Claro, também estava coberto de terra. Havia chovido alguns dias antes, então a lama ainda esta um pouco úmida. Me enrolei na minha coberta do melhor jeito que consegui e me ajeitei para para passar a noite lá.

Mas logo, mesmo enrolado na coberta e abraçado ao meu hipopótamo, meus dentes estavam batendo tão violentamente que mal conseguia respirar. Mas eu não queria voltar lá para dentro, sabendo que se meu pai me pegasse, levaria a surra da minha vida. Então tinha que aguentar.

"Querido, você está com frio?" 

Aquela voz não era a voz da minha mãe, não era aquela voz rouca de fumaça de cigarro. Era doce, como mel. Me virei, vendo a silhueta de uma mulher, deitada de barriga para baixo ao meu lado. Tinha um lindo colar de borboleta e estava tão suja quanto eu. 

Assenti, sem pensar como ela apareceu ali sem que eu notasse. 

A mulher se arrastou de barriga até onde eu estava e enrolou seus braços em mim e de repente me senti aquecido. Como se estivesse sentado do lado de uma lareira. Me aconcheguei em seus braços, sem me importar com a lama, afinal nós dois estávamos sujos.

"Você cresceu tanto," a mulher disse, examinando meu rosto. "Quantos anos você tem agora, Alex?"

"Seis." Como eu conhecia aquela mulher? Eu achava que não conseguia. 

"Seis!" A mulher ofegou. "Você está um mocinho, então. Estou tão feliz." Suspirou alegremente e acariciou minha cabeça. Nunca havia me sentido tão confortável na vida. 

"Qual seu nome?" Perguntei. 

Ela sorriu, eu podia ouvir em sua voz. "Meu nome é Lily. Qual seu passatempo favorito?"

Tive que pensar por um segundo. "Gosto de jogos de tabuleiro. E de desenhar."

Lily riu. "Igual a mim. Eu nunca enjoava de jogar Scrabble. Mas acho que você é novinho de mais para esse jogo, né?" 

Assenti. "Muitas palavras. Mas eu quero jogar. Gosto dos quadradinhos. Quer jogar comigo?"

Ouvi Lily respirar fundo repentinamente. "Eu... eu acho que não posso. Seu papai me colocou aqui embaixo, e não posso sair... mas..." Ela pensou por um segundo. "Alex, pode me fazer um favor?" 

"Mas é claro!" Essa moça era muito legal. Não havia motivos para eu não fazer um favor para ela. 

"Quando você acordar de manhã, você tem que ir na delegacia. Peça para falar com um policial chamado Lowell Joyce. Fale para ele onde Lily está, tá bom? Debaixo da varanda dos fundos. Ele vai vir e vai me buscar, tá bom? E... e daí talvez a gente possa jogar Scrabble." 

Uhuuul! Eu estava tão animado com a possibilidade de jogar Scrabble que nem notei a mudança de tom de Lily no final da frase. Assenti vigorosamente. "Vou sim! Podemos ficar no mesmo time, né?"

Lily riu baixinho. 

"Vou te ajudar a entender as regras. Boa noite, Alex." 

Quando acordei na manhã seguinte, ouvi a voz de Lily.

"Agora vá. Seu pai já foi para o trabalho. Vou te explicar como chegar na delegacia."

Esfregando os olhos, me arrastei para fora do meu esconderijo e fui para casa pegar um casaco e sapatos. Estremeci por causa do frio. Mas achei que Lily estava logo atrás de mim. 

Depois de colocar os sapatos e o casaco, comecei a andar. O suficiente para chegar na casa dos vizinhos. Não me lembro quanto tempo demorei para chegar na delegacia, embora não faço ideia do motivo para ninguém ter parado uma criança de seis anos de idade que andava na beira da estrada, sozinho, com pijamas enlameados. Lily continuava a me guiar. 

"Espera. Tá, agora atravesse a rua."

"Vire a direita aqui." 

"Continue! Você está quase chegando!"

Quase desmaiei de exaustão quando entrei na delegacia. Os caras na recepção conversando não me viram até que eu chegasse bem próximo da bancada. 

"Eeei! Menino! Você está bem?" Um dos policiais se ajoelhou ao meu lado, olhos arregalados. 

Assenti. "Estou bem. Posso falar com Lowell Joyce?" Perguntei.

Um dos policiais me pegou no colo. "Claro, mocinho. Claro, só vamos te colocar em algum lugar quente, merda, seus lábios estão azuis..." 

Lembro de que repudiar o palavreado do policial mentalmente, afinal, 'merda' era um palavrão. 

Me deram chocolate quente e me enrolaram em um cobertor e logo mais um homem de bigode se sentou comigo. 

"Oi, carinha. Eu sou o Xerife Joyce. Qual seu nome?" Perguntou.

"Alex." Coloquei meu copo na mesa e olhei o homem nos olhos. "Me falaram pra dizer pra você que Lily está debaixo da varanda dos fundos. Você tem que tirar ela de lá para a gente poder jogar Scrabble." 

Eu nunca havia visto um adulto ficar pálido. 

A minha memória fica meio embaralhada a partir disso. Lembro de ser levado de volta para casa e que haviam muitos carros de polícia ao redor. A varanda dos fundos foi isolada com uma fita amarela, e alguém levava para longe um saco preto e meu pai sendo levado preso por algemas. 

Depois disso, fui morar com meus pais. Xerife Joyce e sua esposa. 

Tentei perguntar o que tinha acontecido e perguntar quem era Lily, mas sempre era reprendido. Eu era novo demais para saber.

Mas minha vida melhorou. Muito.

Vovô era o melhor homem que eu podia desejar ter na minha vida. Nós saíamos nos finais de semana para ir no cinema e ele deixava eu tomar um copão gigante de refrigerante, mesmo sempre tendo que ir no banheiro no meio do filme. Quando perguntei se podia beber quando tinha treze anos, deixou que eu experimentasse cerveja. Cuspi de nojo e nunca mais botei aquilo na boca. Ele nunca me julgou pelo meu amor pela arte, deixava que eu pintasse as paredes do meu quarto várias vezes por ano. Eu me sentia seguro perto dele. Nuca me bateu. Minha vó também era maravilhosa, durante a semana me dava aulas em casa e me ensinava também coisas que eu jamais aprenderia na escola, tipo como respeitar os outros e não aceitar que passassem por cima de mim. E cozinhar. Cozinhar de tudo. Com doze anos eu já tinha a capacidade de fazer meu próprio bolo de aniversário. Mas geralmente fazia para os meus amigos. E eu tinha muitos, depois que me livrei de meu pai.

Quando fiz dezesseis anos, meu avô me levou de volta para a casa do meu pai. 

Tinha sido completamente destruída. Mas eu ainda podia ver a fita amarela em volta de algumas árvore, arrebentadas e descoloridas. 

Ficamos sentados na parte de trás de sua caminhonete. Abriu uma cerveja e tomou metade da lata antes de se acalmar e me passar uma latinha de refrigerante de laranja. 

Depois que bebi, ele me contou. 

"Lily era sua mãe."

Ainda bem que não me contou enquanto eu estava bebendo, ou teria saído pelo meu nariz. "Minha mãe?" Perguntei, confuso. 

"Sua mãe de verdade. A mulher que vivia com seu pai não era sua mãe." Meu avô pegou mais uma cerveja. "Lily era minha filha. Eu a amava muito... mas quando você tinha cerca de seis meses, ela desapareceu." 

Meu coração despencou. "Meu pai a prendeu debaixo da varanda?" Perguntei, me sentindo enjoado. 

Meu avô respirou findo antes de abrir a segunda cerveja. "Isso... é algo que nunca entendi. Lily te falou para você me encontrar? E que amava Scrabble?" 

"Sim. Ela me manteve aquecido durante a noite. Eu provavelmente teria morrido de hipotermia se ela não estivesse lá." Eu era uma criança idiota, até eu sabia disso.

Meu avô ficou muito quieto antes de tomar toda a lata. "... Alex, Lily estava morta todo o tempo em que estava desparecida. Quando a desenterramos, era apenas ossos. Especialistas confirmara, e seu pai confessou. Eles tiveram uma briga e ele a jogou escada abaixo. E... quebrou o pescoço." Cerrou os punhos. "Eu sempre soube que ele tinha culpa pelo desaparecimento, mas nunca tive provas até o dia em que você entrou na minha delegacia, coberto de lama e dizendo que ela estava debaixo da varanda dos fundos."

Eu estava sem chão. Não conseguia respirar. Tudo que conseguia fazer ela balançar a cabeça. 

"Ma-mas, eu a vi! Ela estava viva! Tinha um colar de borboleta..." Parei quando meu avô tirou um saquinho de provas do bolso.

Lá estava o colar de borboleta. Enferrujado, algumas partes da pintura estavam descascadas, mas eu lembrava dele tão claramente quanto lembrava da voz de Lily.

Vovô respirou fundo enquanto pressionava o saquinho nas minhas mãos. “… Lily amava muito você. É por isso que ficou com aquele desgraçado. Você era o mundo dela. Estava constantemente tirando fotos e mandando-as para nós pelo correio. Às vezes, o amor de uma mãe pode realizar coisas que nenhum ser humano pode fazer."

Meus olhos transbordaram com lágrimas enquanto eu agarrava o colar ao meu peito. Soluçando, me inclinei e o abracei. Ele me segurou firme e eu juro que senti algumas de suas lágrimas no topo da minha cabeça.

E por um breve momento, juro que senti aquele amor caloroso que senti naquela noite sob a varanda.