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Dois fatos que você provavelmente deveria saber

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Aqui estão dois fatos que você provavelmente deveria saber: 

Primeiro fato: Quando um ser humano é encurralado, você nunca deveria subestimar os níveis de imbecilidade e perigo que ele pode chegar para fugir.

Segundo fato: Se um acordo parece ser bom demais para ser verdade, provavelmente é. 

Normalmente, eu não seria o tipo de cara de quem você segue conselhos. Se eu escrevesse uma autobiografia, o título seria "Jesus Chorou". Mas nesse caso em específico, tenho uma experiência valiosa. Como a maioria das histórias trágicas, começou com uma série de pequenos erros. 

Cerca de uma década atrás, eu tinha saído a pouco tempo da faculdade e estava tentando construir uma vida para mim. Era solteiro, formado e determinado - todas as qualidades que alguém precisa para ser bem sucedido na vida. Bem, não a parte do "solteiro", mas você entendeu. Eu tinha perspectivas, um grande potencial - mas, como Oscar Wilde disse uma vez, posso resistir a tudo, exceto à tentação.

É. Eu era formado em Inglês.

Não fiquei viciado em metanfetamina ou pornografia, nada desse tipo. Não, meu vício era a emoção do acaso. Apostar era a melhor sensação que eu já tivera - desistir do controle, deixar que os deuses da probabilidade e da aleatoriedade decidissem meu destino. Fiquei obcecado, continuava voltando para esses malditos cassinos, noite após noite. Olhando agora, eu era ingênuo, era burro. Tinha que ser um idiota, cego pela luxúria da sensação, para mão perceber outro fato crucial: a casa sempre - e repito, sempre - ganha.

Para encurtar uma história longa e dolorosa, aos 24 anos os chefões de todos os buracos locais tinham pego tudo de valor que eu tinha e mais um pouco. Como resultado, estava devendo para alguns personagens desagradáveis que não estavam nem um pouco interessados em negociar perante o dinheiro que eu os devia. Consegui juntar míseros milhares de dólares fazendo alguns trabalhos bem estranhos, mas isso era apenas uma fração da fração de onde estava me metendo.

Na época, parecia uma ideia melhor gastar o pouco do dinheiro que tinha em um bar local do que seguir em frente com meu triste exercício de futilidade. Então, foi exatamente o que fiz, e por causa de alguns litros da coisa mais barata que você possa imaginar, não me lembro muito do que aconteceu depois disso. 

O que lembro a seguir, é de estar acordando em uma poça atrás do bar, tendo sido expulso por ter me comportado ridiculamente. O zumbido do letreiro de neon acima da minha cabeça parecia como uma furadeira no meu lóbulo frontal, enquanto a água gelada e suja debaixo do meu rosto fazia eu ficar um pouquinho mais sóbrio. Só o suficiente para me conscientizar.  

Foi bem ali, no meu momento mais infame possível, que eu o conheci. 

"E aí, parceiro," falou, usa voz agradavelmente alegre e melódica, "Você parece que está precisando de uma mãozinha, e para sua sorte, tenho duas." 

Houve uma leve pressão em meus dois ombros, me levantando. Me encostou sentado contra uma parede; finalmente pude olhá-lo melhor. 

Para começar, fiquei me questionando se não estava alucinando. Parecia tão estranho, tão fora do lugar.

Meu Bom Samaritano tinha cerca dois metros de altura, mas parecia uma vara de bambu. Um homem magro e comprido como um pau de virar-tripa. Dito isso, o terno preto e branco de risca de giz que usava servia perfeitamente, quase como se tivesse sido pintando sobre seu corpo sem curvas. Acima do colarinho - apertado até o último botão e enfeitado com uma enorme e horrorosa gravata-borboleta - estava um rosto pálido e sorridente com um cabelo preto dividido no meio.

Verdade seja dita, meu pensamento inicial depois de dar uma boa olhada no sujeito foi o seguinte: puta merda, eu morri naquela poça, e aqui está a Morte em pessoa recolhendo minha alma patética. Infelizmente, esse não era o caso, na verdade, ainda estava vivo.

"Pronto, pronto, amigão. Bem melhor agora, não é mesmo?" Disse, se ajoelhando em suas pernas longuíssimas, me olhando nos olhos. "Estará se sentindo como um rei logo, logo. Nunca tema!" 

Naquela época achei que era minha mente bêbada pregando peças em mim, mas lembro que seus olhos pareciam estranhamente... amarelados. Tinham um tipo de brilho ictérico neles, como se a esclera e a íris tivessem se derretido e fundido juntas em uma massa disforme. Olhos que pareciam malditas gemas de ovo. 

"É muito ruim encontrar camaradas em apuros, muito ruim," Disse, mais para si mesmo, acho, "O que aconteceu com ajudar ao próximo, sabe? É uma boa sensação." 

"Quem é você?" Consegui dizem em meia a um engasgo. 

O gentil estranho direcionou seus olhos sulfúricos em minha direção. 

"Você está perguntando para a pessoa errada, my friend, se eu soubesse, te falaria. De verdade!" Respondeu com uma risada, "Mas, qual seu nome?"

"Nate," Falei, avaliando se estava prestes a vomitar ou não, "Nate Wilson."

"Meu Deus do céu, que nome sensacional!" O estranho disse, a expressão repentina de interesse em seu rosto me dizia que não estava fingindo aquele entusiasmo deslocado, "Nate Wilson. Tem uma vibração, não acha? Deus, que nome maravilhoso. Você é um cara sortudo, Nate. Sortudo de ter um nome tão legal." 

"Hm, obrigado, acho."

Houve um silêncio longo e constrangedor depois disso. Com toda certeza eu não fazia ideia do que falar, e o estranho parecia mais do que contente em ficar ali parado, apenas me olhando, sorrindo como um maluco. Parecia ser minha responsabilidade quebrar o irritante silêncio.

"Olha, agradeço de verdade a sua ajuda, amigo..." Comecei. 

"Espera um pouco, você nos considera amigos?" Perguntou. Seu tom de voz, nesse momento, era ambíguo. 

"Quero dizer, você me salvou de respirar água de bueiro, então acho que sim, é." 

Isso pode parecer estranho de acreditar, eu definitivamente não acreditei na hora, mas o desconhecido literalmente pulou no ar enquanto gritava "Uhul!" bem alto. Um homem adulto, atrás de um bar de quinta categoria, fazendo aquilo. Era como se fosse parte de um sonho estranho que aquele seu amigo chato insiste sempre em contar. 

"Isso é fantástico!" Disse, sorrindo de orelha à orelha como se tivesse ganhando na loteria, "É tão magnífico fazer novos amigos!"

Ele estendeu seu braço esguio em minha direção, sua mão aberta com os dedos de aranha bem esticados. 

"Pode colocá-la aqui, amigão." Disse. 

E, porque aquela noite já não estava estranha o suficiente, pode acreditar que eu lhe dei a mão. 

"É disso que estou falando," Falou, com mais uma gargalhada infantil, me colocando de pé com uma força inacreditável, "Com a força da amizade, tudo é possível."

Claro, ele podia falar como se sua única experiencia com o mundo exterior fosse apenas estudando desenhos animados de sábado de manhã, mas parecia inocente o suficiente. Um esquisitão benigno, apenas tentando ajudar pessoas que cruzavam seu caminho. Mas tenho que admitir, o fato de que não queria me falar seu nome já era um alerta.

"Agora, serei totalmente honesto com você, Nate," Começou, seu olhar de âmbar me encarou de cima para baixo de um jeito que deve ter sido constrangedor, "Há um motivo de eu ter te seguido até aqui. Não foi apenas um encontro de sorte."

Meu coração despencou. Sabia que era bom demais para ser verdade - era nesse momento que provavelmente iria me esfaquear, me abrir, usar minha pele como uma fantasia e usar os meus restos mortais para fazer lasanhas. Ninguém nunca era tão feliz assim naquelas horas da madrugada se tinham todos os miolos nos lugares certos.

"Bem, se está sendo honesto," falei, me balançando de um lado para o outro, ainda bêbado demais para me defender, "Esse motivo seria meu assassinato?" 

Pareceu chocado de início, mas começou a rir. 

"Você acha que um assassino seria tão amigável assim?" Perguntou. 

"Molestamento, então?"

"Meu Deus, claro que não, Nate. Você é um cara bem apessoado, não me leve a mal, mas você não faz meu tipo."

"Então o que um cara como você quer com um cara como eu?" Perguntei, o ponteiro da minha escala emocional mudando de 'curioso' para 'irritado'. 

"Bem..."

Pausou novamente, como se procurasse as palavras certas. Olhava para tudo, menos para mim.

"O bar," Finalmente disse, "Quanto do que aconteceu aqui você se lembra?" 

"Algo margeando o nada, acho." Falei, agora me recostando contra a parede para ter um pouco de apoio. 

"Você estava falando com o Bartender. Bem alto," Disse, se elevando para cima e para baixo nas pontas dos pés. "Eu não estava bisbilhotando, de jeito nenhum, só ouvi por cima. Estava falando sobre alguns... problemas com dinheiro. 

Já tinha quase esquecido sobre isso, mas no momento que disse aquilo, as memórias vieram em uma onda nauseante. Gritei e delirei, berrei com toda a força dos meus pulmões. Dívidas. Dívidas. Dívidas. Fiquei agressivo quando senti que não estavam me mostrando compaixão suficiente, e quando fiquei agressivo, fui justamente expulso de lá.

"Ah, não se preocupe com isso," Falei, minhas bochechas ficando vermelhas de vergonha, "Isso não é problema seu. Vou lidar com isso."

"Mas, Nate, parecia que você não pode lidar com isso." 

"O que diabos você tem a ver com isso?" Gritei de volta.

O estranho parou de falar, e começou a colocar a mão para dentro de seu terno. Tive um flash repentino de paranoia de que ele trabalhava para algum dos cassinos, e que eu acabaria aquela noite com uma bala no meio dos olhos.

"Você é meu melhor amigo, Nate," Disse. "E amigos devem ajudar um aos outros a saírem de situações indesejadas, não é mesmo?" 

Tirou um maço de notas de um bolso de dentro do paletó, e me entregou.

"Isso é o suficiente?" Perguntou.

Foi nesse momento de que vi a possibilidade disso tudo ser apenas um sonho louco. Com uma ferocidade intensa, rapidamente contei a quantia de dinheiro que aquele estranho, que me chamava de melhor amigo, havia me entregado. 

Vinte-mil-dólares. Podia tirar toda minha dívida, e ainda sobrava. 

"Caralho," falei, embora não lembro se em voz alta ou somente na minha cabeça, "Eu... eu não posso aceitar isso."

"Por favor, aceite," Falou com mais um sorriso de orelha a orelha, "Você precisa muito mais do que eu." 

Um eu sóbrio talvez fosse orgulhoso demais para aceitar, mas - por mais engraçado que seja - o eu bêbado tinha uma visão muito mais realística do meu nível de desespero. Eu estava desesperado, um homem desesperado, encurralado em um canto.

Primeiro fato: Quando um ser humano é encurralado, você nunca deveria subestimar os níveis de imbecilidade e perigo que ele pode chegar para fugir.

"Mas, por quê?" Era a única pergunta que eu conseguia fazer. 

Ele sorriu e deu de ombros.

"Porque eu gosto de você," disse. "Eu gosto de ajudar as pessoas." 

"Mas você acabou de me conhecer." 

"E daí? Um amigo é um amigo. Pra que pensar demais?" 

Caí de costas contra a parede, segurando os vinte mil do estranho. Estava muito além de uma situação corriqueira para mim. 

"Eu vou te pagar de volta. Cada centavo, com juros, juro por Deus." Falei. 

O estranho riu. 

"Não tem necessidade. Dinheiro não me falta. Só pegue e resolva seus problema, tá bom? E me prometa que vai parar com os jogos de azar."

Haviam lagrimas enormes escorrendo pelas minhas bochechas vermelhas e inchadas. A bondade daquele estranho era desconcertante, mas era a coisa mais linda que já me acontecera. Ele era um Santo de verdade, em carne e osso.

"Eu nunca mais vou apostar nada, nem um centavo." Falei. 

Sem dizer mais nada, me joguei para frente e o abracei. Um aperto longo, quente e apertado. No final, pude sentir seus membros desproporcionais envolvendo minhas costas.

"Muito obrigado," sussurrei, minhas lágrimas pingando no ombro de seu paletó. 

"Pra que servem os amigos, não é mesmo?" 

Quando finalmente me desgrudei dele, eu não conseguia parar de rir - era nervosismo, provavelmente. O estranho me observava, um tipo de estranho aproveitamento em assistir aquela cena queimavam em seus enormes olhos amarelos. Parecia gostar de ficar só observando.

"Ah, mais uma coisa," Falou, colocando a mão de novo dentro do paletó, "Uma coisinha que escrevi no bar, só para te ajudar." 

Me entregou um pedaço de papel,dobrado do tamanho de um panfleto. Na hora nem pensei em ver o que era, só meti no bolso sujo do meu casaco e continuei a agradecê-lo. Eu precisava daquele dinheiro, o Senhor sabia que sim, mas eu não podia pegar tudo aquilo sem dar nada em retorno. 

"Tem que haver algo que você queira, cara," Implorei, as palmas abertas em respeito à sua generosidade, "Qualquer coisa. Eu devo minha vida à você, cara, só diga seu preço. Não posso te agradecer o suficiente!"

O estranho sorriu e acariciou o queixo em contemplação.

"Agora essa é uma oferta irresistível," disse, quase brincando, "Você barganha pra valer, Sr. Wilson. Deixe comigo, tá bom? Com certeza pensarei em algo." 

Começou a se afastar depois disso, assobiando a música 'Sunshine, Lollipops and Rainbows' enquanto ia.

Agora eu estava rindo de novo. Meio pela tontura, meio em reconhecimento da pura estranheza dos eventos que aconteciam ao meu redor. Naquele momento, enquanto eu estava sentado do lado de fora de um bar de merda, coberto de água suja, das minhas próprias lágrimas e mais do que um pouco vômito, eu era o ser humano mais sortudo do planeta.

"O que você dá para um homem que tem tudo?" Falei em voz alta.

O estranho olhou por cima do ombro na minha direção mais uma vez, seus estranhos olhos encontrando os meus.


"Quase tudo, Nate", me corrigiu, "Quase tudo".

***
E assim, o estranho sumiu. Quase cômico, não é? Como alguém assim pode ter um impacto profundo na sua vida, e então desaparecer rapidamente. Como um cometa, apenas deixando seu rastro. Pode ver sua luz por um breve instante, então tudo fica escuro novamente.

Usando o dinheiro do estranho, paguei todas minhas dívidas, e ainda sobrou um pouquinho. Jurei continuar com minha promessa, por mim e por ele. Nos dez anos que se passaram desde aquele dia, nunca mais apostei um centavo.

Uma vez depois de estar totalmente acertado com as casas de aposta, finalmente tive um tempo para verificar o pedaço de papel que havia me deixado. No começo, só deixei para lá, e não fazia muito sentido para mim: apenas uma lista de datas de 2007 à 2017, cada uma acompanhada por um fragmento de frase. Foi só quando me sentei e dei uma olhada mais pesada naqueles fragmentos que percebi que o estranho não podia ser humano.

Não, ele era muito mais que isso. 

Era uma lista de instruções, específico nos dias, minutos, horas e segundos. Onde estar e o que fazer para maximizar o sucesso naquele dado momento. Deu dicas de ações para empresas que nem sequer existiam, mas que iriam existir exatamente quando disse que iriam. Deixou instruções precisas de que casas comprar, e como conseguir o melhor preço. Que roupas vestir, que empregos aceitar, que amigos fazer.

Cinco de Outubro de 2009. Vá ao Starbucks do Centro. Conheça Jessie O'Brien. 15:51:17.

Dois anos depois, Jessie O'Brien virou Jessie Wilson. O estranho tinha programado até quando eu conheceria o amor da minha vida, com o horário preciso, até os segundos, em que fizemos contato visual pela primeira vez.

Investi nas ações certas e sai das erradas, evitando morte de empresas e desastres econômicos como um maldito Houdini das ações. Meu capital disparou e minhas riqueza s pessoais aumentavam cada vez mais.

Oito de Junho de 2011. Compre a Casa número 10 na Aspen Way. Não alugue. 18:14:43.

E assim eu fiz. Jessie e eu nos mudamos para aquela enorme e linda casa assim que nossa lua-de-mel acabou. Nós éramos ricos, saudáveis e absurdamente apaixonados - mas algo faltava, algo que o estranho já havia também previsto.

Dezessete de Agosto de 2012. Conceba um bebê com Jessie. 20:31:19.

Nossa pequena se chama April. O estranho que escolheu o nome, não eu. Ela tem quatro aninhos agora, e eu a amo com todo meu ser.

O estranho, um homem que conheci por menos de uma hora, dirigiu todo o curso da minha vida na melhor direção possível, a partir de nada mais do que a bondade de seu coração. Ele me salvou, salvou a todos nós. Mesmo que tenha passado dez anos desde aquele dia que eu estava bêbado e fora de mim, me lembro de cada detalhe vividamente.

É por isso que, enquanto eu estava andando pela rua esta manhã - meus braços cheios de sacolas de compras - quando ouvi alguém cantando "Sunshine, Lollipops and Rainbows" alguns metros atrás de mim, reconheci a voz instantaneamente.


"Sunshine, lollipops, and rainbows, everything that's wonderful is what I feel when we're together!" Sua voz melódica cantou, seu tom gritando jovialidade, "Brighter than a lucky penny, when you're near the rain just disappears, dear, and I feel so fine!"

Sem um momento de hesitação, me virei para encará-lo. Parecia que aquele homem tão estranho não tinha envelhecido um dia em uma década inteira. Ele ainda usava o mesmo terno listrado que vestia na primeira noite em que o conheci.

"Just to know that you are mine." Ele terminou de cantar o verso com um sorriso e abriu os braços.

"Jesus Cristo", exclamei, meu rosto se abrindo em um sorriso impossível de esconder, "é você de verdade."

"O primeiro e único, baby," Ele disse com uma risada e um gesto grandioso: "Como está Jessie, a propósito?"

Abri minha boca para responder, mas ele levantou a mão, como se para me silenciar educadamente.


"Me desculpe por aparecer assim - já se passaram dez anos? Eita nóis, o tempo realmente tende a ficar longe de mim", disse, "De qualquer forma, a razão de eu estar aqui é porque eu finalmente percebi o que eu queria de você ".

"Desculpe?"

"Dez anos atrás você disse que me devia algo, qualquer coisa," Respondeu, embora eu conseguisse me ouvir falando aquilo na minha própria cabeça, "na época não consegui decidir, mas agora acho que sei."

"Ah, é claro! Isso é ótimo, cara," Falei, meu coração preenchido por uma ansiedade repentina, "Então, hm, o que é que você quer?"

O estranho deu aquele mesmo sorriso de orelha-a-orelha que tinha dado aquela vez no beco dos fundos do bar, em 2007.

"Bem, pensei sobre isso por muito tempo, friend, e finalmente tomei minha decisão," falou. "Sei o que eu quero de você, Nate."

Fez uma pausa para dar um passo a frente. Seus olhos eram tão dourados quando a luz do dia. 

"Quero seu nome, Nate."

No começo eu quase ri, mas logo percebi que não estava brincando. Estava seríssimo.

"Meu nome?"

"Sim, Nate, eu sempre amei seu nome, é tão maravilhoso," disse, contorcendo as mãos de emoção, "Veja, eu nunca tive um nome para mim, isso sempre me deixou meio de fora, sabe? Queria conseguir um nome a tanto tempo, e decidi recentemente que o nome que ue quero é o seu. Acho que vai combinar comigo."

Esse homem havia me dado toda minha vida. Me salvou de ser morto pelos tubarões dos cassinos em 2007, e todo o sucesso que tive na vida fora pelo itinerário que me dera. Com isso em mente, quem era eu para recusar aquele seu último peido maluco?

Se queria sair por aí se declarando Nate Wilson também, que direito eu tinha de pará-lo? 

"Claro,  amigão." Falei, sorrindo. 

Ele se inclinou para frente e me abraçou, quase esmagando as compras contra meu peito. 

"Você não faz ideia o quão feliz isso me deixa."

"É o mínimo que posso fazer por você depois do que fez por mim," Respondi.

O estranho - ou melhor, Nate Wilson - estendendo novamente suas mão de pata de aranha na minha direção. 

"Vamos apertas as mãos," Disse, sua voz exaltada. 

E eu apertei.

Depois disso seguimos caminhos diferentes. Fui andando para casa, e ele para a cidade, cantando e gargalhando de alegria. Me trouxe uma paz de espírito de saber que minha dívida com ele estava quitada, e que um gesto simbólico foi tudo o que precisei fazer.

***

Quando voltei para o número 10 da  Aspen Way, vi April brincando com seus cortador de grama de brinquedo no jardim da frente. Eu sorri e a chamei, mas ela não me respondeu. Estava envolvida demais nos seus afazeres de faz-de-conta.

Fui para dentro de casa com as comprar. Jessie estava na cozinha, cortando cenouras. Sunshine, Lollipops and Rainbows tocava no rádio. O dia de hoje ficava cada vez mais bizarro. 

"Oi, querida," a chamei, colocando as compras na mesa da cozinha. "Você não vai acreditar quem eu encontrei hoje." 

Jessie não respondeu. Continuou cortando, cantarolando a música. 

"Querida, está tudo bem?" Perguntei.

Ainda sem resposta. Nesse momento, comecei a ficar um pouco... preocupado. 

Com um peso peculiar em cada movimento que eu fazia, andei até Jessie, e coloquei uma mão hesitante em seu ombro.

Passou direto. Direto por dentro do corpo - como se fosse um holograma; ou como se eu fosse um holograma. Recuei dando um grito, e cai contra a mesa da cozinha. Novamente, sem reação de Jessie. 

O que diabos estava acontecendo? 

"Querida, cheguei!" Ouvi uma voz familiar chamando do corredor da frente. 

Jessie olhou por cima do ombro, se virando em direção ao som. 

"Olá, querido," ela disse, "Você sumiu por um tempo. Já estava preocupada." 

O estranho andou até a cozinha, um sorriso esticado em seu rosto de cera. 

"Desculpe-me, meu docinho," ele disse, "Encontrei com um velho amigo na cidade. Botamos um papo em dia." 

Enquanto falava a última parte, jogou uma piscadela enjoativa com um de seus olhos amarelo-mijo. 

"Hm," Jessie questionou, "alguém que eu conheço?" 

Se inclinou e beijou o estranho. O beijo que sempre me dava. 

"Não," o estranho falou, com uma risadinha, "Não acho que você tenha o conhecido." 

Achei que minha cabeça iria implodir. Nada do que estava acontecia fazia porra de sentido nenhum. O mundo estava de ponta cabeça. 

April chamou lá da rua, algo sobre a grama. 

"Se importa de continuar com as cenouras por um segundo, amor?" Jessie perguntou para o estranho, "Melhor eu ver o que April quer." 

"Sem problemas, meu anjo." Ele disse, pegando a faca da mão dela e dando outro beijo.

Jessie saiu do cômodo, deixando eu e o estranho, sozinhos. Um silêncio se expandiu, e começou a cortar cenoura. 

"Que porra é essa que está acontecendo?" Finalmente perguntei, quando eu ganhei o mínimo de compostura necessária para fazê-lo: "O que você fez, seu doido bizarro?"

Ele continuou a picar cenouras. Seus olhos jamais saíram da tábua de cortar. 

"Meu nome é Nate, estranho," Ele falou, "Gostaria que me chamasse assim." 

No meu estado de fúria, tentei agarrá-lo pelos ombros e virá-lo para me encarar. Eu podia de fato tocá-lo, mas não conseguia movê-lo nem um centímetro. Era como se eu tentasse mover uma montanha. 

"Esse é meu nome. Essa é minha casa. Aquela é a minha esposa," eu falei, raiva e confusão alternando o tom da minha voz, "Eu quero que você saia daqui e da minha vida!" 

O estranho soltou um risinho. 


"Veja bem, é aí que você se engana, bobão. Tudo isso mudou," Disse, "Essa é a casa de Nate Wilsom. Jessie é casada com Nate Wilson, e essa é a vida de Nate Wilson. E pelos mais recentes termos do nosso trato, eu sou Nate Wilson. E você, amigão? Você não é ninguém." 

"Eu não aceito isso!" Gritei, socando o balcão da cozinha.

Sem falar mais nada, Nate Wilson cravou a faca contra o dorso da minha mãe. Não houve dor, nem sangue. Passou direto, como se eu nem sequer mais existisse. 

"Um pequeno conselho, estranho; a realidade continua querendo você aceitá-la ou não," disse, enquanto eu tirava minha mão de perto da face, "Tudo que você tem, tudo que achou que tinha ganhado, você conseguiu por causa das minhas instruções. Você nunca mereceu essa vida, estranho, só alugou-a de mim por um tempo. Agora é minha por direito, e não tem nada que você possa fazer."

Cravou a faca na tábua de cortar e se virou na minha direção. 

"Exceto, é claro, ir embora e deixar que eu, minha esposa e minha filha continuemos com nossas vidas. Entendeu, estranho?" 

Fiquei parado naquele silêncio esmagador por um minuto ou dois. 

"Mas posso vê-las de novo?"

"Claro, você pode vê-las quando quiser, mas só eu posso te ver. Assim como, até algumas horas atrás, só você podia me ver. Não é uma boa sensação, não é mesmo? Ser ninguém. Não ter um nome."

A gravidade da situação veio até minha consciência.  Cai no chão e comecei a chorar. 

"Meu Deus, fui tão idiota," falei. "Como me deixei cair nisso?"

Nate Wilson deu de ombros e comeu um pedaço de cenoura.

"Não se culpe, amigão," Disse, "Eu esperei por séculos até encontrar alguém com quem pudesse interagir. Não é sua culpa que por uma desventura veio a ser essa pessoa, ou que tinha um nome tão maneiro na época." 

"Meu nome..."

"Você só iria desperdiçá-lo, amigo. Se eu não estivesse lá naquela noite, um grandalhão iria ter quebrado suas duas pernas no dia seguinte, você se viciaria em analgésicos pesados, e teria uma overdose alguns meses depois. Nate Wilson seria somente mais um nome em uma lápide. Que desperdício seria, né?" 

"Mas o que eu faço agora?"

"O mesmo que eu fiz, estranho," Nate Wilson disse, comendo mais um pedaço de cenoura com um prazer indevido, "pergunte por aí, encontre alguém com que consiga falar. Pode ser que seja essa tarde, quem sabe. Ou daqui uma semana, ou um mês, ano, década, século... mas sou um eterno otimista, sabe?" 

"Um século?" Falei, tentando controlar o fluxo de lágrimas que saiam de mim, "Não posso esperar tanto tempo!"

"Você vai se surpreender com sua capacidade, camarada. Paciência é algo que se aprende, sendo sem-nome. Quando finalmente conseguir um nome para si, você apreciará muito mais do que da outra vez. Você será alguém." 

Segundo fato: Se um acordo parece ser bom demais para ser verdade, provavelmente é. 

"Então é isso?" Perguntei, "É tudo que tem a me dizer?"

Nate Wilson assentiu. 

"Creio que sim, meu bom amiguinho," falou. "Mas você parece ser um cara legal. Tenho certeza que dará um jeito. Você sempre se erguer das gentilezas de um estranho, nunca se sabe?"

Enquanto o homem que roubara minha existência continuava a picotar vegetais, eu sai do cômodo, saindo da cozinha, para o corredor, depois para fora da casa. Olhei uma última vez para Jessie e April, minha - não, dele - família, brincando no gramado, totalmente despreocupadas. Só sorrisos. Elas nem se quer sabiam que eu havia desaparecido. 

Talvez fosse melhor assim, sem corações partidos.

Sussurrei um breve adeus que nunca ouviram, e fechei meus olhos em uma tentativa inútil de parar as lágrimas que eu sabia que viriam de qualquer forma. Fui para a cidade depois disso, vagando sozinho, procurando algo - porra, qualquer coisa - para chamar de meu. 

E foi isso. Essa é a história de como perdi meu nome. Talvez Nate estivesse certo, talvez fosse a vida dele desde sempre. Talvez ele a viva melhor, de um jeito mas tenro. Talvez seja um pai melhor, um esposo melhor, um Nate melhor. 

Já não me sinto muito mais preso a esse nome.

Mas se você sabe de tudo isso agora, isso significa uma boa coisa: você está lendo o que estou escrevendo. Se consegue ler minhas palavras, talvez consiga também ouvi-las? E se conseguir ouvi-las, talvez possa respondê-las.

Se conseguir, espero te ver em breve. Temos muito sobre o que conversar, você e eu, muito a se discutir. Acho que posso fazer maravilhas por você, querido leitor, querido amigo. Te ajudarei com qualquer coisa que precisar, e vou pedir quase nada em retorno. 

Quase nada mesmo...

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

10 comentários :

  1. muito boa, parabéns!

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  2. aceito se eu tiver um piano de cauda lindo para tocar depois de 9 anos ti do meu nome.

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  3. Genial, irei postar um blog contando essa Creepy no Amino, claro, com a fonte.

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  4. Gostei muito da "sagacidade" do escrito

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  5. "Último peido maluco" RI FEITO UM DOIDO KKKKMKJJJJ

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  6. Eu quero dois bilhões e uma máquina de clonagem e meu nome e seu

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  7. Me livra da depressão e põe 1 milhão na minha conta, me dá 20 anos e tudo nosso kkkkkk

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  8. Se bem dirigido, isso daria um filme espetacular.

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