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Meu áudio de auto-ajuda disse para eu me matar

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ATENÇÃO: ESSE CONTO ESTÁ CLASSIFICADO COMO +18. PODE CONTER CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE/SENSÍVEL. CONTÉM CONTEÚDO DE INCENTIVO DE SUÍCIDIO/SUÍCIDANÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS. PODE TER ACIONADORES DE GATILHOS E/OU TRAUMAS.  LEIA COM RESPONSABILIDADE.  

Eu detesto meu trabalho.

Odeio vender dias da minha vida enquanto mal ganho o suficiente para sustentá-la. Odeio meu chefe, que diz que tenho sorte de ter encontrado um trabalho fixo em um mundo tão incerto. Odeio meus amigos que tratam sonhos como sendo um fatídico sintoma dos jovens que precisa ser superado.

E acima de tudo, eu me odeio por não fazer nada para mudar. Continuo acordando na mesma hora todos os dias para ir para o trânsito. Leio as mesmas frases nos mesmos outdoor com as mesmas modelos felizes olhando para mim. Não sei se conseguira continuar se achasse que isso era tudo o que me aguardava mas, se eu estou esperando por algo então não sei o que estou esperando.

É por isso que comecei a ouvir os áudios de autoajuda no meu carro. Os palestrantes motivacionais me contavam como eu tinha o poder de mudar minha vida e, por alguns minutos de cada vez, eu acreditava neles. Os obstáculos, por maiores que fossem, só estavam na minha cabeça, e qualquer um poderia ser feliz se quisessem. E se eu ainda não estivesse feliz, teria que comprar outro livro e continuar tentando.

Meu palestrante favorito era um cara chamado John Fallow, que afirmava que um dia costumou ser um trabalhador recebendo menos do que um salário mínimo. Quando não havia vagas disponíveis, seus colegas jogavam cartas ou conversavam, mas ele continuava indo de porta em porta, batendo nas empresas até encontrar um que precisasse de trabalho.

Logo, John começou a ter clientes e dinheiro extra o suficiente para começar a contratar os outros trabalhadores para trabalhar para ele. Quanto mais empregos conseguia, mais trabalhadores contratava, até estar administrando um negócio próprio. Então abriram um segundo local, e um terceiro, e antes que pudesse perceber, estava milionário com quinhentas lojas em todo o país.

Mas nunca foi sobre o dinheiro, dizia o cara  que vendia seus audiobooks por 30 dólares. Ele desistiu de tudo para dar palestras motivacionais e ajudar os outros a alcançar seus sonhos. E com certeza foi com muito trabalho duro e levou vários anos, mas agora era o homem que sempre quis ser e amava fazer o que fazia, e isso é tudo o que importava no mundo.

"É claro que o trabalho duro não é a única maneira de resolver seus problemas", disse John em uma de suas fitas. “Na verdade, muitos de vocês provavelmente estão desanimados agora porque esperavam por um atalho. Bem, eu tenho boas notícias para você, porque há uma solução tão fácil quanto roubar doce de um bebê. É só se mata hoje à noite." Eu não acreditava no que tinha acabado de ouvir. Devia ter escutado errado. Tive que voltar o áudio, mas lá estava.

“Você é gordo demais? Bem, dieta e exercício é muito trabalhoso, mas você pode enfiar uma arma em sua boca e nunca mais comer."


"Ou talvez você esteja se sentindo triste porque seu relacionamento não deu certo como você queria? Não há problema. Basta fazer o laço na corda e, de repente, seu ex se odiará muito mais do você o odeia." A voz quente e borbulhante de John não perdia o ritmo enquanto listava várias maneiras infalíveis de morrer, com 100% de satisfação garantida.

"Bem, alguns de vocês provavelmente não acham que essa seja a melhor escolha, mas não se preocupe com isso. Eu organizarei demonstrações ao vivo em todo o país, então confira no meu site para saber mais detalhes e venha ver se o suicídio é o certo para você." Parte por curiosidade, parte por morbidez, eu visitei o site e descobri que ele estava organizando um evento em minha cidade na semana seguinte. E obviamente, seu site tinha um vídeo dele, em pé em um palco, com um homem que pendia das vigas pelo pescoço. A multidão estava aplaudindo como selvagens enquanto o corpo do moribundo se debatia em seus espasmos finais. John Fallow levantou a mão do moribundo para mostrar que o mesmo fazia um joinha, e a multidão aplaudiu ainda mais, como se o time tivesse acabado de marcar o gol no final da copa.


Eu comprei um ingresso e imprimi o código de confirmação. Não sei porque fiz isso, mas pela primeira vez em muito tempo eu senti que tinha algo pelo que esperar.

John era um homem do povo, robusto e bonito. No dai do evento ele usava um chapéu de cowboy puxado para baixo sobre um dos olhos, jeans desbotados e uma camisa de botão. Ele cumprimentou a todos na porta da frente com um aperto de mão firme e um sorriso radiante, rindo e conversando com pessoas que acabara de conhecer como se fossem seus amigos de longa data.


Eu esperava que houvesse pelo menos um pouco de indignação, mas todo mundo que apareceu parecia legitimamente feliz por estar lá. A sensação era contagiante e, quando me sentei com o resto da platéia, já conhecia várias pessoas pelo nome.

“Sou tão velho que tinha esquecido o que todos vocês vieram ouvir de mim”, anunciou John Fallow do palco. “Era sobre trabalhar duro da manhã até a noite, dia após dia?” 

“Não!”, Gritaram cem vozes ao meu redor. Fiquei meio surpreso ao reconhecer a minha voz dentre elas.

"Que tal então o discurso sobre ser sua culpa e se você não está feliz é porque não está se esforçando o suficiente?"

"Não!"


“Então você estão me contando que todas as pessoas de bem que apareceram hoje estão aqui para ouvir como consertar todos os seus problemas de uma vez em menos de cinco minutos? É isso que vocês querem ouvir?" O entusiasmo foi ensurdecedor.

John Fallow fingiu estar tirando um par de pistolas de um cinto imaginário e 'atirou' em direção do público com seus dedos. Os que estavam nas filas da frente fizeram um showzinho dramático como se levassem um tiro e desmoronavam para trás com grandes sorrisos em seus rostos. Então aplausos novamente, um oceano de som caótico batendo contra meus tímpanos.


"Bem, vamos começar então", John rugiu. “Que tal um voluntário? Venha agora, não sejam tímidos. Não há ninguém vai te olhar de cima para onde você está indo." Um mar de mãos  levantaram-se ao céu como um bando de pássaros voando todos de uma só vez. John desceu do palco e pegou a mão aberta de uma mulher de meia-idade para ajudá-la a ir para os holofotes. Ele a guiou até um banquinho onde a moça se sentou.

"Qual seu nome, linda?", perguntou. A mulher suspirou e murmurou algo que não consegui ouvir.

"Katylin, é isso?" John falou com sua voz estrondosa.  "Diga-me Katylin, o que há de errado com sua vida? Fale alto e claramente, pode falar. "Eu devia ter sido promovida este ano", disse, sua voz trêmula, mas audível. “Mas ao invés disso, eles deram a promoção para uma menina mais nova, para aquela putinha." 

"Bem, você não vai ficar mais jovem, querida. Só vai piorar daqui pra frente." Ela assentiu e sorriu como se isso fosse exatamente o que queria ouvir.


"Mas eu tenho aqui exatamente o que você precisa", disse John. “Um remedinho para o que te aflige." Ele tirou uma pílula de uma pequena bolsa de couro de seu bolso e ofereceu a ela. Ela agarrou-a com gratidão e segurou com as duas mãos.

"Isso vai tirar o ferrão de dentro. Vá em frente. Uma engolida só. O cianureto tem um gosto horrível se você deixar dissolver na boca." Assisti com um fascínio horrorizado quando Katylin jogou a pílula na boca e empurrou para dentro com um gole de uma garrafa d'água que John a alcançou. Ela sorriu fracamente quando seu rosto ficou vermelho. A sala observava em silêncio ansioso, enquanto começava a ficar com a respiração cada vez mais dificultada, cada puxada de ar ficando mais trabalhosa do que a anterior. 


"Quase lá, querida", John sussurrou, seu microfone levando o som sobre a platéia como uma onda. "Vamos ver  se aqueles desgraçados do trabalho podem tirar isso de você." Katylin caiu do banquinho e começou a rolar no chão. A platéia começou a gritar e assobiar. Em poucos segundos, Katylin ficou imóvel. Dois homens vestindo camisas de 'apoio' saíram das coxias para puxá-la para fora do palco.

Houve um breve silêncio quando ela parou de se mexer. Tive a sensação de que todos estavam tentando ler a atmosfera da sala, sem saber se gritavam ou comemoravam. Então o aplauso começou a ondular, inicialmente tímidos, mas crescendo a cada segundo até que todo o auditório vibrava com intensidade.


Me senti enjoado. Um sentimento de ansiedade inundou meu corpo, mas os aplausos me confundiram e me faziam pensar que estava tudo bem. Se estivéssemos fazendo algo errado, então certamente alguém teria dito algo agora. Incapaz de abalar a incerteza, deixei minha cadeira e fui para o banheiro para esfiar a cabeça.

Do lado de fora do auditório, vi dois homens vestindo camisas 'apoio' saindo de uma porta lateral. A mulher não estava mais com eles. Ela ainda estaria lá atrás? Estava viva ou morta? Talvez precisasse de ajuda.

Um dos funcionários me notou, com o rosto franzido de suspeita. Peguei um saco de lixo próximo e entrei na porta da qual eles haviam acabado de sair.

"Ei, aonde você pensa que vai?", alguém perguntou.


"Levando mais cordas para John", eu disse, levantando o saco de lixo. “O palco de trás é por aqui, certo?” A equipe assentiu e eu deslizei para dentro. Eu podia ouvir o público aplaudindo novamente através da parede e senti o desejo de aplaudir junto, mas achei melhor ficar quieto.

O corredor contornava o perímetro do auditório, e eu pude ir em direção ao fundo do palco pelos sons que vinham pela parede. Outro alvoroço - talvez uma segunda demonstração tenha sido concluída. Outro corpo a ser arrastado para fora do palco.


Não apenas um corpo. Um ser humano. Um pai ou uma mãe, um filho ou uma filha. Esse pensamento deveria ter me horrorizado, mas não. Eles não queriam estar vivos. Não conseguiram fazer seus mundos serem como queriam que fosse. Então, por que não poderiam partir quando estivessem prontos? "Parece que temos um aqui que gosta de sangrar", disse a voz de John. “Isso, garoto. Bota tudo pra fora. Você é o sortudo - nós que ficamos aqui precisaremos limpar essa bagunça." Eu devia estar diretamente atrás do palco naquele momento. O lugar estava escuro e abarrotado de equipamentos elétricos e de som. Não vi sinal do corpo da mulher. O pensamento de tropeçar em seu corpo jogado no chão me deixou enjoado. Eu não deveria estar ali.

Um raio de luz atravessou a sala quando a cortina do palco foi puxada para o lado. A equipe estava arrastando um garoto com não mais de 20 anos pelos braços. Sua garganta estava degolada, e o sangue encharcava sua camisa e escorria no chão. Eu me escondi atrás de um alto-falante vertical e observei a equipe apoiar o garoto contra a parede antes de virar e sair novamente.


"Vamos fazer uma pausa enquanto eles limpam isso", disse John do palco. "Quinze minutos, então todos vocês terão sua chance." O garoto ainda estava vivo. Cuspindo e gorgolejando sangue, ofegando com suspiros fracos e úmidos. Seus dentes manchados de vermelho estavam presos em um sorriso maligno. Eu comecei a me aproximar dele, mas outra rajada de luz me fez voltar para as sombras.

John Fallow atravessou pelas sombras para ficar de pé sobre o garoto moribundo. O sorriso do menino se contorceu em agonia. Lutou para ficar de pé, mas John colocou uma pé em seu peito e o forçou para o chão de novo. 

"Shh, shh", segurou um dedo sobre os lábios. "Não faça rebuliço. Muita gente está morrendo de vontade de ser você." Riu da sua própria piada infame.

O menino tentou responder, mas o som de sucção molhada que escapou de seus lábios não trazia palavras.


“Você fez isso para você mesmo. Você queria tanto fazer parte disso que não se importou com o que tinha que fazer. Agora olhe para você." Era tarde demais para salvá-lo. O menino mal estava respirando agora, e a poça de sangue que o cercava ainda estava crescendo a cada segundo. John ficou de joelhos para ficar com o rosto na mesma altura do outro.

"Não importa o que as outras pessoas esperam de você", disse. “O governo quer que você ganhe muito dinheiro para pagar seus impostos. Um homem de Deus pode dizer-lhe para não fazer nada porque isso te corrompe. As pessoas que vendem hambúrgueres querem que você seja gordo, e as pessoas que vendem pílulas dietéticas querem que você se odeie por isso. Todos querem algo diferente de você, mas você não pertence a eles. Você pertence a você."


O garoto parou de se mexer. Eu não consegui identificar o menor sinal de que ele ainda respirava.

"E daí se você for reprovado fora da escola? Isso faz com que as estrelas brilhem menos ou o torna o gosto de morangos mais azedo? Você não sentirá mais o carinho do amor da sua vida ou a brisa do oceano nos cabelos? Medo, dor, dúvida - são apenas nuvens passageiras e flutuar em frente ao sol, mas isso não significa que o sol ainda não está lá."


"Então, eu vou lhe dar outra chance", continuou John. “Você vai levantar e irá lá fora e me contará o que vê. E se não for nada além de nuvens, escolha uma e diga-a como é linda e ame-a para sempre, porque tudo faz parte do mesmo céu." Com isso, John Fallow pegou uma seringa e enfiou no peito do menino. Ele começou a se dobrar e se contorcer, mas John o segurou enquanto limpava o sangue de seu pescoço com um lenço. Saiu como  se fosse maquiagem, deixando a pele limpa e fresca.

"Saia daqui," disse John, "e não quero te ver de novo." O menino correu pela a porta e desapareceu.

"Você também", disse John, olhando para onde eu estava escondido. "Ou não serão apenas cápsulas de sangue ou um paralisante temporário para você." Corri depois disso.

Lá fora eu vi o menino com a cabeça jogada para trás, olhando para cima. Ao lado dele estava a mulher que tomara a pílula de cianureto falsa, com a cabeça jogada para trás e olhando para o céu com olhos selvagens. Não sei se pensavam que tinham realmente morrido e voltado a vida, ou se sabiam que era um truque, mas uma coisa que tenho certeza é que nenhum deles jamais havia olhado para o céu daquele jeito.


Pelo menos eu nunca tinha olhado. 

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

19 comentários :

  1. Não entendi esse final,de qualquer forma, enquanto lia,me lembrei do líder religioso Jim Jones.

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    1. Ele não matava as pessoas, somente as paralizava com algum tipo de droga. Alguns acreditam que estar diante da morte nos traz uma nova perspectiva a respeito da vida. Acredito que foi isso que a creepy quis passar

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  2. Muito boa creepy, me prendeu até o final. Não esperava esse final, muito show.

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  3. No filme o clube da luta tem isso, a lição de um dos membros do Club é fingir que vai matar um cara pra ele tomar um susto e começar a viver decentemente

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  4. Me surpreendeu e passou uma mensagem muito boa, gostei.

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  5. Gostei desse final, deu pra entender que ele não matava as pessoas, pelo menos não “de verdade”. Mas o que é aquele sangue em relação ao último menino? É a única coisa que ainda não consegui processar direito.

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    1. Ele disse que usou "cápsulas de sangue", ou seja, algum tipo de sangue falso, provavelmente, por isso que o narrador menciona que o sangue saiu "como se fosse maquiagem", porque realmente era um tipo de maquiagem, eu acho...

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    2. Verdade, não tinha reparado nesse detalhe. Agora tudo faz sentido. Era tudo meio que uma ilusão que ele projetava nas pessoas.

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  6. isso aconteceu comigo uma vez, e desde entao estou caçando o David FDP King, vocês viram ele por aqui ? aquele desgraçado, irei matalo de verdadde

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  7. Adorei, virada maravilhosa neste final.. achei q ia ser algo batido do tipo seita satânica.. me surpreendeu msm 10/10 ☺

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  8. ESPETACULAR!!! “Estar diante da morte traz-nos uma nova perspectiva sobre a vida.”
    Adorei como a Creepypasta trabalhou este tema.

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  9. Depois de ler isso, eu percebi que foi um erro eu ter me matado :/

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