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Deu algo errado com meu transplante de coração

20 comentários

Sempre tive um coração fraco.

Não só fisicamente, sempre tive medo até da minha própria sombra. Não fiquei surpreso quando os médicos disseram que o meu sopro cardíaco não era um simples sopro cardíaco. Um ano de exames. Um ano de terapia, visitas constantes ao hospital e finalmente me disseram que não serviu de nada.

Meu pobre e fraco coração não duraria até o Natal. É algo muito esquisito ouvir que se está morrendo; não aceitei no começo. Bebi e gastei meu dinheiro. Fiz coisas idiotas e imprudentes por estar com muito medo.

Então recebi a notícia. Uma jovem chamada Laura havia sido declarada com morte cerebral e que eu, quem estava com toda a sorte do mundo, recebera o direito de ter o novo coração na semana seguinte. Dirigi até o hospital vagarosamente, cuidadosamente, me preparando para o ordálio a seguir.

Enquanto estava deitada na cama na última noite, o pensamento de Laura ficava rondando minha cabeça e não me deixava em paz. Era como se seu nome piscasse em néon na minha mente toda vez que fechava meus olhos. 

Era errado, eu sabia que era, mas precisava ver a mulher que estava me dando seu coração. Parecia errado não colocar um rosto naquela que estava salvando minha vida. Eu sabia seu nome, eu sabia qual ala ela estava - tinha ouvido duas enfermeiras falando sobre. Vaguei pelos corredores serpenteados até encontrar o que procurava, levando meu tempo, tendo certeza que não estava pulando nenhum nome. Eu tinha tempo de sobra agora.

No penúltimo quarto, ela estava deitada na cama. Uma mulher estava sentada ao lado de sua cama, segurando sua mão, e meu pobre coração tamborilava. 

"Com licença," eu não sabia o que dizer para ela. "Eu sou a Jenna. Sou a pessoa que... Vou fazer a cirurgia amanhã e..." Quem achei ser a mãe de Laura se levantou e pude ver pelo seu olhar que sabia quem eu era. 

"Obrigada por vir visitar. Eu sei que é estranho, mas parte dela viverá em você.  E queria conhecê-la." Eu fiquei ali de pé, desamparada e sem palavras. A mãe de Laura gesticulou na minha direção.

"Por favor," disse. "Não se sinta desconfortável. É isso que ela gostaria que acontecesse." Sentei na cadeira ao lado de Laura. 

"Como ela-" Parei na metade da frase. Era algo horrível a se perguntar. A mãe de Laura sorriu levemente.

"Ela era cuidadora. Cuidava de esposas espancadas, mulheres abusadas. Mês passado conheceu um rapaz e... Bem. Creio que anos de treinamento não podem ajudar quando você se apaixona. Ela ignorou os sinais de aviso. E ele a matou. Dedicou sua vida àquelas que precisavam." A mãe de Laura olhou para baixo. Não sei porque, mas estiquei o braço e segurei a mão dela. Dei um leve aperto. 

"Sinto muito, muito mesmo. Eu tive um namorado uma vez que... Ele era assim também. Alguém como a Laura me convenceu a largá-lo." A mãe de Laura me deu mais um meio sorriso. Pude ver lágrimas em seus olhos.

Então, Laura apertou minha mão. Com força. Com tanta força que suas unhas cravaram na minha pele. Recuei, um olhar de choque em meu rosto. A mãe de Laura me olhou calmamente. 

"Ela também aperta a minha mão as vezes. Acho que os médicos chamam de espasmos musculares. De qualquer forma, não há mais nada de Laura aí dentro." Olhei para as pequenas luas crescentes de sangue que estavam começando a se formar na minha palma.

A cirurgia aconteceu perfeitamente. Fui levada até o quarto de recuperação logo após, o novo corte em meu peito coberto de curativos. Era melhor não ver mesmo, pensei. Não precisava de mais nenhum problema de coração. Passei o primeiro dia dopada com medicações para dor, comendo o mínimo e sentando umas duas vezes. Era um longo processo de recuperação, me avisaram.

A mãe de Laura veio me visitar um dia antes de eu ir embora do hospital. Sua postura calma não desaparecera, mas pude perceber que estava sofrendo. Parecia dez anos mais velha, e suas mãos tremiam quando me abraçou. 

"Quando você volta para casa?" 

"Amanhã," respondi. "Por favor, pode ir me visitar sempre que quiser," comecei a escrever meu endereço para ela quando, na minha visão periférica, vi um flash de cabelos loiros desaparecendo da entrada da porta do meu quarto. O mesmo cabelo loiro brilhante de Laura.

"Ah!" Soltei um gritinho. Senti como se alguém tivesse apertado minha mão tão forte que quase quebrara meus ossos. A mãe de Laura correu para o meu lado, um olhar preocupado em seu rosto. 

"O que houve? É seu... coração?" Ela tropeçou nas últimas palavras, percebendo o que acabara de dizer. Tentei assegurar que estava tudo bem e falei que falaria tudo para s médicos, e ela foi embora ainda com uma expressão preocupada.

Quando olhei para baixo, novas luas crescentes de marcas de unhas haviam aparecido em baixo das que Laura havia feito. Dez sorrisos sangrentos idênticos.

A viagem de táxi para casa foi curta e, antes que eu percebesse, estava de volta ao meu apartamento. Parecia estranho tentar voltar para onde eu havia parado, minha vida estava quase no fim da última vez que estive ali. Olhei para a bagunça e as caixas de papelão, os restos de uma noite em que eu tinha tentado arrumar as malas e guardar meus pertences para que meus pais não tivessem que fazê-lo quando eu morresse.

O coração de Laura batia tão forte que parecia que iria sairia do meu peito. Fazia isso o tempo todo e supus que era assim que um coração saudável deveria ser. Então, por que não conseguia deixar aquele sentimento de desconforto de lado?


Naquela noite, tive um sonho.

Laura estava em sua cama de hospital, mas sua mãe tinha ido embora. Eu podia ouvir meu coração, o coração de Laura, batendo nos meus tímpanos tão alto que era doloroso. Eu tentei cobri-los, mas minhas mãos estavam presas aos meus lados. Alguma força inexplicável me levava para a figura imóvel de Laura na cama, seus lábios eram azuis e a janela se abrira, batendo o cabelo loiro em volta do rosto.

Eu estava quase em cima dela quando seus olhos se abriram.

Eram brancos como leite, os olhos de alguém morto.


"Saia." Ela murmurou, sua voz gutural. Eu podia ouvir o batimento cardíaco cada vez mais rápido, batucando até que pensei que não aguentava mais.

Então eu acordei. O som era real. O coração de Laura era batia alto que parecia que iria romper meus tímpanos e gritei em agonia, tentando cobrir meus ouvidos. Era inútil, vinha de algum lugar profundo dentro de mim, podia senti-lo reverberando em torno das cavidades do meu peito.

Sai aos tropeços da cama, ofegando por ar,  tentei procurar meu telefone. Precisava ligar para alguém, qualquer pessoa, uma ambulância ou para minha mãe. Qualquer um que atendesse


"Saia." Um sussurro fraco sobre os batimentos martelados do coração de Laura, uma voz baixa e gutural que parecia ser de um animal, e eu me arrastei até a porta, pelo corredor, engasgada com meus gritos por ajuda. Meu vizinho abriu a porta, seus olhos arregalados ao me ver no chão segurando meu peito.

Me levou ao hospital enquanto eu chorava no banco do passageiro de seu carro.

Após cerca de cinquenta exames diferentes, os médicos me disseram que  não havia absolutamente nada de errado comigo. Disseram que meu coração estava normal, minha pressão sanguínea estava normal, e que tudo estava indo perfeitamente. Fiquei na sala de espera, constrangida e frustrada.

Aquele coração não me pertencia.


Meu telefone tocou, um número desconhecido. Ótimo. Isso era tudo que eu precisava, coisas mais inexplicáveis e assustadoras como um estranho no outro lado da linha. Minha voz soou baixa.

"Olá?"

"Bom dia, aqui é da polícia do Vale do Tamisa, nós ligamos para relatar um incidente que ocorreu em seu apartamento por volta das 01h30 da manhã." Senti uma onda de vergonha.

"Sinto muito, fiz uma cirurgia recentemente e não estava me sentindo bem. Tive que fazer o meu vizinho me levar ao hospital e acho que entrei em pânico no corredor antes de sair." Houve um pequeno silêncio do outro lado do telefone.

"Creio que é melhor você se sentar, moça." Senti o coração de Laura pulsar, forte e calmo. "Houve um incidente de arrombamento do Sr. Samuel Matthews, de acordo com nossos registros policiais, ele é seu ex-parceiro e você entrou com uma ordem judicial contra ele em setembro de 2017." Meu sangue gelou.


"Sim."

“Ele está sob custódia da polícia. Encontramos uma arma automática com ele e acreditamos que tinha a intenção de prejudicá-la. Nós temos no momento um policial estacionado do lado de fora do seu apartamento, que pode te atender dependendo de quanto tempo sua internação será ”.

Agradeci e desliguei o telefone.

Por um momento, me escorei na parede, o horror lentamente se espalhando em mim. Se eu estivesse no meu apartamento dez minutos depois daquilo, ele teria me encontrado lá.

Os batimentos cardíacos de Laura encheram meus ouvidos novamente, mas agora eram gentis, calmantes. Sua mãe havia dito que ela dedicou cada momento da sua vida para ajudar aqueles que precisavam.


Coloquei ambas as mãos no peito, oprimida pela minha própria gratidão, e ouvi Laura.

20 comentários :

  1. adorei essa creepy, quase chorei kkkk

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  2. Que final magnifico :D Passei a história toda achando que Laura tentaria possuir o corpo ou matar a garota por algum motivo.

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  3. Top! Achava que a Laura ia tentar matar a protagonista ou algo do tipo :v

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    1. Mesma coisa, achei que na parte que a mãe da Laura pede p protagonista quando ela voltará para casa, a Laura já tinha assumido o corpo dela e a mãe sabia.

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  4. Cara...Arrepiado ótima tradução, ótima creepy, mds. Stou abismado com a qualidade disso. <3 <3 <3

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  5. Nossa, eu também achei que a mulher iria matar a protagonista por qualquer motivo.
    Amei!

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  6. Awww que lindo.. geral achando q a Laura ia matar a moça 😹 tb achei hahahaha 10/10

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  7. Achei fofo, nao é o objetivo lendo creepypasta, mas gostei mesmo assim 10/10

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  8. 10/10 ótima creepy, adorei, como todo mundo, também pensei que a Laura iria matar ela, ótimo plottwist e nada de cliches de demônios/espíritos matando e sendo ruins...

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  9. Deu algo MUITO ERRADO não é o termo que eu usaria

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  10. Chorei no final kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    amei, que coisa mais incrivel essa creepypasta <3

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  11. Plot twist maravilhoso! Fiquei achando que a Laura iria matar ela... que coisa fofa <3 escrita super leve e gostosa; imaginei cada cena! 10/10

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