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Escolhi a pílula azul

25 comentários
A época dos meus vinte e poucos foram os piores anos da minha vida. Na época eu estava em um emprego sem futuro, tinha pouca ou nenhuma habilidade social, e meus dias eram basicamente um desperdício de tempo. Isso somando com uma pilha de depressão, seguido de pensamentos bastante sombrios.

Ainda assim, não fazia nada drástico demais pelos respingos de gratificação que vinham dos meus jogos, dos filmes que assistia e horas de navegação aleatória na internet, o que me manteve seguindo o fluxo por um tempo. Mas nunca me sentia completo quando ficava sem fazer nada. Foi aí que finalmente admiti para mim mesmo: eu precisava de ajuda.

No começo, não sabia por onde começar. Eu tinha uma aversão irracional em encontrar algum grupo de ajuda aberto ao público. Não sei porque. Acho que na época eu ainda tinha aquela vibe de ser um 'floco de neve especial'; sentia que meus problemas eram mais exclusivos e muito diferentes para um grupinho qualquer resolver.

Com isso em mente, eu entrei na internet e fui até as últimas páginas nos sites de busca, procurando por um milagre escondido. Meus olhos estavam vidrados em todos aqueles títulos fantasiosos,até que um em especial me tirou do meu estado catatônico.

“Você se sente sem esperanças? Você sente como se os palpites ao seu redor não pudessem ajudá-lo? Você precisa de uma outra saída? Clique aqui para saber mais-"

Na minha mente, respondi imediatamente sim para as três. Essas perguntas acertaram em cheio descrevendo como eu me sentia.

Em pouco tempo, recebi um número de telefone para ligar e marcar uma visita domiciliar. Na ligação, falei de todos os meus problemas e como me sentia. Adicionando a ressalva que me sentia muito diferente para achar que outros recursos mais comuns ajudariam. Eles pareceram interessados no meu caso e me deram uma data para começar as uma visita por semana nas sextas-feiras.

O tempo parecia não passar. e me vi praticamente contando as horas para aquela visita domiciliar. Era isso, pensei comigo, esse seria o recomeço do resto da minha vida.

Sexta-feira chegou e eu me certifiquei de não estar fazendo mais nada. Não joguei nada. Arrumei minha até então casa bagunçada, para termos um espaço para conversar. Até arranjei uns lanchinhos.

Quando o cara apareceu, não era nada com o que eu esperava. Ele era um homem muito sério, de terno e gravata, tudo preto, carregando uma maleta muito formal. Parecia ser o guarda-costa de alguém importante, não parecia estar de brincadeira como um babaca que nem eu.


Ofereci comida e bebidas inúmeras vezes durante a consulta, mas ele negou todas as vezes. Estava ali apenas a negócios, e com seriedade. O discurso que me passou foi surpreendente. Falou sobre como eu era a força principal para tudo o que acontecia na minha vida. Que todo o mal que acontece comigo era diretamente ou indiretamente devido as decisões que tomei ao longo da minha vida. Que todas as minhas decisões me levaram àquele ponto, e como as minhas decisões futuras ou me puxarão para fora, ou me manterão nesse caminho descendente. Fiquei surpreso como isso me deixou chocado ao ouvir. E era tudo verdade.

Eu me sentia uma bagunça, e a minha casa estava sempre bagunçada para reforçar essa ideia. Me sentia péssimo em desperdiçar tempo, mas escolhia desperdiçar qualquer tempo livre que tinha. Já me sentia cansado, ainda assim escolhia ficar acordado madrugada toda, e quase não dormia antes do trabalho. Eu realmente era o principal motivo de tudo que estava errado na minha vida.

Aquilo era perfeito, e tudo que eu precisava ouvir, até a último parte. Começou a falar sobre uma última decisão que eu tinha que tomar. Foi quando ele pegou sua maleta, algo que não havia mexido ainda desde que chegara. Abriu em cima da minha mesa de café limpa e a virou. Lá dentro haviam duas pílulas, cada uma pousada em uma cama macia. Pareciam brilhavam com a luz. Olhei para elas. Uma era do vermelho mais quente e intenso que eu já tinha visto pessoalmente, o outro era de um azul frio e arrepiante.


Fiquei olhando, incrédulo, franzindo a testa em antecipação do que era tudo aquilo. Eu já tinha entendido mais ou menos na minha cabeça, quer dizer, quem não viu 'The Matrix', não é mesmo? Estava mais curioso para ver o rumo que aquela conversa tomaria.

"Sua vida é uma série de decisões, decisões que o levaram a esse momento chave. Você vai tomar a pílula azul, e ver sua vida continuar como está? Ou você vai tomar a pílula vermelha e aproveitar a oportunidade para terminar esse ciclo?"

Disse tudo isso com uma cara séria, então também tentei levar a sério. Concentrado, tentei avaliar minhas opções. 

Minha mente começou a pensar na pílula vermelha. Quero dizer, parece a decisão correta, certo? Toda aquela sessão era sobre tomar decisões para encaminhar minha vida e parar de escolher ficar estagnado. Mas então a realidade entrou em cena. Se há algo que aprendi com dietas fracassadas e esquemas de mudança de vida, é que não há solução rápida na vida. Se você quer perder peso, você tem que trabalhar duro com dieta e exercício. Se você quer ficar rico, você não conseguirá com apenas oportunidades mágicas, você tem que ser proativo; e percebi que essa era a moral da sessão.


"Vou tomar a pílula azul", retruquei.

Essa foi a primeira vez que o vi reagir, e sua seriedade foi brevemente descartado quando ouviu o que eu disse.

"Você tem certeza? Sentei aqui, dizendo que para assumir o controle de sua vida, você tem que tomar decisões proativas” Disse, tentando soar persuasivo.

No entanto, não importa o quão persuasivo fosse, eu tinha tudo planejado na minha cabeça.

“Não, eu vou tomar a pílula azul. Eu sei que tenho que tomar boas decisões a partir de agora, é o que vou fazer. Mas também sei que não há consertos mágicos na vida. Agora eu estou fazendo a primeira grande decisão da minha nova vida. Eu estou escolhendo tomar o caminho mais difícil para que eu possa crescer ”.

No começo, ele fez uma careta de deboche, mas então sorriu e me deixou uma última observação.

"Ok, você tomou sua decisão-"

Me entregou a pílula azul enquanto continuava.

“- mas de qualquer maneira, deixarei a pílula vermelha. Se você sentir que precisa de uma fuga, terá sua segunda opção.”


E com isso, foi embora.

Peguei a pílula azul e engoli-a com o resto de café que me restava, sorri e senti ter uma nova perspectiva de vida. Dali, só morro acima. 

Comecei identificando os problemas da minha vida. Eu tinha todos os 'sintomas' comuns que você pode pensar. Eu era péssimo em situações sociais, especialmente em relação a mulheres. Colocava cerca de 40% de esforço no trabalho, no máximo. Vivia uma vida confusa e me alimentava terrivelmente. Ficava acordado a noite toda e ficava mais lento durante o dia inteiro, como conseqüência.

No começo eu exagerei. Me forcei a fazer uma dieta saudável, mesmo com protestos do meu corpo. Me joguei de cabeça no meu trabalho, descobrindo um novo tipo de exaustão. Me fiz de tolo na frente dos outros. Isso me fez voltar à estaca zero e, de certa forma, me fez sentir pior do que antes. Um novo fundo do poço. No entanto, não importa quantas vezes eu chegava nesse ponto, eu voltava a olhar para a pílula vermelha. Isso me fazia voltar a enxurrada emocional que havia inspirado aquela minha nova jornada. Lembrava das minhas convicções, levantava e me dedicava novamente.

Depois de pesquisar algumas dicas úteis na internet, encontrei uma interessante filosofia japonesa chamada "Kaizen". O princípio seria de mudar bem pouquinho em sua vida que você mal notaria a diferença. Isso ajudou muito, já que o que sempre me fazia voltar a estaca zero era a minha psique ficando muito chocada com a mudança repentina e absurda, voltando ao meu padrão tóxico. Eu comecei bem basicamente. Eu troquei alguns hábitos alimentares pouco saudáveis por alguns bons. Eu lavava os pratos sempre que os usava e comecei a fazer anotações no trabalho.

Uma vez que isso tudo se tornou hábito, acrescentei mais coisas. Comecei a dizer "olá" e "tenha um bom dia" aos caixas quando fazia compras. Limpava um comodo diferente a cada semana, ao invés de tentar lidar com toda a casa de uma vez só. Comecei a procurar novas pequenas tarefas para fazer no trabalho. E veja só, as pessoas notaram. Colegas de trabalho, de repente, tinham interesse em mim. Eu conversava com vários funcionários das lojas que ia. E estava começando a ser elogiado por meus esforços no trabalho. Tudo isso levou a uma onda incrível de dopamina, e minha positividade aumentou.

Eu estava fazendo amigos. Estava sendo abordado para conversar, em vez de ser forçado a trabalhar. Estava até recebendo um pouco de atenção de moças curiosas.

A pílula vermelha, que tivera sido um símbolo da minha ponto mais baixo, era agora um símbolo do quanto eu havia conquistado. Guardei-a em uma pequena caixa no meu criado mudo e contava sua história a qualquer um que estivesse interessado.


Isso não quer dizer que eu quase não tenha caído em tentação. Datas fracassadas. Mau desempenho no trabalho. Bagunça se acumulando em minha casa. Todos estes começavam a me puxar de volta para o meu ponto baixo. E a todas as vezes, eu olhava a pílula vermelha, a curiosidade crescendo do que acontecia, a tentação me arranhando por sua promessa de uma solução fácil. No entanto, eu usava esses sentimentos para me lembrar de sua mensagem. A mensagem daquele estranho que me abençoou com essa motivação tantos anos atrás.

Esse pensamento me atingiu um dia desses. Eu nunca havia agradecido-o. Isso era algo que eu queria corrigir, agora que tão bem na vida. 

Primeiro tentei procurar o site. No entanto, o link não existia mais. Uma coisa comum em sites antigos independentes, devido ao aumento das redes sociais e cobranças de sites. 


Peguei meu telefone antigo e tentei ligar para o número que recebi tantos anos atrás. No entanto, o número aparentemente não existia mais. Mas não desisti. A última coisa a se tentar era começar a pesquisar no Google para descobrir se tinham se mudado para outro site, ou ver se eu poderia encontrar vestígios deles em algum cantinho da internet, tipo alguma pessoa como eu comentando como haviam o ajudado. Mas não foi bem esse o caso.

Enquanto pesquisava, os primeiros links que apareceram de grandes manchetes em sites de notícias. Meu coração afundou quando eu cliquei em um deles.

O artigo entrava em detalhes sobre o grupo que executava aquele o serviço. Sobre serem fanáticos dedicados ao assassinato em massa. E como eles haviam persuadido muitas pessoas em situações semelhantes como eu a cometer suicídio. No começo pensei que podia ser um grupo diferente com o mesmo nome. Um álibi fácil, já que coisas parecidas já tinham acontecido antes. Inventei todas as desculpas para negar o envolvimento deles, até que li como faziam aquilo.


Primeiro, eles encontravam pessoas que estavam em um ponto baixo de sua vida. Então ofereceriam uma escolha. Uma pílula azul, que era um placebo simples. Ou uma pílula vermelha, que era preenchida com uma dose letal de cianeto. Se ingerido, resultava na morte da pessoa em poucos minutos.

Meu estômago se revirou.

Continuava dizendo que não havia sobreviventes. Que todos os envolvidos foram presos ou encontrados mortos, haviam ingerido a pílula vermelha. 

Isso era contraditório, pois eu era a prova viva de que havia um sobrevivente. Não que as autoridades pudessem descobrir, sendo que nunca mantiveram arquivados os dados dos que pediam a pílula. 

Fiquei em choque. Tudo no que eu havia baseado minha vida era, de certa forma, uma mentira. Não eram um grupo de ajuda. Eram um bando de bandidos, sedentos por morte. Um culto de assassinato que se aproveitou de pessoas em um ponto escuro de suas vidas. Um conceito que ajudou a me levar aonde estou hoje.


Fiz uma pausa das minhas pesquisas, e sentei na minha cama com a pílula vermelha nas mãos, observando-a. 

Minha posse mais valiosa. Agora, um símbolo da morte. Mas foi quando tive minha epifania. A pílula vermelha sempre representou o caminho mais fácil. Uma opção que estava sempre lá, mas nunca resolveu nenhum problema. Era o que sempre representou - suicídio. Uma mensagem que acreditavam ser a solução perfeita, no entanto para mim, uma mensagem equivocada. O suicídio sempre é uma opção, no entanto, é uma solução permanente para um problema temporário.

A pílula azul não representava nada. A escolha de não ter conserto mágico para seus problemas, mas a escolha de consertá-los você mesmo. Uma mensagem que que jamais esquecerei.

No final das contas, tomei a decisão de parar de ficar me indagando se realmente eram algum grupo de ajuda composto por gente louca mas com uma boa mensagem, ou um bando de selvagens. Porque para mim, de certa forma, isso não importava. O que fizeram por mim foi a melhor coisa que já aconteceu, e a mensagem, embora agora mais mórbida, nunca mudou, na verdade.


Para ter certeza de que não faria mal a ninguém, tirei a pílula vermelha da caixa de fácil abertura, coloquei-a em uma moldura clara e selada e pendurei-a na parede. Eu ainda conto a história do que significa, porém sempre deixo de fora a última parte de sua verdadeira origem.

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião

25 comentários :

  1. Eu havia imaginado, a princípio, que teria algo sobrenatural. Mas que bom que não teve isso. A história ficou melhor assim e soou motivacional (mesmo que de uma maneira pouco convencional kkkk). Gostei da história.

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  2. Novamente minha vida descrita em uma creepy.

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  3. Respostas
    1. mano vc sempre coloca ora ora ora no final de varias creepys,que estranho... kkkk

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  4. Pensei que fosse mais uma história boba de Matrix, mas esta foi realmente boa e com um ótimo final!

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  5. Me surpreendeu bastante, não esperava esse final. De certa forma é motivacional, com certeza se tornou minha segunda Creepy favorita

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  6. Essas Creepypastas motivacionais são muito boas.
    Postem mais dessa já é a segunda que leio e me surpreendo

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  7. eu acho que seja terror mais tem uma mensagem boa gostei

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  8. PRGDL02022

    Top demais... CPBR nunca decepciona... Esse tipo de creepy causa um impacto muito positivo no leitor, morais que tiramos e aplicamos na nossa vida.. Excelente, quando der traga mais e parabéns pelo trabalho.

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  9. Carai, eu passei uns dois meses sem ler creepies por já estar enjoado dos clichês inevitáveis, aí quando resolvi voltar ao site para ler novamente, justo hoje, encontro essa creepy fantástica! Tragam mais dessas, fogem completamente daqueles chavões de mortes e eventos sobrenaturais. Muito bom voltar a ler creepies com um conto magnífico desse!

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  10. Top... pensamento positivo ;) sempre

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  11. Divina quero ser sua amiga <3 me fala que vc e de SP

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  12. Já esperava desde o princípio que a pílula vermelha resultava em morte,mas, pensei que o homem era apenas o subconsciente dele incitando ele a escolher mudar ou se matar.

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  13. Muito boa essa creepy, achei que teria haver com Matrix mas o final me surpreendeu kk :v

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  14. Previsível desde o começo , mas ainda sim , uma boa história

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