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Minha irmã descobriu uma linguagem universal, mas ela não fala uma palavra desde 2003

59 comentários
Bom dia/Boa tarde/Boa noite! Desculpem não ter postado nada semana passada, foi extremamente corrido na faculdade, mas acredito que agora as coisas vão se normalizar! :/
•••
Minha irmã é um gênio. Quando ela tinha cerca de treze anos, fez esse dispositivo que honestamente ainda me surpreende. Eu passei minha vida inteira estudando física e ainda não sei o que ela fez, ou como - o que provavelmente é o melhor, considerando como tudo isso acabou. Não sei como ela fez isso, mas o que eu sei é que no verão de 2003 as leis que regem a matéria e a massa atômica não pareciam afetá-la mais, ela era invisível ao olho humano, e estava falando uma linguagem universal que nunca conseguimos identificar ou reproduzir.

Antes de começarmos, você já viu Firefly?

Permita-me citar:

"Eu sou muito inteligente.

Fui à melhor faculdade de medicina de Osíris, top 3% da minha classe; terminei meu estágio em oito meses. "Abençoado" é como me descrevem.

Então, quando lhe digo que minha irmãzinha me faz parecer uma criança idiota, quero que você entenda exatamente o que quero dizer."


Isso poderia ter sido escrito sobre mim e minhas irmãs. Nós viemos de uma longa linhagem de pessoas talentosas. Meu pai é neurologista, minha mãe trabalha na SpaceX, e minha irmã mais velha é uma artista cujo trabalho é apresentado em galerias desde os doze anos. Sou uma associada de pesquisa em tempo integral de físicas de alta densidade energética em uma universidade que não posso citar sem arriscar minha carreira. E, como o Simon Tam da Firefly, eu não conto tudo isso para exibir nossa inteligência ou nos fazer parecer especiais. Eu digo isso para que você possa entender completamente o que quero dizer quando digo que Nirali fez todas nós parecermos crianças idiotas.

Em 2003 eu estava prestes a completar dezessete anos. Meus interesses não eram como a maioria das garotas adolescentes, então eu não vou te entediar com os detalhes do que eu achava mais divertido do que TV, livros ou shopping, mas na maioria das vezes eu estava ocupada com projetos pessoais de pesquisa. A primeira vez que Nirali ficou invisível, eu estava empacada no meio de uma pesquisa. Estava submersa em alguns artigos acadêmicos muito profundos quando ouvi Nirali atrás de mim.

"Eles estão errados, você sabe."

Eu gemi internamente. Nós já havíamos falado sobre bater na porta, mas ela continuava desrespeitando limites. "Nirali, o que conversamos sobre bater?"

"Ah", ela disse, parecendo genuinamente surpresa. "Eu não pensei na porta."

"O quê?" Eu fiz uma careta e girei minha cadeira para olhar para ela.

Meu quarto estava vazio.

Espere, vazio?

Olhei em volta brevemente antes de esfregar os olhos, me perguntando quando foi a última vez que dormi e já tomando a conversa como uma alucinação auditiva. Balancei a cabeça, voltaria para o meu computador, quando a ouvi rir.

Tudo bem, babaca. Cadê você?"

"Bem aqui", ela riu, sua voz vindo diretamente da minha frente.

"O que... como? Você escondeu os alto-falantes de novo?" Levantei-me, tomando um momento para realmente olhar ao redor da sala. Ela já fez uma brincadeira assim antes, escondendo um conjunto complexo de alto-falantes que ela modificou para criar uma confluência de som manipulável. Soava como se alguém estivesse em algum lugar da sala que ela especificou. Ela até fez parecer que estava se movendo ao redor. Foi realmente impressionante, especialmente pelo fato dela ter dez anos na época.

Dessa vez, porém, ou ela escondeu as caixas de som muito melhor, ou algo a mais estava acontecendo.

Ela riu novamente. "Sem truques! Só eu!"

"Ok, 'Só eu'". Mas como?" Eu cruzei os braços, olhando na direção de sua voz desencarnada.

"Isso vai ser difícil de explicar."

Era a forma gentil de Nirali dizer "Você não vai entender".

"Tente", eu disse, porque sou teimosa.

Ela explicou, no entanto, eu não peguei. Quando ela terminou, o começo de uma enxaqueca incomodava meu olho direito. Quase nada disso fazia sentido. Havia algo sobre frequências atômicas, deriva pós-dimensional, dessincronização superliminal e algo que ela apelidara de "Paralelo Supratemporal do Planck". Tudo estava bem além da minha capacidade.

"Ok", eu disse, esfregando minha têmpora enquanto tentava digerir tudo. "Mas como você chegou aqui?"

"Eu andei."

Enfurecedor.

"Quero dizer, como você chegou aqui?" Fiz um gesto amplo para a porta, que estava fechada, e as paredes ao nosso redor.

"Ah." Eu podia ouvir o encolher de ombros em sua voz. "Eu apenas andei por onde as paredes não estavam."

Eu olhei para o local que eu pensei que ela estava de pé.

"Você o que?"

Ela suspirou. Foi um suspiro especial. O tipo de suspiro que transparece que alguém muito mais inteligente que você precisava explicar algo de um jeito burro pra você entender. Um calor embaraçoso inundou minhas bochechas. Eu sabia que ela era mais inteligente do que eu - mais inteligente do que todos nós -, mas ainda assim me fazia sentir como se eu tivesse errado matemática simples na frente de Neil DeGrasse Tyson e um cachorrinho, e ambos ficaram desapontados.

"Eu passei por onde as paredes não estavam. As paredes não estão em todo lugar, Divya. De fato, na maioria dos lugares, tipo… realidades? As paredes não estão lá. Então eu apenas passei nesses lugares."

Eu queria ver provas dessa declaração, embora soubesse que ela não teria se incomodado em escrevê-las, exceto em recortes e trechos incompletos que só faziam sentido para ela. Eu também sabia que as provas não fariam mais sentido do que a sua explicação original. Mesmo assim, me incomodou que eu só entendesse o que ela queria dizer da maneira mais vaga e conceitual. Não era natural para mim. Essa abstração de pensamento lutou contra meu modo linear de pensar, tornando o entendimento real impossível e eu odiava isso.

Sana teria entendido. Seu cérebro funcionava dessa maneira. Mas não o meu.

Eu devo ter demonstrado que eu estava lutando para entender (e eu estava), porque ela continuou.

"Onde eu estou, ou tecnicamente, quando e como, tudo é um quebra-cabeças de Schrödinger de Ser e Não Ser. Tudo o que tenho a fazer é observar os lugares onde o estado de algo não é e ir até lá."

Isso não estava ajudando. Quero dizer, ajudou - entendi o conceito básico do que ela estava dizendo, mas em termos da aplicação prática da física, era uma bagunça de palavras científicas sem sentido. Nada do que ela disse tinha qualquer fundamento na ciência conhecida. Ela poderia ter me dito "Comi sorvete de cabeça para baixo e entoei 'púrpura' de trás pra frente trinta vezes e a parede virou gelatina, mas apenas enquanto olhava para ela de um ângulo de quarenta e cinco graus", e teria sido exatamente tão científico quanto o que ela realmente disse.

No entanto, era ela quem estava invisível, de modo que os limites da minha compreensão e ciência em si não tinham qualquer influência sobre sua existência corpórea.

"Você ainda tem um corpo? Quero dizer, você consegue se ver?"

"Ah sim", disse ela, sua voz aumentou com a animação. "Eu pareço com uma centena de versões minhas deitadas umas sobre as outras. Olhar para as minhas mãos e outras coisas é meio estranho, mas eu estou aqui."

Legal. Eu não tinha ideia do que fazer com essa informação.

Ela começou a rir novamente.

"E agora?"

"Eu não acredito que você ainda não tenha percebido."

"Percebido o que?" Eu não consegui evitar a ligeira irritação em minha voz. Não foi fácil aceitar a premissa de que ela conseguiu enganar a física para deixá-la passar pela matéria enquanto era imperceptível ao olho humano, mas esse foi o limite do 'quão superiora Nirali é' que eu pude aturar por um dia.

"Em que língua eu estou falando?"

Eu tive que piscar e pensar por um momento. "É inglês, não é?"

Ela riu novamente.

"Diga alguma coisa", pedi na minha voz mais autoritária de Irmã Mais Velha.

"Nunca houve alguém que ame ou busque ou deseje obter dor por si só, porque é dor, mas porque ocasionalmente ocorrem circunstâncias em que a labuta e a dor podem lhe proporcionar algum grande prazer..."

Se eu me concentrasse, conseguia dizer que as palavras que ela estava dizendo não combinavam com o que eu estava aparentemente traduzindo na minha cabeça, mas eu não conseguia ouvi-las pelo que elas eram. Exceto…

"Espera, é a tradução do lorem ipsum de De finibus bonorum et malorum?"

Ela riu novamente. "Sim! Quer que eu tente algo em hindi?"

"Sim", eu disse, um pouco atordoada e mais do que um pouco curiosa. "Vá em frente."

Que Ele em cujo colo resplandece a Filha do rei da montanha, que carrega a corrente celestial em Sua cabeça, sobre cuja fronte descansa a lua crescente, cuja garganta contém veneno e cujo peito é o suporte de uma enorme serpente, e que é adornado pelas cinzas de seu corpo, que o chefe dos deuses, o Senhor de todos, o destruidor do universo, o onipresente Śhiva, sempre me proteja."

Eu fiz uma careta, dividida entre focar nas palavras e tentar identificar o que ela estava citando. Eu comecei a murmurar algumas das palavras enquanto minha mente corria em círculos sobre elas, e fiquei boquiaberta quando o reconhecimento se estabeleceu. "Você acabou de citar a invocação de Ayodhyā Kāṇḍ de Ramcharitmanas?"

Outra risadinha.

"Mas como? Isso não soou como hindi!"

"Fascinante", disse ela. "Não parecia hindi quando eu dizia, mas estava pensando nas palavras hindi. Como soou para você?"

"Inglês, eu acho. Quer dizer, não parecia nada, mas eu te entendi em inglês."

"Isso é tão legal. Você consegue ouvir algo que não seja inglês?"

"Tipo isso. Quero dizer, quase. Se eu tentar, consigo perceber que os sons que você está fazendo não combinam com o significado das palavras que eu estou... não ouvindo, mas entendendo? Mas o significado substitui todo o resto, por isso não consigo identificar sons ou frases individuais."

"Você acha que poderia identificar a linguística física se fosse palavra por palavra? Pode ser o processamento de frases completas que impede a identificação de fonemas individuais."

"Talvez", eu disse, encolhendo os ombros, ainda presa a esse aspecto de sua descoberta. "Nós poderíamos tentar."

Ela me fez passar por alguma identificação geral de objetos para me dar uma chance de ouvir os sons que ela estava fazendo e como eles diferiam das palavras que eu conhecia - as palavras que eu estava "ouvindo" - mas eu só pegava os lapsos de divergências. Começos e fins.

Ela achou isso hilário.

Eu pensei que era mágico.

Ela começou a fazer viagens regulares para o meu quarto neste estado, geralmente depois da hora de dormir ou quando nossos pais estavam no trabalho. Eu não a culpei por fazer isso escondida. Sana não gostava muito de ciência, e se nossos pais soubessem o que nós tínhamos feito nós teríamos ficado de castigo pelo resto da vida, especialmente porque Nirali já tinha sido proibida de fazer experimentos em casa. (O último exigiu muita ajuda externa e vários milhares de dólares para limpar.) Mas alguém tinha que tentar catalogar esse léxico universal e essa era a única maneira pela qual tínhamos acesso a ele.

Uma noite, enquanto estávamos deitadas no chão, nomeando objetos (tentamos fazer sons individuais antes, mas sem a intenção de significados por trás deles, não havia divergência), Nirali congelou. Eu não conseguia vê-la, é claro, mas algo mudou. Ela parou ao ponto que eu me preocupava com a possibilidade dela ter passado pelo chão ou algo assim e me deixado sozinha. Mas de alguma forma eu ainda sentia sua presença junto com algo afiado e estranho que eu não conseguia identificar.

"Nirali?" Eu sussurrei, o mal-estar frio se instalando em mim como neve.

"Shh." Era ela, mas tão baixo que quase não ouvi. Senti a urgência por trás disso esperei em silêncio por ela.

Conforme os segundos passavam, uma tensão aterrorizante rastejou pela sala. Tudo começou nas bordas, onde as sombras eram mais grossas e espalhadas, manchava tudo o que tocava, inclusive eu. Meu pulso acelerou quando uma paranoia primitiva se instalou. Eu sabia que era apenas Nirali e eu, mas parecia que um predador estava oculto nas sombras, procurando por nós, e apenas nosso silêncio o impedia de investir.

Para evitar o pânico, concentrei-me nos indicadores vermelhos e quentes do relógio sobre minha mesa. Os números que mudavam lentamente eram suaves e hipnóticos. Eles entorpeceram as margens do meu medo até que, em algum momento entre a meia-noite e as 2 da manhã, eu adormeci. Eu só percebi isso quando Nirali finalmente sussurrou meu nome, me puxando de volta à realidade.

"Divya, acorde..."

"Hm?" Eu recobrei consciência lentamente, sacudindo o desconforto parcial de um sonho que eu não conseguia lembrar.

"Já se foi."

"O que se foi?" Esfreguei o sono que ainda entorpecia minha visão e pisquei para o relógio acima da minha mesa. Tão tarde ... nós realmente ficamos deitadas no chão por duas horas?

Nirali não respondeu. Por bastante tempo. Tempo o suficiente para que eu achasse que talvez ela ter me acordado fosse um sonho.

"A sombra além das paredes", ela sussurrou, cortando o silêncio como teias de aranha. Havia um peso em suas palavras que não consigo descrever que mexeu nos pontos mais primitivos do meu cérebro; Um anseio antigo me chamando, me dizendo para me esconder.

"O... o quê?" Eu resmunguei, apoiando-me nos cotovelos, mas Nirali tinha ido embora. Não ficou mais silencioso. Havia uma diferença na sala quando ela saiu, e eu sempre podia sentir isso. Mesmo se ela não dissesse que estava partindo.

Poucos minutos depois, ela estava na porta do meu quarto, na verdade, batendo. O som me assustou, dando ao meu coração um treino repentino com um pico de adrenalina. Eu andei até a porta para deixá-la entrar, muito consciente da noite ao meu redor e evitando as sombras, que repentinamente deixaram de ser confiáveis. Sem uma palavra, ela passou por mim e se arrastou para a cama, escondendo-se sob as cobertas com os joelhos contra a parede e de costas para mim. Tomei o que ofertaria como aceito e me arrastei atrás dela, oferecendo-me como proteção contra a noite.

O sono demorou a vir enquanto meu corpo liberava o instinto de sobrevivência de suas veias, mas eventualmente ele deve ter vindo, já que a próxima coisa que eu sabia era que o sol estava espreitando através das janelas e Nirali estava me observando dormir.

"Divya?" Nirali disse o meu nome como se ela estivesse testando, como se ela não esperasse ouvi-lo novamente.

"Sim?"

"Nada", disse ela, enrolando-se sob as cobertas antes de acrescentar, "obrigado".

Foi uma semana antes que ela viesse até mim através das paredes novamente.

"Eu acho que é atraída pela linguagem", ela disse, me tirando de um sonho sobre superfluido.

"O que é atraída?", eu bocejei, estranhamente confortável com a retomada de nossas conversas noturnas.

"A sombra atrás das paredes."

"O que aquilo é?"

"Eu não sei. Algo grande. Alguma coisa velha. Mais velha que o tempo, talvez."

Essa é uma fala digna da Sana. 'Mais velha que o tempo'?"

"Eu não sei, Divya, é essa a sensação."

Ela sempre foi assim, presa em algum lugar entre ciência e emoção, como o cruzamento perfeito entre eu e Sana. Acho que isso permitiu que ela pensasse abstratamente o suficiente para escapar da caixa do Conhecido para inovar, mantendo-se linear o suficiente para construir uma nova caixa para abrigar suas inovações. Mas às vezes isso significava que ela não tinha a matemática para confirmar. Às vezes, era apenas um sentimento ou um traço de noção, mas mesmo assim os instintos de Nirali estavam sempre acertados, mesmo que a ciência demorasse algumas décadas para provar.

"Tudo bem", eu disse, aceitando essa resposta.

Era estranho, percebi então, como algumas semanas de exposição ao que minha mente me dizia ser factualmente impossível me abriram para a flexibilidade Do Possível. Eu também fiquei surpresa quando percebi que meu primeiro instinto não era mais desafiá-la ou exigir provas só porque o que ela disse estava além da minha experiência ou compreensão imediata. Em vez disso, eu assentiria e aceitaria que o que ela disse - o que ela experimentou - era simplesmente verdade e as limitações do meu entendimento não mudariam isso.

"O que ele quer?"

"Eu não sei. Não acho que aquilo fale. Mas acho que escuta. E compreende."

"Isso é... inquietante", eu disse, me movendo sob as cobertas. A criança supersticiosa em mim certificou-se de que meus pés estava escondidos no centro da cama, porque as sombras ainda não eram confiáveis.

Ela cantarolou sua conclusão. "E nem é a única coisa aqui."

Um arrepio atravessou meu corpo, fazendo meu coração saltar. "O que você quer dizer?"

Quero dizer, há outras coisas. Coisas grandes. Coisas velhas. A maioria deles não pode me ver, eu acho. Eu não estou realmente onde eles estão, mesmo que eu não esteja realmente onde você está, mas eles podem me ouvir, como você."

"Você está segura?"

Nirali ficou em silêncio. Meu estômago revirou, porque eu sabia que significava que algo grande e velho, e perigoso estava perto o suficiente para representar uma ameaça. Depois de vários minutos, ela respondeu.

"As vezes…"

"Só às vezes?" Eu me sentei, olhando para o local no chão onde ela estaria sentada.

"Só as vezes."

Então por que ainda estamos fazendo isso, Nirali? Eu não teria concordado se soubesse que você estava em perigo!"

"Eu sei", ela disse calmamente. "Mas há tanto aqui. Se eu me concentrar em uma cor, posso experimentar tudo o que a cor já foi e sempre será. Se eu penso sobre algum momento, estou sentada no que costumava estar aqui ou às vezes o que estará aqui, assistindo a um borrão de atividade que não acontecerá por outro milhar de anos. Vi cidades que você nem imagina feitas de osso e vidro brilhantes. Maravilhas monolíticas para envergonhar os deuses. Ontem à noite eu estava em pé no centro de um buraco negro. Não é um holograma ou uma simulação, mas um buraco negro real. Capturado, contido, reproduzido, aproveitado, eu não sei o que, mas estava aqui e eu também, e através do buraco negro eu vi tantos outros universos, todos dispostos como espelhos no infinito."

"Nirali", eu sussurrei, tão admirada quanto aterrorizada. Ela tinha experimentado essas coisas todas as noites? Todas as horas que nós falávamos sobre nada e coisas sem sentido?

"Mas também há coisas maiores", disse ela, sua voz mergulhando na escuridão. “Coisas que se escondem no brilho da luz das estrelas no vidro. Coisas que me seguem do futuro e esperam por mim no passado. Eles rebatem como pedras na água, apenas tocando a superfície por um minuto e nunca com todo o seu corpo. Mas mesmo isso é demais. Dói olhar para eles. Eles são muitas formas ao mesmo tempo e todos eles estão com fome de maneiras que eu não entendo."

Lágrimas brotaram nos meus olhos enquanto eu a ouvia. Doeu aceitar essas coisas como verdade. Eu não conseguia entendê-los ou tocá-los ou mesmo experimentá-los, mas eu tinha que aceitar que eles eram reais, porque minha irmã era invisível. Ela podia passar pela matéria à vontade e falava uma linguagem universal para mim todas as noites. Mas aceitar tudo isso também significava aceitar que minha irmã passava todas as noites obrigada por sua própria curiosidade a voltar a esse estado perigoso de novo e de novo, apenas para ficar aterrorizada com o que aguardava No Meio.

"Fico feliz que eles não possam me ver, mas eu não acho que isso será verdade por muito mais tempo."

"O que? Por quê?"

"A sombra atrás das paredes esteve no meu quarto a semana toda. Eu posso sentir ela me seguindo por aí. Está ouvindo agora, mas eu não acho que vai entrar no seu quarto novamente."

"Nene! Você tem que parar com isso!"

"Eu não posso", disse ela, sua voz turva com lágrimas iminentes.

"Claro que você pode. Apenas volte e vamos destruir tudo o que você está usando para atravessar. Nós podemos consertar isso."

"Não" disse ela, a voz úmida e trêmula sob uma angústia que nenhum jovem de treze anos deveria passar. "Você não entende."

"O que poderia valer a pena o risco?"

Meu coração quebrou no silêncio que se estendia entre nós. Uma eternidade de dor e saudade rodou nos inundou e um último frágil suspiro atravessou as lágrimas que conteve quando ela encontrou sua voz novamente.

"Eu não sei mais falar inglês."

Eu não entendi. Como a primeira vez que ela descreveu a matemática para mim, essa afirmação desafiava o entendimento.

"O que você quer dizer com você não fala mais inglês?"

"Quero dizer que não consigo falar nada além dessa linguagem Do Meio imbecíl, Divya. Eu tentei e tentei durante toda a semana, mas tudo o que sai agora é essa bagunça feia de gorgolejos, arranhões e ruídos que eu não reconheço e estou com tanto medo. Estou com tanto medo, porque eles ainda podem me ouvir quando estou com você, e lá fora não estou invisível. E você, e Sana, e mamãe e papai não são invisíveis. E nenhum de nós está seguro quando estou por aí. E a única vez que consigo falar é quando estou aqui" - soluçou ela. "Quando estou aqui com você."

Meu coração deu cambalhotas em meu estômago. Eu deixei isso acontecer. Eu deveria tê-la parado no dia em que ela me mostrou seu estúpido truque de quebrar a ciência.

"Nene", eu sussurrei, e tudo que queria fazer era abraçá-la até que tudo estivesse certo. “Você tem que voltar. Eu não sei o que faremos para consertar isso, mas você não pode ficar aí."

"Eu sei", disse ela através de um pesado véu de lágrimas. "Eu só não queria perder você. Nos perder."

"Eu ainda estou com você!"


"Mas não quando eu estiver aí! Não assim."

Eu não tinha uma boa resposta. "Nós vamos encontrar uma maneira de consertar isso", foi tudo que eu pude dizer, e nós duas sabíamos que não era o bastante. Nós também sabíamos que tinha que ser, porque não havia escolha.

Senti sua presença desaparecer e alguns minutos depois houve uma batida na minha porta. Nirali ficou do outro lado tremendo enquanto soluços silenciosos rasgavam sua pequena silhueta. Eu a abracei, fechando a porta atrás dela, e juntas nos enrolamos no chão e choramos. Choramos até desmaiarmos de exaustão e acordarmos muito depois de o sol nascer.

Eu acordei com Nirali me observando novamente e pisquei para longe a névoa de sono manchado de lágrimas.

"Nirali?"

Ela assentiu, muda; uma tristeza pairando sobre seus ombros.

"Você pode…?"

Ela balançou a cabeça.

"Nada?"

Ela olhou para cima, olhando para mim e para o corredor quando alguém passou. Eu percebi que um milhão de pensamentos estavam passando por sua cabeça naquele momento, a maioria deles conflitantes, mas depois de um minuto ou mais uma resolução de pedra se estabeleceu em seus olhos e ela se aproximou, acenando para eu fazer o mesmo.

Sua boca estava quase contra o meu ouvido quando algo inimaginavelmente profano saiu de seus lábios.

Um tremor de repulsa ressoou através de mim ao som de cada fonema mutilado. Eu nunca estive tão enojada e aterrorizada na minha vida. Eu podia ouvir sua voz, mas estava pingando veneno cáustico, arrastando brasas quentes, enterrada no oceano mais profundo e arranhando as bordas da sanidade com garras furiosas. Estava errada. E até hoje foi a experiência mais visceral e macabra da minha vida.

As palavras, esta linguagem, nunca foram feitas para serem faladas pelo homem. A ciência não me apoiará, mas sei que essas palavras têm poder que o homem não deveria usar.

E, no entanto, apesar de minha mente se rebelar pelo mero som de sua voz distorcida em torno dessas palavras hediondas, eu ainda sabia o que ela queria dizer como se tivesse dito em inglês.

Não diga à mamãe e ao papai.
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

59 comentários :

  1. Caralho! Como assim? Mexeu com meu psicológico dum jeito

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  2. S E N S A C I O N A L

    [b]10/10[/b]

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  3. Espero que a nirali esteja bem hoje em dia

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  4. Interessante bem criativa..
    nao entendo NA.DA de matematica e fisica.. kakakaka sou uma negacao pra essas coisas
    Mas amei a creepy... 10/10 🎃

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  5. Parabéns Heitor. Creppy maravilhosa. Senti até meu coração acelerar aqui.

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  6. Me fez lembrar o terror cósmico do H.P.Lovercraft, essas criaturas antigas são tão fascinantes, essas loucura dimensional, coisas impossíveis de explicar... maravilhoso

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    1. Fale alguma coisa sobre chá verde:
      "Chá verde é verde"

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  8. Magnífico. Muito bem escrito e trama super elaborada. Parabéns.

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  9. Tô toda me tremendo aqui aaaaaaAa. AMEI

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  10. Faz muito sentido. E me fez pensar que talvez alienígenas não sejam seres de fora da Terra, mas seres em uma "frequência" além dela.

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  11. Caraca, fazia tempo que não me empolgava tanto com um conto! Obrigado pela tradução.

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  12. gostei, dou uma nota 7 acho que poderia ter uma segunda parte, pena que não deve existir.

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  13. Uma semana sem​ um conto novo. Vão parar com o blog? Avisa aí que eu paro de seguir.

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    1. pois é, quem n sabe ingles sabe como é foda ler em outro site, ja que a marioria postam creepy bestas

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    2. Então. E a gente acostuma com esse conteúdo, e quer sempre ler algo, mas aqui tá difícil, o blog tá às moscas e ninguém nem responde a gente.

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    3. HOJE JA SAO DUAS KKKKK

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  14. queria sugestões de outros blogs, pode ser em inglês, porque é foda entrar aqui quase todo dia e dificilmente ter algo novo

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    1. Quando não tem aqui, leio no recanto das letras, é regular até. O ruim é que não é adaptado para mobile e tem que ficar aumentando o texto pra ler.

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    2. No reddit/nosleep tem milhões de historias migo.. algumas são maravilhosas, outras são uma bomba kkkkkkk mas tem opções infinitas
      Tb tem creepypasta.com, td em ingles msm 😘

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    3. As melhores histórias de todos os tempos do nosleep:

      https://www.reddit.com/r/nosleep/top?t=all

      As melhores histórias dos últimos 12 meses do nosleep:

      https://www.reddit.com/r/nosleep/top?t=year

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  15. Não entendi porquê a protagonista ficou tão em choque com a última frase...

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    1. Acho que ela ficou com medo de como a voz da Nirali soou. Quando ela disse "como veneno cáustico, brasas, etc" estava descrevendo como a voz parecia, como se não fosse uma voz humana. E no final ela explicou que apesar de como a voz parecia sinistra, era apenas uma frase simples (não diga à mamãe e ao papai).

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  16. 30 de maio foi a última creepy postada.

    sem condições, né pessoal!

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  17. E no final, não se normalizou :'/

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  18. Aqui jaz um blog.
    Obrigado por todas as leituras na madrugada.
    Sentirei sua falta.
    Ficam na memória as boas lembranças das creepys postadas diariamente.
    <3

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  19. O blog acabou? Li que a divina ia passar um tempo fora mas acabou tipo de vez? Por favor não matem meu único entretenimento, acompanho desde 2013 :'(

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  20. Não acabaria do nada sem nem um post de despedida. Devem estar ocupados, Heitor com a facul e Divina com o bb
    Voltem logo <3

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  21. Tb acho Ray, ta parado mas não ia encerrar do nada. Tem q arrumar colaboradores novos.. eu msm posso traduzir algumas historias por semana, tb sou ocupada com trabalho, criança, casa e tal mas arranjo um tempinho 😁

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    1. O problema não é só a tradução, tem que garimpar até achar coisa boa, o nosleep tá cheio de creepy mas não é fácil achar as boas. Vc tem que ler uma por uma até encontrar, essa última aí da linguagem foi um achado!

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    2. NEM É TAO DIFICI, É SO CLICAR NAS MAIS POPULARES

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    3. OU LER UM POUCO AS MENOS FAMOSAS TAMBEM, EU RECOMENDEI A BRXA ELETRICA, UM VDD ACHADO,ERA POUCO CONHECIDA, MAS E UMA OTIMA CREEPY

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    4. Já tá no blog a da Bruxa Elétrica.

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    5. mas eu que recomendei ;)

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  22. Eu geralmente vou olhando pelos votos algumas passam de 5k, nao tem como uma creepy ruim ter td isso de upvote.. essa da linguagem foi uma dessas (vi a original lá tb)
    Realmente tem umas bombas kkkkk tem q saber escolher 😘

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  23. Perdão eu entrei em modo de histéria coletiva, perdão mesmo, senti falta das creepys e os comentários anteriores aos meus me assutaram. Só perguntei msm.

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  24. Gostei da historia. Alguem me explica isso do blog acabar, estou ha um tempo sem vir aqui.

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  25. É que a Divina tirou licença maternidade e o blog tá sem uma nova postagem já faz tempo. Daí estão cogitando que o blog vai parar porque diminuiu o fluxo de postagens.

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  26. Ah gente p/ quem entende ingles um pouco, tem tb o creepy catalog
    Tem de tudooo historias reais e ficticias.. (algumas ótimas, outras bombas kkkkkk) entre outras coisas, filmes de terror, historias reais de desaparecimentos etc.. eu gosto vale a pena olhar 😘 🎃

    https://thoughtcatalog.com/category/creepy/

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  27. Eu vim através do Felipe, a narrativa dele deu uma forma interessante na história.
    Mas do mesmo, vim aqui ver essa história. Fiquei intrigado com essa história. Alguém sabe dizer quem é o autor?

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    1. Algum americaninho (a) q por sinal escreve varias creepies

      https://www.reddit.com/user/deathbyproxy

      Nao sei o nome kkkkk nao fala quase nada sobre ele (a) no perfil, mas dá pra mandar msgs 😁

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