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Salvei a vida de uma cobra branca.

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Comecei a praticar jardinagem depois que meu marido morreu. Não gosto, mas me senti obrigada, porque na minha cabeça, se as plantas dele morressem, seria como se seus últimos vestígios na terra fossem apagados para sempre e ele finalmente seria levado definitivamente de mim. Então eu retirava as ervas daninhas, aguava-as, tive que aprender que plantas eram anuais, para quando o inverno acabasse eu pudesse trazê-las de volta na primavera, assim como ele fez no começo do ano, antes de ser arrancado de mim. Postei fotos do azevinho doente em uma comunidade de jardinagem para que eu pudesse dar um jeito dele voltar à vida e talvez isso seja algum tipo de redenção. Peguei mudas de algumas das plantas e estão espalhadas em xícaras por toda a minha casa, tomando sol no peitoril da janela, enquanto eu as encorajo a criar raízes para que sua linhagem continue e se algo acontecer, posso replantá-las e será como se nunca tivessem morrido. 

Meus amigos acham que é bom que eu tenha encontrado algo produtivo para fazer com meu tempo. Vai ajudar a curar sua dor, dizem, manter esse jardim. 

Mas eu não acho que estou me curando. 

Desmoronei quando vi que uns pássaros destruíram as íris. Eu ouvi a comoção no meu jardim. Corri para a rua e encontrei dois corvos enormes dançando em cima das flores, arrancando-as do chão com suas garras, esburacando a terra com seus bicos. Corri na direção deles, gritando, e saíram voando, berrando em ira para os céus. Então fiquei lá, encarando aquela bagunça, para as plantinhas desenraizadas e desmanteladas, suas hastes quebradas com resquícios de seiva que para mim era como sangue. Eu queria chorar, mas ao invés disso, com as mãos tremulas, comecei a limpar a bagunça e arrumar o solo para poder replantar as sobreviventes. Me senti como se estivesse novamente no quarto do hospital, ouvindo o monitor, meus olhos fixos no rosto dele, até quando as enfermeiras me agarravam pelos braços e me arrastavam de lá, me tirando do lado dele; me agarrei impotentemente à terra, às raízes das íris, percebendo que não havia nada que pudesse ser feito, então voltei para dentro como se nada tivesse acontecido.

Foi aí que encontrei a cobra. Estava enrolada em um buraco sutil no meio da cama de íris, a cabeça enfiada contra o chão. Sangue escorria de uma ferida em seu corpo. Era pequena, não muito maior que a palma da minha mão, com sua cauda enrolada sobre o próprio corpo. 

Fiquei com raiva olhando para ela. Fui até minha garagem e peguei uma caixa de papelão. Cobri o papelão com fita isolante para protegê-la da chuva e cortei pequenas portinhas dos dois lados. Então levei lá para fora e coloquei em cima da cobra, enfiando as beiradas na terra e colocado uma pedra no teto para que não fosse derrubada com facilidade. Fiquei com pena da cobra. Sentia rancor dos corvos pelo que tinham feito com o jardim do meu marido. Não iria deixar que pegassem com facilidade o que tanto queriam.

Depois disso, a cobra se tornou uma figura fixa no meu jardim. Se escondia em sua caixa e me observava da entrada, seus olhos negros fixados em minhas mãos, sua linguinha se remexendo para fora da boca. Eu dava olhadas disfarçadas para ela, fascinada por sua coloração. Era branca com nenhum padrão em seu corpo. Mas não albina. Não é aquele branco pálido-roseado, mas aquele branco de nuvens gordas, ou de um tubo de tinta a óleo, pura. Não era de nenhuma espécie que eu conhecia. Suas escamas eram como pérolas, brilhavam contra a luz do sol, e seus olhos eram como duas pedras ônix. Seu corpo era sulcado com dobras que pareciam de couro, dobras grossas uma por cima da outra, e eu podia ver uma carne rosa escondida por de baixo quando ela se movia e suas escamas se mexiam.

Depois de uma semana, começou a sair da caixa quando eu estava presente. Se rastejava pelo meio das minhas plantas e eu acredito que estivesse me seguindo pelo jardim enquanto eu cuidava de tudo. As vezes eu via os corvos, empoleirados nas árvores próximas ou na cerca, mas não incomodavam a cobra quando eu estava por perto. Comprei uns grilos em uma agropecuária e comecei a levar para ela, deixando os bichinhos perto de sua casinha. Logo, começou a esperar por mim, coloquei minha mão para baixo e ela enrolou seu pescoço em meus dedos e, em seguida, correu pela minha palma. Entrelaçou-se em volta do meu pulso e eu me levantei, levando a cobra comigo, olhando para ela enquanto ela olhava para mim.

Ela falou comigo no dia em que desisti do arbusto de azevinho. Minhas tentativas de salvá-lo foram um fracasso e me senti culpada por não conseguir manter vivo um maldito arbusto, que meu marido havia plantado. Antes, havia esses horríveis arbustos vermelhos nos canteiros e ele passou um mês arrumando aqui, depois colocou uma terra e cascalhos novos e então plantou os azevinhos. Dava uma espécie de frutinhas vermelhas no inverno, ele me disse, a cada dois anos. Agora, o único que sobrara, estava todo enrugado com folhas secas em tons de marrom e amarelo, e seus galhos eram tão frágeis que quebravam ao menor toque. Tinha que tirar aquilo dali, pensei. Talvez substituí-lo. E esse pensamento foi tão esmagador que comecei a chorar. 

Senti a cobra deslizando sobre meu pé, suas escamas geladas e macias, aqueles sulcos estranhos batendo contra o osso do meu tornozelo. Estava crescendo rapidamente. Já tinha bons trinta centímetros. 

"Tia," me perguntou, "porque choras?"

Algo naquilo pareceu tão natural, tão esperado, que nem hesitei em responder. Falei para a cobra que não consegui manter o azevinho vivo e sentia como se tivesse falhado meu marido, pois ele que havia plantado-o. 

"Nada perdura," a cobra me respondeu, "Morrer é algo natural das coisas." 

E então se rastejou de volta para o jardim e me deixou sozinha para chorar a morte do arbusto. 

Todas as plantas do meu marido começaram a esmorecer depois disso. Havia poucas ervas daninhas agora e aquelas que conseguiam brotar rapidamente ficavam amarelas e derretiam de volta à terra, suas folhas putrefazendo-se em lodo. Parei de usar veneno de erva daninha, temendo que estivesse também prejudicando as flores. A cobra veio e conversou comigo muitas vezes, embora na maior parte do tempo apenas ouvia. Às vezes comentava sobre o tempo, mas dizia pouco mais. Começou a me chamar de "tia".

Para complicar meus problemas com o jardim, a grama também estava doente, com partes dela ficando marrom e secas como se chamuscadas. Encontrei alguns coelhos enquanto checava uma dessas partes. Havia cinco deles, do tamanho da minha mão, congelados dentro da toca debaixo de uma camada de grama e pelo solto. Olhei para eles por alguns minutos, encantados com seu tamanho e as manchinhas brancas que carregavam no pelo da testa, e então os deixei lá.


Eu me perguntava sobre a cobra, se era capaz de machucá-los, mas a cobra não era tão grande ainda. Já trocara sua alimentação para camundongos, comprando-os congelados e descongelando-os antes de trazê-los para fora. A cobra era educada, agradecendo-me por suas refeições, dizendo que ainda não ousava deixar a segurança do jardim.

"Por causa dos corvos?" Perguntei. 

"De fato." Seu tom era irônico. "Ainda não sou grande o suficiente para fazer deles minha refeição." 

Essa declaração pareceu uma promessa. Olhei por cima de meu ombro, para onde um par de corvos nos observavam de uma árvore, e parecia como se uma sobra se pusera na frente do sol. 

Poucos dias depois de encontrar os coelhos, caminhei novamente para onde a toca ficava, querendo ver se ainda estavam lá. Encontrei-os espalhados pela entrada do buraco, com as espinhas em pé, as pernas estendidas, os olhos bem abertos e as bocas escancaradas, salpicadas de espuma seca. Não havia marcas neles, mas o chão ao redor deles estava rasgado, como se tivessem arranhado a terra na tentativa de se arrastar para frente e para longe da toca. Meu coração martelou no meu peito. Os corpos estavam rígidos e moscas mortas jaziam em suas peles.


Peguei uma pá na garagem e fui cavar um buraco perto das árvores. A cobra veio se juntar a mim. Observou a pilha de cadáveres por um momento e então se enroscou entre meus pés. Me perguntou por que eu estava tão triste. Coelhos morrem. É para isso que eles nascem.

"Não gosto de vê-los assim," sussurrei. 

Pensei na última visão que tive do meu marido, o corpo torcido para cima, a boca aberta para o teto. Certamente, a casa funerária o fez parecer em paz, mas isso não era ele. Era um corpo, nada mais, e não pode dissipar como ele parecia nos últimos segundos de sua vida. Agora, olhando para os coelhos esparramados diante de mim, eu vi as semelhanças em seus membros torcidos e bocas abertas, silenciosamente gritando com aquela injustiça de ter terminado com sua vida tão cedo.

"Então vá para dentro", a cobra sussurrou, "e eu vou levá-los embora para você."


Eu fui, como se estivesse em transe. E quando voltei para o quintal, descobri que os coelhos tinham sumido e que a toca em que estavam agora era um buraco fundo, estendendo-se na terra negra. Preenchi o buraco.

Só mais de uma semana depois que vi a cobra novamente. Naquela época, meu jardim se recuperou, as plantas cresceram verdes novamente e, infelizmente, as ervas daninhas voltaram. Eu me perguntava onde estava minha amiga cobra e temia que talvez os corvos tivessem conseguido pegá-la, afinal, também não os tinha visto. Então, uma tarde, enquanto eu estava regando as íris, ela saiu de sua casa. Estava muito maior do que antes. Talvez um metro e meio de comprimento e 3 centímetros de diâmetro. Desliguei a mangueira e perguntei onde estava.

"Mergulhei fundo na terra, tia", disse-me. "Procurei o reino dos mortos."

Senti um frio repentino, apesar da luz do sol. Perguntei por que faria tal coisa e balançava a cabeça, a língua remexendo.

"Para encontrar seu marido."


Quase não ouvi o que disse em seguida, minha mente congelada naquelas palavras, na sua impossibilidade, mas a selvagem, audaz esperança que se agitava em meu peito, esperança que freneticamente tentei reter porque não acho que eu sobreviveria se deixasse criar raízes e florescer em meu coração.

"Mas sinto muito, tia," continuou, " Não consegui viajar para tão longe. Ainda estou muito fraca. Deixe-me ficar mais um pouco em seu jardim e então tentarei novamente." 

A primavera passou e se transformou em verão. A horta do meu vizinho começou a produzir sua colheita, embora pequena, pois seu jardim estava sofrendo com a chuva e o calor e suas plantas mal haviam crescido neste ano. Mas havia o suficiente para colher e eu os vi lá um dia, juntando a abóbora e levando-a para a grelha para cozinhá-la. Pude sentir o cheiro do carvão e o cheiro de carne e dos legumes terrosos recém cortados. E estavam acompanhados. Outro casal, e eu podia ouvi-los de dentro da minha casa rindo e conversando no convés de trás. Doeu de um jeito estranho. Minha casa estava silenciosa faziam muitos meses agora.

Não tenho certeza quanto tempo passou antes que eu me desse conta do silêncio vindo do quintal. Pareceu tão de repente e achei estranho, pois ainda estava claro e seus visitantes não podiam ter ido embora tão cedo. Fui até a janela de trás e olhei.


Os quatro estavam deitados no chão. Nenhum deles se movia. Me senti tonta, tropecei para longe da janela, pensei na casa funerária e estando lá sozinha com o corpo do meu marido e odiando como ele ainda estava, odiando olhar para ele e não ver nada, como se ele fosse esculpido em mármore.

Me forcei a me mover. Sair pela porta dos fundos, correr até o portão da cerca e entrar no quintal deles. Para ligar para a emergência. Ajoelhei-me ao mais próximo, a mulher convidada, alguém que eu não conhecia. Seus olhos estavam abertos, cheios de horror e manchados de um líquido preto, e sua boca estava cheia de espuma ensanguentada. O sangue escorria do nariz e das orelhas, seus membros estavam tortos, as costas e o pescoço dobrados como se fosse uma boneca jogada descuidadamente no chão. Eu ouvi os gritos dos corvos nas árvores próximas, enquanto eles pulavam de galho em galho e gritavam para mim.

E então um sussurro da cerca. "Tia", a cobra chamada, "Vem embora. Venha embora. Não olhe."

Fiz isso, fiquei ali de costas para os corpos dos meus vizinhos e chorei enquanto o operador no telefone dizia que tudo ficaria bem e que a ambulância estaria lá em breve. Suas palavras eram vazias e acho que ele sabia disso também.


"Eu sinto muito, tia", a cobra murmurou. "Eu sinto Muito. Eu vou tentar encontrá-los também no reino dos mortos."

Eles levaram os corpos para longe, colocando-os em sacos pretos para que os espectadores na calçada não pudessem ver a espuma ensanguentada e seus olhos enegrecidos. A polícia veio e pegou a comida e depois me questionaram. Não, eu não vi nada de estranho. Não, eu não sabia de ninguém que não gostasse deles. Eu não saia muito, honestamente, não depois que meu marido morreu. Respondi tudo o que perguntaram o melhor que podia e então foram embora.

Eu não vi a cobra depois disso. Encontrei o buraco que ela deixou para trás, cavando a terra enquanto procurava os mortos, e o enchi de volta.


A família do vizinho veio e começou a arrumar sua casa. Ficaram lá por alguns dias e depois a casa ficou em silêncio. Presumi que tentariam vender a casa em algum momento no futuro, quando estivessem prontos. Eu ainda não tinha me livrado dos pertences do meu marido, afinal de contas, e ele já estava morto há meses. Então, mais pessoas vieram e eu não as reconheci, mas elas ficaram no quintal do vizinho, pegaram amostras do solo e cortaram as plantas da horta.

E o meu jardim estava sobrevivendo, mas mal e mal. Tive que arrancar a maior parte das íris e senti uma espécie de desespero aterrorizado toda vez que saía para tentar salvar as plantas que restavam. As árvores perto da cerca dos fundos estavam começando a perder suas folhas, como se o outono estivesse chegando mais cedo, e eu não entendia porque isso estava acontecendo. Não entendia como meu jardim estava morrendo assim como meu marido.


Eu não sabia que a cobra tinha retornado. Não havia me chamado e não fui eu que encontrei. Alguém veio até a minha porta, uma das pessoas que estava pegando amostras do quintal do vizinho. Ele queria fazer o mesmo no meu. Uma amostra do solo, ele disse, e algumas mudas das flores e dos arbustos. Nada intrusivo. Perguntei o que ele estava procurando. Apenas checando contaminantes, disse, e ele não precisava explicar mais nada. Eles temiam que meus vizinhos tivessem morrido porque algo havia entrado em seus vegetais. Eu o levei para o lado da casa e abri o portão. Eu fiquei ao lado da cerca enquanto ele cutucava os trechos secos de grama, apunhalando uma ferramenta de coleta e depois jogando a terra em um saco. Então ele pisou nas lajes de pedra que marcavam o limite do meu jardim e colocou um pé na terra, alcançando as íris restantes.

Houve um lampejo de luz, como se a luz do sol tivesse sido refletida em um espelho, e a cobra branca emergiu do leito ressequido do jardim. Sua cabeça era do tamanho de uma melancia e vi presas do tamanho de minhas mãos quando abriu sua boca. Ergueu-se, o corpo como um tronco de árvore, e o homem abriu a boca para gritar, mas antes mesmo disso a boca da serpente se fechou sobre a cabeça, a mandíbula distendendo-se para engolfá-lo. Ela bateu no chão, empurrando o corpo do homem para baixo, e então a terra ferveu sob suas espirais e a terra subiu e como quando uma baleia irrompe e retorna à água. A cobra caiu de volta no chão e arrastou o homem com ela. O corpo dele ficou mole, os pés foram as últimas coisas que vi antes de entrarem na terra sem deixar nada para trás. 

Eu cobri minha boca com as minhas mãos, sufocando um grito. Me virei, voltei para a casa e só então me permiti desmoronar. Gritei, soluçando, arranhei meu rosto com minhas unhas. O que eu deveria fazer? Deveria chamar a polícia? Dizer que havia uma cobra gigante no meu quintal?


Fiquei dentro da minha casa e não fiz nada. Andei de janela em janela, me preocupando, espiando o quintal. Finalmente, depois de muitas horas, um policial apareceu na minha porta da frente. Alguém tinha vindo aqui mais cedo, disse , para pegar amostras para a investigação. Eu tinha o visto? Seu carro ainda estava estacionado na frente da minha casa.

Falei que ele esteve no meu quintal por último, mas não o vi saindo. Achava que ele havia ido para outros jardins da vizinhança e voltaria quando terminasse. O policial perguntou se poderia procurar no quintal e eu disse que podia. Então ele foi e eu assisti da janela, temendo o que eu veria.

Ele encontrou uma área de terra remexida, onde a submersão da cobra havia rasgou todas as plantas e as enterrou em solo recém-revolvido. Ele cutucou a terra e retirou de lá o celular do homem. Então ele ligou para mais pessoas e me disseram para ficar dentro de casa, resumidamente, e supus que isso significava que suspeitavam que eu tinha feito alguma coisa.

Desenterraram essa parte do quintal e eu chorei quando fizeram isso, porque eles derrubaram os limites feitos de pedra e não haveria como salvar as plantas que tinham arrancado, e todos os seus esforços foram desperdiçados porque a cobra já não estava lá, estava no fundo do profundo. No fim da terra, e levara sua refeição com ela.


Tinham tantas perguntas para mim e eu lhes disse a mesma coisa, de novo e de novo, que ele tinha ido ao quintal e isso era tudo que eu sabia. Que eu não falava muito com os vizinhos depois que meu marido morreu. E finalmente, perplexos, pararam de me fazer perguntas.

Alguns dias depois, recebemos uma carta pelo correio da cidade. Dizia para pararmos de praticar jardinagem. Não corte a grama, dizia, não arranque ervas daninhas, não pode arbustos e, acima de tudo: não coma nada produzido de seus jardins. Fique dentro de casa. Estavam trabalhando em uma maneira de neutralizar alguns contaminantes no solo em nossa área. Estavam trabalhando para descobrir de onde estavam vindo.


Eu sabia. Naquela noite, depois que o sol se pôs, saí para o jardim. Sentei-me perto do local onde as íris antes cresciam e onde eu coloquei aquela pequena caixa para a cobra se esconder. Perguntei por que ela havia matado aquele homem.

"Nada perdura," respondeu e sua resposta veio da terra abaixo de mim. "Já te falei isso. Tudo precisa morrer."

"Não parece justo."

"Não é. Mas é como é." 

Houve um longo silêncio entre nós. Então, a cobra perguntou se era do meu desejo que ela fosse embora.

"Não quero que você vá," eu disse, "mas não acho que seja seguro para nós caso você fique." 

"Eu jamais te machucaria, tia." 

Olhei para o meu jardim, desenraizado e cheia de escombros, todas as flores amareladas e murchas e nos arbustos secos e estéreis. Isso tudo já me machucou, pensei, mas não falei em voz alta.

A cobra disse que iria embora. Que demoraria muito tempo até retornar. Não disse nada do meu marido ou do reino dos mortos.

Então a terra estremeceu, subindo uma crista ao longo da linha de suas costas, e depois diminuiu e eu soube que a cobra tinha ido embora.

Minhas plantas continuam a morrer. Alguns dos meus vizinhos foram embora e deixaram para trás casas que nunca serão vendidas, depois que uma garotinha foi levada de ambulância quando caiu no chão convulsionando, sua boca se enchendo de espuma ensanguentada. A cobra se foi, mas seu veneno permanece.


Não duvido em sua palavra. Ela vai voltar. Talvez daqui a alguns anos, talvez em algumas décadas, talvez em alguns séculos. Mas vai voltar. E as plantas vão murchar e os oceanos vão morrer e nós vamos respirar seu veneno em nossos pulmões e ele vai se misturar em nosso sangue e vai nos devorar e deixar nossos cadáveres putrefatos apodrecendo no solo moribundo e nem mesmo os insetos vão nos tocar.

Ainda estamos recebendo cartas para ficar  dentro de casa. Nos dizendo que estão trabalhando para achar uma solução. Dizendo que, se tivermos outro lugar para ir, devemos considerar se mudar dali. Minha vizinhança parece deserta, no auge do verão, com ruas silenciosas e casas escuras, todos correm para a caixa de correio e voltam, e ninguém pára para conversar um com o outro, com muito medo de passar muito tempo fora com o solo envenenado.

Eu saio à noite para cuidar do jardim. Um punhado de plantas permanece. Não sei por quanto tempo viverão, mas sinto que devo fazer isso, que se eu as deixar morrer, meu marido terá desaparecido completamente. Sei que estão me envenenando, mas já é tarde demais e estou apenas apressando o inevitável. Há apenas um punhado de dias para mim. Já sinto o veneno em meus ossos.


Eu estou feliz que não estarei viva para ver o dia em que a cobra emergirá para fazer com que seu veneno chova sobre a terra.

14 comentários :

  1. Lançando do nada uma das boas, parabéns Divina

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  2. Fiquei tristíssima com essa creepy

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  3. Gostei, mas não entendi o significado da história :(

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  4. Nossa, muito boa a historia, parabens divina. No começo, pensei que a cobra representase o luto/depressão, depois pensei que fossem os corvos essa representação e a cobra sua força/resiliencia, ja no final, creio que a cobra represente a morte, o fim, ou talvez ela seja a depressão mesmo ou o seu veneno. Foi o que entendi...

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  5. Ja vi umas teorias sobre esse conto estar relacionado a mitologia nórdica... ate q é bem interessante

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    1. Cara, você é péssimo. Minha nota pra você é 0.

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    2. Na vdd ela me lembrou muito a cobra que aparece no último god of war, no jogo fala que é uma cobra que dá a volta no mundo

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  6. será que a cobra era o cavalo branco da decadência? ela apodrecia a terra e tinha escamas brancas brilhantes... ou eu to viajando demais? rs

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  7. Me lembra a lenda da serpente de São luís do Maranhão

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  8. Puts por algum motivo me senti apegada a cobra, queria que ela não tivesse ido embora....

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