15/05/2015

Júlio

Não sei se deveria perder meu tempo aqui contando minha história, sendo que ela jamais voltará, mas meu psicólogo me disse que compartilhar a dor com outras pessoas pode ajudar a superá-la. Mal sabe ele que nunca mais serei a mesma...

Em um dia chuvoso, decidi levar minha filha, Belle, para um passeio. Você pode estar achando estranho levar uma criança para passear em um dia como aquele, com altas pancadas de chuva e risco de alagamentos no centro de São Paulo. Até eu me sinto estranha, mas vou explicar: acontece que Belle, por algum motivo solitário, ama dias chuvosos e nublados. Em dias quentes de verão, minha querida filha me parece deprimida e sem ânimo nem para as melhores atividades que eu, como mãe coruja, poderia propor.

Desde bebê, eu via algo diferente nela. Ela recusava o meu leite materno e só tomava leite de cabra. Antes mesmo do seu primeiro ano de vida, Belle já andava relativamente bem e formava frases longas que nem crianças de três anos falavam. Com dois anos aprendeu sozinha a ler e a escrever. No começo me orgulhava e me sentia realizada por ter uma filha assim, porém, quando Isabelle tinha quatro anos de idade, comecei a me preocupar com as atitudes dela.

Posso contar a vocês de certa manhã em que acordei com barulhos vindos da cozinha. Como só morávamos eu e minha filha no apartamento, suspeitei de ser algum rato, ou pior, um ladrão. Peguei a primeira coisa que vi – que era uma vassoura encostada no vão entre meu quarto e o corredor - e caminhei sem fazer barulho até a cozinha. Sem perceber que eu estava ali, Isabelle estava com uma faca de serra na mão, cortando pequenas fatias de presunto e queijo. Na mesa havia café aparentemente recém passado, fatias de pão francês e um bolo de cenoura – o meu preferido. Eu realmente me assustei e só Deus sabe onde minha pressão arterial foi parar vendo minha filhinha cozinhando como se fosse uma adulta e com sérios riscos de se queimar ou se cortar. Depois de me acalmar e me lembrar de que Belle não era uma típica criança, consegui me abaixar para ficar na altura dela e perguntei como ela tinha feito tudo aquilo. Isabelle sorriu e disse em uma voz extremamente infantil:

“Mamãe, o Júlio e eu fizemos tudo isso para você, é uma surpresa nossa para mostrar o nosso amor”.

Me sentei à mesa com Belle e perguntei quem era Júlio, afinal Belle não conhecia mais ninguém a não ser nossa família. Nesse momento, tudo de ruim passou na minha cabeça e meu mundo estava prestes a desabar sob meus pés. Belle se recusava a contar mais sobre essa pessoa misteriosa. Em uma epifania, me lembrei da coisa que Belle mais gostava depois de dias chuvosos: sorvete de flocos. Prometi a ela que logo mais a levaria na sorveteria preferida dela se me contasse mais sobre esse tal de Júlio. Então, ela me olhou nos olhos e disse:

“Mamãe, eu conheço o Júlio desde o dia que eu nasci, como a senhora não sabe quem é? Ele sempre esteve aqui”.

Um vento correu pela casa inteira, chegando ao meu rosto em frações de segundos e me dando arrepios por todo o corpo. Milhões de pensamentos passaram pela minha cabeça naquele momento que não tive tempo de organizar, até que me lembrei das muitas vezes em que sentia uma presença diferente no quarto de Belle, mas nunca dei atenção a isso.

Naquele mesmo dia, procurei um psicólogo. Ele me pediu para ver a Belle e consulta-la semanalmente. E assim foi por um ano. Desde então, Belle não voltara a falar sobre o misterioso Júlio e eu também não tive coragem de perguntar. Suas atitudes voltaram a ser de uma garotinha, mas alguma coisa me dizia que não seria assim por muito tempo.

Na fase entre os cinco anos de idade, nós, mães, percebemos que nossos filhos estão crescendo, pois chega a hora de eles frequentarem a escola. Essa foi a fase mais difícil tanto para mim, quanto para Isabelle. Ela se recusava incansavelmente a se vestir, chorava o caminho todo e quando chegava lá, na maioria das vezes eu tinha que trazê-la de volta por perceber a sua alta temperatura corporal.

Depois dos dias se arrastarem lentamente desse jeito, tomei atitude para ir ao psicólogo e contar o que eu estava passando com o recuso de Belle em ir à escola. Ele me acalmou dizendo que era normal, pois ela ainda não estava preparada para se afastar de quem ela mais amava, no caso, eu. Aproveitei o ensejo e perguntei ao doutor se Belle, em alguma de suas sessões, havia mencionado o nome Júlio, ou se tinha falado alguma coisa diferente. Ele me surpreendeu dizendo que ela nunca sequer pareceu com uma garota diferente das demais. Será que eu estava errada todos esses anos achando que Belle era uma criança diferente? Será que eu coloquei tanto isso na minha cabeça que acabei prejudicando minha própria filha? Mas neste mesmo dia, uma coisa muito estranha aconteceu.

Depois de passar no psicólogo da Belle, fui ao supermercado comprar um pote de sorvete de flocos para alegrar minha filha quando ela chegasse da casa da minha mãe. Estava abalada psicologicamente, então, desmarquei a minha hora no salão. Cheguei em casa no final da tarde, a casa estava silenciosa e resolvi relaxar lendo um bom livro. Cinco ou dez minutos depois, escutei um barulho que vinha da sala de estar. Eram vozes e fiquei tentando lembrar se tinha deixado a televisão ligada antes de sair. Levantei e fui em direção à sala e identifiquei uma silhueta de um garoto sentado em frente a TV. Não era um garoto normal. Ele usava uma camiseta vermelha que, logo percebi, estava ensanguentada. Os seus olhos eram totalmente pretos, seu nariz parecia quebrado e sua boca cortada formava um sorriso torto e demoníaco. Ele estava inquieto, porém, estava parado bem a minha frente, sem se mexer nem um centímetro. Eu quis gritar, mas eu não conseguia parar de olhar os olhos enormes daquele garoto ou o que quer que ele seja. Na minha cabeça passava perguntas que precisavam ser respondidas, então, quando finalmente abri minha boca para perguntar quem diabos era ele, ele já não estava mais ali. Ele desapareceu como num passe de mágicas, deixando apenas um rastro de sangue e uma brisa gélida.

Peguei minha chave do carro e sai em disparada para a garagem. Queria chegar logo na casa da minha mãe e abraçar a minha filha. Dirigi por longos vinte minutos pela estrada molhada de uma chuva serena que teve mais cedo. Chegando em casa, bati a porta atrás de mim e me deparei com o silêncio incômodo, muito diferente do que eu estava acostumada na casa da mamãe. Estava frio e todas as janelas estavam abertas. Passei da sala para a cozinha, subi as escadas sem me livrar do pensamento de que algo estava errado naquela casa e, realmente, meus piores pensamentos se materializaram bem a minha frente quando o mesmo garoto que eu havia visto a meia hora atrás na minha casa apareceu. Meu corpo travou, minhas mãos gelaram e o garoto me olhava não mais com inquietação, mas ele parecia tranquilo e o branco dos seus olhos voltou, apesar de nada tirar aquele sorriso sombrio de seus lábios. Dessa vez, ele estava se mexendo. Não de uma forma normal. Ele girava primeiro a cabeça, depois o corpo e por fim, os pés. Ele gritava o nome de Belle, a chamando, talvez, e meu rosto corou de raiva por aquele monstro querer a minha filhinha. Gritei as primeiras palavras que vieram na minha cabeça o fazendo parar de chamar por Belle e de rodopiar. Quando eu finalmente achei que ele iria responder as minhas perguntas, aquela coisa sumiu novamente. Voltei a mim depois de um tempo que não sei distinguir se foi um minuto ou uma hora e entrei no quarto de mamãe. Lá estava minha mãe, deitada, dormindo como um anjinho. Cheguei ao seu lado, encostei a mão nela com o intuito de acordá-la e contar o que havia acontecendo e perguntar se eu tinha ficado louca. Seu corpo estava com um gélido tom não humano. Meu coração voltou a disparar imediatamente e um medo me cercou. Chamei mamãe por mais algum tempo até reparar que eu estava pisando em uma enorme possa de sangue. Um grito longo e tremido saiu da minha garganta. Vi uma faca ensanguentada ao lado do corpo sem vida de mamãe, porém não havia nenhum corte, aparentemente. Naquela altura do campeonato, quis correr para longe daquele pesadelo mas fui obrigada a me conter pelo bem de Belle. Sai do quarto de mamãe tentando não pensar no que havia acabado de presenciar e mantive o foco em Belle. O quarto de hóspedes ficava no fim do corredor e imaginei que Belle poderia estar lá. O corredor tinha só alguns metros, mas para mim, pareciam quilômetros... Enfim minha mão estava na maçaneta onde Belle deveria estar. Deveria pois ela não estava em sua cama. Era um pesadelo. Sim, um simples pesadelo que logo vai acabar.

Cadê minha filha?

Eu gritava por ela e várias lágrimas escorreram no meu rosto. Quando me virei para sair daquele quarto ouvi a voz de Belle me chamando vindo de dentro do guarda-roupa. Eu o abri com minhas mãos trêmulas e, digo para vocês, nunca fiquei tão aliviada na minha vida abraçando a Isabelle. Dei uma rápida olhada para a Belle e notei seu vestido que estava manchado de sangue e seus olhos que antes eram azul bebê, agora estavam negros como uma noite sem luar. Ignorando esses detalhes, peguei a mãozinha dela e a conduzi, rapidamente, para fora. Estávamos perto de sair da última porta da casa Belle parou inesperadamente. Apesar de tudo agitado dentro de mim, me abaixei para olhar em seus olhos e falei:

“Filha, querida, vamos embora, vamos para casa, meu amor. A vovó não está bem e...”.

Ela me interrompeu:

“Mamãe, a vovó está morta, o Júlio disse que ela era má e eu acredito nele. Ele não quer que eu vá embora, mamãe”.

“O quê? O que você disse Belle?”

Lágrimas escorriam dos meus olhos desesperados.

“Mãe, não fique assim, está tudo bem, está chovendo, é um dia bom”.

Realmente estava chovendo e naquela situação eu nem tinha reparado. Depois de tanto tempo com essa dúvida, achei que era uma boa oportunidade em perguntar à Belle o porquê de ela gostar tanto da chuva.

“É em dias de chuva que o Júlio aparece para brincar, mãe”.

Sim, era por isso! Tinha chovido aquele dia...

O garoto apareceu pela terceira vez interrompendo meus pensamentos e agora parecia com raiva e ansioso. Belle sorriu e perguntou a mim se poderia brincar com ele hoje. Isso já estava me cansando a tal ponto que poderia fazer qualquer coisa para essa coisa sair de nossas vidas. Eu disse a Belle que nunca mais veria o Júlio novamente e, em contrapartida, ele gritou de volta dizendo que Isabelle era dele e ninguém poderia ficar no caminho, nem mesmo eu – o jeito como ele disse aquelas palavras doeu profundamente na minha alma e o meu instinto de mãe me dominou, me fazendo ignorar o monstro, pegar Belle no colo e sair correndo para o meu carro que estava estacionado do outro lado da rua ao lado de duas enormes árvores que eu costumava subir quando era da idade de Belle. A coloquei na cadeirinha no banco de trás, liguei o motor e acelerei o máximo que pude. Naquele momento, não sabia exatamente para onde eu iria mas queria sair dali, talvez ir para o interior tirar umas férias, ou quem sabe, até nos mudar de país. Mas esse pensamento saiu rapidamente da minha cabeça quando eu olhei para o banco de trás e lá estava aquele monstro de novo sentado ao lado e sorrindo para a minha filha.

Minha filha!

Na adrenalina, acelerei ao invés de frear na curva perigosa, fazendo o meu carro bater no poste e capotar duas vezes até o carro parar do outro lado da estrada. Três dias depois acordei em um hospital com a visão um tanto turva, escutando um barulho horrível e com a consciência falha, reuni forças para perguntar onde estava Belle e se ela estava bem. A enfermeira que estava comigo no quarto me olhou com estranheza e me disse que não sabia quem era Belle e que não havia mais ninguém no carro quando me encontraram.

Nunca mais vi minha filha Isabelle. Reza a lenda que Júlio está por ai em dias chuvosos procurando garotinhas para “brincar”.

Autora: Táyna Stampini

Brincadeira de Criança

Acho que chega um momento na vida da maioria das pessoas quando elas ficam sobrecarregadas com um sentimento de nostalgia e procuram recuperar sua juventude, de alguma forma ou de outra. Esse tempo chegou para mim quando eu estava no colégio. Eu acho que preciso elaborar melhor isso, porque pode parecer uma idade muito jovem para tais sentimentos. Você vê, eu era uma criança doente. Passei muito tempo confinado a uma cama de hospital, observando as outras crianças jogarem os seus jogos. Sendo bem honesto, eu odiava o fato que eu nunca tive essa experiência, então eu acho que é por isso que eu tentei capturar essa efêmera saudade uma noite com meus amigos.

Eu quero dizer que éramos todos alunos do segundo ou primeiro ano na escola naquele momento. Eu tinha um grupo bastante unido de amigos. Fizemos quase tudo juntos. Nós saíamos, estudávamos, e até mesmo experimentamos um pouco (principalmente com certas substâncias e sexualmente) uns com os outros. Eu acho que foi aquela união e vínculo que me deu a coragem de propor mesmo a minha ideia infantil.

Nós estávamos andando nas profundezas do meu antigo bairro. Esse era o lugar ideal para os adolescentes como nós, porque uma empresa estava construindo uma série de casas para tentar vender a novas famílias a preços inflacionados. Eles estavam no início de sua construção então as casas eram praticamente um esqueleto e ainda não tinham as acomodações essenciais para qualquer casa típica. Este era o esconderijo perfeito para beber, fumar, e normalmente, não fazer nada de útil. A empresa de construção colocou grandes travas nas portas, mas a maioria ainda não tinham sido presas adequadamente, e se esgueirar era uma tarefa simples.

Como eu disse, estávamos andando em um desses “futuros bairros” uma noite. Estávamos dividindo um baseado entre todos nós e tentando soar filosóficos. Junto comigo foram três dos meus amigos mais próximos. Foi o meu melhor amigo, Brian, Sarah e Kacie, a menina que eu era apaixonado. Nós tentávamos falar com inteligência, mas olhando para trás as nossas ideias não eram nada sofisticadas. Sarah estava reclamando que não havia nada a fazer la fora e foi então que eu decidi assumir o risco e sugerir que brincássemos de esconde-esconde.

Eles rejeitaram a ideia como sendo infantil, mas a adição de algumas regras simples temperou as coisas o suficiente. Eu defini as regras da seguinte forma: todos buscam e uma pessoa se esconde. A primeira pessoa a encontrar o Escondido, pode fazer três perguntas. A última pessoa a encontrar o Escondido, tem de responder a três perguntas pessoais. Nós iríamos todos tirar a sorte com fósforos e separar para que os outros pudessem se esconder em sigilo. A pessoa com o fósforo já acesso e extinto seria o Escondido. Eu, é claro estava sendo hipócrita e fiz com que Kacie pegasse o fósforo apagado. Eu queria a oportunidade de ter algum tempo a sós com ela e conhecê-la melhor. Acho que fiz isso dessa forma para esconder minha paixão infantil por ela, mas eu estava com medo de ser deixado de fora.

Eles estavam hesitantes no início, mas sua relutância derreteu depois que terminamos o baseado. Eu coloquei os fósforos na minha mão com o já extinto apontando para Kacie. Tiramos a sorte e nos separamos com a intenção de iniciar o jogo depois de cinco minutos, dando tempo suficiente pro Escondido se esconder em uma das três casas parcialmente construídas no bloco. Já era tarde, mas não estávamos com pressa para chegar em casa. Nós tínhamos um sistema onde ligávamos pra nossos pais e falávamos que íamos dormir com um amigo diferente e, em seguida, nos reuníamos para sair e fazíamos nossas travessuras adolescentes.

Todos discretamente olhamos para os nossos palitos. Eu era um dos “caçadores” e eu achei que Kacie fosse a que tinha que se esconder. Nós todos nos separamos para que não soubéssemos onde o Escondido iria, mas eu tinha uma boa ideia. Quando chegamos ao bairro em construção, Kacie tinha gostado da última casa. Eu mencionei que eu sabia que estava destrancada e que provavelmente poderíamos explorá-la mais tarde. Nós nunca encontramos tempo para fazer isso, então eu sabia que ela iria provavelmente sentir vontade de verificar a casa, enquanto procurava um esconderijo.

Esperei cinco minutos antes de ir para a última casa do bairro. A tranca não tinha sido encaixada, o que tornou a abertura da porta, simples. Eu tive sorte que a lua estava tão brilhante naquela noite que iluminou o meu caminho caso contrário eu teria tropeçado andando até a casa. A empresa de construção civil ainda não tinha colocado postes e isso deu ao pequeno bairro, um ar estranho. Abri a porta e olhei para o abismo diante de mim. Eu não vou mentir, o escuro me deixou nervoso, mas o meu desejo de me aproximar de Kacie me levou pra frente.

Eu andei pela cozinha, mas não encontrei ninguém. Meus tênis batiam no chão, que ainda estava sem o carpete ainda. Eu procurei no primeiro andar, mas não tive sorte. Eu estava começando a me perguntar se eu poderia encontrá-la na escuridão. As janelas tinham sido feitas, mas estavam cobertas para evitar que os animais entrassem e criassem ninho. Subi com minha mão apoiando ao longo da parede para me equilibrar, já que não tinha corrimão ainda. Eu me lembro de pensar que esta casa era uma armadilha mortal com a sua fiação exposta, falta de corrimões e folhas de madeira compensada por aí.

O quarto principal estava vazio, mas quando eu estava prestes a desistir da esperança de encontrá-la, ouvi o chão ranger como se alguém tivesse se movido na sala ao lado do quarto. Segui o som e enquanto eu forçava meus olhos na escuridão, eu pude ver alguém sentado no meio da sala sem mobília. Meu coração começou a bater mais rápido. Eu tinha encontrado ela!

Sentei-me a poucos metros de distância e proclamei em voz alta: "Eu te encontrei! Então eu posso fazer três perguntas. "

Ela se assustou com o som da minha voz, mas pareceu se acalmar enquanto eu continuei falando. Eu estava tão ansioso e olhando para trás, e também percebi o quão estúpido eu estava sendo. Você sabe o que as pessoas dizem, os hormônios são as drogas mais fortes que mechem com a nossa mente. Só havia uma maneira de ter certeza de que era Kacie e não Sarah.

Eu perguntei: "Você já fez sexo?"

Houve uma pausa que fez eu estremecer um pouco de vergonha. Fiz essa pergunta porque eu soube, falando com Brian que Sarah não era virgem e eu sabia que Kacie era, de uma conversa bêbada tarde da noite com Sarah em que ela revelou muito mais do que deveria sobre seus amigos.

Ela respondeu: "Não." suavemente

Agora eu tinha certeza de que eu estava falando com Kacie e não Sarah. A voz entregou muito.

Para ser completamente honesto, minha lábia tinha-me trazido até aqui, mas não conseguiu me fazer continuar. Sinceramente, eu estou feliz que eu acovardei na minha próxima pergunta. Minha próxima pergunta seria: "Você quer fazer sexo?" (Mais uma vez, os hormônios.) Eu não conseguia fazer essa pergunta grosseira. De fato, naquele momento, minha mente completamente apagou e tudo que eu conseguia pensar era no cabelo brilhante de Kacie ou a forma como o seu sorriso enviava sempre uma faísca através de mim e fazia meu coração bater tão rápido que eu estava preocupado que ele iria estourar no meu peito.

Ficamos ali sentados em silêncio por alguns momentos enquanto eu tentava pensar em algo para dizer para ela. Eu me chutei mentalmente, pensando que eu ia aparecer estranho para ela. Eu só iria pegar uma oportunidade para impressioná-la e se eu estragasse tudo, qualquer chance que tivesse com ela estaria arruinada.

Eu finalmente consegui resmungar, "Me desculpe, eu não sei o que fa-"

Fui interrompido por ela lentamente deslizando pelo chão até que estávamos a apenas alguns centímetros de distância. Se eu pensei que meu coração batia rápido quando a vi pela primeira vez, agora era uma britadeira no meu peito. Ela queria se aproximar de mim. Ela estava atraída por mim? Será que ela sentia o mesmo que eu sentia?

Sua ação praticamente roubou as palavras da minha boca. Eu não podia dizer nada. Eu não conseguia pensar direito. Tomei consciência de um som que era tranquilo no início, mas tinha crescido quanto ela chegou mais perto de mim. Era o som de sua respiração. Sua respiração saia rápido. Como se ela tivesse acabado de correr ao redor do bairro. Quase soava... sexual. Então, novamente, pra minha mente naquela época, quase todos os estímulos poderia ser percebidos como sendo de natureza sexual. (Hormônios Malditos!) Eu não tinha certeza do que estava acontecendo, mas eu não acho que eu realmente me importava.

Eu decidi tomar uma atitude. Deslizei minha mão a partir das minhas pernas e as coloquei nas dela. Entrelacei minhas mãos com as dela e a segurei. Seu toque era quente, um pouco suado, mas tenho certeza que minhas mãos não estavam diferentes. Sua respiração aumentou logo minha mão tocou a dela. Meu coração quase explodiu fora do meu peito e disparou através do céu naquele momento. Por um longo tempo, eu considerei isso como um dos gestos mais românticos da minha vida, até o momento que propus e me casei.

Ficamos de mãos dadas no escuro ouvindo os sons da nossa respiração misturados.

Eu decidi ir com tudo. Eu lentamente me inclinei para a escuridão onde eu podia ver sua forma. Eu estava indo beijá-la, a garota que eu tinha ansiado por, há quase dois anos! Seu hálito cheirava insanamente doce, como o mel muito açucarado. Eu me perguntava mentalmente como o meu cheirava. Eu silenciosamente rezei para que ele não fosse nojento. Ela entendeu meu gesto “ tão sutil” e se inclinou para me beijar. Nossos lábios estavam separados por centímetros e eu estava a segundos de distância do nirvana.... Quando Sarah tropeçou para dentro do quarto.

Eu mentalmente gritei uma série de maldições e injúrias que teriam feito um marinheiro corar.

Ela disse: "O que vocês estão fazendo? Encontrei Brian 15 minutos atrás. "

Um alarme começou a disparar na minha cabeça, mas eu não conseguia descobrir por que na época.

Sarah mudou sua posição e, embora eu não pudesse vê-la na escuridão, eu tinha certeza que ela tinha acabado de erguer a sobrancelha.

"O que vocês dois estavam fazendo enquanto estávamos jogando seu jogo infantil? Eu entendo, mas não nos façam de idiotas e me mandem andar no escuro à procura de Brian enquanto vocês dois se acariciam aí. "

Eu perguntei estupefato, "Brian era o Escondido?"

Sarah assentiu e respondeu: "Ele estava sentado atrás de uma casa. Ele é horrível em se esconder. Nós nos cansamos e decidimos procurar por vocês dois ".

Algo não estava certo. Eu tinha encontrado Kacie sentada nesta sala. Se ela não era o Escondido, por que ela estava sentada aqui em cima? Comecei a sentir um suor frio formando na minha pele. Algo estava definitivamente errado aqui.

Brian foi o golpe final. Ele entrou na escuridão e eu reconheci a voz. Ele tinha um jeito de falar que fazia tudo sair em um tom sonoro e retumbante.

Sua voz ecoou: "Você encontrou ele, Sarah? Achei Kacie- "

Sua voz morreu quando eu finalmente consegui fazer a segunda pergunta que eu deveria ter perguntado logo no início, "Eu te conheço?"

A voz suavemente respondeu: "Não", mas a palavra era tão cheia de emoções que um arrepio sacudiu todo meu corpo.

Kacie não estava na sala com a gente. Ela estava fora da casa, então que mão eu estava segurando? Com a mão livre, peguei os fósforos que usamos para sorteio. Parecia que meus pulmões estavam sendo apertados, eu não podia respirar. Eu arrastei o fósforo ao longo do chão e o acendi. A pequena chama foi suficiente para iluminar a forma ao meu lado. Sarah gritou e Brian praticamente se jogou para fora da sala com medo. Eu puxei minha mão livre e acidentalmente apaguei a luz após o nosso curto olhar, cheio de terror.

Em conversas que tive depois com Brian e Sarah, parecia que todos nós vimos algo diferente naquele momento. Sarah jurou que viu uma mulher mal formada que era uma reminiscência de crianças com talidomida, com membros torcidos e dedos fundidos. Brian viu uma mulher velha e decrépita com seios pendurados e uma pele acinzentada e malhada. O que eu vi me deu pesadelos durante semanas. Eu vi o que parecia ser uma mulher. Sua mandíbula estava torcida, aberta como se tivesse sido deslocada. A abertura era tão grande que parecia que ela poderia caber toda a minha cabeça em seu bucho cavernoso. Eu não tenho certeza se ela estava assim, em preparação para o nosso beijo ou o quê. Seus dedos tinham articulações extras e pareciam estranhamente longos e ossudos. Era magra, pálida, e seu cabelo sarnento pendia em volta da cabeça como um ninho de pássaro feito de galhos mortos.

Nós todos fugimos da casa. Na minha tentativa de escapar, eu corri para a moldura da porta e me causei uma terrível contusão. Tive que passar o próximo dia colocando gelo e me perguntando se eu tinha quebrado a clavícula. Voamos daquela casa como almas fugindo do inferno. Kacie não acreditou na nossa história, mas para ser honesto, eu não me importava se ela acreditava em nós ou não. Eu sei o que vi... e o que vi me deixou horrorizado.

Anos se passaram desde aquele dia. Eu me formei, casei com uma garota legal, (Kacie e eu nos distanciamos depois do colegial) e me mudei para uma casa agradável. A história se escondeu na parte de trás da minha mente e foi arrastada no fluxo e refluxo da vida do dia-a-dia.

Estas memórias ressurgiram como uma onda furiosa pela mais simples das coisas...

Uma queda de energia.

A eletricidade tinha acabado de cair. Suspirei na inconveniência de tudo e fui até o porão para encontrar e verificar o disjuntor. Isso era bastante comum devido à fiação defeituosa da minha casa, e eu podia encontrar o disjuntor e vira-lo com os olhos fechados. Eu nem sequer precisava mais de uma lanterna; o movimento estava gravado em minha memória muscular.

Foi lá, enquanto eu brincava com o circuito que tomei consciência do som. Era quase inaudível, mas foi crescendo quando eu parei para ouvi-lo. Eu não consegui identificá-lo no início, mas quando eu finalmente consegui, memórias inundaram minha mente. Sentado na escuridão, minhas mãos entrelaçadas na coisa ao meu lado, e minha boca centímetros de distância dela, em preparação para beijar sua pele pálida. Era o som da respiração, além de minha própria e soava superficial e forçada como alguém debilitado. Eu teria sorrido se eu não estivesse tão assustado. Quase soava.... sexual.

A voz falou e meu estômago afundou, "Você tem mais uma pergunta para me fazer."

Em meu porão, eu percebi que eu não era mais o garoto tímido daquela noite em que eu estava no escuro daquela casa parcialmente construída todos aqueles anos atrás. Eu tinha encontrado a minha voz, e eu não tinha necessidade de pensar nas palavras para dizer. Fiz a última pergunta, já sabendo a resposta.

"Eu vou deixar este porão?"

12/05/2015

Olhos de Anjo

“Anna, acorde... Meu anjo está aqui!”

“O que?” Eu abri os olhos lentamente e encarei meu irmão, ou pelo menos tentei, mas ele estava com uma lanterna ligada e apontada diretamente para o meu rosto.

Eu apenas o mandei de volta para a cama dele naquela noite, nem me dei o trabalho de olhar. Aquele foi o maior erro que eu cometi.

Minha mãe sempre foi “abusiva”... Se é assim que posso dizer. Ela sempre gritou com a gente e ás vezes nos batia e usava palavras não muito recomendadas para crianças, e mesmo nos agredindo com a mesma freqüência, não era aquilo que nos incomodava... A tortura que ela fazia era muito mais mental do que física.

O pior dia foi quando o Brian deixou nosso cachorro sair. Ele havia ganhado o cachorro no aniversário de sete anos, não tínhamos nem sequer dado um nome a ele. Ele disse que seria “legal” se o cachorro saísse para conhecer um pouco o lugar, e o cachorro foi atingido por um carro assim que saiu de casa.

Minha mãe arrastou Brian até a rua e o obrigou a olhar para o cachorro, e então, o jogou no chão e o deixou lá, chorando. Ela subiu as escadas e se trancou no quarto, e só mais tarde, desceu as escadas com a roupa do trabalho e disse que eu deveria ficar de olho nele, pois ela trabalharia para uma amiga e só retornaria de manhã.

Ela saiu sem dizer nenhuma outra palavra.

Eu saí e pedi para que ele entrasse, ofereci sorvete. Ele encarou o cachorro morto por outro longo minuto, ainda chorando, e depois de um tempo ele entrou na casa em silencio.

Eu não consegui conversar com ele naquela noite, ele apenas sentou no sofá e ficou encarando os desenhos animados na TV – eu tive que ligar a TV já que fiquei cansada de encará-lo em silêncio – e depois de um tempo, eu fui até meu quarto conversar com minha amiga Lisa por um tempo... Quando voltei, Brian não estava no sofá, eu o procurei e entrei em pânico por alguns minutos, foi aí que ouvi a voz dele.


Ouvi calmamente e parecia vir de fora da casa, ele estava sentado perto do cachorro novamente, olhando para a sua direita, como se estivesse conversando com alguém mais alto do que ele.

Aliviada, mas ainda com raiva, eu fui até ele.

“Brian, o que você acha que está fazendo?”

“Desculpa... Eu vi... Tinha uma moça perto do cachorro, ela disse que era um anjo, e disse que ia ajudá-lo.”

“Você não pode ver anjos, eles não exist –... Eles são invisíveis. Eles nos observam, mas são tipo neblina ou algo assim.”

“Não são, não, eles são brancos.”

“Sim, é... mas... Ah, tanto faz. Entra, você precisa dormir.”

Ele vestiu o pijama e eu nem me dei o trabalho de mandá-lo escovar os dentes ou tomar banho, eu tinha apenas treze anos, não ia forçar ele a fazer nada. Brian e eu dividíamos o quarto, e eu odiava isso, então, fui dormir no quarto da minha mãe até a hora que ela voltasse (três da manhã) e me puxasse pra fora da cama dela.

Quase dormindo e tropeçando nos meus próprios pés, eu voltei para a minha cama, e no caminho, ouvi a voz de Brian novamente.

“É bonito aí?”

Eu parei imediatamente e escutei, eu achei que ele estivesse no telefone com alguém, mas ele era proibido de ligar para os amigos tão tarde assim... Também percebi que a luz estava ligada.

“Parece legal, mas o cachorro está morto. Ele se machucou bastante, como ele pôde ficar feliz? Ele não vai ficar triste para sempre?”

Ele parou de falar por um momento.

“Oh, entendi. Eu acho. Você pode me contar mais coisas sobre o céu?”

Continuei escutando por outros cinco minutos, mas ele não disse mais nada. Eventualmente, a luz foi apagada e eu entrei no quarto lentamente e o encontrei na cama, fingindo que estava dormindo ou... realmente dormindo.

Ignorando ele, fui até minha cama e voltei a dormir.

Na manhã seguinte, Brian tinha várias histórias pra contar, ele não calava a boca nem por um segundo enquanto nós íamos para a escola.

“E existem essas flores bonitas que são maiores do que eu, e animais em TODO lugar, porque todos os animais acabam lá, assim como o meu filhote. Ah!! E o meu filhote, ele não está sofrendo nem sequer um pouco, ninguém se machuca quando vai pra lá, nada nunca machuca e–”

Minha mãe o interrompeu, enquanto descia as escadas. “Meu Deus do céu, será que dá pra calar a boca, garoto? Eu juro por Deus se você falar mais alguma coisa sobre céu ou paraíso eu vou te mandar pra lá.”

Brian ficou em silencio e minha mãe fez café para ela, um momento depois, apontou a caneca para a garagem, sugerindo que entrássemos no carro.

Nós entramos.

No caminho para a escola, todo mundo estava em silencio, até que Brian resolveu falar sutilmente: “ela disse que você não deve usar o nome de Deus daquele jeito.”

“O que você acabou de dizer? Pelo amor de Deus, garoto!”

Brian explodiu. “VOCÊ NÃO PODE USAR O NOME DE DEUS DESSA MANEIRA!!!”

Minha mãe explodiu de volta, jogando garrafas térmicas em Brian. Uma delas atingiu o rosto dele e o café manchou toda sua camisa. Não estava quente o suficiente para queimá-lo, mas ele gritou do mesmo jeito.

“Cala a boca, você nem está machucado.”

Brian fez um bico e resmungou até o fim do caminho.

Quando chegamos à escola, pulamos os dois para fora do carro.

“Ei,” Minha mãe disse e deu uma camiseta que estava no porta-malas a ele, e enquanto ele trocava de roupa, ela disse: “Me desculpe Brian. Mas você não deve falar comigo daquele jeito.” Ele acenou com a cabeça, ainda havia lágrimas em seus olhos, e depois de um momento, correu para a escola.

“Tchau mãe, te amo.” Eu disse e ela acenou, com os olhos cheios de lágrimas também.

Eu sei que minha mãe se sentia mal quando explodia daquele jeito; ela ficava com bastante raiva ás vezes. Talvez, se ela conseguisse controlar o temperamento Brian ainda estivesse aqui... Mas mesmo assim, se eu também tivesse feito algumas coisas diferentes, Brian ainda estaria aqui.

Quando ela foi nos buscar, parecia outra pessoa. Comprou o sanduíche favorito do Brian e até mudou o trajeto de volta para passar na padaria e comprar nossos cupcakes favoritos. Brian parecia bastante contente, mas comeu em silêncio enquanto nos sentávamos no sofá para assistir o filme favorito dele... Aquele sobre o peixe perdido.

Minha mãe dormiu no sofá e Brian sussurrou para mim alguns momentos depois, me chamando até o quarto dele.

“Anna, minha anja disse que ela pode fazer com que eu nunca mais me machuque de novo.”

“Brian, não começa com isso de novo!”

“Por favor, Anna. Escuta!” Ele implorou. “Não quero ficar mais triste, não gosto quando a mamãe fica malvada, a anja disse que ela pode fazer com que a mamãe nunca mais fique malvada e com que eu nunca mais fique triste! Eu quero que ela faça com você também! Ela disse que pode, disse que você ainda é inocente o suficiente pra isso.”

“E para onde nós vamos?”

O rosto dele se iluminou de alegria. “Algum lugar lindo, e não é como se nós nunca mais fossemos ver a mamãe novamente! A anja prometeu.”

“Parece que você está falando do céu, nós não podemos simplesmente ir para o céu, Brian. Temos que morrer primeiro.”

“Anna...” Ele disse rolando os olhos. “CLARO que nós não vamos morrer, minha anja disse isso!”

“Ah ta, e como você pode acreditar em tudo que ela diz?” Eu disse sarcasticamente. “Você “apenas sabe” né? Ou “pode sentir na sua alma” ou “leu nos olhos dela?”

“Não,” Ele disse sério. “Ela não tem olhos.”

Eu me afastei e rolei meus olhos. “Ok, chega, Brian. Anjos têm olhos, vai dormir.”

“Não esse tipo de anjos, eles usam o coração para enxergar, assim como nós deveríamos ser!”

Eu não respondi nada, claramente assustada com a resposta e ele me empurrou lentamente e disse: “Eu vou essa noite, vou te acordar quando ela estiver aqui.”

E ele me acordou mesmo naquela noite, e eu o ignorei, achando que ele estava apenas brincando comigo e que logo voltaria a dormir. Mas uma hora depois eu ouvi minha mãe gritar e a porta bater fortemente.

Eu a encontrei perto da porta, chorando descontroladamente. Havia um carro perto da nossa casa, e Brian estava deitado no meio da rua, exatamente onde nosso cachorro havia morrido.

Eu... Nem vou tentar descrever, eu tenho certeza de que você já viu um cachorro ou gato morto na rua antes, todo esticado e sujo e inchado em alguns lugares, sangrando por toda parte.

Bom, foi assim que meu irmão ficou.

Um motorista bêbado o atingiu, foi preso, e meu irmão foi enterrado dois dias depois.

O padre no funeral dele falava sobre paraíso, ele falava sobre como as garotas e garotos iam pra lá. Como nunca sofriam ou se machucavam ou sentiam dor, e falava que eles na verdade não estavam realmente mortos, mas vivos em nossos corações.

Não sei o que teria acontecido se eu tivesse saído da cama naquela noite, não sei se conseguiria fazer com que ele não fosse lá fora, não sei se eu poderia evitar que eu mesma fosse lá fora, mas eu queria poder esquecer isso, tudo isso. Queria esquecer a luz branca no meu rosto enquanto ele falava comigo naquela noite, tinha que ser uma lanterna, não pode ter sido outra coisa! Sempre que eu tento lembrar daquilo, posso ver um nariz, e uma boca meio avermelhada... Mas nunca os olhos.


Eu não me lembro de ter visto olhos. 

10/05/2015

NES Godzilla - Pathos

Pathos era a mesma coisa que Júpiter pelo layout, exceto pela borda azul escura ao invés da verde. A primeira coisa que eu percebi foi que todos os ícones casuais do nível, foram substituídos por uma pedra azul e algum tipo de favo de mel laranja.

Tinha também um ícone que tinha parte do ícone da selva, mas eu não pensei muito nisso. Eu chequei o outro lado do mapa para ver o novo monstro. Ao invés de “Hedora”, havia “Biollante”.


Mas isso não podia estar certo. “Godzilla vs. Biollante” não tinha saído até 1989 e esse jogo foi feito em 1988. Talvez Toho havia colocado Biollante no jogo para criar ansiedade para o filme do próximo ano, mas sua ideia mudou? 

Tentei pensar nas anormalidades do jogo, de todas as formas que eu podia, mas isso provaria ser um esforço inútil.

A canção do mapa de Pathos foi a primeira canção que ouvi do jogo. Assim como a maioria das canções, ela era difícil de ser descrita. Mas vou tentar.

Começava bem lenta e cheia de suspense, mais lenta que qualquer canção no jogo. Mas a cada vinte segundos ou menos, jogo fazia um barulho de batida altíssimo e o tempo mudava.

Era como se o compositor aleatoriamente, tocasse partes de cinco canções diferentes com o mesmo instrumento.

Movi o Godzilla por um dos tantos ícones de pedra azul que substituíam os ícones da selva, e comecei a fase. O jogo parecia uma montanha azul ao fundo com um planeta vermelho-sangue no céu. Mas algo estava diferente em relação ás montanhas. Elas tinham um aspecto de “papel amassado”. Eu achei que fosse um glitch que havia afetado elas, mas parecia muito intencional.

Rapidamente percebi algo sobre essa nova fase: Não haviam inimigos. Nem mesmo obstáculos.

Eu deveria também mencionar que isso foi onde o medidor de pontos começou a bugar além da compreensão. Mas isso não me incomodou, pois nunca fui de ligar para os pontos.
Então sem ter foco em nada, eu ouvi a música enquanto andava pelo nível, sem oposição alguma.

A música tinha um sentimento de tristeza. Devia ser bem agradável, se eu ouvisse ela em um jogo normal.

O nível continuou por três telas, mas sem obstáculos eu o concluí muito rápido. Eu tentei outros níveis desse mesmo tipo para ver se algum desses inimigos apareciam, mas não havia nenhum.

Havia pouco para ver nas montanhas azuis, então eu tentei outro tipo de nível.

Comecei nos níveis laranjas, e meus olhos foram atraídos por um grotesco background de olhos laranjas tumorosos. O “céu” era o mesmo que o chão, então eu presumi que o jogo indicava que aquela fase se passava numa caverna.


Os únicos inimigos eram os Matangos, mas como você viu, os bastardinhos estavam em toda parte.

A música certamente não ajudou, om uma mistura de sons de arranhões e altas batidas de bateria, que soaram como um tema de monstros em um filme de terror. Após completar a fase, tentei evitar jogar por esses níveis sempre que pude.

O mapa era curto e faltavam poucos minutos até que eu fui em uma revanche com Gezora e Moguera. Mas dessa vez, seus corpos e ataques eram vastamente variados.

Lutei com Moguera primeiro. O novo Moguera tinha uma leve semelhança ao alien de Pascagoula. Era meio que como lutar contra Mothra, mas isso se movia mais graciosamente. Ele atacava com giros e seu tentáculo frontal era como um saca-rolhas, e ainda tinha um olho, agora substituído pela broca.


Aquela aberração manca que havia substituído Gezora, e a nova besta era mais que um desafio. Isso corria e pulava em um passo rápido, constantemente balançando seus braços, fazendo difícil se aproximar dele e com certeza tentava me prender nas paredes, irritante como sempre. Eu o derrotei usando uma combinação de chicotadas com a cauda e uso contínuo do raio de calor.


Eu os derrotei e agora ia lutar com o Titanossauro, mas quando eu comecei a luta, Titanossauro não estava onde devia e o jogo simplesmente voltou par o mapa com a peça do Titanossauro faltando.

Não havia mais nenhum para lutar comigo, apenas Biollante. Então eu rapidamente comecei a batalha.

Fiquei muito surpreso por Biollante começar a luta em sua forma rosa. Ela era imóvel e usou seus tentáculos para me afastar do corpo principal, o que causava maior dano.


Como esperado, ela tomou sua forma final após tomar muito dano. A figura parecia muito foda para ser em 8-bit.


A técnica da batalha era a mesma, exceto que agora Biollante podia se mover, ainda que mais lenta que qualquer outro monstro. Ser atingido por seus tentáculos, causava mais dano agora, e Biollante poderia cuspir ácido, o que eu tentei desviar na seguinte screencap:



Não foi mais difícil de derrotar que o Titanossauro, isso apenas durou duas rodadas. Mas quando Biollante se foi, a música havia parado, e havia um novo ícone substituindo a base:


Aquele ícone não estava ali antes de eu derrotar Biollante. Parecia uma máscara tribal vermelha, e eu tinha uma sensação de pavor quando eu a vi. Mas desde isso substituir a base, só havia uma maneira de sair de Pathos. Movi o Godzilla para o favo e comecei o nível.


Tinha um visual infernal, sem céu, e com chamas queimando ao fundo. O fogo pareceu mais real que tudo que eu já vi no NES.

Havia ali uma “música” na forma de uma batida lenta, lembrando as batidas de um coração.

Todo o texto no topo da tela, e a barra de vida, haviam sumido. No seu lugar havia apenas um pequeno texto no meio da tela que dizia “CORRA”.

Meu sentimento de pavor se intensificou. Eu cautelosamente andei pelo nível, mas como as montanhas azuis, não haviam inimigos. Eu passeei por alguns minutos antes de pensar “Correr? ...de quê? ”

Da primeira vez que me atingiu, eu nem tinha percebido.

Ouvi um barulho do lado de fora do meu quarto, e me virei para ver se algo havia caído, e quando eu olhei de volta, Godzilla estava morrendo.

Achei que fosse só um glitch, mas eu não iria jogar sem o Godzilla. Então, reiniciei o jogo e fui para a tela de códigos.


Já disse o quão aterrorizante essa música da tela de códigos era? Se você já jogou esse jogo, você entende o que eu digo. Não cai bem com o clima do jogo, é mais como um jogo de terror. Talvez eles fizeram isso para as crianças não trapacearem.

Eu estava meio irritado a esse ponto, pois pensei que eu teria que lutar com todos os monstros novamente. Mas não aconteceu. O jogo começou bem onde eu comecei o nível do cara vermelha. Então eu tentei novamente, quando eu vi aquela... coisa.

Sabe aquela sensação que você sente quando está em extremo perigo? Você começa a reconhecer e a tensão faz fluir a adrenalina em suas veias, e todos os seus nervos começam a ficar muito frios?

Esse foi o que sentimento que eu tive quando tirei essa screencap.


Nunca tinha visto todos os filmes do Godzilla, mas estou muito certo de que AQUILO nunca esteve em algum deles. Tinha que ser algo que os criadores fizeram. Mas que tipo de mente doentia colocaria AQUILO num jogo INFANTIL?


Por puro cagaço ou pela carga de adrenalina, eu tratei de correr o mais rápido possível para fugir daquilo. Aquilo corria bem rápido. Tão rápido que se você visse isso, você certamente iria morrer. E quando eu digo “morrer”, eu digo que o monstro morre instantaneamente se a criatura o tocar.

Uma vez que voltei ao mapa, estava com tanto medo, que estava extremamente tentado a desligar o jogo e tentar fingir que isso nunca aconteceu. Eu não podia acreditar no que eu tinha visto, isso não devia ser nem mesmo real.

E mesmo que eu quisesse continuar, eu ainda tinha que chegar ao Mothra, passando por esse nível de corrida. Mas eu fiquei inativo por alguns minutos na tela do mapa por alguns minutos. Meu medo estava sendo substituído por extrema curiosidade.

Que porra foi aquilo que aconteceu?

Como seria o resto do jogo?

Eu apenas tinha que derrotar esse nível, com “Mothra”, e então estaria no próximo mundo.

Mas quando eu movi Mothra para a cara vermelha, o jogo registrou que eu havia passado de fase. Eu estava muito aliviado. Tentei me preparar para o próximo mundo: “Trance”.

Continua...



05/05/2015

Intercessão

Corpos. Esse era o assunto na aula de biologia. Luis odiava aula de biologia, e odiava corpos... Ele também odiava a ideia de ter um corpo.

Ele costumava observar os garotos com suas camisetas que pareciam se encaixar perfeitamente, sempre apoiados nos armários e rodeados daquelas garotas que usavam muito delineador. Ele olharia para si mesmo, para o jeito que sua camiseta parecia grande demais.

Ele imaginaria como seria a ideia de pesar menos. Ser menos.

Não seria difícil. Seria interessante, na verdade. Um desafio. Não comer por três horas, cinco, e então... Um dia inteiro. Quanto mais? Você sempre pode ir mais longe, sempre pode passar dos limites que seu próprio corpo impõe.

Ninguém notou nada do que ele estava fazendo; ninguém notava nada, nunca. Seu padrasto estava sempre ocupado e sua mãe era louca, ela rezava o tempo inteiro, provavelmente por causa do padrasto (ou talvez numa tentativa de manter as contas que vinham cada vez mais altas, longe deles).

Ela estava completamente pirada, sempre na igreja. A casa deles estava cheia de imagens de santos e incenso, que soltavam uma fumaça fedorenta e impregnavam as roupas como se fosse uma maldição.

Em um domingo, eles conversaram sobre a Santa Catarina de Siena. A santa do jejum. Ela só comia na Eucaristia e morreu quando tinha trinta e três anos.

Ouviu muito o termo “santa anorexia”; realmente. Ela provou sua devoção para com Deus demonstrando pouco interesse em seu corpo, afinal, corpos são temporários, mas a alma é eterna.

Na verdade, existiram vários santos do jejum. Garotas se matando de fome por Jesus... Na Idade Média, eles quebravam os dentes de garotas que tentavam emagrecer, eles enfiavam comidas em suas bocas.

Agora, se você estiver só um pouco acima do peso, eles te mandam para o hospital e enfiam tubos em você.

Ele pesquisou sobre a santa no Google e acabou lendo sobre uma garota que ficou passando fome e alegava razões religiosas; a maioria das pessoas interpretaria isso como distúrbio alimentar.

Significados não são consertados e definições não são permanentes.

Jesus não comeu ou bebeu por 40 dias no deserto.

Luis escreveu “objetivo” perto daquela parte da Bíblia, mas depois de um tempo, apagou. A borracha acabou apagando mais do que deveria e rasgou um pouco a página.

Ele comia o corpo e bebia o sangue de Jesus uma vez na semana. E em algumas semanas... Era só o que ele comia.

De volta á aula, o Sr. Preston ainda estava parado em frente à turma e ainda falava sobre algum tipo de vírus. Falava sobre quão resistentes eles são e que eles poderiam atravessar vários continentes, cidades e países.

“Ebola, por exemplo,”, ele começou. “A enfermidade que mata pessoas diariamente, fazendo com que elas sangrem até a morte. Esse é um vírus que vive em humanos, é transmissível e horrivelmente letal. Mas é exatamente o fato de ser letal que dificulta a infecção em humanos,” disse ele.

“Então você tem que morrer pra fazer com que outras pessoas fiquem doentes?” Ben perguntou. Localizava-se na frente de Luis; ele foi suspenso uma vez por ter Aspirina na mochila, agora todos o chamam de Rick Ross.

“Sim.”

“Mas então o que acontece se o vírus muda? Tipo, se a pessoa leva umas duas semanas pra morrer, invés de apenas alguns dias.”

Alguém no fundo da sala sussurrou alto suficiente para que todos ouvissem: “Duas semanas atrás... Foi quando nós transamos, Ricky.”

Até o Sr. Preston riu.

No intervalo depois da aula de biologia, ele sentou com Jill, perto da janela, como sempre. Ela perguntou se ele havia visto Tyler.

“Não. Ele deve estar doente, aliás, acho que tem muita gente doente. Minha aula de Álgebra não tinha quase ninguém.”

Jill parecia cansada, os olhos negros quase perdidos nas próprias olheiras. Ela tinha um band-aid nas mãos, por culpa de um “incidente” enquanto cortava cenouras, mas ela nunca explicou direito aquilo.

“Isso é uma merda, eu precisava falar com ele. Não consegui dormir noite passada.”

“’Tá viciada em Adderal de novo?”

Ela sorriu. “Quem dera! Não, minha mãe me proibiu de tomar e me levou no médico depois que eu apareci mais magra... Tipo, três médicos em uma só semana!”

Ela parou de falar por um momento, como se tivesse assustada com a própria revelação.

Quem gosta de admitir que notou algo diferente? Eles gostam quando ninguém nota nada e todos fingem que está tudo bem.

“Então por que não conseguiu dormir?”

“Tyler me mandou uma cacetada de mensagens super evasivas e depois que eu respondi, ele simplesmente não falou mais nada. E então, depois de um tempo, ele me mandou um link com uma emissora de números e disse que ia desligar o celular. Meu sono depois disso desapareceu completamente.”

Outros garotos estavam sentados perto deles, rindo, conversando. O vento estava balançando algumas árvores, fazendo com que elas se mexessem em círculos.

“Emissora de números?”

“É, eu não sei. Algo relacionado á espionagem, guerra-fria ou algo assim. Eles trocavam mensagens codificadas e o inimigo nunca saberia o que eles estavam falando ou tramando. Você já ouviu falar disso, Luis. Eles apenas digitavam números, e ocasionalmente alguém leria ou escutaria, e entenderia. Eu sei que você já ouviu falar, Tyler me disse que você fica na internet pesquisando essas merdas estranhas.”

Jill e Tyler começaram a namorar há pouco tempo. Todas as conversas com eles no final se tornavam conversas sobre eles como casal, assim como as outras coisas, existia uma obsessão com a definição de “existência”; você acredita que alguma coisa é real quando fala demais dela.

“Ah, sim. Eu sei do que se trata,” Ele mentiu. Havia esquecido muitas coisas recentemente, e sua concentração também parecia afetada. Era como se o mundo estivesse o pressionando e apertando sua mente de forma descontrolada. “Então, o que dizia?”

“A “Ave Maria”.”

“Só?”

“Só.”

“Porra, se você acha isso estranho, deveria vir até minha casa. A minha mãe faz essa oração umas trinta mil vezes ao dia.”

“Por quê?”

“Bom, você geralmente reza pedindo por ajuda, perdão, sei lá. É o que eles dizem, nunca muda.”

Luis não teve muito tempo para assimilar, mas com o pouco que teve, percebeu que algo estava voando na direção deles, estranhamente rápido. Estava vindo do pátio, e atingiu a janela com toda força, parecia com um martelo batendo em uma parede.

Luis pulou e Jill gritou, toda a cantina parou assustada e em silêncio.

Lá fora, o vento continuou forte, e a tampa da lata de lixo que saiu voando começou a se arrastar pelo chão, enquanto a lata ficava lá parada, agora vazia.

“Meu Deus, isso foi tão estranho,” Jill disse enquanto eles andavam até o carro dela. “Eu achei que o lixo fosse nos matar, que jeito mais merda de morrer, né?”

“Nem me diga, mortos pelo lixo.”

“Aham.” O alarme do carro dela começou a tocar, esse era o único jeito de achá-lo. Ela nunca lembrava onde estacionava.

Jill destravou as portas e entrou no carro, o couro estava frio. Ela deu ré e começou a sair do estacionamento. Filar aula era sempre muito esquisito, a escola estava cheia de carros, era como se qualquer pessoa pudesse te ver a qualquer momento, mas Jill não parecia sentir culpa. Era como se ela não estivesse fazendo nada errado.

“Você sabe quem morreu de forma digna?” Ela perguntou enquanto dirigia, sem tirar os olhos da frente. “Jesus.”

“‘Dramática’ não significa ‘digna’.”

“Mas pelo menos foi memorável...”

Luis olhou no retrovisor, as nuvens pareciam os perseguir, como não quisessem ser deixadas para trás.

Eles estavam dirigindo por no máximo 10 minutos, do outro lado da rua tinha um Honda que obviamente estava amassado, o que despertou nos dois a curiosidade sobre o acidente. As marcas tinham formas estranhas e por um momento Luis se perguntou o porquê de um local de acidente estar vazio.

“Ei,” Luis disse. “Acho que deveríamos parar.”

“Merda,” Jill disse, olhando para o carro, “você está certo.”

Ela parou o carro e os dois saíram, fazendo o caminho até o outro lado. O vento ainda estava intenso, soprando fortemente as árvores e fazendo um barulho estranho pairar na rua.

Ainda saia fumaça do carro. “Parece que acabou de acontecer,” Luis disse. Havia um barulho saindo do carro, quase como um sussurro.

“Você ‘tá ouvindo isso?” Jill murmurou. “Tem alguém aí?”

Eles dois pararam por um momento, o medo de ainda ter alguém dentro do carro os atingindo de vez. Jill foi a primeira a se mexer e olhar enquanto Luis esperava ainda parado; ela enrijeceu.

 “’Tá tudo—?”

 “Sim, não tem ninguém aqui dentro, mas vem cá.”

 Ele andou na direção dela, e ela apontou para dentro do carro, que ainda estava ligado e que ainda tinha a chave na ignição. Havia sangue no interior, mas ninguém dentro. Ela tocou o ombro dele urgentemente, e ele percebeu que ela apontava para o aparelho de som ligado.

 Era de lá que o murmuro estava vindo.

 Ave Maria, cheia de graça o senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do nosso ventre, Jesus. Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, Amém.

 Quando retornaram ao carro da Jill, ela não conseguia parar de tremer. Luis sentou perto, batendo uma mão repetidamente no joelho. Eles não viram ninguém, nem no carro, nem na rua.

 “Você está bem?”

 “Sim, estou. Aquilo... Aquilo foi—”

 “Estranho?”

 “Meu Deus, sim! Muito estranho. Ok—” Luis a encarou. “Vamos.”

 Ela ligou o carro e começou a dirigir.

 “Jill?”

 “Oi?”

 “Aquela Ave Maria...? Foi aquilo que...”

 “Sim, a mesma coisa que o Tyler me mandou. Exatamente a mesma coisa.” Luis observou a mão dela ao apertar o volante enquanto falava “mesma coisa”; ele também pôde notar que o band-aid não fazia mais efeito, e o sangue da mão dela estava manchando o volante.

 Do lado de fora da casa de Tyler, o vento continuava forte. Havia muitos carros estacionados, e no final da rua, o céu estava ficando cada vez mais acinzentado.

 “Você acha que é uma boa ideia?”

 Ela deu de ombros e abriu a porta.

 A entrada estava lotada de sapatos e guarda-chuvas, pequenas escadas levavam até a sala de estar, e a cozinha levava até o porão.

 O ar parecia estranho, Luis jurou que pôde ouvir alguma coisa, mas era como se fosse uma freqüência diferente. Como se fosse algum tipo de som que humanos não deveriam ouvir, e assim, de repente, ele pode.

 Jill passou por ele e começou a descer as escadas, e ele a seguiu, mas ela parou um momento depois e fez que “não” com a cabeça.

 “Olha lá em cima,” ela disse, passando uma mão no ombro dele e o empurrando calma, mas decididamente. “Eu digo se houver algo aqui embaixo.”

 E então ela continuou descendo enquanto ele refazia seu trajeto de volta.

Ela deixou uma mancha de sangue na camisa dele.

 A escada parecia fazer um som diferente a cada degrau que ele pisava, como se ele pudesse escutar um grande grupo de pessoas gritando de uma longa distância... Nem sequer parecia um grunhido. Ele começou a se sentir tonto sem motivo aparente, e sua visão parecia embaçada, mas ele continuou subindo.

 Assim que alcançou o topo ele parou, ainda tonto e sentindo o próprio sangue correr pelo seu corpo.

 A cozinha estava a sua direita, e depois de achar ter visto algo ou alguém lá, ele foi até o cômodo, que por sinal, estava vazio e intacto exceto pelo fato de que havia algumas facas e colheres no chão, e algumas gavetas abertas.

 Depois de um tempo observando a cozinha, ele ouviu o som novamente.  Aquele “bzzzz”, como se tivesse uma abelha entrando pela janela aberta e indo diretamente ao ouvido dele; de repente, parecia que outras abelhas decidiram se juntar, e todas elas estavam fazendo aquele barulho infernal.

 Tapando os ouvidos ele continuou a caminhar pela casa, e por um momento, fechou os olhos, enxergando cores e imagens distorcidas de santos e vidro derretido na escuridão; elas passavam gradativamente, como um filme, e foi enquanto ele estava com os olhos fechados que ele escutou uma voz forte, repetindo a mesma coisa, várias e várias vezes.

 Ele não conseguia entender o que a voz dizia, mas parecia sair do final do corredor, onde o maior quarto ficava.

 O barulho foi aumentando enquanto ele se aproximava do quarto, várias vozes se repetindo, rezando... Era a Ave Maria, de novo e de novo...

 Desde quando religião existe? Desde quando a ideia de que um Deus existe foi estabelecida? O que aconteceria se Deus mudasse? O que ele faria com todos nós?

 Ele abriu a porta do quarto, e lá, contra a parede cinza, estava Tyler. As palmas das mãos machucadas e as unhas vermelhas e sujas; seu rosto não estava diferente, havia cortes em sua pele pálida, e na lateral do seu corpo, um corte maior repousava.

Na parede, escrito em vermelho, estava “INRI”.

 Do lado de Tyler, estava seu pai. Luis conheceu o pai de Tyler, ele tinha uma barba que era considerada “maneira”. E estava com o rosto virado para a esposa; Tyler estava entre os dois.

 Os três foram crucificados.

 Por um momento ele ficou lá, apenas parado e encarando os corpos. Isso que eles eram agora, corpos. Coisas temporárias que mantinham uma vida eterna.

 Ele sentiu alguém atrás dele, perto demais... E mesmo com medo, resolveu olhar.

 Era Jill, ela rezava a Ave Maria e tentava esconder o rosto nas próprias mãos, que ainda estavam sujas por causa do sangue que escapava.

 Mas o rosto dela estava sangrando também.

 Ela se aproximou dele, cambaleando... E o que antes foi o rosto dela, lembrava apenas um pedaço de carne naquele momento. Seus olhos estavam arregalados e o que estava pairando neles, não era nada parecido com a Jill. Algo havia tomado o corpo dela; outra coisa a estava coordenando, e era a mesma coisa fazendo o “bzzz” no ouvido de Luis.

 “Ave Maria,” Ela disse, se movendo lentamente, mas sem receio. Outras vozes ecoaram juntamente com a dela. “cheia de graça o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém.”

 Enquanto ela falava, Luis deu passos para trás, tentando se afastar daquela cena horrível, mas parou assim que sentiu algo gelado o tocando, era o corpo de Tyler, ele havia esbarrado no corpo do amigo, e estava frio como gelo.

 Jill continuou caminhando, seu rosto ainda sangrava e o sangue velho em sua camiseta não chamava mais tanta atenção.

Ele percebeu que não estavam sozinhos no quarto, havia outros. Ele não conseguia ver mas podia sentir, eles começaram a oração. Luis os ouvia... E enquanto Jill agarrava seu rosto com dedos ensopados de sangue ele quase pôde vê-los, quase... Quase...

 “Amém.”

 A cantina no dia seguinte estava ainda mais vazia; Luis era o único sentado perto da janela.

 Ben, da aula de biologia, se aproximou calmamente dele.

 “Oi, cara.” Ele disse, olhando para a mesa.

 “Oi.”

 “Hum, a Jill não sentava aqui? Ela ia me dar umas anotações da aula de inglês hoje...”

 “Ela não está aqui, acho que está doente. Você está na aula do Sr. Morros?”

 Sim.”

 “Eu também, posso te mandar uma cópia.”

 “Sério, isso seria ótimo?”

 “Sem problema. Ei, você quer que eu te mande um link também? Achei essa emissora estranha de números online.”

 “O que é uma emissora de números?”

 “É essa coisa, ninguém sabe o porquê, mas ela existe. Ela manda mensagens, instruções codificadas.” Os olhos de Luis brilhavam, como se ele estivesse emocionado. Ele parecia translúcido e animado demais. “No entanto, essa mensagem é diferente. Você precisa escutar! Promete pra mim que vai escutar? É linda...”