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17/02/2018

Vox e Rei Beau: Perguntas e Respostas (PARTE 10)


Desculpem-me por demorar tanto pra escrever ultimamente. Estou tão cansada de tudo, mas eu sinto que tenho que continuar com isso. O mínimo que posso fazer é responder perguntas agora...

Anonimo: Eu tenho uma pergunta. Fora toda a situação com Beau, como você descreveria sua vida como um todo agora? Você está feliz? Estressada? Há algo lhe incomodando? Como estão as coisas na faculdade/no trabalho? Seus amigos e família?

Minha vida tem sido bem normal, na verdade. Tenho um bom emprego, um apartamento decente, e já superei meu ex. Minha família e amigos são legais e estáveis. É por isso que isso vem do nada. Eu sou tão comum e normal quanto alguém pode ser.

Anonimo: Vox, quais são as dimensões de Beau? Suas descrições de seu sonho evocam imagens de Michael Jackson com as mãos esqueléticas, pele pálida e vestes bregas. Ele é alto? Você pode descrever sua voz? Como é o rosto dele? Suas maçãs do rosto são pontudas? Como é o seu cabelo? Ele tem dentes como os de um crocodilo ou seria mais como os de um dinossauro?

É difícil descrevê-lo corretamente porque tudo sobre ele não é exatamente humano e eu sou péssima para desenhar. Sua pele parece a de um albino. Seus dentes parecem com os de um crocodilo. São pontudos mas de tamanhos diferentes e se encaixam corretamente. Ele é alto - eu diria que ele quase tocou meu teto. Seu pescoço é longo. Seu sorriso é muito largo. Ele tem maçãs do rosto pontudas e grandes olhos. Seu cabelo é branco e penteado para trás.

Anonimo: Por acaso Beau se parece com aquele cara de The Nightmare Before Christmas? Jack, eu acho?

Não, e também não se parece com David Bowie ou Johnny Depp, como vocês vem conversando entre si, mas pode crer que isso não foi por falta de vontade. Ele só não parece humano. Desculpem por ser tão ruim para descrevê-lo. Eu nunca vi nada com ele. Pessoalmente não consigo superar suas mãos, mas talvez só por eu tê-las “sentido” algumas vezes.

Anonimo: Estou curioso – como a voz de Beau soa? É uma combinação de todas as vozes que ele coletou ou é distinta por si só?

Haviam duas. Sua voz normal, que é a que eu venho ouvindo, parece com a de um homem mas meio que distorcida. Como se passasse por alguma interferência, eu acho? Os suspiros soam como se você pegasse vinte vozes diferentes e as fizesse emitir as mesmas notas em uníssono mas em volumes diferentes e em tons diferentes. Como um coral mas abrigado em uma única garganta.

Anonimo: Ele foi alguma vez um companheiro para alguém da maneira que ele era/é com você?

Não que eu me lembre agora. Ele amava a Lua, mas não podiam ficar juntos. Ele tolerava muitas criaturas. Nas histórias ele parecia mais preocupado com reciprocidade e pegar o que quer que ele quisesse. Eu não tenho certeza se ele era meu companheiro ou se eu era só outro prêmio. Eu sei que muitos de nossos jogos envolviam eu lhe pagando com músicas ou aventuras por não me devorar, e ele me contava histórias

Anonimo: Você lembra se a lua no céu tinha algum efeito em Beau?

Sim. Ele olhava para a lua, adorava o luar, etc.

Anon: Eu quero acreditar que você era mais que um prêmio para ele, mesmo que ele lhe considerasse “dele”. Parece que ele criou uma conexão muito próxima com você, ou ao menos tão próxima quanto alguém da natureza dele consegue. Acho que pode-se dizer que ele estava tentando te proteger de Fuzzy, e não apenas porque você fosse dele. O fato de que ele parecia passar tempo te contando sobre si mesmo e suas histórias poderia dizer muito, mas eu acho que pode ser interpretado de modo diferente. Podem haver um número de razões para o retorno dele. Eu não acho que você esteja louca porque há muito nesse mundo que nós não sabemos sobre e não podemos explicar, mas da maneira que as coisas estão acontecendo eu diria que a última coisa que Beau quer fazer é lhe machucar.

Anon: Eu acho que ela era só um prêmio para ele. Mas as outras histórias me fazem crer que ele não era maduro o bastante para vê-la como uma companheira. Parece muito com uma criança passando pela fase do “é meu!”

Talvez seja um meio termo. Ele parece uma criança possessiva, mas ele também passou anos me aturando. Ele poderia ter pego o que queria e ido embora.

Anonimo: Explicação racional (e chata): está tudo em sua cabeça.

Paranormal: Beau é um fantasma ou outro tipo de criatura paranormal. As histórias que ele lhe contou até agora são ficção. Digo, a escuridão roubou a lua mas ele a salvou e colocou de volta no céu? Você mesma disse que ele é vão. Esse fantasma/demônio provavelmente gosta de criar histórias em que ele é o herói para satisfazer seu próprio ego. Quando você o viu vomitar os vermes de alcatrão, você viu sua forma verdadeira. Se eu fosse você, tomaria cuidado de agora em diante.

Racional: Minha tomografia está marcada para a próxima quarta. Não se preocupe: não ignorei essa possibilidade.

Paranormal: É possível que ele esteja inventando tudo isso. No entanto, ele parecia sentir uma enorme dor quando começou a vomitar. Eu não sei se essa seria sua forma verdadeira quando ele passou anos sem fazer isso antes. Os besouros me lembraram daqueles da história da Lua. Talvez meu sonho tenha reciclado isso.

Digo, eu gostava de tê-lo por perto porque ele era meu amigo imaginário, mas quanto a ser uma de suas posses, isso não faz meu tipo. Eu não sei por que minha eu criança imbecil achou que uma relação abusiva com um rei demônio era uma amizade imaginária perfeita, mas isso não indica como minhas relações adultas têm sido.

03/02/2018

Vox e Rei Beau: Beau e os Apanhadores de Sonhos (PARTE 9)

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

Ultimamente o assunto tem sido sonhos, então é com isso que vou continuar. Eu lembro que Beau não me visitava sempre durante as horas em que eu brincava. Eu constantemente sonhava com ele durante a noite, me unindo a ele em suas aventuras ou continuando as nossas. Talvez por isso as memórias tenham ficado tão turvas. Algumas partes são incrivelmente vívidas, como se eu as pudesse ver com o olho da mente. Outras mal fazem sentido e eu mal consigo entender o que está acontecendo nelas. Enfim, a próxima história é Beau e os Apanhadores de Sonhos.

Beau observa Vox dormir, por aelur
Rei Beau gostava de me ver cair no sono. Ele apoiava seu queixo na minha cama e sorria com a boca levemente aberta, os dentes brilhando com a luz da lua. Eu falava com ele por algum tempo, mas nós tínhamos que cochichar porque se minha mãe nos ouvisse, ela entraria no quarto para reclamar.

Uma noite eu falei pra ele que esperava ter um bom sonho. Ele me garantiu que eu teria.

“Eu lhe trago sonhos”, ele disse. “Eu posso pegar qualquer sonho de que eu goste nos campos e trazer para você quando você dorme.” Eu perguntei como isso era possível, e essa foi a história que ele me contou.

Em suas caminhadas, Rei Beau não vinha apenas ao nosso mundo para roubar vozes. Haviam muitas coisas para ver por todo lugar e muitas coisas para roubar para si. Em uma jornada em particular ele se viu nos campos dos sonhos. Eles não eram campos como os que conhecemos, de grama e flores. Era um plano cheio de névoa que nunca se dissolvia. Por entre a névoa ele podia ver pequenos brilhos, como pequenos relâmpagos dentro das nuvens. Conforme ele se aproximou, os brilhos projetavam imagens na névoa, mas apenas por poucos segundos. As cenas eram clipes de pessoas voando ou animais ou lugares. Eram sonhos.

Beau não estava sozinho nos campos. Conforme ele passou pela névoa, ele encontrou estranhas criaturas. Elas sentavam nas pedras ou se deitavam no chão encarando a névoa. Elas tinham grandes canos que usavam para sugar os brilhos conforme apareciam. Eles caçavam os sonhos e os comiam.

Sonhos não são nada. Eles não tem valor ou substância. São apenas pensamentos perdidos e a sujeira da mente. Ao menos era assim que Beau os descrevia. Por isso, os corpos dos Apanhadores de Sonhos estavam sempre procurando por mais, mesmo que suas mentes precisassem apenas de sonhos doces. Eles tinham tentáculos saindo de cada um dos poros de sua pele, raízes sempre procurando mais para sustentá-los. Qualquer coisa que entrasse nos campos seria atacada por seus tentáculos famintos e perfurantes.

Beau, como sempre, não estava com medo de qualquer caçador ou sonho. Ele andou pelo campo porque não havia uma rota alternativa e ele definitivamente não ia voltar depois de chegar em um lugar tão interessante. Infelizmente as raízes dos Apanhadores começaram a notar sua presença, e logo até os Apanhadores não podiam resistir à ideia de agarrar suas vestes e tentar arrastá-lo para o chão para si. Os Apanhadores não tinham dentes porque tudo que eles faziam era sugar em canos. Seus olhos eram enormes, e seus narizes pareciam mais com bicos. Beau tentou lutar contra eles, mas, contrário às faces na caverna do Monstro do Closet, os Apanhadores não estavam presos ao chão. Eles o sobrecarregaram em número.

Beau roubou um dos canos e tentou mantê-los distantes, mas os tentáculos eram pequenos e entraram em sua pele. Quando as criaturas haviam quase que completamente arrastado-o para o campo, uma grande corneta tocou. Os Apanhadores pararam e então correram, como se Beau tivesse se tornado venenoso. Quando eles haviam saído de sua vista, ele notou um jovem guerreiro em um cavalo pálido.

“Você perturbou os Apanhadores”, o guerreiro disse.

“Eles me perturbaram primeiro”, disse Beau. “Eu estava só tentando passar.”

“Você precisa conquistar o direito de passagem por meu reino”, o guerreiro respondeu. “Eu vou lhe ajudar. Posso ver que você é um amigo da Lua.”

Beau caminhou com o guerreiro pelo campo. Contanto que um ficasse perto do outro, os Apanhadores os ignoravam e voltavam a sugar os sonhos. O guerreiro tinha feições jovens e uma aparência delicada. Ele parecia tão digno quanto o outro perto dele, mas Beau suspeitou que a névoa tinha algo a ver com isso. O guerreiro brilhava levemente, como se as nuvens o fizessem brilhar, e ele era feito de prata e azul pálido.

“A Lua é minha irmã”, o guerreiro disse. “Eu cuido dos sonhos. Meu povo os faz, e nós os mandamos para aqueles que dormem do outro lado.”

“Mas vocês deixam os Apanhadores comê-los?” Beau perguntou.

O guerreiro apenas deu de ombros. "É a natureza deles. Não posso pará-los."

Beau sorriu porque achou que aquilo era tolo. “Eu sou o Rei do Lugar Quieto. Ninguém pode tomar o que é meu. Eu comeria a voz e vestiria a pele de quem tentasse.”

“Então você pode me ajudar”, o Rei dos Sonhos disse.

O Rei dos Sonhos levou Beau a uma grande torre feita de pedra polida tão lisa quanto gelo. Eles escalaram a torre até a câmara do Rei, onde eles ficaram observando os vastos campos. A névoa se espalhava até onde a vista alcançava. Havia mais que apenas Apanhadores ali. Haviam rios profundos e estranhas criaturas em bandos. Mas ao Oeste a névoa se tornou escura. Os fragmentos de sonhos eram irritados e mais agitados. Os corpos de Apanhadores estavam caídos no chão e sendo dissecados por estranhos monstros, parecidos com pássaros. Esses abutres usavam garras para rasgar e devorar os cadáveres, procurando por qualquer último pedaço.

“Observe”, o Rei dos Sonhos disse e apontou para a extremidade da terra escura e em ruínas.

Um dos pássaros estava observando um Caçador e o Caçador apenas focava em consumir outro sonho. O monstro voou, circulando o Caçador, observando a situação até que mergulhou e atacou. O pássaro arrancou os olhos do Caçador com suas garras e usou sua boca estranha para arrancar uma bochecha. O Caçador tentou usar seus tentáculos, mas por algum motivo eles não conseguiam entrar no pássaro.

“São as penas”, o Rei explicou. “Elas são muito oleosas. Os tentáculos escorregam.”

Os gritos do Caçador atraíram mais monstros. Logo a criatura não fazia mais nada além de tremer e pular conforme dúzias de pássaros arrancavam pedaços de carne. Ao redor do Caçador a terra rachou e ficou manchada com a mesma infecção que atacava o outro lado da névoa. Os outros Apanhadores não fizeram nada para ajudar seu amigo morto ou salvar a si mesmos. Estavam muito ocupados com os sonhos.

“Meu irmão fez um pacto com a Escuridão. Ele quer infectar os sonhos e mandar a Escuridão para aqueles que dormem. Seus pesadelos vão destruir meus campos. Eu não tenho um exército meu. Não posso pará-lo enquanto ele controlar as minhocas.”

“Essas não são minhocas”, Beau respondeu.

“Não eles”, o Rei disse. “Eles se alimentam das minhocas.”

Quando ele entrou no campo dos sonhos, Beau achou que seria fácil de passar. O problema do Rei dos Sonhos não o importava, mesmo que a Escuridão jamais tivesse sido uma aliada do Lugar Quieto. No entanto, uma parte da Lua ainda estava em seu coração, e essa pequena parte nunca permitiria que Beau simplesmente deixasse aquele lugar para que a Escuridão a engolisse. Então ele concordou em ajudar o Rei.

Beau era muito espero, e sabia muito sobre minhocas. “Só há uma minhoca, mesmo que hajam muitas”, ele disse ao Rei. “Nós vamos matar a minhoca.”

Embora Beau não temesse nada, ele também não era tolo. Viajar pela névoa faria dele comida para os monstros alados que viajavam em bando procurando por comida. Sem falar que os Apanhadores certamente tentariam devorá-lo. Sendo esperto como ele era, ele decidiu duas coisas.

Primeiro, o Rei dos Sonhos iria com ele porque isso era tudo culpa dele. Segundo, eles viajariam atrás da Minhoca pelos túneis de minhoca. Fazia sentido. O Rei dos Sonhos não ficou nada feliz com essas duas idéias e fez um escândalo com a possibilidade de sujar suas roupas finas. Beau não se importou nem um pouco.

O Rei dos Sonhos levou-o para um grande buraco no chão onde as rachaduras da terra infectada se uniam. Ao redor do buraco haviam muitos esqueletos de Apanhadores e seus canos esquecidos, mas os pássaros haviam abandonado aquela área em busca de terras férteis para caçar. Com o arco do Rei e as facas, vozes, rapidez, força e muitas outras habilidades de Beau, eles se armaram e foram em frente.

A rede de túneis era confusa e frequentemente eles tinham que engatinhar por espaços apertados ou partes que haviam cedido. O Rei usou luz emprestada de sua irmã, a Lua, para guiar o caminho. Ela refletia nas paredes do túnel e queimavam quaisquer pequenas minhocas que poderiam causar problemas. Finalmente, eles chegaram em uma câmara cavernosa. Era iluminada com chamas escuras e coberta com a mesma pedra polida que a torre do Rei. Dentro dela estava um jovem guerreiro que parecia muito com o Rei dos Sonhos, mas suas características eram douradas e escuras. Enrolada e grossa com um rosto sem visão estava a Minhoca. Ela era gosmenta e pulsava, e conforme os dois observaram o guerreiro pegou uma faca e cortou dois pedaços dela. Os pedaços caíram no chão e pulsaram. Em sua vista, duas outras pequenas minhocas foram criadas.

“Você vê, Rei”, disse Beau. “Há apenas uma Minhoca.”

Tendo dito isso, ele atacou.

É claro que o Rei dos Pesadelos não ia deixar Beau simplesmente matar sua criatura preciosa. Ele berrou, e as duas minhocas pequenas foram direto para Beau. Em sua corrida, elas deixaram uma trilha de gosma venenosa que borbulhou e corroeu a pedra polida. Suas bocas abriram bastante e atacaram os dois Reis. O Rei dos Sonhos foi rápido e perfurou uma delas com uma flecha, prendendo-a e queimando sua pele com a fumaça. Beau desviou da outra e soltou uma de suas vozes mais penetrantes, que congelou a pequena minhoca no mesmo lugar e fez com que ela encolhesse em uma esfera que se dissolveu.

O Rei dos Sonhos preparou outra flecha e atacou a Grande Minhoca. O monstro se ergueu e tentou se enrolar ao redor do Rei, silvando conforme as flechas escavavam sua carne mas sem fazê-la perder a força para lutar. Enquanto o Rei estava concentrado em salvar seu reino, Beau prestou mais atenção no que importava, e o que importava para o Rei dos Pesadelos era proteger uma pedra pendurada em seu pescoço. Beau sabia disso porque ele era um grande caçador e Apanhadores podem ver com alguém protege um prêmio. Isso, Beau decidiu, era seu alvo. Enquanto o Rei dos Sonhos mantinha a Minhoca ocupada, Beau foi atrás do Rei dos Pesadelos.

“Não me importa por que você ajuda a Escuridão,” Beau disse conforme as facas brilhavam contra a espada do Rei dos Pesadelos. “Não me importa que você também é irmão da Lua. Essa pedra é minha. Eu a obterei.”

O Rei dos Pesadelos era um grande guerreiro, muito rápido, mesmo que fosse pequeno. Mas o desespero fez com que ele hesitasse e alterasse seus movimentos para poder proteger a pedra, e isso era algo que Beau sabia bem. Ele soltou duas vozes nos ouvidos do seu adversário, confundindo-o e prejudicando seu equilíbrio. Com essa oportunidade, Beau roubou a pedra.

A Grande Minhoca congelou, o que foi bom porque o Rei dos Sonhos já estava quase sem flechas. As armas de prata cobriam a pele da minhoca, queimando-a de maneira que deveria enlouquecê-la, mas Minhocas não são criaturas inteligentes e raramente se importam com a dor. Ela congelou e encarou Beau que percebeu que havia vencido.

“Eu posso fazer a Minhoca comer seu irmão”, Beau disse ao Rei dos Sonhos.

O Rei dos Pesadelos, percebendo que havia perdido, não conseguiria escapar e não tentou.

“Não”, suspirou o Rei dos Sonhos. “É a natureza dele.”,

Normalmente Beau teria feito isso de qualquer forma, mas, novamente, a parte da lua que ainda vivia em seu coração fez com que ele mandasse a Grande Minhoca para longe, de volta para sua terra natal, sem que nunca retornasse aos campos dos sonhos. Beau manteve o coração da Minhoca para si e o Rei dos Pesadelos retornou para sua torre, derrotado ao menos por algum tempo.

No entanto, Beau não havia terminado. O irritava que o Rei dos Sonhos e os Apanhadores não fizessem nada para se defender. Ele odiava o fato dos Apanhadores tomarem o que quisessem sem pagar suas dívidas. Então ele subiu no topo da torre do Rei dos Sonhos e rugiu em uma voz tão poderosa que até a névoa tremeu e os sonhos silenciaram por algum tempo.

“ESCUTEM-ME”, ele rosnou.

Os Apanhadores escutaram.

“VOCÊS NÃO PODEM APENAS PEGAR ESSES SONHOS. VOCÊS PRECISAM TER UM PROPÓSITO. OLHEM.”

Ele apontou para um dos monstros alados, circulando a névoa procurando por alguma minhoca que houvesse sobrado e observando os Apanhadores.

“LUTEM”, Beau ordenou.

E um dos Apanhadores arremessou seu cano para cima. Ele atravessou o coração do monstro pássaro e o que escorreu dele era tão doce quanto o sonho. Daquele dia em diante, o Rei dos Sonhos tinha um exército e Beau podia pegar quaisquer sonhos que quisesse como pagamento por sua ajuda.

E é por isso que eu tenho bons sonhos.

13/01/2018

Vox e Rei Beau: Tudo ficou estranho (PARTE 8)



Tudo ficou estranho. Eu não consigo pensar em outro meio de dizer isso. Eu vou tentar descrever o que vem acontecendo da melhor maneira possível, e então vou contar mais histórias. Eu não sei mais se essas histórias são memórias que estou recuperando ou outra coisa. Toda vez que tento me lembrar, mais histórias aparecem. E, bem, podem haver muitas delas, porque nós estamos falando de uns 4 anos da minha vida, mas eu não sei mais dizer.

Enfim, acho que estou me adiantando. Deixe-me explicar o que aconteceu noite passada.

Meu amigo Chris veio pra cá depois de sua paralisia do sono. Eu contei tudo pra ele. As vozes, minhas idas ao terapeuta, o rádio, ver alguém em minha casa, tudo. A resposta dele, sendo o maconheiro que ele é, foi fumar um. Ele pensou que me ajudaria a relaxar, talvez dormir um pouco. Isso é embaraçoso de admitir, mas por ter sido criada por uma boa mãe cristã que reforçou a importância de nunca usar drogas, eu só fumei maconha umas duas vezes. Mas esses últimos dias têm sido tão complicados, e meu trabalho não faz testes para drogas mesmo, então eu pensei, por que não? Não é como se eu pudesse me machucar com isso.

Então é, eu ia terminar a história mas então eu fiquei chapada.

Nós ficamos sem fazer nada por algum tempo, então assistimos a um filme, comemos sanduíches, e provavelmente ambos acabamos dormindo. A próxima coisa de que me lembro é de acordar em minha sala. A TV estava ligada mas apenas mostrava estática, provavelmente porque nós estávamos mexendo no DVD. Chris estava dormindo na poltrona, então eu decidi levantar do sofá e ir direto para meu quarto. Eu desabei na cama e dormi novamente. Digo, aquela maconha era bem forte, mas eu acho que isso tinha mais a ver com o fato de que eu estava exausta. Depois disso, eu tive uma espécie de sonho.

Nesse sonho eu acordei porque eu senti alguém pegar minha mão. No começo eu não abri os olhos porque eu achei que era só o Chris sendo estúpido, mas lentamente eu percebi que os dedos eram gelados e ossudos e simplesmente… errados. Eu não sei como explicar. Era como se quem estivesse pegando minha mão nunca tivesse segurado uma mão antes e seus dedos estivessem segurando-a totalmente errado. Eu abri os olhos (no sonho) e lá estava ele.

Era o mesmo homem que eu tinha visto na beira da minha cama. Ele se ergueu sobre mim. Ele tinha a mesma pele albina, olhos leitosos, e cabelo branco. Ele sorriu para mim e seus lábios foram puxados para trás, mostrando linhas de dentes pontiagudos. Era como olhar para um crocodilo abrindo sua boca e simplesmente exibindo sua mandíbula. Agora eu me dou conta de por que eu não sabia se ele estava usando roupas ou armaduras. Suas vestes eram de cor preta, azul e cinza, mas feitas de estranhos troféus e prêmios completamente misturados em algo intricado e acho que quase nobre.

Eu estava assustada. Não posso mentir e dizer que não. Mas talvez a maconha ou apenas o meu estado sonolento fossem o que estava me impedindo de perder o controle. Digo, lá estava ele em toda sua glória horrível, assim como eu me lembrava. Eu nem mesmo removi minha mão da mão dele. Pensando bem, talvez parte de mim tenha se dado conta de que não importaria. Ele me possuía. Eu me lembrei, no entanto, de tudo que vocês vêm me dizendo. Eu perguntei, “Como eu posso saber que você é realmente Beau?”

Ele se curvou, embora o movimento não tenha sido humano de forma alguma. Era muito gracioso e havia uma curvatura muito suave. Ele colocou seu rosto perto do meu, olhando diretamente para mim com seus olhos leitosos, e eu juro que por um momento eu achei que ele fosse me cortar em vários pedaços ali mesmo. Mas ele se moveu para meu lado e pressionou sua cabeça contra minha têmpora direita, como um grande cachorro. Não era um movimento confortante no sentido tradicional, mas era quase afetuoso.

Ele disse, “Pequena Jeep.” Então ele emitiu mais um daqueles suspiros feitos de doze vozes diferentes.

Vocês talvez não saibam, mas os jipes SUV são nomeados por causa de um personagem do desenho do Popeye. Eugênio o Jeep Mágico era uma criatura mágica que tinha um “cérebro quadrimensional.” Ele podia atravessar paredes, teletransportar, todo tipo de coisa e ele sempre tinha que dizer a verdade. Ele também só comia orquídeas.

Aqui tem um link da Wikipédia sobre ele:
 https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugênio_o_Jeep_Mágico

Quando eu era uma criança e visitava meus avós, eu assistia esses antigos desenhos do Popeye. Eugênio era meu personagem favorito de longe. Eu achava ele adorável, e eu amava todas suas habilidades especiais. Eu até mesmo corria pela casa dizendo “Jeep!” como ele fazia. Beau achava isso bizarro, mas ele tolerava e até mesmo me chamava de Pequena Jeep. Ninguém mais sabe que ele fazia isso. Até eu mesma havia me esquecido até que ele disse isso. Eu não sei se isso é suficiente para passar o teste de mais alguém, mas na hora foi bom o bastante para mim.

Eu olhei para ele e disse, “Mas você não é real. Você é apenas minha imaginação.”

Ele se ergueu novamente e continuou com seu sorriso maluco. Eu achei que ele fosse dizer algo, mas subitamente seu rosto mudou. Seus dentes continuavam à mostra, mas seus lábios se torceram em um esgar. Seus olhos viraram para trás e sua cabeça logo seguiu o mesmo caminho, com o queixo erguido como se ele estivesse olhando para o céu. Seu pescoço relaxou para o lado e seus olhos encararam a janela para nada que eu pudesse ver. O que eu vi foi o que saiu de sua boca.

Era uma espécie de alcatrão preto vazando por entre seus dentes. Não posso sequer descrever o fedor. Eu nunca senti um cheiro como aquele. Era como pura podridão e sangue velho e alface podre, mas isso nem mesmo começa a descrever. A pior parte foi quando eu percebi que estava engatinhando. A gosma começou a se separar em vermes gordos e gosmentos conforme se movia por seu queixo.

Eu disse algo estúpido, como “Quê?” ou “Beau?” porque nesse ponto eu não tinha idéia do que fazer o do que estava acontecendo. Além de nunca mais fumar maconha de novo, tudo que eu sabia era que eu estava completamente perdendo minha sanidade. Ele lentamente se virou para me encarar, e seus olhos, já arregalados, se abriram ainda mais, como se ele estivesse forçando para me ver.

“Vox.”

Quando ele falou seus lábios e boca não se moveram, mas os músculos em sua garganta ficaram tensos e a voz veio claramente dele – não de dentro da minha mente ou algo assim. Ele ia dizer algo mais, mas seu peito se contraiu em um espasmo e ele começou a vomitar os grossos vermes de alcatrão com forte, dolorosa náusea. Antes que aquela sopa pudesse tocar o chão, os vermes incharam e suas pernas cresceram. Demorei um minuto para perceber que eu estava encarando uma massa de besouros pretos. Eles zumbiam tão alto que eu pensei que meus ouvidos fossem sangrar. Eu podia ouvir meus dentes vibrando em meu crânio. Eu achei que meu cérebro fosse começar a pulsar e havia uma pressão em minha cabeça que se forçava contra meus olhos. Os besouros engatinharam por cima de Beau, mas eu comecei a ver estrelas. Eu não conseguia respirar e meu coração parecia que estava forçando com tudo para mandar sangue para meu cérebro. Não lembro de mais nada depois disso. Eu realmente apaguei.

Acordei com a pior boca seca que tive em toda minha vida e uma dor de cabeça pior que qualquer ressaca. Eu estava na cama, mas não havia nenhum poça de alcatrão ou evidência de que qualquer coisa tivesse acontecido. Meu amigo já tinha ido trabalhar. Quando eu tomei um pouco de Tylenol e me senti bem o bastante para funcionar como uma pessoa, eu liguei para ele e perguntei se ele notou algo estranho noite passada. Ele disse que não, que eu apenas fui para meu quarto e depois de algum tempo ele se deitou no sofá.

Depois disso meu terapeuta me ligou para dizer que meu plano havia aprovado minha tomografia e que ela está marcada para próxima quarta feira. Eu disse que isso é ótimo porque eu estou perdendo minha sanidade. Eu contei para ele sobre o sonho. Ele disse para eu não me preocupar. Essas coisas acontecem, especialmente se você for burro o bastante para usar drogas. Que isso sirva de lição para vocês. Então, é aí que estamos.

Há mais. Isso é tudo que aconteceu hoje até onde nós estamos agora. Desculpem-me, eu estou tentado dar qualquer informação relevante que eu possa ter na chance remota de que possa ser útil. Eu estou um pouco perdida agora. Esse pesadelo realmente mexeu comigo. Eu costumo ter sonhos vívidos, mas isso foi além do normal por muito.

(A propósito, no sonho Beau não disse “Vox.” Ele disse meu nome. Apenas lembrem de agora em diante que se o nome Vox for usado, é só um substituto para meu nome real.)

06/01/2018

Vox e Rei Beau: Fuzzy/Barulho na cozinha (PARTE 7)


Eu não tenho idéia do quão real isso é. Essa memória tem a mesma qualidade das sessões de sonambulismo, então isso podia perfeitamente ter sido inventado por minha mente jovem.

Quando eu era pequena, nós tínhamos um gato gordo e laranja chamado Fuzzy. Eu e ele não nos dávamos muito bem porque ele não gostava de aturar brincadeiras de garotinhas curiosas, mas eu gostava dele porque ele era nosso animal de estimação. Um dia, depois de uma dessas sessões de sonambulismo, eu estava brincando com o Fuzzy e provavelmente usei de muita força ou algo assim, porque ele me mordeu e fugiu. Não foi uma mordida forte e mal arranhou minha pele, mas me assustou e eu chorei.

Isso, aparentemente, não deixou Beau muito feliz. Naquela noite, eu lembro de acordar ouvindo ele chamar meu nome. Muitas de minhas memórias de Beau são mais de sua voz que de qualquer outra coisa, ou de sua face meio que flutuando na escuridão. Nessa noite ele estava bloqueando a janela do meu quarto e inclinado para sorrir de orelha a orelha pra mim. É uma imagem mental um tanto quanto perturbadora, e se eu realmente imaginei isso quando criança, não entendo como eu não pude estar assustada na hora.

Beau me disse para observar algo. Ele parecia muito animado. Seus dedos esbarraram em minha mão e ele disse, “Eu usarei os dentes desse gato em minha coroa.” Então ele voltou para a janela e me chamou. Ele não disse em voz alta, mas eu sabia, da maneira que você simplesmente sabe as coisas com um amigo imaginário e em sonhos, que ele queria me mostrar como um caçador trabalhava.

Eu passei por Beau e olhei para a minha janela. Meu quarto tinha uma vista para o quintal. Era um gramado normal com algumas árvores e um balanço, fechado por uma cerca. A cena inteira estava silenciosa e banhada pela luz da lua, dando uma aparência sombria e de outro mundo. Conforme eu observava, eu vi uma pequena forma entrar no quintal e eu me dei conta que era Fuzzy. Eu estava tão focada em observar ele que não me dei conta que Beau havia saído do meu quarto até que vi outra figura no gramado.

Não era nada além de uma mancha escura. Eu só posso descrever como uma falta de luz. Fuzzy notou imediatamente e se virou para encará-la. A mancha se aproximou dele e eu ouvi aquele miado de alerta que os gatos costumam emitir. Mesmo que seu nome fosse estúpido, Fuzzy era um grande gato. Ele não era de fugir de lutas e era um desses gatos que forçavam os carros a desacelerar para ele. A sombra não parecia assustada, no entanto. Fuzzy silvou e emitiu um grito terrível antes de sumir. A sombra seguiu seus passos, mesmo quando ele pulou a cerca para longe da vista.

Tentei ver para onde eles tinham ido, mas não estavam em nenhum lugar onde a vista alcançasse. Na distância eu ouvi o que parecia como uma terrível luta de gatos. Vocês que já ouviram uma provavelmente sabem o quanto gatos, quando estão lutando, parecem matar um aos outros e um monte de bebês. É realmente terrível, algo que te leva a ranger os dentes de nervoso em alguns casos. Essa era particularmente feroz, mas eu só ouvia um gato. Provavelmente Fuzzy.

Na manhã seguinte eu desci as escadas e perguntei a minha mãe onde Fuzzy estava. Ela disse que não tinha visto ele, mas tinha certeza que ele apareceria. Como a maioria dos gatos, ele provavelmente estava passeando, mas sempre voltaria para casa atrás de comida.

Fuzzy realmente voltou pra casa, mas ele só chegou à extremidade de nosso jardim e não conseguiu passar pela cerca. Minha mãe disse que ele foi atacado e culpou os vira-latas da rua. É óbvio que ela não me deixou ver o corpo dele, e nós o enterramos em uma caixa de sapatos sob uma árvore. Ela provavelmente estava certa e eu provavelmente sonhei a cena só de ouvir a luta lá fora. Ainda assim, eu lembrava o que Beau havia dito.

Essa foi a primeira vez que eu odiei Beau, eu acho.

Ah, e para vocês que não estão familiares com meu último tópico, a razão, mais que qualquer outra, pela qual essas histórias me assustam, é que eu voltei a ser sonâmbula. Meu apartamento não é muito grande, no entanto, então minhas jornadas se limitam às cadeiras da sala e o tapete da cozinha.

Eu contaria isso à minha mãe, mas eu não quero que ela pense que eu estou ficando maluca. Eu não quero ficar maluca, e eu não sei como vou dizer a ela que estou ouvindo vozes e indo a um terapeuta. Além do mais, a resposta dela provavelmente seria para eu ir a uma igreja e rezar. É meio que sua resposta padrão para tudo.

Barulho na cozinha

Já volto.

ANON: Pergunta: O que você faria se descobrisse que Beau é real?

Eu realmente não sei. Eu não sei mesmo. Eu acho que é por isso que eu estou aqui em vez de ir apenas pra terapia. Estou completamente pronta para aceitar que estou ficando maluca ou que eu tenho um tumor. Eu fui criada por uma doutora, e eu tenho fé na medicina moderna e na ciência.

Por outro lado, eu sei que vi alguma coisa noite passada. Eu sei disso. O homem em meu quarto estava lá. O som que eu ouvi estava lá. Para mim, tudo existiu fora de minha cabeça, mais do que qualquer outra coisa que eu passei. Minha mãe sabe que me viu engatinhar como uma maldita aranha para seu quarto. Algo aconteceu com meu gato. Talvez é assim que pessoas malucas se sentem, e talvez nós terminemos descobrindo que eu estou ficando maluca. Mas se isso é real, eu não sei o que fazer.

Me desculpem. Acabei de desligar o telefone. Era meu amigo, o que veio aqui noite passada e me ajudou a vasculhar meu apartamento depois que eu vi o homem. Aparentemente ele acabou de acordar de um episódio de paralisia do sono. Ele abriu os olhos e achou que tinha ouvido vozes em seu quarto. Como muitas paralisias do sono, ele não conseguiu se mover e viu uma figura sombria observá-lo aos pés da cama. Ele não sabe quanto tempo isso durou, mas a figura sumiu e ele acordou de vez, correndo para fora do quarto.

Eu não lhe falei o que vem acontecendo, só que eu achei ter visto alguém em meu apartamento noite passada. Ele está assustado porque nunca teve uma experiência como essa, então ele provavelmente virá para cá pra relaxar em meu sofá. A essa altura, eu estou tão cansada dessas coincidências e tão cansada de estar sozinha nisso que eu provavelmente vou contar tudo a ele.

23/12/2017

Vox e Rei Beau: O que minha mãe pensa ter visto e por que eu posso ter começado a chorar naqueles dias (PARTE 6)


Quando liguei para minha mãe para falar sobre Beau, ela ficou extremamente séria. Normalmente minha mãe é tão radiante quanto uma pessoa pode ser: alguém que se importa, amorosa, que faria bolinhos para todo mundo se não incendiasse a cozinha toda vez que tentasse cozinhar, e bastante racional. Ela é uma doutora brilhante, e a única exceção para sua lógica estrita é que ela é religiosa. Ela definitivamente não gosta de falar de coisas sombrias.

Quando eu fiz 7 anos ela estava acostumada com Beau, mesmo que não tivesse certeza do que pensar dele. Todos os livros e pediatras que ela consultou garantiram que amigos imaginários eram perfeitamente normais, mesmo que esse fosse um pouco mais sombrio. Como eu era uma criança feliz e sadia, que socializava com as outras (e reais) crianças e gostava de rosa e pôneis, se Beau me ajudasse a superar algum pensamento ou medo obscuro então talvez fosse O.K. E, bem, algumas histórias, como a do monstro do closet, eu nunca contei pra ela. Acho que mesmo naqueles tempos eu sabia que não era algo bom pra se falar.

Como meu irmão era mais velho, e, portanto, "legal demais" para brincar comigo, eu constantemente era deixada sozinha e criava brincadeiras comigo mesma. Beau sempre aparecia bastante nisso. Se ele não estava por perto, eu fingia ser ele e lutava contra monstros terríveis ou ia em aventuras. Se ele estava, minha mãe me encontraria sozinha em meu quarto, falando com alguém que não estava ali ou desenhando na quietude. Conforme eu fui ficando mais velha, comecei uma brincadeira nova. Um dia minha mãe me encontrou engatinhando pela casa com um cobertor sobre mim. Ela perguntou o que eu estava fazendo. Eu disse que estava aprendendo a ser uma caçadora, assim como Beau. Ela não pensou muito sobre o assunto, mas ficou bem aborrecedor quando eu também virei uma ladra. Minha mãe encontrava coisas aleatórias escondidas em meu quarto. Às vezes coisas que ela não tinha ideia de como eu consegui apareciam em meu quarto. É claro, eu culpei Beau, e ela me disse que eu deveria falar para “Beau” parar de roubar e arranjar um novo hobby.

Honestamente, isso provavelmente não era paranormal, era só eu. Eu era tão terrível quanto qualquer criança de minha idade, e quem sabe o que eu não estava achando e coletando. Quando minha mãe ameaçou tirar minhas sobremesas até que aquilo parasse, no entanto, a brincadeira mudou. Eu comecei a ser sonâmbula.

Pela manhã, minha mãe me encontrava em lugares estranhos. Começou como algo pequeno – eu estaria no chão do meu quarto ou no térreo, deitada no sofá. Novamente, os médicos garantiram a ela que isso era normal, mas começou a ficar um pouco estranho. Ela me encontraria em lugares que eu não tinha como alcançar ou nos quais ela me ouviria chegando. Alguns desses lugares incluem os armários da cozinha, o chuveiro do banheiro de hóspedes, a mesa de meu irmão, etc. Meu irmão tem o sono muito leve. Ele deveria ter me ouvido entrar e deitar ali. O armário devia ser impossível de entrar e minha mãe quase não conseguiu me tirar dali.

O que é interessante é que eu me lembro disso. É uma de minhas memórias mais sólidas, talvez por ser mais recente. Eu sei que o sonambulismo era parte do jogo. Durante meu sonambulismo eu estava sonhando. Eu podia ver tudo ao meu redor perfeitamente na escuridão, e Beau estava me guiando. Ele estava me ensinando como espiar da mesma maneira estranha que ele fazia. Pelo menos é o que eu acho que acontecia em meus sonhos.

Uma noite minha mãe acordou de seus sonhos. Isso é o que ela diz lembrar de ter acontecido. Eu não estou dizendo que aconteceu e ela mesma admite que pode ter sonhando tudo ou que a memória esteja turva pelo tempo. Mas ela se sente confiante o bastante para me contar isso, o que me leva a crer que ela realmente viu algo estranho.

Quando ela acordou, seu quarto estava completamente quieto e silencioso. O silêncio era igual ao que eu experienciei em minha própria casa. Ela disse que parecia que tudo estava segurando a respiração e esperando por alguma coisa. Minha mãe ficou quieta, mas manteve os olhos abertos e tentou entender o que estava acontecendo. Conforme ela observava tudo, a porta se abriu. Ela abriu sem fazer qualquer ruído, e eu sei que vocês sabem que todas as portas fazem pelo menos um pouco de barulho quando são abertas.

A porta abriu devagar, e eu entrei. Ela disse que meus olhos estavam fechados e eu estava aparentemente sonâmbula, mas engatinhava em meus dedos das mãos e pés com movimentos estranhos. Silenciosamente passei pelo quarto e fui direto para o pequeno corredor que liga o banheiro ao closet. Minha mãe admitiu que ela parou por um momento porque estava incerta do que fazer e sem acreditar no que estava vendo. Sabia, no entanto, que devia ver se eu, por alguma razão, precisava de ajuda, não importava que coisa assustadora eu estivesse fazendo. Eu era sua filha, afinal de contas.

O silêncio no quarto dela havia passado, mas conforme ela se aproximava do closet as sombras e o ar pareciam mais densos. Parecia que o mundo estava sendo sufocado. Eu estava enrolada perto de seus sapatos, sussurrando alguma coisa enquanto dormia. Ela me chamou e perguntou se eu estava bem, e o que eu estava fazendo. Eu disse a ela (ainda dormindo) que estava caçando algo.

Não preciso dizer que ela ficou bastante desconcertada. Ela segurou a pequena cruz que ela sempre usa e rezou em silêncio, o que não pareceu melhorar muita coisa. Depois disso ela disse algo do tipo, “Vox, você precisa parar com isso e voltar para sua cama. Está na hora de você dormir.”

Minha resposta fez zero sentido para ela na ocasião, mas ela definitivamente se lembra. Eu virei minha cabeça do canto que eu estava encarando e olhei para ela, embora meus olhos ainda estivessem fechados. Eu disse, “Mas você não quer que eu me esconda se eles tentarem me encontrar?”

Ela não respondeu. Apenas continuou rezando em silêncio, e depois disso o silêncio em seu quarto passou. Ela ainda estava assustada, mas confortável o bastante para, depois de me observar por alguns longos minutos, me pegar no colo e carregar de volta para meu quarto.

Minha mãe nunca me contou nada disso quando eu era pequena, mas eu lembro que pouco depois disso ela começou a me forçar a ir para a igreja com ela nas manhãs de Domingo. Ela se livrou de boa parte dos meus desenhos de Beau, mas isso não pareceu me incomodar, o que a deixou confusa. Ela finalmente me perguntou, um dia, se eu ainda brincava de caçadora. Eu fiquei bastante séria e disse que não brincava mais de caçadora e não queria ser uma. Eu não elaborei meus motivos na época, mas eu acho que tenho uma memória que explica isso.

Devo alertá-los que a próxima história é desagradável.