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Aquele momento em que a Creepypasta se torna canônica...

Ainda não estou acreditando no que acabei de ver...

Um homem bateu na minha porta à meia-noite, me deu duas escolhas.


Hoje alcanço o marco de quadragésimo aniversário nesta Terra e, em vez de pensar em como lidar com a típica crise da meia-idade, estou decidindo se meu tempo aqui chegou ao fim ou não.

É uma espécie de maldição que corre na família; Desde que minha árvore genealógica se iniciou, os homens da família nunca passam dos quarenta. Até chega-se a comentar que morrem bem na data de seu aniversário.

Pelo menos esse foi o caso do meu pai. Eu estava na faculdade quando recebi a ligação; Eles encontraram o homem de porte atlético morto na varanda da frente, aparentemente de um ataque cardíaco.

No seu quadragésimo aniversário.

Meu tio sofreu do mesmo destino alguns anos depois, assim como meu irmão, que morreu cerca de cinco anos atrás.

Com base nas evidências, eu diria que há algum mérito na suposta maldição, mas, como em todas as regras, há uma exceção; Nesse caso, é meu avô.

Mesmo quando criança, sempre me espelhei nele, como um modelo. De fato, nossos aniversários eram apenas poucos dias de distância, então geralmente nos víamos naquela época do ano.

Ele tinha essa aura ao seu redor, como um escudo invisível que impedia que algo ruim chegasse muito perto. Tudo que fazia, fazia com propósito e com um sorriso eterno no rosto. Apenas uma vez o vi quebrar aquela fachada perfeita: no funeral de meu pai, mas mesmo assim parecia mais decepcionado do que triste.

"Ano zero", era como chamava o quadragésimo aniversário. Para ele, marcou o verdadeiro começo de sua vida, criando piadas sobre sua idade, alegando que completou cinco anos em seu quadragésimo quinto aniversário e assim por diante.

Quando cheguei à idade adulta, seu comportamento mudou levemente, em um dia em que se aproximou de mim para o que chamou de "conselhos de homem".

Me fez sentar, me entregou minha primeira cerveja 'oficial' e começamos a conversar.

“Depois do que aconteceu com seu pai no ano passado, tenho certeza de que você está pensando muito sobre a chamada 'maldição da família'. Não é mentira que todos os homens pareçam simplesmente morrer aos quarenta anos, mas é errado chamar de maldição. Na verdade, é mais como uma benção disfarçada. "

Ele respirou fundo antes de continuar.

"Vai parecer um pouco louco, mas vou falar de qualquer maneira. No seu aniversário, quando você completar quarenta anos, um homem virá bater à sua porta exatamente na meia-noite. Apesar da hora estranha, você se sentirá compelido a deixá-lo entrar. Não se preocupe, ele não irá machucá-lo, ele só quer conversar e, depois que ele disser o que tem para dizer, te dará uma escolha. ”

"Que escolha? O que ele vai me dizer?” Perguntei confuso sobre como simples palavras poderiam ter causado todas aquelas mortes.

"Isso eu não posso te dizer, é algo que você precisa descobrir por si mesmo. Tudo o que posso fazer é avisá-lo e dizer-lhe para viver sua vida ao máximo, pelo tempo que puder."

Ele nunca o trouxe esse assunto à tona novamente e, embora sempre estivesse no fundo da minha mente, eu não conseguia acreditar, mas fiz o que ele disse e tentei aproveitar cada segundo da vida, acreditando que quando completasse quarenta anos, certamente morreria como o resto da minha família.

O que nos leva a hoje, meu quadragésimo aniversário.

Exatamente no início certo da madrugada; Meia-noite, acordei com o que pareciam três batidas suaves na porta da frente. Minha esposa, a pessoa com o sono mais leve do planeta, nem pareceu registrar o som, enquanto eu mesmo, que normalmente durmo pesadamente, acordei assustado.

Eu não havia dormido bem nos dias antecedentes ao meu aniversário, antecipando o fim da minha vida, mas incapaz de acreditar.

Vestindo nada além do meu pijama, fui até a porta da frente. Com uma ligeira hesitação, olhei pelo olho mágico; Do outro lado, estava um homem de meia idade usando terno, com um sorriso amigável no rosto.

"Sr. Shepherd," me cumprimentou enquanto apertava minha mão. "Se importa se eu entrar?"

Sem palavras, não consegui fazer nada além de gesticular para ele entrar na minha casa. Já tinha decidido negar sua entrada a muitos anos atrás, mas me senti compelido por sua presença.

Ele passou por mim e foi direto para a cozinha, parecendo já conhecer minha casa, uma casa que eu herdei do meu pai.

Eu o segui obedientemente até a cozinha e nos sentamos à mesa. Ele apenas ficou olhando para mim sem dizer uma palavra, seu sorriso nunca deixando seu rosto.

Eu tinha muitas perguntas, mas não consegui fazer uma sequer, simplesmente nos sentamos em silêncio, olhando um para o outro, como um encontro às cegas extremamente bizarro.

"Você parece surpreso em me ver", o homem finalmente disse depois de minutos de silêncio. "Creio que já esperava minha visita?"

Assenti com a cabeça, ainda incapaz de falar.

"Vamos lá, Mark, você tem uma língua perfeitamente funcional, pelo menos sua esposa parece pensar assim, não tenha vergonha de usá-la."

"Por que você está aqui?"  Finalmente perguntei.

Seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de total confusão.

"Porque estou aqui? Essa é a pergunta que deseja fazer primeiro? Não, quem sou ou o que fiz com seu pai?"

Não respondi, e ele olhou nos meus olhos, sem mover um músculo.

"Como quiser", suspirou. "Estou aqui para conversar, para lhe dar as respostas para todas as perguntas que você já se fez. Tudo o que você quiser saber, vou lhe dizer, não importa o quão estúpida ou bizarra seja a pergunta, prometo a você nada além da verdade."

"Você matou meu pai?"

"Claro que não, isso é totalmente contra as regras. Simplesmente dei a ele uma escolha e, como todos os homens da sua família, exceto pelo seu brilhante avô, ele escolheu sair."

"Que escolha?"

"Ah, Sr. Shepherd, quer dizer, Mark, aliás, você se importa se eu te chamar de Mark?"

Antes que eu pudesse responder, continuou falando.

"Essa é a beleza do nosso pequeno encontro. Eu lhe darei a resposta, mas não até que eu ache que você está pronto."

Se recostou na cadeira e esperou que eu continuasse fazendo perguntas, embora pelo olhar presunçoso em seu rosto eu pudesse dizer que sabia exatamente o que eu perguntaria.

"Quem é Você?"

"Vamos, Mark, você realmente não precisa perguntar isso, você já sabe, não é?"

Eu tinha minhas teorias e, por mais idiota que fossem, não poderia superar o ridículo da maldição da família.

"Você é o Capeta?", perguntei nervosamente.

"Tecnicamente, isso é verdade, mas não vamos recorrer a xingamentos; prefiro Lúcifer" disse rindo.

Mais uma vez ficou em silêncio, aguardando a minha próxima pergunta, mas eu não conseguia organizar os milhares de pensamentos que fluíam pela minha cabeça.

"Você é bem ruim nisso, sabe? Não que isso faça diferença, sei exatamente o que você quer saber, você nem precisa falar. Então, que tal começarmos com algo inocente, hein?"

Ele olhou bem nos meus olhos, vasculhando meu cérebro, procurando perguntas que eu nem sabia que tinha.

“Ah, você quer saber se sua ex-namorada ainda pensa em você? Julia, esse é o nome dela, não é?"

Assenti automaticamente.

"Ela não pensa, e você não era tão especial assim para ela, apesar do pedestal em que a colocou. Você realmente deveria apreciar mais sua esposa, ela é muito mais adequada para você."

Minha esposa. Eu havia esquecido completamente que ela ainda estava no andar de cima dormindo, mesmo com sua facilidade de acordar, ela certamente acharia suspeito do que diabos eu estava fazendo acordado com um homem estranho sentado na cozinha no meio da madrugada. 

"Podemos ir para outro lugar? Minha esposa está dormindo e-" falei antes de ser interrompido.

"Mark, não seja ridículo, sua esposa não pode nos ouvir."

" É que ela tem um sono muito leve".

Ele se levantou da cadeira e gritou “Ei, Hannah! Estou conversando com Mark na cozinha, estou prestes a contar a ele todos os segredos do universo, e se você descer, também te conto!”

Ele então se sentou em silêncio para ouvir qualquer comoção, mas não ouvimos nada além de silêncio.

"Acho que estamos seguros."

Nesse momento, a maior parte da adrenalina havia se estabelecido em meu corpo, e comecei a entender o aspecto mais vantajoso de nossa conversa. Eu poderia perguntar literalmente qualquer coisa, e ele me responderia, mas ainda precisava de mais provas de que ele era real.

"Pouco antes de meu pai morrer, ele me disse algo que eu nunca contei a mais ninguém. Não entendi na época, mas quando morreu no dia seguinte eu não conseguia parar de pensar naquilo. "

Ele parou por um momento, me dando tempo para duvidar-lo. 

"Seja um homem melhor do que eu, Mark", disse , mas a voz que ouvi foi a do meu pai. Meu coração disparou com a familiaridade, e Lúcifer apenas sorriu em troca.

Todas as dúvidas foram tiradas da minha mente naquele exato momento, então eu decidi perguntar algo mais sobrenatural.

"Se você é real, certamente Deus também existe, o céu e tudo mais?"

Ele parecia verdadeiramente decepcionado com a minha pergunta.

"Ah, Mark, sinto muito."

"Sente pelo quê?"

“Por responder sua pergunta. É claro que ele é real, ele, o céu e as outras criações verdadeiramente magníficas que emergem de seus poderes sagrados, mas você não acha que ele realmente te criou, não é?"

"E-ele não criou?" Gaguejei.

"Não, de maneira alguma, vocês, a humanidade, não passa de um infeliz efeito colateral das criações reais de Deus. Você realmente acha que algo tão horrível poderia ser criado por um ser todo-poderoso? Pense nisso, Mark. Vocês, criaturas, querem destruir seu semelhante que seja vagamente diferente de vocês, acumulam todos os seus bens inúteis, deixando outros apodrecendo na pobreza, enquanto outros prosperam além do que é remotamente necessário. Vocês matam por diversão e, no final, destroem o planeta, sua própria casa, apenas porque são egoístas demais para cuidar um dos outros. Isso não parece algo que Deus criaria, não é mesmo? "

Suas palavras afundaram em mim, como uma âncora ligada à minha alma e lançada na parte mais profunda do oceano.

"Existem pessoas boas aqui também, não é tão ruim assim." Argumentei.

"Você está certo, há muitas pessoas boas por aqui, mas nenhuma delas é realmente ótima. Nenhum de vocês é capaz de ver mais além."

Ele se levantou da cadeira e começou a andar de um lado para o outro, enquanto me ensinava sobre a natureza fútil dos seres humanos.

“No grande esquema das coisas, nada que você faça aqui importa. No final, todos vocês se transformarão em pó flutuando pelo vazio que chamam carinhosamente de 'espaço'" concluiu.

Me senti esmagado. Pensei na minha esposa, o fato de que um dia morreríamos e quaisquer sentimentos que tivéssemos seriam apagados quando a carne em nossos ossos apodrecesse no chão. Nossos trabalhos, trabalhando para fornecer uma função para a sociedade, tudo isso era uma tarefa sem sentido, servindo apenas para estender o fim inevitável do nosso mundo.

"Então-"

"O que acontece quando você morre?" Terminou minha pergunta por mim.

"Sim, vamos para o inferno?"

“Não, você simplesmente deixa de existir, o pequeno fragmento de poder divino dentro de você, aquele que você acha que vale a pena ser chamado de 'alma', é colhido por meus empregados. Precisamos dos fragmentos para criar mais... seres desejáveis.”

Ele fez uma pausa, direcionando sua atenção para a minha geladeira.

"Você provavelmente precisará de alguns minutos para processar isso, tem alguma coisa para comer?"

Ele se serviu de uma cumbuca de frango frio que minha esposa havia preparado como um jantar de pré-aniversário.

"Então, o que você faz, desde que Deus foi embora, aparentemente deixando você para trás com o resto de nós?"

Ele riu com a boca cheia de frango, alguns pedaços de carne voando pelo cômodo.

"Eu não fiquei para trás, escolhi ficar aqui. Alguém tem que garantir que vocês não se revoltem, que não peguem coisas que não os pertencem, é apenas uma questão de tempo antes de descobrir como acessar o outro lado. Na verdade, é muito mais fácil do que você imagina e, embora eu ame uma revolução, não posso deixar qualquer um liderá-la."

Ele detonou com a cumbuca em questão de segundos, mastigando volumosamente a carne, quase gemendo de prazer enquanto fazia.

"Sua esposa é realmente uma cozinheira maravilhosa, Mark. Lembre-se de agradecê-la por mim."

"O que você quer de mim, afinal?", Perguntei.

"Eu quero lhe oferecer uma escolha."

Antes que tudo fosse esclarecido, as paredes ao nosso redor começaram a se dissolver, o chão rachou sob nossos pés e cada peça de mobília não grudada na parede caiu no chão. Fiquei em pânico e olhei para Lúcifer com olhos suplicantes, mas não caímos com o resto, simplesmente flutuamos.

Não demorou muito para que o mundo ao nosso redor fosse apagado da existência e ficamos em um vazio cinzento.

"On-onde estamos?" Gaguejei.

"Espere um segundo", disse ele calmamente.

Edifícios apareceram ao nosso redor, obras-primas arquitetônicas modernas e altas, coloridas em misturas bizarras de prata e azul. Tudo se estendendo para o céu, tão uniforme, nada se diferenciando de seu design vizinho.

"Isso é a utopia!" Lúcifer exclamou quando de repente nos encontramos no topo de um dos edifícios.

Não havia nuvens ou nevoeiro para obscurecer a vista, o que significava que eu podia olhar para longe no horizonte, vendo que a cidade realmente se estendia sem um fim.

"Utopia, sério?"

“Obviamente não, esta é minha cidade. Eu a criei há centenas de milhares de anos atrás, é o que vocês chamam de 'purgatório', embora eu prefira chamar apenas de 'O lugar intermediário'", disse.

"Você criou o purgatório?"

"Sim, é o mais perto do que os humanos jamais chegarão do paraíso. É o único lugar que existe no mesmo reino, pelo menos. "

Olhei em volta, a rua a milhares de metros abaixo parecia tão vazia, sem pessoas.

"Onde está todo mundo?"

“Em uma seção diferente, eu continuo expandindo esse lugar à medida que as pessoas entram. Veja bem, Mark, é isso que eu lhe ofereço. A vida eterna nesta cidade, ou ser apagado pelo próprio tempo, em algumas décadas, e ser rapidamente esquecido pelo mundo em que você viveu."

"Por quê?"

"Como assim por quê? Deus pode ter desistido da humanidade antes mesmo de você ser criado, mas ainda vejo potencial em vocês. Infelizmente, sua crença nele ainda impede a maioria de vocês de aceitar minha oferta, mas você está no estado certo da mente religiosa para ser razoável. Veja bem, preciso que todos acreditem na gloriosa vida após a morte descrita em seus livros religiosos, mas não tanto."

Eu podia sentir a intenção maliciosa por trás de sua oferta. Se ele realmente oferecia a vida eterna, certamente queria algo em troca.

"E qual seria esse potencial?"

"Vamos recuperar o que é nosso, Mark. Deus com certeza não vai te dar nada, mas eu vou," sorriu.

No segundo seguinte, eu caí de volta na minha cadeira, de volta para minha cozinha. Sem aviso, estava novamente em casa. 

"Essa é a escolha que te ofereço, a chance de viver na cidade rateada, de ter um propósito, toda a eternidade na ponta dos seus dedos, mas isso significa que você terá que morrer hoje e vir comigo".

"E a minha família?"

"Sinto muito, Mark, mas eles não estão prontos. A maioria deles foi envenenado pela educação religiosa que receberam em seus lares.  Apenas alguns de vocês são adequados para o trabalho."

Olhou para um relógio na parede, o tempo parecia ter passado mais rápido do que o previsto e a manhã chegara.

“Bem, nosso tempo acabou. Você tem que decidir hoje. À meia-noite, o contrato expira e você volta à sua curta existência."

Ele começou a sair pela porta, mas se virou para me dar um último adeus.

"Ah, e feliz aniversário, Mark, certifique-se de aproveitá-lo."

Me senti exausto depois que Lúcifer foi embora. Recebi o ultimato da minha vida. Peguei uma caixa térmica cheia de cerveja, às sete da manhã, e me sentei na varanda da frente.

Uma hora depois, e duas cervejas depois, vi meu avô passeando pela rua, acenando para mim. Ele podia ver o olhar de derrota no meu rosto e sentou-se ao meu lado.

"Então, como foi o bate-papo, você falou com ele, não é?"

Eu apenas assenti em derrota.

"Por que você escolheu ficar?", perguntei.

Ele olhou para o cooler atrás de mim antes de responder.

"Você tem uma para mim, garoto?" 

Eu entreguei a ele uma gelada, esperando por uma explicação.

“Conheci sua avó quando tínhamos dezoito anos, quando meu pai e o pai dele já tinham nos deixado, então é seguro dizer que eu estava ciente da 'maldição' da família, mas embora não tenha entendido exatamente o que aconteceu até muito mais tarde, prometi a mim mesmo que viveria a vida ao máximo até chegar minha hora. Imaginei que morreria como todos os outros, então imagine como fiquei aliviado quando tive a opção de ficar. ”

Ele tomou um gole longo de cerveja, quase terminando-a em de uma vez só.

"Mas por que quis ficar, se uma vez que morremos, não resta mais nada do outro lado? Se nada aqui importa, então qual é o objetivo?"

"Quem disse que não? Só porque o tempo aqui é limitado, isso realmente significa que não é importante? Além disso, se eu tiver que existir em um lugar sem sua avó, eu simplesmente deixaria de existir. Quando nos casamos, prometi ficar ao lado dela para sempre, e é exatamente isso que pretendo fazer."

Olhei para o meu avô com admiração, aos 83 anos de idade, no final de sua vida útil; No entanto, completamente despreocupado, encarregado de seu próprio destino.

“E o que ele disse? Sobre Deus, humanidade, o lugar intermediário?"

Ele olhou para mim por um momento, ponderando suas próximas palavras.

"Você define seu próprio destino, Mark, nunca se esqueça disso."

Conversamos até minha esposa acordar. Ela fez meu café da manhã favorito, convidou eu e meu avô para entrar. Demonstrou uma genuína expressão de alegria, e eu a invejei, vivendo a vida em ignorância da verdade terrível.

Sorri enquanto comíamos juntos, pela primeira vez desde o meu encontro com Lúcifer.

Ele me deu até meia-noite para escolher entre ficar para trás e ser exterminado da história, ou ir com ele, e viver para sempre no lugar intermediário, para servir em uma guerra contra o próprio Deus.

Vou aproveitar esse dia o melhor que puder, afinal, pode ser o meu último.

Tem um homem no quarto do nenê.

É bizarro que eu estava sonhando com minha filha momentos antes de abrir meus olhos e vê-la me observado ao lado da minha cama. Na escuridão total do meu quarto, eu conseguia distinguir seu contorno pequeno de seis anos de idade: suas mãos entrelaçadas na cintura, cumprindo a aparência duvidosa de ousar perturbar alguém de autoridade, as bochechas gordinhas que sempre puxavam seus lábios em um sorriso, aquela loira encaracolada cabeleira que ela puxou da mãe que roncava delicadamente ao meu lado. Eu estava sonolento e a luz do sol ainda não havia passado pelas janelas, então eu sabia que era de madrugada.

"Lucy?"

"Papai, tem um homem no quarto do nenê."

Palavras tão sinistras em uma voz tão doce.

Em segundos, arranquei as cobertas de cima de mim, acordando minha esposa no processo, depois corri pelo corredor, passando pelas fotos penduradas na parede e entrei no quarto no final do corredor. Com um simples girar de maçaneta, entrei no quarto do meu filho de dois meses: as paredes cor de menta, as caixas de fraldas que ganhamos no do chá de bebê, uma cesta cheia de pelúcias, chupetas e lenços umedecidos. Mas atrás do berço, onde meu filho Noah estava dormindo, havia algo de apavorante.

Um intruso entrando pela janela.

O intruso esticou o pescoço quando a luz acendida o alertou da minha presença. Foi então que notei a faca. O homem era grande, com cabelos compridos e oleosos e barba despenteada. Ele cheirava a suor e aquele cheiro azedo e podre de drogas vaporizadas. Eu entrei em ação antes que ele pudesse alcançar uma posição firme ou puxar a faca a seu favor. Contornei o berço onde meu filho ainda dormia e retirei um pesado suporte de livros da estante; depois, quando os livros de bebê caíram da prateleira, investi contra o os braços dele enquanto se agitava e batia no peitoril da janela. Depois que o intruso tentou me dar vários golpes com a faca ao léu, foquei em sua cabeça. Depois que minha arma entrou em contato com seu crânio algumas vezes, ele se retirou para o quintal, andando desajeitadamente em torno do nosso canteiro de flores antes de mancar por cima da cerca e desaparecer na rua escura.

Peguei Noah, que felizmente ainda estava dormindo totalmente alheio ao acontecido, e o segurei firmemente contra o meu peito.

"O que está acontecendo? Por que a janela está aberta?" Ouvi minha esposa perguntar atrás de mim quando entrou no quarto de Noah.

"Ligue para a polícia. Agora. Tinha um invasor aqui."

"O quê?" Ela riu.

"Agora", exigi, alto o suficiente para projetar vocalmente meu medo, mas involuntariamente acordei Noah.

Ela telefonou para a polícia enquanto eu acendia todos os interruptores da casa, principalmente os externos, e passeava pelos quartos com Noah no meu colo, fazendo o possível para acalmá-lo. Demorou duas voltas pela sala de estar, mas eventualmente ele estava calmo o suficiente para eu e minha esposa conversarmos depois do telefonema dela.

"Você vai me dizer o que aconteceu?" Ela perguntou.

"Sim. Desculpa ter gritado. Eu fiquei nervoso."

"Está bem. O que aconteceu?"

“Alguém estava tentando entrar na casa pelo quarto de Noah. Esqueci de trancar a janela depois que pintamos o quarto dele. Lembra que abrimos para ventilar? Sinto muito querida. Algo poderia ..."

"Pare com isso", minha esposa exigiu. "Noah está bem. Você está bem. Estou bem. Todo mundo está bem."

"Você está certa."

“A polícia está a caminho. Eles vão encontrar o cara. "

"Não vai ser difícil. Era um ladrãozinho viciado procurando algo para vender."

“O que fez você acordar? Noah estava chorando?"

Parei por um momento para considerar uma resposta e depois olhei para meu filho de olhos curiosos. "Sim, o choro de Noah me acordou."

"Me sinto péssima por não ter acordado."

"Não se preocupe, o importante é que estamos todos bem. Quer um café, querida?"

Ela foi para a cozinha e ouvi a cafeteira sendo ligada. Levei Noah para o corredor e apoiei seu corpo contra o meu, para que ele estivesse ao nível dos olhos com as fotografias que estavam penduradas na parede do corredor. Mostrei ao meu filho uma foto de uma menina de seis anos com cachos loiros que flanqueava um sorriso entre as bochechas gordinhas.

"Essa é Lucy, Noah. Ela é sua irmã mais velha. "

Noah, com dedos minúsculos e atarracados, estendeu a mão e plantou a palma da mão na moldura.

“Eu sempre soube que ela seria uma ótima irmã. Ela morreu antes de você nascer, Noah, e sua mãe e eu sentimos saudades todos os dias. Mas é bom saber que ela ainda está cuidando do irmãozinho dela."



Entrei em pânico quando perdi meu filho na Disney, mas era melhor ter voltado sem ele.

Oi gente, gostaria de pedir desculpas pela tradução anterior que estava cheia de erros horríveis gramaticais e de português. Como já anunciei antes, tenho um bebê de quatro meses agora e meu tempo de tradução se resume as sonecas que ele tira durante o dia (que não é muito tempo). Como tento traduzir o mais rápido possível para não deixar o blog parado por muitos dias, acabo pecando na revisão e na digitação rápida demais. Vou tentar ser mais cuidadosa, mas não prometo tanta frequência. É isso. Espero que gostem dessa. Até mais, Divina. 



Dezenas de crianças desaparecem na Disney World toda semana. A maioria deles é encontrada ilesa dentro de algumas horas e continua a explorar o parque com suas famílias como se nada tivesse acontecido.

Uma pequena porção dessas crianças achadas nunca chega a voltar para casa. Eles se tornam vítimas do parque - vítimas de um segredo tão sinistro que nem os funcionários se atrevem a falar sobre ele.

***

Ser mãe solteira é difícil. Muito difícil. Odeio o meu trabalho, tenho uma série de advertências na agenda da escolinha do meu filho por buscá-lo depois do horário combinado, e meu corpo está um lixo por causa de anos fast food e abuso de álcool.

Todos os dias são uma luta. Minha mente é uma cela de prisão e perdi a chave da porta há tanto tempo que nem me importo mais em procurá-la.

Por isso, quando ganhei uma viagem à Disney World através do sorteio anual da minha empresa, quase chorei lágrimas de felicidade. Nada de bom acontece com meu filho e eu. A lista de nossos infortúnios é longa, e essa viagem nos proporcionou a única coisa que pensávamos que nunca recuperaríamos: a esperança. Esperança não só por uma semana divertida, mas esperança de que talvez a desgraça perpétua que domina nossas vidas desde que meu marido nos deixou cinco anos atrás finalmente comece a se dissipar.

Você pode imaginar meu horror quando perdi meu filho durante o último dia de nossa viagem. Estávamos indo para a Space Mountain, quando de repente tive que usar o banheiro. Disse ao meu filho para sentar em um banco próximo enquanto fazia minhas necessidades e depois entrei no primeiro banheiro limpo que encontrei. 

Quando saí do banheiro alguns minutos depois, ele havia sumido.

O medo tomou conta de mim enquanto eu girava minha cabeça ao redor da multidão dispersa, dando o meu melhor para localizá-lo antes que ele desaparecesse para sempre. Meus esforços foram fúteis. Era mais fácil encontrar um bilhete da mega sena premido colado no meu sapato do que localizar meu filho entre as centenas de outras crianças de oito anos que passavam pela calçada.

Passei as cinco horas seguintes vasculhando o parque em um frenesi de pânico. Por mais que procurasse, não conseguia encontrá-lo.

Quando eu estava prestes a chamar a polícia, eu o encontrei sentado no mesmo banco em que o deixara mais cedo naquele dia. Ele usava uma fantasia de Mickey Mouse de corpo inteiro, e eu teria passado por ele se não reconhecesse a mochila Scooby Doo desgastada, apoiada nos joelhos.

Corri até ele e passei meus braços em volta de sua cabeça. As orelhas duras de sua máscara de Mickey Mouse cravaram em minhas costelas enquanto eu o abraçava, mas eu estava muito feliz com o seu reaparecimento para soltá-lo.

"Graças a Deus te encontrei", falei. "Achei que alguém tinha roubado você."

Seu corpo estava mole nos meus braços. Se não fosse pela ascensão e queda constantes do peito dele contra a minha coxa, acharia que estava inconsciente.

"Onde você estava? Juro que procurei por todo o Magic Kingdom por você. E onde conseguiu essa fantasia de Mickey?"

Ele não respondeu.

Foi nesse ponto que fiquei preocupada. Meu filho normalmente é muito falador; era diferente dele ser tão reservado, especialmente depois de um evento tão traumático.

"Por que você não tira essa máscara? Eu quero ver que você está bem."

Me abaixei para tirar sua máscara, mas ele afastou minhas mãos com tanta força que dei um passo para trás.

Nunca antes ele tinha me agredido. O golpe me surpreendeu tanto que fiquei ali parada na calçada por quase um minuto, sem saber como agir.

Eventualmente, recuperei o juízo e sentei no banco ao lado dele.

“Eu sei que você está com medo”, comentei, “mas está tudo bem agora. Estamos juntos novamente. Você está seguro."

Mais uma vez sem resposta.

"Por que você não está falando comigo, amigão? Você está machucado?"

Sem resposta.

Eu tentei por mais alguns minutos que me respondesse, mas eu poderia muito bem estar conversando com um manequim. Tudo o que ele fazia era ficar sentado imóvel no banco, olhando para longe através dos olhos de Mickey. A única vez que ele se mexia era afastar minhas mãos toda vez que tentava remover sua máscara.

Ficamos no banco por mais de uma hora antes de eu agarrar sua mão e levá-lo de volta ao nosso quarto de hotel. Felizmente ele não resistiu enquanto eu o manobrava pela multidão. Para minha surpresa, ele me seguiu com uma docilidade de cachorro e até me permitiu colocá-lo na cama naquela noite, com a fantasia de Mickey Mouse e tudo.

Naquela noite, debati comigo mesma se deveria entrar em contato com as autoridades do parque sobre seu desaparecimento (e fantasia roubada), mas decidi não fazer. Meu instinto estava me dizendo que sim, mas estava exausta demais para prolongar o assunto. Ele parecia relativamente ileso, por um lado, e tínhamos que chegar ao aeroporto às seis da manhã seguinte. Ligar para as autoridades potencialmente prolongaria nossa estadia, e eu não podia comprar outras duas passagens de avião. Então, guardei o assunto para mim mesma e adormeci no momento em que minha cabeça bateu no travesseiro.

Chegamos em casa ao pôr do sol da tarde seguinte. Meu filho ainda não estava conversando e continuou a afastar minhas mãos toda vez que eu tentava tirar a roupa dele.

Nesse ponto, minha preocupação aumentou. O comportamento dele não era apenas bizarro, mas não comia nem bebia nada há mais de um dia. A menos que ele estivesse comendo e bebendo escondido quando eu não estava olhando, deveria estar à beira da desidratação.

Decidi levá-lo ao médico na manhã seguinte. Algo terrível obviamente tinha acontecido com ele enquanto esteve desaparecido, e me senti como uma péssima mãe por esperar tanto tempo para buscar ajuda.

Quando chegamos ao consultório médico, fez tanta birra que as enfermeiras tiveram que contê-lo. Por mais que tentassem remover sua máscara, ele sempre encontrava uma maneira de combater os esforços de todos. Era como se aquela coisa estivesse colada na cabeça dele.

Eventualmente, o médico ficou tão preocupado que decidiu fazer um raio-x. Ele me disse que era a maneira mais rápida de avaliar sua saúde mesmo com a fantasia, e que eles bolariam um plano enquanto o raio-x processava para remover a máscara. Agradeci sua ajuda e depois observei enquanto eles escoltavam meu filho para outro quarto.

O médico voltou alguns minutos depois. Seu rosto estava tão pálido que achei que iria desmaiar no meu colo.

"Terminamos o raio-x", disse, a voz trêmula.

"Graças a Deus", falei. "Ele está bem?"

O médico olhou para mim por quase um minuto sem responder, as mãos tremendo.

"Qual o problema, doutor?"

“Sua cabeça e a espinha dorsal são as únicas partes dele por baixo do traje. O resto do corpo está desaparecido. "

Ontem a noite, deixei uma mulher comer de graça no meu restaurante. Foi a melhor decisão que já tomei na vida.

Quando eu era pequena, meus avós me criaram. Meu pai sumiu muito antes de eu nascer e, minha mãe, em uma tentativa de me dar a melhor vida possível financialmente, trabalhava em dois empregos durante a semana e mais um nos finais de semana. Eu nunca a via, então, naturalmente, meus avós os substituíam nesse sentido.

Mesmo tendo nosso próprio apartamento, eu passava maior parte do tempo na casa dos meus avós. Eram aposentados e viviam modestamente, sobrevivendo de suas aposentadorias e investimentos, morando em um simples bangalô de dois andares. Não eram ricos - mas para uma criança, aquele estilo de vida era o paraíso. Eu amava ficar com eles e explorar cada cantinho daquela maravilhosa casa antiga. Adorava ficar correndo pelo jardim durante o verão e minha vó ficava me molhando com a mangueira. Mas, acima de tudo, eu amava comer suas comidas tão caseiras.

Sem dúvidas, minha vó fazia a melhor comida que já experimentei na vida. Ela cozinhava devagar e com amor, seguindo meticulosamente receitas que passavam na nossa família de geração em geração, mas sem medo de adicionar seus próprios temperos. Embora não existisse nada em seu cardápio que eu não gostasse, o que eu mais amava era sua pizza.

Minha vó carregava sangue italiano, então sua receita de pizza era legítima. Passada para ela por sua mãe, e para mãe de sua vó, e assim por diante até os descendestes que realmente moravam na Itália. A massa sempre ficava fina porém fofinha, de derreter na boca, e com um molho cheiroso demais que sempre me deixava com água na boca. O recheio não importava muito; contanto que acertasse a massa e o molho, você tinha acertado a pizza. 

Por demorar muito e demandar muito trabalho, ela não fazia a pizza com muita frequência - geralmente em ocasiões especiais, como no meu aniversário, ou quando entrei para a faculdade. Até fez uma para mim quando noivei, mesmo que na época estivesse lidando com alguns problemas de saúde.

Depois que ambos meus avós faleceram, decidi que queria fazer algo especial para honrá-los. Nessa época eu estava indo muito bem: tinha um emprego bom que me pagava bem, e tinha recebido uma boa quantia de herança. Então para honrar suas memórias, decidi abrir minha própria pizzaria. Coloquei o nome de Buchanan's - o sobrenome dos meus avós, um que eu não compartilhava - e me empenhei em vender a pizza caseira e autêntica da minha avó.

E não deu muito certo. 

Não sei se foi a localização ou o tipo de cozinha, mas o restaurante nem se sustentou de pé antes de desmoronar. Eu havia me demitido e mergulhado de cabeça nessa aventura, com investimentos não só do meu marido como de minha mãe também; além disso, não era apenas um negócio para mim, era da memória de meus avôs que estamos falando aqui. O fato de não conseguir mais de dez clientes por dia era de partir o coração. 

Em uma noite, meses depois da inauguração, eu estava fechando mais cedo. Geralmente fechamos as 22h, mas já eram 21h e havia sido um dia péssimo: geralmente conseguimos alguns pedidos de tele-entrega e entre quatro ou cinco mesas no salão. Mas não naquela noite. Nenhuma única alma viva havia entrado no restaurante. Então decidi começar a fechar tudo, para pelo menos conseguir chegar em casa antes do meu filho ir dormir. 

Estava terminando de arrumar o salão quando ouvi. 

Uma batidinha leve vindo da janela, seguido do som levemente estridente de dedos contra o vidro limpo. Espiei lá fora, esperando que fosse um cliente mas, nada. Ninguém.

Entretanto, meus olhos se estreitaram para a noite. Lá fora estava tudo muito escuro - estranho para aquela vizinhança, normalmente muito bem iluminada pelo brilho dos postes de luz, outras lojas, luzes de varanda, faróis... Mas naquela noite, nada. Foi aí que notei que o ar no meu restaurante estava... não sei. Estranho? Comprimido, acho, quente e parado, como se alguém tivesse feito vácuo lá dentro, deixando só um pouquinho de oxigênio para eu respirar.

Achando ser só mais uma daquelas noite, continuei o que estava fazendo, levantando cadeiras para colocar ao contrário em cima das mesas, assim poderia passar pano no chão. Quase instantaneamente, ouvi novamente. Mais alto dessa vez, o som inconfundível de alguém batendo na minha porta de vidro. 

Olhei e, novamente, não havia ninguém lá. Achando se tratar de uma brincadeira de crianças da vizinhança, andei rapidamente até a porta, irritada, puxei e abri, preparada para gritar com eles como uma mulher louca e-

Mas lá estava uma mulher parada na minha frente. 

Ela parecia... normal. Bem, normal o suficiente. Alta, magra, quase esquelética, a pele debaixo de seus olhos  tão esticada que parecia da finura de uma folha de papel e tingida de um roxo violento. A única coisa diferente nela era o broche que usava em seu cardigã: era pequeno, mas encrustado de pedrinhas escuras. Parecia que tinha tirado do próprio filme do Titanic ou algo do tipo.

Ela parecia... Bem, parecia exausta. Instantaneamente senti pena dela, como se tivesse a necessidade de ser super simpática. Lembrava a minha mãe, quinze anos atrás. Além do mais, talvez quisesse comprar pizza. 

Dando um sorriso e usando minha melhor voz de vendedora, falei "Posso ajudá-la?"

A mulher sorriu, e quando o fez, seu rosto pareceu se iluminar. Me senti inquieta e relaxada ao mesmo tempo. Era estranho.

"Desculpa, tive um longo dia e preciso muito usar o banheiro. Posso entrar?" perguntou, e se moveu em direção do interior do restaurante. 

Eu ri. "O banheiro é para só para clientes," brinquei, mas sai da frente para que pudesse entrar. Tá bom, ela não queria pizza. Mas a companhia era bem vinda, mesmo que por alguns momentos enquanto eu a guiava até o banheiro. 

"Ah. Tudo bem. Bem, eu não tenho dinheiro aqui, mas-"

"Mamãe?"

A voz de uma menininha surgiu de trás da mulher, eu dei um pulo, não tinha notado sua presença antes. Espiando melhor na escuridão, pude ver sua silhueta: cabelos escuros, como os da mãe.

"Mamãe, podemos ir? Tô com frio -"

"Ainda não, Annie, mamãe precisa muito usar o banheiro -"

"Ma eu tô com muita fome!"

A mulher se virou em direção da filha e pude dar uma olhada melhor em seu rosto. Era idêntica a sua mãe, só não parecia que iria desmaiar a qualquer segundo. Usava uma boina decorada com as mesmas jóias do broche da mãe. "Annie," sibilou a mulher, "espere aí fora um pouquinho, tá bom? Eu já vou." 

Instantaneamente me senti mal pela menina - e pela mulher. Me lembrava de mim e da minha mãe. Ou pelo menos, como as coisas poderiam ter sido se não fosse meus amados avós. 

"Ei," falei, "porque vocês duas não entram e comem uma pizza? De graça. Aqui dentro está quentinho e-"

"Não!" A mulher exclamou. "Não, não, obrigada. Annie está bem, ela pode esperar lá fora, isso é muito generoso da sua parte."

"É por conta da casa," repeti, meus olhos implorando para a mulher entrar. Não sei se era orgulho ou medo que a fazia recusar minha oferta, mas queria que ela entendesse que eu não estava ali para julgá-la. Sinceramente só queria ajudar. Não conseguia pensar em nenhum jeito melhor para honrar a memória de meus avôs. Além do mais, isso não mudaria nada na minha situação financeira. 

A mulher ficou em silêncio. Parecia pesar suas opções. 

"Mamãe?" Annie gemeu. 

Com um suspiro, agarrou a mão da filha e passou por mim, entrando no restaurante. "Tudo bem, mas não vamos demorar, tá bom? Mamãe também está com fome, Marianne." 

A duas acabaram ficando mais ou menos duas horas. Coloquei fogo no forno a lenha e fiz, no total, quatro pizzas broto - todas para Annie, que comeu duas das pizzas com tanta paixão e alegria que eu não havia visto desde que minha avó as fazia para mim. Sua mãe, Layla, não comeu, insistindo que tinha bastante comida em casa que seria desperdiçada se não comesse naquela mesma noite. 

Quando Annie terminou de comer, eu embalei as pizzas restantes e coloquei nas mão de Layla. "Para o resto da semana," falei, dando um sorriso. "São ótimas para o almoço. Uma coisa a menos para se preocupar durante a semana." 

Layla, que havia ficado quieta e parada maior parte da refeição, olhou para mim, depois para a filha, e de volta para mim. Exalou. "Sabe, eu nunca deixo Annie vir comigo quando... bem, tem coisas que não quero que ela veja. É o trabalho da mãe proteger seus filhos, certo? Não importa o quão difícil seja." 

Estreitei meus olhos, confusa. "Sim, claro. Concordo." 

Layla hesitou. Então colocou a mão livre no ombro de Annie. 

"Agradeça a refeição," disse. "Temos que ir agora. Só... não deixe a porta do restaurante aberta assim tão tarde. Essa vizinhança é cheia de gente... estranha."

Com Annie me acenando tchau, as duas foram embora. 

Continuei fechando como de costume, mas por causa daquele encontro, me atrasei algumas horas da rotina de sempre. Quando tranquei a porta, já passava um pouco da meia noite - muito mais tarde do que eu gostaria que fosse, dado o fato de que aparentemente todas as luzes da vizinhança pareciam estar quebradas. Além disso, considerando o aviso de Layla, não era do meu maior desejo ficar andando por aí na escuridão total de madrugada. Tudo bem, era apenas uma caminhada de uns cinco minutos até onde eu havia estacionado. Mas muita coisa pode acontecer em cinco minutos. 

Rapidamente, tranquei a porta e comecei a trotear até o carro. Era difícil enxergar um palmo afrente de meu rosto de tão densa que era a escuridão, então iluminei meu caminho com a lanterna do telefone e- 

Foi aí que eu o vi. 

Com o brilho da lanterna do meu celular, vi a silhueta de um homem a poucos metros de mim. Mas não era um homem... humano. Era alto, mais alto do que qualquer outra pessoa que já vi na vida, mas suas costas estavam dobradas em um ângulo retorcido, de modo que seu pescoço enrugado e alongado descia até o nível dos olhos.

Quando vi aquilo, ofeguei, congelada de medo, sem conseguir fazer nada além de encará-lo. Seus dedos eram longos e pareciam estar quebrados e dobrados em partes extras, seu rosto emaciado, com pedaços de pele penduradas em seu rosto como papel de parede velho. Seus olhos estavam fechados, mas sua boa estava curvada em um sorriso satisfeito. 

Eu não conseguia fazer nada. Estava fisicamente incapacitada de me mover, ou de sequer gritar. Consegui abrir minha boca para tentar gritar, mas quando o fiz, a coisa também abriu sua boca, revelando muitas carreiras de dentes afiadíssimos. 

Chocada, soltei um grito. Foi aí que a criatura se jogou na minha direção, seus ossos fizeram um som arrastado horrível contra o asfalto. Eu não conseguia mexer nem minhas pernas nem meus braços. Meu celular caiu da minha mão paralisada, deixando-nos no breu total mais uma vez. Eu sentia o cheiro rançoso de seus ossos. Aceitando meu destino cruel, fechei os olhos e esperei pela morte dolorosa que viria a seguir - 

Mas nada aconteceu. Senti uma onda de ar gelado me envolvendo, e depois o som parou. O cheiro sumiu. E, dentro de um instante, consegui me mexer de novo. Depois de alguns segundos para recuperar o ar e o que restara da minha sanidade, estiquei meu pé para frente e senti meu celular. Desajeitadamente, peguei-o do chão, e simplesmente corri em direção do meu carro. 

Quando cheguei em casa, minha mente estava basicamente em piloto automático. Era como se meu cérebro ainda estivesse frágil demais para processar aquela noite, então simplesmente afastou todos meus pensamentos momentaneamente para que eu não ficasse louca de vez. 

Já era mais de uma hora da manhã, mas meu marido ainda estava cordado me esperando, me recebendo com um sorriso caloroso do sofá assim que pus os pés dentro de casa. 

Automaticamente, deslizei pela sala de estar e fui até ele para lhe dar um beijo. 

"O que é isso?" perguntou, enquanto eu me afastava de nosso selinho. 

"Hmm? Isso o que?"

"Isso - na sua blusa. É novo?"

Meu coração acelerou. A criatura tinha me marcado? Havia um pedaço de sua pele pendurada na minha blusa? Bile subiu pela minha garganta enquanto as memórias daquela noite encharcavam meus pensamentos. 

Olhei para baixo. 

Preso ao tecido, em cima de meu peito, estava um broche, encrustado com pedras brilhantes vermelho sangue. 



Infernum

“Um gosto do inferno” ou apenas “Infernum”, era o título de um livro que teria sido escrito por uma pessoa chamada Carrie Shay. Um trecho que seria parte do livro, foi publicado no Reddit em 2008. A autora em questão, comentou que planejava publicar um livro de contos, pedindo a opinião das pessoas sobre o que achavam dos seus textos e poemas. O que se sabe de Carrie, é que a mesma era uma garota esquisita, as vezes falando sobre depressão, suicídio e assuntos mais complicados como incesto, pedofilia e outras coisas que não queremos ouvir na mesa de jantar e nem em um círculo animado de amigos.

Ao ser perguntada por alguém sobre que tipo de contos ela escrevia, a mesma disse que adorava escrever coisas para chocar o leitor, se baseando em algumas histórias japonesa obscuras que você encontra nas entranhas da internet.

"Assisti vários filmes que as pessoas consideram pesados e chocantes, porém, nunca me fizeram sentir nada. A maioria era focada no Gore, forçavam tanto para chocar o telespectador que começava a ficar ridículo. Eu queria escrever algo que os deixassem desconfortáveis, acho que a leitura tem um poder bem maior para fazer isso. Quero que eles leiam e fiquem “Meu Deus!”.

Essa foi uma de suas respostas para um dos seus poucos fãs na época. Ainda assim, nem sempre os textos e poemas de Carrie tinha temas pesados, alguns eram interessantes e abertos a interpretações. Um deles, sem um título, foi postado por ela em 2007, um ano antes dela chutar o balde de vez com “Infernum”.

“Acorde e vá para de baixo da cama
Lá fora o inferno reina
O demônios tentaram quebrar as janelas
Espere o som diminuir e depois volte a dormir
Assista a Tv pela manhã
Veja as pessoas felizes em um local distante
Sorrindo para as folhas levadas pelo vento de uma tarde de outono
Nós estamos presos
Neste canto do mundo
Os demônios estão vindo
E demônios mais poderosos estão logo atrás
Aqueles que lhe dão poder
Aqueles que lhe dão liberdade
Aqueles que falam de amor
Apenas volte a dormir
O amanhecer continua belo.”


Alguém uma vez a perguntou o motivo de usar bastante a palavra “Inferno” em suas histórias, Carrie simplesmente respondeu

"Acho que vivemos um gosto do inferno neste mundo, entende? Este lugar é terrível. Vivemos em uma espécie de demonstração e devemos tirar uma lição disso, devemos ser boas pessoas. Não tem nada de bom aqui, tudo é uma merda. Mas, ainda pode piorar. Como eu disse, esse mundo é apenas uma pequena amostra, você não quer ver o que vem a seguir. Sejam boas, crianças".

Podemos perceber que ela não tem uma visão muito otimista do mundo, algo não muito sério, quer dizer, muitas pessoas tem pensamentos extremos de como o mundo é um lugar cruel e problemático, entretanto, muitas dessas pessoas tendem a ter fiéis seguidores que concordam com tudo que elas dizem.

Ela continuou postando seus contos normalmente até agosto de 2008, quando começou a agir estranhamente, não respondendo mais seus “fãs” como antes. Notando essa mudança de humor, todos começaram a perguntar o que estava se passando, se ela estava bem, se algo tinha ocorrido. Então, ela resolveu responder.

"Em algum lugar, neste momento, uma pessoa tá sendo mantida em cativeiro. Ela está sendo torturada e estuprada. Os demônios estão arrancado suas entranhas. Como conseguimos viver sabendo que isso tá acontecendo em algum canto desta merda de mundo? Não consigo ficar bem com isso, cara. Eu odeio gente como vocês, que falam em viver a vida ao máximo, viver no limite da porra toda, que coisa mais inútil. Isso tudo é um pesadelo no qual estamos presos até finalmente acordamos. Vocês sabem muito bem quando acordaremos"

Alguns dias depois ela respondeu as pessoas uma última vez, agora falando sobre o livro. Ela não falou muito do conteúdo, apenas seu título foi dito e o seguinte trecho

“Tudo parecia um sonho distante, nada mais restava, nem lembranças, nada. A única certeza em sua mente era a morte, acompanhada de seis seres grotescos ao som de um filme dos anos 90. Não sentiria mais o calor das manhãs de verão, o único calor que sentirá é aquele que a fará brilhar por toda a floresta. Não podemos esquecer também do homem das mil faces. Ele entrará em sua residência pela madrugada e devorará sua carne”

Depois disso, Carrie não postou mais nada. Muitas discussões ocorreram até alguns usuários chegarem à conclusão que uma parte do trecho batia bastante com a descrição do assassinato real de Suzanne Capper, que ocorreu em dezembro de 1992. Já a parte do homem das mil faces, poderia ser apenas outra coisa envolvendo outro assassinato brutal? Teorias foram discutidas, mas ninguém chegou a um acordo sobre o que se tratava. Pessoas apareceram dizendo conhecer Carrie, afirmando que ela cometeu suicídio depois de delirar uma noite inteira. Outras diziam que ela apenas resolveu se concentrar em seu livro. Nada foi comprovado. Anos se passaram e não se tem nenhuma notícia de um livro com tal título escrito por essa autora, o que aumentou ainda mais as crenças em um possível suicídio. Seus poucos continuam esperando uma resposta, mas a verdade é que Carrie tornou-se apenas alguém esquecida no tempo que, ainda não explicou exatamente no que estava pensando quando resolveu tocar no assunto do "Homem de mil faces". Eu apenas passei a trancar melhor as portas de casa toda noite, por precaução.

Autor: Tai

Toda noite, as 04:00, ouço uma mulher chorando no meu jardim.


Toda noite, sem falta, ouço uma mulher chorando no nosso jardim. 

A primeira vez que aconteceu, minha esposa me acordou. "Harry, tá ouvindo isso?" perguntou, eu um sussurro aterrorizado.

Essa são com certeza quatro palavras que não são boas de se ouvir no meio da madrugada. Imagens de uma invasão domiciliar correram pela minha mente - tiros sendo disparados, nossa criança e minha esposa grávida morta. Mas quando me concentrei para ouvir, tudo que ouvi era o som de alguém chorando. 

Homem ou mulher, criança ou adulto, não consegui distinguir. 

Eu só sabia de uma coisa: estava vindo bem debaixo da nossa janela. 

"Tem alguém lá fora?" Emily perguntou da cama.

"Não sei."

Apesar do dom, quando olhei lá para as sombras, não pude ver ninguém. "Vou dar uma olhada," falei, indo em direção da porta. 

"Não. Fique aqui, vamos chamar a polícia. Alguns bandidos usam gravações de bebês chorando para as pessoas saírem de casa e-"

Eu ri. "Aonde você você viu isso? Polícia 24 horas?" Abri a porta. "Primeiramente, não é um bebê. Segundo, não vou ir lá para a rua. Só vou dar uma olhada. Não consigo ver nada dessa janela aqui."

Desci as escadas, armado com nada mais que um celular. Mas quando iluminei com a lanterna pelas janelas, não encontrei nada. 

O choro, entretanto, continuava. 

Agora parecia que vinha da floresta que cercava nosso jardim. Logo depois da divisa das árvores. E, para mim, parecia o choro de uma mulher. Contido demais para ser de uma criança (digo por experiencia própria com meus filhos, sei que choram descontroladamente depois de dez segundos de controle,) e suave e agudo demais para ser de um homem. 

Abri uma janela e gritei: "Ei! Você precisa de ajuda?" 

O choro parou imediatamente. 

Mas não ouve resposta. Não ouvi mais nenhum som vindo da floresta, a não ser o vento e o farfalhar das folhas das árvores.

"Olá?!" Gritei. "Tem alguém aí?"

Silêncio.

Então começou a gritar. 

Um grito de arrepiar todos os pelos do meu corpo. Incessável. Sem som, sem pedido de ajuda. Apenas gritos. 

Isso me deixou alerta. Peguei o meu celular e liguei para a polícia. "Tem uma mulher gritando no meu jardim. Acho que está machucada ou em perigo. Ela não me responde. Meu endereço é..."

Ouvi a escada rangendo enquanto minha esposa descia. "Você ligou para a polícia?" Assenti. "Meu Deus do céu, o que será que está acontecendo?"  Ela mantinha as mãos em cima da barriga, como que para proteger nosso filho não nascido dos horrores lá de fora.

Estiquei a mão em direção da porta de vidro. E se alguém estivesse a matando? Naquele exato momento? Ou se estivesse sendo sequestrada, e já estaria longe quando a polícia chegasse?

Emily me puxo de volta para dentro. "Não, você não vai lá."

"Mas-"

Ela fechou a porta e trancou. "Você pode acabar morto!"

Por sorte, a polícia chegou um ou dois minutos depois. Quando entraram no jardim, os gritos pararam imediatamente. Procuraram com lanternas por entre as árvores. 

Vinte minutos depois, voltaram de mãos vazias. 

"Provavelmente o que ouviram eram raposas," o policial disse. "Elas tem esse grito bizarro quando estão acasalando, parece mesmo uma mulher gritando." 

"Mas eu ouvi choro-"

"Olha no youtube," disse, com um sorriso. "Também já confundi. Parece mesmo uma mulher gritando a plenos pulmões. É uma loucura." 

Quando voltamos para a cama, a luz cinzenta do amanhecer já se espalhava pelo horizonte. Quando não consegui dormir, segui o conselho do policial e procurei sons de raposa. Aparentemente, eles emitem um som que soa muito semelhante a uma mulher gritando.

Me convencendo que era só isso, dormi de novo. 

***

Mas na noite seguinte, aconteceu de novo.

Quatro horas da manhã em ponto. O choro leve vindo da floresta. Liguei para a polícia de novo, e mais uma vez, não encontraram nada. 

Também me adivertiram para não ligar de novo por causa do choro, só se as coisas visivelmente piorassem. 

E então não liguei quando aconteceu na noite seguinte. E na outra. E na outra. Eu tinha pesquisado sobre as raposas, e em todos os lugares que li, elas apenas gritavam não choravam. Mas me forcei a voltar a dormir todas as vezes.

Investimos em uma máquina de ruído branco. Compramos ventiladores também, para um efeito melhor. Ligamos tudo no máximo e, por cerca de uma semana, todos dormimos feito bebês. Felizmente, os quartos das crianças não ficavam de frente para o quintal, então eles nunca ouviam nada.

E então a noite de 24 de agosto. 


A noite começou bem. Emily e eu conseguimos que as crianças dormissem cedo, e nos abraçamos na cama por um longo tempo. "Nossa pequena Ellie", eu disse, passando a mão pela barriga dela. Apesar de estar grávida de cinco meses, a protuberância era quase  imperceptível. "Tem certeza de que está comendo o suficiente?"

"Estou bem," respondei, segurando minha mão e apertando. "Só não quero engordar demais, como das outras duas vezes." 

"Você sabe que te acho linda independente de quanto estiver pesando, né?" Perguntei. "Você não precisa fazer isso por mim." 

"Não estou." Sorriu, fechando os olhos. "Eu te amo, Harry."

"Também amo você."

Dormimos abraçadinhos. 

Mas acordamos algumas horas depois com o choro. 

Era mais alto. Muito mais alto. Tão alto que podíamos ouvir mesmo com o ruído branco ligado. Enquanto eu me virava e era arrancado do meu sono profundo, levantando da cama, entendi o motivo. 

O chor não vinha de fora.

Vinha de dentro do nosso closet. 

Imediatamente desliguei o ruído branco e levantei. "Quem está aí?" Gritei, minha mão segurando o celular firmemente. Pronto para ligar para a polícia. 

Nenhuma resposta. Apenas mais choros, respirações curtas, fungadas suaves. 

"O que está acontecendo?" Emily perguntou, sonolenta.

"Tem alguém dentro do closet."

Liguei a lanterna do meu celular. A luz brilhava na escuridão, batendo na maçaneta de metal. "Emily, chame a polícia", eu disse, avançando em direção à porta.

Ouvi os sons suaves do tom de discagem atrás de mim - então a voz apressada de Emily.

"Estamos ligando para polícia", anunciei. "Me diga quem você é!"

Mais soluços.


Fui até a porta. Peguei na maçaneta. Com uma respiração profunda, girei e puxei.

Uma mulher apavorada olhou para mim.

Era Emily.

Os olhos dela estavam vermelhos e inchados. Seu rosto estava molhado com um fluxo interminável de lágrimas. Mas, sem dúvida, era a minha esposa.

Ela soluçava, repetidamente, enquanto olhava para mim. Como se ela não estivesse reconhecendo quem eu era.

Então olhei para baixo e meu sangue gelou.

As mãos dela repousavam sobre a barriga. Uma barriga redonda e saliente.

Ela estava visivelmente grávida.

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