18/04/2018

Não posso ir para casa

Bem, estou em um café em Estocolmo. Não está tão tarde, mas já está escuro lá fora, e absurdamente frio. Um inferno típico da Suécia. Meu Deus, as pessoas aqui em volta estão me encarando. Devo estar parecendo que vi um fantasma, mas... talvez eu tenha visto. Não posso ir pra casa agora, não sei o que fazer. 

Começou na faculdade (estou fazendo Design gráfico). Nós usamos nossos notebook na aula e estávamos fazendo um trabalho onde tínhamos que dar instruções de como chegar da estação central até o Palácio Real de Estocolmo (é uma caminhada de 15 minutos, no máximo). Era para aprender a escrever uma instrução pedagógica, basicamente. De qualquer forma, como meu senso de direção é uma merda, fui direto no Google Maps para ser mais fácil. Fui até a estação central e mudei para a Street View, assim eu faria uma caminhada virtual por lá. Fiquei procurando prédios específicos, placas ou qualquer coisa que podia usar nas minhas instruções. Tudo estava normal até ali. Então eu vi. Um livro. Não era um livro de verdade. Era claramente animado, colocado no chão como uma coisa de realidade aumentada. Quando cliquei nele (é claro que eu cliquei naquela bosta) deu zoom nele. "Myst," dizia a capa. Bem, isso me deixou surpreso de um jeito bom. Eu amava esse jogo quando era criança. Para vocês que são novos demais para conhecê-lo: É um jogo de enigmas antigo onde você caminha por uma ilha deserta enquanto clicando para ir para a frente, como no Google Street View. 

A primeira coisa que pensei foi que era algum tipo de Easter Egg sensacional no Google Maps, então naturalmente cliquei na capa do livro. De repente, eu estava na ilha do jogo. Eu não a via desde que era criança, mas reconheci de imediato. Entretanto, parecia diferente. Não conseguia identificar o que mas... sei lá. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Só consigo descrevê-la como uma nostalgia sombria, como entrar em um lugar esquecido do seu passado que não havia mudado. Tipo se estivesse esperando pelo seu retorno. 

Cliquei para andar um pouco por lá. Não tinha som, mas o jogo original também não tinha, de qualquer forma. De repente, meu professor queria nossa atenção, então fechei o notebook e fingi que ouvia o que ele tinha a dizer. Na verdade, eu só queria continuar explorando aquela ilha animada pobremente em 3D. Quando sai da aula, já estava escuro lá fora. Fui ligeiro para casa, tanto curioso quanto ansioso. 

Em casa, abri meu notebook quase que imediatamente. Eu ainda estava na Ilha Myst no Google Maps, parado nas docas, olhando para uma estranha construção que parecia enormes engrenagens. A ilha tinha muitas dessas construções misteriosas. Aumentei o volume e foi aí que noite algo muito estranho sobre o jogo. Veja bem, no jogo original, você só ouve barulho da água, vento e alguns pássaros. Acho que as vezes também tinha umas musiquinhas. Ma agora... Meu Deus, fiquei até arrepiado! 

O que ouvi nas caixinhas de som foi um choro baixo. Não era o choro de um bebê, mas definitivamente era uma criança. Me sentindo um pouco mal, continuei a clicar pela ilha. Notei que o choro ficava mais baixo quando eu ia em direção as engrenagem, então me virei e cliquei em direção da biblioteca (um prédio que parece um pequeno templo Romano ou algo do tipo). 

Quanto mais próximo eu chegava da biblioteca, mais alto ficava o choro. Mesmo sendo arrepiante, não achei ser algo muito pior do que um vírus Russo ou algo do tipo, então continuei. Logo, cheguei na biblioteca e o choro parou imediatamente. Havia um livro no chão que não deveria estar lá (entretanto, o jogo usava livros como portais para outros mundos). O livro era preto. O estranho é que, mesmo que eu soubesse que o livro não pertencia ao jogo, mesmo assim eu meio que o reconhecia de algum lugar distante na minha memória.  Uma lembrança que tinha um vago porém forte gosto amargo de tristeza.

Cliquei no livro e vi o título. "Fblurbg," dizia em letras douradas contrastantes com o preto. Não entendi aquela palavra e me deixou em um estranho estado primitivo de pânico. Comecei a suar enquanto meu coração batia pesadamente em meu peito. Eu não podia entrar naquele livro, ou melhor, não me atrevia. Ao invés disso, cliquei no canto da tela para dar um passo para trás. Depois, me virei para ficar de frente para a porta da biblioteca. E lá estava, a fonte do som. Eu não estava preparado para o que vi, e me levantei da cadeira colocando as duas mãos na boca. Na tela, na frente da porta da biblioteca, estava um menininho. Mas não foi por ter aparecido de repente que me assustei, mas por sua aparência. Eu conhecia seu rosto. De algum jeito tinha me esquecido, mas agora tudo vinha à tona. Comecei a chorar. Fazia tanto tempo... Como era possível?! A criança na minha frente... Era meu amigo! Aquele com quem eu jogava Myst a muitos anos atrás. O menino que desapareceu no verão de 1994 e que nunca foi encontrado. Então me lembrei de tudo. Eu já tivera um melhor amigo. Seu nome era Peter. Mas desapareceu. Como podia ter esquecido daquilo?

Com as mãos tremendo, segurando a respiração, cliquei no menino. Mas na próxima tela, ele estava mais distante, de costas para mim. Cliquei de novo. Mesma coisa. Era como se estivesse andando para longe de mim. Continuei clicando. Peter, ou seja lá quem fosse mesmo, andou até as docas onde eu tinha iniciado no jogo. 

Quando cheguei lá, ele tinha sumido. Mas havia outro livro no chão. "Casa" estava escrito na capa. Cliquei e imediatamente voltei para o lugar na ponte onde tinha encontrado o primeiro livro. Olhei em volta e encontrei o menino. Continuei a segui-lo. Ele estava em todos os quadros do Street View nas direções da estação central. Eu continuei seguindo, aterrorizado. Eu chorava violentamente agora, mas também sentia outra coisa no fundo do meu ser que não podia explicar; culpa. 

Segui o menino pela cidade pelo que pareceu ser uma hora, e então percebi. Eu sabia para onde ele estava indo. Ele estava apenas a uma quadra do meu apartamento. Entrei em pânico como nunca tinha ficado antes! Fechei o PC e joguei-o no chão (sim, estou escrevendo pelo celular agora), depois me vesti e corri. Corri como um louco, tá? E agora estou aqui, nesse café onde estou escondido de meu amigo... que desapareceu quando eu era uma criança. Me ajudem, por favor, não posso ir para casa. Não tenho nenhum amigo próximo para ligar. Pensando agora, percebo que nunca tive nenhum amigo próximo desde criança... Desde que meu amigo desapareceu sem deixar vestígios. Como pude esquecê-lo?

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!  

FONTE


17/04/2018

Eu e Meu Irmão Vimos Algo Assustador – Parte 2


Era sábado e meu pai já havia voltado ao normal depois de ontem. Como era o dia de trabalho dele, ele foi terminando de tomar o seu café e preparando seus papéis na sua mala. Minha mãe está na cozinha lavando os pratos e tigelas. Matt assistindo Tom & Jerry na sala e eu estou no meu tablet jogando no sofá. Quando meu pai já ia se despedir de minha mãe, alguém bateu na porta. Meus pais trocaram olhares, e meu pai foi atender a porta.

“Bom dia, Sr. Hungers. Como vai?”, era Tommy, seu sorriso me dá medo.

“B-bom dia, vou bem”, meu pai engoliu a seco diante de Tommy.

“T-tenho que ir”, se virou e deu um beijo em mim e Matt. Deu o último aceno e fechou a porta.

De tarde, fomos brincar na varanda de pega pega e vi Tommy saindo de sua casa. Aquele sorriso não desgrudava de seu rosto e sempre vestia as mesmas roupas pretas. Ele viu a gente e andou na nossa direção. Paramos de brincar e ficamos parados com os nossos olhos fixos nos dele, o medo começou a subir.

“Olá crianças”

“O-olá”, falamos em uníssono.

“Hehehehehe...”

Sua risada fez meu corpo estremecer e vi que Matt sentiu a mesma coisa que eu.

“Vocês são tão fofos, eu adoraria conhecer vocês”

Tommy nos levou ao banquinho que fica debaixo de uma árvore e sentamos. Matt se afastou de fininho de Tommy, se juntando a mim.

“Como vocês se chamam?”

“Eu sou Matt e ela é Alice”, Matt não tirava os olhos de Tommy, observando sua ação e seu comportamento.

“Belos nomes para um menino tão gentil e uma menina tão linda”, redirecionou seus olhos pretos para mim.

“O-obrigada senhor”, Tommy abaixou a cabeça e voltou a olhar para Matt, que ainda não tirava os olhos.

“S-senhor, como vo-“, cortei-o

“Matt, temos que fazer o dever de casa. Esqueceu?”, menti, a presença de Tommy me deixa desconfortável e essa foi a maneira que eu achei para me livrar dele.

“Mas...”, Matt franziu a testa.

“Vamos, você não quer receber zero da professora...”, fui interrompida por Tommy.

“Melhor vocês irem, porque a mãe de vocês está logo ali na porta”

Olhamos para a nossa mãe, ela estava muito brava. Matt e eu corremos para dentro de casa e minha mãe nos proibiu de sair por três dias.

Era melhor ficar em casa do que sair e se deparar com Tommy te observando no outro lado da cerca, a espera pelo alvo certeiro.

Seu sorriso de orelha a orelha que nunca saía de seu rosto, suas roupas pretas que mais pareciam armaduras, seu jeito de olhar e falar dava um certo medo em qualquer um. Com certeza, tem algo errado com esse Tommy.

*

Mais tarde, Matt queria falar comigo. Era sobre a respeito de Tommy, nosso vizinho misterioso. Ele acha que ele é um assassino ou algo do tipo. Para mim, é um homem perigoso e devemos tomar cuidado com ele. Matt acha isso como verdade, e ele tem certeza que o homem é assassino ou sequestrador, como o Jack O Estripador.

“Será que ele já matou alguém?”

“Não sei e nem quero saber, o que eu mais quero é que ele fique longe de nós”

“Eu não sei, eu estou com medo”

“Eu também, mas não devemos ficar mais per...”

Fui cortada quando ouvimos um barulho de fora da janela. Matt se encolheu todo como se estivesse com muito frio, expressão de choque em seu rosto. Olhei para a janela com a boca boquiaberta, meu corpo paralisado. E então ouvimos um grunhido, seguido de um galho sendo pisado.

Matt saiu em disparada para o seu quarto, me deixando sozinha. Quando me levantei ouvi galhos sendo pisados, mas mais perto da janela. Lágrimas começaram a correr nas minhas bochechas e caindo em minha blusa, tinha certeza que era o Tommy fazendo isso. Quando ouvi o último barulho, corri para a sala a procura de minha mãe, por sorte ela tava na sala assistindo TV. Abracei-a mais forte, minhas bochechas molhadas e os olhos cheios de lágrimas.

“O que foi, Alice? Por que você está chorando?”

“Tinha algo do lado de fora da janela do meu quarto, mãe”

Minha mãe não acreditou no que eu disse e foi para o meu quarto investigar. Eu fui atrás dela, ainda com muito medo. Matt tava na porta de seu quarto, segurando o seu ursinho de pelúcia e chorando. Minha mãe o chamou, mas ele se recusou. Quando chegamos no meu quarto, a janela tava intacta, ninguém havia entrado ou quebrado ela.

“Alice, não tem nada na janela”

“Mas mãe, tinha alguma coisa na janela”

“O quê?”

“Só ouvi barulhos nos arbustos, galhos sendo pisados e um grunhido”

“Talvez seja só um gato, guaxinim ou um cachorro, filha. Nada de mais”

Ela abriu a janela e olhou para todos os lados, estava muito escuro lá fora.

“Viu, não tem nada, agora vá dormir”

Ela fechou a janela e a trancou. Fiquei uns 10 minutos olhando a janela, para ver alguma coisa que estava me assustando. Cobri a janela com a cortina e fui me preparar para dormir, ainda muito assustada pelo ocorrido. Não tirava meus olhos da janela nem por um segundo até que finalmente fui para a minha cama. Amanhã eu conto mais sobre esse Tommy.

Autora: Ely Costa


Eu sou um assassino de aluguel, mas não posso matar meu próximo alvo

Michael Kinsky não era meu tipo regular de cliente.

Ele não era um amante rejeitado, procurando por vingança. Ou um assassino, querendo eliminar as testemunhas de seus crimes. Ou um marido, de olho na apólice de seguro de sua esposa.

Ele era apenas um cara comum, cuidando de sua irmã.

"Eu normalmente não recorreria a... medidas tão drásticas. Mas Harold se tornou tão horrível. Trata ela como lixo. Não dá a mínima para ela, só se importa com aquela banda estúpida que ele canta com seus colegas de trabalho." Ele assoou o nariz. "Você entende isso, certo, Switchblade?"

Eu estremeci. "Uh, este é apenas meu codinome, Michael. Você não deveria... tipo... me chamar assim em uma conversa normal."

"Então como eu deveria chamá-lo?"

Eu pisquei. Claramente, ele nunca tinha feito nada assim antes. "Uh, você está com o dinheiro?"

Seus olhos percorreram a lanchonete. Então ele puxou um bolo de notas de cem dólares de seu bolso.

"Você não pode simplesmente - eles vão ver!" Eu rapidamente joguei um dos guardanapos para ele. "Embrulhe nisso. E faça isso discretamente."

Ele não foi discreto, mas felizmente a lanchonete estava quase vazio a essa hora. "Aqui tem o dobro da sua taxa habitual", ele sussurou, bem alto. "Eu queria te dar uma grande gorjeta, para que você faça um bom trabalho."

Uma gorjeta? Você não está pedindo uma casquinha de sorvete, Michael. Você está pedindo uma morte. Mas peguei o dinheiro, sorri e enterrei no fundo do meu bolso.

"E eu não quero matá-lo."

O quê?

"Michael, você sabe que eu sou um assassino de aluguel, certo?"

"Sim. Mas Nancy precisa da renda dele. Ela é dona de casa há vinte anos. Nenhuma experiência de trabalho, nenhuma educação além do ensino médio. Não há como ela se sustentar sozinha."

"Você poderia ajudá-la, com o dinheiro que acabou de me dar."

Ele balançou a cabeça. "Eu tentei. Ela não deixa. Se preocupa demais."

Suspirei. "Bem, ok. Suponhamos que eu aceite este trabalho. O que você quer que eu faça com ele, se não o matar?"

"Eu não sei! Assuste-o. Ameaçe-o. Apenas o faça parar de ser tão terrível com ela."

"Mas é um negócio arriscado. Quero dizer, ela vai saber como eu sou e..."

"Você irá em um domingo de manhã. Ele estará dormindo em casa, sozinho, nem o verá entrar." Michael olhou para a mesa e depois acrescentou: "É a única hora que ele está sozinho em casa. A única hora... que ele a deixa sair."

Minha beligerância evaporou e senti uma pontada de simpatia. "É tão ruim assim?"

Ele assentiu.

"Ok. Estou dentro."

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A casa era bem pequena, entre um sobrado e um mercadinho em ruínas. Seria um desafio fazer isso sem nenhuma testemunha.

Ótimo. Eu gosto de desafios.

Eu atravessei o quintal, usando criativamente os vários arbustos e cercas para me esconter dos espectadores. Então entrei pela janela aberta, como Michael havia dito.

A faca pesava em minhas mãos.

Virei à esquerda na cozinha e entrei na sala de estar. No centro haviam um microfone, um suporte de música e algumas partituras - presumo que de Harold e sua banda. Os suprimentos de bordado de Nancy foram empurrados para o canto, ocupando o menor espaço possível.

Eu entrei no quarto ao lado.

E ali, na poltrona, estava Harold.

Dormindo profundamente.

Eu peguei o clorofórmio do meu bolso. Suavemente, eu coloco o pano contra seu nariz.

E então eu comecei a trabalhar.

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Eu visitei Nancy algumas semanas depois.

Eu gosto de fazer isso às vezes. Fingir ser o vizinho amigável, ver como suas vidas mudaram após meu trabalho. Sim, eu sei que aumenta minhas chances de ser pego. Mas, como eu disse, eu gosto de desafios.

Quando ela abriu a porta, seus olhos brilhavam e ela tinha um sorriso no rosto.

"Oi! Eu sou Smith Baker", eu disse. "Acabei de me mudar pra cá - atrás do mercadinho."

"Oh, que legal! Por favor, entre."

Ela me levou para a sala e eu sorri. O suporte de música e outros equipamentos foram jogados no canto; Os bordados de Nancy estavam esparramados no sofá, ocupando o máximo de espaço possível.

"Smith, este é meu marido, Harold."

Ele apenas olhou para mim. Silencioso e pálido.

E então começou a tremer descontroladamente, segurando a marca vermelha em sua garganta.

"Oh, desculpe, eu deveria explicar." Ela se sentou, com um pequeno sorriso. "Ele não está tentando ser rude. É só que... bem, ele teve um acidente, algumas semanas atrás. E agora ele não pode falar, estou com medo."

Ela deu um tapinha no braço dele, confortavelmente, enquanto ele se agarrava a ela. "Ou cantar, infelizmente."

Hmm.

Um "acidente".

Aquilo, misteriosamente, cortou suas cordas vocais.

E deixou o resto intocado.

Eu podia ver as mãos de Harold tremendo, assim como sua boca. Eu me pergunto se ele estava pensando na primeira coisa que eu disse a ele, quando o clorofórmio se dissipou.

Se você não tratar Nancy direito, eu vou cortar sua garganta novamente.

E da próxima vez, você perderá mais do que apenas sua voz.

Eu sorri para Harold. "Você gostaria de um biscoito?" Perguntei, segurando a bandeja. "Eu mesmo os cozinhei."



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


14/04/2018

Meu último dia na Terra

Pessoas, tudo bem? Fiz parte do blog em duas ocasiões, ambas usando nomes diferentes. Agora estou de volta, e dizem que a terceira é de vez. Espero que seja mesmo. Trouxe essa creepy curta do subreddit shortscarystories, e espero que gostem.


Quatro anos.

Quatro anos, quatro meses, e vinte e três dias, é o tempo que venho correndo dele - não que eu tenha contado.

Quatro anos correndo apenas para ir para casa e encontrá-lo sentado na mesa da cozinha. Ele parece não se encaixar no ambiente, como uma cadeira da Ikea, tomando mais espaço que um homem deveria tomar - ele é um homem de casarões, e não pequenos cômodos no terceiro andar.

E no entanto, aqui estamos nós.

Ele vai me matar, é claro. A coisa mais espera a se fazer seria correr - mas ninguém nunca me considerou uma pessoa esperta. "Vic."

Ele ri e sopra uma pluma de fumaça de cigarro em meu apartamento onde não se pode fumar. "Querida."

Querida. É claro que é querida. Nunca meu nome verdadeiro. Eu me pergunto se em algum momento ele chamou meu nome verdadeiro - mas ele nunca o fez. Eu sei disso, se posso admitir. Eu me pergunto se ele vai falar meu nome antes de me matar - é claro que ele vai. Uma última vez. O beijo da morte.

O beijo. Esse pensamento me faz corar. Ainda aqui, ainda agora, encarando a face de minha morte inevitável e complicada é difícil de perder sua beleza. Alto, escuro e bonito... bastante bonito. É o que me atraiu para ele no começo.

Só posso tentar imaginar o que ele viu em mim. Eu não sou tão... exótica como o tipo dele.

"É essa a hora?"

Ele ri novamente. Para o inferno com ele - para o inferno com ele por se sentar ali tão calmo e sereno, rindo e planejando meu fim, enquanto eu estou de pé e suando apesar do frio, punhos cerrados e meu corpo todo tremendo enquanto uso cada parcela de força que tenho para manter minha voz calma e não trêmula.

"Hora?" ele pergunta. "É essa... a hora? Não vamos desperdiçar palavras, querida. Chame do que realmente é."

E é isso - eu explodo. "Chame do que realmente é!" eu grito com ele. "Enquanto você se senta aí me chamando de querida! Será que você em algum momento se importou comigo?"

"Não."

Não. Não, é claro que não. Por que ele se importaria? Eu não sou digna - eu sou suja. Falha. Ruim.

Eu caio no chão, chorando com dor e medo. Quatro anos, quatro meses, e vinte e três dias eu passei fugindo dele, e agora ele vai me matar. "Não precisa ser assim", eu digo.

Ele dá três passos pelo quarto e se põe à minha frente, gentilmente alisando meu cabelo, minhas lágrimas lavando o giz em suas botas.

Giz.

Um olhar rápido ao chão revela escritos solomônicos em um círculo tosco no piso de madeira, velas em seis pontos. Minha respiração acerela - ele veio preparado. "Não precisa ser assim."

E agora sua mão agarra meu cabelo, puxando minha cabeça para trás com força. "Foi um erro quando eu te invoquei daquele buraco - um erro que não farei novamente."

"Não," eu grito. Subitamente estou de pé, minhas unhas arrancando a pele de sua face. Ele dá vários passos para trás. Eu caminho em sua direção.

Eu não vou voltar para o Inferno.

13/04/2018

Vox e Rei Beau: Ruins, Boas e Estranhas (PARTE 15)

Sinto muito por não atualizar ontem à noite. Fui torar um cochilo e acabei dormindo até hoje de manhã. Peço desculpas, mas foi muito bom conseguir uma noite inteira de sono. 

Na primeira hora da manhã me furaram, cutucaram, apalparam, e me apresentaram para mais não-sei-o-queologistas do que posso nomear. Tenho sorte, minha mãe é medica, então por causa de favores antigos pendentes, conseguiu que vários amigos de várias áreas da medicina dessem uma olhada nos meus exames. Normalmente, me sinto mal de receber um tratamento especial, mas depois da tomografia, descobrimos que essas eram circunstâncias especiais. Os resultados dos exames de sangue ainda vão demorar alguns dias para ficarem prontos, mas os resultados dos físicos e de imagem foram bastante óbvios. Creio que esse seja o outro benefício de crescer com uma médica na família. Confio nos profissionais da medicina, mais do que outras pessoas.

Infelizmente tenho notícias ruins, boas e estranhas. A notícia ruim é que é, seja lá quem apostou em tumor, acertou. Tenho uma massa no meu lobo temporal esquerdo. Para ser honesta, a notícia não me chocou muito. Sei que alguns de vocês ficaram se perguntando o porque de eu ter dado a entender que tinha algo de errado comigo na outra noite. Como já disse, eu venho procurando muitas coisas na internet, e se a coisa anda que nem um cachorro e late que nem um cachorro, só pode ser o que? Eles ainda não sabem exatamente que tipo é, mas temos certeza que as dores de cabeça e as náuseas são causadas por causa da pressão no meu crânio. As alucinações e problemas com minha voz são comuns em tumores nessa área. Também disseram que pode ser que eu tenha tido leves convulsões, o que explica os momentos de silêncio absoluto, se não eram apenas alucinações.

A notícia boa é que me colocarão em uma sala de cirurgia o mais rápido possível. Esperamos que seja possível tirar tudo, mas dependendo dos resultados de exames e da cirurgia em si, talvez eu precise passar pela quimioterapia. Provavelmente também precisarão colocar uma válvula de drenagem cerebral para aliviar um pouco da pressão, mas me receitaram alguns corticoides para ajudar nisso. Entretanto, meu prognóstico não é ruim. Descobrimos rápido. Se eu tivesse ignorado as dores de cabeça e as vozes por muito mais tempo, as coisas seriam bem piores. E acho que ele podem prevenir que eu sofra mais danos, o que é ótimo.

O que nos leva as notícias estranhas, creio eu. Sem explanar muito, perguntei se isso explicaria alucinações visuais e sonambulismo. O tumor não está fazendo pressão suficiente em meu globo ocular para causar isso. E mesmo que tumores no lobo temporal podem causar problemas de memória, não explica porque estou pensando em Beau. Talvez minha mente desenterrou-o porque sabia que assim eu prestaria atenção, mas tenho uma estranha sensação que isso está dando muito crédito ao meu subconsciente. Firmemente acredito que a maioria das coisas tem uma explicação racional e cientifica, mas algumas outras coisas não se encaixam no diagnóstico. Quem sabe? Talvez eu tenha passado tempo demais aqui e é melhor não confiar nos instintos de uma garota com danos cerebrais comprovados. Mas algo estava cuidando de mim. Se passasse mais um mês, talvez eu teria perdido minha fala para sempre. Com uma convulsão, eu podia ter morrido.

Seja lá o que acontecer, essa provavelmente será minha última atualização. Eu não planejava terminar nessa aqui, mas me recuso continuar aqui e transformar essa história no meu diário pessoal. Cirurgia cerebral, mesmo sendo assustadora, não é paranormal. Entretanto, ainda tenho um último favor que quero pedir para vocês. Sei que pedi muito nos últimos dias e agradeço imensamente toda ajuda que me deram. Mas tem algo que sinto que precisa ser feito. 

Não estou tentando ser sentimentalista aqui, então não leve para esse lado. Mas algo pode acontecer durante minha cirurgia ou recuperação. Beau (seja lá o que ele for) pode estar certo. Posso perder minha habilidade de falar, entender linguagens ou pior. Se isso acontecer, alguém precisa ouvir essas histórias. Tenho sido muito protetora com isso aqui, querendo admitir ou não, virou uma grande parte da minha vida. A última coisa que quero é que isso morra comigo.    

Bem, se você leu até aqui e gostou, é só isso que peço. Só quero que mais pessoas saibam sobre Rei Beau e o Lugar Quieto. Muito tempo atrás, ele era meu amigo. Ainda é, acho. Talvez seja idiota, na verdade provavelmente É idiota, mas parece ser o melhor que posso fazer. 

Então, acho que isso termina onde começou. Hoje a noite, acordei de um cochilo. Estava deitada de barriga para baixo, e do outro lado da cama, vi um homem me observando. Tudo sobre ele era real. Pude ver sua pele pálida e seus olhos leitosos. Vi suas rugas e seu cabelo branco. Ficamos encarando um ao outro por um longo tempo, ele não sorriu ou foi embora e eu não fugi. Eu vagarosamente, timidamente, escorreguei minha mão por cima das cobertas. Não sou tão corajosa. Não o toquei diretamente. Mas enquanto descansava minha mão na sua frente, ele levantou sua própria e escorregou-a na direção da minha. 

Falei que eu ia ficar bem. Falei que não tinha medo e que ele precisava acreditar em mim porque Jeeps não podem mentir. Eles também não falam, mas eu tava meio lúcida, então terão que me perdoar. Falei que nada nem ninguém iria pegar a mim ou a minha voz, pois lembrava da lição. Você só pode ser pega se deixar ser pega, certo? Não sei quanto tempo ficamos assim, pois acabei adormecendo. 

Quando eu era pequena, eu tinha um amigo chamado Beau. Ele disse que era o Rei do Lugar Quieto. Me contou histórias de suas aventuras. Algumas eram fofas e outras eram um tanto perturbadoras. Vou contá-las à vocês do jeito me lembro. Não sei quão verdadeiras são, e tentei contá-las do jeito melhor possível. 

CONTINUA...


11/04/2018

Eu e Meu Irmão Vimos Algo Assustador - Parte 1


Num belo dia de manhã, eu acordei muito feliz por que hoje é meu aniversário e de meu irmão Matt. Como eu estava contente, fui ao quarto de meus pais acordá-los. Abri a porta devagar, correi até a cama e subi saltitando com sorriso no rosto, fazendo com que meus pais acordassem num susto.

“Pelo jeito a nossa pequena Alice acordou bem cedo”, diz minha doce mãe que sorria para mim.

“Bom dia princesa”, diz meu pai meio sonolento.

“Bom dia, papai e mamãe”, falei com um sorriso no rosto e ainda pulando em cima da cama. A medida que meus pais foram se levantando, fui correndo para o quarto de Matt acordar ele e fui ao meu quarto me trocar e ir para o banheiro escovar os dentes. Depois disso fui pra cozinha comer meu cereal com leite que tanto amo e quando acabei, fui para a nossa varanda que ficava em frente da nossa casa coletar flores para colocar no meu cabelo. O dia estava ensolarado com algumas nuvens que mais se parecem algodão doce, um dia bom para esse momento acontecer.

Quando eu já ia entrando, vi um homem alto e muito bonito andando na calçada, ele vestia roupas pretas e um chapéu. Ele acenou pra mim com um belo sorriso e continuou sua caminhada. Meu pai me chamou para entrar e se arrumar que a festa ia começar em 30 minutos, e então eu entrei e subi para meu quarto junto com meu irmão Matt. Meus pais prepararam um vestido rosa com glitter roxo, uma sapatinha azul, uma coroa dourada com diamantes  e um colar de unicórnio. Meus olhos brilharam de alegria e minha boca estava boquiaberta, só pode ser um sonho. Vesti o vestido com maior prazer da minha vida, coloquei a sapatinha azul, arrumei o meu cabelo e coloquei a coroa, em seguida coloquei o colar de unicórnio no pescoço. Fui me ver no espelho ao lado da minha cama e fiquei tão linda, parecendo uma princesa, e fiquei me embelezando na frente do espelho por alguns minutos e fui acordada desse transe pela voz de minha mãe me chamando lá embaixo. Peguei meu anel e desci, dando de cara com Matt que estava vestindo uma camisa listrada azul com calça preta e sapato da mesma cor, e nós descemos juntos pronto para a maravilhosa festa dos sonhos. Demoramos 25 minutos arrumando a sala com vários balões coloridos, bandeiras com a frase “Feliz Aniversário Alice e Matt”, colocando outros enfeites e pondo os doces e salgados na mesa, inclusive os bolos de cor rosa e azul com cada iniciais dos nossos nomes. Depois de 5 minutos descansando e preparando outras coisas, os primeiros convidados a chegarem foram os nossos colegas de escola Samantha e Ben com seus pais e eles trouxeram presentes. Mais e mais convidados foram chegando e trazendo presentes, um maior que o outro, colocamos em um canto improvisado para o final da festa. Depois que cantamos parabéns e comemos os bolos e outras delícias, fomos abrir os presentes e gostei de todos. Depois de uma longa festa, os convidados foram embora junto com os seus filhos. Foi o dia mais feliz da minha vida, um sonho realizado de uma princesa. Antes de irmos dormir, eu e Matt brincamos um pouco com os nossos brinquedos novos. Meu pai entrou no quarto e pediu para que fomos dormir e amanhã teremos aula. Guardei meus brinquedos no baú e Matt foi para seu quarto. Escovei meus dentes e fui dormir.

No dia seguinte, fomos a escola e juntei ao grupo de meninas enquanto Matt foi para o dele. Elas estavam mostrando algumas bonecas e desenhos que fizeram, eu mostrei minha boneca nova e elas gostaram (hoje era o dia em que as crianças iam trazer seus brinquedos e desenhos para a escola, pois tinha a sala em que ficávamos brincando, desenhando e assistindo filmes). Na aula de História fiquei ansiosa para ir a sala assistir filmes e tudo mais. Quando o sinal tocou, pegamos os nossos brinquedos e desenhos e fomos para a sala saltitando. Ficamos 30 minutos brincando e desenhando e fazendo bagunça. Depois os professores colocaram o filme de Alice no País das Maravilhas, nem queria assistir porque já vi esse filme várias vezes e então fui desenhar. Decidi desenhar o homem que vi ontem na calçada antes eu eu entrar, meus colegas estavam focados no filme e os professores estavam escrevendo algo nos papéis, então não terei que me preocupar.

Fui desenhando cada corpo do homem: seu chapéu preto enorme que cobria metade do rosto, suas roupas pretas que mais parecia uma armadura, sua bota preta alta, sua pele albina, seu sorriso tão belo, seus olhos pretos, seus cabelos curtos até o ombro e sua mão acenando. Minha colega Bia olhou para meu desenho e perguntou quem era, respondi que era um homem que vi na minha rua e ela respondeu com um “Ah”, voltando os olhos para o filme. Do começo das aulas restantes até o final foi normal, até a hora de ir pra casa. Vi aquele mesmo homem que vi ontem, com o mesmo sorriso e a mesma roupa. Quando meu pai chegou, perguntei a ele quem era aquele homem e ele disse que é só apenas um louco perdido na rua.

A volta pra casa foi diferente e medonha. O mesmo homem foi na direção de meu pai ainda sorrindo e juro que naquele momento senti que ele ia fazer alguma coisa nada bom. Olhei para meu pai e ele tava um pouco tenso, expressão de pavor em seu rosto.

“Olá Sr. Hungers”, falou o tal homem bonito com sorriso no rosto, sua voz muito atraente.

“Olá...”, disse meu pai, medo em sua voz.

“Desculpe pela minha falta de educação em não me apresentar. Meu nome é Tommy e moro na mesma rua que você, ao lado da sua casa”, falou Tommy.

Meu pai apertou a minha mão com tanta força, fazendo com que eu geme de dor. Tommy ficou encarando meu pai com o seu sorriso encantador e depois olhou pra mim.

“Ah, olá pequena”, falou como um sussurro e respondi um “olá” bem baixinho, minhas bochechas vermelhas. Tommy riu e voltou a olhar para meu pai.

“Temos que ir, minha esposa deve está inquieta pela minha demora. Até mais Tommy”, disse meu pai, sua voz estava tremida, acenou para Tommy e apressou o passo.

Meu pai não falou mais nada até a chegada da nossa casa.

Autora: Ely Costa


10/04/2018

Ambulâncias Pretas

A primeira vez que vi uma das ambulâncias pretas, minha mãe tinha acabado de me pegar da consulta com meu cardiologista para ir para casa. Ela estava com a rádio ligada e cantava junto de Patsy Cline, então encostei a cabeça no vidro e observei os motoristas putos da vida tentando nos ultrapassar. (Minha mãe se recusa acreditar que dirigir muito devagar é igual a ser uma péssima motorista. Siga o tráfego, mãe!) No retrovisor, vi um lampejo de  cor preta, e franzi o cenho quando um Audi passando por nós com uma ambulância colada atrás.

Bem, se tem uma coisa que conheço muito bem, essa coisa é uma ambulância. Faço passeios com elas algumas vezes por ano. São grandes e retangulares e cheias de socorristas gatos, e vem com o pacote completo: luzes, sirenes, policiais, carro de bombeiros. Uma vez, a casa do outro lado da rua pegou fogo ao mesmo tempo que comecei a sentir dores no peito, e minha pequena rua suburbana virou uma rave mórbida. 

E claro, isso significa que eu sei o que não é uma ambulância. Tipo, não são pretas. Ou silenciosas - principalmente quando estão de luzes acesas. A ambulância ficou na cola do Audi - tão perto que provavelmente era ilegal, posso dizer - e tentei chamar a atenção da minha mãe. 

"Stacy!" ela finalmente disse, diminuindo ainda mais a velocidade. 

"O que diabos é aquilo colado com o Audi verde que acabou de nos passar?" 

"É algo que vai receber uma multa logo logo se a polícia ver."

"Você não viu... a coisa preta?"

"O que, a caminhoneta? Ele nem está na mesma faixa."

Suspirei. "Deixa pra lá." 

Minha mãe perdia várias coisas, especialmente quando dirigia. Entretanto, você tinha que ser surdo, cego e morto para não ver aquela ambulância preta e gigante que estava grudada na traseira de outro carro.

Paramos em um restaurante para almoçar. Meu ombro deslocou quando sai do carro, mas consegui colocar de volta no lugar antes que minha mãe visse. Ela pediu um enorme Kielbasa e me deu um olhar maligno quando roubei algumas batatas fritas dela. Olhei para a TV enquanto as comia.

Ficaram frias e secas na minha garganta quando vi o Audi da estrada na notícia. Tinha estourado um pneu e capotado. Nenhum sobrevivente. 

Devo ter ficado muito pálida, porque minha mãe pegou meu pulso e ficou avaliando minha pulsação. Quando terminou, se levantou da nossa mesa. "Espera um minutinho, querida. Vou pegar uma caixa e você vai poder ir para casa descansar."

Pela primeira vez, não discuti. 

***

Quando você tem uma doença genética que faz você ir para o hospital toda faz que tem dor de barriga, você acaba conhecendo a galera. Técnicos de enfermagem, paramédicos, bombeiros, até uns policiais. Então, quando não consegui encontrar nada na internet além de algumas coisas da Marvel e de alguns lugares no mundo que pintam suas ambulâncias, fui procurar Nóia.

Bem, Nóia não se chama realmente Nóia. Seu nome é Harlan G.Gate Jr. Devido a seu antigo "hobby" antes de virar um paramédico, tinha esse apelido. Vou deixar que você decida porque começou a ser chamado assim. De qualquer forma, Nóia já me buscou e verificou meu sinais vezes o suficiente para sermos basicamente casados. Ele é um cara legal, me convidou para seu casamento. Até sua esposa já ligou para ver como eu estava e conversar. Então liguei para ele. Só para saber se ele sabia o que estava acontecendo. 

"Nãã..." foi a primeira coisa que disse. "Faço nem ideia do que você tá falando." 

Coloquei meu travesseiro por cima do rosto. "Não fode, Nóia." 

"Parece que você deu uma desmaiada e teve um sonho bizarro."

"Olha, é uma ambulância. Totalmente preta. Corre com as luzes acesas, janelas com películas, mas sem fazer barulho. Nem barulho de motor. Tipo esses carros fodas." 

Nóia riu. Rosnei como um gatinho brabo, e ele falou, "Um carro foda. Sério."

"Só pergunte por aí, cuzão."  

"Tá, tá - olha, estamos recebendo um chamado. Nos falamos."

"Boa sorte," falei e ouvi ele colocando o celular no bolso enquanto a ligação era desligada.

 Me sentei e parei por um tempo quando senti um queimar no meu peito. A síndrome de Ehlers-Danlos é uma merda, especialmente quando fica querendo atacar seu coração. Depois de um minuto, desmaiei. Algum dia desses, isso vai me matar. Mas por agora, o que eu queria mesmo era um biscoitos que minha mãe estava assando. 

No momento em que me viu, me conduziu para o andar de cima e de volta para a cama. "Você parece estar meio pálida, mocinha-" 

"Eu tenho quase trinta anos!"

"-então você vai ficar bem sentadinha aí. Boa menina." 

Só depois de colocar a coberta em cima de mim e me dar um beijinho na testa como uma criancinha, foi que me deu alguns biscoitos e uma bebida. Olhei pelo meu quarto, para a belíssima cama ajustável, a porta larga e os posters de diversas cidades que eu nunca visitaria. Na maior parte do tempo, fazia eu me sentir melhor. Hoje, só queria me afundar e ver TV. 

Morte inevitável. Você nunca sabe quando ela vai te pegar. 

***

Algumas noites depois, acordei com as chamas do inferno queimando por dentro da minha barriga. Peguei meu telefone e liguei para minha mãe. Ela pode estar do outro lado do corredor, mas ela consegue (e já conseguiu mesmo) dormir durante um tornado. 

"...que?" falou depois de 27 toques, e mandou meu pai ficar quieto. 

"Liguei pra emergência, mamãe."

Suas cobertas se remexeram e ela se sentou. "Já estou ligando, meu bem."

Fiquei deitada esperando. O calor em minha barriga subia agora para meu peito. Fechando os olhos, implorei para o universo que isso fosse apenas uma pedra no rim. Apendicite. Pedra na vesícula. Qualquer coisa que não fosse aquilo. 

A ambulância chegou e um cataclismo de luzes e sirenes. Nóia correu com os cara no meu quarto. Um olhar, e inclinou a cabeça para o microfone preso em sua camiseta. "Mulher, vinte e nove anos, Ehlers-Danlos tipo vascular, possível dissecção aórtica. Estamos levando-a para o Saint Michael o mais rápido possível." 

Ele segurou minha mão por um instante, enquanto me prendiam na maca. Alguns minutos depois, eu estava dentro da ambulância, olhando para o teto enquanto os caras me avaliavam. 

"Você vai ficar bem," Nóia disse enquanto voávamos entre o tráfego. Ele estava parado, com a mão em cima da minha. Entretanto, seus olhos, escuros e gentis, pareciam um muro. 

As sirenes pareciam estar a quilômetros de distância. Fechei meus olhos e deixei o balanço do veículo acalmar meu medo. Eu não queria morrer. Eu queria ir para as cidades nos meus posters: Londres, Reykjavík, Edimburgo, Machu Picchu, Honolulu, Seul, o mundo todo.

"Eu não quero morrer," falei, e Nóia fez carinho em minha mão. 

"Eu sei, querida." 

Levantei a cabeça, mas uma onda de tontura não deixou eu olhar em volta. Foi só quando chegamos no hospital que comecei a me sentir bem de novo. Apendicite. Pedra na vesícula. Talvez o jantar estivesse azedo e eu só precisava vomitar. Levantei a cabeça e vi um flash de luz vindo pelo vidro com película e-

Luzes. Nenhuma sirene perto do hospital. Segurei a mão de Nóia e fiz sinal com a cabeça para a ambulância preta atrás da nossa. 

"Nóia-"

"Shhh," falou, olhando a coisa. Apertei sua mão o mais forte que consegui. 

"Você acha que as pessoas sabem quando vão morrer?"

Nóia balançou a cabeça, seus olhos brilhando mais do que deveriam, e suspirou. "Espero que não, Stace. Meu Deus, espero que não."