16/07/2018

Tentei trocar de corpo com minha irmã

Se isso fosse um filme da Disney, eu seria a irmã "malvada". 

Mas será que posso ser culpada por isso? Minha irmã, Eva, teve uma vida bem diferente da minha. Alta, bronzeada, voluptuosa, com uma voz linda e uma personalidade calma. Eu? Sou baixinha e pálida, com um hábito de comer chocolate demais e minha voz parece a de um sapo prestes a morrer. 

As vezes, quando falo sobre isso com ela, minha irmã só ri (pense naquela risadinha clássica feminina, delicada) e fala "Ah, Cora, não seja invejosa! Devíamos nos amar como irmãs, não brigar por coisas idiotas." 

Mas fico pensando se ela falaria isso se não tivesse tirado a sorte grande.

Ontem a noite foi a gota d'água. Fomos para uma festa em uma das irmandades. Acenei para um dos meus colegas, Robby, da aula de física. Mas assim que o fiz, e seus olhos caíram em Eva, estava tudo acabado. Não importava quantas piadas eu fazia, quantas vezes eu tocasse seu braço - ele nem se quer me olhou uma segunda vez. 

Nessa mesma noite, antes de Eva ir dormir, eu saí de fininho de nosso apartamento. Tinha ouvido alguns boatos - boatos bem loucos. Que uma bruxa de verdade morava em uma das casas abandonadas no final da rua. Era algo que nenhuma mulher adulta devia acreditar, obviamente.

Mas eu estava desesperada. 

Quando cheguei na casa, meu coração despencou. As tábuas de madeira estavam apodrecidas e quebradas; as janelas quebradas em pedaços grandes e pontudos de vidro que pareciam presas de animal carnívoro. Entretanto, eu podia perceber que havia uma diminuta fonte de luz vindo lá de dentro - um brilho fraco e amarelado. 

Levantei a mão para bater na porta. 

Mas antes que meu punho se encontrasse com a madeira, uma voz me chamou lá de dentro: "Pode entrar!"

Nhééééc, rangiu a porta. Dei um passo para dentro, minhas pernas bambas. "Olá?" A luz parecia estar vindo de um quarto mais no fundo da casa, então fui em sua direção.

"Bem vinda." 

Uma mulher estava sentada no chão, no meio de um pentagrama, usando um manto com capuz. Ela parecia ser apenas alguns anos mais velha do que eu, seu cabelo loiro claro aparecendo pelas bordas do capuz. 

"Hm... você é a... bruxa?" Perguntei, meio constrangedoramente.

Ela sorriu largamente. "B-R-U-X-A não é um termo que usamos por aqui. Preferimos Mulheres da Arte da Magia." 

"Desculpa! Hm, então-" 

"O que procuras?" me interrompeu. 

"Quero trocar de corpo com minha irmã."

"Um feitiço fácil. Posso fazer por você - mas a pergunta é, poderás pagar o preço?"

"Que preço?"

Ela fez uma pausa, olhando de baixo para cima para mim, com seus olhos azuis acinzentados. "Seu filho primogênito." 

"Eu, hm - eu não sei -" gaguejei. 

Ela deu uma gargalhada. "Estou brincando com você. O pagamento é em dinheiro - mil dólares. Dinheiro ou cartão?" 

"Hm, cartão," Falei, suspirando em alívio. Procurei por minha carteira e alcancei o cartão. "Crédito." 

Ela puxou um celular de um bolso de dentro de seu manto, e depois de passá-lo, bateu no chão e disse. "Venha, sente-se comigo." 

Me abaixei lentamente para sentar no pentagrama. "Depois que estiver feito - ela saberá que isso aconteceu?" 

A bruxa sacudiu a cabeça. "Não. Farei também um feitiço de reformação de memória, assim ela pegará suas memórias e achará que sempre foi você." 

Sorri. "Melhor ainda."

Ela pegou minhas mãos. "Senhora da Escuridão, eu lhe suplico, troque esta mulher e-"

Nhéééééééc

O chão rangiu em um quarto distante. Eu me levantei rapidamente, olhando para as sombras. 

Tump, tump, tump.

Das sombras, a silhueta começou a se formar. Uma mulher - velha e enrugada, com pentagramas gravados em cortes em sua pele esbranquiçada, cicatrizes grossas. Me encarou com seus olhos vermelhos profundos, e senti meu sangue correndo frio nas veias. 

"Você precisa de ajuda, querida?" Perguntou. 

"Não, vó. Eu consigo. Ela só quer trocar de corpo e uma reformulação de memória." 

Mas a mulher deu alguns passos para frente. Se ajoelhou no chão ao meu lado, se aproximou o meu rosto até que eu pudesse sentir um cheiro extramente cítrico emanado de seus cabelos. "Troca de corpo, de novo? Não funcionou da última vez?" 

Olhei para ela, com as sobrancelhas franzidas. "Quê?" 

"Bem, você esteve aqui algumas semanas atrás. Fizemos os exatos mesmos feitiços." 

Encarei-a, começando a entender a situação. "Eu... estive?" 

"Ah, esteve sim." Um sorriso bizarro irradiou em seu rosto, os olhos quase fechados. 

"Você esteve aqui, querendo trocar de corpo com sua bela irmã - e fez questão de que ela jamais se lembrasse disso." 




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


13/07/2018

Perdi o ônibus para a escola

Eu me lembro como se fosse ontem.

Acordei tarde, acabei esquecendo de acertar o alarme na noite anterior. Quando vi 7:27 no meu despertador, pulei da cama como um coelho e comecei a me vestir furiosamente. Eu precisava estar no ponto de ônibus às 7:35, isso significava que eu não tinha tempo para escovar os dentes ou tomar café da manhã. Não, eu perdi esses luxos devido ao meu pequeno erro. Eu rapidamente peguei meus livros e planilhas em minha mochila e corri pelas escadas e saí pela porta da frente.

Corri muito para chegar ao ponto de ônibus. Assim que dobrei a esquina, pude ver a última criança entrando no ônibus amarelo. "Ei!" Eu gritei, mas o garoto não me ouviu. Corri mais rápido quando o ônibus começou a sair, fumaça saindo do escapamento.

"Ei!" Eu gritei novamente, acenando descontroladamente. No espelho lateral fiz contarto visual com o motorista do ônibus. O motorista sempre foi um rabujento, então não posso dizer que fiquei surpresa ao vê-lo me olhar com desdém e dar de ombros, como se dissesse: "Tarde demais, garota." Ele acelerou e eu fui deixada para trás, abatida, triste, e sem um meio de transporte.

Minha escola ficava a cerca de vinte minutos do ponto de ônibus. Eu não tinha dinheiro e nunca tinha andado de ônibus, a não ser o escolar. Minha mente de dez anos estava em um completo estado de pânico. Eu sabia que minha mãe me mataria assim que minha professora ligasse e dissesse a ela que eu havia "faltado na escola". Sentei-me na calçada, suspirando profundamente.

Ainda não consigo explicar exatamente o quê, mas algo não parecia certo. Eu nunca me senti desse jeito antes, mas algo estava... errado. Senti um calafrio percorrer minha espinha e não tinha nada a ver com o vento ao meu redor. Eu estava ainda mais perturbada devido ao fato de que o vento soava freneticamente como gritos agonizantes rasgando o ar. Eu olhei para cima e notei a caminhonete velha, marrom-suja, andando lentamente pela rua em minha direção. Eu não sei o porquê de eu não ter corrido ao ver aquilo. Eu apenas sentei e observei enquanto o caminhão parava ao meu lado. A janela do lado do motorista estava aberta, e pude ver um velho enrugado usando um boné vermelho sujo, olhando para mim. Ele me deu um sorriso, no qual notei alguns dentes faltando.

"O que houve, garotinha?"

"Eu perdi meu ônibus", eu disse com um ar de derrota. O homem olhou para mim por um momento antes de responder.

"Você precisa de uma carona?"

Sim, eu aprendi a nunca falar ou aceitar caronas de estranhos. Ainda assim, eu era uma criança desepserada de dez anos que não queria se meter em problemas por faltar à escola.

"Aham."

Peguei minha mochila e caminhei até a porta do passageiro. Entrei no carro, batendo a porta atrás de mim. O interior da caminhonete do homem estava imundo; Havia latas e pacotes velhos de comida pelo chão, e o cheiro era horrível. Eu tossi e estiquei o braço para abrir a janela.

"Desculpe, criança. Essa janela não funcoona, e nem a porta, por dentro." Eu olhei para o homem, que me olhava atentamente. Havia um pouco de alegria em seus olhos escuros, e eu estava começando a me sentir muito desconfortável.

"Onde você estuda?" ele perguntou, e eu respondi. Ele sorriu novamente e começou a dirigir. Eu olhei para o espelho do retrovisor dele e vi o que parecia ser um pequeno bracelete de arco-íris pendurado nele. Meu desconforto estava fora de controle agora, e embora eu tenha tentado desviar o olhar rapidamente, o homem me pegou olhando.

"Ah, isso?" Era da minha filha, Jessica. Eu penso nela todos os dias."  Ele estendeu a mão e acariciou o bracelete. Eu olhei pela janela, notando que o homem estava indo por um caminho completamente diferente do que o ônibus geralmente faz.

"O que... o que aconteceu com ela?" Eu perguntei, trêmula. O homem ficou em silêncio por alguns longos segundos antes de responder.

"Bem... ela falecei em um acidente de carro. As estradas são perigosas, sabe? Especialmente nesta cidade."

Meu coração batia mais forte a cada segundo. Eu me perguntei se ele estava mentindo sobre a porta não funcionar. Eu estava considerando fortemente tentar abrir de qualquer forma. "Quantos anos você tem, mocinha?"

"Dez", eu respondi rapidamente, tentando esconder meu nervosismo, mas falhando. O homem olhou fixamente à frente em silêncio por mais alguns minutos.

"É... essa é a idade que minha Jessica tinha quando se foi." Ele estendeu a mão em direção à minha perna e eu instintivamente a puxei. Senti meu rosto ficar vermelho quando percebi que ele estava apenas pegando um pacote de batatas aberto que estava no assento ao meu lado.

"Você está bem?" ele perguntou, colocando algumas batatas em sua boca. Eu assenti lentamente, colocando meus pés de volta no chão. Olhei pela janela e senti um alívio como nunca antes. Nós estavamos na rua da minha escola. Como chegamos aqui tão rápido? Ele deve ter pegado algum tipo de atalho.

A caminhonete parou lentamente em frente à escola e o homem saltou para fora. Ele caminhou até o meu lado e abriu a porta para mim. Eu saí, olhando para seu rosto enrugado.

"Obrigado pela carona, senhor." O homem assentiu, me dando outro sorriso.

"Sem problemas, mocinha."

Ele voltou para a caminhonete e foi embora. Eu o observei ir, imaginando o que diabos tinha acabado de acontecer. O que minha intuição de dez anos de idade estava me dizendo? Este homem era claramente inofensivo, ou então eu provavelmente não estaria na escola agora. Eu balancei a cabeça e entrei no prédio. Para minha surpresa, todos os professores estavam chorando. Eu não entendi o porquê até um pouco mais tarde. Um carro atravessou inesperadamente para a pista do ônibus, o motorista do ônibus desviou com força, fazendo o ônibus tombar do lado de uma ponte. Não houve sobreviventes.



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


12/07/2018

Asylum Series - Capítulo 2: O Bonewalker


(Capítulo Anterior: Distúrbio Alimentar)

Depois de examinar os relatos de alguns pacientes, eu percebi o leque de bizarrices que nós temos aqui... Honestamente, eu nunca pensei muito nesses pacientes como pessoas. 

“Doido” é um rótulo que imediatamente desumaniza alguém, tira deles qualquer possibilidade de empatia ou compreensão. 

Por exemplo, tem uma menina que se recusa a falar com qualquer pessoa que não a deixe sentir suas têmporas, por causa das “fibras nervosas” (seja lá o que isso signifique). Fora isso, e um pouco de paranoia, ela parece completamente normal – mas antes, era muito fácil apenas taxa-la como mais uma paciente doida. 

Quanto mais leio os relatos, mais eu percebo que estas são pessoas reais. Apenas afligidas por dores além da imaginação mundana. 

Ontem à noite estava lendo durante uma pausa, até que as palavras de um homem me chamaram a atenção. Eu o conheço. Depressivo, conformado e esgotado, mas agora, acho que por trás de tudo isso, talvez ele seja como um de nós. Ele só está...preso nessa dor. 
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Tá bom, eu conto! Mas nada de choques! Você prometeu que não teriam mais choques se eu te contar! 

Eu sei como começou. Agora, quando lembro disso, parece óbvio: 

Eu estava andando na rua com alguns amigos. Estávamos bebendo no caminho para um outro bar, quando um cara esquisito e desesperado esbarrou em mim. Ele cheirava a suor e...alguma outra coisa...ele sujou minha mão com alguma coisa. Minhas unhas para ser mais específico. Sangue. Ele me sujou de sangue. 

Ele congelou, com uma feição triste e assustada. “Me desculpa”, ele disse. E eu acreditei nele, mesmo não sabendo, na hora, pelo que ele estava se desculpando. E então ele correu. 

Quando vi o sangue fiquei enojado, mas tentei só limpar e esquecer aquilo. Nada aconteceu...por um tempo. 

Oh Deus! Eu lembro de cada detalhe daquela noite. Deitado sozinho no meu apartamentozinho fajuto. Nossa, como sinto falta dele. É um palácio comparado aos seus “cuidados”. 

Eu acordei um pouco antes de acontecer. Eu estava encarando o teto escuro, me sentindo estranho. E de repente eu precisei me curvar de tanta dor que senti, chocado demais até para gritar. Eu me lembro que eu vi, ainda sem entender o quanto estava fodido, uma grande lâmina ensanguentada saindo da minha canela. 

Eu não compreendia. De onde veio aquilo? Alguém me apunhalou? 

Eu tentei pegar o telefone, mas senti uma dor ainda maior quando a lâmina se mexeu. Outra enorme navalha branca saiu e as duas se separaram, fazendo uma linha na minha canela. Eu tive a visão de navalhas me fatiando em pedacinhos de dentro para fora...hoje, bem que eu queria que isso tivesse acontecido. 

Eu não tive muito tempo para entrar em pânico. Elas pararam. Eu senti um pequeno alívio que não durou muito, quando eu percebi que uma coisa viva tinha saído do osso da minha canela. 

A coisa examinou o quarto com seus seis olhos perolados, enquanto pingava com meu sangue. Parecia uma aranha de meio metro esculpida num osso com seis pernas de navalha. 

“Inesperado”. 

Aquilo falou? Mas não tem boca. Como ele estava falando? 

- Inesperado? 

Eu perguntei assustado. 

"Quem é você?" 

Tremendo e a beira das lágrimas, eu só queria que aquele treco fosse embora. 

- Ninguém importante... 

Resposta errada. 

Ele enfiou a perna de volta no meu osso exposto, cuidadosamente desviando da carne separada e do sangue corrente. Senti uma picada no peito...Pelo que eu pude compreender, a perna de navalha daquela criatura entrou na minha tíbia, mas saiu de uma das minhas costelas. Uma ponta de lâmina pressionando meu coração por dentro... 

- Por favor, por favor... 

Eu implorei enquanto o suor caia nos meus olhos. 

- Eu faço o que você disser, eu faço, eu faço, só não me mata.. 

Ele respondeu. 

“Aceitável” 

Ele tirou a perna e a dor foi embora com ela. 

“Você fará como for instruído ou morrerá dolorosamente” 

Eu me engasguei com o soluço. 

-Sim, sim, claro. 

Ele voltou para o osso exposto e...sumiu. Sem entender o que tinha acontecido, eu fui ao hospital, falei que foi um acidente e levei alguns pontos na perna. Parecia que eu teria minha vida de volta. 

Eu estava errado. 

Ele saiu por entre os pontos algumas noites depois. Desolado, mas preparado, eu fiz questão de memorizar tudo o que pude sobre ele. Mortal, mas estranhamente belo, como um inseto cor de marfim. Ele me dava ordens e me fazia...fazer coisas. 

Começou com pequenos crimes. Que eu tinha que executar de maneiras muito especificas, plantando evidências por razões que ele não me dizia. 

Ele me levou até criminosos perigosos, mas essas pessoas eram o menor dos meus problemas. Um dos seus outros escravos me deu um osso gigante de animal com um sangue especial, e Ele me fazia levar esse osso pra uns lugares esquisitos. 

Ele saia do osso e conversava com alguém. Eu nunca cheguei a ver quem era, não que isso fosse me ajudar. 

Eu perdi as esperanças depois de muitas noites procurando por ajuda, mas sem resposta. Eu espancava pessoas. Furtava. Assaltei lojas de conveniência. Ele até me fez colocar aquele maldito sangue nas unhas de um outro cara. Eu não pude fazer nada enquanto, aos poucos, as navalhas se separaram...as mãos dele caindo no chão...a perna...gritando, implorando, suplicando...aquilo torturou ele até a morte por uma informação que eu não entendi...eu tive que pegar os pedaços dele e jogá-los fora depois...Oh Deus... 

Ao longo do tempo eu fui encontrando...outras maneiras de me fazer esquecer do vazio obscuro e desesperador que existia dentro de mim. Meu irmão me achou na rua depois de alguns meses. Me lembro de cada detalhe disso também: 

- Você precisa vir pra casa. Vamos te tirar das drogas, te deixar limpo. Papai vai te arranjar um emprego. 

- As drogas não são o problema! 

Eu gritei pra ele. 

- É a única coisa que me impede de perder a sanidade. É o Bonewalker. 

A medida que as palavras saíram da minha boca, eu senti uma picada no meu ombro esquerdo...e depois do lado direito do meu pulmão... A mensagem era clara: Ele estava me observando. 

- Vá embora!! 

Gritei pro meu irmão. 

Eu senti cada pedacinho de mim exatamente como aquele cara nojento e desesperado que esbarrou em mim. 

- Você não pode me ajudar! Vá embora! 

Depois disso, me afundei ainda mais nas drogas. Qualquer coisa que lembrasse o que eu era antes de tudo isso, sumiu. Então decidi que não ia fazer mais nada, mesmo que eu precisasse morrer por isso. 

Ao seu comando, eu comprei um rifle. Ele queria que eu matasse alguém, alguém importante..., mas quando Ele me desse o nome e o plano, eu iria recusar. 

Imaginei como Ele me mataria. Se mataria minha família... Será que eu tinha mesmo uma escolha? Eu precisava fazer o Bonewalker pensar que não era minha culpa... 

Liguei para a polícia e dei uma dica anônima. Eu estava calmo e cheio de alívio quando eles me cercaram e me puseram algemas. Fiquei sob custódia, aparentemente pego pela polícia. Quando o Bonewalker viesse, não teria motivo pra punir minha família pelo menos. Mataria a mim apenas. 

Mas ele nunca veio. 

Digo, eu sei que ele não veio até agora, mas estou acabado e preso aqui de qualquer forma. Eu fico pensando...e se tiverem mais? E se Eles vierem me pegar, porque eu sei das coisas? Não vai ter aviso. Pode ser a qualquer momento! A sensação de uma lâmina afiada passando e então, estarei morto... 
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O que mais me cativa sobre esse relato é que se assemelha muito com alguns devaneios deixados por um homem que morreu tragicamente a um tempo atrás. Ele foi mutilado de uma maneira inimaginável – como se seu rosto tivesse sido arrancado pelo lado de dentro. A história dele chegou aos jornais depois que perceberam que ele era o serial killer responsável por diversas mortes similares... 

Mas aquele homem disse que, como seu último feito, ele daria um jeito de destruir a criatura. 

Imagino que o paciente deve ter lido sobre aquele homem e acabou criando uma obsessão ou delírio sobre isso. Acho curioso como a loucura parece ser contagiosa... aparentemente mais ainda hoje em dia. Estou começando a pensar se esse lugar realmente está tentando ajudar essas pessoas... ou só deixá-las isoladas... como quarentena para uma praga. 

[Atualização: E agora estou convencido de que há algo mais acontecendo.]

Tradução Livre por: Alicia 


Essa postagem compartilhada foi feita pelo site Não Entre Aqui. Cliquem aqui e visitem o site, para não ficarem de fora de nenhuma novidade.


11/07/2018

"É aí que seu corpo estará dentro de uma hora."

Fui criada em uma casa Cristã fervorosa e rígida, porém com muito amor. Meus pais não faziam regras absurdas e tinham boas intenções, mas obviamente quebrei algumas dessas como a maioria dos adolescentes.

Johnny era um bom partido. Era absurdamente lindo, tinha participado do time de futebol, e tinha recebera uma bolsa integral. Engraçado, talentoso, e bem apessoado, havia pouco para NÃO gostar nele. Nossa ligação começou por causa da castidade e o amor por pregar peças.

A melhor parte: ele tinha seu próprio apartamento na universidade, o que ficava cerca de quatro horas da casa dos meus pais. Eu conseguia ir para lá sob o falso pretexto de ir visitar ou passar a noite com alguma das minhas amigas que frequentavam a mesma universidade. Meus pais nem se quer precisavam saber que eu estava namorando. 

Eu acabara de fazer dezoito anos e adorava minha nova febre rebelde e a tão nova sensação de liberdade. Mas ainda vivia feliz com as regras e orientações dos meus pais na maior parte do tempo. Sempre me encorajaram em pensar livremente e fora da caixa até que encontrasse minhas próprias morais e valores, e acabei me tornando parecida com eles... porque, sim, eles são demais. Minha mãe, sábia, me encorajava a não dormir com qualquer pessoa, e era algo em que eu me segurava firmemente. Então, mesmo quando eu ia passar a noite no apartamento do meu namorado, não tinha intenções de fazer sexo. Ele aceitava isso muito bem e parecia respeitar minha decisão.

Em uma semana, precisamente no meio do verão, tive três dias de folga no trabalho. Uma viagem para me encontrar com Jhonny já estava agendada e comecei a rota para lá cedo na manhã. Ele estava animando em me ver e tivemos um ótimo dia. Guerrinha de armas de brinquedo, lendo Stephen King, dando uns amassos. Saímos para jantar e voltamos para ter uma noite de travessuras... pelo menos era o que eu achava.

Quando entramos em seu apartamento, Jhonny me mostrou uma caixa de camisinhas. Não era a primeira tentativa dele, então não fiquei chocada, mas disse prontamente que não ia acontecer.

Os eventos que se seguiram depois desse evento que, normalmente pareceria tão normal, me assombram até hoje.

O sorriso de Jhonny desapareceu e seus olhos ficaram frios. Assombrosamente frios. Eu estava sentada em sua sala de jantar com as costas para a parede, ele de pé no outro lado da (pequena) mesa. 

"Você me enjoa. Estou cansado de você. Você brinca com meus sentimentos. Tudo que você faz é brincar comigo." 

Nós dois sempre gostamos de pregar peças e éramos sarcásticos em todos os sentidos da palavra. Enquanto sua fisionomia me deixava toda arrepiada, não de um jeito bom, eu sabia que era uma piada. Afinal de contas, eu o conhecia a muitos anos. 

"Tenho pensado nisso a muito tempo e você está morta. Eu não vou continuar com isso. Você me enoja. Eu te odeio e você está morta."

Estava absurdamente calmo e sua voz implicava um leve tom de ódio que eu nunca tinha presenciado antes. Notei seus punhos cerrados, as veias saltando nos braços. Pela primeira vez em nosso relacionamento de anos, não me senti segura junto dele. Nossos olhares eram fixos um no outro, ninguém piscava. 

Seu apartamento de segundo andar era dentro do Campus da Universidade. Eu não havia visto mais ninguém no prédio, nenhum carro no estacionamento. Mesmo se eu conseguisse passar por ele (o que eu não ia conseguir), minhas duas opções eram destrancar a portada varanda e pular OU correr uns dois metros até a porta que dava para o corredor e que abria para dentro, e então descer um lance de escadas. Cada um desses cenários me levava para um estacionamento vazio. Eu teria que correr até o meu carro, ou para o bosque ali perto. Mesmo sendo atlética, eu não tinha chaces físicas contra ele. 

Me foquei nele. Metade de mim sabia que ele estava brincando. Tinha que estar. Começaria  a rir a qualquer momento e nós voltaríamos ao nosso maravilhoso dia. Mas ele continuou a falar.

Não posso repetir o que ele falou. Não me sinto a vontade de escrever as palavras que saíram de sua boca aqui, na internet. Mas me detalhou o estupro que tinha planejado para mim. Se eu sobrevivesse, eu seria estrangulada no bosque e então descartada em um local isolado que já tínhamos explorados juntos. Gesticulou em direção de uma mochila de viagem que estava no balcão da cozinha, "É aí que seu corpo estará dentro de uma hora."

Já era demais para mim. Seu plano era muito bem planejado para ser uma piada. Sou pequena mas sou teimosa, e lutaria até o final pela minha vida, se precisasse. Também consigo não expressar meus sentimentos fisicamente quando preciso. Era minha vez de encará-lo com toda ferocidade que conseguia, me levantei e falei a primeira coisa que me veio na mente. Ainda me orgulho da calma inabalável que demonstrei - por dentro eu estava implorando para Deus não me deixar morrer. 

"Você é tãããão engraçado. Eu quase acreditei por um segundo. Mas não teria funcionado de qualquer forma porque o que eu ia te falar é que meu pai mandou que eu voltasse hoje para casa - ele precisa de mim amanhã cedo para arrumar o jardim para o aniversário da mamãe, porque Kyle (meu irmão) machucou as costas e falei que eu ia ligar para ele quando estivesse pegando a estrada daqui meia hora." 

Era uma mentira e não uma particularmente boa, mas falei convincentemente. Balancei meu celular em seu rosto e falei que ele poderia ligar e explicar para o meu pai o motivo de eu não voltar para casa, se quisesse que eu ficasse.  

A boca de Jhonny estava entreaberta enquanto olhava para mim. 

"Eu só estava brincando," sussurrou, os punhos ainda cerrados. 

"Até mais!" Falei alegremente, passando por ele. 

Arrisquei e deu certo. Peguei minha bolsa e fui embora pelo corredor. Eu podia sentir seus olhos queimando em minha direção, aquela energia elétrica por todo o cômodo enquanto eu gritava internamente para andar calmamente. Destrancando a porta, andei lutando contra todos meus instintos que me mandavam correr. Eu estava longe demais do meu carro e se eu corresse, ele ia me alcançar. Além do mais, não queria dar-lhe a satisfação de me ver com medo. 

Andei todo o estacionamento (antigamente eu tinha o hábito de estacionar meu carro o ais longe possível) até perto do bosque onde ele havia falado que me assassinaria. Eu sabia que estava me observando o tempo todo... eu podia sentir seus olhos analisando cada movimento meu. Enquanto dirigia para longe, passando seu apartamento, vi sua sombra na varanda. Acenei, ele só olhou.

Dirigi alguns quilômetros até o Walmart mais próximo. Não eram nem oito da noite e o sol estava começando a se por. Milhares de pessoas passavam por mim naquele enorme estacionamento, sem nem desconfiar pelo o que eu havia acabado de passar. 

Surtei ali no volante, chorando até não poder mais. Depois dirigi quatro horas para casa. 

Estupidamente, eu não sabia como processar o que havia acontecido e simplesmente deixei isso esquecido no fundo da minha mente. Passei os anos seguintes evitando Jhonny. As poucas vezes que pensei sobre, me sentia culpada por ter sido tão ingênua. Finalmente contei para minha mãe o acontecido depois de quatro anos. 

Então, é, tenho um ex-namorado que é um potencial assassino que graças a Deus hoje mora a 15 mil quilômetros de mim... por favor, não vamos nos encontrar de novo. 


FONTE

N.T: Esse conto faz parte uma nova coletânea que estarei trazendo esporadicamente para vocês, os "não vamos nos encontrar", que coisa que aconteceram de verdade com pessoas reais, encontros bizarros e assustadores onde poderemos ver um pouco da podridão e da loucura que habita a mente humana, e o relato daqueles que escaparam da morte por pouco. 


10/07/2018

Quem é o monstro?

Eu posso afirmar, com base em meus 15 anos morando aqui, que a rua das corças é o lugar mais tranquilo e seguro que você poderia morar. Em todos esses anos de experiências boas e ruins, o pior delito cometido nessa região foi uma série de furtos de bicicleta cometida por alguns adolescentes da rua vizinha.

Tomo como espanto, portanto, os recentes eventos ocorridos na rua. Cerca de 5 dias atrás, tudo começou. Uma das moradoras mais velhas sumiu sem deixar sinais ou indicações do que poderia ter acontecido. Sem sinais de arrombamento, sem cartas de despedida, sem testemunhas, sem sinais de luta... Nada. A reação entre os moradores foi a pior possível, considerando-se a magnitude do ocorrido em uma rua tão pacata.

No dia seguinte, porém, o evento se repetiu. A vizinha da desaparecida, dessa vez, foi quem sumiu. E assim seguiu-se por 5 dias. 5 pessoas desaparecidas... Uma em cada dia. Todas nas mesmas condições. Pela rua, choviam teorias. –Devem ser alienígenas. – Diziam os mais jovens. –Com certeza é o arrebatamento. – Diziam os mais velhos. Eu, entretanto, ouvi outras teorias mais assustadoras. -Seria uma antiga força demoníaca? Um vampiro? Um ser humano? Um monstro gigantesco? – Todas, porém, parecem fantasiosas demais para serem tidas como verdade. Uma delas, entretanto, começa a tomar grande força na região e na minha mente.

Durante uma grande reunião de moradores na casa de meu vizinho Fernando, discutimos bastante sobre os ocorridos. Todas as teorias que lhe falei foram colocadas em cima da mesa e conversamos horas sobre elas. Até que uma senhora bem idosa chamada de Julia pediu a fala e começou a nos contar uma lenda muito antiga. A lenda conta que o espírito maligno de um antigo assassino africano foi preso em algum lugar daquela rua. Chegaria o dia em que alguém liberaria o espírito e a morte se espalharia por toda a região. Naquele momento meu ceticismo permaneceu forte. Não acreditaria numa história dessas. Precisaria haver alguma explicação plausível. Fui para casa pensativo e demorei a pegar no sono. Pensando se haveria realmente um espírito de um assassino solto na rua das corças.

Acordei no dia seguinte com um cansaço descomunal e me dirigi para a cozinha a fim de tomar café. Enquanto assava minhas torradas, liguei o rádio como de costume. Para minha surpresa, pois aquele era o horário do jornal esportivo, o rádio anunciava a vinheta do jornal policial, seguida pela seguinte notícia:

-A delegacia da cidade recebeu hoje pela manhã uma encomenda pelo correio. Dentro do pacote, havia um coração humano...

Aquilo não parecia real. Uma região pacata se transformava numa cena de filme de terror.

-Legistas vindos da cidade vizinha confirmaram que o órgão foi retirado do corpo 5 dias atrás, o que reforça a teoria de que o órgão pertence à Alessandra Santos, a senhora desaparecida. Não há provas, entretanto, que liguem os fatos. A polícia segue investigando e aconselha a todos os moradores que permaneçam em suas casas.

No decorrer do dia, os moradores resolveram fazer uma espécie de assembleia extraordinária na casa de algum dos moradores a fim de discutir a situação crítica na qual estávamos vivendo. Ofereci minha casa e nos reunimos pela tarde. Novamente as teorias foram postas em pauta, mas nenhuma delas foi comprovada, assim como não haviam provas que suportassem nenhuma delas. Entretanto, meu vizinho Fernando, por trabalhar na polícia, nos deu um direcionamento maior. O possível assassino estaria seguindo um padrão de zigue-zague na escolha da casa das vítimas. Sendo assim, poderíamos prever quem seria a próxima vítima e assim evitar que ela ficasse sozinha. Fernando concluiu dizendo que a polícia já está pensando nisso e que deveríamos deixar tudo isso com eles. De toda forma, aquela luz de esperança acesa parecia apenas uma gota de água em um oceano de trevas e escuridão. Confesso que tudo o que estava acontecendo me deixou, sim, irritado e preocupado. Entretanto, de certa forma me deixou aliviado. Ainda havia uma possível vítima antes de chegar até minha casa. Talvez nem chegasse. Eu poderia fugir. O assassino poderia ser preso. O mistério em fim poderia ser resolvido. Mas todos esses pensamentos eram puramente animais. A Marília deveria estar com tanto medo quanto eu. Provavelmente mais. Ela não poderia fugir, pois seu marido trabalhava na delegacia da cidade. Apenas esperaria que a segurança fosse suficientemente forte para impedir mais um desaparecimento e quem sabe assassinato. Fui dormir preocupado, pois de alguma forma eu sabia que a vinheta policial tocaria novamente no outro dia.

Acordei então calmamente e antes de tudo me dirigi a cozinha. Liguei o rádio e então ouvi:

-Mais um desaparecimento foi confirmado nesta manhã de Sábado. Marília Ferreira de 40 anos passou a noite em casa, como sugerido por seu marido Marcelo. Entretanto, desapareceu misteriosamente entre a madrugada e o começo da manhã.

-MERDA, MERDA! – Soquei fortemente a mesa, sem quebra-la. O medo começava a tomar conta de mim. Apenas mais um dia e seria eu. Eu seria o próximo amaldiçoado a descobrir a verdade disso tudo. Então, fiz a única coisa que poderia para esta noite. Dirigi até o mercado mais próximo e fui fazer compras. Com toda a certeza do mundo, a atendente de supermercado achou que eu fosse o assassino. Saí do estabelecimento com um martelo, um enorme facão, algumas ratoeiras para identificar a chegada do assassino, sinos para colocar em toda a casa, cordas para amarrar panelas e, por via das dúvidas, um incenso para afastar qualquer possível entidade que pudesse se aproximar de minha casa.

Então, rapidamente a noite veio. Preparei todas as armadilhas a tempo, acendi o incenso, segurei o martelo e o facão e esperei em uma nova cadeira preta de veludo. Aos poucos me senti mais devagar... Mais leve... Todos os meus pensamentos flutuavam de uma maneira singular. Como se fossem orquestrados pelo melhor dos maestros. O motivo pelo qual eu estava fazendo tudo aquilo não importava mais. Cercado pelas cores azul, branco e púrpura eu me sentia em paz. Então uma enorme escuridão se aproximou de mim. No meio das cores. No meio dos pensamentos. O contorno de um homem alto se aproximou de mim e me falou: -Sua hora chegou. Receba e perceba a imensidão do universo. – E foi aí que senti uma enorme e aguda dor no meu peito. Tentei empurrar o homem alto, mas ele não estava mais lá. Ele nunca esteve. Percebo que sou eu que seguro a faca. Eu que a cravei em meu peito. Imagens sobre cada um dos vizinhos desaparecidos aparecem em minha mente. Mas não me lembro de ter cometido tais atos. Eu tenho certeza que não fui eu. Então eu desmaio.

Acordo com um movimento brusco e sentindo muita dor em meu peito. Percebo que há um enorme curativo nele. Então um homem fala comigo:

-Então quer dizer que foi você esse tempo todo? Depois de 15 anos?

Estou num carro de polícia. Sendo levado para a delegacia.

-Havia um homem alto que se movia como uma sombra, quando vocês chegaram? Uma espécie de demônio africano. Ele fez tudo isso...

-Você fez tudo isso! Não me venha com essa lenda agora. Vou levar você à delegacia e você será julgado pelos 8 assassinatos que cometeu, seu monstro. Eram apenas idosos. Você percebe tudo o que fez?

-Eu já disse que não fiz nada disso...

-CALA A SUA BOCA!

Então ele largou o volante e se virou em minha direção. E foi aí que eu o vi novamente. Dessa vez com mais nitidez. Um senhor alto e magro com um sorriso assustador cheio de dentes pontiagudos. Sua orelha era extremamente pontuda e metade de seu rosto era... Derretida. Ele segurava a mão de uma jovem garotinha negra que segurava um urso de pelúcia. Então tudo começou a girar. O carro perdeu o controle e a última coisa que vi em minha vida antes de cair naquele barranco foi o demônio a garotinha indo embora na direção da cidade vizinha.
Autor: Silence the Shadow


09/07/2018

Você prestou atenção na chuva recentemente? Não é água.

Notei pela primeira vez enquanto esperava o ônibus. 

Chovia. Mais forte do que havia chovido naquele mês, naquele ano. Todos estavam espremidos naquela gaiola de vidro, miseráveis, aparentemente sem guarda-chuvas. Avaliei a cena, tentando decidir o que era pior: me molhar ou esfregar a bunda em estranhos?

Foi uma escolha fácil. 

Fiquei de pé na grama enlameada. A chuva caia na minha pele, encharcando minha camiseta. Gotículas escorriam por minha testa, pigando em meus olhos; estiquei a mão para secá-los. 

Mas congelei. 

A água da chuva parecia... diferente. Estava levemente escorregadia - como uma mistura entre água e óleo. Molhei os dedos e esfreguei um contra o outro, sobrancelha franzida. 

De primeira, achei que era minha imaginação. Mas uma olhada na estrada e pude perceber que não. Os carros estavam andando muito mais lentamente do que o de costume - 30 km/h no máximo. E os que iam mais rápido pareciam meio descontrolados, escorregando.

Puzei meu celular, comecei a digitar "Chuva em Bloomfield". Foi quando ouvi o grito. 

Olhei para frente. Do outro lado da rua, duas mulheres estavam gritando e apontando para um homem que saia de um Starbucks. 

"Você está sangrando!"

"Você está bem?"

Olhando de relance, achei que ele estava usando uma camiseta branca com bolinhas vermelhas. Mas com a chuva caindo nele, a camiseta só ficou mais vermelha. "Chamem uma ambulância!" uma das mulheres pediu. Observei a cena, confuso. 

"Eu estou bem, sério, não sei o que está acontecendo," o homem disse. "Por favor, não precisa chamar ninguém." 

Foi aí que entendi. Os pontos vermelhos eram as gotas de chuva. Linhas vermelhas escorriam por seu rosto e braços, pingando na calçada, formando poças rosas em sua volta. 

"Estou bem, é sério." 

Três dias depois, vi seu rosto novamente nas notícias.

John Allard, 45 anos, preso por assassinar sua mulher em casa, na noite de terça-feira. O julgamento será...

"Esse cara," falei, apontando para a TV. "Esse é o cara que te falei - o cara da chuva." 

Molly mal se quer olhou para a tela. "Ah, que legal," falou, enquanto mexia nas gavetas da cozinha. 

Nas semanas seguintes, mais pessoas foram pegas pela chuva. Quando tocava a pele de alguns, a chuva corria vermelho-sangue, manchando as roupas assim como seus corações. Sempre, dentro de alguns dias, essas pessoas cometiam atos de extrema violência - seja assassinato, agressão ou estupro. A cidade de Bloomfield estava caótica, confusa. Ninguém sabia o que estava acontecendo, nem o que fazer. 

Ontem a noite teve outra tempestade. A chuva batia com força na porta de trás, relâmpagos clareando o céu roxo. Eu fiquei na varanda, debaixo do toldo da casa, apenas assistindo. 

"Molly, vem cá! Olha que lindo!"

"A sopa está ficando fria, Rick," sua voz ecoou da cozinha. 

Raios se espalharam pelo céu, como teias de aranhas por entre as nuvens lilás. Fogos de artifícios da mãe natureza, Molly sempre dizia. "Você ama tempestades," chamei de novo. A chuva aumentava, tamborilando no toldo. "Venha ver!" 

Ela veio até a porta. "Não. Venha jantar comigo," falou pela porta de tela. 

"Fique aqui comigo, só um pouquinho. Chega até a ser romântico, vem." 

Ela suspirou. "Tá, tá."

Molly pisou cuidadosamente na varanda. Joguei meu braço ao redor de seus ombros, e ficamos ali por alguns minutos, assistindo o show de luz. 

Alguns minutos depois, quando o vento mudou de direção rapidamente, um pouco da chuva veio em direção dos nossos rostos como um spray, por apenas uns segundos. "Desculpa por isso," falei, me virando para ela. "Eu não devia ter te forçado a vir aqui, afinal de -"

Congelei. 

Gotículas de sangue pintavam as bochechas dela.

"Hm, Molly?"

"Que?"

Ela se virou para mim. Quando o fez, seu braço saiu de baixo da proteção do toldo. A chuva encharcou-a, tornando sua pele em um tom de carmesim profundo. 

Me afastei.

"Rick, espera," falou, seus olhos arregalados, entendendo a situação. Mais gotas caíram em seu rosto; listras escuras corriam em sua linda face. 

Corri para a casa. Click - tranquei a porta. 

"Rick, por favor, abra a porta," falou, enquanto sua camiseta ficava vermelha e sangrenta. 

Me virei, procurando meu celular. 


***
A polícia encontrou uma garrafa de etilenoglicol na prateleira da cozinha, pela metade. 

Eu queria acreditar que a chuva deixou-a daquela forma. Que todos nós somos inocentes aqui em Bloofield, que estamos sendo manipulados por uma arma química nos céus, transformando pessoas inocentes em monstros. 

Mas encontrei o recibo do veneno. 

A data da compra foi a mais de seis meses atrás.

Continua a chover aqui em Bloomfield. Toda vez que vejo as nuvens acinzentadas chegando, minhas entranhas parecem se transformar em nós, me perguntando quem será o monstro revelado da vez. 

Mas agora eles pegaram o jeito. Enquanto dirijo pela rua principal do centro, existem poucas pessoas por lá. A maioria fica dentro de casa. 

E os poucos que saem...

Bem, esses são espertos o suficiente para usar seus guarda-chuvas e capas.



FONTE



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


06/07/2018

Uma chamada para a polícia sem sentido nenhum

As coisas já estavam fodidas desde o começo. Uma mulher chamada Carol liga para a polícia alegando que tem alguém na casa dela. Vamos até lá investigar, vasculhamos o lugar centímetro por centímetro, não encontramos nada. 

Geralmente, isso é facilmente explicado. A mente de uma pessoa idosa que mora sozinha começa a deteriorar. O começo da demência e outras doenças mentais começam a dar as primeiras badaladas em nossa vida. Bem triste, na verdade. Entretanto, essa mulher tem apenas 24 anos de idade. Em outras palavras, as probabilidades disso ser coisa da cabeça dela era bem improvável. E parecia estar extremamente perturbada por toda essa situação. Porque mentiria?

Fomos embora e falamos para que entrasse em contato conosco caso visse mais alguma coisa. Quero dizer, não podíamos fazer nada naquele momento. Ficamos surpresos quando recebemos outra ligação de Carol no dia seguinte. Dirigimos até lá e vasculhamos a casa de novo. Não encontramos nada... novamente. O problema era... a casa parecia diferente dessa vez. Quase como se houvessem detalhes sutis que fizessem-na se distinguir do lugar do dia anterior. Meu parceiro - Beck, disse que notou isso também, mas não conseguia definir o que era.

Decidimos não comentar sobre isso quando falamos que não havíamos encontrado nada. Entretanto, pediu para que ficássemos. "Eu o gravei," falou. 

Tirou o celular do bolso e pediu para vermos o vídeo que tinha feito. Era uma filmagem de sua casa. Está correndo pelos cômodos, respirando freneticamente. E então o vimos. Uma figura humana enorme, coberto dos pés a cabeça no que parecia ser um macacão todo preto. Se move lenta e pesadamente em direção da câmera enquanto Carol grita e se enfia no quarto, trancando a porta por dentro. Ele bate algumas vezes na porta antes de ouvirmos os passos se afastando. 

Não sabemos como reagir àquela filmagem, mas tentamos. Chegamos a conclusão de que o homem deve ter ido embora assim que Carol se trancou no quarto. Entretanto, a porta da frente estava trancada quando chegamos, e Carol falou que não tinha saído do quarto. Talvez ele também tinha as chaves da casa? Isso explicaria bastante, mas também piorava muito a situação. 

Decidimos ficar cuidando da casa durante aquela noite. Fomos discretos, estacionando uma rua de distância, com um carro disfarçado. Nós dois estávamos totalmente acordamos, prontos para partir caso víssemos qualquer coisa.

Por volta das duas da manhã, vimos alguém andando na estrada, em direção da casa. Entretanto, não é um homem. É a própria Carol. Beck e eu devíamos estar com a mesma expressão no rosto. Que porra é essa?

Saímos do carro e fomos até lá, batendo forte na porta. Entretanto, ninguém atendeu. Podíamos ver luzes ligando e desligando intermitente, mas não tínhamos certeza o que isso significava. Ela queria que fossemos embora?

Recebemos uma ligação da delegacia. Disseram que que Carol tinha ligado de novo, dizendo que haviam diversas pessoas na casa agora. Perguntaram se precisávamos de reforços. Respondemos que sim.

Sem outro momento de hesitação, forçamos a porta e entramos. As luzes da sala ainda acendiam e apagavam, mas vimos que não havia ninguém mexendo nos interruptores. Chamamos por Carol, mas ninguém respondeu. Na verdade, o lugar era totalment silencioso. Pude ver as casas vizinhas começando a ligar suas luzes por causa da comoção. Subimos as escadas correndo e começamos a vasculhar cada quarto. Mas não havia nada. Mais uma vez, vasculhamos o lugar centímetro por centímetro, mas não tinha nada lá, nem mesmo a própria Carol, que tínhamos claramente visto-a entrar na casa momentos antes.

Enquanto eu vagava pelo local totalmente confuso, Beck falou: "Tem um quarto aqui que não devia estar aqui." 

"Mas como assim, porra?" Perguntei. 

"Eu tenho mantido conta," falou. "Haviam somente nove quartos na última vez que viemos aqui. Agora são dez. Você não notou?"  

Me esforcei para lembrar. Subconscientemente, eu sabia que tinha algo erra, mas não conseguia colocar meu dedo no que era. Entretanto, logo percebi. 

"O porão. Havia apenas uma porta que levava para o porão na última vez." 

Beck assentiu. "São duas, agora. 

Eu não sabia o que pensar. Olhei em volta tentando entender como aquilo era possível, mas não havia uma resposta ali. 

Ouvimos uma batida na porta cerca de dez segundos depois. Parecia agitado. Olhamos pela janela da sala, mas não fomos agraciados com as luzes azuis e vermelhas da polícia. Ficamos hesitantes de atender, claro. Decidi dar um passo à frente, mas Beck me puxou. 

Olhou para mim e balançou a cabeça negativamente, sussurrando. "Deixamos a porta aberta, lembra?" 

Ele estava certo. Meu rádio começou a chiar. Outra ligação da delegacia. Dizendo que precisávamos sair da casa imediatamente. Carol ligara novamente, dizendo que nós iriamos morrer, em uma voz mortificativamente monótona. As batidas pararam, mas podíamos ouvir passos no porão. Algo estava na casa conosco.

Decidimos que aquilo era o suficiente. Tínhamos que sair daquele lugar maldito. Enquanto começávamos a descer as escadas, ouvimos uma voz vindo da cozinha. Carol sai de lá, bloqueando nosso caminho para a porta. Ela parece catatônica, com olhos vazios nos encarando.

"Encontraram ele?" Perguntou, sem nenhum traço de emoção em sua voz. "Acho que ele está no porão. Por que não vão checar?" 

Beck e eu paramos em choque. Ela apenas continuava a nos encarar, gesticulando em direção da porta do porão de vez em quando. Os passos lá em baixo eram como se alguém corresse em círculos. Ignorando seu pedido, abruptamente passamos por ela e corremos para a porta da frente. 

Os reforços ainda não estavam lá, então decidimos ir para o carro.Entretanto, antes de chegar no carro... vemos alguém descendo a rua, espiando pela janela do lado do motorista. Ele é enorme, vestido no que parece ser um macacão preto. Então parou de olhar a janela e olhou diretamente para nós. É difícil ver de tão longe, mas o macacão que ia até cabeça não parecia nem ter buraco para os olhos.

Beck então fala, "Senhor, por favor, afaste-se do veículo." Sua voz falha no meio da frase. Está apavorado. 

Assim que Beck termina de falar, a coisa começa a correr em nossa direção. E é rápido. Rápido demais. No momento em que levamos para pegarmos as armas, percebemos que passou por nós e está indo em direção da casa. Não esperamos mais, corremos para o carro, entramos e trancamos as portas, esperando o reforço. 

Quando finalmente chegam, somos extensivamente questionados enquanto uma equipe, provavelmente a SWAT, vasculha a residência. Mas não é o chefe da polícia nos interrogando, é um cara de terno que nunca vimos antes. Pergunta coisa como "Quantas portas tinham na casa?" e "Como Carol se parecia, exatamente?" e "Alguma vez vimos um cara com um olho só vagando por aí?" Respondemos inconclusivamente a quase todas. Não tínhamos ideia do que estava acontecendo. 

Em dado momento, vemos um membro da SWAT levando várias macas para rua e enfiando-as em um caminhão. Não uma ambulância, não, mas no próprio caminhão deles. Eventualmente, o homem que havia nos questionado nos manda ir para casa, e para fazermos nosso relatório na nossa delegacia como sempre. Disse também para que não nos preocupássemos com o que vimos ali.

Não sei como ele acha que isso é possível. 

Dirigimos de volta para a delegacia em completo silêncio. Enquanto estacionávamos, Beck finalmente deixou escapar um longo suspiro. 

"Jack é muito louco, cara."

Olhei para ele, confuso. "Que? Quem diabos é Jack?" 

Ele me responde igualmente confuso. "Como assim? Tô falando do cara dono da casa." 

"Que? Era uma moça chamada Carol. Como você já esqueceu?" 

Ficamos olhando um para o outro, cada um com um olhar mais caótico... mas não falamos mais nada. Silenciosamente saímos do carro e fizemos nossos caminhos separados para nossas casas. Ambos sabemos que tem algo de muito errado com o outro. 

Tentei não pensar muito sobre quando minha cabeça pousou no travesseiro. Consegui ir e vir no sono, até que três horas depois, fui acordado pelo meu telefone. Ainda meio inconsciente, atendi. 

"Precisamos de você. Uma mulher ligou para a delegacia. Disse que tem alguém na casa dela."

Meu coração gelou levemente. Mas congelou quando a mulher me passou o endereço. É a casa de Carol. 

Desligo o telefone e deito a cabeça novamente no travesseiro. Eu só quero que esse pesadelo acabe. 



FONTE



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