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Uma estranha conversa com o filho da nova vizinha



De principio, não ouvi Michael. 

O barulho do cortador de gramas preenchia meus ouvidos como um enxame de vespas raivosas, sobrepondo qualquer outra coisa. Eu estava finalizando a última faixa de grama, pertinho da parede do meu vizinho. Fazendo aquilo o mais rápido possível. Os últimos resquícios de luz sangravam no céu, e queria voltar para dentro de casa o mais cedo que pudesse. Uma cerveja na frente da TV me chamava.

Mas quando cheguei na ponta do jardim para desligar o cabo de energia, ouvi uma voz atrás de mim. 

"Paul?"

Levei um susto. Sabe quando você está tão focado nos seus próprios pensamentos que esquece seu arredores? Minha esposa só volta de férias amanhã - está com alguns amigos na Espanha faz algumas semanas - e eu estava pensando no meu planejamento de ir encontrá-la no aeroporto. Calculando o tempo, quando precisaria sair, todas essas coisas. Estava na minha própria bolha. A voz que vinha do jardim vizinho estourou-la.

Me virei e encarei o muro baixo do jardim ao lado do meu. Não pude ver nada a princípio - o céu já estava em sua maior parte escuro, e a única luz que banhava os jardins era de um solitário poste de luz na estrada que ficava atrás da minha casa. Não fazia muito além de projetar sombras. 

"Aqui."

Mudei a direção do meu olhar e o avistei. Michael. Meu novo vizinho. Sou muito ruim em adivinhar a idade de crianças, mas creio que tinha por volta dos dez anos. Ele tem um cabelo enorme preto bagunçado e grandes olhos castanhos. E ele é do tipo que encara, também. Eu só o vi algumas poucas vezes desde que ele e sua mão se mudaram para a casa ao lado semana passada, mas toda vez ele fica me encarando como se eu fosse um animal em um zoológico. É um pouco irritante. Mas essa era a primeira vez que falava comigo. 

"Ah, oi... Michael, né?" Na verdade já sabia muito bem seu nome - tinha esbarrado com o agende imobiliário que vendera a casa deles e o mesmo havia me informado - mas não queria soar familiar demais. 

"Sim, meu nome é Michael. E você é o Paul, minha mãe disse."

"Eu mesmo. Está tudo certo com a mudança?"

"Acho que sim." Michael me encarou com aqueles enormes olhos castanhos. Eu não sou muito de conversar com crianças, então posso estar completamente errado sobre isso - mas parecia que Michael fazia muito mais contato visual do que uma criança de sua idade geralmente fazia. Mal piscava. Crianças novinhas - pelo menos no conhecimento da minha pouca experiencia - não conseguem focar em uma coisa só. São bolas de energia. Mas Michael era o total oposto. 

Provavelmente está perto da hora dele dormir, pensei comigo mesmo. E então, depois: Você devia estar feliz que ele não é todo hiperativo. Se fosse uma dessas crianças, você nunca mais teria paz. 

Maravilhosamente, considerando que ainda estavam na fase de mudança, eu mal tinha ouvido um pio se quer de Michael e sua mãe. Esperava ouvir o barulho de móveis arrastando e caixas sendo carregadas a semana inteira, mas não ouvi. Mal faziam qualquer barulho. Mal se quer tinha os visto, pra ser sincero. Tinham chegado tarde de uma noite da semana passada, e os vi de relance pela janela do meu estúdio - e foi isso, basicamente. Lembro da mãe de Michael como uma mulher alta e atraente que parecia um pouco mais velha que eu, mas não tive oportunidade de ver seu rosto com clareza. E essa conversa com Michael era a primeira interação direta que tive com qualquer um deles.

Vou der um pulo na casa deles quando Beth voltar, pensei, dobrando as alças do cortador de grama. Assim poderíamos no apresentar oficialmente. 

"Então, Michael," falei, pegando o cortador e o carregando pelo meu jardim, "O que você e sua mãe vão fazer hoje a noite? Já deve estar perto da hora de você dormir, né?"

"Não, nem perto," respondeu.

Dei uma risada. "Ah tá, mas minha hora de dormir é bem cedo, então vou entrar e ver um pouco de TV. Te vejo por aí, beleza?" 

Cheguei na pequena casinha de madeira no fim do meu jardim onde guardava esses tipos de tralha e deixei o cortador lá. Estava indo em direção da porta, quando a voz de Michael me parou novamente. "Paul?"

"Fala, cara."

"Você sempre corta a grama assim tão tarde?" 

Sorri. "Não, geralmente tendo fazer isso quando ainda está dia. Mas é que minha esposa volta amanhã, e queria deixar tudo mais bonito para ela. Deve ter sido estranho me ver fazendo isso essa hora, né?"

"Nã... Não acho. Acho que qualquer coisa fica mais divertida de noite."

"Ah, é?"

"É! Vou em aventuras o tempo todo." Pude ouvir a animação na voz de Michael, mesmo sem conseguir ver seu rosto com clareza. Era apenas uma sombra delineada na escuridão de seu jardim. "Uma vez eu até fiz pescaria noturna - você já fez isso?" 

Sacudi a cabeça. "Já pesquei uma ou duas vezes, mas só de dia." 

"É muito mais divertido de noite, na minha opinião. Tudo é mais sorrateiro durante a noite."

Me encontrei sorrido de novo. Mesmo morrendo de vontade de voltar para dentro, aquela criança era divertida. "Bem, talvez você e sua mãe podem levar eu e minha esposa junto. Acho que vocês fazem coisas mais legais que nós." 

Me virei novamente para a porta. Dessa vez eu já estava de fato com a mão na maçaneta quando a voz de Michael me parou novamente. 

"Paul?"

"Fala, cara."

"Paul, você tem alguma coisa para beber? Tipo suco ou qualquer coisa?"

Hesitei.  "Uh... Não sei. Acho que não, eu -"

"Você se importa se eu tomar um copo? Minha mãe ainda está dormindo e não quero acordá-la, está muito cansada essa semana." 

Pausei com a minha mão na maçaneta. Se Beth estivesse ali, teria dito sim de prontidão. Tipo, sem nem pensar. Mas lá, parado no jardim escuro, percebi que poderia ser bem estranho se eu convidasse um menino de dez anos de idade para minha casa, no meio da noite. Mesmo se ele fosse meu vizinho. E tenho certeza que a mãe dele não curtiria a ideia.

"Não tem nada para beber na sua casa, cara?" Minha mão ainda estava na maçaneta, mas ainda não tinha virado o trinco. Fiquei na mesma posição, minha mente procurando desculpas. E quando ouvi a voz diretamente atrás de mim, quase sai de dentro do meu próprio corpo. 

"Não, não tem nada."

Me virei e encontrei Michael trinta centímetros de distância de mim. Me olhando com aqueles olhos enormes e castanhos. O garoto devia ter pulado o muro enquanto eu virei de costas. E fez isso sem fazer barulho nenhum. 

"Por favor, Paul. Só um copo de qualquer coisa, super rapidinho, depois eu volto pra casa. Não vou nem me sentar, prometo!"

Fiz um calculo mental rápido. A porta do jardim abria diretamente na cozinha, e eu tinha suco de laranja na geladeira. Michael entraria e sairia em menos de dois minutos. A mãe dele talvez acharia estranho se ele contasse que tinha entrado na minha casa - mas será que não acharia tão estranho quanto se o vizinho recusasse um copo de suco para o seu filho?

Hesitei por mais alguns segundos, então suspirei. "Tá, pode ser, então. Mas tem que ser rápido, tá? Eu quero ir dormir logo." 

Michael sorriu e assentiu. Virei a maçaneta e entramos. 

***

"Então quer dizer que você é um notívago, hein?"

"Como assim?"

Abri a geladeira e peguei o suco de laranja. "É como chamam as pessoas que preferem a noite. Sabe, tipo quando você disse que faz aventuras - pescaria noturna e tal?" Me mexi até o secador de louça e peguei um copo de vidro. 

"Ah, sim. Com certeza sou um notívago." 

Comecei a colocar suco no copo. "Cara, eu não. Ou pelo menos não quando tinha sua idade. Eu morria de medo do escuro."

"Você se acostuma."

"Que?"

"Disse que você se acostuma. Quando começa a fazer bastante coisa no escuro."

"Certo."

Me virei e entreguei o copo de suco para Michael. Pegou da minha mão e sorriu. Moveu o copo em direção da boca, e então parou, me observando por cima da borda. "Sabe, minha mãe não gosta quando eu faço isso."

"Isso o que?"

"Entrar na casa de estranho. Pelo menos não depois do que aconteceu na última vez."

Fiquei olhando aquela criança. Me encarou de volta, não havia mais um sorriso em seu rosto. Em algum lugar do meu estomago, senti algo se contorcendo estranhamente. "Como assim, cara? O que aconteceu da última vez?"

Michael olhou por cima de seu ombro para a porta fechada. Como se quisesse ter certeza que sua mãe não estava ali. Tirou o copo de suco da boca e colocou em cima do balcão da cozinha. E então deu de ombros. 

"Nada, na verdade. É só que onde a gente morava antes, eu fiquei amigo desse senhor que morava algumas casas perto da nossa. Ele me convidou pra tomar um suco, também. Mas daí ficou estranho." 

Ai meu Deus. Tentei não mudar minha expressão, mas agora tudo que eu mais queria era ter dito não para aquela criança. Isso não soava nada bem. Um velho pervertido tinha convidado-o para tomar suco na sua antiga cidade, e então as coisas ficaram estranhas. Como a mãe dele iria se sentir sobre ele estar dentro da minha casa, sendo que algo ruim claramente aconteceu no último lugar que morou?

"Ele... ficou estranho?" As palavras sairam da minha boca sem que eu quisesse. Deia ter mandado o garoto embora naquele exato momento, mas acho que minha curiosidade tomou o melhor de mim. Michael mudou o peso para a outra perna, me olhando. 

"É, queria que eu fosse para o porão com ele. Disse que tinha uma coleção de lego maneira, e perguntou se eu queria ver. Insistiu para eu ir ver, mesmo quando falei que tinha que ir embora."

Minha boca estava seca. "E... você foi com ele?"

Michael sacudiu a cabeça veementemente. "Claro que não. Corri de volta para casa. Minha mãe disse que eu não posso passar da cozinha quando estou na casa de estranhos."

Senti um alívio percorrer meu corpo. Então repensei no que Michael acabara de dizer, e o alívio se tornou confusão. "Pera aí, como assim?" Perguntei. "Você entra muito na casa de estranhos, então? Tipo amigos da sua mãe, e tal?"

Michael abriu a boca, depois fechou de novo. Se virou e moveu a mão em direção do copo de suco de laranja no balcão. Mas ao invés de pegá-lo, só tocou-o com o dedo, deslizando pela superfície. Quando olhou de novo para mim, continuou falando, ignorando minha pergunta.

"Minha mãe ficou muito brava quando ficou sabendo sobre o homem. Me fez prometer que eu nunca, nunquinha mais iria lá."

"Ela contou para alguém? Quero dizer, sobre o que o homem falou para você?"

"Claro que não." Michael olhou para o outro lado de novo. Havia um leve sorriso em seu rosto, como se estivesse pensando em uma piada interna que eu não entenderia. "Ela fez algo muito melhor que isso." 

"Ah é? E o que ela fez?"

"Ela fez ele desaparecer."

Eu estava com a boca aberta pronto para fazer outra pergunta quando entendi o que Michael acabara de me dizer. Meu próximo pensamento foi que eu só podia ter ouvido errado. "O que você disse?" 

"Disse que ela fez ele desaparecer. Como falei, a noite é o melhor momento para caçar."

Michael me encarou com seus olhos castanhos. Mas naquele momento pareciam muito mais escuros. Quase negros. 

"Eu.. E-eu não..." Tentei encontrar palavras, mas estava perdido. Michael sorriu para mim. 

"Eu acho engraçado," falou depois de um tempo. "As pessoas acham que mamãe não entrará a não ser que seja convidada, mas entenderam as regras todas erradas. Se um de nós é convidado para entrar, então fica tudo certo. Ela pode voltar comigo quando quiser." 

A criança sorriu para mim de novo. "Não se preocupe, Paul. Vou dizer que você foi bem legal comigo. Faço questão que ela pegue leve quando vocês se conhecerem. Obrigada pelo suco." 

Se virou e abriu a porta dos fundos. Me encontrei observando o copo de suco de laranja, minha mente vagamente ciente que ele não tinha tomado uma gota sequer. Mas quando Michael falou mais uma vez, me voltei novamente para o garoto. Estava parado no meio da porta aberta, meio encoberto pelas sombras.

"Demora um pouco para se acostumar," disse, "mas você não terá mais medo do escuro em breve." 

Antes que eu pudesse responder, ele despareceu na escuridão. 

Noite perigosa

Eu estou com mau pressentimento e, além do mais, sozinha no metrô. Não é normal encontrar tão poucas pessoas, contudo deve ser o horário, está um pouco tarde. Sei que não é seguro uma garota ficar essa hora da noite aventurando-se sozinha, mas esperava encontrar alguns trabalhadores, pessoas que costumam passear à noite, etc. Sinto frio, está muito fria essa madrugada. O foda foi porque não trouxe o meu casaco. Não sei por que deu vontade de comer à essa hora da madrugada. Eu tinha que conseguir encontrar algo que não tivesse dentro da minha casa... Às vezes, tenho esse costume de sair para saciar a minha fome com algo diferente. Pode-se dizer que eu sou uma garota louca.

Daqui à uns minutos, chegarei em minha estação, estarei segura e salva em minha casa. O próximo ponto entraram apenas três pessoas: um casal, que foi para a parte da frente do saguão, e um homem estranho. Nesse momento, eu lembrei dos jornais falando sobre um possível assassino responsável por algumas mortes, a polícia alertou para que as pessoas não andassem sozinhas, trancassem as portas e que as crianças não falassem com estranhos. Aquele homem de fato é uma figura tenebrosa, no entanto o seu rosto é familiar. Estou com uma sensação estranha em relação àquele indivíduo, eu sinto uma atmosfera pesada saindo daquele sujeito... Espero que o próximo ponto logo chegue, onde irei sair para finalmente chegar à minha casa.

Finalmente, a minha parada chegou. Comecei a sair e notei que aquele homem estranho também estava saindo, andando no mesmo caminho que eu estou caminhando. Dobrei uma esquina, e ele dobrou também. Tenho certeza que estou sendo seguida por um estranho. Tive uma ideia, decidi pegar um táxi e, quando eu entrei no veículo, pedi para o cara dirigir por aproximadamente dez minutos, enquanto aquele homem segue o seu caminho na noite pretume. Após aproximadamente uns dez minutos dando voltas no quarteirão, eu pedi para o táxi parar em frente ao prédio onde moro, e então saí segurando minha sacola.

O porteiro estava dormindo, mas quando escutou o barulho da velha porta, despertou-se com os olhos fechando e deu uma bocejada de sono. No momento em que fechei a porta, o porteiro, com a voz cansada, deu boa noite, e eu ignorei subindo as escadas em razão de que eu tenho medo de lugares fechados, portanto não usei o elevador. É um trauma de criança, uma coisa que me aconteceu e deixou-me traumatizada. Estava na metade das escadas quando comecei a escutar passos pesados, tudo indicava que eram pisadas de um homem, por conta do som forte. Eu comecei a caminhar imaginando que poderia ser algum morador. No momento em que subia as escadas para finalmente chegar onde fica o meu quarto, notei que era aquele mesmo homem do metrô... Nesse momento, eu não sabia se corria ou gritava. Várias coisas ficaram passando em minha cabeça devido à tensão, uma delas é que fui seguida, ou aquele sujeito sabe onde eu moro.

Decidi que iria continuar caminhando, em razão de que não tem como mais voltar. O sujeito estava com as suas mãos tremendo, notei que tinha algo escondido embaixo do seu casaco e tenho uma leve impressão de que é uma faca. Enquanto estou subindo as escadas, observei uma marca vermelha em sua camisa, poderia ser sangue de alguém... Quando ele passou por perto de mim, o seu corpo esbarrou no meu e uma marca vermelha manchou a minha camisa, era sangue! Agora, um está de costa para o outro, ele continua descendo, e eu fui logo correndo para o meu quarto, trancando a porta.

Na manhã seguinte, alguns policiais bateram em minha porta, e eu abri. Os homens da lei queriam fazer algumas perguntas sobre um assassinato que havia acontecido na madrugada de hoje, eu não sabia o que estava acontecendo, até que os policiais falaram que um homem havia matado a sua ex-esposa após descobrir que ela estava se relacionando com seu irmão. A ficha logo caiu, eu sabia que aquele homem fora o responsável, contudo eu não falei nada sobre ter encontrado ele, disse apenas que não escutei barulho algum para os policiais.

Após alguns minutos tediosos dando informações aos dois bófias que estavam anotando tudo em uma caderneta pequena, foram embora deixando-me em paz. Logo em seguida, tratei de preparar o meu café... Eu demorei a noite toda para encontrar uma oportunidade de arrancar o coração de um morador de rua, ninguém se importa com eles mesmo, e estava com muita vontade de comer carne humana. Talvez nessa semana eu mate mais alguém para preparar um fígado, em razão de que não tem coisa melhor do que comer um fígado antes de dormir.

Autor: Sinistro

Meu Sugar Daddy me faz pedidos estranhos



O perfil dele no Tinder dizia que tinha 45, mas parecia estar no começo dos seus 30, no máximo. 

Procurando uma sugar baby. $700 por semana. Sem sexo. 

Parecia bom demais para ser verdade, mas, como uma universitária sem grana, estava disposta a arriscar. Deslizei para a esquerda, e o Tinder indicou que tínhamos combinado. A mensagem dele veio segundos depois.

Oi, docinho :)

Me encolhi com asco daquela palavra, eu odiava, mas setecentos dólares são setecentos dólares, então engoli o orgulho e respondo. 

Oie ;)

O nome dele era Jack, disse que tinha seu próprio negócio, mas nunca especificou que tipo de negócio era. Conversamos por um tempo até que pediu meu Venmo para mandar o primeiro pagamento.

Depois de alguns minutos recebi a notificação. Fiquei encarando aquele escrito de $700 na tela por vinte minutos, esperando acordar de um belo sonho a qualquer momento. Mas não era um sonho.

Você está aí ainda?

Cliquei na mensagem. 

Sim. Desculpa. Se você não se importa em responder, o que você procura em troca?

Fiquei encarando o chat até que me respondesse.

Só quero que você faça alguns favores para mim :)

Isso parecia que começaria a ficar sexual a qualquer momento. 

Tipo o que?


Por exemplo, a primeira coisa que preciso que você faça é pegar uma tele-entrega para mim.

Isso parecia inocente, mas eu ainda esperava uma reviravolta. Setecentos dólares para pegar uma encomenda? Não sou tão ingenua assim.

Do Correios ou algo assim?


Não. Eu mandarei o endereço, mas prefiro não fazer isso pelo Tinder. Você tem Kik? Ou pode me passar seu número do celular. 

Kik? Ele achava que a gente estava aonde, 2011? Decidi dar meu número, e ele me mandou uma mensagem com o endereço imediatamente, seguido pelo endereço de sua casa, onde eu teria que levar a encomenda. 

Não estou em casa agora, mas tem uma chave em baixo do vaso de flor azul perto da porta. Entre e ponha o pacote em cima da mesa de café da sala de estar. Tranque a porta quando entrar e traque a porta quando sair. 

Peguei minhas chaves, carteira e fui para o meu carro, colocando o endereço no Google Maps. 

Certo! Tô a caminho. 

Meu celular vibrou enquanto dava partida no carro. 

Tô falando sério. Tranque a porta nas DUAS vezes. Por favor. 

Achei isso um pouco excessivo, mas prometi que faria.

A casa parecia abandonada. Tinha uma cerca de arame com uma porta quebrada meio caída, se segurando por um fio. Se destacava como um dedo podre, cercada de outras casas que eram muito melhores em comparação com aquela.

"Você está aqui pra pegar o bagulho do Jack?" 

Olhei para frente e vi um homem parado na porta aberta da casa. Ele fazia a entrada quase desaparecer, sua cabeça roçando no batente superior da porta. Era enorme; em altura, em músculos, e seu torso inteiro era coberto de tatuagens.

"Uh, sim, eu acho." Respondi, sem sair do meu lugar na calçada. 

"Fique bem aí," me disse. 

Fiquei. Acho que nem se ele pedisse porfavorzinho eu sairia dali. Olhei em volta e percebi que não tinha mais ninguém na rua. Eu era uma garota de vinte e um anos sozinha em uma rua deserta. Coloquei minhas chaves do carro entre os dedos. 

Alguns minutos depois, o homem voltou segurando uma caixa de papelão. Era mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos, mas manchada e molhada em alguns cantos. 

"Pode abrir seu carro?" Perguntou. 

Abri o porta malas, não querendo aquilo nos bancos e ele colocou lá. 

"Pronto, tudo certo," falou. 

"Valeu," respondi. 

Andei em direção do banco do motorista e abri a porta do carro. 

"Ah, mais uma coisinha!" O cara exclamou. 

Olhei para ele. 

"Tome cuidado," me advertiu. 

Não respondi. 

Coloquei minha música bem alto enquanto dirigia até a casa de Jack, esperando que isso diminuísse minha ansiedade. Não diminuiu.

Estacionei meu carro na entrada de pedra e fiquei sentada lá dentro, admirando a casa. 

Era uma casa enorme; com pilares de pedra na varanda da frente, com a grama mais verde que eu já vi na vida. Desliguei o carro e sai. Peguei o pacote e andei até a porta da frente, pegando a chave onde disse que estaria. 

Abri a porta e entrei, fechando-a nas minhas costas.

Pensei no que ele havia dito, sobre trancar a porta assim que entrar. Achei que era um pouco demais, mas enquanto observei a porta fechada, algo me fez esticar a mão e trancá-la.

Andei lá por dentro, meu pé amortecido pelo grosso carpete marrom, admirando cada detalhe. Todos os móveis eram de madeira e pareciam absurdamente caros. Eu podia me formar pelo menos umas trezentas vezes só com a grana gasta para mobiliar aquela casa.

Coloquei o pacote na mesa de café, e enquanto voltava para porta, ouvi um telefone tocando em algum lugar dentro da casa. Congelei. 

No meu bolso, meu telefone vibrou. Peguei e li. 

Não atenda nenhuma ligação que não seja de Marvin. 

Coloquei meu celular de volta no bolso e segui o som do telefone, enfiando minha cabeça dentro de diferentes cômodos antes de finalmente encontrar em um escritório. 

Andei até a escrivaninha e li o identificador de chamadas.

Chamada de Jack. 

Estranho. 

Peguei meu celular e li a mensagem de novo. Estava começando a ficar um pouco assustada e decidi não atender, só pra ter certeza, e sai da casa lembrando de trancar a porta assim que o fiz.

Fiz mais alguns favores para Jack desde então. Dirigi um BMW para um parque aleatório em outra cidade, só para sair e pegar outro carro e dirigir de volta para a casa de Jack. Ele me fez almoçar com um de seus 'empregados', que me deu uma maleta que tive que entregar na casa que peguei aquela primeira encomenda, me deixando bem avisada que saberia se eu olhasse o que tinha dentro.  Várias vezes, pediu para eu ir até essa casa e ficar um pouco com aquele cara, que a propósito se chama Julio. No total, fiz $3500. 

Recentemente, Jack me pediu para passar a noite em sua casa. Acordei um uma mensagem dele. 

Preciso que você passe a noite na minha casa. 

Eu nem sequer tinha o conhecido pessoalmente, mas havia conversado com ele no telefone algumas vezes. Prosseguiu dizendo que me pagaria $1000 se eu passasse a noite em sua casa, se eu seguisse as regras. 

Dirigi até a casa dele naquela noite. A entrada de carros estava vazia, como normalmente sempre estava, mas a luz da varanda estava acesa. Andei até a entrada, destranquei a porta, entrei e tranquei de novo. 

A casa parecia igual. Jack havia me informado antes pelo telefone que deixaria as regras em cima da mesa na sala de jantar.  Deixei minhas coisas na sala de estar. Minhas bolsas pareciam sacos de lixo comparadas aos móveis chiques daquela residência.

Passeei até a cozinha, e então adentrei a sala de jantar. E, claro, lá estava uma folha na mesa de madeira, segura em seu lugar por um copo de vidro vazio. 

Tranque a porta quando entrar. 
Apenas atenda ligações de Marvin. 
Não abra nenhuma torneira entre 21h e 23h. 
Não abra a porta para ninguém - não importa quem diga que seja - depois das 22h. 
Se a porta do armário no final do corredor estiver aberta, durma na biblioteca. Se fechada, durma em qualquer um dos quartos. 
O jardineiro chega meia-noite. Se ele começar a bater nas janelas, se esconda.
Ligue a TV e deixe-a na estática durante a noite. NÃO ESQUEÇA DISSO. 
Fique a vontade de pegar qualquer coisa da geladeira :)
Te pagarei de manhã. Boa noite! 

Segui todas as regras. Para ser honesta, estava arrependida da minha decisão. Mas sendo que já estava ali, e seria bem paga, decidi ficar. Acreditei que, se seguisse todas as  regras, ficaria perfeitamente bem. 

Ainda assim, me sentia estranha. O que era isso? Uma casa mal assombrada? 

Mesmo assim, vagueei pela casa por algumas horas, planejava ir dormir por volta das 21h, sendo que todas as bizarrices pareciam acontecer depois dessa hora e preferia evitar a fadiga. As 20h50, escovei os dentes, usando a torneira pela última vez antes das 21h.

Olhei o armário no final do corredor e, sendo que estava de porta aberta, peguei minhas coisas e fui para a biblioteca, pronta para dormir no sofá. Tranquei a porta só para ter certeza, e deitei no sofá, dando uma olhada nas minhas redes sociais. Não tinha recebido nenhuma nova mensagem de Jack, e comecei a imaginar cenários e razões por trás daquelas regras tão rígidas e peculiares para sua casa. 

Eu devo ter adormecido em algum momento porque, exatamente as 22h16, acordei com o tocar da campainha. Estava prestes a me levantar para checar quem era, quando lembrei a regra. 

Não abra a porta para ninguém - não importa quem diga que seja - depois das 22h.

Continuei no sofá, tentando não me mexer, paranoica que ouviriam qualquer movimento que eu fizesse. 

"É a polícia! Abra a porta!"

Não me mexi.

"Olá? É a polícia! Abra ou vamos entrar a força." 

Ainda assim não me mexi, mas conseguia ouvir as batidas do meu coração como tambores em meus ouvidos. 

O silêncio se estabeleceu por algum tempo depois disso.

Então a campainha soou de novo. 

"Sou eu, Jack! Me deixe entrar!" 

Parecia a voz do Jack, mas ainda assim, não levantei. Ele devia ter as chaves da própria casa, certo? Porque precisaria que eu abrisse para ele?

Isso continuou por mais uma hora; pessoas diferentes batiam na porta, anunciando quem eram, e depois desapareciam quando eu não respondia. 

Finalmente consegui dormir, e o jardineiro nunca apareceu. 

Quando acordei na manhã seguinte, ouvi alguém na cozinha. Levantei lentamente, destranquei a porta tentando fazer o mínimo de barulho possível, levando meu celular comigo e atravessando a sala até a cozinha. 

Parei na entrada e espiei. 

Era Jack. Estava de pé na frente do fogão, mexendo algo enquanto a cafeteira fazia seu trabalho na bancada atrás dele. 

"Ei! Bom dia!" Disse quando me vviu. 

"Oi," respondi, nervosa. 

Eu nunca havia o encontrado pessoalmente antes, mas era igual suas fotos do perfil. 

"Quer ovos mexidos?" Perguntou, gesticulando para a panela. 

"Sim, por favor!" Respondi, andando em sua direção para pegar um prato. 

Comi meu café da manhã e tomei café em silêncio. 

"Então, como foi?" Perguntou. 

"Tudo certo. Nada muito anormal aconteceu," respondi. 

"Beleza!" Respondeu.

Havia uma névoa de constrangimento no cômodo. 

"Acho que vou embora agora, tenho aula..." Inventei. 

Não tinha, mas queria sair dali o mais rápido possível. 

"Ah, não. Sim, claro! Te chamarei outra hora," respondeu. 

Peguei minhas coisas e ele andou comigo até meu carro. Eu podia vê-lo na varanda, parado, me encarando enquanto eu ia embora. 

Quando cheguei em casa, arrumei minhas coisas e notei que ainda estava com a lista no bolso. Sentei na minha cama e li de novo. Senti meu corpo ficar todo duro de tensão quando percebi que havia esquecido uma regra. 

Ligue a TV e deixe-a na estática durante a noite. NÃO ESQUEÇA DISSO. 

Ligue a TV e deixe-a na estática durante a noite. NÃO ESQUEÇA DISSO.

NÃO ESQUEÇA DISSO. 

Encarei as palavras no papel até que perdessem o sentido. 

Ao meu lado, meu celular vibrou, me trazendo de volta para a realidade. 

Eram os $1000 de pagamento. 

Olhei para o meu celular e depois de volta para a lista. 

Talvez não fosse uma regra tão importante assim? 

Enquanto esse pensamento passava pela minha cabeça, uma mensagem de Jack chegou. 

Não estou na cidade agora, devo voltar semana que vem, então você está livre das minhas incumbências até lá! Acabei de te enviar o pagamento, vá se divertir ;)

Li a mensagem. Depois li mais uma vez. 

E de novo. 

E de novo.

E mais uma vezinha só para ter certeza.

Não estou na cidade agora.

Pensei na manhã, e em Jack na casa. Me fazendo café da manhã.

Não estou na cidade agora. 

Alguns minutos depois uma nova mensagem chegou de um número que eu não conhecia.

Esqueceu de fazer alguma coisa? ;)

A mensagem foi seguida por uma foto de Jack - ou aquela outra versão de Jack - parado na frente da TV. 

Não respondi. 

Depois, mais uma foto, era minha casa vista de fora. 

Seguida de mais uma mensagem.

Tome cuidado.