Postagens Semanais

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Francis Divina

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Gabriel Azevedo

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Francis Divina

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Gabriel Azevedo

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Talisson Bruce

Sábado
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Domingo
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Porquê larguei o turno da noite.

Uma creepy um pouco mais simples, pra diferenciar das outras até então. Apreciem :3
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Hesitei quando me ofereceram o emprego de gerente noturno do McDonald's. Já trabalhava na loja há seis meses, mas só durante o dia. Eu raramente trabalhava depois do escurecer e tinha conversado com colegas de trabalho que já trabalharam. Super ocupado, falta pessoal, e os clientes são turbulentos. Essas eram as reclamações gerais, e eu percebi que era por isso que a posição de gerente do turno da noite tinha uma taxa de rotatividade tão alta. Em seis meses foram quatro novos gerentes, e cada um deles havia desistido.

O último a sair foi Jesse, um cara que costumava trabalhar às tardes e sempre vinha chapado. Ele fazia isso com tanta frequência que eu assumi que era exatamente como ele era, e então um dia ele veio sóbrio e eu pensei "Merda, entendi porque eles te contrataram". Não me surpreendeu muito quando ele aceitou a promoção; o único benefício da posição é que não há ninguém na sua bunda. Sem preocupações com Clientes Ocultos, o gerente geral está em casa dormindo e você pode fingir que a máquina de sorvete está quebrada o quanto quiser, ninguém vai te dedurar.

O que me surpreendeu foi quando ele desistiu, quase uma semana depois. Ele nem sequer colocou um aviso. Ele saiu da loja no meio do turno e nunca mais voltou. Seu último salário ficou juntando poeira no escritório, e ninguém conseguiu entrar em contato com ele.

E foi aí que eles me ofereceram a posição. Eu tinha minhas dúvidas, mas com apenas dezoito anos, não tinha ideia do que queria fazer da minha vida, e o pagamento era quase o dobro do meu salário como membro regular da equipe. Aceitei o emprego, passei cerca de uma semana em treinamento, e sem perceber já estava encarregado do lugar das onze às sete, cinco noites por semana.

Não era ruim. Durante as primeiras três horas, eu teria um funcionário extra na cozinha e outro no balcão para receber pedidos e entregar a comida pela janela. Os dois saiam às três, e depois a loja ficava vazia, exceto por mim e Miriam, a única mulher da cozinha. Miriam era uma mulher baixa, quieta e de meia-idade, que trabalhava na cozinha há mais de uma década. Ela não falava inglês muito bem, mas conseguia entender bem o bastante.

Era por volta das quatro da madrugada de um domingo, quando entendi por que Jesse se foi. A fila do lado de fora havia acabado e o estacionamento estava vazio. O chão e as mesas do saguão estavam impecáveis, intocados desde que o zelador saiu. O único som audível era o zumbido constante das fritadeiras. Eu sabia que ainda tinha coisas para fazer - ainda precisava reiniciar o sistema de computador, contar os registros -, mas tomei um momento para ficar ao lado do balcão da frente, olhando para o saguão que fechava todas as noites às onze.

Eu não estava olhando para nada em particular, mas meus olhos se fixaram no reflexo na janela e vi algo se mover, debaixo de uma das mesas cobertas. Minha visão não é ótima, então me inclinei sobre o balcão e olhei, até que percebi que não estava imaginando coisas. Eram as pernas de uma garota, saindo horizontalmente debaixo da mesa.

Ela tinha sapatos brancos como a neve, do tipo que as enfermeiras usam. Suas pernas estavam nuas, mas eu não conseguia ver nada acima do joelho. A parte de trás de seus calcanhares repousava no chão, e os dedos dos pés apontavam para o teto.

Então seus dedos começaram a balançar, para frente e para trás, como se ela estivesse ouvindo música. Eu a observei por um momento. Ela estava ferida? Isso era uma pegadinha? Pessoas já tinham entrado no saguão depois de fechar antes, querendo fazer um pedido ou usar o banheiro, mas eu nunca vi nenhum deles agindo assim. Normalmente eles viriam diretamente até o balcão da frente, eu diria "Desculpe, o restaurante está fechado", e acabaria assim. Mas isso…

"Hey!" Eu gritei: "O restaurante está fechado!"

Minha voz ecoou pelo prédio e, assim que eu gritei, as pernas congelaram no lugar. Por um momento ambas ficaram no chão completamente imóveis. A moça que estava debaixo da mesa aproximou-as de si, uma de cada vez, até estarem afastadas o bastante da borda da mesa, para que eu não conseguisse mais vê-las.

Eu percebi que ela estava se levantando e esperei que se mostrasse, mas ela não apareceu. Gritei novamente: "Eu sei que você está aí!", Mas nada aconteceu. Suspirei, deixei meu fone de ouvido em volta do pescoço e saí para o saguão. Ela teria que me obedecer, querendo ou não.

Mas quando saí do balcão e cheguei à mesa, ninguém estava por baixo. Eu olhei debaixo das outras mesas, não vi ninguém. Eu dei uma olhada ampla examinando todo o restaurante. Além de Miriam na cozinha, o lugar estava vazio.

Eu fiquei lá por um tempo, meus pés congelados no chão. Eventualmente suspirei e caminhei de volta para o balcão, tentando não persistir no fato de que eu tinha imaginado um par de pernas debaixo da mesa por pelo menos um minuto inteiro. Eu não estava ficando maluco. Eu estava apenas cansado. Coloquei o fone de ouvido de volta, e quando tive certeza de que ninguém havia entrado no drive-thru, verifiquei novamente as entradas para ter certeza de que todas as portas estavam trancadas. Elas já estavam. Se realmente houvesse uma garotinha se escondendo em algum lugar da loja, (e não havia), então ela teria que estar se escondendo por pelo menos cinco horas até agora. Isso seria ridículo. Eu teria notado ela antes.

Dei outra olhada superficial pelo saguão enquanto caminhava de volta para o balcão, e congelei. No reflexo do vidro, vi um dos sapatos brancos, agora no chão. Eu não conseguia ver mais ninguém, ninguém sob a mesa.

Eu me virei para chamar a atenção de Miriam (ela também veria isso?), mas ela já não estava mais na cozinha. Ela deve ter ido ao estoque para pegar suprimentos. Me virei, tentando obter o melhor ângulo para ver o reflexo, mas por trás do balcão eu só podia ver sombras sob a mesa e, claro, o sapato, descansando ao lado dela. Um momento depois, uma pequena e pálida mão saiu da escuridão, pegou o sapato e o puxou de volta para baixo da mesa sem emitir um som sequer.

Eu quase me esqueci de respirar. Encarei aquele reflexo por uma eternidade, esperando que algo surgisse outra vez, esperando algum outro sinal de que aquilo era real.

Não sei quanto tempo levei para perceber que o telefone estava tocando. Miriam chamou meu nome do escritório. Quando me virei ela estava andando para me entregar o telefone fixo que ainda tocava. Dei outra olhada para o reflexo na janela antes de pegar o telefone e me permiti relaxar quando, novamente, não vi nada.

É tarde, estou exausto, não estou ficando maluco. Agradeci a Miriam e atendi a ligação.

Não esperava muito. A essa hora da noite, nenhuma pessoa bem-intencionada nos ligaria. Geralmente era um erro, algumas crianças passando trote, ou alguém que não tinha certeza se abríamos 24 horas por dia, e queria ligar primeiro antes de chegar até aqui. Mas eu sabia desde o momento em que ouvi a voz do outro lado da linha que isso era diferente.

"Ajuda... por favor me ajude..."

Uma voz suave e jovem estremeceu na linha. Uma garotinha. Meus olhos voaram de volta para o outro lado do saguão, para o reflexo na janela. "Quem é?"

"Estou presa", disse ela. Não vi nada incomum perto da mesa desta vez. "Eu estou presa debaixo da mesa..."

"Onde você está?", Perguntei. Exceto que eu sabia exatamente onde ela estava.

"Ajude-me a sair", ela continuou, como se ela não tivesse me ouvido. "Estou presa, não consigo sair..."

Eu podia sentir os pelos na minha nuca eriçados e minha visão parecia super focada. Onde uma vez a reflexão estava embaçada, agora eu já podia ver com perfeita clareza. Entretanto, nada aconteceu. Nada saiu de debaixo da mesa, mas a voz no telefone continuava implorando por ajuda.

"... por favor senhor, estou presa aqui faz tanto tempo..."

Eu quase desliguei o telefone bem ali. Se tivesse desligado, acho que fingiria que nada havia acontecido e, caso o telefone tocasse de novo, eu não atenderia. Mas isso não era o tipo de coisa que alguém poderia ignorar, além disso, podia sentir até na pele que mesmo se desligasse quantas vezes eu quisesse, ela não ia parar de ligar.

Voltei para o saguão. Eu não andei mais lentamente que o normal, mas demorou uma eternidade para chegar à mesa. Fiquei pensando em Jesse, como ele desapareceu de repente sem uma explicação.

Eu me agachei e olhei sob a mesa e, assim como da última vez, ninguém estava lá. Dei um suspiro de alívio. A voz no telefone soava tão falsa agora. Era claramente alguém passando um trote, que por acaso escolheu a melhor hora possível para mexer comigo.

"Legal, idiota", disse ao telefone, e tentei desligar, de uma vez por todas. "Não ligue para este lugar novamente."

"Mas... eu finalmente consigo te ver", ela disse, parecendo honestamente confusa. "Estou bem ao seu lado. Você está vestindo um uniforme vermelho e preto e uma viseira..."

"Sim, obviamente", eu disse. Se este fosse um trote, eles saberiam que eu estaria assim. “Este é o McDonald's. Nós todos nos vestimos assim."

"- e seus olhos são castanhos, e você não tem um crachá, e você tem um corte na mão direita -"

Sua descrição continuou chegando ao ponto em que ela descreveu o jeito que eu estava agachado, a forma do meu nariz, que minhas mãos estavam tremendo. Eu olhei para a janela novamente, tentando ver além do meu próprio reflexo, para o estacionamento do lado de fora. Alguém está me observando do lado de fora, eu disse a mim mesmo, mas eu estava errado. A reflexão era tudo que eu precisava ver. Nela estava o rosto da garota, espiando, uns quatro ou cinco centímetros além do fim da mesa. Ela olhou diretamente para mim, quase a um braço de distância, seus lábios se movendo em sincronia com as palavras que ouvia através do telefone.

Eu me afastei dela, tropeçando em uma cadeira. Deixei cair o telefone no chão mas ainda assim podia ouvir o tom de sua voz, mas nenhum som saia de debaixo da própria mesa. Não havia nada lá, nada além dos ladrilhos e do suporte para a mesa. Olhei de volta para o vidro e ainda podia vê-la lá, clara como o dia, olhando para mim com grandes olhos negros. Sua boca se moveu silenciosamente, mas ela não se aproximou mais.

Peguei o telefone e corri de volta para o balcão. Meu coração batia no peito, minha garganta seca, minha cabeça latejando. Eu lutei para respirar. Olhei de volta para a janela e lá estava ela de novo, observando-me com a cabeça para fora das sombras. Ela franziu a testa e lágrimas vermelhas escuras começaram a escorrer pelo seu rosto. Coloquei o telefone de volta em meus ouvidos e a ouvi novamente.

"... por que você foi embora? Eu pensei que você ia me ajudar. Estou presa, não consigo sair..."

Ela continuou falando, e eu escutei, com uma sensação ainda pior na boca do estômago quando ela começou a gritar.

"Por favor! Eu estou aqui há muito tempo..."

Saí desse transe com a Miriam chamando meu nome da cozinha. Me virei para vê-la me observando com olhos estreitos. "Você está bem?"

Por um momento, não tive ideia de como responder isso. Eu olhei de volta para a janela e não vi nada, mas nem fodendo que eu teria imaginado tudo aquilo. Coloquei o telefone no ouvido e ouvi a menina gritando de novo. Foi quase reconfortante. Ela era real. Eu podia ouvi-la.

Eu contei a Miriam sobre a garota embaixo da mesa e a voz dela no telefone. Eu deveria estar falando muito rápido porque ela claramente não conseguiu me entender. Então eu lhe entreguei o telefone e disse a ela para ouvir.

Miriam colocou o telefone no ouvido dela. Ela escutou por cerca de dois segundos, depois encerrou a chamada calmamente e colocou o telefone com a face voltada para baixo no balcão. "Garota demoníaca", disse ela.

"O que?"

Ela repetiu-se lentamente, certificando-se de que estava pronunciando corretamente. "Garota demoníaca", “Vive debaixo da mesa. Não deixe ela te tocar, você vai ficar bem".

E com isso, ela voltou a limpar a grelha, cantarolando para si mesma. Meu fone de ouvido tocou e ouvi um carro estacionando no alto-falante drive-thru. Levei minha mão para o botão no meu fone de ouvido, pronto para fazer o pedido, mas meus dedos pararam a alguns centímetros do botão. Olhei para o rosto da garota pela janela novamente. Ela olhou para mim, sem piscar, sem desviar o olhar uma vez sequer.

"Olá", disse o cliente. Mas aceitar seu pedido era a última coisa que eu conseguiria fazer. Minhas mãos estavam suando, a sala estava girando e, acima de tudo, eu me sentia enjoado, doente até às tripas. "Alguém aí?", perguntou o cliente. "Olá?"

Tirei meu fone de ouvido, saí pela porta e nunca mais pisei naquele prédio.
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

Você já ouviu falar dessa cidade?!



Aparentemente, houve alguma vez uma cidade no norte da Suécia, chamada Korona, mas de alguma forma todo mundo esqueceu de sua existência. Sou policial e trabalho em Kalix, um município perto de onde a cidade de Korona supostamente ficava. Naquele lugar, não existem sinais da cidade - apenas uma densa floresta - mas certos detalhes relacionados à minha própria família me dão a certeza de que esse lugar era de fato real.

 Só que todo o resto do mundo apenas esqueceu dela... Não consigo imaginar como ou o porquê, mas é a única conclusão que consegui chegar. Para mim, isso tudo começou quando duas Romenas colhedoras de mírtilo vieram até minha pequena delegacia para relatar algo que tinham visto nas profundezas da densa floresta. Não sabiam falar Sueco ou Inglês para explicar exatamente o que tinham encontrado, mas ficou claro de imediato que tinha deixado-as completamente apavoradas. Pelo que consegui entender, parecia envolver um cadáver humano. Eventualmente, depois de trazer um intérprete de uma cidade vizinha, foi revelado que tinham cruzado com uma criança morta, não devia ter mais do que dez anos.

 Levaram eu e mais dois colegas - seguidos por uma ambulância - até a localização onde tinham encontraram a criança. O sol estava se pondo por trás de uma neblina grossa quando chegamos lá. Acendi um cigarro enquanto saíamos da estrada principal e entrávamos andando pela floresta, para onde a criança supostamente estava. Me sentia um pouco desconfortável em ter que lidar com um cadáver infantil, mas já tinha lidado com casos desse tipo - alguns acidentes de carro - e não me sentia afetado no momento. Era só mais um trabalho, ou assim eu pensava.

 As Romenas pararam quando nos aproximamos e se recusavam a ir além. Havia pânico em seus olhos, mais do que eu esperava mesmo com tais extremas circunstancias. Um dos meus colegas ficou com as duas enquanto o resto de nós continuamos. Logo nos deparamos com uma pedra enorme que se fundido lá durante a era do gelo. Meu colega deu a volta e alguns momentos depois voltou correndo, tão pálido que parecia ter visto o próprio Diabo. Se curvou e vomitou na minha frente. 

 "Está..." disse. "Está do outro lado... Puta merda."

 Não perguntei nada, apenas continuei para ver com meus próprios olhos, com os paramédicos me seguindo logo atrás. O que achamos do lado da pedra... não era natural. Metade da criança - uma menina de cabelos loiros - estava fundido com a pedra como se estivesse passando pela rocha como um fantasma e de repente voltou a ser de carne e osso antes de ter tempo de sair de lá. Ou, como um colega ressaltou mais tarde, como se tivesse se teletransportado para dentro da pedra. O olhar morto e soturno da menina para a floresta parecia contar uma história de tragédia desconhecida pelos vivos. Os paramédicos rapidamente afastaram os olhares em silêncio, horrorizados com o destino que sofrera, mas eu não consegui desviar o olhar. Nunca fui um homem religioso, mas essa experiência me fez duvidar de tudo que acreditava antes.

 E não somente pelo jeito bizarro que a pobre menina havia perdido sua vida, metade de seu corpo engolido por uma rocha... Havia algo a mais sobre aquela garota. Algo que me fizera sentir totalmente vazio por dentro, como se um pedaço da minha própria alma tivesse sido arrancada, deixando um buraco oco no meu coração que rapidamente se preencheu com uma tristeza que jamais sentira antes. Era um sentimento medonho, que só se fazia pior pelo estranho fato que uma pequena parte de mim reconhecia a menina. Não sei de onde... Seu rosto era como uma vaga memória ou um sonho que esquecera recentemente.

 Nos recompomos e começamos a conversar, tentando entender a situação sem nenhum sucesso, enquanto os paramédicos se aproximavam do corpo. Tentei me focar nos fatos sólidos enquanto investigávamos a cena. A menina vestia uma jaqueta rosa. Em um dos bolsos, encontramos uma flor de aparência estranha - suas cores eram exóticas, lembrando a coloração das asas de um besouro - e um cartão amarelo de biblioteca com um texto que nos deixou muito confusos. "Biblioteca Pública de Korona," dizia.

 A menina também havia escrito seu nome no cartão. Quando vi, meu mundo começou a girar. "Isabella Lexelius", dizia em uma letra infantilizada. 

 "Esse não é o seu sobrenome, senhor?" meu colega perguntou. 

 "É... É sim..." Eu não sabia o que dizer ou pensar. 

 "Você a conhece?" 

 "Eu... Eu não sei... Não... Não, eu nunca a vi antes em toda minha vida. Deve ser uma coincidência."

 "É uma grande coincidência, senhor."

 Não respondi. 

 "Tem alguma coisa no chão," um dos paramédicos disse.

 No musgo manchado de sangue em baixo da menina, havia um caderno. Devia ter caído de sua mão, a que estava pendurada sobre o livro. Peguei e abri. As páginas estavam cobertas com textos pequenos, escrito com uma caligrafia diferente da da garota.

 "Senhor!" um dos paramédicos disse. "Nós traremos ferramentas para cortá-la."

 "Sim," falei distraidamente. 

 "Só mais uma coisa," ele disse. 

 Coloquei o caderno dentro de um saco plástico de evidências. "O que foi?" 

 "Tem sangue demais." O médico apontou para o chão. 

 "Como assim tem sangue demais?" Perguntei. 

 "Embaixo da rocha, senhor," explicou. "É impossível que todo esse sangue venha de uma criança só."

 Fiquei em silêncio por um momento e declarei:

 "Teremos que voltar com ferramentas melhores."

 Um dia depois, removemos a parte de cima do corpo com sucesso e levamos de volta para o necrotério onde seria analisado. Também tentamos levantar a pedra com ajuda de um guindaste, mas nem se mexia. Ao invés disso, cavamos um buraco ao redor mas não achamos mais nenhum corpo. Tudo que podíamos fazer era testar a maior parte do sangue encontrado.

 Durante a examinação do corpo, eu lia o caderno. Continha a história da cidade de Korona. Fiquei convencido que era apenas uma peça de ficção - uma história doida que achei ser escrita pelo homem que havia matado a menina - até que algumas semanas depois o laboratório forense me ligou.

 Tive problemas para acreditar, mas não tinha como estar errado.  Fizeram o teste de DNA da menina comparado com o meu por causa do sobrenome. Foi minha ideia, sendo que não queria levantar mais suspeitas. Não achamos que revelaria nada, mas revelou... A menina de mais ou menos dez anos, Isabella, era minha filha. Eu tinha certeza que isso era impossível. Dez anos atrás eu vivia com minha ex-esposa e nunca a traí e certamente não tive nenhum filho com ela. Ficamos juntos por mais cinco anos, então saberia se ela tivesse tido um bebê durante aquela época. Mas ainda assim, o teste era positivo e sem margem de erros. 

 Abaixo você irá encontrar uma transcrição do caderno. Digitei aqui com a esperança de que alguém se lembre da cidade de Korona, ou alguém que tenha morado lá. Por favor, entre em contato comigo se tiver alguma informação. 

 Isso é o que estava dentro do caderno:

 Meu nome é Helena Fredioksson. Cinco anos atrás eu era outra pessoa. Era mais jovem, não só no sentido habitual, mas espiritual também. Havia felicidade em minha vida e eu tinha esperanças e sonhos. Agora, isso não existe mais... Não tenho muito tempo para escrever, mas tentarei explicar o que aconteceu conosco - toda nossa comunidade - da melhor forma possível. 

 O evento, como viemos a chamar depois, aconteceu em 09 de Julho de 2013. Eu estava apenas visitando Korona aquele dia para levar minha sobrinha, Isabella, na grande estréia do O Bosque Vermelho, o novo parque de diversão da cidade. Era para ser o maior de toda a Suécia e Isabella implorou para seus pais que a levassem, mas nenhum deles estavam disponíveis por causa de seus empregos. Então me ligaram e perguntaram se eu poderia fazer esse favor. Sou eu quem chamavam quando precisavam de ajuda com Isabella, a única pessoa em quem confiavam. Como queria que esse não tivesse sido o caso, considerando tudo que aconteceu.

 Chegamos bem cedo, algumas horas antes da abertura, para que não precisássemos ficar na fila o dia inteiro para somente cruzar os portões de entrada. O tempo estava incrível. Havia chovido um pouco na parte da manhã, então estávamos um pouco preocupadas, mas quando chegamos na cidade não havia uma nuvem à vista.

 Isabella não conseguia parar de falar sobre quanto nos divertiríamos, e aqueceu meu coração vê-la tão feliz. Nós demoramos um pouco mais que o esperado para chegar no parque, sendo que uma das ruas principais estava fechada por causa de uma parada militar. Não nos incomodou muito, na verdade apenas aumentou o ar de celebração que já estava no ar. Para evitar a parada, tivemos que pegar um ônibus até o centro da cidade, na Praça Freyja, e de lá pegamos o metrô até a estação do centro de negócios do Yellow Neutral - o maior arranha-céu da Suécia. De lá podíamos andar até O Bosque Vermelho.

 Havia pessoas para todos os lados. Parece que muitos tinham pego a balsa pelo rio, algo que eu não sabia que dava para fazer. Isso significou que tivemos que ficar em uma fila de qualquer forma. Isabella não se importou, havia um homem empurrando um carrinho e vendendo cachorros-quentes ao lado da fila. Comprei um cachorro-quente e um refrigerante para Isabella. Seus pais não gostavam muito quando eu comprava bobagens para ela comer, mas achei que entenderiam, dado as circunstancias do dia. O homem também vendia balões vermelhos para as crianças. Isabella disse que queria um. Tentei explicar que teria que carregá-lo o dia inteiro e que haveriam mais balões lá dentro do parque, mas não me ouviu. Relutantemente, comprei também um balão.

 Nesse momento, ninguém ali sabia que suas vidas estavam prestes a mudar em questões de minutos.

 Isabella acidentalmente soltou seu balão. Achei que isso a deixaria triste, mas não pareceu a incomodar muito. Olhamos o balão enquanto subia aos céus e ia embora. Logo, não era nada mais que um ponto vermelho em uma vastidão azul. Então, de repente, desapareceu.

 "Para onde ele foi?" Isabella perguntou. 

 Eu não sabia explicar. Tinha apenas desaparecido. 

 "Não sei," falei. "Talvez tenha estourado?" 

 Mas algo - uma sensação estranha que eu não conseguia racionalizar - me fez duvidar disso. Então, poucos minutos depois, um vento muito forte começou a vir de todas as direções. Carregava um cheiro que me lembrava de algo apodrecido. 

 "Eca," Isabella disse com seus longos cabelos brancos dançando com o vento. "Que cheiro é esse?" 

 Segurei sua mão com mais força. "Não sei," falei. 

 As pessoas olhavam em volta, confusos, e as vozes antes felizes agora estavam cheias de um tom de preocupação. Algo estava acontecendo, mas ninguém sabia o que era. Sirenes ecoaram ao longe, parecendo estar vindo do centro de negócios.

 "Meu Deus," uma mulher falou e apontou em direção ao arranha-céu. "O topo do prédio sumiu!" 

 Não era tão fácil de ver, mas ela estava certa. O topo do prédio mais alto tinha sumido como se tivesse sido cortado com uma faca. Isabella era baixinha demais para ver, mas estava percebendo que algo não estava certo pela expressão de todos em sua volta, então começou a ficar com medo. 

 "Acho que é melhor a gente sair daqui," falei, agindo por extinto. "Acho que é não é seguro." 

 Isabela começou a lacrimejar. "Mas o parque, nós vamos..."

 "Nós voltamos mais tarde, querida," falei enquanto andávamos para longe da multidão. Uma das balsas estava saindo naquele momento, rapidamente subimos. Algumas pessoas nos acompanharam, mas a maioria ficou para trás, na esperança que tudo normalizasse. Isabella chorou, mas não estava brava. Enquanto a balsa lentamente se afastava da costa, uma espécie de comoção irrompeu entre a multidão na parte terrestre. Não consegui enxergar o que estava acontecendo, mas de repente todos gritavam em horror e tentavam correr em direção da água. Estavam claramente fugindo de alguma coisa, mas não conseguia ver do que. Tudo que eu conseguia enxergar eram pessoas se pisoteando enquanto tentavam pular no rio e fugir nadando. Era uma visão horrível, e agradeci por Isabella não ser alta o suficiente para ver por cima das barras de proteção da barca.

 Depois, as sirenes do sistema de alerta de emergência começaram a berrar aquele som  sombrio e de catástrofe iminente. Todos faziam perguntas que ninguém sabia responder. A maioria das pessoas falavam sobre algum ataque, ou por terroristas ou pelos Russos.

 Peguei meu celular para ligar para minha irmã, mas não havia sinal. Tentei com o celular de emergência de Isabella, também não tive sorte. Logo descobri que ninguém tinha sinal. Nos lados do rio que passavam pela cidade, as pessoas olhavam pelas janelas tentando ter um vislumbre do que estava acontecendo mas a única coisa que podiam ver fora do comum era o prédio cortado no centro de negócios do Yellow Neutral.

"Olha," Isabella falou e apontou para o céu. "Eu nunca vi um passarinho tão grande assim!"

Uma criatura que parecia um pássaro sobrevoava alto acima de nós. Era totalmente preto. Embora não posso dizer com certeza, parecia tão confuso em estar nos vendo quando nós estávamos confusos em vê-lo. Circulou o centro da cidade algumas vezes depois voou para longe. A visão daquele pássaro gigante, ou seja lá o que fosse, transformou nossa confusa ansiedade em terror. Ainda não sabíamos o que tinha acontecido, mas agora sabíamos que não eram terroristas ou forças estrangeiras. Aquilo era outra coisa, algo impossível de se acreditar e ainda assim impossível de negar.

A balsa nos deixou um pouco mais a frente no rio, perto da Praça Freyja. As pessoas pareciam estar em estado de pânico, embora ninguém soubesse o que havia de errado. Alguns empacotavam seus carros para fugir da cidade, outros corriam para algum lugar - em direção de suas famílias, talvez - mas a maioria se aglomeravam em volta de policiais, trabalhadores ou militares da parada para tentar conseguir informações. Mas só recebiam sempre a mesma informação, gritadas para que todos em volta pudessem ouvir por cima das sirenes de alerta de emergência: não se sabia ainda nenhuma informação e que precisavam voltar para suas residências e aguardar mais informações pelo rádio. 

"Como vamos ouvir o rádio se não tem energia elétrica?!" A voz veio de uma senhora. "Olhe em volta, não tem energia em lugar nenhum!"

Ela estava certa. 

"Vão para cara, fechem suas janelas e esperem a energia voltar," um policial disso. "Não sabemos o que está acontecendo, mas a coisa mais segura a se fazer é seguir o protocolo..."

Ele foi interrompido por algo que acontecia a alguns metros de distância. A primeira pessoa que tinha tentado sair da cidade - um homem com uma moto barulhenta - tinha voltado. Eu estava carregando Isabella, confortando-a ao mesmo tempo que tentava ouvir o que o homem da moto tentava dizer para todos. Me empurrei pela multidão para me aproximar. Ele andou até o centro da praça e subiu no pé da estátua do Freyja. Poucas pessoas acreditaram nele, mas todos que haviam visto a criatura nos céus não tinha dúvidas de que o homem estava falando a verdade, mesmo que parecesse impossível. 

"Não tem saída!" o homem gritou. "A estrada principal que dá para saída da cidade simplesmente para e... só tem uma floresta. Não consigo explicar. Sinto muito. Mas é a verdade. Estamos cercados por uma densa e enorme selva que não tem saída." 

"Então é verdade," o policial sussurrou para si mesmo ao meu lado. "Pelo amor de Deus, era verdade."

Perguntei o que queria dizer com aquilo. Primeiro, não quis reconhecer minha pergunta, mas quando viu minha confusão e as lágrimas no rosto inocente de minha sobrinha, virou para mim e disse em tom baixo: 

"Antes de perdemos contato com o helicóptero que estava vigiando a parada, o piloto disse que algo não fazia sentido. Ele estava... estava caindo. Algo tinha cortado os rotores. E disse que tudo tinha mudado de certa forma... A vista tinha mudado. Antes de bater no chão gritou que tinha visto uma selva ao oeste e um oceano ao leste."

Mais e mais relatos chegavam e, embora fosse impossível distinguir os rumores dos fatos, todos contavam a mesma história: o mundo inteiro ao redor da cidade havia sido substituído do nada. A cidade era a mesma, mas o céu acima não era. Eventualmente, as sirenes ficaram em silêncio, os carros pararam de buzinar e a cacofonia de vozes desapareceu. Um silêncio misterioso caiu sobre a cidade. O sensação estava além do irreal.

Eu não sabia o que isso significava. Tentei explicar para minha sobrinha, mas ela tinha apenas cinco anos e não conseguia entender. Ela queria ir para casa para seus pais e eu não sabia o que dizer. Ela estava cansada e precisava descansar, então fui em uma pousada nas proximidades e paguei por um quarto. Logo, a economia da cidade entraria em colapso, mas nos primeiros dias, neste novo mundo desconhecido, as pessoas ainda aceitavam dinheiro como pagamento.

O que se seguiu foram cinco anos de sofrimentos e dificuldades intermináveis, uma batalha contínua pela sobrevivência sem esperança de ajuda ou resgate. Tudo começou na primeira noite. O sol, idêntico ao nosso, ainda que novo e estranho, estava ao norte, em vez de ao oeste, e foi substituído por estrelas irreconhecíveis que cobriam todo o céu. Quando olhei para eles da pequena janela do nosso quarto, eu não senti admiração, mas me senti completamente perdida. O sentimento mais estranho durante todos esses anos deve ter sido a sensação paradoxal de familiaridade com as ruas misturada com a consciência do deslocamento total. Acho que foi em parte por isso que as pessoas se mantiveram perto do centro da cidade, para se afogarem na ilusão de estar em casa, embora soubessem, no fundo, que não podiam escapar do seu destino como encalhadas no desconhecido.

Então, quando me inclinei para fora da janela, ouvi os sons. Pessoas gritando, tiros, carros dirigindo loucamente pelas ruas, sem qualquer lugar para ir, e ocasionais uivos estranhos que faziam meu sangue gelar. Eu não vi nada do que aconteceu naquela noite, mas isso mudou a população - mais de dois milhões de pessoas - para sempre.

Fechei a janela e me escondi embaixo da cama com Isabella. Ela queria chorar com saudades da mãe, mas mantive minha mão sobre sua boca trêmula.

A noite seguinte foi mais calma, provavelmente porque ninguém ousou se aventurar lá fora. Com o passar dos dias, logo percebi que a ameaça não vinha da selva desconhecida fora da cidade, mas das pessoas ali. Era impossível dizer quantos crimes foram cometidos, mas dado o que vi com meus próprios olhos - saques, roubos e até assassinatos -, calculei que a taxa de criminalidade deve ter aumentado muito. No entanto, não era uma anarquia total. A polícia e as poucas unidades militares que estavam na cidade para o desfile mantinham alguma ordem vitais para a comunidade. Como as pessoas comuns não tinham armas, a polícia e os militares não eram ameaçados pelos cidadães comuns.

Um líder deu um passo à frente - o homem da motocicleta - e depois de algumas semanas, todos pareciam cooperar pacificamente. A comida que foi deixada nas lojas era distribuída de forma justa e todos que podiam trabalhar pareciam fazê-lo sem hesitação, até mesmo eu.

Os cientistas que estavam trabalhando na universidade na época do evento não conseguiram descobrir o que havia acontecido, mas com a ajuda de centenas de cidadãos,  conseguiram construir uma pequena usina nuclear que poderia retornar a eletricidade para a cidade. Ajudei principalmente com esse projeto. Eu não sabia nada sobre física nuclear, mas fiz o pouco que pude. Era incrível o que nós éramos capazes como um povo e em toda a minha terrível sensação um sentimento de orgulho cresceu no meu peito. Mas nada era simples para nós. Longe disso.

Além do meu problema pessoal em manter Isabella saudável e segura - o que consegui, embora ela nunca tenha se sentido segura -, haviam outros três grandes problemas que continuavam crescendo a cada semana.

O primeiro era situação da comida e da água. Algumas pessoas conseguiram cultivar trigo e batatas em parques e campos de futebol, mas isso não era suficiente. Estávamos ficando sem comida e água. Chovia de vez em quando, mas poucas pessoas se sentiam seguras bebendo a água da chuva. Para combater esse problema - e também para encontrar soluções para outros problemas - expedições foram enviadas para explorar a selva. Estes geralmente terminavam da mesma maneira, isto é, ninguém nunca retornava. Apenas uma ou duas vezes alguém conseguiu voltar para a cidade, mas esses já não eram eles mesmos. Era como se algo na selva tivesse capturado suas almas e deixado seus corpos voltarem sem nenhum arranhão. 

O segundo problema era a natureza. Parecia ter nos poupado nos primeiros dois meses, mas logo depois que recuperamos a eletricidade, se voltou contra nós. Demorei um pouco para ver com meus próprios olhos, mas - aparentemente ao acaso - criaturas misteriosas entraram na cidade. Às vezes apenas passavam, para nunca mais voltar. Uma policial - um dos novos recrutas - me disse que havia seguido uma criança azul nua, enquanto caminhava solenemente pela cidade e depois voltava a sair dela.

Em outras ocasiões, monstros indescritíveis causavam estragos nas ruas, matando o máximo de pessoas que podiam antes de voltar para seja lá de onde tinham vindo. 

A certa altura - e isso eu realmente vi por mim mesma - uma enorme centopeia, totalmente branca com centenas de olhos vermelhos, saiu de repente de um bueiro. Rapidamente subiu na lateral de um prédio - como se soubesse exatamente o que estava fazendo - e entrou em uma das janelas do último andar. Depois começaram os gritos das pessoas de dentro do prédio. Alguns escaparam, mas todos os outros dentro foram despedaçados. Somente após cerca de cinco minutos a centopeia saiu do prédio da entrada, o corpo branco e segmentado agora todo manchado de sangue e retornou para o bueiro.

Esses ataques, como eram chamados, despertaram medo e pânico em todos nós. Embora isso não acontecesse com frequência, acontecia com frequência suficiente para que todos ficassem nervosos o tempo todo.

O terceiro problema também só se tornou perceptível depois de um tempo.  Problemas de saúde. Não havia padrão para quem era afetado ou não, mas algumas pessoas - provavelmente não mais que 1% - adoeceram. Começou como uma febre e progrediu lentamente com mutações assustadoras atingindo partes aleatórias do corpo. A maioria dessas mutações tornou suas vítimas deficientes e desfiguradas, mas às vezes - muito raramente - as vítimas desenvolviam características aparentemente benéficas. O caso mais extremo que eu vi foi uma jovem que cresceu um terceiro olho no meio da testa. A íris do novo olho brilhava com cores surpreendentes e a garota alegou que podia usar o olho para ver as emoções de outras pessoas.

No início das crises de saúde, os doentes eram maltratados, como se fossem monstros da selva. Este tratamento só piorou quando foi revelado que as criaturas de fora nunca atacavam os doentes. Em dado ponto, um grupo de mal intencionados se reuniu na praça Freyja, perseguindo os doentes cidade a fora. Felizmente, isso foi parado pelos militares.

Entretanto, no final das contas, os doentes eram enviados para a selva. Não para nos ver livres deles, mas para fazer uso de sua imunidade à natureza daquele mundo. Isso se transformou em um enorme sucesso que acabou resolvendo o problema de comida e água. Eles conseguiam se aventurar e explorar a área circundante e retornar com frutas comestíveis, vegetais e pequenos mamíferos que caçavam.

Este foi um momento decisivo para nós. E então nossa sorte apareceu de novo. Todas as tentativas de pesca haviam fracassado até  aquele momento, mas de repente havia peixes em todos os lugares do rio. Logo descobrimos que havia períodos diferentes para quando os peixes ficavam em mar aberto ou mais perto da costa. No entanto, assim que chegaram perto da terra, misteriosas tempestades roxas que duravam semanas atormentaram a cidade. E ainda assim, nós sobrevivemos. Muitas pessoas não, claro, mas a vida era possível. No final, nós prevalecemos.

Durante os cinco anos que se seguiram, não houve muitas catástrofes e nosso foco na sobrevivência mantinha longe nossos pensamentos com os de fora. Até Isabella pensava cada vez menos em seus pais enquanto crescia. Com o tempo, a maioria das pessoas se acostumou com a situação bizarra em que se encontravam desde julho de 2013. Muitas pessoas cometeram suicídio, sim, mas a maioria das pessoas preferiu viver nessa terra desconhecida.

Entretanto, dois eventos mudaram as coisas. Primeiro, foi o que aconteceu com uma expedição planejada ao mar. Centenas de pessoas, a maioria homens, decidiram se aventurar no oceano com um dos cruzeiros de luxo que estavam ancorados ao lado da cidade. Esta seria uma grande aventura e, talvez, uma maneira de encontrar algumas respostas de onde estávamos. Isso inspirou todos nós. Milhares de pessoas - incluindo Isabella e eu - nos reunimos para ver o enorme barco partir lentamente. Tudo parecia semelhante àquele dia cinco anos antes, quando esperávamos que o parque de diversões fosse aberto. Todos nós olhamos para o horizonte enquanto o barco - chamado Birdo de Espero - se transformava em um pequeno ponto contra o sol poente. Nós imaginamos as incríveis aventuras por quais passariam e esperávamos seu retorno. Então algo que deveia ser maior do que qualquer outra coisa que já tínhamos visto até agora pulou da água e engoliu Birdo de Espero inteiro.

Algumas pessoas gritaram, outras choraram. Isso foi um golpe pesado contra a cidade. Apenas saber que um ser assim - um ser capaz de comer um cruzeiro de luxo inteiro em uma única mordida - poderia existir privou muitas pessoas de suas esperanças por um futuro melhor.

O evento seguinte foi diferente. Foi um milagre, para se dizer no mínimo. Aconteceu apenas um mês depois da destruição do Birdo de Espero. Um guarda militar, um jovem que tinha apenas quinze anos na época do nosso desaparecimento da Terra, descobriu que, quando estava em um determinado lugar na praça Freyja, podia sintonizar uma estação de rádio específica do nosso antigo mundo. O nome da estação era Synthwave Mix que dedicava a maior parte de seus programas a esse tipo de música. A esperança retornou imediatamente, mas desta vez a esperança era diferente das que havíamos passado cinco anos construindo dentro de nós. Essa era a esperança de ver nossos entes queridos novamente. A esperança de voltar para casa. As pessoas na universidade investigaram a área para tentar determinar de onde os sinais de rádio estavam vindo. Não tiveram muito sucesso, mas logo perceberam que emanava do solo abaixo da praça Freyja.

Enquanto a área era investigada pelos cientistas, pessoas comuns apareceram em massa. Todos tinham rádios de diferentes tipos, como crianças carregando bichos de pelúcia para se sentirem seguros, na esperança de entrar em sintonia com o Synthwave Mix e sentir o gosto perdido do lar. É claro que a área onde a estação de rádio podia ser ouvida era pequena demais e a polícia precisava expulsar todo mundo para dar aos cientistas a sala de que precisavam. Alguns dias depois os cientistas colocaram um conjunto de alto-falantes grandes ao pé da estátua de Freyja e os conectaram ao receptor que estavam usando para ouvir a estação de rádio.

Dia e noite, a música calma e sintética, as vezes um tanto melancólica, tocava sem parar para toda a cidade. As pessoas se reuniam em torno da estátua. Até desafiaram os perigos da noite. Isso se tornou nossa nova tradição nas cidades. Terminar o dia indo à estátua e sentando-se ao redor dela, como em oração, tornou-se nossa peregrinação. Não era exatamente a música que atraia as pessoas para a praça, mas sim sua origem. Ainda assim, as melodias eletrônicas logo se transformaram em um símbolo de todas as nossas esperanças e sonhos. De tempos em tempos, as pessoas se levantavam e dançavam - às vezes, enquanto choravam com uma alegria agridoce, difícil de explicar. Embora, o que nos fez ficar em silêncio e ficar totalmente concentrado foi quando os anfitriões disseram algo. Geralmente, eles só falavam sobre a música que estavam transmitindo - completamente inconscientes de que uma cidade inteira cheia de pessoas os ouvia quase religiosamente - mas raramente ocasiões, eles falavam sobre o mundo lá fora. Naquela época, parecia que nossos corações pararam coletivamente em antecipação. Falariam algo sobre nós, sobre seus esforços para descobrir onde estávamos e como nos trariam de volta? Mas nunca houve notícias sobre nós, como se já tivessem se esquecido ou nunca tivessem notado nossa existência. O trágico destino da cidade de Korona nunca foi citado. No entanto, nunca perdemos a fé.

Demorou muito tempo - e agora estou chegando mais perto dos dias atuais - mas, eventualmente, os cientistas decidiram que valeria a pena cavar um grande buraco exatamente onde as ondas de rádio pareciam ser ejetadas para fora do solo. Isso não era uma tarefa fácil e nem segura. O trabalho levou semanas. Mais uma vez todos nós ajudamos. Ninguém realmente sabia exatamente o que estávamos procurando, só sabíamos que era alguma coisa.

Quando chegamos ao fundo, onde a rocha se tornava muito difícil de escavar, uma montanha de terra cobria o solo em volta da praça. Nossos esforços não tinham sido em vão, descobrimos. Logo abaixo do local onde as ondas de rádio haviam sido captadas, havia um pequeno buraco no leito rochoso. As pessoas foram solicitadas a se afastar dela enquanto os cientistas a investigavam. Primeiro, tentaram medir o quão profundo era. Isso levou algum tempo por ser difícil encontrar uma corda longa o suficiente. No final, foi estimado em cerca de 700 metros de profundidade. Em seguida, alguns equipamentos foram enviados amarrados ao final da corda, e para surpresa de todos, tudo o que foi enviado foi engolido pelo buraco. Claro, ninguém sabia para onde ia, mas todos nós pensamos a mesma coisa. Que, de alguma forma, havia voltado para casa. Era uma suposição razoável, dado que a única coisa saindo do buraco - as ondas de rádio - vinham da nossa Terra. Todos nos alegramos com essa descoberta. Mais experimentos foram feitos e, embora algumas perguntas permanecessem sem resposta, o consenso - mesmo entre os cientistas - era que o buraco realmente era um portal de volta ao nosso próprio mundo.

Haviam dois grandes problemas que precisavam ser resolvidos. O primeiro era a segurança. Toda vez que algo amarrado à corda desaparecia no fundo do buraco, a corda era cortada como o arranha-céu cinco anos antes. Isso significava que era possível que quem entrasse no buraco também fosse cortado. No entanto, este problema foi resolvido em breve. Ao amarrar uma câmera à corda, conectada a uma tela acima do solo, descobriu-se que a corda só era cortada quando puxada de volta. Contanto que não fosse puxado para trás, a tela ainda recebia sinais da câmera. A câmera nunca gravou nada além de escuridão no que se supunha ser o outro lado, mas desde que continuou a trabalhar até que a corda fosse puxada para trás, isso não parecia ser um problema tão grande. Afinal, alguns problemas técnicos eram esperados sob aquelas circunstâncias.

O segundo problema era que o buraco era pequeno demais para qualquer um passar. Muitas tentativas foram feitas para alargar o buraco, mas o leito de rocha parecia ser feito de um material mais forte do que qualquer uma de nossas máquinas poderia quebrar. Isso era extremamente frustrante. Isso nos fez sentir como se tivéssemos chegado à linha de chegada apenas para descobrir que não conseguimos atravessá-la. No final, uma das cientistas disse que queria mandar seu filho de dez anos para o buraco. Ele era pequeno o suficiente para caber por ele. Isso foi amplamente debatido por algum tempo antes de ser aprovado. A mãe argumentou que a cidade de Korona não era lugar para seu filho e que todas as evidências sugeriam que o buraco era o único caminho para casa.

O menino foi corajoso. Ele sabia que provavelmente nunca mais veria sua mãe de novo, mas ainda assim continuou. Recebeu um walkie-talkie e depois de um adeus cheio de lágrimas para sua mãe, foi mandado pelo buraco negro de 700 metros de profundidade. Foi instruído a ligar o rádio depois que chegasse ao outro lado, confirmando que estaria seguro. Depois que a corda foi puxada, a mãe esperou e esperou que seu filho se apresentasse. No entanto, ele nunca fez. Durante semanas, a mãe sentou-se na beira do buraco - sob calor impiedoso e sob chuva torrencial - chamando o filho várias vezes com seu walkie-talkie. Ninguém sabia o que, se alguma coisa, tinha dado errado. Como nenhuma outra onda de rádio foi captada além do Synthwave Mix, era possível que outras ondas de rádio simplesmente não pudessem entrar em nosso mundo por algum motivo. Ainda assim, a autoridade consideraram o buraco muito inseguro para qualquer outra pessoa passar.

Isso não mudou o pensamento das pessoas. O buraco representava a única esperança verdadeira que sentíamos em anos. E dadas todas as coisas horríveis em nosso mundo que poderiam nos destruir a qualquer momento com a mesma facilidade com que sopramos uma vela, o pequeno risco de passar pelo buraco parecia ser mais do que aceitável. O buraco era vigiado pela polícia, mas a maioria da polícia compartilhava a opinião coletiva das cidades de que o buraco era a única saída... não para nenhum dos adultos, mas para nossas crianças.

E agora estou aqui sentada, no quarto que paguei há cinco anos atrás, escrevendo isso. Durante as últimas semanas, muitos pais têm mandado seus filhos pelo buraco à noite. Este mundo realmente não é lugar para eles. Embora possam sobreviver, merecem mais. Por isso, como muitos outros, decidi enviar Isabella para casa. Quando conversei com ela sobre isso, olhou para mim com uma felicidade em seus olhos que eu não via desde que fomos transportados para este mundo terrível e esquecido por Deus.

Escrevi isso durante todo o dia de hoje. É meu testemunho do que aconteceu com Korona. Vou dar este caderno para Isabella. Tenho certeza de que ela poderá dar a seu pai. De alguma forma, eu sei em meu coração que ela encontrará seu caminho de volta para seus pais. Em breve estará escuro e levarei Isabella para a praça Freyja uma última vez.

Me desculpe pela demora,

Helena.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

Não jogue esse jogo de celular. Dois amigos meus já estão mortos.

Finalmente o Universo está se desdobrando evidentemente! Pode estar meio repetitivo, já que são muitas creepys do mesmo autor, então se quiserem que eu alterne com outros autores, comentem aí :3
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Então, o aplicativo se chama "O Klube de Caça: Cace seus amigos!". Primeiro de tudo, não baixe ele. Isso não é uma piada, nem um desafio. Só não procure por esse caralho nem tente baixar. Você foi avisado. Queria que alguém tivesse me avisado antes de tudo começar.

Uma semana antes do Natal, estava começando a me preparar pro feriado, quando meu colega de quarto veio e começou a falar comigo. Era pros dormitórios já estarem vazios na manhã seguinte, então eu não estava dando muita atenção à ele enquanto tentava confirmar que não havia esquecido nada que precisaria durante minhas duas semanas em casa.

Aí ele começou a esfregar seu celular na minha cara, aparentemente repetindo as coisas que estava tentando me dizer sobre esse novo jogo de Realidade Alternativa que tinha começado a jogar. Sobre como eu tinha que baixar. Só disse "Aham" e continuei empacotando, e ficou por isso, até que dois dias depois olhei meu celular e percebi que ele já tinha baixado o app pra mim.

Tinha esse nome estranho e a imagem era um boneco de palitos numa mira. Numa primeira olhada pareceu meio bobo, mas eu já estava ficando entediado por estar na casa dos meus pais, então decidi ver o que tinha de tão incrível nele.

É assim que o jogo funciona:

Você cria uma conta e entra, depois é levado pro tutorial, que explica as regras do jogo. Há três tipos de jogadores no Klube de Caça: Cervos, Ursos, e Caçadores. Todos começam como um Cervo Nível 1. Você pode chegar até o Cervo Nível 10 evitando ser "caçado" com sucesso.

O tutorial explica o sistema de progressão assim: 


  • Cervos tentam evitar serem caçados e abatidos. Ursos tentam caçar e abater os Cervos enquanto evitam serem caçados pelos Caçadores. Caçadores caçam Cervos e Ursos, e também outros Caçadores.
  • Você precisa ser um Cervo de nível 10 para se tornar um Urso. Você sobe de nível sobrevivendo, e à medida que sobe de nível, um Urso ou Caçador que tente te abater precisará ficar cada vez mais próximo de você para conseguir caçá-lo.
  • Você precisa ser um Urso de Nível 10 para se tornar um Caçador. Você evolui sobrevivendo e matando Cervos, e à medida que sobe de nível, os Caçadores começarão a caçá-lo várias vezes antes de você ser considerado sobrevivente.
  • Seu objetivo como o Caçador é superar todos os outros em sua jornada para a recompensa final.
  • Para iniciar uma caçada como Urso ou Caçador, vá ao seu mapa de caça e identifique sua presa. Então, fisicamente, vá para onde eles estão. Quando você estiver perto o suficiente, o botão “Caça Concluída” irá acender e você poderá clicar nele para confirmar seu abate. O jogador morto irá então reaparecer após 8 horas e perderá um nível como penalidade.

A ideia básica do jogo é colocar você em uma competição contra outras pessoas com o aplicativo. Se você é um Cervo, recebe avisos quando um Urso ou Caçador se aproximam de você. Isso te dá a chance de fugir, ou se você for um Cervo de nível mais alto, com um raio de caça pequeno, apenas se esconda bem até eles desistirem. Se for um Urso, você tem acesso a um mapa que mostra todos os Cervos em sua área. Você também recebe um aviso quando os Caçadores se aproximam. Sendo um caçador, você vê Cervos e Ursos, mas não os outros Caçadores. Os Caçadores, no entanto, ainda podem ser caçados uns pelos outros, mas sem a ajuda de qualquer mapa ou sistema de alerta.

Tudo soava muito divertido, mesmo que um pouco idiota. Entretanto, jogos assim vivem e morrem tendo vários jogadores, e eu nunca tinha ouvido falar desse antes. Mas, quando fui ao menu "Vida Selvagem Local", vi mais de vinte pessoas listadas apenas na minha cidade natal. Um deles era até um velho amigo meu do ensino médio.

Então, nos próximos dias, comecei a jogar. Foi mais lento no início, mas ainda assim divertido. Eu quase fui pego por alguém em uma mercearia, e então eles me seguiram enquanto eu dirigia até que consegui despistá-los, ou eles desistiram. Dois dias depois, me caçaram enquanto esperava na fila de um drive-thru. Eu não tinha conseguido minha comida ainda, só saí da fila e entrei no restaurante para tentar me esconder no banheiro. Em apenas alguns minutos, uma linda garota do colegial enfiou a cabeça no banheiro e tocou no celular, dando uma risada. Senti meu celular zumbir na minha mão enquanto uma foto de um cervo de desenho animado com Xs para os olhos passava pela minha tela.

Oito horas depois, eu estava de volta. Eu era um Cervo de nível 8 naquele momento e, no Natal, virei um Urso. Agora que a merda começa.

Fui à Madison no dia seguinte e, como suspeitava, havia dezenas de Cervos por toda a cidade. Passei a maior parte do dia rastreando-os e foi um banho de sangue. O melhor deles era um cara na parte de trás de um café. Ele devia ter uns sessenta anos e, quando o peguei, seu rosto ficou vermelho como um tomate. Eu costumo dizer algo como "Oi" ou "Te peguei" para as pessoas, mas não dessa vez. Deixei o mau humorado sozinho antes que ele jogasse o café em mim.

No dia anterior à véspera de Ano Novo, recebi uma ligação da faculdade. Eles me disseram que meu colega de quarto Tom estava morto. Falaram que não podiam dar detalhes, mas queriam que eu soubesse antes de voltar para o dormitório na semana seguinte. Eu agradeci, entorpecido, e desliguei o telefone.

Tom não era meu melhor amigo nem nada, mas ele era um cara legal. A ideia de ele ter "sumido" assim parecia impossível. Fui para casa naquela tarde e tentei tirar isso da cabeça, mas nos dois dias seguintes não toquei no Klube de Caça. Quando finalmente entrei outra vez, vi que havia sobrevivido por tempo suficiente para atingir o nível 10 e me tornar um Caçador. Era obviamente algo muito maior que ir de Cervo para Urso, já que tinha até um alerta especial perguntando se eu tinha certeza de que estava pronto para me tornar um Caçador. Revirando os olhos, cliquei sim antes de largar o telefone.

No dia seguinte, minha mãe me contou que tinha mais más notícias. Um amigo meu do ensino médio, Jackson Linder, foi encontrado morto da noite para o dia. Pelo que ela soube, pensaram que foi um suicídio, mas ninguém tinha certeza ainda. Quando ela viu minha expressão, se aproximou e me deu um abraço, tentando me consolar. Ela achou que eu estava triste por ele ter morrido, e eu estava, mas essa não foi a única razão. Ele também era a segunda pessoa que eu conhecia que usava o Klube de Caça.

Fui ao meu quarto e olhei a "Vida Selvagem Local" no jogo. Quando eu olhei pela primeira vez para essa lista de nomes, Jackson tinha um pequeno ícone do Urso ao lado de seu nome. Apenas alguns dias atrás, havia mudado para um símbolo de mira que representava um Caçador.

Agora, o símbolo era uma pequena lápide de desenhos animados.

Depois disso, apaguei o jogo na mesma hora. Eu tentei encontrar alguém falando sobre o aplicativo na internet, mas não havia nada. Não só não tinha nada ruim, literalmente não tinha nada. Então, quase 1 da manhã, encontrei um tópico num fórum em um site obscuro. O post havia sido feito menos de uma hora antes por alguém que estava tentando perguntar às pessoas sobre o jogo. As mensagens diziam que assim que o autor da postagem chegou a Caçador, coisas estranhas começaram a acontecer, como se alguém estivesse brincando com ele. Mas o que realmente assustou o autor foi que o irmão dele tinha um amigo que aparentemente desaparecera desde que começaram a jogar.

Eu mal tinha terminado de ler as mensagens quando o site caiu. Passei cinco minutos dando F5 antes da página voltar e, quando isso aconteceu, o tópico havia sumido, como se nunca tivesse existido.

Voltei para a escola na semana passada e, além do constante lembrete de que Tom se foi quando olhava para a cama vazia, a vida estava voltando ao normal. Eu ainda estava preocupado com o jogo, é claro, mas parecia que deletar tinha sido a escolha certa. Pelo menos até eu ser atacado duas noites atrás.

Eu estava saindo do laboratório de química, atrasado, quando alguém pulou em mim na garagem. Ele tinha uma faca, mas consegui empurrá-lo forte o bastante para entrar no meu carro. Estava com medo dele vir novamente, então dei ré rapidamente e saí de lá.

A polícia disse que foi claramente autodefesa. As câmeras de segurança mostraram que ele me atacou, e que quando ele tentou se levantar, acabou tropeçado atrás do meu carro, e foi atropelado. Não havia olhado meu telefone, até que a polícia me liberou. Quando o fiz, vi que o jogo estava de volta na minha tela inicial e havia recebido uma notificação. Abri, com minhas mãos tremendo.

Parabéns pelo seu primeiro assassinato. Você desbloqueou o Caminho da Escuridão! Você pode jogar o jogo normalmente contra Cervos e Ursos, mas contra outros Caçadores, o jogo é real e a única maneira de progredir é matando.

Seu sucesso lhe rendeu uma semana de imunidade. Qualquer Caçador que te mate durante a próxima semana não receberá crédito. Depois que a semana terminar, você tem duas semanas para efetuar outro assassinato ou recrutar mais cinco pessoas para o jogo. Cada morte ou recrutamento de cinco lhe concederá uma semana de imunidade.

Sua jornada no Caminho da Escuridão fornece certas vantagens, tais como informações sobre seus colegas Caçadores. Vá para a nova aba para conferir.

Tenha em mente que este jogo não é uma brincadeira ou uma pegadinha. Se você tentar entrar em contato com a polícia, todas as provas do aplicativo serão apagadas do seu telefone e você será colocado na Lista de Alvos. O mesmo acontece se você não cumprir suas obrigações a cada duas semanas.

Estar na Lista de Alvos significa que todos os outros Caçadores poderão ver sua localização a todo momento. Se isso não resolver o problema sozinho, um membro de nosso departamento de atendimento ao cliente irá visitá-lo para solucionar esse empecilho.

Esteja avisado de que sua localização e ações não estão sendo rastreadas somente pelo seu smartphone ou tablet. Sinta-se à vontade para tentar "desconectar" ou "sair do jogo", mas saiba que você está apenas perdendo um tempo valioso que poderia estar caçando.

Acima de tudo, tente se divertir. Você só está começando a trilhar o Caminho da Escuridão, e tem muito mais a oferecer se puder ficar por muito tempo, incluindo sua vida.

Boa sorte!


Entrei na nova aba, “O Klube de Caça” e vi uma lista de quase trinta pessoas espalhadas por Wisconsin. Tocar em um nome revelava uma foto da pessoa, seu endereço residencial, seu número de telefone e email, e suas estatísticas do jogo, incluindo se elas estavam atualmente imunes ou não.

Eu vi que estava na lista também.

Minha semana de imunidade está quase acabando, e ainda não decidi o que vou fazer. Independente do que estiver por vir, quero dar um aviso enquanto eu posso.

Não procure o aplicativo. Eu não sei se ele pode ser encontrado através dos meios tradicionais, mas não tente. Não aceite convites por email, nem permita que outras pessoas tenham acesso ao seu telefone. Não assuma que isso não é comum porque você não consegue encontrar pessoas falando sobre. Espero que, tendo postado isso como, postei, por aqui, consiga atingir o máximo de pessoas, mas não sei se vai funcionar.

Finalmente, se você quer ignorar tudo isso, se você quer ver por si mesmo se realmente existe ou se acha que não há nada além de um jogo idiota, pelo menos me faça um favor.

Diga a eles que eu te enviei.
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FONTE  AUTOR  SEUS LIVROS
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

Alguém criou uma tradição anual de amputar uma parte do meu corpo




Sei que pode parecer difícil de acreditar, mas é exatamente o que está escrito no título. 

Sem mais, nem menos.

Acho que a coisa mais sensata a se fazer é começar do começo, então vamos lá. 

***
Em 2012, fui para La Vegas por algumas semanas para aliviar a pressão, junto com meu seguro desemprego depois de ter sido despesando.

Não era uma quantia absurda de dinheiro, mas era o suficiente para se divertir por alguns dias, que era o que eu queria. 

Eu estava hospedado em um Hotel Cassino, e um dia acordei com o que inicialmente achei ser só mais uma ressaca. Sentia náuseas e levemente tonto, e demorou alguns minutos para que voltasse a sentir minhas pernas e braços normalmente. 

Era quase como se meu corpo tivesse dormido por um longo, longo tempo. 

Não demorei muito para perceber que me faltava um dedo. 

Meu dedo indicador esquerdo, para ser mais preciso. 

Comecei a entrar em pânico e a surtar enquanto minha visão ficava gradualmente mais escura, ameaçando um desmaio a qualquer segundo.

Com muito esforço não perdi a consciência enquanto procurava pelo meu dedo por todo o quarto. 

Algo que notei rapidamente foi que não havia sangue em lugar algum. Não que eu pudesse ver, pelo menos. 

Claro que podia ser apenas meu estado bêbado, drogado e em pânico que fazia com que eu não estivesse enxergando ou pensando direito no momento, mas mais tarde a investigação confirmou minha suspeita: nenhum traço de sangue foi encontrado, e a arma/objeto responsável pelo ato também estava desaparecida.

Parecia ser um corte limpo, e de alguma forma o corte havia sido cauterizado. 

Para mim, parecia que meu dedo simplesmente havia caído. 

Sei que isso não faz sentido nenhum, mas era minha linha de pensamento. Quer dizer, se um dia você acordasse sem um dedo, certamente iria procurar em voltar por ele, né? Então foi o que eu fiz. 

Tipo, é uma parte de você, uma parte do seu corpo, algo que não deveria simplesmente desaparecer do nada.

Eventualmente pedi ajuda, e dizer que foi um show de horrores não chega nem perto da situação real. 

Muitos policiais, seguranças do cassino e clientes intrometidos tentando entender que porra era aquela que estava acontecendo. 

Eu não sabia o que dizer, muito menos o que pensar. 

Estava com um dedo a menos e não sabia como nem o porquê.

Os policiais não pareciam ligar muito. Um deles deu a entender nas entrelinhas que eu tinha pego algum dinheiro emprestado de um agiota, da máfia ou algo do tipo. 

Outro disse "foi apenas um dedo, você devia estar grato por isso."

Fiquei enojado além do que palavras podiam descrever, mas antes que pudesse me defender dessas acusações, todos pareciam aceitar aquilo como a verdade.

"Quando em Vegas..." alguém disse. 

Ainda assim preenchi uma tonelada de formulários que foram inúteis no final das contas. Nenhuma pista surgiu e era obvio que não tinha sentido continuar perdendo tempo com aquilo. 

Era a maldita Las Vegas afinal de contas, certo? 

O que acontece em Vegas, continua em Vegas, e meu dedo com toda certeza continuou por lá pelo que sei.

Ameacei processar o hotel, e os responsáveis acabaram me dando uma quantia de suborno para ficar quieto.

Acho que clientes perderem partes do corpo dentro do seu hotel sem uma razão plausível era um tanto ruim para os negócios. 

Quem diria?

Acho que não preciso dizer, mas todo o ordálio e sua conclusão foram uma merda. 

Claro que olhando em retrospectiva, tudo é muito diferente, princialmente pelo fato de que eu não sabia que viraria algo regular, mas até na época foi o suficiente para quase arruinar minha vida.

Eu sei que era 'apenas' um dedo, mas como você aceita uma coisa dessas?

Uma coisa é sofrer um acidente bizarro, ou participar de uma briga. 

Mas não só eu não sabia como eu havia o perdido, mas também não sabia o motivo, ou até quem iria querer fazer algo desse tipo comigo.

Como explicar aquilo para amigos e familiares?

Como aceitar um fato desses?

Imagina acordar todos os dias e lembrar quase que instantaneamente que uma parte do seu corpo sumiu para sempre.

Se você acha que superaria isso facilmente, bom para você. Você é uma pessoa melhor e mais forte do que eu jamais poderia desejar ser, mas no meu caso?

Quase me destruiu.

Não sai do meu apartamento por meses.

Não conseguia pensar ou funcionar normalmente porque o pensamento sobre o meu dedo perdido sempre estava na minha cabeça. Quer dizer, COSTUMAVA estar preso a mim, então desapareceu de um dia para o outro, então creio que seja natural que seu sumiço fosse um lembrete constante.

Quando eu esticava a mão para pegar algo, quando usava ou olhava para minhas mãos... me deixava fodido pro resto do dia. 

Eu não havia superado totalmente, mas graças a terapia eu estava à beira de fazer as pazes com isso e seguir com minha vida. 

Então perdi outra coisa, exatamente um ano depois. 

***
2013.

Acordei com uma sensação bastante familiar, uma que havia infestado meus pesadelos e também os incidentes de paralisia do sono que experienciei no ano anterior.

Me sentia enjoado e entorpecido, todo meu corpo parecia com dificuldade de se mexer e acordar.

Minha sensibilidade lentamente foi voltando, seguido por dor. 

Gritei a plenos pulmões, assim como já tinha feito milhares de vezes logo antes de acordar em uma poça de suor, mas isso não era um pesadelo.

Minha orelha direita havia sumido, nas exatas circunstancias do meu dedo. 

Sem sangue, sem ferramentas, nada deixado para trás. 

Não demorei muito para perceber que os dois eventos haviam acontecido no mesmo dia do mesmo mês.

Havia um padrão. 

Havia, apesar dos pesares, uma razão para aquela loucura, e alguém devia estar por trás disso.

E ainda assim, não cheguei a lugar algum.

"Absolutamente nada"... era isso o que os policiais tinham para investigar, e fui deixado da mesma forma que no ano anterior, exceto que dessa vez estava com menos uma orelha também. 

Os policiais suspeitavam da minha namorada da época. Ela era enfermeira - acho que vocês devem desconfiar como nos conhecemos - mas tudo apontava para sua inocência; tinha estado trabalhando a noite e mais de uma dúzia de colegas de trabalho confirmaram sua presença no hospital, assim como as gravações das câmeras de segurança.

Mesmo tendo sido de um grande apoio emocional no começo, sai de cena alguns dias depois.

Não poso julgá-la. 

Não somente não havia ainda uma explicação de quem, como ou porquê, mas alguém tinha entrado na nossa casa, arrancado um pedaço de mim e saído sem deixar vestígios de arrombamento ou qualquer tipo de evidência para trás. 

Isso por si só já faria uma pessoa se mudar para outro estado, se não para outro pais, por medo - algo que realmente tentei fazer em dado momento, mas falarei disso mais para frente - e não só isso, não era a primeira vez que isso acontecia, e agora tudo apontava que estava se tornando um evento anual. 

E se tornou. 

***
2014.

Provavelmente o ano mais difícil que já tive que viver, sabendo que alguém estava ativamente tentando arruinar minha vida amputando lentamente pedaços do meu corpo, um por um. 

Investi pesadamente na minha segurança e trocava as fechaduras quase que semanalmente, mas nunca me sentia satisfeito. 

Não era o suficiente. 

Eu mal dormia, sabendo que casa dia que passava eu estava mais próximo da maldita data.

Mas e se não viesse?

E se decidissem vir naquela mesma noite, ou na seguinte? Talvez na semana seguinte, ou dois meses depois?

Já tinham feito o que bem entendiam comigo duas vezes na exata mesma data do ano, e a mensagem era clara: podiam fazer o que bem entendessem, quando bem entendessem, e não seriam pegos por isso. 

Provavelmente teria sido inteligente me mudar para um lugar diferente, mas minha ansiedade ditava a maioria das minhas decisões.

Não falei com quase ninguém durante aquele ano todo. Isso, em cima de toda minha reclusão não me fez bem nenhum, embora me trouxesse uma leve sensação de conforto. 

Vivi em medo constante nos primeiros dois terços de 2014. 

Achei que ficaria pior enquanto a maldita data chegava mais perto, mas o oposto aconteceu. 

Fiquei com mais raiva, com uma nova sede de sangue crescendo dentro de mim. 

Alguém estava fazendo aquilo comigo, e se queria continuar fazendo, teria que vir até mim de novo. 

Só que dessa vez eu estaria preparado. 

Estaria esperando.

Não era possível que pudesse escapar uma terceira vez, e mais importante, eu não podia perder mais nada.

Não podia permitir, pois temia que minha mente e meu espirito simplesmente se despedaçariam por completo. 

Comprei uma arma contrabandeada, e aprendi a usá-la se para quando o momento chegasse.

Eu estava pronto para acabar com uma vida, considerando tudo que já havia acontecido comigo, eu sabia que talvez podia me safar daquilo. 

Na verdade, se qualquer pessoa tivesse batido na minha porta aquele dia, eu teria descarregado um pente inteiro na porta fechada sem nem pensar duas vezes. 

Só precisava de uma desculpa, uma mínima ameaça... qualquer coisa.

Sei que tomei uns comprimidos para ter certeza que continuaria acordado e bem desperto durante toda noite, mas minhas memórias começam a desaparecer depois de certo ponto.

Achei que tinha feito o suficiente para garantir que chegaria inteiro no outro dia (ou melhor, sem perder mais um pedaço), mas estava errado.

Naquele ano eles levaram minha mão direita, mas não foi só isso. 

A arma que eu havia comprado para minha proteção?

Tinha sido deixada na minha escrivaninha completamente desmontada, com todas as partes e componentes arrumados perfeitamente, como se fosse uma imagem direta da porra de um manual de instruções.

Tinham deixado sua mensagem, talvez até um aviso do que estava por vir, de um significado que tenho certeza que já nem preciso explicar para vocês.

Tudo que eu sabia é que isso estava longe de acabar.


*** 

Viver trancafiado não me tinha feito nenhum bem, então tinha que mudar radicalmente minha estratégia se tinha esperanças de mudança.

Passei maior parte de 2015 viajando pelo país, ficando em hotéis e todos os tipos de lugares baratos. 

Eu nunca sabia para onde estava indo quando pegava um táxi ou uma carona. Descartei meu celular e fiz questão de nunca fazer reservas no meu nome. 

Esse tipo de coisa, sabe, 'não deixar vestígios para trás' e sair da rotina, ou pelo menos tentar. 

Achei que isso seria o suficiente para despistar seja lá quem estivesse atrás de mim, mesmo sem ter ideia de quais tipos de recursos disponibilizavam para me rastrear.

Por um tempo, me senti bem confiante. Acreditei que podia sobreviver aquele ano sem perder mais um pedaço de mim. 

Mas enquanto a data maldita se arrastava na minha direção, as dúvidas e a ansiedade acharam um jeito de me reencontrar. Fazendo isso, deu abertura para a fatigas mental e física se alojar em mim, acumulando o cansaço de quase um ano viajando direto. 

E se tudo que eu fizera não fosse o suficiente? Ou pior, e se tudo aquilo tivesse sido inútil pra começo de conversa?

Faltava menos de uma semana, e foi aí que decidi fazer algo absurdamente idiota e que provavelmente desfez todo meus 'trabalho' anterior: 

Comprei um notebook e usei a deep web para contratar alguém para me proteger. 

Eles ficaram com meu dinheiro, mas nunca apareceram. 

Naquele ano, perdi a língua.


*** 

Em 2016 não fiz muita coisa. Me mudava de apartamento a cada dois meses mais ou menos, mas mais por necessidade do que qualquer outra coisa. 

Não havia objetivo em me mudar para lá e para cá como no ano anterior, considerando como tudo acabou no final. 

Ao invés disso,tentei viver minha vida mais normalmente possível, apesar de tudo que havia perdido e, agora, com minha fala totalmente prejudicada também.

Mantinha isso tudo na maioria das vezes só para mim. Por fora, parecia estar vivendo e me acostumando com minhas deficiência da melhor forma possível, mas não tinha desistido.

Todos os dias pensava em maneiras de acabar com algo que, para todos os efeitos, parecia ser inevitável de qualquer forma. 

Mantinha tudo que envolvia esse assunto preso na minha cabeça. Esse era o único lugar que eu podia garantir que eles não conseguiriam saber meus planos. 

Embora passara a maior parte do tempo pensando em como evitar que aquilo acontecesse novamente, quero deixar claro que não tinha um grande plano esquematizado. 

Queria ter, mas como você deve entender, eu não estava no meu melhor momento. Perder partes do corpo todos os anos faz isso com você.

Contudo, o melhor plano que desenvolvi foi embarcar no voo mais longo que encontrasse naquele dia em particular. O destino não me importava.

Acreditei que não tinha como alguém arrancar um pedaço de mim em pleno ar, dentro de uma lata de metal sem ter para onde fugir. Era impossível, não importa quantos cenários eu recriasse na minha mente. 

E se conseguisse ficar bastante tempo no ar, talvez fosse possível conseguir me livrar, talvez eu passaria um ano sem perder mais um membro... e talvez tudo aquilo finalmente parasse permanentemente.

Eu nem sequer consegui entrar no avião. 

Os seguranças do aeroporto me encontraram desacordado no banheiro, sem o pé esquerdo. 


***

Depois disso, desisti completamente. Como não desistiria? 

Quando pedi ajuda, arrancaram minha língua. 

Quando tentei voar para longe, arrancaram meu pé, como se dissessem você não vai para lugar algum.

Não via mais motivos para continuar lutando contra aquilo, e mesmo que quisesse resistir a algo, o que poderia fazer sozinho? 

O que eu podia achar que conseguiria fazer na situação que me encontrava, que só piorava ano após anos?

Nada. 

Não havia mais nada para se fazer além de aceitar.

Aceitar o fato que aconteceria de novo, e que não havia nada a ser feito para impedir esse fato. 

Então no ano passado não fiz nada de extraordinário. 

Fui no cinema na parte da tarde, jantei no restaurante mais chique que pude encontrar sem reservas, e depois fui direto para casa. 

Não fiquei acordado apontando uma arma para a porta de entrada. 

Não desperdicei um só segundo pensando em coisas que sei que não me levariam a lugar nenhum.

Só fui para cama e dormi, sabendo que acordaria na manhã seguinte sendo menos do que no dia anterior. 

Não fiz nada, exceto que deixei um bilhete escrito a mão no criado-mudo. 

"Por quê?"

O por quê era tudo que eu queria saber. 

Achei que, sendo que eu havia desistido de lutar contra, iriam pelo menos respeitar meu pedido de saber o motivo de terem me escolhido para fazer aquilo. 

Por que eu? 

Uma resposta era tudo que eu queria, e não era muito a se pedir considerando tudo que já tinham pego de mim.

Não sabia muito bem o que esperar mesmo se deixassem uma resposta, sendo que nada poderia justificar tudo que acontecera comigo. 

Nunca fiz nada para ninguém que pudesse gerar uma vingança desse cunho. Não haviam pessoas loucas na minha vida ou ex-namoradas psicopatas, nada mesmo. E se esse fosse um caso de identidade trocada, ou uma vingança enganada? Não poderia ser recompensado.

O que foi feito foi feito, mas ainda queria saber. 

Precisava de algo para continuar, não importa o quão louco ou bizarro fosse. 

Precisava saber o motivo desse processo lento e progressivo de me apagar da existência desse mundo.

Acordei sem um olho e tudo que recebi em troca foram duas palavras, escritas no mesmo papel da pergunta:

"Por que não?" 


***

Isso nos trás ao agora. 

Sei que existem outras coisas que eu poderia ter feito, outras decisões que podia ter tomado.

Quando deixaram minha arma desmontada, ou até quando responderam meu bilhete, poderia ter pedido para a polícia procurar por digitais ou alguma evidência, mas você acha que achei que descobririam algo com isso?

Não. Não seriam tão metódicos ou inflexíveis a não ser que tivessem certeza que não seriam pegos. Sei que é idiota pensar assim, mas no fundo da alma tinha certeza que qualquer tentativa seria inútil.

Sei que provavelmente cometi erros idiotas desde o comecinho, mas por favor, tente entender e ver da minha perspectiva: Estive sozinho pela maior parte do processo nesses últimos seis anos, e todas as vezes acontecia de novo, e cada ano que passava agia menos como uma pessoa normal.

Não tinha ninguém para quem pedir ajuda, e mesmo que tivesse, minha paranoia teria descartado essa possibilidade.

Eu vivia em medo e apreensão constante, com medo de que quem quer que fosse responsável por isso pudesse, literalmente, ser qualquer pessoa com quem eu cruzasse na rua.

Por favor, entenda que as coisas só aconteceram do que jeito que aconteceram por causa do péssimo lugar em que eu me encontrava, tanto mentalmente quando fisicamente, e por favor entenda que não estou aqui pedindo ajuda.

Como eu disse, já fiz as pazes com tudo isso, e não quero incomodar ninguém tentando bolar um plano para parar essa bizarrice. 

Se você leu até aqui, isso é muito mais do que jamais poderia pedir e não quero mais tomar o seu tempo.

Obrigado. De verdade. 

Eu só queria que alguém soubesse que eu existi. Queria que alguém lembrasse que eu também fui alguém uma vez. Alguém completo. 

Eu era uma pessoa. 

Podia compartilhar meu nome, até meu rosto mutilado, mas até o que sobrou pode ser arrancado de mim, se assim desejarem.

Mas não essas palavras. 

Isso você não pode tirar de mim, e não poderá apagá-las da memória dos outros. Sei que não é muito, e sei que provavelmente não viverei por muito mais tempo nessas condições, mas por enquanto é o suficiente. 

Sei que, seja lá quem esteja coletando minhas partes do corpo, verá isso.

Eu sei que lerão isso. Talvez deixarão até um comentário, me desejando boa sorte ou oferecendo ajuda.

Sei que vão. 

Faltam só mais dois dias até a data maldita. 

Talvez finalmente mostre a cara para mim? 

Talvez você acabe com a minha miséria, no fim das contas? Já pensei em eu mesmo fazer isso milhares de vezes, mas já que vocês se esforçaram tanto, imaginei que poderia esperar pela finalização pelas suas mãos.

Não quero estragar sua diversão e eu também posso obter algum tipo de satisfação distorcida por saber que você sempre terá que voltar para mais.

Você não terminou ainda, não é?

E, para falar a verdade, estou realmente animado pela primeira vez. Isso é basicamente a única coisa por qual espero ultimamente. 

E quem sabe, talvez eu também tenha uma surpresa para você.

Talvez não.


Até mais.

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