23/07/2017

Eisoptrofobia

Quando eu tinha nove anos, desenvolvi uma fobia classificada como rara, segundo os médicos informaram meus pais. Eisoptrofobia é o medo de espelhos, ou melhor, ver seu próprio reflexo em um espelho. Poucas pessoas hoje em dia e com essa idade não gostam de se ver. O narcisismo é bem mais comum, e as fotos no espelho estão aí para provar. Entretanto, para mim, começo a entrar em estado de pânico se me vejo até pelo canto do olho em um espelho. Quando mais nova, meus pais diminuíram esse medo cobrindo ou pintando quaisquer superfícies refletoras para que eu não me visse por acidente. Fui educada em casa. Qualquer evento fora era evitado. Fizeram de tudo para que eu ficasse a salvo do meu maior medo. Ano passado eu me mudei. Trabalho em casa, o que é perfeito para mim. Adoro ter meu próprio lar com nada que possa refletir minha própria imagem. E estou muito feliz que meus pais agora podem ter de volta um senso de normalidade em suas vidas. 
Comecei a me consultar com um novo terapeuta. Quero superar esse meu medo. Dr. Franks usa um tipo de método que chama de "imersão agressiva". Você supera seu medo enfrentando-o. Isso, para mim, soava como a melhor ideia possível. Se eu pudesse confrontar o meu medo, logo o superaria. Antes de começar a conversar com Dr. Franks, eu não conseguia me lembrar como minha fobia começara. A Eisoptrophobia pode iniciar na infância ou ser desperta por um evento traumático. Eu não me lembrava de nenhum trauma relacionado a isso até que começamos a discutir meu passado. Meus pais nunca haviam me falado como aquilo começara, só que simplesmente aconteceu. Mas me lembrei quando Dr. Franks começou a fazer perguntas. 
Eu tinha nove anos, isso eu sei. Me lembro de estar fazendo alongamentos na aula de ballet na frente de um espelho enorme, me observando vestida com leggings de oncinha e tutu rosa. Me lembro da apresentação, minhas colegas e eu dançando para nossos pais. Me lembro das meninas na minha casa, enquanto ainda vestíamos os tutus e sapatilhas de ballet. Me lembro do meu irmão tentando nos assustar e fazendo caretas. Me lembro de ficar na frente de um espelho segurando uma velha, pois minhas amigas tinham me desafiado. Me lembro de estar repetindo uma frase no banheiro escuro, vendo meu rosto no reflexo do espelho. Lembro do meu irmão pulando da banheira para me assustar. Mas não foi isso que me assustou. Era algo no espelho. Meu rosto estava mudando. Era o som de uma mulher rindo. 
Dr. Franks diminuiu o ritmo da sessão depois disso. Mas ontem, quando entrei em seu consultório, ele estava escuro e com uma cadeira no meio da sala. Me guiou até a cadeira e pediu para que eu sentasse olhando para o chão. Fiz o que pediu. Saiu da sala e voltou com um espelho de corpo todo. Me levantei, pronta para fugir. Ele me acalmou e me sentei novamente. Colocou o espelho na minha frente. Fechei os olhos e senti aquele pânico familiar se instalando no meu peito. As palmas das minhas mãos estavam suando, um gosto ácido subia pela minha garganta. Meu coração batia tão rápido que eu podia senti-lo nos meus tímpanos. Queria correr, ou vomitar, ou os dois ao mesmo tempo. 
"Abra seus olhos, comece olhando para seus pés," Dr. Franks falou.
Isso era o que eu queria, tentei lembrar a mim mesma. Confrontar meus medos. Abri meus olhos e me concentrei nos meus pés. Mudei o meu olhar do reflexo para os meus pés reais, que eram os mesmos, só apenas mais visíveis. Me senti um pouco mais calma. Levantei o olhar até meus joelhos no reflexo. Minha pulsação aumentou um pouco, mas estava sendo forte. Movi o olhar até meu peito, olhando rapidamente para minhas mãos que estavam agarradas aos braços da cadeira como se minha vida dependesse disso. Meu estômago se revirou com a ideia de olhar para o meu rosto pela primeira vez em mais de uma década. Mas eu parecia normal. Fiz algumas caretas, meu reflexo me imitando. Tudo estava normal. Dr. Franks estava de pé ao lado do espelho, um sorriso em seu rosto. Fiquei me olhando por alguns minutos, o pânico sumindo. Achei que ali estava marcado o fim da minha Eisoptrofobia.
A secretária do doutor abriu a porta atrás de mim para fazer uma pergunta. Foi aí que eu a vi. Ela andava de costas graciosamente, vindo da porta, os braços gesticulando como os de uma bailarina. Passou a secretária e entrou na sala. Eu não podia ver seu rosto, só a parte de trás de sua cabeça. Mas reconheci a roupa. Leggings de oncinha, tutu rosa e sapatilhas de ballet. Ela começou a dançar. Pulava e arcava as costas, saltando para lá e para cá, se aproximando cada vez mais de onde eu estava sentada. Dr. Franks e sua secretária estavam engajados na conversa, nem se quer notaram a garota que entrara na sala ou o pânico que crescia em mim. Consegui juntar forças para me virar e olhar para trás, mas não havia nada lá. Apenas a secretária de pé na porta do consultório. Me virei de novo para o espelho e ela ainda estava lá, dançando em minha direção. Me levantei em um pulo e sai correndo da sala. Corri pela cidade até meu apartamento, evitando olhar para qualquer lugar que fosse espelhada, mas ainda vendo-a dançando nos reflexos que eu não conseguia evitar. 
Assim que estava na segurança da minha casa, respirei fundo, sentindo uma onda de alívio tomar conta de mim. Ela havia me encontrado, isso é certo, mas ali ela não podia me pegar. Me lembrei de muito mais, vê-la fez as lembranças aflorar. Lembro que eu não tinha medo de me ver no espelho, tinha medo de vê-la. Medo do que ela era capaz. Ela estava tentando me invocar novamente. Eu não posso voltar a olhar para o espelho. Eu não posso voltar para o espelho. Essa vida aqui agora é minha.
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


21/07/2017

Uma pequena complicação na gestação

No oitavo mês de sua gravidez, minha esposa começou a sofrer de severas complicações, o que a fez passar uma cirurgia de emergência. Quando acordou e contei que a cirurgia tinha sido um sucesso, sua reação me amedrontou mais do que em qualquer outro momento da minha vida. Ela não falou nada, apenas colocou lentamente a mão na barriga. Seus olhos se arregalaram por um momento, e então começou a rir. Uma risada pesada e sem humor; o tipo de risada que vem de uma pessoa que esteve chorando por horas e não tem mais lágrimas, então apenas ri e debocha da própria dor. Tive que impedir um arrepio que descia pela minha espinha e perguntar qual era o problema, mas ela apenas me ignorou.

Ao invés de me responder, começou a gritar; todo o seu corpo tremia enquanto ela berrava a plenos pulmões, arrancando tufos de cabelos e jogando-os no chão. Continuei a perguntar qual era o problema, mas não me respondia. De repente, do nada, parou, e começou a rir novamente e levantou uma mão em direção do teto. Parou por um momento - nossos olhares se encontraram - e então baixou a mão rapidamente e com força, enfiando suas unhas na barriga como se estivesse tentando abri-la. Agarrei e segurei seus pulsos e consegui abaixar suas mãos. Tive que usar os equipamentos de restrição de movimentos para amarra-la contra a cama e contê-la. Uma vez presa, seu corpo parou, como se estivesse fraca demais para se mover. 

Me sentei ao lado de sua cama; conseguia ouvir minha própria voz tremendo enquanto tentava desesperantemente acalmá-la. 

"Está tudo bem, querida. Foi apenas uma complicaçãozinha. Logo teremos nosso filho conosco. Nosso filho. Tudo terá valido a pena." 

Ela se virou lentamente na minha direção. Seus olhos estavam sem vida, sem nem um pingo de humanidade. Começou a sussurrar, a cabeça caída por cima do ombro. Me aproximei para ouvir o que estava me dizendo. Era apenas uma frase repetida várias e várias vezes. 

Tire ele de dentro de mim.

Ela se recusou a falar qualquer palavra pelo resto da semana; as vezes ficava ali deitada, sem se mover, e as vezes ficava gritando e lutando contra as amarras até seus pulsos sangrarem. Eu tentava acalmá-la, dizendo que aquilo era algo bom; trazendo as roupinhas de bebê e suas comidas preferidas, mas nada que eu fazia a acalmava. Finalmente, depois de algumas semanas, as contrações começaram. 

Assim que o bebê saiu, ficou claro que tinha algo de muito errado. O fedor era horrível, um cheiro de doença, doce e nauseante - mas isso não era nada comparado ao próprio bebê, se é que pode chamá-lo assim. Sua cabeça era enorme, os olhos esbugalhados e vermelhos, a pele preta e rasgada, que se desprendia nas minhas mãos quando eu o tocava. 


Foi por pouco, mas minha mulher sobreviveu ao parto, mesmo que o meu filho não tenha. Pelo menos agora ela parece estar voltando ao normal; mas eu estou piorando. Fico todos os dias revivendo na minha cabeça as coisas horríveis que aconteceram. Partiu meu coração quando ela deu à luz o nosso terceiro filho prematuro, e foi ainda pior quando tive que enfiar à força aqueles compridos em sua boca para que eu pudesse realizar outra cirurgia para colocá-lo de volta lá dentro. O que nós dois precisamos agora é algo para o futuro. Acho que irei contar que já estou pronto para tentar novamente; talvez ela se anime com isso.
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19/07/2017

Minhas últimas palavras

Hey, desculpa se esse post acabar pela metade, eu não tenho tanta certeza quanto tempo me resta. Também peço desculpa por qualquer erro de digitação, estou no celular. Meu nome é John e acho que estou prestes a morrer. 
Estou sendo dramático, talvez eu não morra. Por isso não vou dar muitas informações pessoais, sempre fui cuidadoso com isso. Mesmo assim, acho que vale a pena escrever isso aqui, se realmente for meus últimos momento de vida. Há muitas coisas que ainda quero dizer. 
Estou no momento sentado em uma cabine de banheiro, assustado pra caralho. Estou na escola, escola de verão pra ser mais preciso. Fiquei com D em matemática, não queria refazer a prova, então aqui estou. Que decisão estúpida. Haviam centenas de crianças aqui, estamos todos nos escondendo. Os outros estão nas salas ou sei lá onde, eu estou no banheiro porque estava no corredor quando o anunciamento começou. 
Nossa escola temos treinamentos obrigatórios de segurança, então sei como um alarme de segurança soa. Também nos ensinam os códigos. "Atenção estudantes e funcionários, bloqueio imediato" é um treinamento. Já ouvi desses. E não foi isso que ouvi, o que ouvi hoje, foi apenas o código para se esconder. Eu estava me afastando do bebedouro, quando ouvi. "Atenção, bloqueio - código azul! Bloqueio - código azul!". Enquanto eu viver (espero que até amanhã) espero não precisar ouvir aquela voz de novo. Mesmo através do sistema de som precárias, pude ouvir o pânico em sua voz. Aquilo era real. 
No começo eu não estava totalmente em pânico. Código azul significa apenas se esconder, o que poderia ser apenas um assalto nos arredores da escola. Me escondi no banheiro, pois poderia me meter em encrenca caso não seguisse o procedimento. Foi cerca de um minuto depois que comecei a ouvir os tiros. 

Cresci cercado de armas, sei como são os sons de tiros. Foram três estampidos. Depois gritos. Mais um tiro, então silêncio. O pior é que parecia que estavam vido de dentro da escola, estavam ecoando. Isso mesmo, estou escondido no banheiro enquanto acontece um tiroteio na escola. 

Posso estar errado, mas acho que não. Acho que logo mais você ouvirá sobre isso no noticiário. E estou me escondendo no banheiro. O que você está lendo agora, acredito, é meu último adeus. Agora eu vou ficar com o dedo encima do botão "publicar" e apertar caso eu ache que vá morrer. 

Merda

Mais tiros, e muitos dessa vez. Gritaria. Parece que algumas crianças estão sendo massacradas com armas automáticas. Merda, não sei o que fazer. Achei que estava sendo muito dramático mas agora estou assustado pra caralho, gente. 

Ok estou escrevendo agora um pouco mais rapido pq os tiros estão mais altos, ele pode estar se aproximando. Não sei pelas coisas que vcs já passaram, mas é indescritivel não ter noção se sua vida esta em perigo ou não, ou achar que pode morrer a qualquer segundo

Sempre achei que seria do tipo de pessoa que me jogaria na frente de uma bala para salvar um amigo, mas agora que sinto o medo na pele, foda-se isso. Nãoq uero morrer, que outra pessoa tome os tiros. 

Não quero ver uma arma apontada na minha cara. Não quero ouvir o tiro que sei que me fará morrer. Não quero sentir a bala me atravessandp. Seria apenas dor, dor e mais nada. Não quero sentir isso. 

Você ouve falar sobre tiroteios nos noticiarios e fica com umpouco de medo. Não há nada que possa fazer para se sentir seguro, mas tbm sabe que é quase 99.99% certo q isso nunca aconteça com vc. Pelo menos eu achava isso, como eu estava errrado. 

Eu achava que estava seguro, mas agora não tem nada que eu possa fazer para me defender. Posso morrer hoje aleatoriamente e não há nada que eu possa fazer para parar isso. Todo mundo está em perigo todos os dias em que vivem. 

Outro tiro, muito mais perto que os outros. Agora estououvindo passos. Estou com muito medo. Tenho 17 anos, é tão injusto. Todo mundo vai ter vida s sãs e salvas e pra mim ja era. Eu não nerreço essa porra

os passos estao se aproximando. muito. eu vou morrer agora

merda eu quero viver, não quero morrer hoje

eu naõ quero morrer por favor 

por favor deus me aj

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N.T: Os erros ortográficos apresentados nesse conto foram propositais para dar mais veracidade ao mesmo. 


14/07/2017

A regra da cidade

Meu avô me contou uma história que seu pai tinha contado para ele. Quando menino morava em uma cidade litorânea. Não me falou onde ficava ou qual cidade era, mas imagino que fosse uma típica cidade pequena com casas pitorescas e ruas de paralelepípedo. 
Os moradores locais tinham uma regra que impunham em si mesmo, nos visitantes (apesar de que não se tratava de um vilarejo turístico; não havia muitas pessoas que ficavam lá até depois do pôr-do-sol) e novos moradores. Você não podia falar fora de casa depois do anoitecer. Para ser mais especifico, nenhum tipo de vocalização. Nenhum. Nem um sussurro se quer. A maioria nem se quer se atrevia a sair de casa depois do sol sumir do céu.
E toda noite as pessoas checavam diversas vezes suas portas e janelas para ter certeza de que estavam bem trancadas. Se tivesse uma vidraça quebrada, teria que cobri-la com tapumes de madeira; Se havia um buraco na parede, qualquer abertura entre o lado de fora e o de dentro, tinha que ser bloqueado. 
Meu bisavô não questionava isso quando menino. É. Acho que se você vive com uma regra desde seu nascimento, você não a questiona - mas toda criança passa por aquela idade onde começa a notar coisas. Entretanto, fico pensando - teria ele algum dia descoberto a verdade se o incidente com os visitantes não tivesse acontecido? Bem. Uma vez, quando meu bisavô tinha mais ou menos uns dez anos, alguns viajantes ficaram vagando por lá mais do que o de costume. 
Se as pessoas não iam embora antes do escurecer, eram expulsos. Às vezes, educadamente no começo, outras de formas mais violentas. Mas essas caras, cinco garotos, eram jovens e tempestuosos, e não gostavam de serem incomodados. 
O pôr-do-sol se aproximava e crianças locais começaram a jogar pedras neles; cegamente na defensiva da pratica de sua cidade natal. Eventualmente o xerife falou para eles que tinham que ir embora. 
Meu biso se lembra da gritaria. Talvez tivessem tomado alguns drinques antes, ou muito mais que "alguns", mas queriam saber especificamente o motivo para não serem bem vindos, se tinham algum problema com eles, quem esses caipiras pensavam que eram, e assim por diante. Eventualmente, a "polícia" local teve que arrastá-los até a divisa da cidade. 
E foi perto da casa do meu bisavô, no final da rua de paralelepípedos, de onde ele e sua irmãzinha assistiram pela janela.
Ele ouviu-os gritando algo, e em um momento de pura estupidez da sua parte, palavras dele e não minhas, tentou abrir uma fresta da janela para poder escutá-los melhor. Ele nunca havia ouvido tais tons, por conta de como a cidade racionava suas palavras. 
Por sorte, sua mãe o parou e tirou-os de perto da janela. 
Naquela noite, meu biso se levantou várias vezes para espirar através das cortinas. Sua irmã, mãe, pai e tio estavam dormindo pesadamente nesses momentos. Contou para meu avô que uma estranha animação, misturada com pavor, tomou conta dele naquela noite. Acho que deve ser como ficar conferindo seu celular enquanto espera uma mensagem específica, mas com muito mais medo envolvido. Então, no começo da manhã, mas antes do sol nascer, ele viu os cinco homens vagando pelas ruas. 
Estavam gritando uns com os outros, talvez ainda meio bêbados ou só agindo como os arruaceiros que eram. Meu bisavô observou e esperou. Espero que algum tipo de bicho-papão chegasse e arrastasse-os para longe.
Mal ele sabia que o que cada aldeão temia já havia de fato acontecido. Já haviam desaparecido. 
Eventualmente, desapontado, finalmente foi se deitar e dormir pelo resto do que sobrava da noite. Até que um som de batida alto o acordou no começo da manhã. 
Seu tio foi até a porta antes dele. Ali, nos degraus, estava um dos caras da noite anterior, o branco de seus olhos era vermelho, seu rosto em uma expressão de puro pavor enquanto suor pingava de sua testa. Seu tio escancarou a porta e os outros estavam visíveis, tremendo a alguns metros dali na rua. 
Meu bisavô não percebeu até mais tarde que talvez um deles estivesse morto. Lembrava-se da cabeça deste pendendo para o lado enquanto deitado no chão. Uma expressão vazia em seu rosto. Não havia sangue. Não havia machucados. Só palidez. Poderia se passar apenas por um bêbado desacordado. Lembrava-se de como os braços do homem estavam apertados contra o peito, como se estivesse com frio; mesmo que aquela noite tivesse sido bem amena. 
Esse foi o dia em que sua família arrumou suas coisas e foram embora da cidade - enquanto isso o xerife lidava com a figura imóvel no chão da rua, enquanto cercado pelos amigos trêmulos. Levaram poucas coisas; os cinco familiares simplesmente pegaram o essencial e foram o mais longe que podiam. Foi tão rápido que ele nem teve como protestar. Só se lembra de ficar perguntando "Por quê?" repetidamente. 
Só quando já haviam se instalado em sua nova cidade, a uma boa distância de lá, que os adultos finalmente explicaram tudo. 
Não podíamos ir embora sem que alguém tomasse nosso lugar, disseram. Podia perceber pela expressão no rosto dos pais que estes estavam enjoados pela culpa. Mas não podiam deixar escapar aquela chance de fugir. 
Apenas o tio manteve-se firme ao contar a história. Ele não amenizou ou fatos para ele e sua irmã, e os pais não podiam detê-lo dessa vez. Disse, novamente, que ninguém podia sair da cidade sem que outros ficassem em seu lugar. Sempre devia haver o mesmo número de moradores.
Cortou as perguntas da minha tia-bisavó e explicou que aqueles jovens teriam que viver lá agora. E era culpa deles, por não terem seguido os conselhos dos locais. Finalmente, meu bisavô atingiu seu limite de paciência e perguntou o motivo de que ninguém podia falar depois do anoitecer. 
Com uma expressão vazia e fria em seu rosto, o tio falou,
"Existem coisas que acordam durante a noite, que roubam a voz das pessoas. Fazem sem você notar, fazem isso sem serem vistos. Você nem percebe que aconteceu até mais tarde. Pode demorar uma hora. Um dia, ou até uma semana. Eles esperam para usá-la."
"O que acontece?"
"Eles usam sua voz para enganar aqueles que você ama. Podem fingir que são você. Podem usar para entrar em sua casa. Há um para cada pessoa da cidade, e se alguém sai sem um substituto, são seguidos para a outra cidade. Se espalham como pólen. Podem ser qualquer um. O que fizemos é contra as regras. Mas tínhamos que arriscar." 
"Eles mataram aquele homem?"
"Fizeram pior que matar."
Meu bisavô não contou para ninguém onde ficava essa cidade. Às vezes meu avô duvida que de fato existisse. Mas algo o preocupava. 
Havia cinco membros da família; pai, mãe, irmão, irmã e tio. 
Cinco homens ficaram na cidade. 
Mas um deles talvez estivesse morto. 
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11/07/2017

A Coisa Embaixo da Paulista - (Final?)


Aos poucos a bola vai se desenrolando, a pele com aparência escamosa e negra parece não parar de se esticar, a cabeça arredondada e as pupilas em fendas verticais revelam por completo que a criatura era uma espécie de serpente mutante de outra dimensão, uma devoradora de mundos.

Sua boca está se abrindo, suas presas são como duas agulhas gigantes, os ratos estão sendo sugados  juntos com seus carros, os vidros dos prédios estão todos se quebrando, alguns prédios estão cedendo... Ela vai engolir tudo.  Não consigo me mover diante de tamanha surrealidade.

Essa coisa já engoliu metade dos prédios e os ratos estão se aglomerando nas tampas de esgoto, é como se estivessem voltando às suas origens e o seu lado animal, assim como os humanos fazem em situações extremas. Parecem bonecos voando em direção a boca da serpente. A cada vez, ela suga com mais força. 

Essa coisa é tão grande que mal dá para ver a luz do sol. Por algum motivo, ela não está me dando importância, é como se ela quisesse que eu assistisse a tudo isso, mas por quê? Já não restam mais prédios, carros e ratos, somente alguns conseguiram ir para o esgoto e continuo aqui, apenas observando as ruínas do lugar que poderia ter sido um novo lar. Preciso voltar antes que essa coisa abra a boca novamente e engula tudo.  

Minhas pernas tiveram um surto de adrenalina e aqui estou, de volta a esse lugar imundo. Preciso continuar correndo, aquela coisa não pode me pegar e sei que ela virá atrás de mim. Ela sentiu o meu cheiro, talvez nunca tenha visto alguém igual a mim por lá: metade humano.

Aqueles ratos estão chorando desesperados, como se realmente tivessem sido humanos a vida toda. Nunca vi nada igual, mas infelizmente, não tenho como ajudá-los, só preciso continuar correndo e tentar sair desse esgoto. A cada distância percorrida, ouço os gritos, mas dessa vez, são os ratos que estão gritando. Aquela coisa está me procurando! Minhas pernas estão começando a cansar, meus músculos se estreitam aos poucos, logo terei uma câimbra e é isso o que ela espera que aconteça.

Nunca corri tão rápido. Bolt teria inveja da minha velocidade. Se meu coração não estivesse acelerado a ponto de enfartar, eu até poderia sentir orgulho de mim mesmo, logo eu, que sempre fui o cara que faltava às aulas de educação física na escola. Já perdi as contas dos  túneis que passei, e não faço ideia de quanto tempo faz que estou correndo, estou exausto. Já faz algum tempo que não ouço mais grito nenhum, apenas o som das minhas patas na água.

Acho que provavelmente vou virar algum tipo de experimento ao sair daqui e me expor, ou alguém armado vai atirar em mim de tanto pavor. Se for para morrer, que seja fora desse lugar, pelo menos. Já consigo ver uma fresta de luz a alguns metros daqui. A liberdade está perto, deve estar escurecendo, a luz está diminuindo. Acho que corri por muitas horas.  Enquanto me aproximo da escada, só penso na reação das pessoas ao verem um ser como eu saindo do esgoto. Isso é o que menos importa para mim nesse momento. Qualquer olhar maldoso não será pior do que estar aqui embaixo.

Uso as forças que sobraram para levantar a tampa. É emocionante  voltar aqui depois de tanto tempo. 

Como eu já imaginava, os carros todos param com seus faróis ligados, estão todos estáticos com olhares focados em uma só direção, mas não estão olhando para mim.. A coisa voltou a gritar. Ela está aqui.  

Autor: Andrey D. Menezes 
Revisão: Gabriela Prado 

Nota do escritor: Espero que tenham gostado! Estou com projetos para o futuro, quem sabe escrever uma antologia, como já disse a vocês. Ser pisciano é complicado kk. Muitos planos, muitos sonhos. Espero que vocês comprem algo meu um dia. Obrigado por cada comentário positivo e negativo também, vocês me ajudam bastante :)
Sobre a creepy: Penso em escrever sobre a origem da criatura futuramente ou dar continuidade à creepy, mas isso vai levar um tempo. Por hora é isso :)


09/07/2017

Devolver ao Remetente

Meu vizinho é um daqueles YouTubers famosinhos irritantes. Ao longo dos anos, eu o vi se engasgar com canela, ficar deitado imóvel de barriga para baixo no capô do carro enquanto escorregava lentamente para o chão e jogar água sobre a própria cabeça enquanto gritava bordões irritantes que vocês devem conhecer bem. Acredite, pode ser bastante cansativo observá-lo fazendo todas aquelas loucuras na procura da fama viral. Então, quando bateu na minha há porta alguns dias dizendo que iria viajar por algumas semanas e pedindo que eu só recebesse suas encomendas do correio, honestamente, fiquei aliviado. Mal posso explicar a paz de espírito em que fiquei ao saber que ficaria afastado de toda aquela estupidez por um tempo. Sempre tive medo de que suas loucuras acabassem afetando minha vida. 

Tudo ficou bem normal nos primeiros dias. Ele recebeu algumas contas, um pouco de lixo-postal e o que eu presumi ser um cartão de aniversário. Então, em uma noite, cheguei em casa e encontrei uma caixa de papelão esperando na frente da porta dele. Em letras vermelhas grandes foi escrito "Devolver ao Remetente".

Não sou fraco, mas admito que tive dificuldade para levantar a caixa sozinho. Estava muito pesada. Arrastá-la pela rua até minha casa foi mais difícil ainda, e logo percebi que não havia nenhuma maneira de empurrá-la escada acima e de passá-la pela porta. Decidi que a deixaria na minha garagem. Eu nem sequer deixava meu carro lá. A porta da garagem era uma merda que recusava a se abrir sem alguns chutes e porradas. Era menos problemático deixar o carro na entrada de carros do que ter que lutar com aquela porta todo dia e toda noite. Em retrospectiva, eu deveria ter deixado o pacote no chão enquanto lutava para abrir a porta, mas você sabe como é quando está com pressa e só quer terminar com aquilo de uma vez. 

Eu estava chutando a porta pela terceira vez quando minha mão escorregou. A caixa caiu e eu ouvi um som baixo de algo quebrando. 

"Merda," xinguei. 

Esperava não ter quebrado nada importante, mas decidi que não falaria nada sobre aquela queda para ele e até comentaria que aquilo poderia ter acontecido durante o transporte. 

Com as mãos livres, finalmente consegui abrir aquela bosta, e cara, rangeu de um jeito que parecia um choro de protesto, maldita porta. Arrastei a caixa pelo resto do caminho, colocando-a em um canto até que meu vizinho voltasse para pegá-la. E então, deixei para lá. Até que uns dias se passaram. 

Eu não tenho certeza exatamente quanto tempo demorou para que o cheiro entrasse pela fresta da porta da garagem que dava para dentro da casa, mas foi bem lentamente. Era um cheiro doce e enjoativo parecido com o de um gambá, e alguns dias depois de sentir pela primeira vez, sabia exatamente do que se tratava: alguém tinha atropelado um bicho na rua e o cheiro invadira minha casa. Foi só quando percebi que o cheiro só ficava pior ao invés de diminuir que decidi investigar sua fonte. 

Foi aí que eu abri a porta da garagem, e quando o odor me atingiu, eu caí para trás, com as mãos tampando o nariz. 

A razão não era difícil de identificar. A única mudança na minha garagem tinha sido a caixa gigante no cantinho. Lembro de pensar que devia ser aquelas encomendas de empresas que vendem carne por assinatura. As peças de carne deviam ter ficado rançosas por ficarem sem refrigeração tanto tempo. Mas quantos quilos de carne deviam ter para aquele pacote ser tão pesado? Uma vaca inteira? 

Cobri meu nariz quando me aproximava da fonte do problema, com uma tesoura nas mãos. Na realidade, eu nem precisaria disso para abri-la, já que tinha ficado encharcada no fundo, tanto que dava para atravessar com o dedo, mas não estava afim de enfiar meu dedo em uma carne vencida e podre. A caixa estar com o fundo detonado foi a razão de eu ter que abri-la, em primeiro lugar. Se tentasse arrastá-la para fora da garagem, espalharia tudo pelo chão. Seria melhor eu tirar os pedaços de carne um por um e colocá-los em um saco de lixo, mas pode ter certeza que não era uma tarefa que estava ansioso para realizar. 

Minha tesoura cortou a fita da parte superior da enorme caixa de papelão. Achei que o cheiro não pudesse ficar pior, mas quando abri as abas, descobri uma nova gama de fedores. Era como abrir um forno em chamas, mas em vez de uma onda de calor, o que encontrei foi uma onda de fedor de mijo, merda, suor e putrefação. Era tão ruim que eu cambaleei para trás e fui obrigado a vomitar o que já estava na minha garganta. Se não tivesse, acho que não conseguiria ter lidado com o cheiro terrível e os horrores que encontraria naquela caixa. Não tenho vergonha de dizer que corri para rua para respirar ar puro, mas o pouco tempo que fiquei na garagem, o cheiro havia se impregnado na minha roupa como uma sombra que nunca nos deixa de lado. 

Tentei várias coisas, mas nada fazia o cheiro sair de minhas narinas. Purificadores de ar, máscaras faciais, nada. Nem três banhos e trocar de roupas. Cada segundo que aquela caixa continuava aberta na minha garagem era um segundo a mais em que o cheiro ficaria na minha casa. Eu precisava dar um jeito.

Voltei para a garagem e as abas da caixa ainda estavam abertas como se me convidassem para olhar. Eu estava preparado. Roupas em volta do rosto para tapar minhas narinas, um saco de lixo em uma mão, o alvejante mais forte que eu consegui encontrar na outra, e luvas de borracha para evitar que minha pele entrasse em contato com o que estava lá dentro. Mas, na verdade, não precisei de nada disso.

Eu não tive que tocar nem limpar o conteúdo dessa caixa, eu só teria mesmo que sofrer com terríveis pesadelos pelo resto da minha vida. Veja bem, realmente havia carne nessa caixa, mas não era de gado, porco ou frango. Não, era bem pior que isso. Era meu vizinho. Morto. Uma grande peça de carne, mas morto. 

Liguei para a polícia e, naturalmente, me levaram para um interrogatório. Afinal, é meio difícil não suspeitar do homem que acabou com um cadáver em sua garagem. Felizmente, logo perceberam que eu não tinha nada a ver com aquilo. O meu DNA estava por toda a caixa. O cheiro tinha deixado marcas na minha casa, mas havia uma peça de evidência irrefutável nas mãos do meu vizinho que provou minha inocência: uma câmera cheia de gravações para o seu vlog.

Me mostraram as gravações apenas uma vez. Não tenho certeza se tinham autorização para isso, ou se sentiram tão mal por mim que acharam que aquilo não faria mal. De qualquer forma, eu assisti.

Meu vizinho estava sentado dentro da caixa, do lado de fora de uma empresa de transportes, rindo, enquanto dizia ao mundo como iria enviar a si mesmo, dentro de uma caixa, para o outro lado do país. Ele trouxe garrafas para fazer xixi, comida, um travesseiro e algumas lanternas. Seu amigo - um cara que eu já tinha visto o ajudar com outros desafios - fechou a tampa e, presumivelmente, o levou para o envio. Ao longo das próximas horas, ou dias (sinceramente, não tenho certeza), meu vizinho gravou alguns pequenos clipes sobre seu progresso. "Acho que estou no caminhão agora, posso sentir ele se movimentando", "Devo estar agora em um depósito. É bem quente aqui. Ainda tenho bastante comida!", esse tipo de coisas. E então, na última gravação, a caixa caiu. Ele quebrou o pescoço, e foi isso. A câmera gravou até que o cartão de memória estivesse cheio ou até a bateria morrer.

Mas tem uma coisa que não falei para a polícia depois que vi as gravações. Uma coisa que eu ouvi na filmagem, que irá me assombrar até o dia em que eu morrer. Pouco depois da queda que quebrou seu pescoço, ouvi o som estridente da porta da minha garagem se abrindo.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


08/07/2017

Um fantasma no sótão

Tem um fantasma no sótão. Sei que soa estranho. Mas ele está lá! 

É o que a Debby falava para a mamãe todas as noites quando íamos para cama. Ela tinha dez anos, na época, e eu tinha quatorze. Eu sempre lhe falava que fantasmas não existiam, mas ela nunca deixava de acreditar. Porém, depois de um ano morando naquela casa, e com ela insistindo que havia um fantasma lá, meus pais se incomodaram com isso. Ela era muito jovem para acreditar nessas coisas, mas ela se recusava a esquecer “Charlie”, o fantasma. 

Quando ela tinha quase doze, eu já não aguentava dividir o quarto com ela. Ela balbuciava a noite toda, enquanto dormia, e conversava com Charlie o dia inteiro, enquanto estava acordada. Eu a levei para a biblioteca, esperando encontrar provas de que ninguém havia morrido ali. 

Porém, os jornais mostravam o contrário. Charlie, ou Charlie Hanson, desapareceu naquela casa, muito antes da minha irmã e eu nascermos. Ele tinha doze. Resolveram o caso apenas alguns anos antes de termos nos mudado. Queria nunca ter lido como ele havia morrido. Como ele havia sido enfiado em uma caixa de madeira e selado atrás de uma parede de tijolos, no sótão. Suas roupas foram pregas lá, e a tampa da caixa foi acorrentada, trancada e pregada. 

A minha irmã levou isso como prova da existência do seu fantasma, mas eu apenas queria perguntar aos meus pais como eles poderiam mudar para um lugar daqueles, e se eles sabiam o que tinha acontecido com a criança. Sabe o que eles me disseram? “A morte da criança fez o valor ficar mais baixo”. 

Fiquei abismada. 

Então, no meio da noite, minha irmã desapareceu da cama. As autoridades não a encontraram, e meus pais recusavam deixar a casa. Eles amavam o lugar, e não queriam mover as coisas dela. 

Eu saí de casa quando completei dezessete, me recusava a permanecer na mesma casa onde minha irmã... 

Desde então, uso um bracelete de ouro que minha irmã costumava usar a outra metade. 

Eu ainda não havia completado vinte, quando retornei. Meus pais decidiram se mudar, e eu estava feliz em ajuda-los. Eu não conseguia aceitar o que tinha acontecido com a minha irmã, mas eu herdaria a casa, e já tinha planos para vendê-la. 

Já era tarde da noite quando meus pais deixaram a casa para se despedir dos amigos. Meu pai foi ao bar com os amigos. Minha mãe foi ao bingo, fofocar com as amigas. E eu fiquei em casa. Tentei relaxar e assistir TV, mas a casa me deixava inquieta. 

Eu estava tão perto de dormir, quando o leve “ping” de um martelo batendo contra um prego fez com que meus olhos abrissem. Reconheci o som. Eu o ouvi em meu sonho, na noite em que minha irmã desapareceu, e eu venho ouvindo-o em meus sonhos desde então. 

Saltei do sofá e segui para a entrada do sótão. Puxei a corda e subi pela escada que tinha caído. “Quem está ai?” gritei e gritei, mas ninguém respondeu. Era a primeira vez que estava no sótão, e seria a última. Não havia nada de extraordinário, exceto pela parede à esquerda, que era de tijolos ao invés de madeira, como as outras. Os tijolos pareciam velhos, exceto pela pequena área que parecia ter sido substituída por tijolos novos. 

Eu poderia ter apenas deixado ali. Talvez, os tijolos foram trocados pelos meus pais, mas lembrei da noticia no jornal antigo. 

Comecei a revirar as caixas, procurando por algo para esmagar a parede. Arrumei um martelo e comecei a bater na parede ate que um cheiro pungente começou a se espalhar. Engasguei e cambaleei para trás, meus olhos lacrimejavam e meu nariz queimava, mas logo retornei para a parede. Cavei o restos dos tijolos com a mão até que uma simples caixa de madeira ficou visível. Estava acorrentada e trancada, e o chão abaixo dela estava com uma grande mancha de sangue. Uma chave estava ao lado. 

Rapidamente a destranquei, lágrimas continuavam a cair enquanto eu tirava a tampa. Mas, dessa vez não era pelo cheiro de podre, era pelo pequeno corpo que estava dentro. O pijama ensanguentado. O cabelo já tinha caído quase todo... 

E a pulseira de ouro estava bem apertada na mão da minha irmã.