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Desafiei Meu Melhor Amigo a Arruinar Minha Vida (PARTE 4)

Parte 1

Parte 2

Parte 3


Olá a todos,

Estive explorando hoje. Nova cidade, novos layouts para aprender. Estou ficando bom em memorizar cidades. Obrigado a todos pelo apoio e sugestões. Novamente, estes são todos eventos passados. Mas estou levando suas ideias em consideração para como revidar aqui, no presente. Alguns de vocês se ofereceram para ajudar de outras maneiras, e eu agradeço, mas esta é minha luta. Eu arruinei tantas outras vidas envolvendo outras pessoas... Não, eu irei arruinar a vida de David, mesmo que eu morra tentando.

Além disso, olhei para trás e percebi que esqueci alguma coisa, mas agora esqueci o que era. Então me perdoe se eu fizer uma correção na próxima parte.

Outra coisa, eu tento falar com o maior número de pessoas possível nos comentários, a menos que minha resposta contenha spoilers. Mas eventos "ao vivo" me forçaram a limitar essa interação por causa do tempo e do grande número de vocês. Me perdoem.

Agora vou continuar.

Liguei para a mãe de Clark imediatamente. Eu tinha o número de telefone da casa deles porque no último Natal, Clark me convidou para jantar em sua casa pois meus pais e eu ainda estávamos brigando bastante. Ele já tinha ido pra casa enquanto eu tinha que trabalhar, então me deu o número do telefone para o caso de eu me perder e ele não não atender o celular.

Ela ficou arrasada e me fez um milhão de perguntas. Eu fiquei muito, MUITO desconfortável. Ela concordou em vir até aqui e pagar a fiança. Ela morava há algumas horas de distância, então disse que estaria aqui por volta das cinco da tarde. O país em que vivíamos não permitia pagamentos online via cartão de crédito, apenas dinheiro, então ela teria que vir até aqui pessoalmente.

No meio da ligação, perdi uma chamada de um número que não estava em meus contatos. Liguei de volta, e eles atenderam imediatamente.

"Oi, me ligaram nesse número?"

"Oi, é o Zander?"

"Sim... quem é?"

"Zander, eu sou a mãe da Katie. Seus pais me deram seu número."

Merda.

"Oi, não posso falar agora, estou com pressa e eu--"

Ela me cortou. "Você sabe da Katie? Ela não voltou pra casa ontem à noite. Sua mãe me deu seu número. Por favor me diga que ela está com você."

"Ela não está", eu disse. "Eu não tenho certeza onde ela está. Eu tenho que ir -- te ligo depois."

Desliguei o telefone. Eu não queria falar sobre Katie. Porque eu estava prestes a reportar seu desaparecimento.

Fui até a recepção.

"Eu estava falando com um oficial, então ele prendeu meu amigo e foi embora. Eu preciso falar com ele sobre meu outro caso se fraude de identidade."

"Qual o número do processo?" A senhora perguntou.

Um tempo depois, eu estava sentado em uma das salas de interrogação após pedir por uma reunião privada. Detetive Hernandez sentou-se no lado oposto de uma mesa de metal. Meus dois arquivos de caso estavam sobre a mesa à sua frente. Ele estava olhando para eles, tentando se familiarizar com a quebra no relatório. Havia um gravador entre nós. Ele pressionou um botão e a fita começou a rolar.

Ele declarou seu nome, meu nome, meus números de caso, a data e a hora.

"Certo, vá em frente", ele disse.

"Então, eu abri um boleti de ocorrência sobre roubo de identidade há um tempo e não tive retorno sobre isso."

"Pode levar um tempo para darem uma resposta", disse ele.

"Bem, agora há uma nova denúncia sobre uma invasão em meu apartamento. Eu estava falando com outro policial mais cedo e disse a ele que tenho um suspeito para ambos os crimes."

"Sim", o detetive disse, olhando para as pastas. Ele estava com os dois casos sobre a mesa. "David king, correto? Parece que foi escrito em seu arquivo."

"Sim, David King. Ele costumava ser um amigo meu, mas agora ele me odeia e tem me perseguido."

"O perseguindo como?"

"Recentemente, ele sequestrou minha namorada, Katie."

Aquilo o pegou de surpresa. Ele puxou uma caneta de seu bolso da frente.

"Quando foi isso?" Ele perguntou, se preparando para anotar.

"Noite passada. Quando fomos pichar sua casa. Ele nos perseguiu e me prendeu a uma mesa. Então ligou para alguém no telefone e mandou Katie falar comigo. Ouvi sua voz e ele alegou que havia a sequestrado para me motivar."

"Motivar você a que?" Perguntou Hernandez.

Contei à ele sobre a aposta. Então sobre todo o SPAM. Minhas contas online. A fraude do cartão de crédito. O crédito de meus pais comprometido. As janelas do meu carro. A invasão. Minha conta ser esvaziada. O incidente do grafite. A ligação de Katie. Proteger a conta bancária de Clark e suas contas online. E agora a prisão de Clark. Hernandez anotava tudo.

"Isso só continua aumentando", eu disse em derrota. Eu observava Hernandez cuidadosamente, tentando avaliar sua reação. Não sabia dizer em que ele acreditava.

"Preciso de mais detalhes sobre o telefonema", ele disse finalmente. "O que ela disse? O que você disse? O que você ouviu do outro lado?"

Nós conversamos sobre tudo por uma hora. Nada do que eu disse foi útil para encontrar Katie, Hernandez sentou-se depois que terminei.

"Zander, eu tenho que ser honesto. Isso tudo soa muito... solto. Eu não quero dizer os crimes em si, quero dizer as conexões que ligam David à todos esses crimes. Não há nada que possa ser feito sobre o roubo de identidade até que o departamento responsável termine a investigação. A invasão, as janelas quebradas, as contas hackeadas e o roubo na conta precisarão produzir sua própria evidência para provar que David cometeu cada um.

"Para você, isso é tudo uma só linha do tempo de eventos, mas para a lei, são crimes separados que devem ser tratados independentes de ações passadas", ele disse. Seu tom era razoável e preocupado.

"Eu acredito em você, mas não posso emitir um mandado de prisão sem uma testemunha ou uma evidência incontestável. Sua história é circunstancial. Mas eu acredito em você quando diz que estão conectadas."

Finalmente. Alguém acredita em mim.

"O que os especialistas disseram sobre a invasão?" Perguntei. "Eles disseram se encontraram digitais novas?"

"Todas as digitais encontradas pertenciam a cada um de vocês e algumas pessoas que moravam lá. De acordo com o arquivo, todos eles foram confirmados como moradores antigos."

"E a câmera do caixa eletrônico?"

"Isso é uma pena", ele disse, olhando através da pasta novamente. "Recebemos uma ligação do seu banco para registrar o relatório de fraude. Foi inteligente da sua parte consultar o banco para denunciar a fraude. Meu chefe fez disso prioridade e, já que era o mesmo nome, foi adicionado aos nossos registros sobre seu roubo de identidade. Eu pessoalmente trabalhei no seu caso. Uma vez que o recebi, liguei para a loja de conveniência em que o caixa eletrônico está. Eles me deram  a marca do caixa então pude pedir a gravação para a empresa. O problema é que, o caixa eletrônico não tem uma câmera."

"... O quê? Como pode um caixa eletrônico não ter uma câmera?"

"Nem todas as empresas têm. Alguns caixas eletrônicos não possuem uma câmera, e esse era um deles. Alguém acessou sua conta online pouco antes da transação no caixa eletrônico e transferiu todo o dinheiro da conta poupança para a conta corrente. Eles também aumentaram seu limite de saque para $5,000, acima dos $3,500 que você tinha em conta.  Normalmente, você pode sacar apenas $500 por dia.

"E as câmeras da loja?!" Eu praticamente gritei.

"Eu pedi pra eles me trazerem as filmagens. Eles disseram que estarão aqui hoje", disse Hernandez.

"Onde fica essa loja?" Perguntei. "Quero ver eu mesmo."

"Não", ele disse com firmeza. "Eu posso estar inclinado a acreditar em sua teoria, mas irei coletar as provas eu mesmo e o tribunal vai decidir. Você se mantenha limpo."

"Então vá lá agora, que droga!" Gritei. Ele se levantou devagar, sua mão indo em direção ao cinto automaticamente.

"Acalme-se", disse ele, olhando-me nos olhos.

"Eu não tenho dinheiro!" Gritei. "As janelas do meu carro estão destruídas e eu não posso consertá-las! Meu aluguel vai vencer e eu não terei como pagar! Não posso ir trabalhar em um carro que não consigo dirigir! Eu preciso do meu dinheiro de volta!"

Hernandez suspirou, se sentando novamente. Eu respirei fundo.

"Se David foi quem suas informações para cometer um fraude de cartão de crédito, por que ele roubaria apenas $3,500 de você?" Ele perguntou.

"Porque ele está decidido a arruinar minha vida", eu murmurei. "Esse é o desafio. Ele levou isso longe demais. Mais longe do que qualquer pessoa sã levaria. Ele é doente. Eu só quero que isso pare", eu disse. Chorei um pouco, e Hernandez me deixou sentar em silêncio por um minuto, com lágrimas rolando pelo meu rosto."

"E quanto à Katie?" Eu perguntei depois de um tempo.

"O sequestro será prioridade máxima. Este é um caso que há uma testemunha: você. Eu não irei trabalhar nele, mas alguém de um departamento diferente irá. O outro detetive irá querer te intrevistar hoje e começar.

"Vamos lá, então", eu disse, enxugando os olhos.

Hernandez saiu e voltou pouco depois com o detetive. Detetive White entrou e me interrogou com centenas de perguntas. Onde ela trabalhava? Quem eram seus amigos? Há quanto tempo estávamos juntos? Quando foi a última vez que a vi? Os pais dela sabem? Perguntas desse tipo.

Quando eu falei sobre David e o telefonema, ele se inclinou e me perguntou as mesmas perguntas sobre o que eu tinha ouvido, dito, e tudo o que podia me lembrar. Novamente, não me lembrei de nada útil.

"Precisarei trazer David para interrogatório", Detetive White disse. "Seu testemunho é decente, mas precisaremos de mais evidências para convicção. Não posso prendê-lo pois preciso de mais provas. Se nós o prendermos sem provas o suficiente, ele será liberado e não poderá ser julgado novamente."

"Você teve provas suficientes para prender Clark!" Eu gritei.

"Clark?" Ele perguntou.

"Eu estava falando com um policial que disse que David ligou e contou á vocês que Clark pichou sua casa. Tudo o que ele teve que fazer foi ligar, e então Clark foi preso!"

Detetive White pediu licença para descobrir mais sobre o que tinha acontecido. Ele voltou cinco minutos depois.

"David tem mais provas neste caso", o detetive disse. "Fotos do graffite, fotos de Clark chegando na casa, seu próprio testemunho sobre reconhecer Clark e um rosto machucado. A mão de Clark também está cortada, o que corrobora sua história. Percebemos isso quando o registramos. Este é o tipo de evidência que precisamos para condenar um sequestro. No momento temos o seu testemunho afirmando que você disse "alô" para katie no telefone e que David disse que havia a sequestrado. Precisamos de mais evidências para convencer um juri."

"Mas eu estava com Clark!" gritei.

"Nas fotos você não estava", disse ele.

"Então elas são falsas!"

"Um especialista irá analisá-las e determinar isso."

Sentei em minha cadeira, me sentindo derrotado. Detetive White me agradeceu pelo meu testemunho e saiu para contatar os pais de Katie.

Detetive Hernandez se sentou, me observando enquanto lágrimas surgiam em meus olhos novamente.

"Deixe-me pagar pelas janelas", disse ele.

"Não adianta, ele irá quebrá-las novamente no dia seguinte", eu disse com raiva.

"Ele quebrou mais de uma vez?"

"Toda vez que eu as conserto, elas são esmagadas novamente no dia seguinte."

"Acho que tenho uma ideia", disse ele. "Mas precisarei da aprovação do meu chefe."

Se você ainda não ouviu falar de armação no contexto de uma investigação policial, é uma defesa legal usada quando é possível provar que um policial induz um criminoso a cometer um crime que, de outra forma, não cometeria. Quando esta defesa é usada, há duas visões diferentes. Em alguns tribunais, se um réu usa esse recurso como defesa, a acusação tem que provar "além de uma dúvida razoável" que não armaram para o criminoso. Em outros tribunais, a defesa tem que provar de que foi armado. O estado em que eu estava exigia que a acusação fizesse a prova.

Hernandez reconheceu que seu plano poderia ser construído como uma armação, e ele me explicou enquanto andávamos em direção ao escritório de seu chefe. Ele me disse que já que David já havia estabelecido um padrão em quebrar minhas janelas, Hernandez poderia montar uma vigilância no carro e apenas esperar que David cometesse o crime que ia fazer de qualquer maneira. Já que eu tinha consertado minhas janelas duas vezes, e guardei os recibos, isso serviria como uma boa evidência de que o crime havia sido repetitivo.

A ideia me deixou esperançoso. Sentei-me do lado de fora do escritório de seu chefe enquanto ele entrava e apresentava sua ideia.

Quando ele saiu, me deu um sinal de positivo. David jamais saberia o que o atingiu.

Hernandez me levou até em casa, onde peguuei meu carro e o levei para uma oficina. Ele me seguiu até lá e pagou. Nós dirigimos para o meu trabalho no carro de Hernandez enquanto eles trabalhavam no meu.

Hernandez nos pagou um almoço e eu conversei com meu chefe. Contei a ele sobre minha conta bancária ter sido hackeada e que eu precisava cancelar o depósito direto. Felizmente, a folha de pagamento fecharia na semana seguinte, então eles poderia mudar a forma de pagamento até o próximo depósito.

Eu contei a ele sobre minha situação e Hernandez me apoiou. Ele concordou em pagar adiantado alguns dos meus salários com o dinheiro da loja até que o dia do pagamento chegasse, e eu o pagaria de volta. Agradeci profundamente por me ajudar e pedi desculpas por não ter ido trabalhar.

Saí com o estômago cheio, $355 e uma mente calma. Com alguma sorte, nós pegaríamos David hoje à noite.

Hernandez me levou de volta à oficina e peguei meu carro. Tentei pagar com o dinheiro que havia recebido, mas ele recusou, dizendo que eu poderia devolvê-lo depois que tudo estivesse resolvido. Ele me disse que estaria na minha casa mais tarde para começar a vigilância e para apenas estacionar meu carro na rua. O agradeci antes de nos separarmos.

Era cerca de 3 da tarde quando cheguei em casa. Estacionei meu carro a alguns quarteirões de distância e ao lado de outros carros para camuflagem. Eu não queria que David o encontrasse e quebrasse as janelas antes desta noite. A caminhada foi bem quente, e o ar condicionado me recebeu quando cheguei em casa.

"Com licença?" Alguém disse timidamente quando destranquei minha porta. Virei para trás. Havia uma mulher mais velha no corredor, provavelmente em seus 40 anos.

"Sim?" Respondi.

"Você mora nesse apartamento, imagino."

"Sim."

"Eu sou a Sra. Watson. Acredito que você e meu filhos são colegas de apartamento."

"Ah. Ah! Olá!" Eu disse, estendendo minha mão. "A senhora é a mãe de quem?"

"Isaac", ela respondeu. "Nós deveríamos ter saído do estado ontem para visitar a família, mas ele não apareceu."

Um calafrio percorreu minha espinha.

"Eu liguei milhares de vezes, mas ele não atendeu", ela continuou. Fiquei aqui tocando a campainha por um tempo, mas ninguém estava em casa. Posso bater na porta dele?"

Eu considerei pedir pra ela sair ou dizer que não estava confortável com ela entrando, mas sabia que aquilo seria suspeito. Eu sabia o  que iríamos encontrar.

Pedi para ela entrar, e imediatamente o cheiro tomou conta. Ela tentou ser educada e não me ofender, provavelmente pensando que nós éramos típicos garotos de faculdade que vivem como porcos. Então ela foi até o quarto de Isaac.

"Oh, Deus", ela murmurou. O cheiro deve ter sido horrível perto da porta. Estremeci, mas segui pelo corredor em sua direção.

Ela bateu. "Isaac?" Chamou. Nenhuma resposta, como eu esperava.

"Isaac, é a mamãe", ela disse. Eu acho que o cheiro a fez entrar em pânico pois ela bateu mais forte na porta.

"Isaac, abra a porta, por favor", ela implorou desesperadamente. Suspirei.

Delicadamente, a guiei para longe da porta e me preparei. Corri e me joguei na porta. Ela se inclinou, mas o trinco não se partiu. Tentei de novo. E de novo. Na quarta tentativa, a porta se abriu e eu entrei. O cheiro, puta merda. Eu não sei quantas vezes posso falar sobre isso até você entender.

Este foi um dos momentos em que eu vou lembrar de todos os detalhes para sempre.

O quarto de Isaac estava uma bagunça. Havia três estantes que costumavam ter toneladas de livros, mas as prateleiras estavam quebradas e os livros espalhados pelo quarto. Sua mesa tinha papéis espalhados e copos derrubados. A janela estava escura por causa de uma cortina usada para jogos. O grande computador gamer sob a mesa emitia um som e o monitor mostrou as estrelas se movendo em um protetor de tela.

Isaac estava na cama. Seu rosto estava pálido e desigual com linhas roxas. Seus braços e pernas estavam brancos e também machucados. Um fio de extensão se arrastava para fora da cama, o meio sendo enrolado em seu pescoço várias vezes. Algumas moscas aninhavam-se em seu corpo, voando para outro lugar ocasionalmente.

A Sra. Watson entrou no quarto e gritou. Eu apenas fiquei lá, olhando para o corpo dilapidado de Isaac.

David avançou para assassinato.

Chamei a polícia e tentei fazer a Sra. Watson sair do apartamento e preservar a cena do crime. Ela se recusou e se sentou ao lado da cama de Isaac, chorando. Ela estava com medo de tocá-lo.

A polícia veio imediatamente e levou a Sra. Watson e eu para fora do apartamento. As próximas horas foram um borrão de perguntas e policiais. Detetive Hernandez apareceu e inspecionou o local. Os especialistas carregavam câmeras e pastas cheias de equipamentos.

Depois de um tempo, eles começaram a levar alguns dos pertences de Isaac em sacos. Foi necessário duas pessoas para carregar seu computador. Me sentei no meio-fio nas proximidades, não sendo autorizado a sair pelo capitão que estava cuidando da cena.

Hernandez sentou-se ao meu lado.

"Eles arrombaram a porta do outro colega de apartamento. Todos os pertences dele estão lá, mas ele não está. Você sabe onde ele está?"

"Não", respondi. "Eu nunca conversei muito com ele."

"Você era próximo ao Isaac?" Ele perguntou.

"Não, mas ainda assim..."

"Eu sei."

"Você acha que David está atrás disso também?" Perguntou.

"Provavelmente", respondi, sentindo-me entorpecido.

"Nós ainda faremos a vigilância", ele me assegurou. "Não se preocupe. Eles irão analisar o corpo de Isaac e se encontrarem algo como uma amostra de pele que possamos ligar ao David, vamos pegá-lo. Nenhum criminoso é perfeito."

Hernandez me deixou sozinho e pensei na situação.

Então um carro estacionou nas proximidades. E dele saiu Clark com sua mãe. Levantei e corri até ele.

"Oh meu Deus, Clark, você está bem?" Perguntei.

"Estou bem", ele sorriu, calmamente. "Fiança paga. Foi 350 dólares, não foi tão ruim."

"Eu pensei que você disse que estaria aqui às 17h?" Perguntei à mãe de Clark. Nota, eu não me lembro da hora exata em que ela chegou lá, mas eu me lembro que ela chegou mais cedo do que o esperado. EU ia encontrá-los na estação.

"Eu posso ter ultrapassado alguns limites de velocidade", disse ela em um tom neutro.

"O que aconteceu?" O rosto de Clark ficou frio de repente quando ele viu os policiais perto da nossa porta.

"Isaac foi encontrado..." eu disse. "... em seu quarto." Eu não precisava especificar em que estado ele estava.

"PUTA MERDA", Clark engasgou, colocando as mãos nos joelhos. Ele começou a hiperventilar, e sua mãe preocupadamente colocou as mãos em suas costas.

"Clark, querido, vamos dar uma volta. Nós podemos pegar suas coisas mais tarde."

"Suas coisas?" Eu perguntei.

"Ele está se mudando", sua mãe disse bruscamente. "Ele me contou tudo sobre esse jogo doentio que seu amigo está jogando. Eu não acho muito engraçado."

"NÃO é engraçado!" Eu gritei. "Nunca foi! Esse filho da puta está tentando arruinar minha vida! NÃO. É. UM. JOGO."

Alguns policiais se viraram para me observar da sacada. Sua mandíbula se apertou e ela guiou seu filho para dentro do carro. Eles foram embora, e eu fiquei no meio da rua, vendo meu melhor amigo me deixar para lidar com David sozinho.








Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


Vocês humanos são aterrorizantes

Bom dia/ Boa tarde/ Boa noite! Meu nome é Heitor, e é uma honra estar postando isso aqui. Esse é o primeiro conto que traduzo aqui no CPBR, então por favor, não economizem nas sugestões do que posso melhorar! Aproveitem a creepy :)
***

Sei que as pessoas dirão que é mentira, então vou deixar claro desde já.

Eu sou um demônio.

Ao menos é isso que a maioria das pessoas diria que eu sou. A verdade sobre o que sou e de onde eu vim vai um pouco além da compreensão de seres corpóreos. Basta dizer que o corpo no qual resido atualmente não é meu. Essa frágil carcaça de carne pertence à uma garota de dezenove anos qualquer chamada Cindy. Ela gasta a maior parte de seus dias fazendo coisas que você imagina que uma adolescente sem graça faria.

Pelo menos ela costumava gastar a maior parte de seus dias fazendo vinte poses diferentes antes de finalmente decidir postar aquela selfie no Instagram. Ela costumava sair com os amigos dela e saltava da cadeira no menor dos sustos. Ela também costumava chamar seus amigos para seu dormitório brincar com um tabuleiro Ouija.

Pra ser justo com a Cindy, ela só fez esse último uma vez.

Sob circunstâncias normais, um tabuleiro Ouija é um pedaço de merda. Você não entra em contato com fantasmas, ou demônios, ou qualquer coisa absurda dessas. Mas dessa vez, Sarah, a melhor amiga de Cindy, decidiu trazer uma amiga dela pra pequena “noite de invocações” delas. E essa amiga, que de acordo com as memórias de Cindy se chamava Cheryl, ou Cynthia, decidiu trazer um livro muito especial consigo. Além de muitas outras coisas, esse livro tem uma lista de nomes que não deveriam mais existir.

Um desses nomes é o meu. E antes que você pense nisso, não, eu não vou te contar meu nome. Uma das poucas coisas que seu conhecimento humano entende sobre nós é o fato de que nossos nomes são quem realmente somos. Se você sabe nossos nomes, se você os invocar, então você terá poder sobre nós. E eu não sou burro o bastante pra dar a um monte de pessoas aleatórias na internet o meu nome.

Então de alguma forma, de algum jeito, essa Cheryl tem um livro com nossos verdadeiros nomes nele. E Cindy teve a brilhante ideia de ler meu nome eu voz alta e pedir para conversar comigo através do Ouija. Pra ser honesto, o tabuleiro nem era necessário. Assim que ela me chamou pela primeira vez eu estava ouvindo.

Estava curioso. Como, após quinhentos anos, os humanos ainda conheciam algum de nossos nomes? O último dos livros supostamente deveria ter sido queimado e nossos nomes apagados de todos os registros do conhecimento humano, para que nenhum dos meus irmãos e irmãs tenha que ser chamado novamente.

Então assisti as garotas e seu joguinho de tabuleiro, gritando com cada resposta que o Ouija dava. Mas aí Cindy tinha que ir e fazer a coisa mais estúpida que eu poderia imaginar alguém fazendo.

Ela chamou meu nome e me pediu para possuí-la.

Da minha perspectiva, agora entendo sua tolice. Ela não acreditava de verdade em qualquer coisa paranormal.

Ela só achava que era divertido se assustar.

Isso é algo que eu nunca vou entender sobre a humanidade. Vocês gastaram toda sua existência lutando contra as coisas que os assustavam. Antes mesmo de ter uma língua escrita vocês massacraram o último dos mamutes simplesmente porque a aparência deles os amedrontava. Vocês pegaram uma das criaturas mais parecidas com vocês, um bando capaz de caçar qualquer coisa até a exaustão, e os transformaram em brinquedos, poodles e pugs. Mesmo agora que vocês conquistam os maiores destruidores de humanos, assassinos pequenos demais para ver, os transformam em notas de rodapé de seus livros de história.

Há uma razão pela qual meus irmãos tentaram apagar nossos nomes do mundo.

Vocês nos amedrontam.

A humanidade é assustadora. Bastam palavras vindas de um órgão de carne e tendões para nos prender e controlar. Sim, pra vocês nós somos assustadores, seres etéreos de poder ilimitado. Portadores imortais de um conhecimento que vocês, seres carnais, nunca poderão alcançar.

Como você pode imaginar, a primeira coisa que fiz quando Cindy me ordenou que a possuísse foi tentar pegar aquele livro da Cheryl. De alguma forma aquilo tinha meu nome ali, e eu queria evitar que qualquer um de vocês, sacos de carne, me chamasse outra vez. Infelizmente, as capacidades limitadas de Cindy deram a Cheryl tempo o bastante para pegar o livro antes que eu o fizesse.

Ela sabia que eu viria. Ela sabia que a primeira coisa que eu faria seria tentar pegar aquele livro dela.

Cheryl sabia quem eu era. O que eu era. E ela sabia o que eu queria.

Essa garota não era uma adolescente qualquer buscando estupidamente por adrenalina. Essa garota sabia exatamente o que ela estava fazendo.

Isso só me motivou mais a pegar o livro. Porque a única coisa mais assustadora que um humano estúpido que não sabe o que está fazendo é um humano que sabe exatamente o que está fazendo. Então eu a puxei pelo seu estúpido cabelo tingido de preto, e tentei tomar o livro dela novamente.

Mas aquela vadia, aquela vadia da Sarah, segurou meus braços e me afastou da única coisa que eu queria. Ela e duas das outras me seguraram até que os seguranças do campus chegaram para me levar pra alguma cela feita de ferro e aço, de onde fui transferido para outra cela, essa com uma tinta branca e sapatos sem cadarço. Supostamente é para que os pacientes não se machuquem.

Hospital Psiquiátrico Campos Ensolarados.

Não se engane com o nome. Esse lugar é uma prisão. Eles ofuscam meus sentidos com medicamentos e me fazem questionar meu propósito com perguntas vazias sobre como estou me sentindo e me perguntando por que estou sempre tão irritado o tempo todo. Eles não escutam, claro, porque se escutassem saberiam exatamente o que eu quero e entenderiam minha ira.

Mas eles não escutam. Eles escrevem o que eu digo e me entopem de pílulas pra bagunçar meus pensamentos.

Só que o tempo passou, e quanto mais o tempo passa, mais as memórias da Cindy se tornam minhas memórias. E com essas memórias vêm o conhecimento sobre como funciona seu mundo. Então usei esse corpo, que não pertence mais à Cindy, e paguei uma das enfermeiras para usar seu telefone. Fiz isso por dois motivos.

Um motivo é para que toda a humanidade saiba quão aterrorizantes e repugnantes vocês são. Vocês conquistam esse mundo um passo por vez e inventam horrores para se assustarem, porque já destruíram tudo que os assustava. Vocês pegam tudo que usa a escuridão como arma e colocam em holofotes para que possam rir do quão ridículo isso fica na luz.

A segunda razão é porque eu quero que Cheryl saiba.

Cada dia lembro mais e mais da pessoa que Cindy é. Cada dia imito ela melhor. E cada dia os doutores acreditam mais e mais na minha imitação.

Eu sou eterno, Cheryl. É só questão de tempo.

Em algum momento vou sair dessa prisão lavada de branco. E quando eu sair...

Irei te encontrar.




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

O Fantoche na Árvore


Toda escola primária tem uma lenda urbana ridícula. Minha escola tinha o Homem Fantoche, e eu o odiava. 

Homem Fantoche era deformado. Cirurgias plásticas mal feitas tinham o deixado com proporções medonhas de um fantoche de marionete, então ele roubou a fantasia de um animal de arco-íris do teatro da escola e a vestia onde quer que fosse. Ele vivia em uma árvore de Carvalho anciã no pátio do recreio. Algumas crianças diziam que morava nos galhos, nos observando brincar, camuflado mas milhares de folhas e gravetos.

As crianças mais mórbidas diziam que ele vivia dentro do tronco, comendo larvas de lagartas e torturando o espírito de Jason Hughes. 

Jason Hughes, não era uma lenda, infelizmente. Tinha sido uma tragédia. Ansioso  e sentenciado a ser amaldiçoado com óculos ridiculamente enormes e uma obsessão com desenhar. Me lembro de sentir raiva em uma tarde chuvosa pois queria colorir com as novas canetinhas da professora, mas Jason já tinha usado todo o papel da sala. Ninguém gostava muito dele, eu incluso. Mas não sei o motivo. Era uma criança amável. Agitado, ansioso, e um tanto espertinho demais para meu gosto, mas amável.

Jason desapareceu na segunda série, em uma noite de Novembro. Alguns dias depois uma professora encontrou suas roupas empilhadas na base do Carvalho do pátio. O diretor chamou a assembléia escolar para fazer o anúncio. Ele fez soar que as roupas haviam sido encontradas lavadas e bem dobradinhas, mas meu pai - um policial na época, um policial que tinha mania de contar para seus filhos coisas que jamais ninguém deveria saber - me contou que as roupas de Jason estavam imundas. Pior que imundas, na verdade: cobertas de urina, fezes e sangue.

Me falou que eu não podia repetir aquilo para ninguém. E eu nunca repeti. Estava horrorizado demais para sequer pensar naquilo, quem dirá compartilhar. 

E é por isso que eu odiava o Homem Fantoche; ninguém conseguia pronunciar seu nome se um ranhento desgraçadinho puxar o assunto de Jason. Uma ladainha de colégio sem fim.

Havia mais um problema. As crianças do colégio sabiam que Jason era meu colega, também sabiam que meu pai era policial. Depois semanas de interesse histérico, fui abruptamente excluído. 

Me caía bem. Nos últimos anos, meu pai havia prendido pelo menos pais de pelo menos dois colegas de classe, e me infernizaram por isso. Mas tudo bem. Sempre preferi livros do que pessoas e passava o recreio lendo debaixo do carvalho. As vezes eu fingia estar lendo para o fantasma de Jason. Castigo, acho, por ter tratado-o tão mal em vida.

Um dia em fevereiro, cheguei na escola duas ou três horas atrasado. Não lembro o motivo. Só me recordo de chegar na escola, andando lentamente pelo patio vazio. 

Fevereiro é um mês particularmente ruim naquele canto do mundo. O céu muda de um metal polido pela manhã para um metal congelado no fim da tarde, e a noite escurece para uma escuridão aquosa e plana que fazia meu coração doer. As plantas estavam todas mortas, as árvores esqueléticas, exceto  pelas as florescentes colônias de viscos. Uma cena de desespero.

O patio do recreio vazio não era uma exceção. Tudo estava acinzentado e pálido e de certa forma quebradiço, como se fosse se despedaçar se você tocasse. A quietude quase sobrenatural daquele frágil inverno pálido tornava tudo em algo sinistro. Uma paranoia rastejou para dentro de mim repentinamente. E se, só se, fosse verdade? E se o universo estivesse quebrado? E se a cena diante de mim fosse uma casca frágil, apenas esperando por um passo mal colocado para quebrar-se em pedaços?

Engoli o surto de pânico e dei cada passo com um cuidado extra, pousando meus pés no chão com uma gentileza excruciante. Sentia a areia debaixo das solas dos sapatos. Tudo parecia sólido, mas a sensação da fragilidade cristalina permanecia. Lutei contra o impulso de fechar os olhos e andei o mais rápido que achei que podia.

Meu caminho me levou para perto do carvalho. A casca negra brilhava fracamente. Ramos lançavam teia de aranha padronizadas contra o céu sombrio. O galho estavam nus, exceto por ninhos de visco. A árvore estava cheia desses. De repente, com uma explosão desconcertante e dolorosamente adulta de clareza, me ocorreu:

A árvore estava morrendo.

Desacelerei até parar, observando-o com uma sensação de reverencia daquelas que você deve sentir dentro de uma igreja. A árvore era assustadora e bela ao mesmo tempo. Mais que isso, era um pilar de memória; era visível do jardim da minha casa, imponente pairando sobre a escola e sobre minha infância como se reafirmasse sua eterna sentinela. Só que não era eterno. Um dia desapareceria, talvez antes de eu me formar naquele colégio. Talvez mais cedo que isso.

Minha garganta estava quente e apertada. Observei os galhos nus e tentei mentalmente desver os ninhos de visco. Era difícil: eles irrompiam da árvore mais espessos do que as folhas do verão e continuavam se movendo pelo vento frio do inverno.

Exceto que - outra epifania brutal e sombria - não havia vento. O visco escuro sussurrava e se contorcia como uma serpente aprisionada.

O ar frio beliscou meus olhos quando se arregalaram.

Raios de cor brilhantes cintilavam inexplicavelmente entre os galhos, deslizando pelos viscos como uma boá de plumas multicolorida.

E brilhando naquelas cordas sinuosas de cores - olhos.


Olhos redondos vítreos da cor de limões.

Os entrelaço colorido se quebrou em tentáculos e cresceu, não muito diferente do fungo aonde se aninhava, ultrapassando a escuridão com tons vibrantes de neon. Então, se juntaram, zumbindo atrás de galhos e visco, antes de se transformar-se em uma caricatura ridiculamente fofa e proporcional a um animal. Um desenho animado encarnado. 


Um Fantoche.

"Olá," ele disse. Sua voz me fez dar um pulo: uma voz alta e calorosa e desagradavelmente amigável. Uma voz de personagem de desenho.

Meus lábios tremiam. Lágrimas cresceram de uma vez só em meus olhos, ardentes e frígidas. "Você não é real."

"Sim, sou sim." Me corrigiu com um olhar fixo e reptiliano que me fez querer gritar. "Talvez eu seja até mais real do que você."

O mundo parecia ainda mais ser feito de vidro do que antes, obscurecido e rachado, exceto pela criatura obscena acima de mim. Bati o pé no chão e segurei a respiração, rezando para que o mundo se quebrasse em mil pedacinhos, levando aquele monstro multicolorido junto. Se quebrasse um mundo quebrado, eu estaria realmente quebrando alguma coisa?

Mas o chão de concreto continuou sólido. O frio gelado adentrou as solas de meus sapatos e abraçou meus pés. 

A criatura se esticou e se esticou e se esticou, serpenteando lentamente pelo tronco da árvore. Simultaneamente parecendo um bicho-preguiça e uma serpente, irradiando com aquele ridículo pelo de caixa de giz de cera. Deveria parecer engraçado. Por que não era engraçado? Por que eu estava com medo? Por que eu não estava fugindo?

Deslizou pela casca até que seus olhos estivessem nivelados com os meus. “Apenas coisas realmente reais”, entoou, “podem se esconder dos olhos de todos. Coisas reais como eu e Jason Hughes. Seus amigos me chamam de Homem Fantoche. Você também pode me chamar assim."

Estendeu uma mão - longa e absurdamente fina, quase como pés de rã distorcidos, exceto pelos pelos cor de arco-íris.


Eu me virei e corri para a escola, gritando por todo o caminho.

A pobre enfermeira tentou extrair a história de mim. Nem me lembro o que eu disse. Só lembro de me esconder debaixo da mesa da enfermaria e soluçar. Quando finalmente balbuciei as palavras Homem Fantoche e Jason, a escola foi trancada. Os policiais foram chamados. Meu pai não estava com eles. Assisti pela janela, engasgando e chorando e tentando esquecer os brilhantes olhos verdes do Homem Fantoche. Mas como eu poderia esquecê-lo, quando tudo mais - o carvalho, a polícia, a enfermeira, o céu e minhas próprias mãos trêmulas - parecerem tão frágeis e desbotadas? O Homem Fantoche era a única coisa vibrante. A única coisa que brilhava. A única coisa integra. 

A única coisa real.

Algum tempo depois - talvez um minuto, talvez dez horas, pelo que me consta- um policial entrou na sala da enfermeira. Agarrou meu cotovelo sobre os protestos da enfermeira e me levou para fora. O mundo passava por mim em um borrão cintilante, morto e cinza. A árvore surgiu à frente, escura, vazia e terrivelmente próxima.


Me debati, mas ele me arrastou até o carvalho e me empurrou para frente. Eu parei a centímetros do tronco. Escuro, morto e rachado, exceto por absurdos tufos de pelo tecnicolor.

"Você fez isso?" O policial quis saber.

"Fiz o que?" Eu gritei. "Fiz o que?!"

"Você colocou aquilo," apontou para um nó obsceno de pelos cor de rosa neon, "nessa árvore?"

Falei que não. Falei que tinha sido o Homem Fantoche, que eu havia visto o Homem Fantoche, que o Homem Fantoche conhecia Jason e me conhecia também. 

A enfermeira me mandou para casa logo depois, e meus pais me mandaram para a casa de meus avós em San Diego naquela mesma noite.  Fiquei lá três semanas. Fiquei até parar de ter pesadelos sobre o Homem Fantoche comendo as roupas manchadas e sangrentas de Jason enquanto eu assistia, preso por seis olhos brilhantes como um cervo que se prende nos faróis de um carro prestes a atropelá-lo.

Cheguei em casa na noite de quarta-feira. Me lembro de ser quarta por ter olhado no calendário de minha mãe. Grande e lustroso cheio de filhotes de Beagles. Sempre me fazia sorrir.

Meus pais me alimentaram com Burger King e bolo de sorvete, então me mandaram para casa. 

Quando afastei minhas cobertas de cima do colchão, congelei. Tudo em minha volta esbranquiçou, ficando pálido e envidraçado.

Tudo exceto os tufos de pelo multicoloridos no meu travesseiro. 

Meus pais acharam que eu havia feito aquilo e gritaram comigo por cerca de uma hora, mas deixaram que eu dormisse na cama deles de qualquer forma. 

O colégio era um pesadelo. Passava a manhã inteira temendo a hora do recreio. Quando o sinal tocava, pensava em fazer birra só para ficar dentro da sala. Mas ficaria encrencado. Meus pais ficariam bravos. Iria parar na diretoria. 

Além do mais, haveriam outras crianças no pátio. Crianças vibrantes, vivas, coloridas e barulhentas. Todas aquelas cores e aquele barulho deviam ser coisa demais para o Homem Fantoche.

Eu falava essas coisas para mim mesmo, mas ainda assim corria para o banheiro quando o sinal tocava. Vomitava, e depois ficava sentado no vaso, até que um professor - invocado por um linguarudo qualquer - viesse e me mandasse ir para a rua.

Eu ficava em um canto da quadra de futebol, o mais longe possível que conseguia da árvore. Mas mesmo daquela distância, as vezes conseguia ter breves vislumbres de um pelo colorido nos galhos. 

Decidi que estava certamente vendo coisas.

Quando os dias finalmente começaram a ficar mais quentes - os céus de metal se amenizaram para um azul rico durante o dia e cores quentes durante a noite, galhos antes pelados começando a brotar, florescer crescendo nos arbustos de toda escola - voltei ao meu ritual de ler meus livros embaixo da árvore. 

Fui cauteloso no começo, porém determinado. Todos os adultos da minha vida tinham me convencido que eu estava alucinando. Todas as crianças do colégio sabiam que eu havia surtado por causa do Homem Fantoche. As provocações eram suficiente para dar força a minha determinação.

Antes que eu soubesse, já estava lendo debaixo da árvore como sempre, o horror do inverno envidraçado não era nada mais que uma memória. 

Em uma tarde de Abril, algo tirou minha atenção do livro. Não identifiquei o que era a princípio. Talvez fossem as crianças gritando no trepa-trepa. Talvez fossem as meninas do quinto ano fofocando ali perto. Talvez fosse a brisa assoprando levemente as folhas. 

Olhei para baixo e arfei.

Larvas rastejavam em meus braços. As larvas amarelas esbranquiçadas que viviam no tronco da árvore, do tipo que as crianças diziam que o Homem Fantoche comia. 

Corri para a quadra e me escondi até o sinal tocar novamente.

Quando voltei para casa naquele dia, encontrei tufos de pelo néon por todo meu quarto. Corri para minha mãe. Ela perdeu a cabeça, marchou comigo até o quintal, e me disse para ficar lá até que terminasse de limpar meu quarto. 

Quando parei de chorar, me acomodei debaixo de um pessegueiro e me perdi dentro do meu livro.

Enquanto a luz da tarde escurecia, aquela luz rica dando lugar ao entardecer de cobre, algo me tirou do meu transe. Olhei para baixo e vi vermes brancos. Macios, pequenos e de certa forma úmidos, escalando meus braços.

"Olá," uma voz enjoativamente amigável ressou. "Desculpa a demora. Acho que sou um péssimo amigo." 

"Sou louco," sussurrei. Fechei o livro bruscamente e fechei os olhos. "Louco, louco, louco, louco-"

Uma pelagem de poliéster roçou contra minha pele. "Louco não," o Homem Fantoche disse. "Somente muito real, como eu e Jason Hughes. O que está lendo?" Esticou o braço para baixo, a pelagem multicolorida era cegante, e virou meu livro. "Beleza Negra. É bom?"

"É ótimo," chiei baixinho. Eu queria me levantar, queria correr gritando pela casa, mas meus ossos pareciam feitos de água. Eu não ia conseguir levantar, muito menos correr. 

O Homem Fantoche espanou os vermes dos meus braços e se acomodou ao meu lado. Seu pelo me deixava com coceira. Não olhei. Já sabia o que veria: aquela cara de bicho-preguiça pré-histórica dominada pelos olhos envidraçados que pareciam encandecidos com a luz poente do sol. Eu não queria ver aquilo. Tinha medo do que aconteceria se fizesse. 

"Minha mãe vai te ver," sussurrei.

Bateu em meu braço, o pelo roçando novamente. "Você devia ler para mim." 

Lágrimas encheram meus olhos. "Não." 

Dedos fortes e peludos envolveram meu pulso. "Eu quero que você leia para mim." 

"Não."

"Se você ler para mim, te levarei até Jason Hughes." 

Quase ri em deboche. Jason Hughes com óculos gigantes e voz chorosa, o ansioso Jason Hughes que roubou todo o papel de desenho da sala só para desenhar seus peixes e besouros idiotas, Jason Hughes que tinha sido reduzido a um par de roupas sujas e manchadas de sangue jogadas na base da árvore do pátio da escola. 

"Por quê?" Perguntei.

"Porque estamos muito sozinhos," O Homem Fantoche disse. 

Olhei para a casa, rezando que minha mãe espiasse pela janela e nos visse, "Se ele se sente sozinho, devia voltar para casa." 

"Não pode voltar. A mãe dele não gosta dele."

Ponderei sobre isso brevemente. Pensei em meu pai. Meu pobre pai que trabalhava até a morte em turnos estendidos. Meu pobre pai que não conseguia uma folguinha do trabalho. 

Mas e se eu pudesse ajudá-lo? E se eu encontrasse Jason Hughes e desse o crédito ao meu pai?

"Quando eu veria Jason?" 

"Depende," o Homem Fantoche falou. "de quão bem você ler."

Abri meu livro na primeira página e comecei a ler em voz alta. 

Pouco depois, o rangido da porta de vidro tirou minha atenção da leitura. Olhei para a frente e vi minha mãe. Meu coração pulou para a garganta. Me virei esperançoso, mas o Homem Fantoche havia sumido. 

Na manhã seguinte, encontrei tufos de pelo colorido nas gavetas do meu armário. Se prendiam nas minhas roupas como fiapos de algodão.

No final de Maio, encontrei um bilhete no peitoral da minha janela. Um papel de cartão colorido dobrado meticulosamente escrito com letras coloridíssimas: 

Venha até a árvore da escola hoje à noite as onze. De seu amigo, HF.

Fios de pelo amarelo, rosa e azul salpicavam o bilhete. Limpei e guardei o papel no meu bolso. 

Eu não era burro. Sabia que não podia ir sozinho. Eu tinha muito medo do Homem Fantoche e quase tanto medo do que meus pais fariam se me vissem fugindo de casa durante à noite.

Então fui até meu pai. Mostrei o bilhete e implorei até começar a chorar. Ele me acusou de inventar tudo aquilo por um tempo, mas no final concordou em me levar até a escola na hora marcada. 

Nós morávamos apenas algumas quadra do colégio, então fomos andando. A noite estava estranhamente fria, tão fria quanto o dia que eu conhecera o Homem Fantoche. Lutei contra as lágrimas durante todo o caminho, apertando a mão do meu pai com toda minha força.

Os portões da escola estavam trancados, claro, mas havia um portãozinho escondido atrás da cafeteria. Não era nem sequer trancado com cadeado. Todas as crianças sabiam disso, mas os adultos nunca fizeram nada sobre aquilo.

Conduzi meu pai pelos perímetros do pátio escolar, ficando perto dos prédios para nos manter nas sombras. "Espere aqui," sussurrei. Ele concordou, parecendo cansado até com seu rosto obscurecido pela escuridão. 

Olhei para a árvore. Não parecia mais doente. Folhas escondiam a infestação de visgos. Parecia cheia e saudável, a eterna sentinela de sempre. 

Me aproximei do tronco e sussurrei, "Olá." 

Algo rastejou por entre as folhas lá em cima. "Olá," a voz calorosa e pesada do o Homem Fantoche ressoou.

"Cadê o Jason?"

Os galhos se remexiam na escuridão, a figura peluda deslizou para baixo da árvore. Olhos vidrados captaram a luz da lua e brilharam. "Ele está dentro de mim."

O Homem Fantoche se esticou e se retorceu para baixo até que estivesse com os olhos nivelados nos meus. Ele não era mais vibrante ou colorido. Seu pelo era sujo, endurecido por lama e areia, e uma tela vazia suja substituía o que um dia tinha sido pelagens coloridas cor de néon. É claro que sua pelagem havia sumido. Estava deixando tufos e mais tufos pelo meu quarto faziam meses. Era um mistério como é que tinha um pouco de pelo ainda. 

"Como assim?" Minha voz se reduziu a um assobio fino e ridículo. 

O Homem Fantoche se aproximou, eu preso em naqueles olhos vidrantes. Seus dedos longos e finos tocaram seu queixo e puxando, deslizando em seu rosto como uma criança  que remove uma máscara de Halloween.

Meu coração batia tão forte quanto um tambor de guerra.

Um enorme óculos brilhava com a luz do luar, tragicamente desproporcionais para o rostinho decadente atrás desses. A cabeça apodrecida de Jason Hughes era cinza e muito frágil, brilhando de um jeito que parecia um pedaço de vidro embaçado sob a lua. Se eu  o tocasse, se despedaçaria.

Aquele traje absurdo caiu no chão com um som não mais alto que sussurro. Sem brilho e desbotado. Até os olhos, antes tão verdes e brilhosos, estavam mortos agora. O traje estava morto. Nunca esteve vivo.

As órbitas vazias de Jason se arregalaram, depois romperam e se separaram com uma série de estouros leves. Algo se agitou dentro dele, grosso e escuro e brilhando com mil luzes fracas em cores que eu não sabia nomear.

O mundo pareceu virar de ponta cabeça e a areia fria do parquinho encontrou meu rosto. O grito do meu pai quebrou o silêncio vítreo. Talvez tenha quebrado a pobre cabeça morta de Jason também.


Eu me encolho e fiquei quieto enquanto meu pai gritava e as sirenes soavam à distância.

O traje arruinado foi parar em uma caixa de evidências. O próprio Jason pode finalmente descansar somente várias semanas depois. Seguraram o corpo tanto quanto conseguiram, a fim de descobrir o que havia acontecido com ele. Perguntei ao meu pai sobre isso, mas ele se recusou a me contar qualquer coisa.

Fiquei desapontado e aliviado, e nunca tentei descobrir sozinho.

Dei o meu melhor para esquecer tudo aquilo e quase cheguei perto disso. Poderia ter conseguido se meu pai tivesse mantido a boca fechada.


Ele tinha o hábito de me dizer coisas que eu não deveria saber. Coisas que ninguém deveria saber. Eu acho que é um exorcismo pessoal, libertando demônios que o assombravam. É só que o problema é que com a libertação de seus demônios, acabavam se tornando demônios de outras pessoas.

Meu pai se aposentou há alguns anos, mas ele ainda tem amigos na polica. Eles se reúnem e conversam de vez em quando. Fizeram um encontro na noite passada, e um de seus amigos comentou sobre Jason Hughes.

"Encontraram o cara que fez aquilo?" Meu pai perguntou.

"Não", seu amigo falou. “Mas a fantasia. Aquela estranha fantasia de marionete? Não está mais na sala de evidência. Sumiu."

“Alguém pegou? Jogaram fora sem querer?"

"Nós não sabemos."

Só isso já foi o suficiente para me assombrar para sempre. Mas não parou por aí. Os demônios nunca param. 


Eu sei disso porque quando me levantei esta manhã, encontrei tufos de pelo cor de néon espalhados pelo chão do meu quarto.

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