18/07/2018

Meu filho sempre dormiu mal

Meu filho sempre dormiu mal. Várias noites por semana saía aos tropeços de seu quarto, esfregando os olhos e lutando contra as lágrimas. Eu estava sempre acordado, geralmente assistindo TV bem tarde da noite, enquanto minha esposa cochilava ao meu lado. Não é como se eu não quisesse dormir. Claro que queria. Mas eu era um policial de patrulha e também tinha insônia. Não ter sono, afinal, me serviu para alguma coisa. Mas aqueles anos não estavam nem perto dos melhores da minha vida.

"Você está bem, papai?"

“Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

Eu entrava no quarto dele e fazia uma verificação profunda em seu armário, debaixo da cama e na janela. Era a janela que tinha o assustado. "Tem um cara mau lá fora", sempre dizia. "Eu vou ajudar você a pegá-lo."

Noah queria sempre pegar os caras malvados. Era de se esperar; Eu já era policial desde antes de ele nascer. Me dizia o tempo todo que quando crescer também iria pegar bandidos.

Eu parei de verificar seu quarto por volta do seu quarto aniversário. Ele ainda saía, com os lábios trêmulos, e fazia a mesma pergunta: "Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte a dormir." 

Noah piscou os olhos, sonolento. Um dos olhos estava sempre apertado; nunca conseguia abri-lo até que estivesse acordado por uns bons dez minutos. Então ele olhou para mim, um dos olhos fechado como um pequeno pirata, assentiu e voltou para a cama.

Era o mesmo roteiro, noite após noite. Talvez eu tenha lidado com isso de forma errada. Sempre me perguntei se seria melhor ignorá-lo, ou até ficar com raiva. Mas além desse ritual frequente tarde da noite, ele dormia sozinho. Na maioria das vezes, ele nem lembrava de ter acordado.

Essas noites se fundem calorosamente umas com as outras. Era egoísta da minha parte, mas eu ansiava por esses momentos. Eu trabalhava no terceiro turno com uma dispersão justa de horas extras da madrugada. Devido ao sono e ao trabalho, raramente via Noah. Isso é o que fez nosso ritual noturno ser tão precioso. Era o único momentos que realmente tínhamos só para nós.

Minha esposa estava sempre dormindo quand Noah aparecia. Entre sua doença, cuidar de Noah e o estresse geral, ela não tinha muita energia. Então, na maioria das noites, eu ficava acordado até altas horas, assistindo TV em uma tentativa inútil de suprimir a escuridão que estava me comendo vivo.

Noah afastava um pouco dessa escuridão. Não muito, mas o suficiente para que eu não me jogasse no abismo. 

Seguiu-se assim por mais dois anos, noite após noite. Na última vez que teve um pesadelo, o ritual finalmente mudou. 

Noah saiu aos tropeços do quarto, esfregando os olhos. Estava meio choroso, e seu rosto levemente inchado. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem." Essas palavras - quase um cântico - o acalmava visivelmente. 

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

Ao meu lado, minha esposa se remexeu. 

"Eu quero pegar os caras malvados." 

"Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

Ele soltou um último suspiro. "Eu te amo."

"Eu também te amo. Agora vá para a cama e volte a dormir."

Eu nunca mais o vi.

Bem cedo na manhã seguinte, minha esposa levou Noah para passear. Ele adorava andar de carro. Era o que mais gostava. A viagem estava quase no fim. Eles estavam a três quarteirões de casa. Ela esperou até que a luz do semáforo - a dois quarteirões de distância - ficasse vermelha. Aguardar o fluxo de tráfego reduzir é a única maneira segura de atravessar o cruzamento. E foi o que ela fez. É o que ela sempre fez.

Mas, dessa vez, no momento errado, alguém passou pela luz vermelha a cem quilômetros por hora, acertando o lado do passageiro e matando Noah. Basicamente o pulverizou. Não conseguimos nem sequer ter um funeral de caixão aberto.

Minha esposa nunca se recuperou. Eu não a tratei bem depois disso. Ela teve muitas dores crônicas por causa dos ferimentos e, além de seus problemas de saúde, não conseguia funcionar sem medicação. Eu nunca ousei culpá-la abertamente pela morte de Noah, mas eu a ridicularizava por causa de seus analgésicos. Chamava-a de peso morto. Uma drogada.

Nós nos divorciamos e nunca mais nos falamos. Morreu alguns anos atrás, por causa de complicações de sua doença. Eu sinto saudades dela todos os dias. E eu nunca falei isso para ela, e nunca poderei falar. 

Tento dizer para mim mesmo que ela não se importaria, mas sei que é mentira.

Depois do divórcio, recebi algumas promoções no trabalho por um tempo. Mas eu parei em detetive sênior. O departamento me designou para a unidade de crimes sexuais e me manteve lá por dez anos.

Achei que a patrulha acabasse comigo, mas isso era outro tipo de monstro. Fiz muitos inimigos, alguns de alto calão. Até mesmo revelei merdas de alguns dos meus colegas oficiais, inclusive meu melhor amigo. Me tornei um alcoólatra funcional e me afastei de todos. Amizades e relacionamentos não valiam a pena. Como poderiam valer, quando não havia como saber quem era bom e quem era um monstro?

No final das contas, eu queria morrer. Todas as noites, pegava minha arma e colocava na mesa de centro. Depois, rezava para ficar bêbado o suficiente para tirar minha própria vida.

Cheguei perto algumas vezes. Mas sempre que isso acontecia, acordava da neblina e por apenas um instante, voltava a ter 31 anos, com minha esposa cochilando ao meu lado e meu filho andando pelo corredor perguntando se eu estava bem.

É por esses momentos que vivo.

Semana passada, eu estava tentando chegar nesse ponto. Sentado na sala de estar vazia como sempre, dividindo meu foco entre a TV e a arma, enquanto bebia até ficar entorpecido.

Algum lugar na casa, uma porta rangiu. Não prestei atenção. A casa já era velha quando eu a comprara. Era bem desconfortável e eu não ligava muito para os reparos que precisavam ser feios. Rangia e fazia barulhos com frequência. 

Mas então algo se arrastou pelo corredor. Me virei quando uma voz baixinha e familiar perguntou: 

"Você está bem, papai?" 

E lá estava: Noah, quatro anos de idade de pijama vermelho, um olho fechado e esfregando o rosto enquanto o lábio inferior tremia. 

Por um minuto delirante, eu quase acreditei que os últimos vinte anos não passavam de um pesadelo. "Sim, amigão. Estou bem." 

"Vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Ele assentiu e voltou tropegamente para o quarto. 

Depois de alguns minutos, me levantei e fui até seu quarto. Vazio. Limpo, como estivera nas últimas duas décadas. 

Deslizei até o chão. Articulações ruins, músculos doídos, e enjoo pelo álcool trouxe à mim o fato de que tinha mais de cinquenta anos e era totalmente solitário. Nenhum sonho ruim. Apenas uma vida ruim. 

Chorei até dormir.

Noah veio até mim várias noites depois disso. Saindo do quarto vazio, olho apertado e choramingando. O mesmo script. As mesmas palavras. 

"Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."  

"Vi algo assustador." 

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Aprendi rapidamente a não ir checar seu quarto depois disso.

Não era muito, sei disso. Mas para ser honesto, era tanto quanto o que eu tinha quando ele estava vivo. Se eu pudesse ter esse ritual - só esse ritual - para o resto da vida, já ficaria feliz. 

Mas ontem, ele veio chorando. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

"Papai, eu quero pegar os caras malvados." 

Minha boca ficou seca. Um desespero profundo tomou conta do meu peito. Então esse era o fim. Nem uma semana, e já era o fim. "Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

"Não! Quero agora!"

Uma série de batidas abafadas vieram do antigo quarto de Noah. 

Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram. "Vem cá, Noah." 

Noah sacudiu a cabeça, inconsolável. "Não."

Mais batidas e um xingamento abafado. 

Minha arma brilhava na mesinha de café, sinistra e convidativa. Peguei-a e fui lentamente em direção do corredor. 

Passos pesados vinham lá de dentro. A maçaneta se mexeu e a dor rangiu enquanto abria. 

A ponta de uma espingarda apareceu primeiro, seguido do invasor. Congelou quando me viu. Seus olhos brilhavam estranhamente, me lembrando de porcelana envernizada. 

Eu atirei. 

A parte de trás do crânio dele explodiu, cobrindo a parece em sangue e miolos. 

Me virei para Noah, preparado para abraçá-lo e confortá-lo. Mas ele não precisava de conforto, estava radiante. As lágrimas haviam secado e ele sorria. Ele nunca havia sorrido durante nosso ritual. 

Aquilo dizia tudo que eu precisava saber. Meu coração se partiu novamente. 

"Eu peguei o cara malvado!" Ele tropeçou sonolentamente para seu quarto. 

"Sim, você pegou," eu disse. 

Ele parou na porta do quarto, e deixou escapar um suspiro contente, sem parecer perceber o cadáver que estava em seus pés. "Eu te amo, papai." 

"Eu também te amo." Minha garganta parecia inchada, engasgando nas palavras. Noah esperou pacientemente. Foi difícil me manter no controle. Tínhamos uma rotina. Um ritual. Eu estava devendo um término para ele. "Vá para a cama," sussurrei, "e volte a dormir." 

Ele entrou no quarto. 

Depois de um segundo agonizante, corri atrás dele. Claro, estava tão vazio quanto sempre estivera. O vazio me destruiu de uma maneira que nunca tinha feito antes. Me arrastei até o canto onde costumava ficar sua cama e chorei.

Liguei para a polícia algumas horas depois. Pedi desculpas pela demora, disse que tinha tido um ataque de pânico e desmaiado. Ninguém se importava. Fui colocado em uma investigação interna, mas isso é só por fazer, mesmo. 

Meu quase-assassino era um cara que eu tinha colocado na prisão anos atrás. Estuprador de crianças, escória da terra. Nem sequer me lembrava dele. Eu nem quero.

Sei que não verei Noah novamente. Meu filho dormiu mal por vinte e quatro anos, por minha causa. Mas agora ele pegou o cara malvado e salvou seu pai, então tenho certeza que vai descansar agora.

E onde quer que esteja, espero que esteja dormindo bem.



FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


17/07/2018

Olho Mágico

Primeiramente: John Valley, tenho 27 anos e se teve a oportunidade de ler esta carta significa que estou morto. Vamos do início, não quero me prolongar desnecessariamente. Com a recente conclusão da minha faculdade de psicologia, pude arrecadar uma quantia específica com o dinheiro obtido com o estágio e realizar o meu sonho de comprar uma casa própria numa vizinhança pacata e recomendada por um amigo próximo. Não sei se é correto chama-lo de amigo numa hora dessas, mas quero muito acreditar que ele foi ignorante sobre a história da casa. Quem vivia nela, sendo mais exato.

Na primeira olhada entrei com o corretor de imóveis para avaliar as condições e não pude deixar de notar a porta de um armário entre a sala e o corredor que levava aos quartos. Nela estava grudado um papel meio amarelado com os dizeres: "Não perturbe!"

Liguei para o meu amigo, nesse mesmo dia, procurando saber mais informações, e ele simplesmente respondeu que a casa lhe foi ofertada por alguém que não quis se identificar e que se recusasse não teria problema, ele poderia indicar um parente ou amigo pois o preço era o menos salgado dentre todas as outras casas que estavam desocupadas e que não importando quem fosse esta pessoa não se arrependeria do negócio.

Quanto mais perguntas eu fazia, ele ia se evadindo, como se não quisesse revelar mais nada e me passou pela cabeça ele ter até sido ameaçado de morte ao contrário do que me disse. Que tipo de cara faz uma oferta e se nega a dizer quem é?

Por isso, acredito com todas as minhas forças, que ele, à essa altura, está morto!

Não consegui saber, infelizmente, quem foram os moradores antigos. Mas a porta do armário me tirou o sono mais do que qualquer coisa que normalmente me preocuparia - como uma prova ou uma entrevista de emprego.

Escondido do corretor, arranquei o papel e o amassei. Mais do que o papel e o aviso... o que verdadeiramente me chamou mais atenção foi o olho mágico. Quem diabos coloca um olho mágico na porta de um armário? De um armário... Sério isso? O único da casa. Apenas no armário. Não faz sentido, à primeira vista.

Dei duas batidinhas na portas com dois dedos e não tive resposta.

Foi a primeira teoria: Alguém mantido em cárcere privado.

Mas não explicava o aviso. A menos que o morador anterior tenha se trancado por qualquer razão maluca, o que explicaria ele ser desconhecido. Aparentemente, o meu corretor não foi o mesmo do dele.

A vizinhança, em sua maioria, é composta por pessoas que se mudaram muito recentemente.

Felizmente (ou não) descobri a resposta para o mistério que ocupou minha mente por duas semanas. Um prazo que soou para o corretor para um morador tão ávido em adquirir seu tão sonhado lar particular.

Não me resta muito tempo, então serei o mais direto possível.

Consegui uma "cópia" da chave do armário, que, por sorte, funcionou e me possibilitou entrar nele. O interior é basicamente do mesmo tamanho que um porão ou sótão.

Sem lamparinas, mas terrivelmente encoberto de poeira em cada polegada. Usei a lanterna do meu celular e explorei até onde deu. na verdade, até onde eu pude contar com a sorte.

Ouvi passos atrás de mim e por reflexo me virei de frente à porta aberta e vi rapidamente um vulto correndo para fora. As dobradiças tinham chegado ao limite e ele ainda parecia estar lá, mas não sei porque fui tão idiota em ficar parado esperando algo me surpreender. mas tomei iniciativa tarde demais quando ele fechou a porta com uma velocidade incrível. Quase bati meu rosto. Gritei para que ele destrancasse e ameacei chamar a polícia.

Ele tinha grudado um papel do verso da porta - para o lado de dentro. Nele diz: "Sua vez de espiar agora".

Não sei como ele (ou ela?) escreveu com tanta rapidez, em segundos praticamente. O papel certamente já estava ali desde o início, pois está tão gasto e amarelado quanto o da frente.

Depois recebi um torpedo no celular de alguém anônimo, dizendo ser o ofertante da casa e me dando algumas instruções.

A última delas foi destruir o celular, pegar uma faca e cortar a carne de um rato infectado com alguma substância tóxica que ele injetou - tem pelo menos três seringas vazias aqui - e beber de pouca quantidade de sangue dele prometendo que a coisa fortaleceria minha boa memória... e que a obediência faria a vida do meu amigo ser poupada.

Não sei quem é esse cara, mas acho que sei qual é a jogada. Deve ser um plano para colher informações sobre novos moradores da casa. Alguém sempre tem que ficar espiando. Mas por que?

Meu tempo está quase se esgotando...

O processo vai se completar dentro de poucos minutos...

Vou dobrar esta carta e fazê-la passar pela brecha inferior da porta, depois usar a faca para cortar minha garganta. Quem sabe o próximo interessado na casa a encontre ou algum invasor.

Não... Sinto outras coisas... outras presenças. Aqui dentro e no resto da casa.

Pensando bem, talvez ainda dê tempo de dar uma espiadinha.

Autor: Lucas Rodrigo

16/07/2018

Tentei trocar de corpo com minha irmã

Se isso fosse um filme da Disney, eu seria a irmã "malvada". 

Mas será que posso ser culpada por isso? Minha irmã, Eva, teve uma vida bem diferente da minha. Alta, bronzeada, voluptuosa, com uma voz linda e uma personalidade calma. Eu? Sou baixinha e pálida, com um hábito de comer chocolate demais e minha voz parece a de um sapo prestes a morrer. 

As vezes, quando falo sobre isso com ela, minha irmã só ri (pense naquela risadinha clássica feminina, delicada) e fala "Ah, Cora, não seja invejosa! Devíamos nos amar como irmãs, não brigar por coisas idiotas." 

Mas fico pensando se ela falaria isso se não tivesse tirado a sorte grande.

Ontem a noite foi a gota d'água. Fomos para uma festa em uma das irmandades. Acenei para um dos meus colegas, Robby, da aula de física. Mas assim que o fiz, e seus olhos caíram em Eva, estava tudo acabado. Não importava quantas piadas eu fazia, quantas vezes eu tocasse seu braço - ele nem se quer me olhou uma segunda vez. 

Nessa mesma noite, antes de Eva ir dormir, eu saí de fininho de nosso apartamento. Tinha ouvido alguns boatos - boatos bem loucos. Que uma bruxa de verdade morava em uma das casas abandonadas no final da rua. Era algo que nenhuma mulher adulta devia acreditar, obviamente.

Mas eu estava desesperada. 

Quando cheguei na casa, meu coração despencou. As tábuas de madeira estavam apodrecidas e quebradas; as janelas quebradas em pedaços grandes e pontudos de vidro que pareciam presas de animal carnívoro. Entretanto, eu podia perceber que havia uma diminuta fonte de luz vindo lá de dentro - um brilho fraco e amarelado. 

Levantei a mão para bater na porta. 

Mas antes que meu punho se encontrasse com a madeira, uma voz me chamou lá de dentro: "Pode entrar!"

Nhééééc, rangiu a porta. Dei um passo para dentro, minhas pernas bambas. "Olá?" A luz parecia estar vindo de um quarto mais no fundo da casa, então fui em sua direção.

"Bem vinda." 

Uma mulher estava sentada no chão, no meio de um pentagrama, usando um manto com capuz. Ela parecia ser apenas alguns anos mais velha do que eu, seu cabelo loiro claro aparecendo pelas bordas do capuz. 

"Hm... você é a... bruxa?" Perguntei, meio constrangedoramente.

Ela sorriu largamente. "B-R-U-X-A não é um termo que usamos por aqui. Preferimos Mulheres da Arte da Magia." 

"Desculpa! Hm, então-" 

"O que procuras?" me interrompeu. 

"Quero trocar de corpo com minha irmã."

"Um feitiço fácil. Posso fazer por você - mas a pergunta é, poderás pagar o preço?"

"Que preço?"

Ela fez uma pausa, olhando de baixo para cima para mim, com seus olhos azuis acinzentados. "Seu filho primogênito." 

"Eu, hm - eu não sei -" gaguejei. 

Ela deu uma gargalhada. "Estou brincando com você. O pagamento é em dinheiro - mil dólares. Dinheiro ou cartão?" 

"Hm, cartão," Falei, suspirando em alívio. Procurei por minha carteira e alcancei o cartão. "Crédito." 

Ela puxou um celular de um bolso de dentro de seu manto, e depois de passá-lo, bateu no chão e disse. "Venha, sente-se comigo." 

Me abaixei lentamente para sentar no pentagrama. "Depois que estiver feito - ela saberá que isso aconteceu?" 

A bruxa sacudiu a cabeça. "Não. Farei também um feitiço de reformação de memória, assim ela pegará suas memórias e achará que sempre foi você." 

Sorri. "Melhor ainda."

Ela pegou minhas mãos. "Senhora da Escuridão, eu lhe suplico, troque esta mulher e-"

Nhéééééééc

O chão rangiu em um quarto distante. Eu me levantei rapidamente, olhando para as sombras. 

Tump, tump, tump.

Das sombras, a silhueta começou a se formar. Uma mulher - velha e enrugada, com pentagramas gravados em cortes em sua pele esbranquiçada, cicatrizes grossas. Me encarou com seus olhos vermelhos profundos, e senti meu sangue correndo frio nas veias. 

"Você precisa de ajuda, querida?" Perguntou. 

"Não, vó. Eu consigo. Ela só quer trocar de corpo e uma reformulação de memória." 

Mas a mulher deu alguns passos para frente. Se ajoelhou no chão ao meu lado, se aproximou o meu rosto até que eu pudesse sentir um cheiro extramente cítrico emanado de seus cabelos. "Troca de corpo, de novo? Não funcionou da última vez?" 

Olhei para ela, com as sobrancelhas franzidas. "Quê?" 

"Bem, você esteve aqui algumas semanas atrás. Fizemos os exatos mesmos feitiços." 

Encarei-a, começando a entender a situação. "Eu... estive?" 

"Ah, esteve sim." Um sorriso bizarro irradiou em seu rosto, os olhos quase fechados. 

"Você esteve aqui, querendo trocar de corpo com sua bela irmã - e fez questão de que ela jamais se lembrasse disso." 




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


13/07/2018

Perdi o ônibus para a escola

Eu me lembro como se fosse ontem.

Acordei tarde, acabei esquecendo de acertar o alarme na noite anterior. Quando vi 7:27 no meu despertador, pulei da cama como um coelho e comecei a me vestir furiosamente. Eu precisava estar no ponto de ônibus às 7:35, isso significava que eu não tinha tempo para escovar os dentes ou tomar café da manhã. Não, eu perdi esses luxos devido ao meu pequeno erro. Eu rapidamente peguei meus livros e planilhas em minha mochila e corri pelas escadas e saí pela porta da frente.

Corri muito para chegar ao ponto de ônibus. Assim que dobrei a esquina, pude ver a última criança entrando no ônibus amarelo. "Ei!" Eu gritei, mas o garoto não me ouviu. Corri mais rápido quando o ônibus começou a sair, fumaça saindo do escapamento.

"Ei!" Eu gritei novamente, acenando descontroladamente. No espelho lateral fiz contarto visual com o motorista do ônibus. O motorista sempre foi um rabujento, então não posso dizer que fiquei surpresa ao vê-lo me olhar com desdém e dar de ombros, como se dissesse: "Tarde demais, garota." Ele acelerou e eu fui deixada para trás, abatida, triste, e sem um meio de transporte.

Minha escola ficava a cerca de vinte minutos do ponto de ônibus. Eu não tinha dinheiro e nunca tinha andado de ônibus, a não ser o escolar. Minha mente de dez anos estava em um completo estado de pânico. Eu sabia que minha mãe me mataria assim que minha professora ligasse e dissesse a ela que eu havia "faltado na escola". Sentei-me na calçada, suspirando profundamente.

Ainda não consigo explicar exatamente o quê, mas algo não parecia certo. Eu nunca me senti desse jeito antes, mas algo estava... errado. Senti um calafrio percorrer minha espinha e não tinha nada a ver com o vento ao meu redor. Eu estava ainda mais perturbada devido ao fato de que o vento soava freneticamente como gritos agonizantes rasgando o ar. Eu olhei para cima e notei a caminhonete velha, marrom-suja, andando lentamente pela rua em minha direção. Eu não sei o porquê de eu não ter corrido ao ver aquilo. Eu apenas sentei e observei enquanto o caminhão parava ao meu lado. A janela do lado do motorista estava aberta, e pude ver um velho enrugado usando um boné vermelho sujo, olhando para mim. Ele me deu um sorriso, no qual notei alguns dentes faltando.

"O que houve, garotinha?"

"Eu perdi meu ônibus", eu disse com um ar de derrota. O homem olhou para mim por um momento antes de responder.

"Você precisa de uma carona?"

Sim, eu aprendi a nunca falar ou aceitar caronas de estranhos. Ainda assim, eu era uma criança desepserada de dez anos que não queria se meter em problemas por faltar à escola.

"Aham."

Peguei minha mochila e caminhei até a porta do passageiro. Entrei no carro, batendo a porta atrás de mim. O interior da caminhonete do homem estava imundo; Havia latas e pacotes velhos de comida pelo chão, e o cheiro era horrível. Eu tossi e estiquei o braço para abrir a janela.

"Desculpe, criança. Essa janela não funcoona, e nem a porta, por dentro." Eu olhei para o homem, que me olhava atentamente. Havia um pouco de alegria em seus olhos escuros, e eu estava começando a me sentir muito desconfortável.

"Onde você estuda?" ele perguntou, e eu respondi. Ele sorriu novamente e começou a dirigir. Eu olhei para o espelho do retrovisor dele e vi o que parecia ser um pequeno bracelete de arco-íris pendurado nele. Meu desconforto estava fora de controle agora, e embora eu tenha tentado desviar o olhar rapidamente, o homem me pegou olhando.

"Ah, isso?" Era da minha filha, Jessica. Eu penso nela todos os dias."  Ele estendeu a mão e acariciou o bracelete. Eu olhei pela janela, notando que o homem estava indo por um caminho completamente diferente do que o ônibus geralmente faz.

"O que... o que aconteceu com ela?" Eu perguntei, trêmula. O homem ficou em silêncio por alguns longos segundos antes de responder.

"Bem... ela falecei em um acidente de carro. As estradas são perigosas, sabe? Especialmente nesta cidade."

Meu coração batia mais forte a cada segundo. Eu me perguntei se ele estava mentindo sobre a porta não funcionar. Eu estava considerando fortemente tentar abrir de qualquer forma. "Quantos anos você tem, mocinha?"

"Dez", eu respondi rapidamente, tentando esconder meu nervosismo, mas falhando. O homem olhou fixamente à frente em silêncio por mais alguns minutos.

"É... essa é a idade que minha Jessica tinha quando se foi." Ele estendeu a mão em direção à minha perna e eu instintivamente a puxei. Senti meu rosto ficar vermelho quando percebi que ele estava apenas pegando um pacote de batatas aberto que estava no assento ao meu lado.

"Você está bem?" ele perguntou, colocando algumas batatas em sua boca. Eu assenti lentamente, colocando meus pés de volta no chão. Olhei pela janela e senti um alívio como nunca antes. Nós estavamos na rua da minha escola. Como chegamos aqui tão rápido? Ele deve ter pegado algum tipo de atalho.

A caminhonete parou lentamente em frente à escola e o homem saltou para fora. Ele caminhou até o meu lado e abriu a porta para mim. Eu saí, olhando para seu rosto enrugado.

"Obrigado pela carona, senhor." O homem assentiu, me dando outro sorriso.

"Sem problemas, mocinha."

Ele voltou para a caminhonete e foi embora. Eu o observei ir, imaginando o que diabos tinha acabado de acontecer. O que minha intuição de dez anos de idade estava me dizendo? Este homem era claramente inofensivo, ou então eu provavelmente não estaria na escola agora. Eu balancei a cabeça e entrei no prédio. Para minha surpresa, todos os professores estavam chorando. Eu não entendi o porquê até um pouco mais tarde. Um carro atravessou inesperadamente para a pista do ônibus, o motorista do ônibus desviou com força, fazendo o ônibus tombar do lado de uma ponte. Não houve sobreviventes.



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


12/07/2018

Asylum Series - Capítulo 2: O Bonewalker


(Capítulo Anterior: Distúrbio Alimentar)

Depois de examinar os relatos de alguns pacientes, eu percebi o leque de bizarrices que nós temos aqui... Honestamente, eu nunca pensei muito nesses pacientes como pessoas. 

“Doido” é um rótulo que imediatamente desumaniza alguém, tira deles qualquer possibilidade de empatia ou compreensão. 

Por exemplo, tem uma menina que se recusa a falar com qualquer pessoa que não a deixe sentir suas têmporas, por causa das “fibras nervosas” (seja lá o que isso signifique). Fora isso, e um pouco de paranoia, ela parece completamente normal – mas antes, era muito fácil apenas taxa-la como mais uma paciente doida. 

Quanto mais leio os relatos, mais eu percebo que estas são pessoas reais. Apenas afligidas por dores além da imaginação mundana. 

Ontem à noite estava lendo durante uma pausa, até que as palavras de um homem me chamaram a atenção. Eu o conheço. Depressivo, conformado e esgotado, mas agora, acho que por trás de tudo isso, talvez ele seja como um de nós. Ele só está...preso nessa dor. 
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Tá bom, eu conto! Mas nada de choques! Você prometeu que não teriam mais choques se eu te contar! 

Eu sei como começou. Agora, quando lembro disso, parece óbvio: 

Eu estava andando na rua com alguns amigos. Estávamos bebendo no caminho para um outro bar, quando um cara esquisito e desesperado esbarrou em mim. Ele cheirava a suor e...alguma outra coisa...ele sujou minha mão com alguma coisa. Minhas unhas para ser mais específico. Sangue. Ele me sujou de sangue. 

Ele congelou, com uma feição triste e assustada. “Me desculpa”, ele disse. E eu acreditei nele, mesmo não sabendo, na hora, pelo que ele estava se desculpando. E então ele correu. 

Quando vi o sangue fiquei enojado, mas tentei só limpar e esquecer aquilo. Nada aconteceu...por um tempo. 

Oh Deus! Eu lembro de cada detalhe daquela noite. Deitado sozinho no meu apartamentozinho fajuto. Nossa, como sinto falta dele. É um palácio comparado aos seus “cuidados”. 

Eu acordei um pouco antes de acontecer. Eu estava encarando o teto escuro, me sentindo estranho. E de repente eu precisei me curvar de tanta dor que senti, chocado demais até para gritar. Eu me lembro que eu vi, ainda sem entender o quanto estava fodido, uma grande lâmina ensanguentada saindo da minha canela. 

Eu não compreendia. De onde veio aquilo? Alguém me apunhalou? 

Eu tentei pegar o telefone, mas senti uma dor ainda maior quando a lâmina se mexeu. Outra enorme navalha branca saiu e as duas se separaram, fazendo uma linha na minha canela. Eu tive a visão de navalhas me fatiando em pedacinhos de dentro para fora...hoje, bem que eu queria que isso tivesse acontecido. 

Eu não tive muito tempo para entrar em pânico. Elas pararam. Eu senti um pequeno alívio que não durou muito, quando eu percebi que uma coisa viva tinha saído do osso da minha canela. 

A coisa examinou o quarto com seus seis olhos perolados, enquanto pingava com meu sangue. Parecia uma aranha de meio metro esculpida num osso com seis pernas de navalha. 

“Inesperado”. 

Aquilo falou? Mas não tem boca. Como ele estava falando? 

- Inesperado? 

Eu perguntei assustado. 

"Quem é você?" 

Tremendo e a beira das lágrimas, eu só queria que aquele treco fosse embora. 

- Ninguém importante... 

Resposta errada. 

Ele enfiou a perna de volta no meu osso exposto, cuidadosamente desviando da carne separada e do sangue corrente. Senti uma picada no peito...Pelo que eu pude compreender, a perna de navalha daquela criatura entrou na minha tíbia, mas saiu de uma das minhas costelas. Uma ponta de lâmina pressionando meu coração por dentro... 

- Por favor, por favor... 

Eu implorei enquanto o suor caia nos meus olhos. 

- Eu faço o que você disser, eu faço, eu faço, só não me mata.. 

Ele respondeu. 

“Aceitável” 

Ele tirou a perna e a dor foi embora com ela. 

“Você fará como for instruído ou morrerá dolorosamente” 

Eu me engasguei com o soluço. 

-Sim, sim, claro. 

Ele voltou para o osso exposto e...sumiu. Sem entender o que tinha acontecido, eu fui ao hospital, falei que foi um acidente e levei alguns pontos na perna. Parecia que eu teria minha vida de volta. 

Eu estava errado. 

Ele saiu por entre os pontos algumas noites depois. Desolado, mas preparado, eu fiz questão de memorizar tudo o que pude sobre ele. Mortal, mas estranhamente belo, como um inseto cor de marfim. Ele me dava ordens e me fazia...fazer coisas. 

Começou com pequenos crimes. Que eu tinha que executar de maneiras muito especificas, plantando evidências por razões que ele não me dizia. 

Ele me levou até criminosos perigosos, mas essas pessoas eram o menor dos meus problemas. Um dos seus outros escravos me deu um osso gigante de animal com um sangue especial, e Ele me fazia levar esse osso pra uns lugares esquisitos. 

Ele saia do osso e conversava com alguém. Eu nunca cheguei a ver quem era, não que isso fosse me ajudar. 

Eu perdi as esperanças depois de muitas noites procurando por ajuda, mas sem resposta. Eu espancava pessoas. Furtava. Assaltei lojas de conveniência. Ele até me fez colocar aquele maldito sangue nas unhas de um outro cara. Eu não pude fazer nada enquanto, aos poucos, as navalhas se separaram...as mãos dele caindo no chão...a perna...gritando, implorando, suplicando...aquilo torturou ele até a morte por uma informação que eu não entendi...eu tive que pegar os pedaços dele e jogá-los fora depois...Oh Deus... 

Ao longo do tempo eu fui encontrando...outras maneiras de me fazer esquecer do vazio obscuro e desesperador que existia dentro de mim. Meu irmão me achou na rua depois de alguns meses. Me lembro de cada detalhe disso também: 

- Você precisa vir pra casa. Vamos te tirar das drogas, te deixar limpo. Papai vai te arranjar um emprego. 

- As drogas não são o problema! 

Eu gritei pra ele. 

- É a única coisa que me impede de perder a sanidade. É o Bonewalker. 

A medida que as palavras saíram da minha boca, eu senti uma picada no meu ombro esquerdo...e depois do lado direito do meu pulmão... A mensagem era clara: Ele estava me observando. 

- Vá embora!! 

Gritei pro meu irmão. 

Eu senti cada pedacinho de mim exatamente como aquele cara nojento e desesperado que esbarrou em mim. 

- Você não pode me ajudar! Vá embora! 

Depois disso, me afundei ainda mais nas drogas. Qualquer coisa que lembrasse o que eu era antes de tudo isso, sumiu. Então decidi que não ia fazer mais nada, mesmo que eu precisasse morrer por isso. 

Ao seu comando, eu comprei um rifle. Ele queria que eu matasse alguém, alguém importante..., mas quando Ele me desse o nome e o plano, eu iria recusar. 

Imaginei como Ele me mataria. Se mataria minha família... Será que eu tinha mesmo uma escolha? Eu precisava fazer o Bonewalker pensar que não era minha culpa... 

Liguei para a polícia e dei uma dica anônima. Eu estava calmo e cheio de alívio quando eles me cercaram e me puseram algemas. Fiquei sob custódia, aparentemente pego pela polícia. Quando o Bonewalker viesse, não teria motivo pra punir minha família pelo menos. Mataria a mim apenas. 

Mas ele nunca veio. 

Digo, eu sei que ele não veio até agora, mas estou acabado e preso aqui de qualquer forma. Eu fico pensando...e se tiverem mais? E se Eles vierem me pegar, porque eu sei das coisas? Não vai ter aviso. Pode ser a qualquer momento! A sensação de uma lâmina afiada passando e então, estarei morto... 
_______________________________________________________________________________ 

O que mais me cativa sobre esse relato é que se assemelha muito com alguns devaneios deixados por um homem que morreu tragicamente a um tempo atrás. Ele foi mutilado de uma maneira inimaginável – como se seu rosto tivesse sido arrancado pelo lado de dentro. A história dele chegou aos jornais depois que perceberam que ele era o serial killer responsável por diversas mortes similares... 

Mas aquele homem disse que, como seu último feito, ele daria um jeito de destruir a criatura. 

Imagino que o paciente deve ter lido sobre aquele homem e acabou criando uma obsessão ou delírio sobre isso. Acho curioso como a loucura parece ser contagiosa... aparentemente mais ainda hoje em dia. Estou começando a pensar se esse lugar realmente está tentando ajudar essas pessoas... ou só deixá-las isoladas... como quarentena para uma praga. 

[Atualização: E agora estou convencido de que há algo mais acontecendo.]

Tradução Livre por: Alicia 


Essa postagem compartilhada foi feita pelo site Não Entre Aqui. Cliquem aqui e visitem o site, para não ficarem de fora de nenhuma novidade.


11/07/2018

"É aí que seu corpo estará dentro de uma hora."

Fui criada em uma casa Cristã fervorosa e rígida, porém com muito amor. Meus pais não faziam regras absurdas e tinham boas intenções, mas obviamente quebrei algumas dessas como a maioria dos adolescentes.

Johnny era um bom partido. Era absurdamente lindo, tinha participado do time de futebol, e tinha recebera uma bolsa integral. Engraçado, talentoso, e bem apessoado, havia pouco para NÃO gostar nele. Nossa ligação começou por causa da castidade e o amor por pregar peças.

A melhor parte: ele tinha seu próprio apartamento na universidade, o que ficava cerca de quatro horas da casa dos meus pais. Eu conseguia ir para lá sob o falso pretexto de ir visitar ou passar a noite com alguma das minhas amigas que frequentavam a mesma universidade. Meus pais nem se quer precisavam saber que eu estava namorando. 

Eu acabara de fazer dezoito anos e adorava minha nova febre rebelde e a tão nova sensação de liberdade. Mas ainda vivia feliz com as regras e orientações dos meus pais na maior parte do tempo. Sempre me encorajaram em pensar livremente e fora da caixa até que encontrasse minhas próprias morais e valores, e acabei me tornando parecida com eles... porque, sim, eles são demais. Minha mãe, sábia, me encorajava a não dormir com qualquer pessoa, e era algo em que eu me segurava firmemente. Então, mesmo quando eu ia passar a noite no apartamento do meu namorado, não tinha intenções de fazer sexo. Ele aceitava isso muito bem e parecia respeitar minha decisão.

Em uma semana, precisamente no meio do verão, tive três dias de folga no trabalho. Uma viagem para me encontrar com Jhonny já estava agendada e comecei a rota para lá cedo na manhã. Ele estava animando em me ver e tivemos um ótimo dia. Guerrinha de armas de brinquedo, lendo Stephen King, dando uns amassos. Saímos para jantar e voltamos para ter uma noite de travessuras... pelo menos era o que eu achava.

Quando entramos em seu apartamento, Jhonny me mostrou uma caixa de camisinhas. Não era a primeira tentativa dele, então não fiquei chocada, mas disse prontamente que não ia acontecer.

Os eventos que se seguiram depois desse evento que, normalmente pareceria tão normal, me assombram até hoje.

O sorriso de Jhonny desapareceu e seus olhos ficaram frios. Assombrosamente frios. Eu estava sentada em sua sala de jantar com as costas para a parede, ele de pé no outro lado da (pequena) mesa. 

"Você me enjoa. Estou cansado de você. Você brinca com meus sentimentos. Tudo que você faz é brincar comigo." 

Nós dois sempre gostamos de pregar peças e éramos sarcásticos em todos os sentidos da palavra. Enquanto sua fisionomia me deixava toda arrepiada, não de um jeito bom, eu sabia que era uma piada. Afinal de contas, eu o conhecia a muitos anos. 

"Tenho pensado nisso a muito tempo e você está morta. Eu não vou continuar com isso. Você me enoja. Eu te odeio e você está morta."

Estava absurdamente calmo e sua voz implicava um leve tom de ódio que eu nunca tinha presenciado antes. Notei seus punhos cerrados, as veias saltando nos braços. Pela primeira vez em nosso relacionamento de anos, não me senti segura junto dele. Nossos olhares eram fixos um no outro, ninguém piscava. 

Seu apartamento de segundo andar era dentro do Campus da Universidade. Eu não havia visto mais ninguém no prédio, nenhum carro no estacionamento. Mesmo se eu conseguisse passar por ele (o que eu não ia conseguir), minhas duas opções eram destrancar a portada varanda e pular OU correr uns dois metros até a porta que dava para o corredor e que abria para dentro, e então descer um lance de escadas. Cada um desses cenários me levava para um estacionamento vazio. Eu teria que correr até o meu carro, ou para o bosque ali perto. Mesmo sendo atlética, eu não tinha chaces físicas contra ele. 

Me foquei nele. Metade de mim sabia que ele estava brincando. Tinha que estar. Começaria  a rir a qualquer momento e nós voltaríamos ao nosso maravilhoso dia. Mas ele continuou a falar.

Não posso repetir o que ele falou. Não me sinto a vontade de escrever as palavras que saíram de sua boca aqui, na internet. Mas me detalhou o estupro que tinha planejado para mim. Se eu sobrevivesse, eu seria estrangulada no bosque e então descartada em um local isolado que já tínhamos explorados juntos. Gesticulou em direção de uma mochila de viagem que estava no balcão da cozinha, "É aí que seu corpo estará dentro de uma hora."

Já era demais para mim. Seu plano era muito bem planejado para ser uma piada. Sou pequena mas sou teimosa, e lutaria até o final pela minha vida, se precisasse. Também consigo não expressar meus sentimentos fisicamente quando preciso. Era minha vez de encará-lo com toda ferocidade que conseguia, me levantei e falei a primeira coisa que me veio na mente. Ainda me orgulho da calma inabalável que demonstrei - por dentro eu estava implorando para Deus não me deixar morrer. 

"Você é tãããão engraçado. Eu quase acreditei por um segundo. Mas não teria funcionado de qualquer forma porque o que eu ia te falar é que meu pai mandou que eu voltasse hoje para casa - ele precisa de mim amanhã cedo para arrumar o jardim para o aniversário da mamãe, porque Kyle (meu irmão) machucou as costas e falei que eu ia ligar para ele quando estivesse pegando a estrada daqui meia hora." 

Era uma mentira e não uma particularmente boa, mas falei convincentemente. Balancei meu celular em seu rosto e falei que ele poderia ligar e explicar para o meu pai o motivo de eu não voltar para casa, se quisesse que eu ficasse.  

A boca de Jhonny estava entreaberta enquanto olhava para mim. 

"Eu só estava brincando," sussurrou, os punhos ainda cerrados. 

"Até mais!" Falei alegremente, passando por ele. 

Arrisquei e deu certo. Peguei minha bolsa e fui embora pelo corredor. Eu podia sentir seus olhos queimando em minha direção, aquela energia elétrica por todo o cômodo enquanto eu gritava internamente para andar calmamente. Destrancando a porta, andei lutando contra todos meus instintos que me mandavam correr. Eu estava longe demais do meu carro e se eu corresse, ele ia me alcançar. Além do mais, não queria dar-lhe a satisfação de me ver com medo. 

Andei todo o estacionamento (antigamente eu tinha o hábito de estacionar meu carro o ais longe possível) até perto do bosque onde ele havia falado que me assassinaria. Eu sabia que estava me observando o tempo todo... eu podia sentir seus olhos analisando cada movimento meu. Enquanto dirigia para longe, passando seu apartamento, vi sua sombra na varanda. Acenei, ele só olhou.

Dirigi alguns quilômetros até o Walmart mais próximo. Não eram nem oito da noite e o sol estava começando a se por. Milhares de pessoas passavam por mim naquele enorme estacionamento, sem nem desconfiar pelo o que eu havia acabado de passar. 

Surtei ali no volante, chorando até não poder mais. Depois dirigi quatro horas para casa. 

Estupidamente, eu não sabia como processar o que havia acontecido e simplesmente deixei isso esquecido no fundo da minha mente. Passei os anos seguintes evitando Jhonny. As poucas vezes que pensei sobre, me sentia culpada por ter sido tão ingênua. Finalmente contei para minha mãe o acontecido depois de quatro anos. 

Então, é, tenho um ex-namorado que é um potencial assassino que graças a Deus hoje mora a 15 mil quilômetros de mim... por favor, não vamos nos encontrar de novo. 


FONTE

N.T: Esse conto faz parte uma nova coletânea que estarei trazendo esporadicamente para vocês, os "não vamos nos encontrar", que coisa que aconteceram de verdade com pessoas reais, encontros bizarros e assustadores onde poderemos ver um pouco da podridão e da loucura que habita a mente humana, e o relato daqueles que escaparam da morte por pouco. 


10/07/2018

Quem é o monstro?

Eu posso afirmar, com base em meus 15 anos morando aqui, que a rua das corças é o lugar mais tranquilo e seguro que você poderia morar. Em todos esses anos de experiências boas e ruins, o pior delito cometido nessa região foi uma série de furtos de bicicleta cometida por alguns adolescentes da rua vizinha.

Tomo como espanto, portanto, os recentes eventos ocorridos na rua. Cerca de 5 dias atrás, tudo começou. Uma das moradoras mais velhas sumiu sem deixar sinais ou indicações do que poderia ter acontecido. Sem sinais de arrombamento, sem cartas de despedida, sem testemunhas, sem sinais de luta... Nada. A reação entre os moradores foi a pior possível, considerando-se a magnitude do ocorrido em uma rua tão pacata.

No dia seguinte, porém, o evento se repetiu. A vizinha da desaparecida, dessa vez, foi quem sumiu. E assim seguiu-se por 5 dias. 5 pessoas desaparecidas... Uma em cada dia. Todas nas mesmas condições. Pela rua, choviam teorias. –Devem ser alienígenas. – Diziam os mais jovens. –Com certeza é o arrebatamento. – Diziam os mais velhos. Eu, entretanto, ouvi outras teorias mais assustadoras. -Seria uma antiga força demoníaca? Um vampiro? Um ser humano? Um monstro gigantesco? – Todas, porém, parecem fantasiosas demais para serem tidas como verdade. Uma delas, entretanto, começa a tomar grande força na região e na minha mente.

Durante uma grande reunião de moradores na casa de meu vizinho Fernando, discutimos bastante sobre os ocorridos. Todas as teorias que lhe falei foram colocadas em cima da mesa e conversamos horas sobre elas. Até que uma senhora bem idosa chamada de Julia pediu a fala e começou a nos contar uma lenda muito antiga. A lenda conta que o espírito maligno de um antigo assassino africano foi preso em algum lugar daquela rua. Chegaria o dia em que alguém liberaria o espírito e a morte se espalharia por toda a região. Naquele momento meu ceticismo permaneceu forte. Não acreditaria numa história dessas. Precisaria haver alguma explicação plausível. Fui para casa pensativo e demorei a pegar no sono. Pensando se haveria realmente um espírito de um assassino solto na rua das corças.

Acordei no dia seguinte com um cansaço descomunal e me dirigi para a cozinha a fim de tomar café. Enquanto assava minhas torradas, liguei o rádio como de costume. Para minha surpresa, pois aquele era o horário do jornal esportivo, o rádio anunciava a vinheta do jornal policial, seguida pela seguinte notícia:

-A delegacia da cidade recebeu hoje pela manhã uma encomenda pelo correio. Dentro do pacote, havia um coração humano...

Aquilo não parecia real. Uma região pacata se transformava numa cena de filme de terror.

-Legistas vindos da cidade vizinha confirmaram que o órgão foi retirado do corpo 5 dias atrás, o que reforça a teoria de que o órgão pertence à Alessandra Santos, a senhora desaparecida. Não há provas, entretanto, que liguem os fatos. A polícia segue investigando e aconselha a todos os moradores que permaneçam em suas casas.

No decorrer do dia, os moradores resolveram fazer uma espécie de assembleia extraordinária na casa de algum dos moradores a fim de discutir a situação crítica na qual estávamos vivendo. Ofereci minha casa e nos reunimos pela tarde. Novamente as teorias foram postas em pauta, mas nenhuma delas foi comprovada, assim como não haviam provas que suportassem nenhuma delas. Entretanto, meu vizinho Fernando, por trabalhar na polícia, nos deu um direcionamento maior. O possível assassino estaria seguindo um padrão de zigue-zague na escolha da casa das vítimas. Sendo assim, poderíamos prever quem seria a próxima vítima e assim evitar que ela ficasse sozinha. Fernando concluiu dizendo que a polícia já está pensando nisso e que deveríamos deixar tudo isso com eles. De toda forma, aquela luz de esperança acesa parecia apenas uma gota de água em um oceano de trevas e escuridão. Confesso que tudo o que estava acontecendo me deixou, sim, irritado e preocupado. Entretanto, de certa forma me deixou aliviado. Ainda havia uma possível vítima antes de chegar até minha casa. Talvez nem chegasse. Eu poderia fugir. O assassino poderia ser preso. O mistério em fim poderia ser resolvido. Mas todos esses pensamentos eram puramente animais. A Marília deveria estar com tanto medo quanto eu. Provavelmente mais. Ela não poderia fugir, pois seu marido trabalhava na delegacia da cidade. Apenas esperaria que a segurança fosse suficientemente forte para impedir mais um desaparecimento e quem sabe assassinato. Fui dormir preocupado, pois de alguma forma eu sabia que a vinheta policial tocaria novamente no outro dia.

Acordei então calmamente e antes de tudo me dirigi a cozinha. Liguei o rádio e então ouvi:

-Mais um desaparecimento foi confirmado nesta manhã de Sábado. Marília Ferreira de 40 anos passou a noite em casa, como sugerido por seu marido Marcelo. Entretanto, desapareceu misteriosamente entre a madrugada e o começo da manhã.

-MERDA, MERDA! – Soquei fortemente a mesa, sem quebra-la. O medo começava a tomar conta de mim. Apenas mais um dia e seria eu. Eu seria o próximo amaldiçoado a descobrir a verdade disso tudo. Então, fiz a única coisa que poderia para esta noite. Dirigi até o mercado mais próximo e fui fazer compras. Com toda a certeza do mundo, a atendente de supermercado achou que eu fosse o assassino. Saí do estabelecimento com um martelo, um enorme facão, algumas ratoeiras para identificar a chegada do assassino, sinos para colocar em toda a casa, cordas para amarrar panelas e, por via das dúvidas, um incenso para afastar qualquer possível entidade que pudesse se aproximar de minha casa.

Então, rapidamente a noite veio. Preparei todas as armadilhas a tempo, acendi o incenso, segurei o martelo e o facão e esperei em uma nova cadeira preta de veludo. Aos poucos me senti mais devagar... Mais leve... Todos os meus pensamentos flutuavam de uma maneira singular. Como se fossem orquestrados pelo melhor dos maestros. O motivo pelo qual eu estava fazendo tudo aquilo não importava mais. Cercado pelas cores azul, branco e púrpura eu me sentia em paz. Então uma enorme escuridão se aproximou de mim. No meio das cores. No meio dos pensamentos. O contorno de um homem alto se aproximou de mim e me falou: -Sua hora chegou. Receba e perceba a imensidão do universo. – E foi aí que senti uma enorme e aguda dor no meu peito. Tentei empurrar o homem alto, mas ele não estava mais lá. Ele nunca esteve. Percebo que sou eu que seguro a faca. Eu que a cravei em meu peito. Imagens sobre cada um dos vizinhos desaparecidos aparecem em minha mente. Mas não me lembro de ter cometido tais atos. Eu tenho certeza que não fui eu. Então eu desmaio.

Acordo com um movimento brusco e sentindo muita dor em meu peito. Percebo que há um enorme curativo nele. Então um homem fala comigo:

-Então quer dizer que foi você esse tempo todo? Depois de 15 anos?

Estou num carro de polícia. Sendo levado para a delegacia.

-Havia um homem alto que se movia como uma sombra, quando vocês chegaram? Uma espécie de demônio africano. Ele fez tudo isso...

-Você fez tudo isso! Não me venha com essa lenda agora. Vou levar você à delegacia e você será julgado pelos 8 assassinatos que cometeu, seu monstro. Eram apenas idosos. Você percebe tudo o que fez?

-Eu já disse que não fiz nada disso...

-CALA A SUA BOCA!

Então ele largou o volante e se virou em minha direção. E foi aí que eu o vi novamente. Dessa vez com mais nitidez. Um senhor alto e magro com um sorriso assustador cheio de dentes pontiagudos. Sua orelha era extremamente pontuda e metade de seu rosto era... Derretida. Ele segurava a mão de uma jovem garotinha negra que segurava um urso de pelúcia. Então tudo começou a girar. O carro perdeu o controle e a última coisa que vi em minha vida antes de cair naquele barranco foi o demônio a garotinha indo embora na direção da cidade vizinha.
Autor: Silence the Shadow