27/07/2017

Como o Espantalho morreu

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 


Josh era uma dessas crianças que nascem só para ser um valentão. Sua estrutura parecia muito mais com a de um gorila do que a de um adolescente, e tinha a atitude de um Rottweiler que alguém acabara de tentar castrar com uma tesoura enferrujada. 
Existem diversas formas de praticar bullying com alguém, e Josh era expert em todas elas. Roubava dinheiro do lanche, enfiava cabeças em privadas, espancava crianças e até beliscava a bunda das meninas nos corredores. Mas quem fez com que Josh se tornasse um valentão foi, na verdade, seu pai. 
O homem era uma versão ainda maior e mais feia que Josh, e basicamente era dono da cidadezinha em que vivia, e parecia achar que era dono das pessoas que moravam lá também. 
Se alguém comentava que o garoto não deveria estar nos corredores dando tapas na bunda das meninas, pode aposta que algumas ligações depois, essa pessoa estaria demitida por pedido do pai de Josh. 
Até hoje fico me perguntando se os terríveis eventos que para sempre mudariam a história da nossa cidade poderiam ter sido evitados se alguém tivesse o contido. Mas ninguém nunca o conteu, então acho que nunca saberei. 
Começou de uma forma simples: Josh criou um interesse especial em tornar miserável a vida de um garoto em particular. O pequeno Billy Williamson era um alvo fácil de mais; era magricelo, pálido, e todas as crianças o chamavam de "O Espantalho", por causa dos remendos em suas roupas. 
Claro, não era culpa de Billy que sua mãe era pobre e não tinha dinheiro de comprar roupas novas, mas você sabe como crianças podem ser cruéis quando alguém é diferente. 
Eu sempre o chamei só de Billy.
Todos os dias Josh gritava pelos corredores "Ei, Espantalho! Venha aqui para eu arrancar a palha de dentro de você na porrada!" Ele achava essa piada tão genial que a repetia todos os dias, e se Billy não risse, o pobre coitado acabava com a cabeça dentro de um vaso sanitário. 
As coisas seguiram assim por um tempo. 
Ninguém parecia se importar em ficar do lado de Billy, e suas roupas largas escondiam as cicatrizes que começaram a crescer como raízes de árvores pelos braços. Nunca entendi por que as pessoas que sofrem nesse mundo acabam se punindo ainda mais, mas acho que é assim que as coisas funcionam. 
Eventualmente, Billy se fechou por completo. 
Ele não falava mais, não olhava mais nos olhos de ninguém; o garoto tinha medo da própria sombra. Todos achamos que não tinha como ficar pior, mas creio que o destino não se importava muito com o que achávamos, pois naquela semana a mãe de Billy morreu e dois dias depois a cidade toda já sabia que ela tinha sido encontrada com uma seringa enfiada no braço. 
Se isso parecia um momento de pegar mais leve, Josh não ligava. Na verdade, fez o oposto; sua presa estava ferida, e agora era hora de devorá-lo. 
"Ouvi falar como sua mãe morreu," sussurrava entre os dentes quando não haviam professores por perto, "queria que eu tivesse a encontrado. Mesmo sendo uma drogada, ela era bem gostosa." 
"Você está morando com sua vó agora, né? Talvez eu faça uma visita hoje a noite, acho que ela não resistiria muito."
Ninguém pareceu notar quando os cortes nos braços de Billy começaram a se espalhar pelo seu peito e pernas, ou como seu rosto se contorcia todas as vezes que Josh o insultava pelas costas. 
Ninguém pareceu notar que ele escrevia em seu diário que adoraria roubar a arma de seu avô e acabar com aquilo tudo do seu jeito. 
Às vezes você vê nos noticiários reportagens sobre adolescentes como Billy e fica se perguntando como ninguém interferiu, como ninguém percebeu o que estava acontecendo. A resposta é bem simples: é muito mais fácil fingir que não vê.  
A verdade é que as pessoas não encaram os fatos pois teriam que se perguntar porque não fizeram nada por tanto tempo. 
O último dia antes de acontecer, Josh havia encurralado Billy depois da escola, espancando-o até sua vida ficar por um fio. Quando chegou em casa naquele dia, seu rosto parecia um pedaço de carne sangrento, e enquanto se olhava no espelho, decidiu que o dia seguinte seria o fim.
Entrou de fininho no quarto dos avós e pegou o velho revolver do avô, que ficava de baixo da cama. Não sabia onde haviam mais balas, mas sabia que a avó a mantinha carregada caso alguém invadisse a casa. 
Na manhã seguinte ele colocou o revólver no cós das calças e escondeu com uma camiseta larga. Ele não checou se realmente estava carregada; na real, nem queria saber. 
Mas ainda sim apertou a mandíbula com determinação e pegou o ônibus. Quando chegou à escola, notou que havia uma multidão no campo de futebol. Agradecido pelo atraso, abriu caminho entre os ombros e os cotovelos, e foi aí que viu Josh.
Seu ex-inimigo estava nu, estripado da cabeça aos pés e amarrado ao poste do campo, palha saindo dos buracos de onde havia sido costurado grosseiramente de novo. Seus olhos eram poços vazios, arrancados por pássaros antes do primeiro a encontrá-lo. E em cima de sua cabeça, alguém colocara um velho chapéu de espantalho.
Billy foi embora imediatamente e veio para casa. Mal olhou para mim quando entrou, sentada na minha cadeira de balanço e tricotando. Em vez disso, ele foi diretamente para seu quarto e se jogou na cama. Era a primeira vez que dormia em muito tempo. 
Em poucos dias a notícia se espalhou pela cidade de que o menino tinha sido assassinado e, quando a polícia foi notificar o pai, bem, eles também foi encontraram morto.
Até hoje ninguém sabe quem foi. 
A polícia suspeitou de Billy no começo, e devem ter me perguntado uma dúzia de vezes se eu havia visto meu neto sair da casa naquela noite, mas minha resposta sempre foi a mesma.
Naquela noite eu estava a madrugada toda acordada vendo TV e teria percebido se ele saísse de casa. Eu podia perceber que eles achavam que eu era senil, mas nenhum se atrevia a dizer na minha cara. 
Bem, estou bem velha agora e não acho que tenho mais muito tempo de vida, então acho que é a hora de falar a verdade: Eu não sei o que Billy fez naquela noite pois eu não estava em casa. 
Eu estava na casa de Josh. E fiz com que ninguém nunca mais chamasse meu neto de "Espantalho". 
E ninguém nunca mais se atreveu.  
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


25/07/2017

O feio

Minha família tem uma política restrita e obrigatória de três encontros anuais. Uma na ação de graças, uma no Natal e outra no meio do verão¹ para nossa reunião anual. Sempre foram boas, divertidas e também não muito longas para que não atingíssemos o limite de começar a socar uns aos outros. 

Cada um tinha sua vez de organizar esse terceiro evento, e finalmente tinha caído no meu colo (não de boa vontade) a tarefa de encontrar um lugar para abrigar os cinquentas e poucos membros da família Coleman para o nosso encontrão de julho. Não foi uma tarefa fácil. Todos tinham suas próprias ideias de o que funcionaria melhor, as quais compartilhavam a plenos pulmões e com bastante frequência, mesmo eu os lembrando o tempo todo que essa era minha responsabilidade, mas sempre conseguiam encontrar algum problema com a escolha dos outros. 

Eventualmente, desliguei meu celular, parei de olhar meus e-mails, e me isolei de todos que estavam "apenas tentando ajudar" e fiz as coisas do meu jeito. Tinha que encontrar algo que não fosse muito caro, porém daria espaço suficiente para todos esticarem as pernas e não ficarem cutucando uns aos outros. Iria ser uma estadia de apenas duas noites, mas isso podia muito bem iniciar uma guerra nuclear se não fosse feito da maneira certa. 

A solução parecia óbvia quando a encontrei. Cabanas à beira do lago que incluíam caminhadas, nadar, pescaria, e várias outras atividades ao ar livre que manteriam a família ocupada e não arrancando tufos de cabelo do mais próximo. Por ter começado a planejar sete meses antecipados, consegui reservar seis das doze cabanas por um final de semana e, depois de mandar o pedido de conformação e estar tudo certo, pude deixar as preocupações de lado. 

Julho foi se aproximando rapidamente e, antes que eu pudesse perceber, o final de semana estava dobrando a esquina. Meu marido e eu arrumamos nossas malas e enfiamos tudo no carro, ajeitamos nosso filho de seis anos, Jack, no banco de trás e olhamos para o horizonte. 

"Quantos confirmados mesmo?" Caleb perguntou. Ele estava mantendo os olhos na estrada, tentando ser sútil, mas pude notar um tom de resignação em sua voz. 

"Cinquenta e dois, incluindo a tia Betty," falei sorrindo. 

Caleb grunhiu, "Por favor, me diz que ela está na cabana mais distante da nossa."

"Bem. Do. Ladinho."

Ele gemeu de um jeito teatral, que fez Jack rir, e olhou para mim de canto de olho. "Você sabe que ela sempre fica com uma mão boba depois de tomar um cálice de vinho." 

"É, eu sei. Mas não posso culpá-la. Quero dizer, olhe para você."

Ele não conseguiu manter os olhos de cachorrinho triste enquanto eu tentava seduzi-lo arqueando as sobrancelhas e piscando, o que fez o rir deliciosamente. 

"Vai ficar tudo bem," falei. "São só dois dias." 

Era final de tarde quando estacionamos o carro perto das cabanas. Meus pais, minha irmã, o esposo dela e filhos já estavam lá. Nos abraçamos calorosamente e logo planejamos qual seria o nosso código para "Me Tire Pelo Amor De Deus Dessa Situação Embaraçosa". É sempre bom estar preparada.

Deixamos as crianças irem brincar na beira do lago enquanto os homens tiravam as malas dos carros e esperávamos os outros familiares chegarem. 

Aquela noite foi cheia de risadas enquanto fazíamos churrasco e ficávamos nostálgicos sobre antigos acontecimentos, e as crianças ficavam arrastando os pés por aí. Tive que salvar meu marido da tia Betty mais de uma vez, mas compensei quando a coloquei perto do primo-emprestado que a gente menos gostava. Uma primeira noite típica de uma reunião dos Coleman. 

Quando chegou a hora de recolher, Caleb pegou um Jack semiconsciente e fomos para nossa cabana de quatro quartos, que estávamos dividindo com meus pais e a família da minha irmã. Mamãe e papai desapareceram no quartinho que ficava extremidade da cabana, escolha deles, assim minha irmã e eu poderíamos ficar com os quartos maiores, e o quarto dos meninos ficava entre esses dois. Então fomos colocar os pequenos na cama. 

Caleb tinha dado apenas dois passos no que deveria ser o quarto dos meninos quando Jack começou a ficar agitado. 

"O que foi, campeão?" Ele beliscou gentilmente a bochecha de Jack. "Você precisa ir no banheiro antes de deitar?"

Ao invés de responder, Jack escondeu o rosto no ombro de Caleb e agarrou seu pescoço com força, soltando um gemido.

"Uh-oh, mamãe," Caleb disse para mim, "parece que alguém está com medo de dormir nessa casa nova." 

Me sentei na beira da minha cama e peguei Jack dos braços do meu marido, e ele se agarrou em mim tão forte quanto. Nem mesmo as minhas vozes engraçadas que geralmente fazia na hora de dormir foram suficientes para aliviar sua angustia, então troquei olhares confusa com Caleb enquanto acariciava as costas de Jack.

"Qual o problema, querido? Você não quer ir dormir com Sam e Ben?" 

Ele sacudiu a cabeça negativamente com a testa ainda colada ao lado do meu pescoço. 

"Por que não?" Eu estava genuinamente surpresa. Jack amava muito seus primos e implorava com frequência para dormir na casa deles. Claro, lá era um terreno conhecido, mas nunca antes tínhamos tido problemas como esse em nossas outras diversas viagens. Por tanto que tivesse perto de Ben e Sam, ele estava bem. 

"Eu não quero!" Jack choramingou, e achei que estava apenas muito cansado e rabugento. 

"É hora de dormir, Jack," falei firmemente. 

"Não!"

"Jack-"

Ele começou a resmungar e se remexer com todos os sinais de uma pré-crise de manhã. 

"Você tem que falar, campeão. Conta para mim o que houve," Caleb falou.

"Eu não quero que ele fique me olhando dormir!"

"Que?" Eu o desprendi do meu pescoço e coloquei sentando em meu colo para que pudéssemos olhar seu rosto. Estava vermelho e cheio de emoções conflitantes de uma criança que não conseguia fazer com que alguns adultos entendessem o que estava sentido. "Quem vai ficar te olhando dormir?" 

Sam e Ben estavam nos observando de suas camas compartilhadas no outro lado do quarto, seus olhos arregalados espiando por uma fresta das cobertas. 

"Aquilo!" Jack apontou um dedinho tremulo para um canto vazio do quarto perto do pé da cama de seus primos. "O feio. Dá muito medo!"

"Não tem nada ali, bebê," Falei calmamente, mas meus olhos estavam procurando nas sombras quaisquer sinais de uma aranha ou outro inseto que ele podia ter visto. Entretanto, não vi nada, apenas a parede e chão de madeira com marcas escuras em espiral.

Jack começou a chorar e balançar a cabeça e não houve santa alma que o convencesse que aquele canto estava vazio. Quando Caleb tentou provar isso para ele andando até lá, Jack começou a gritar muito, fazendo com que meus pais, minha irmã e meu cunhado viessem correndo. Pedimos desculpas e contamos que ele só estava nervoso por estar em um lugar novo e, esperando que isso trouxesse a paz de volta, deixamos que ficasse no nosso quarto naquela noite. 

Ele insistiu que trancássemos a porta e se aconchegou entre nós dois, sua mãozinha apertando meu braço até que caísse no sono. 

Na manhã seguinte, acordamos e encontramos Sam e Ben enrolados em suas cobertas no sofá da sala. Quando perguntamos o motivo, eles esquivaram das perguntas e deram os ombros pois, tendo oito e onze anos, já estavam velhos demais para ter medo do escuro. 

"Sinto muito se Jack assustou vocês ontem a noite," Falei durante o café-da-manhã e eles tentaram deixar isso de lado, "Mas juro que não tem anda de errado com aquele quarto."

Isso foi repetido em torno da mesa pelos adultos até que Sam, que fala muito pouco, falou para deixarmos aquilo para lá. 

"Ele estava lá," Jack sussurrou baixinho entre os dentes enquanto eu acariciava seus cabelos. 

Menininhos e suas grandes imaginações. 

Terminamos nossa refeição e Caleb, Gus e Ruby levaram os meninos para o lago enquanto mamãe, papai e eu ficamos na cabana para limpar tudo antes de irmos nos juntar com todo o resto do pessoal. 

Enquanto meus pais arrumavam a cozinha, fui para o quarto dos meninos fazer as camas e recolher algumas roupas sujas que estavam espalhadas pelo chão. Enquanto pegava uma camiseta de pijama das tartarugas ninjas, me peguei olhando para o canto do quarto, o rosto apavorado de Jack ainda vívido na minha mente, e fiquei imaginando o que exatamente ele havia visto. 

Então, notei algumas marcas escuras em espiral no chão de madeira diretamente no pé da cama de Sam e Ben. 

Estranho
, pensei, essas marcas parecem idênticas com as do canto do quarto. 

Mas fazendo um escaneamento breve do chão do quarto, vi que não haviam outras marcas como aquela. Fiquei confusa e percebi uma sensação estranha descendo pela minha nuca. Obviamente, eu devia ter visto aquelas marcas no pé da cama, mas como estava tão focada no canto do quarto, devo ter achado que era lá que as tinha visto. Bom, eu não tinha como culpar Jack de ter uma grande imaginação, pois aparentemente era de mim que havia puxado aquilo. 

As conversas quem vinham da rua iam ficando cada vez mais altas e agitadas, o que indicava que a maior parte da família já estava acordada, então terminei rapidamente o que tinha que fazer e fui para rua para desfrutar de suas companhias. 

Passei boa parte da manhã boiando em uma hidro com minhas primas enquanto Caleb conversava com outras pessoas. Jack estava um tanto mal-humorado desde que acordara e ficou pela beira do lago com seu avô, que tentava ensina-lo a pescar. 

Quando minha prima começou a abordar os perigosos tópicos políticos com sugestões de que aquela conversa iria de mal para pior, pedi licença e fui andando em direção do lago. 

"Não era muito grande," Jack falava enquanto eu me aproximava deles. Ele estava sentado no colo o avô e apontou para o peito dele. "Ele batia mais ou menos aqui em você. E era preto e gordo e tinha braços compridos e dedos compridos também, e não tinha pés, como se, como se tivesse derretido, tipo as velas da mamãe depois de acesas um tempo, e daí tinha que ficar se apoiado nas mãos e tinha uma cara feia e uma boca pequenininha, mas eu podia ver muitos e muitos dentes, e tinha tipo todos aqueles olhos. Você já viu olhos de aranha? Era bem parecido." 

"Parece muito assustador," meu pai falou quando Jack deu uma pausa para respirar. 

"Por favor, me diz que você não está encorajando isso, pai." Falei, surgindo de trás deles. 

"Só estou deixando ele me contar o que viu," me falou, sereno. 

"Mas você sabe que não era real, não é mesmo, Jack?"

Me ajoelhei perto deles e Jack me olhou de canto de olho, um olhar de uma irritação infantil dessensibilizada que ele havia aperfeiçoado com os anos.

"Eu vi sim, mamãe!" Ele insistiu amimadamente. 

Não havia nada que o fizesse mudar de ideia e sua história permaneceu inalterada, não importava quantas vezes contou para todos, o que na verdade era bastante impressionante para aquele garotinho de seis anos que sempre tivera dificuldade de manter suas histórias de mentirinha consistentes. Depois de ouvi-lo contando pela milésima vez, eu já estava começando a sentir aquela sensação estranha me descer pela nuca novamente. 

Naquela noite, não havia chance nenhuma de fazê-lo pisar no bendito quarto. Nem mesmo seus primos conseguiram convencê-lo que estava tudo bem (embora fosse difícil de acreditar, sendo que ambos optaram por dormir no sofá novamente).

Peguei sua mochila de rodinhas e quando entramos no nosso quarto expliquei que, quando voltássemos para casa, tudo voltaria como era antes. Ele não dormiria mais na cama do papai e da mamãe. Concordou prontamente, embora eu ache que ele concordaria com qualquer coisa naquele momento, desde que isso significasse que poderia dormir conosco. Durante toda a noite, até a hora de dormir, ficou colado a mim ou a seu pai e se recusou a fazer qualquer coisa sozinho, incluindo ir fazer cocô. 

Eu ficava basicamente aliviada quando as luzes se apagava e finalmente podíamos dormir. No dia seguinte nós arrumaríamos as coisas e voltaríamos para casa e tudo estaria certo de novo.

O grito de Sam nos acordou um pouco depois da meia noite.

Nós pretendíamos apenas ignorar, sendo que Ruby acudiria seu filho, que provavelmente tinha apenas tido um pesadelo por causa dos contos de Jack, então apenas rolamos para o outro lado e voltamos a dormir. 

O grito de Ruby logo a seguir nos tirou da cama em um pulo. 

Um cheiro parecido com o de cobre quente nos atingiu assim que abrimos a porta. Minha irmã estava encolhida ao lado do sofá, fazendo sons estranhos e profundos com a garganta, a mão junto do peito. Era difícil ver alguma coisa apenas com a luz fraca do abajur de mesa que alguém ligara. 

"O que aconteceu? Cadê ele? "Gus segurava Sam pelos ombros na outra extremidade do sofá e estava balançando o menino bruscamente. A cada palavra ouvíamos sua voz falhada, bruta e dolorosa.

Sam estava apenas o encarando, seu rosto branco como uma folha de papel, sem entender seu próprio estado de choque.

"O que está acontecendo?" Meus pais vieram do quarto e mamãe pressionou o interruptor para acender as luzes de teto.

Ruby estava ajoelhada em uma poça vermelha. Sua camisola tinha sido mergulhada e manchada até a altura das pernas, mas ela não parecia notar. Toda sua atenção estava voltada na camisa ensanguentada e rasgada em suas mãos. Eu podia ver o rosto sorridente de uma tartaruga de bandana que espreitava através de seus dedos.

"Ben?" Foi o que consegui perguntar. 

Ruby gritou de novo. 

"Ketie, pegue Jack," Caleb foi o primeiro a conseguir a sair do transe de horror que tinha parado todos nós no tempo. "Gus, solte o Sam." 

O mundo parecia se inclinar e girar loucamente ao meu redor enquanto eu pegava Jack nos braços. As pessoas estavam andando e gritando e tentando descobrir o que tinha acontecido, mas não conseguia entender aquilo, tudo era apenas barulho, confusão e um terror doentio. 

Eu nem havia reparado que Jack se contorcia nos meus braços e tentava chamar minha atenção. 

"Mamãe!" Finalmente gritou, puxando bruscamente a gola da minha camisola.

Eu olhei para ele com uma expressão tonta, quase incapaz de responder. 

"Hã?"

"Ele está aqui!"

"Que?"

"O feio!"

"Agora não, Jack," falei mais ríspida do que pretendia, mas isso não o intimidou. 

"Está lá no canto, mamãe," falou gesticulando para a sala, logo atrás de Gus e Sam. 

"Jack-"

"A cara dele está toda vermelha, mãe," Jack sussurrou temerosamente no meu ouvido, "ele está mastigando alguma coisa."

Segui o olhar do meu filho, passando meus pais, que estavam tentando segurar Ruby, além do meu marido, que estava tirando as mãos de Gus que apertavam o filho. 

Não havia nada ali, como achei que não teria.

Vazio, com exceto pelas familiares marcas escuras em espiral no chão de madeira que tenho certeza que estava no quarto dos meninos na noite anterior. Marcas que tenho certeza que agora não estão mais lá. 
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 ¹ Vale lembrar que o verão nos EUA é no inverno aqui no Brasil



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23/07/2017

Eisoptrofobia

Quando eu tinha nove anos, desenvolvi uma fobia classificada como rara, segundo os médicos informaram meus pais. Eisoptrofobia é o medo de espelhos, ou melhor, ver seu próprio reflexo em um espelho. Poucas pessoas hoje em dia e com essa idade não gostam de se ver. O narcisismo é bem mais comum, e as fotos no espelho estão aí para provar. Entretanto, para mim, começo a entrar em estado de pânico se me vejo até pelo canto do olho em um espelho. Quando mais nova, meus pais diminuíram esse medo cobrindo ou pintando quaisquer superfícies refletoras para que eu não me visse por acidente. Fui educada em casa. Qualquer evento fora era evitado. Fizeram de tudo para que eu ficasse a salvo do meu maior medo. Ano passado eu me mudei. Trabalho em casa, o que é perfeito para mim. Adoro ter meu próprio lar com nada que possa refletir minha própria imagem. E estou muito feliz que meus pais agora podem ter de volta um senso de normalidade em suas vidas. 
Comecei a me consultar com um novo terapeuta. Quero superar esse meu medo. Dr. Franks usa um tipo de método que chama de "imersão agressiva". Você supera seu medo enfrentando-o. Isso, para mim, soava como a melhor ideia possível. Se eu pudesse confrontar o meu medo, logo o superaria. Antes de começar a conversar com Dr. Franks, eu não conseguia me lembrar como minha fobia começara. A Eisoptrophobia pode iniciar na infância ou ser desperta por um evento traumático. Eu não me lembrava de nenhum trauma relacionado a isso até que começamos a discutir meu passado. Meus pais nunca haviam me falado como aquilo começara, só que simplesmente aconteceu. Mas me lembrei quando Dr. Franks começou a fazer perguntas. 
Eu tinha nove anos, isso eu sei. Me lembro de estar fazendo alongamentos na aula de ballet na frente de um espelho enorme, me observando vestida com leggings de oncinha e tutu rosa. Me lembro da apresentação, minhas colegas e eu dançando para nossos pais. Me lembro das meninas na minha casa, enquanto ainda vestíamos os tutus e sapatilhas de ballet. Me lembro do meu irmão tentando nos assustar e fazendo caretas. Me lembro de ficar na frente de um espelho segurando uma velha, pois minhas amigas tinham me desafiado. Me lembro de estar repetindo uma frase no banheiro escuro, vendo meu rosto no reflexo do espelho. Lembro do meu irmão pulando da banheira para me assustar. Mas não foi isso que me assustou. Era algo no espelho. Meu rosto estava mudando. Era o som de uma mulher rindo. 
Dr. Franks diminuiu o ritmo da sessão depois disso. Mas ontem, quando entrei em seu consultório, ele estava escuro e com uma cadeira no meio da sala. Me guiou até a cadeira e pediu para que eu sentasse olhando para o chão. Fiz o que pediu. Saiu da sala e voltou com um espelho de corpo todo. Me levantei, pronta para fugir. Ele me acalmou e me sentei novamente. Colocou o espelho na minha frente. Fechei os olhos e senti aquele pânico familiar se instalando no meu peito. As palmas das minhas mãos estavam suando, um gosto ácido subia pela minha garganta. Meu coração batia tão rápido que eu podia senti-lo nos meus tímpanos. Queria correr, ou vomitar, ou os dois ao mesmo tempo. 
"Abra seus olhos, comece olhando para seus pés," Dr. Franks falou.
Isso era o que eu queria, tentei lembrar a mim mesma. Confrontar meus medos. Abri meus olhos e me concentrei nos meus pés. Mudei o meu olhar do reflexo para os meus pés reais, que eram os mesmos, só apenas mais visíveis. Me senti um pouco mais calma. Levantei o olhar até meus joelhos no reflexo. Minha pulsação aumentou um pouco, mas estava sendo forte. Movi o olhar até meu peito, olhando rapidamente para minhas mãos que estavam agarradas aos braços da cadeira como se minha vida dependesse disso. Meu estômago se revirou com a ideia de olhar para o meu rosto pela primeira vez em mais de uma década. Mas eu parecia normal. Fiz algumas caretas, meu reflexo me imitando. Tudo estava normal. Dr. Franks estava de pé ao lado do espelho, um sorriso em seu rosto. Fiquei me olhando por alguns minutos, o pânico sumindo. Achei que ali estava marcado o fim da minha Eisoptrofobia.
A secretária do doutor abriu a porta atrás de mim para fazer uma pergunta. Foi aí que eu a vi. Ela andava de costas graciosamente, vindo da porta, os braços gesticulando como os de uma bailarina. Passou a secretária e entrou na sala. Eu não podia ver seu rosto, só a parte de trás de sua cabeça. Mas reconheci a roupa. Leggings de oncinha, tutu rosa e sapatilhas de ballet. Ela começou a dançar. Pulava e arcava as costas, saltando para lá e para cá, se aproximando cada vez mais de onde eu estava sentada. Dr. Franks e sua secretária estavam engajados na conversa, nem se quer notaram a garota que entrara na sala ou o pânico que crescia em mim. Consegui juntar forças para me virar e olhar para trás, mas não havia nada lá. Apenas a secretária de pé na porta do consultório. Me virei de novo para o espelho e ela ainda estava lá, dançando em minha direção. Me levantei em um pulo e sai correndo da sala. Corri pela cidade até meu apartamento, evitando olhar para qualquer lugar que fosse espelhada, mas ainda vendo-a dançando nos reflexos que eu não conseguia evitar. 
Assim que estava na segurança da minha casa, respirei fundo, sentindo uma onda de alívio tomar conta de mim. Ela havia me encontrado, isso é certo, mas ali ela não podia me pegar. Me lembrei de muito mais, vê-la fez as lembranças aflorar. Lembro que eu não tinha medo de me ver no espelho, tinha medo de vê-la. Medo do que ela era capaz. Ela estava tentando me invocar novamente. Eu não posso voltar a olhar para o espelho. Eu não posso voltar para o espelho. Essa vida aqui agora é minha.
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21/07/2017

Uma pequena complicação na gestação

No oitavo mês de sua gravidez, minha esposa começou a sofrer de severas complicações, o que a fez passar uma cirurgia de emergência. Quando acordou e contei que a cirurgia tinha sido um sucesso, sua reação me amedrontou mais do que em qualquer outro momento da minha vida. Ela não falou nada, apenas colocou lentamente a mão na barriga. Seus olhos se arregalaram por um momento, e então começou a rir. Uma risada pesada e sem humor; o tipo de risada que vem de uma pessoa que esteve chorando por horas e não tem mais lágrimas, então apenas ri e debocha da própria dor. Tive que impedir um arrepio que descia pela minha espinha e perguntar qual era o problema, mas ela apenas me ignorou.

Ao invés de me responder, começou a gritar; todo o seu corpo tremia enquanto ela berrava a plenos pulmões, arrancando tufos de cabelos e jogando-os no chão. Continuei a perguntar qual era o problema, mas não me respondia. De repente, do nada, parou, e começou a rir novamente e levantou uma mão em direção do teto. Parou por um momento - nossos olhares se encontraram - e então baixou a mão rapidamente e com força, enfiando suas unhas na barriga como se estivesse tentando abri-la. Agarrei e segurei seus pulsos e consegui abaixar suas mãos. Tive que usar os equipamentos de restrição de movimentos para amarra-la contra a cama e contê-la. Uma vez presa, seu corpo parou, como se estivesse fraca demais para se mover. 

Me sentei ao lado de sua cama; conseguia ouvir minha própria voz tremendo enquanto tentava desesperantemente acalmá-la. 

"Está tudo bem, querida. Foi apenas uma complicaçãozinha. Logo teremos nosso filho conosco. Nosso filho. Tudo terá valido a pena." 

Ela se virou lentamente na minha direção. Seus olhos estavam sem vida, sem nem um pingo de humanidade. Começou a sussurrar, a cabeça caída por cima do ombro. Me aproximei para ouvir o que estava me dizendo. Era apenas uma frase repetida várias e várias vezes. 

Tire ele de dentro de mim.

Ela se recusou a falar qualquer palavra pelo resto da semana; as vezes ficava ali deitada, sem se mover, e as vezes ficava gritando e lutando contra as amarras até seus pulsos sangrarem. Eu tentava acalmá-la, dizendo que aquilo era algo bom; trazendo as roupinhas de bebê e suas comidas preferidas, mas nada que eu fazia a acalmava. Finalmente, depois de algumas semanas, as contrações começaram. 

Assim que o bebê saiu, ficou claro que tinha algo de muito errado. O fedor era horrível, um cheiro de doença, doce e nauseante - mas isso não era nada comparado ao próprio bebê, se é que pode chamá-lo assim. Sua cabeça era enorme, os olhos esbugalhados e vermelhos, a pele preta e rasgada, que se desprendia nas minhas mãos quando eu o tocava. 


Foi por pouco, mas minha mulher sobreviveu ao parto, mesmo que o meu filho não tenha. Pelo menos agora ela parece estar voltando ao normal; mas eu estou piorando. Fico todos os dias revivendo na minha cabeça as coisas horríveis que aconteceram. Partiu meu coração quando ela deu à luz o nosso terceiro filho prematuro, e foi ainda pior quando tive que enfiar à força aqueles compridos em sua boca para que eu pudesse realizar outra cirurgia para colocá-lo de volta lá dentro. O que nós dois precisamos agora é algo para o futuro. Acho que irei contar que já estou pronto para tentar novamente; talvez ela se anime com isso.
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19/07/2017

Minhas últimas palavras

Hey, desculpa se esse post acabar pela metade, eu não tenho tanta certeza quanto tempo me resta. Também peço desculpa por qualquer erro de digitação, estou no celular. Meu nome é John e acho que estou prestes a morrer. 
Estou sendo dramático, talvez eu não morra. Por isso não vou dar muitas informações pessoais, sempre fui cuidadoso com isso. Mesmo assim, acho que vale a pena escrever isso aqui, se realmente for meus últimos momento de vida. Há muitas coisas que ainda quero dizer. 
Estou no momento sentado em uma cabine de banheiro, assustado pra caralho. Estou na escola, escola de verão pra ser mais preciso. Fiquei com D em matemática, não queria refazer a prova, então aqui estou. Que decisão estúpida. Haviam centenas de crianças aqui, estamos todos nos escondendo. Os outros estão nas salas ou sei lá onde, eu estou no banheiro porque estava no corredor quando o anunciamento começou. 
Nossa escola temos treinamentos obrigatórios de segurança, então sei como um alarme de segurança soa. Também nos ensinam os códigos. "Atenção estudantes e funcionários, bloqueio imediato" é um treinamento. Já ouvi desses. E não foi isso que ouvi, o que ouvi hoje, foi apenas o código para se esconder. Eu estava me afastando do bebedouro, quando ouvi. "Atenção, bloqueio - código azul! Bloqueio - código azul!". Enquanto eu viver (espero que até amanhã) espero não precisar ouvir aquela voz de novo. Mesmo através do sistema de som precárias, pude ouvir o pânico em sua voz. Aquilo era real. 
No começo eu não estava totalmente em pânico. Código azul significa apenas se esconder, o que poderia ser apenas um assalto nos arredores da escola. Me escondi no banheiro, pois poderia me meter em encrenca caso não seguisse o procedimento. Foi cerca de um minuto depois que comecei a ouvir os tiros. 

Cresci cercado de armas, sei como são os sons de tiros. Foram três estampidos. Depois gritos. Mais um tiro, então silêncio. O pior é que parecia que estavam vido de dentro da escola, estavam ecoando. Isso mesmo, estou escondido no banheiro enquanto acontece um tiroteio na escola. 

Posso estar errado, mas acho que não. Acho que logo mais você ouvirá sobre isso no noticiário. E estou me escondendo no banheiro. O que você está lendo agora, acredito, é meu último adeus. Agora eu vou ficar com o dedo encima do botão "publicar" e apertar caso eu ache que vá morrer. 

Merda

Mais tiros, e muitos dessa vez. Gritaria. Parece que algumas crianças estão sendo massacradas com armas automáticas. Merda, não sei o que fazer. Achei que estava sendo muito dramático mas agora estou assustado pra caralho, gente. 

Ok estou escrevendo agora um pouco mais rapido pq os tiros estão mais altos, ele pode estar se aproximando. Não sei pelas coisas que vcs já passaram, mas é indescritivel não ter noção se sua vida esta em perigo ou não, ou achar que pode morrer a qualquer segundo

Sempre achei que seria do tipo de pessoa que me jogaria na frente de uma bala para salvar um amigo, mas agora que sinto o medo na pele, foda-se isso. Nãoq uero morrer, que outra pessoa tome os tiros. 

Não quero ver uma arma apontada na minha cara. Não quero ouvir o tiro que sei que me fará morrer. Não quero sentir a bala me atravessandp. Seria apenas dor, dor e mais nada. Não quero sentir isso. 

Você ouve falar sobre tiroteios nos noticiarios e fica com umpouco de medo. Não há nada que possa fazer para se sentir seguro, mas tbm sabe que é quase 99.99% certo q isso nunca aconteça com vc. Pelo menos eu achava isso, como eu estava errrado. 

Eu achava que estava seguro, mas agora não tem nada que eu possa fazer para me defender. Posso morrer hoje aleatoriamente e não há nada que eu possa fazer para parar isso. Todo mundo está em perigo todos os dias em que vivem. 

Outro tiro, muito mais perto que os outros. Agora estououvindo passos. Estou com muito medo. Tenho 17 anos, é tão injusto. Todo mundo vai ter vida s sãs e salvas e pra mim ja era. Eu não nerreço essa porra

os passos estao se aproximando. muito. eu vou morrer agora

merda eu quero viver, não quero morrer hoje

eu naõ quero morrer por favor 

por favor deus me aj

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

N.T: Os erros ortográficos apresentados nesse conto foram propositais para dar mais veracidade ao mesmo. 


14/07/2017

A regra da cidade

Meu avô me contou uma história que seu pai tinha contado para ele. Quando menino morava em uma cidade litorânea. Não me falou onde ficava ou qual cidade era, mas imagino que fosse uma típica cidade pequena com casas pitorescas e ruas de paralelepípedo. 
Os moradores locais tinham uma regra que impunham em si mesmo, nos visitantes (apesar de que não se tratava de um vilarejo turístico; não havia muitas pessoas que ficavam lá até depois do pôr-do-sol) e novos moradores. Você não podia falar fora de casa depois do anoitecer. Para ser mais especifico, nenhum tipo de vocalização. Nenhum. Nem um sussurro se quer. A maioria nem se quer se atrevia a sair de casa depois do sol sumir do céu.
E toda noite as pessoas checavam diversas vezes suas portas e janelas para ter certeza de que estavam bem trancadas. Se tivesse uma vidraça quebrada, teria que cobri-la com tapumes de madeira; Se havia um buraco na parede, qualquer abertura entre o lado de fora e o de dentro, tinha que ser bloqueado. 
Meu bisavô não questionava isso quando menino. É. Acho que se você vive com uma regra desde seu nascimento, você não a questiona - mas toda criança passa por aquela idade onde começa a notar coisas. Entretanto, fico pensando - teria ele algum dia descoberto a verdade se o incidente com os visitantes não tivesse acontecido? Bem. Uma vez, quando meu bisavô tinha mais ou menos uns dez anos, alguns viajantes ficaram vagando por lá mais do que o de costume. 
Se as pessoas não iam embora antes do escurecer, eram expulsos. Às vezes, educadamente no começo, outras de formas mais violentas. Mas essas caras, cinco garotos, eram jovens e tempestuosos, e não gostavam de serem incomodados. 
O pôr-do-sol se aproximava e crianças locais começaram a jogar pedras neles; cegamente na defensiva da pratica de sua cidade natal. Eventualmente o xerife falou para eles que tinham que ir embora. 
Meu biso se lembra da gritaria. Talvez tivessem tomado alguns drinques antes, ou muito mais que "alguns", mas queriam saber especificamente o motivo para não serem bem vindos, se tinham algum problema com eles, quem esses caipiras pensavam que eram, e assim por diante. Eventualmente, a "polícia" local teve que arrastá-los até a divisa da cidade. 
E foi perto da casa do meu bisavô, no final da rua de paralelepípedos, de onde ele e sua irmãzinha assistiram pela janela.
Ele ouviu-os gritando algo, e em um momento de pura estupidez da sua parte, palavras dele e não minhas, tentou abrir uma fresta da janela para poder escutá-los melhor. Ele nunca havia ouvido tais tons, por conta de como a cidade racionava suas palavras. 
Por sorte, sua mãe o parou e tirou-os de perto da janela. 
Naquela noite, meu biso se levantou várias vezes para espirar através das cortinas. Sua irmã, mãe, pai e tio estavam dormindo pesadamente nesses momentos. Contou para meu avô que uma estranha animação, misturada com pavor, tomou conta dele naquela noite. Acho que deve ser como ficar conferindo seu celular enquanto espera uma mensagem específica, mas com muito mais medo envolvido. Então, no começo da manhã, mas antes do sol nascer, ele viu os cinco homens vagando pelas ruas. 
Estavam gritando uns com os outros, talvez ainda meio bêbados ou só agindo como os arruaceiros que eram. Meu bisavô observou e esperou. Espero que algum tipo de bicho-papão chegasse e arrastasse-os para longe.
Mal ele sabia que o que cada aldeão temia já havia de fato acontecido. Já haviam desaparecido. 
Eventualmente, desapontado, finalmente foi se deitar e dormir pelo resto do que sobrava da noite. Até que um som de batida alto o acordou no começo da manhã. 
Seu tio foi até a porta antes dele. Ali, nos degraus, estava um dos caras da noite anterior, o branco de seus olhos era vermelho, seu rosto em uma expressão de puro pavor enquanto suor pingava de sua testa. Seu tio escancarou a porta e os outros estavam visíveis, tremendo a alguns metros dali na rua. 
Meu bisavô não percebeu até mais tarde que talvez um deles estivesse morto. Lembrava-se da cabeça deste pendendo para o lado enquanto deitado no chão. Uma expressão vazia em seu rosto. Não havia sangue. Não havia machucados. Só palidez. Poderia se passar apenas por um bêbado desacordado. Lembrava-se de como os braços do homem estavam apertados contra o peito, como se estivesse com frio; mesmo que aquela noite tivesse sido bem amena. 
Esse foi o dia em que sua família arrumou suas coisas e foram embora da cidade - enquanto isso o xerife lidava com a figura imóvel no chão da rua, enquanto cercado pelos amigos trêmulos. Levaram poucas coisas; os cinco familiares simplesmente pegaram o essencial e foram o mais longe que podiam. Foi tão rápido que ele nem teve como protestar. Só se lembra de ficar perguntando "Por quê?" repetidamente. 
Só quando já haviam se instalado em sua nova cidade, a uma boa distância de lá, que os adultos finalmente explicaram tudo. 
Não podíamos ir embora sem que alguém tomasse nosso lugar, disseram. Podia perceber pela expressão no rosto dos pais que estes estavam enjoados pela culpa. Mas não podiam deixar escapar aquela chance de fugir. 
Apenas o tio manteve-se firme ao contar a história. Ele não amenizou ou fatos para ele e sua irmã, e os pais não podiam detê-lo dessa vez. Disse, novamente, que ninguém podia sair da cidade sem que outros ficassem em seu lugar. Sempre devia haver o mesmo número de moradores.
Cortou as perguntas da minha tia-bisavó e explicou que aqueles jovens teriam que viver lá agora. E era culpa deles, por não terem seguido os conselhos dos locais. Finalmente, meu bisavô atingiu seu limite de paciência e perguntou o motivo de que ninguém podia falar depois do anoitecer. 
Com uma expressão vazia e fria em seu rosto, o tio falou,
"Existem coisas que acordam durante a noite, que roubam a voz das pessoas. Fazem sem você notar, fazem isso sem serem vistos. Você nem percebe que aconteceu até mais tarde. Pode demorar uma hora. Um dia, ou até uma semana. Eles esperam para usá-la."
"O que acontece?"
"Eles usam sua voz para enganar aqueles que você ama. Podem fingir que são você. Podem usar para entrar em sua casa. Há um para cada pessoa da cidade, e se alguém sai sem um substituto, são seguidos para a outra cidade. Se espalham como pólen. Podem ser qualquer um. O que fizemos é contra as regras. Mas tínhamos que arriscar." 
"Eles mataram aquele homem?"
"Fizeram pior que matar."
Meu bisavô não contou para ninguém onde ficava essa cidade. Às vezes meu avô duvida que de fato existisse. Mas algo o preocupava. 
Havia cinco membros da família; pai, mãe, irmão, irmã e tio. 
Cinco homens ficaram na cidade. 
Mas um deles talvez estivesse morto. 
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 



11/07/2017

A Coisa Embaixo da Paulista - (Final?)


Aos poucos a bola vai se desenrolando, a pele com aparência escamosa e negra parece não parar de se esticar, a cabeça arredondada e as pupilas em fendas verticais revelam por completo que a criatura era uma espécie de serpente mutante de outra dimensão, uma devoradora de mundos.

Sua boca está se abrindo, suas presas são como duas agulhas gigantes, os ratos estão sendo sugados  juntos com seus carros, os vidros dos prédios estão todos se quebrando, alguns prédios estão cedendo... Ela vai engolir tudo.  Não consigo me mover diante de tamanha surrealidade.

Essa coisa já engoliu metade dos prédios e os ratos estão se aglomerando nas tampas de esgoto, é como se estivessem voltando às suas origens e o seu lado animal, assim como os humanos fazem em situações extremas. Parecem bonecos voando em direção a boca da serpente. A cada vez, ela suga com mais força. 

Essa coisa é tão grande que mal dá para ver a luz do sol. Por algum motivo, ela não está me dando importância, é como se ela quisesse que eu assistisse a tudo isso, mas por quê? Já não restam mais prédios, carros e ratos, somente alguns conseguiram ir para o esgoto e continuo aqui, apenas observando as ruínas do lugar que poderia ter sido um novo lar. Preciso voltar antes que essa coisa abra a boca novamente e engula tudo.  

Minhas pernas tiveram um surto de adrenalina e aqui estou, de volta a esse lugar imundo. Preciso continuar correndo, aquela coisa não pode me pegar e sei que ela virá atrás de mim. Ela sentiu o meu cheiro, talvez nunca tenha visto alguém igual a mim por lá: metade humano.

Aqueles ratos estão chorando desesperados, como se realmente tivessem sido humanos a vida toda. Nunca vi nada igual, mas infelizmente, não tenho como ajudá-los, só preciso continuar correndo e tentar sair desse esgoto. A cada distância percorrida, ouço os gritos, mas dessa vez, são os ratos que estão gritando. Aquela coisa está me procurando! Minhas pernas estão começando a cansar, meus músculos se estreitam aos poucos, logo terei uma câimbra e é isso o que ela espera que aconteça.

Nunca corri tão rápido. Bolt teria inveja da minha velocidade. Se meu coração não estivesse acelerado a ponto de enfartar, eu até poderia sentir orgulho de mim mesmo, logo eu, que sempre fui o cara que faltava às aulas de educação física na escola. Já perdi as contas dos  túneis que passei, e não faço ideia de quanto tempo faz que estou correndo, estou exausto. Já faz algum tempo que não ouço mais grito nenhum, apenas o som das minhas patas na água.

Acho que provavelmente vou virar algum tipo de experimento ao sair daqui e me expor, ou alguém armado vai atirar em mim de tanto pavor. Se for para morrer, que seja fora desse lugar, pelo menos. Já consigo ver uma fresta de luz a alguns metros daqui. A liberdade está perto, deve estar escurecendo, a luz está diminuindo. Acho que corri por muitas horas.  Enquanto me aproximo da escada, só penso na reação das pessoas ao verem um ser como eu saindo do esgoto. Isso é o que menos importa para mim nesse momento. Qualquer olhar maldoso não será pior do que estar aqui embaixo.

Uso as forças que sobraram para levantar a tampa. É emocionante  voltar aqui depois de tanto tempo. 

Como eu já imaginava, os carros todos param com seus faróis ligados, estão todos estáticos com olhares focados em uma só direção, mas não estão olhando para mim.. A coisa voltou a gritar. Ela está aqui.  

Autor: Andrey D. Menezes 
Revisão: Gabriela Prado 

Nota do escritor: Espero que tenham gostado! Estou com projetos para o futuro, quem sabe escrever uma antologia, como já disse a vocês. Ser pisciano é complicado kk. Muitos planos, muitos sonhos. Espero que vocês comprem algo meu um dia. Obrigado por cada comentário positivo e negativo também, vocês me ajudam bastante :)
Sobre a creepy: Penso em escrever sobre a origem da criatura futuramente ou dar continuidade à creepy, mas isso vai levar um tempo. Por hora é isso :)