18/08/2017

INFESTATIO


Boa noite espreitadores, mais uma creepypasta de minha autoria. Vou dividi-la em partes, uma a cada sagrada sexta-feira. Quantas? Depende da repercussão, ainda não possui final, apenas um frágil esqueleto. Critiquem, se expressem, confabulem, criem teorias, ridicularizem...

 PARTE - I

Aos poucos a crise realmente mostrou a sua temida face, em minha cidade finalmente o que era apenas mostrado nos noticiários passou a acontecer de fato.

Com as grandes Companhias  caindo uma após uma, o fluxo de famílias provenientes de outros Estados foram as primeiras a saírem, estavam ali pelos empregos que não existiam mais e quase todas elas pagavam aluguel, seguido de famílias oriundas da cidade, aos poucos foram indo embora...

Minha enorme cidade, famosíssima pelos congestionamentos e longas filas em frente ao transporte público foi desafogando e perdendo a diversidade que tanto a tornava linda.

Veja bem, nunca tive oportunidade de estudar, desde os 11 anos me virava sozinha, então sempre trabalhei e lutei para me manter, no meu canto, conseguindo me alimentar e arcar com despesas básicas. Não tive tempo para livros, ensinamentos, doutrinas ou tempo de construir uma base para possuir a tal "mente pensante" ou até mesmo derrubar essa base e construí-la do nada.

Apesar de desconfiada e sempre com um pé atrás eu sou e fui manipulada pela mídia local, oras, era de lá que tirava as minhas instruções...

E diziam na TV para que quem pudesse, que estocasse comida, não fizesse dívidas em cartão de crédito, não comprasse nada em prestações etc. Apontavam que se hoje o quilo da batata gira em torno de R$ 2,50, amanhã poderia chegar a R$ 22,00.

Calculei com ajuda de um aplicativo o quanto precisaria ter de comida se ficasse desempregada nos próximos 4 ou 6 meses... E foi o que fiz. Gastei minha rescisão contratual em comida, apenas almoçava para passar o dia inteiro procurando por uma nova oportunidade de trabalho.

As ruas estavam vazias, serviços como táxi, uber, food delivery, lava carros, entre outros praticamente não existiam mais. Haviam baratas, ratos, morcegos e tudo quanto é tipo de praga à vontade por aí. A população de animais de rua caiu drasticamente assim como os moradores de rua também (não estou os colocando como "animais" que fique claro).

A criminalidade aumentou, porém dois sacos de feijão e um de arroz valiam mais que um ótimo smartphone, era precário...

Eis que no dia 1º de Outubro de 2017 tudo mudou, a solução caiu do céu!

Com os imóveis totalmente desvalorizados ficou fácil para que a Corporação Infestatio montasse sua enorme base em minha cidade, gerando milhares de novos empregos.

Minha reserva alimentícia se encontrava em pouco menos da metade do que havia comprado, me custou 7kg, mas no final as coisas se acertaram, consegui um novo emprego, assim como praticamente todos a quem eu conhecia.

A Infestatio se aproveitou das reformas instauradas pelo governo e se aproveitou também da patética situação da prole trabalhadora, passávamos praticamente 14 horas em atividade, sobrava tempo apenas para voltar pra casa, tomar um banho, comer alguma coisa, dormir pouco e enfiar a cara no trabalho novamente.

Quanto as normas de segurança, quanto a insalubridade, periculosidade e riscos... A Companhia tinha praticamente uma livre autonomia, não havia fiscalização e se houvesse uma entidade regulamentadora empenhada, provavelmente deixariam a cidade da maneira em que se encontrava a poucos meses atrás.

Eu achava "engraçado" passar tantas horas produzindo um tipo de veneno inseticida, do qual não consumia, do qual ia pouco ao mercado para vê-lo em prateleiras ou até mesmo ter tempo para contemplar esses insetos e pragas em meus dois "luxuosos" dois cômodos.

Chegamos em uma época em que a Infestatio era a maior empregadora do país, segundo a Forbes foi a empresa de toda a história que atingiu a maior ascensão em tão pouco tempo. Essa explicação se dá devido ao regime praticamente escravocrata que somos submetidas, enfim...

Adequada ao racionamento que praticava a um ano e meio atrás na época que veio a ter o nome de "Grande Escassa" somado com a longa jornada de trabalho e minha falta de apetite devido a náusea e enjoo constantes que sentia com a mistura dos produtos químicos, passei a comer bem pouco. Quando terminava meu turno e visitava o mercado eu sempre tinha o ímpeto de gastar muito em produtos  alimentícios, mesmo sem consumi-los devidamente.

Foi aí então que me dei conta... Pra onde ia toda a minha comida??? Eu não jogava fora, não doava, não consumia... Alguém entrava em casa e levava?

Passei o turno inteiro pensando nisso, na hora da pausa convidei Marta a ir ao mercado comigo após o expediente, ela topou de imediato dizendo que : " Havia muita coisa que precisava comprar pra casa". Ela também era solteira e sem filhos...

O turno dela terminava uma hora antes do meu, então decidi dar uma voltinha em torno da fábrica para dar uma observada... Não haviam mais carrinhos de cachorro-quente, pipoca, trailers, lanchonetes, algodão-doce, crepes nem nada... Haviam máquinas de snacks, salgadinhos, conservas, nada que fosse preparado na hora, pra consumo imediato.

Sentei-me no meio-fio e fiquei encarando uma barra de chocolate por extensos 7 minutos sem ter a menor vontade de abri-la. Quase dois anos atrás esse artigo poderia ser motivo suficiente para um brutal assassinato, digo sem exageros pois fui sortuda de ter sobrevivido com folga a Grande Escassa, muita gente morreu de fome ou sobreviveram em condições de extrema carência em boa parte do continente.

Subi no carro e fui observando pela janela as ruas, extremamente LIMPAS, não era nem sombra do que a cidade já foi, sem embalagens pet, restos de bolacha, pacotinhos rasgados de salgadinhos, papéis de bala... nada...

Não queria influencia-la, apenas olharia... Marta encheu seu carrinho de comida, a cada passada de mão com seus finíssimos dedos nas prateleiras ela comentava algo como "você deveria levar um também, esse é gostoso, olha que barato, não vai precisar?, está em promoção..."

Após chegarmos, descarregarmos todas a compras e nos sentarmos eu perguntei :
- Não vamos comer nada, Marta?
ela respondeu : - Olha Veronica, agora não estou com fome, você está?
Fiz que sim com a cabeça e disse : - Por favor, ligue seu laptop pra mim?

E fui até seu armário, geladeira, dispensa e lixos...

Perguntei se podia usar o cartão de crédito dela, disse que tudo bem, já me fornecendo os dados e a senha.  Comentei com ela as minhas ideias, logo de cara as refutou e me tomou como louca.
Tirei a fatura de seu cartão de crédito e me sentei ao lado dela com um marca-texto púrpura e fui "pintando" praticamente toda a folha impressa.

Ela se levantou foi até seu armário, geladeira, dispensa e lixos...

Me olhou e como uma criança de quatro anos que gostaria de entender como "uma hora" funciona, com seus sessenta minutos e seus três ponteirinhos num relógio qualquer, questionou o que eu já esperava: "Cadê a minha comida???"









16/08/2017

Ela disse que o cheiro da morte a excita

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE (EROTISMO/CONTEÚDO SEXUAL).
NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 

Apresento para você as melhores coisas da vida:

Amor, Sexo e liberdade. 

Essa é uma história sobre a segunda coisa na minha lista, mas a primeira também aparece brevemente. 

O nome dela era Marla e parecia uma obra de arte. Não como uma estátua Grega; mais como uma boneca sexual ultrarrealista. Isso pode parecer uma ofensa, mas não é. Marla não era perfeita, mas era a versão perfeita do que era. Na vida, isso é o máximo que uma pessoa pode desejar ser.

A primeira vez que a vi, estava fumando um cigarro do lado de fora do prédio da nossa faculdade, parecendo totalmente entediada com a vida. 

"Estou sem," Anunciou para ninguém em particular quando terminou de fumar. Olhou para mim de cima a baixo como se analisasse um carro à venda. 

"Chupo seu pau por um cigarro," Falou. 

Tossi tanto que quase engoli inteiro o que eu acabara de acender. Dei um para ela, naturalmente. Mais tarde naquela noite, depois de chupar meu pau, ela enfiou a mão dentro da bolsa e pegou uma carteira cheia de cigarros. Era simplesmente assim. Nunca entendi Marla totalmente, só ficava feliz por poder acompanhá-la naquela jornada. Então quando descobri que ela nem sequer estudava naquela faculdade, não sei porque fiquei surpreso. Mas fiquei. 

"Eu não entendo." Falei. "Porque você fica por aqui?"

Ela deu de ombros. 

"Mas-" Fui interrompido quando uma unha comprida deslizou pela parte da frente das minhas calças e ela foi se ajoelhando lentamente. Quando Marla não estava afim de falar sobre algum assunto, fazia questão de ficar com a boca ocupada. E Marla não gostava muito de falar. 

Se eu passava um dia inteiro com ela, no final da noite o meu pau tinha mais batom do que nos lábios de uma adolescente insegura. 
Mas o jeito mais fácil para o coração de um homem, também é o mesmo jeito de fazê-lo perder metade de suas células cerebrais. Consequentemente, acabei perdendo muitos sinais vermelhos que devia ter notado sobre Marla. 

Por exemplo, como eu nunca vi ela comendo. Ela sempre tinha acabado de comer, ou estava se sentindo cheia. 

Ou que nunca dormia. Quando passava a noite lá em casa depois de termos trepado a tarde inteira, ficava apenas deitada na cama olhando para o teto. Eu acordava no meio da noite e a encontrava me encarando, com um olhar que se assemelhava muito com o de uma pessoa faminta. 

Me convenci que havia algo de errado com Marla no dia em que encontrei sua carteira de motorista. Deslizou para fora de sua bolsa quando a jogou com displicência na mesa da cozinha. 

Era uma foto de Marla, uma foto que parecia ter sido tirada ontem, mas a data de emissão do documento ela de 1979. Como alguém podia não envelhecer uma ruga em 30 anos?
Me pegou olhando e arrancou das minhas mãos. 

"Gostou da minha carteira falsa?" Perguntou, jogando o cabelo e passando a mão no meu peito. 

"Marla, como- oh."

Ela me empurrou com força e quando vi estávamos transando em cima da mesa. 

"Você é um filho da puta doente, sabia?" Sussurrou no meu ouvido, seus quadris se mexendo -se ritmicamente em círculos. 

Eu já havia esquecido sobre a carteira de motorista. 

Estávamos juntos faziam seis meses quando as coisas começaram a se revelar. 

"Marla," Comecei, enquanto ela quicava no meu colo, "Somos exclusivos?"

E então um barulho de estalo quando desgrudou a boca da minha. 

"Por que?" Perguntou. "Você quer transar com outras garotas?"

"Que? Não, eu só queria saber se eu sou o único que você está..."

"Fodendo?"

"Sim, fodendo."

"Sim." Falou enquanto deslizava os seus lábios pelo meu peito até chegar perto da minha cintura. 

"Então aonde você vai o tempo todo?" Perguntei. 

Ela parou e olhou para mim. 

"Tenho coisas para fazer." Disse secamente. 

"Que coisas?"

"Coisas." Falou monotonamente. "Você quer que eu termine ou não?"

"Ah, uh, sim."

Marla sorriu diabolicamente e sua cabeça começou a se mexer para frente e para trás com um incrível vigor. 

Eu sei que não devia ter seguido Marla, devia ter ficado feliz em estar tendo meu pau chupado com frequência. Mas as vezes a curiosidade obscurece nosso bom senso. Bem, minha curiosidade quase me matou.

O primeiro lugar no qual a segui foi ao banheiro. Ela foi em um privado para pessoas com deficiência física em um museu de arte, e ouvi a tranca ser fechada. Então, através da porta, o inconfundível som de vômito e logo depois o de descarga. Marla era bulímica? Não parecia ser algo que se encaixava na Marla que eu conhecia. 

Me escondi atrás de uma viga e depois que ela saiu, entrei no banheiro para investigar. Ela tinha conseguido acertar a maioria no vaso, mas por volta da borda haviam pequenas gotas de sangue na porcelana branca. 

Mas que porra é essa? Pensei. 

Então Marla foi para o hospital. A segui enquanto ela visitava dúzias de pacientes, a maioria em leito de morte. Depois de cada visita, encontrava um banheiro vazio e vomitava. Todas as vezes eu encontrava gotículas de sangue na tampa. Comecei a me preocupar com seu estado de saúde. Não me parecia concebível que alguém vomitasse toda aquela quantidade de sangue e continuasse vivo. 

Finalmente, segui Marla até um beco deserto. 

O que diabos ela está fazendo aqui? Pensei.

Mas ela só ficou parada lá, sem se mover. E então-

"Eu sei que você vem me seguindo." Disse. "Pode sair de trás dessa parede."

Dei um passo para o lado e ela se virou para me encarar. 

"Como descobriu?"

"Posso sentir seu cheiro, babaca." 

"Meu cheiro?"

"Ah, sim. Consigo sentir seu cheiro a quilômetros de distância. Foi assim que te encontrei. Acha mesmo que não posso senti-lo quando está atrás de mim?"

Dei uma fungada no meu sovaco. Eu não estava fedendo. 

"Do que você está falando?" Perguntei. 

"Você cheira como a morte." Falou, me encarando com olhos famintos. "Você é um filho da puta doente." 

"Você não está fazendo sentido nenhum. Sou eu mesmo o doente?"

Marla deu de ombros. 

"Consulte com um médico. Porque eu ligaria?"

"Que?" 

"Você não entendeu ainda? Estou me alimentando da sua doença. É o que eu faço."

É obvio que ela havia enlouquecido. 

Nos separamos depois disso, mas algo ainda ficou preso na minha mente. Será que eu realmente estava doente? Fui ao médico só para tirar esse peso da consciência. Quando meus exames de sangue voltaram, recebi uma ligação urgente para fazer uma nova marcação o mais rápido possível. Nesta consulta descobri que, por estimativa, eu já devia estar morto a mais de três meses. Uma ressonância magnética revelou que o câncer, um tipo raro e agressivo, havia se espalhado por todo meu corpo. Poucos dias depois eu já não conseguia andar nem me levantar. Estava por um fio. 
Liguei para Marla, apenas para me despedir. Comecei a dizer em qual hospital estava, mas ela me cortou. 

"Eu sei bem onde você está." Falou. "Posso sentir seu cheiro." 

Chegou lá cinco minutos depois, em ponto. Puxou as cortinas privativas do meu leito para o lado e foi tirando minhas calças. Fiquei feliz por seu entusiasmo em me ver, mas sabia que não havia jeito nenhum de que pudesse ficar de pau duro. Nossa, como eu estava errado; logo sua cabeça estava indo para cima e para baixo na minha virilha. Cai no sono depois, como sempre. Acordei com o barulho de vomito e de descarga, e me sentia cem por cento melhor. 

Marla voltou do banheiro e sentou no pé da minha cama, retocando o batom. 

"A maioria dos vampiros rouba vida." Explicou. "Eu roubo a doença. Mas tenho que me livrar das partes ruins. É aí que a parte do vômito entra." 

"Não consigo entender." Falei. "Você pode me manter vivo chupando... meu pau?"

"Que?" Falou em tom de surpresa. "Não, claro que não. Eu chupo a doença do seu sangue enquanto você dorme. Eu só chupo seu pau porque o cheiro da morte me deixa excitada." 

"Ah..."

"É..." Marla olhou para o teto. "Quer um cigarro?"

"Quero." 

Estou com Marla desde então, e deixamos todos os médicos de lado. Ela jamais envelheceu um dia e eu ainda não morri. Me formei na faculdade, nos casamos e nos mudamos para um pequeno apartamento perto de um hospital, onde ela faz algumas visitas para se alimentar. 

Antigamente eu achava que só existiam três melhores coisas na vida, mas acabei descobrindo que existe mais uma: Marla. 


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


15/08/2017

Relâmpago

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE .

NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 

Nós tínhamos acabado de nos mudar para uma casa de fazenda nos subúrbios. Um bairro digno de livro de histórias - vizinhos amigáveis, silenciosos, cercas de piquete e tudo mais. Basta dizer que isso deveria ser um novo começo para mim, um pai solteiro e meu filho de três anos. Um bom lugar para deixar o drama e estresse do ano anterior no passado.

Vi a tempestade como uma metáfora para este novo começo: um último show de teatro antes da sujeira do ano passado ser lavada. Meu filho adorou mesmo assim, mesmo tendo sido tão intensa. Foi a primeira grande tempestade que viu na vida. Flashes de relâmpagos inundaram os quartos vazios de nossa casa, transmitindo caixas descompactadas com longas sombras rastejantes nas paredes, e ele pulava e gritava quando os trovões rugiam. Já tinha passado da hora de dormir quando ele finalmente se sentiu confortável para ir pra cama.

Na manhã seguinte, encontrei-o acordado na cama e sorrindo. "Eu assisti o relâmpago da minha janela!", Anunciou com orgulho.

Algumas manhãs depois, me disse o mesmo. "Você é bobo", falei. "Não houve tempestade na noite passada, você estava sonhando!" "Oh..." Ele pareceu um tanto desanimado. Afaguei-lhe os cabelos e disse para não se preocupar, deveria haver outra tempestade em breve.

Então, tornou-se um padrão. Me contava como assistia o relâmpago ao lado da janela pelo menos duas vezes por semana, apesar de não haver tempestades. Sonhos recorrentes daquela primeira tempestade memorável, imaginei.

É fácil me odiar em retrospectiva. Todo mundo me assegura que não havia nada que eu pudesse ter feito, de jeito nenhum que eu pudesse saber. Mas eu deveria ser o protetor do meu filho, e essas são palavras inúteis de conforto. Revivo constantemente naquela manhã: fazendo meu café, despejando leite sobre meu cereal e pegando o jornal para ler sobre o pedófilo, as autoridades locais tinham acabado de prendê-lo. Era coisa de primeira página. Aparentemente, esse cara selecionava uma criança-alvo (geralmente um menino), vigiava sua casa por um tempo e tirava fotos instantâneas deles através da janela enquanto dormiam. Às vezes fazia mais. Meu estômago se embrulhou quando a conexão em minha cabeça foi feita.

Na época, era apenas algo da imaginação de uma criança. Em retrospectiva, é a coisa mais assustadora que já ouvi. Cerca de uma semana antes que o predador fosse pego, meu filho veio até mim usando seus pijamas. "Adivinha?", Perguntou ele.

"O que?"

"Não tem mais relâmpagos na minha janela!"

Eu entrei na dele. "Oh, isso é legal, ele finalmente foi embora, hein?"

"Não! Agora está no meu armário!"

Ainda não vi as fotos que a polícia coletou.

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


14/08/2017

É só minha casa



Eu realmente não sei como começar esta história. Eu nunca fui do tipo escritor. Nunca o criativo ou artístico. Então me desculpo previamente pela minha falta de técnica. Sou um homem prático. Lógico, pragmático. De qualquer forma, eventos recentes me fizeram questionar esses fatos, e subsequentemente minha sanidade.

Apesar da minha escassez de talento literário, minha irmã é praticamente o contrário. Ela é repórter, tendo escrito para vários jornais do nosso estado natal, Ohio. Recentemente, ela conseguiu um emprego no Alasca e precisou de ajuda para transportar seus pertences para lá. Nós enchemos o porta-malas do seu Volkswagen com tudo o que pudemos e pegamos estrada. A viagem inteira pareceu surreal, tudo correu muito bem, sem nenhum problema sequer. Imagine, 4800km de estrada que passaram perfeitamente. Quando digo perfeitamente, não estou exagerando. Chegamos aqui em 4 dias. Encontramos hotéis que aceitassem gatos de imediato (trouxemos os dois gatos dela). Só vimos um policial a viagem inteira! Sem tráfego e clima agradável. Foi inacreditável.

Depois da viagem tranquila de carro e uma longa travessia de balsa, chegamos na casa dela nas primeiras horas da manhã. Como eu começo a descrever a casa? Isolada? É no meio de uma floresta nacional, sem vizinhos por quilômetros. Eu nunca tinha visto as estrelas tão claramente como vi naquela noite. É uma casa simples, um quarto e um banheiro. Tem uma pequena cozinha, uma sala de jantar e uma varanda na frente que animou minha irmã para relaxar nela. Estando tão exausta, ela decidiu ir dormir assim que chegamos. A casa estava completamente vazia, exceto por nossos computadores, um colchão de ar e comida. Minha irmã encheu o colchão em seu quarto e rapidamente adormeceu.

Algumas horas depois, me lembro de estar jogado no chão da sala de estar, com alguns travesseiros e cobertores embaixo de mim por algum conforto mínimo. Lembro de estar deitado, navegando no Reddit e ocasionalmente olhei para a lua através da janela. Enquanto lia possíveis soluções para o Paradoxo de Fermi, escutei o que só posso descrever como estática. Era quase como uma rádio fora do ar, estalando por aí. Estava vindo de fora da casa, do lado esquerdo, o lado da janela. Cheio de curiosidade, me levantei e me aproximei da parede. O barulho sumiu quando cheguei. Olhei para fora e não havia nada. Silêncio. Presumi que era culpa do meu cansaço, por não ter dormido. Nós estivemos na estrada por um longo tempo.

No dia seguinte, acordamos cedo e decidimos fazer turismos. Fomos em um passeio de bote e vimos águias e baleia. Almoçamos em um restaurante local e fizemos muitas compras. Foi um dia incrível. Voltamos para a casa dela (a alguns quilômetros da cidade) de tarde e resolvemos assistir ao último episódio de Game Of Thrones. Depois de uma hora de televisão, fizemos o jantar. Acabamos por comer um espaguete pré-cozido com molho de tomate. Delícia! Depois da nossa “festa”, minha irmã resolveu desmaiar. Ela se arrastou até seu colchão de ar e dormiu quase instantaneamente, para não perder o costume.

Nem uma hora depois que ela dormiu, escutei o familiar barulho de estática vindo do exterior de novo. Muito mais alto dessa vez. Pareciam haver pequenos murmúrios nela. Eu pulei e corri até a janela, só para ouvi-la desaparecer. Determinado a encontrar a fonte do ruído, calcei meus sapatos e agarrei uma lanterna. Evitando acordar minha irmã, saí pela porta da frente o mais quieto possível.
Então lá estava eu.  No breu, com uma lanterna, andando por fora da casa no meio do nada, procurando por um inexplicável barulho de estática. Depois, talvez uns 15 minutos de procura inútil, perdi as perdi as esperanças de saciar minha curiosidade. Antes de voltar para dentro e continuar minha pesquisa na internet, resolvi fumar um pouco de maconha. É legalizada no Alasca, e como eu disse, fizemos turismo aquele dia. Parado na varanda de madeira, fumando por prazer, observando as estrelas claras como nunca... E eu ouvi.

A estática! Estava vindo do outro lado da casa! Liguei minha lanterna e corri o mais rápido que pude, permanecendo próximo às paredes. Chegando aos fundos, ouvi a estática claramente, originada na densa floresta. Desliguei a lanterna e tentei focar apenas no barulho. Enquanto eu estava atentamente escutando e focando na fileira de árvores, vi uma fraca luz vermelha. Uma pequena, pulsante luz vermelha. Não mais que 30 metros dentro da floresta. Parecia vir de perto da origem da estática. Nesse ponto, aterrorizado, eu disparei até a porta da frente, a batendo e fechando o trinco. Me atirei no quarto da minha irmã, gritando “Elana, ELANA, acorda!”. Minha irmã não ficou feliz em me ver, nem em ouvir minha história. Não dando tempo a ela pra reclamar por ter sido acordada, expliquei o que aconteceu. Ela estava muito cética. Pensou que ou estava brincando, ou tinha fumado muita maconha, ou simplesmente havia perdido a cabeça para o cansaço. Ela estava irritada e queria ir para fora ver o mesmo. Eu não deixaria.

Bom, deixe-me explicar. Eu e minha irmã somos MELHORES amigos. Ela sabe o quanto sou racional e me escuta quando digo as coisas. De qualquer forma, o jeito que ela se comportou durante o incidente foi muito peculiar. Eu esperei que ela endoidasse, ligasse para nossos pais, para a polícia, ligasse todas as luzes. Ela não fez nada disso. Abriu a porta da frente, espreitou para fora, a fechou e trancou, andou até a janela, abriu, foi buscar um copo d’água e o derramou para fora sem tomar uma gota e voltou para a cama. Assustado o suficiente, eu passei a noite inteira assistindo Netflix, alerta para barulhos estranhos. Nada mais aconteceu aquela noite, graças a Deus.

O dia seguinte aconteceu como planejado, sem ocorrências bizarras. Compramos coisas para sua casa, fomos para seu novo trabalho e conhecemos todo mundo, fizemos mais coisas de turistas, etc. Compramos uma TV para a sala. Decidimos jogar um pouco de Xbox enquanto escurecia. Eu tive pensamentos sobre a noite anterior o dia todo. É estranho. Eu estava horrorizado com a possibilidade de acontecer de novo, mas uma pequena parte de mim desejava isso. Queria descobrir, pelo meu bem. Eu esperava que Elana ouvisse também, que eu não estivesse temporariamente louco. Meu plano falhou, e depois de 2 horas jogando Call Of Duty, ela foi dormir. Em sono profundo em seu quarto; comigo, suficientemente no limite, tentando me distrair na sala.

Lá pelas 3 da manhã, meu navegador foi interrompido novamente pela estática. Eu imediatamente fui até o quarto da minha irmã e a acordei. Perguntei “Você está ouvindo isso? É o que eu tenho ouvido! Você consegue ouvir?”. – “Sim” ela respondeu. Eu não sei se isso deveria ter me assustado mais ou me acalmado. Me relaxou, mas também me deixou aterrorizado. Ela calmamente disse “Vamos lá fora descobrir isso”. Relutante, eu concordei. Se minha irmã está disposta a fazer algo e não está assustada, não há razão para que eu esteja. Certo? Calcei meus sapatos e peguei a lanterna. Elana pegou a lanterna da minha mão e a colocou de volta no balcão. “Não precisamos disso”, ela declarou. Confuso, a segui para a porta da frente. A destrancou, abriu lentamente e saiu por uma fresta. Assim que a porta estava completamente aberta, minha irmã havia sumido. Ela desapareceu por aquela fresta mais rápido do que eu jamais havia visto ela se mover. Descalça e de pijama, direto para a noite. Perdendo ela de vista quase imediatamente na escuridão, eu me virei e peguei a lanterna, só então a seguindo pelo quintal escuro. Me senti obrigado a correr para os fundos da casa. Eu lentamente rodeei o canto para os fundos e encontrei Elana.

Parada no breu, encarando a casa, calada e completamente imóvel. Confuso, assustado e pulsando pela adrenalina, gritei “Elana, que porra está acontecendo? QUE PORRA VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?”. Ela se voltou para mim e respondeu indiferente “Zach, relaxe, é só minha casa.” – “Que caralho você quer dizer com ‘é só sua casa’?”, eu berrei. “Não há com o que se preocupar, Zach, vamos voltar para dentro.”, sussurrou. Completamente perplexo, fiquei sem palavras. Ela andou serenamente de volta à frente da casa, comigo seguindo seus passos, girando a lanterna para todos os lados.

Assim que entramos de volta em casa, eu estava muito irritado. Eu queria ligar para a polícia. Queria ligar para nossos pais e dizer que algo estava errado. Queria sair daquela casa. Mas esse era o novo lar da minha irmã e não podíamos fazer nada disso. Elana estava dizendo que nada estava errado. Ela eventualmente me convenceu depois de uma hora conversando. Ela não mencionou nenhuma vez sequer a estática lá fora ou o que quer que tivesse sido aquilo. Para meu horror, ela decidiu ir dormir. Ela voltou para a cozinha e encheu um copo d’água. Então derrubou a água de novo, sem tomar um gole, e disse “Boa noite, Zachary”. Ela nunca havia me chamado de Zachary. Nenhuma vez.

Desnecessário dizer que ela não dormiu muito tempo. Depois de 30 minutos que ela deitou, escutei a estática. Mais alto que antes. Enlouquecido, a acordei de novo. Nós mutuamente decidimos não ir para fora. Ficamos na janela, mantendo vigilância na floresta lá fora. Minha irmã, inexplicavelmente calma, e eu, beirando o terror. Enquanto a estática oscilava entre um tom agudo e outro grave, vi a pequena luz vermelha novamente. A pequena e brilhante luz vermelha, bem entre as árvores. De repente, a estática parou e a luz virou um sólido e vermelho farol na floresta. Pareciam haver figuras se movendo em torno da luz. Eu não posso descrever com precisão o que era, porque estava muito escuro. Minha irmã estava impassível, encarando a noite. Eu me lembro de olhar para ela e ver seu olhar nulo. Até que me afundei na luz novamente.

Peguei meu celular para ligar na polícia e não tinha serviço. O que me assustou pra caralho, porque tínhamos serviço lá o tempo todo, até usamos ele para o computador. Abri a câmera para tentar filmar a luz e meu celular desligou subitamente. Estava completamente carregado. Depois do que pareceu uma hora mas pode não ter sido mais de um minuto, a luz vermelha lentamente desapareceu. Minha irmã estava muito calma sobre a situação. Logo que sumiu, ela disse “Viu? Sumiu. Não há com o que se preocupar. Vamos dormir”. Muito assustado para ficar sozinho, eu deitei com ela no colchão de ar, que adormeceu quase imediatamente. Me deitei próximo a minha adormecida irmã, tentando pensar em qualquer explicação plausível.

Nada. Não há nada que explique o que eu vi.

Antes que eu percebesse, era de manhã.

Depois dessa terrível e estressante noite, é hora de voltar pra casa hoje. Estou no aeroporto agora para minha conexão in Seattle. Estou assustado, confuso, triste, preocupado e um mix de outras emoções. Antes de deixar o Alasca, implorei que minha irmã viesse comigo. Eu aleguei “Elana, alguma coisa está errada. Você deveria vir para casa comigo, ou encontrar outro lugar para morar. Não fiquei naquela casa sozinha. Tem alguma coisa que não está certa lá”. O que ela respondeu me petrificou. Depois de horas pensando sobre aquilo, eu ainda não entendi o que Elana quis dizer. Indiferente, ela olhou para mim suavemente e respondeu “Zachary, está tudo bem. É por isso que estou lá. É só minha casa”.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avisa! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!



13/08/2017

Marcas de nascença

Você sabia que algumas pessoas têm marcas de nascença?

Bem, essas marcas foram feitas quando Eles tentaram roubar você de seus pais e trocar você com uma das réplicas Deles.

Se você tem uma marca de nascença, significa que Eles falharam.

Se você conhece pessoas que não possuem uma, eu não confiaria Nelas.


12/08/2017

O que encontrei no armário de provas do Departamento de Polícia de Ashland

Olá! Meu nome é Sarah e sou a nova tradutora do blog. Gosto muito de creepys +18 e creio que grande parte das minhas postagens serão com essa temática. Ao término, por favor deixe sua opinião. Se possível me diga qual creepy você quer que eu traduza, terei um imenso prazer em traduzir algo de seu gosto. Boa leitura!

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.
No meu último ano da faculdade, em 1993, meu diploma exigia um estágio. Felizmente, o departamento de polícia local tinha um relacionamento amistoso com a minha faculdade de justiça criminal. Foi fácil para mim conseguir uma vaga no semestre de outono, e a maioria dos policiais parecia gostar de mostrar seus conhecimentos para um novato.
Eu desfrutei por algumas semanas de passeios e tours pela sede, mas logo senti que tinha pegado a essência, para ser sincero. Esta era uma cidade universitária no Illinois rural, então era basicamente crianças bêbadas, cozinheiros de metanfetamina, usuários de metanfetamina e multas de trânsito. Polvilhe algumas lutas de bar, furtos em lojas e violência doméstica, e você descobriu Ashland. Meu estágio se tornou ainda melhor pelo meu primo, Frank, um policial de Ashland. Ele me mostrou quais partes da cidade evitar, me contou algumas de suas "histórias de guerra", e uma vez, quando estávamos patrulhando tarde da noite, ele acelerou em um trecho de estrada enquanto tocava a música-tema de "Cops". Já se passou muito tempo, então não estou preocupado em meter Frank ou eu em problemas agora. Ele deixou a força em 2007 e tem trabalhado felizmente em segurança privada desde então. Eu acabei no caminho acadêmico, e também não me preocupo com algo que fiz há mais de duas décadas. O que eu não deveria ter feito foi fotocopiar as provas da polícia sem permissão e mantê-las comigo. Eu ainda tenho as cópias - a carta e algumas páginas de jornais - ao meu lado enquanto escrevo isso. Eu tinha esquecido disso, até eu ler meu e-mail esta manhã e ver uma mensagem de Frank. Então eu fui ao porão, onde eu mantive todo o lixo nostálgico da minha adolescência e início da idade adulta, e comecei a procurar nas caixas. Não consigo explicar por que eu mantive essas páginas por tanto tempo. O valor do choque por si só é provavelmente uma explicação suficiente, mas havia algo mais... algo sentimental ou algo assim. A mulher que as escreveu se foi, não tinha família, e uma parte de mim odiava o pensamento de sua existência piscar em memória, como uma estrela moribunda.

A noite em que copiei a evidência foi uma sexta-feira. Eu estava agendado para estar no departamento de polícia das quatro da tarde até meia-noite. Frank estava trabalhando, então ele me buscou e partimos em seu carro. Algumas multas de velocidade, um atestado e um sanduíche depois, o sol já estava se pondo. Frank virou-se em um beco sem saída para começar a patrulhar sua área novamente. Navegando pelos bairros sinuosos, ele diminuiu quando passamos por um quarteirão. "Alguém contou sobre o assassinato que aconteceu aqui?", Ele disse com entonação dramática. Meu interesse foi instigado. Em três semanas de trabalho, uma parte visivelmente ausente deste estágio foi a de crimes locais famosos. Tentado pela expectativa de um conto estranho para inaugurar a noite de outono, eu respondi que não. Frank apontou para uma pequena casa de fazenda com uma varanda a envolvendo. Sua tinta branca estava descascando. "Então, na década de 80, uma senhora chamada Alice Weiss morava naquela casa. Um cara chamado Colton morava ali." Ele apontou para a casa azul  ao lado. Estava em melhor estado do que a casa branca, mas ainda parecia bastante degradada. O tapume de vinil estava sujo. As videiras descascadas sufocavam a rede do alpendre. Ao contrário do resto das casas no bairro, esta ainda tinha uma calçada de cascalho, salpicada de ervas daninhas. "Então, no Dia de Ação de Graças, os policiais receberam uma chamada sobre disparos provenientes da casa de Colton. Eles apareceram e encontraram Weiss na sua varanda dianteira com o cérebro explodido e Colton dentro, na mesma condição. O que fez com que as pessoas ficassem mais espantadas, é que Weiss tinha queimaduras em forma de pentagrama em ambos os braços. O coronel disse que elas tinham uma década de idade, pelo menos. O corpo de Colton tinha pentagramas esculpidos em sua pele também, mas estavam frescos. Parecia que Weiss fez isso antes de matá-lo.” “Bem, isso aconteceu no meio de todo o pânico satânico dos anos 80, certo?" Eu disse (esperando secretamente que Frank pensasse que eu era bem informado). "Certo", ele disse distraidamente. "Mas essa besteira surgiu em todo o país, e havia muitos casos alegados sem qualquer evidência real para apoiar as acusações. Aqui, tivemos um caso com vítimas de carne e sangue, um dos quais tinha marcas satânicas em seu corpo antes desse fiasco inteiro”. "Certo", respondi. Frank foi à direita no sinal de parada e continuou pelo bairro. "Isso é meio que o final da história, infelizmente. Weiss tinha estado mentalmente doente durante a maior parte de sua vida e as pessoas eram tão compreensivas quanto você imagina. Todos assumiram que ela era apenas uma mulher louca que adorava o Diabo porque é isso que as pessoas loucas fazem, e quando isso não era suficiente, ela matou seu vizinho ". Refleti sobre suas palavras em silêncio. Frank quebrou a quietude alguns minutos depois, quando emergimos na estrada principal. "E tanto quanto as pessoas tentaram esquecer, o caso Weiss ficou preso a elas. Colton tinha sido seu vizinho desde que ela nasceu, conheceu sua família, conheceu seus avós. Eles viveram um ao lado do outro durante mais de trinta anos, e depois um dia, do nada, ela o assassina e se suici- " Uma voz no walkie talkie de Frank o interrompeu. Dispatch precisava de um oficial para voltar à estação e ajudar com uma ordem de emergência. 

Quando chegamos lá, uma mulher perturbada com um olho roxo estava sentada no átrio, batendo rapidamente seus pés contra os azulejos. Frank me deu uma olhada e me disse para ir procurar o sargento Tate; Ele viria me buscar quando terminasse de escrever o relatório. O Departamento de Polícia de Ashland estava limpando arquivos antigos para serem transferidos para o armazenamento fora do local, e hoje era responsabilidade do sargento Tate. Ajudei-o a mover caixa após a caixa, olhando para alguns dos arquivos. Depois de trinta minutos, o sargento me disse em voz baixa que ele estava indo fumar. Ao sair, ele gritou por cima do ombro com uma voz provocante, "Não espie". Fazendo-lhe uma promessa vazia, obedeci até ouvir a porta se fechando atrás dele. Então eu fui trabalhar. Eu olhei em cada caixa, contente por ler um pouco aqui e ali, mas na minha mente estava a história que Frank me contou menos de uma hora antes. Depois de alguns minutos de caixas desembarcadas, eu não tinha encontrado nenhum arquivo antes de 1979. A excitação que eu sentia deu lugar ao desânimo. Eu não estava encontrando nada sobre Alice Weiss aqui. No entanto, continuei a examinar os arquivos antigos, embora em um ritmo mais lento. Ainda havia uma chance de encontrar alguma coisa. Além disso, pensei que eu poderia muito bem procurar pois ainda havia tempo. Meus instintos acabaram provando o correto. Minha frequência cardíaca acelerou quando comecei a ver datas de 1980 e depois de 1981. Continuei até que, em uma caixa de arquivos de 1984, eu vi. Uma pasta exibia o rótulo: "010111785--009 CASO WEISS ". Olhei em volta e puxei-a para fora da caixa. A pasta continha apenas uma carta e um pequeno diário, ambos empacotados. Automaticamente, eu os joguei de volta na caixa e carreguei tudo até o canto adjacente, onde havia uma pequena mesa, um arquivo e uma copiadora. Olhei para a janela da porta, não vi nada, não ouvi nada. Abaixei a tampa da fotocopiadora e deslizei a carta, ainda em seu plástico, e pressionei "Iniciar". A máquina girou para a vida, e eu me virei e comecei a re-empilhar várias caixas. Eu sabia que o Sargento Tate fumava American Spirits, então eu tinha de oito a dez minutos antes dele retornar, e usei pelo menos cinco procurando nas caixas. No segundo que a copiadora havia terminado, afastei a carta, manuseei o diário aberto e comecei nas primeiras páginas. Nunca me senti tão tenso, e a compulsão de duplicar esses documentos não era algo que eu poderia explicar. Eu tinha começado, e ansiava terminar, sentindo medo tanto pelo problema que isso poderia me causar como na chance de não ter sucesso. Quando a página final saiu, eu devolvi o jornal para a caixa, dobrei os papéis e empurrei-os para minha pequena bolsa. Então, ainda não ouvindo o sargento Tate, decidi reorganizar algumas das caixas para esconder minha busca inexplicável e desesperada. No momento em que ele voltou, cheirando a fumaça e cantarolando, eu me acalmei e retomei meu trabalho normal. Terminei meu turno, intensamente consciente do papel abarrotado em minha bolsa. Quando voltei para o meu apartamento, estava -felizmente- vazio, os restos da festa de meus companheiros de quarto espalhados pela nossa sala de estar. Hesitante para olhar meus papéis, coloquei o pijama e busquei algumas sobras. Uma vez que a comida desapareceu, peguei os papéis. A tag de evidência estava embaçada, mas legível na página abaixo da escrita. Datada em 17/11/85, referenciou um número e tipo de caso listado como "homicídio / suicídio". Li primeiro a carta de uma página. Foi escrito em papel de caderno e letra cursiva. Estou transcrevendo-a abaixo:
“Meu nome é Alice Weiss. Tenho trinta e três anos. Ainda vivo na casa em que fui criada. 3106 Birch Lane. Fiquei entrando e saindo de hospitais psiquiátricos por mais da metade da minha vida. Recentemente, minha terapeuta e eu fizemos algumas coisas novas para tentar curar alguns dos meus problemas. Entre outras coisas, tenho tido pesadelos nos últimos quinze ou dezesseis anos. Não consigo extrair nada deles. Apenas uma combinação inútil de escuridão, luz de velas, medo, dor, gritos, náuseas. Então, depois de tentativas fracassadas de tudo, desde terapias cognitivo-comportamentais até medicação e mudanças na dieta, ela me pediu para manter um diário dos sonhos. Se eu me comprometo a escrever qualquer coisa e tudo o que eu lembro, ela diz que eu posso entender um pouco mais sobre o que realmente está acontecendo nos meus sonhos. Nas últimas semanas, escrevi o que lembro quando os sonhos me despertam no meio da noite. Não li nenhuma das páginas até hoje mais cedo. Eu estava com medo de como tudo seria à luz do dia. Funcionou, mas não acho que seja isso que minha terapeuta queria que acontecesse. Lembro-me de onde as queimaduras vieram, não era algo que eu fiz comigo mesma, como mamãe disse ao Dr. Colton. Lembro-me de tudo agora e vou matar aquele filho da puta.”
O segundo item era um caderno preto, pequenos, de tamanho de bolso. A caligrafia é um pouco reconhecível, mas a tag de evidência diz que foi escrita por Alice e encontrada em sua casa. A caligrafia era semelhante a cursiva, mas as linhas eram mais ousadas e mais estreitas, como se a autora estivesse com urgência.
“No dia seguinte ao meu aniversário de quinze anos, o Sr. Colton veio pedir pedir um pouco de açúcar. O Sr. Colton era da idade dos meus pais, mas ele morava com sua mãe idosa. Assim, ele adquiriu o rótulo de "velho estranho", o tipo de desconfiança tácita que as crianças sentiam em relação aos adultos solteiros. Seus olhos percorreram meu corpo enquanto ele perguntava. Eu pensei que isso fosse o pior. Antes que eu pudesse lhe dar o açúcar, ele pulou em mim, apertou um pano na minha boca. Quando acordei, fiquei com os olhos vendados e presa aos pulsos e aos tornozelos. Nunca descobri onde eu estava. Eu pensei que isso fosse o pior. Acho que estou no subsolo. Não sei quanto tempo eu estou aqui. Dias, pelo menos. A sala em que eu estou é pequena, sem janelas. Eu não acho que foi construído por profissionais. A sala parece ser cortada em rocha sólida.  Principalmente homens, mas às vezes mulheres, vão e vem, trazendo-me comida e levando-a e me trazendo um balde e tirando-o. Eu acho que eles são diferentes, mas é difícil dizer. Eles não falam muito e capuzes cobrem seus rostos. Às vezes eles esquecem de me trazer comida e, às vezes, eles esquecem de tirar o balde da câmara. Eu pensei que isso fosse o pior. Eu acho que eles me drogam com bastante frequência. Algumas vezes eu desmaio de repente, e quando eu acordo, meu corpo dói. Às vezes eu tenho hematomas e cortes sem saber de onde eles vieram. Eu pensei que isso fosse o pior. As drogas, os desmaios, o despertar com lesões vem piorando. Na última vez, acordei com os antebraços enfaixados. O que quer que esteja sob as ataduras, queima e coça. Estou muito cansada para olhar. Eu pensei que isso fosse o pior. Eles me alimentam com pão e água uma vez ao dia. Uma vez, eu reclamei que ainda estava com fome. O guarda sugeriu que eu comesse algumas baratas. A luz das velas torceu o sorriso dele em um mosaico cruel. Eu pensei que isso fosse o pior. Acordei com uma nova dor. Minhas entranhas doem... Não sei o que me fizeram desta vez. Eles me tratam melhor agora, então eu tento não pensar nisso. Recebo mais comida, velas e alguns cobertores extras para dormir. Eles começaram a colocar alguém do lado de fora da minha porta o tempo todo. A pessoa está sempre cantarolando algo baixo e despreocupado, como um canto gregoriano. Eu pensei que isso fosse o pior. O tempo passa. Minha barriga cresce. As bandagens nos meus braços desaparecem um dia. Dois círculos com uma estrela dentro. Talvez eu tenha ficado irritada ou chateada com isso uma vez, mas agora não me importo muito. Uma noite, sou arrancada do sono com uma dor rasgante vindo de baixo. Eu grito dentro da pequena sala de concreto em que estou. Eu continuo gritando e gritando até chegarem. Eu não recebo nenhuma droga desta vez. Eu me sinto dividida pela metade, diante de Deus e de todos, mais aberta e vulnerável do que eu já estive antes. A dor é tão ruim, eu esqueço o quanto eu odeio o Sr. Colton e seus amigos porque eles cuidam de mim. Eu imploro que eles me matem. Demora horas para o bebê sair. Eu pensei que isso fosse o pior. Eu descanso e eles levam o bebê para longe. Se este fosse um dos dramas de rádio de minha mãe, eu gritaria e choraria mais, com raiva, até que toda minha energia tivesse desaparecido, exigindo ver meu bebê. Mas eu não quero ver isso. Não quero nada além do meu quarto, minha escola, minha vida antiga de volta. Hoje ouço passos próximos da minha prisão. Eles me dizem que tudo ficará bem, se eu fizer mais uma coisa. O grito que saiu da minha garganta é mais alto que qualquer barulho que fiz com o bebê. Eles me trazem um prato com uma figura humana pequena e frágil, a carne carbonizada e enegrecida. Eles me dizem para comer. Esta é a pior coisa.
Então sim. Fiquei um pouco abalado depois de ler. Por sorte, eu ainda tinha dez semanas no estágio. Pude extrair mais algumas informações de Frank e de alguns dos outros policiais, incluindo alguns que estiveram por perto quando ocorreu o assassinato. Um deles, o tenente Mueller, lembrou-se de alguns dos fatos que ocorreram após as mortes. “Com aproximadamente quarenta anos de idade, Alice Weiss morava ao lado de sua eventual vítima, Randall Colton, por toda a sua vida (excluindo suas internações).” Fiz o meu melhor para agir como apenas um outro garoto da faculdade intrigado por gore barato e crime verdadeiro; mencionei que Frank havia falado sobre queimaduras de pentagrama em Alice. "Seus registros psiquiátricos reconheceram especificamente as queimaduras, porque elas eram a razão pela qual ela foi admitida em sua primeira instalação quando era adolescente", ele me disse. "Sua mãe diz que encontrou as queimaduras quando a menina começou a usar mangas compridas, mesmo em julho. Weiss afirmou que não tinha lembrança de onde elas vieram... mas, mesmo adolescente, seus registros também citam  uma história de depressão, alucinações e
auto-mutilação". Me encontrei novamente com Frank, algumas semanas depois. Especificamente, quando estava no almoço com Frank e um dos detetives da Ashland. Não consigo lembrar o nome dele, infelizmente. Lembro-me de Frank me dizendo que ele era um policial de Chicago antes de se mudar para Ashland, e é por isso que "ele é o único que não fica perturbado por essas coisas". Minha maior pergunta foi a conexão entre Randall Colton e o Dr. Colton mencionados na última carta de Alice, e o detetive grisalho respondeu sem sequer perceber. "Eu entendo porque as pessoas reagem tão fortemente a Weiss", ele disse, entre as batatas fritas. "Você vive bem ao lado de pessoas, às vezes por anos, e nunca são uma ameaça para você, e de repente eles são o pior tipo de ameaça. E em pequenas cidades como esta,  isso afeta as pessoas ainda mais poderosamente porque você está naturalmente mais interligado. Bem, descobrimos ao longo dessa investigação que o irmão de Randall Colton era um psiquiatra no Marion South State Hospital e ele tratou Alice Weiss nos anos sessenta quando teve seu primeiro colapso". 

Então, isso é tudo, certo? Uma jovem em uma pequena cidade, atingida por uma má saúde em uma idade precoce, em um momento em que o tratamento de saúde mental ainda estava se iniciando, lutando por anos antes de terminar tudo de uma forma terrível. O tempo passa, casas familiares se esvaziam e se reabastecem, os arquivos de casos são colocados no armazenamento, as pessoas esquecem. A razão pela qual eu tirei minha cópia das últimas palavras de Alice foi porque - como mencionado anteriormente - Frank me enviou um pequeno e-mail esta manhã, perguntando se eu me lembro da casa do assassinato do meu estágio. Ele anexou um artigo da notícia local de Ashland em anexo. 3104 Birch Lane - casa antiga de Randall Colton - teve o chão queimado ontem. Os inquilinos estavam fazendo metanfetamina lá, e a casa explodiu. Três pessoas morreram. Uma vez que as chamas foram contidas e puderam investigar adequadamente a cena, eles encontraram um sub-porão. Frank me contou que ele tinha ouvido falar de um de seus amigos que o quarto deve ter sido construído há décadas, bem antes que coisas como inspeções de casa e permissões de construção fossem uma realidade. Através de uma porta escondida esculpida fora da fundação, eles encontraram um pequeno corredor que levava a uma sala menor. Não perguntei a Frank se eles encontraram algum pentagrama nas paredes. Tenho certeza de que ele me teria dito se tivessem. Frank disse que foi um milagre o fato da casa não ter desmoronado há vinte anos. Embora eu saiba que ele não quis ser irônico, não tenho certeza se "milagre" seria a palavra que eu usaria.
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


11/08/2017

Acesso Final

Boa noite habitantes do vago e escuridão, meu nome é Thiago, mais um servo do profano e tradutor deste blog. Como minha primeira postagem, venho lhes trazer uma história de minha autoria, sejam críticos, comentem, apontem, critiquem e não perdoem pois no final não serão perdoados.

Sim, é verdade! Nunca tive muitas ambições ou perspectivas em demasia, me contento com o mínimo e sempre foi assim. Carreira, faculdade, especialização, curso, nada disso… Música, atuação, talento para o esporte, nada se encaixou, meu rosto é e sempre será mais um na multidão, provavelmente você não se recordaria dele, provavelmente…

Tive alguns empregos, uns bicos uma ou outra oportunidade, desprezado pelas pessoas, minimizado, ridicularizado e como consequência  vindo de meus superiores sempre ouvi a mesma coisa : Falta de motivação, proatividade, vontade e interesse.
Pra mim sempre foi simples, nunca quis ser supervisor, gerente, dono, nadar em dinheiro, o que recebia era pelo que produzia, então isso é justo.

Acabei desempenhando a função de controlador de acesso nos últimos três anos (porteiro).
Uma atividade simples "qual é o seu nome? pra onde vai?".

Apesar de sofrer uma certa rejeição pela relevância do meu cargo, na grande maioria das vezes conseguia " tirar " algo de alguém de quem passava por mim, um salgado, um espetinho, um chocolate, sempre algo que pudesse comer e me dava por satisfeito.

Esse meu "talento" de sempre poder reter algo de quem cruzava meu caminho era invejado e consequentemente um dos motivos que despertava indignação nas pessoas que me comandavam em minhas funções, eu poderia tirar, mas não o fazia, creio que se realmente desejasse poderia convencer o diabo a tocar fogo em seu próprio corpo!

Infelizmente, minhas ambições sempre foram reduzidas a nada…

Após um tempo na função, decidi que iria tiras férias em alguma cidadezinha do interior, observar o pasto e conhecer gente simples, ficar no hotel assistindo filmes, tomando cervejas carregadas em trigo e talvez usar a piscina.

Passado a primeira semana já me encontrava bem entediado após contemplar os poucos 1977 canais disponíveis em suas mais variadas línguas, formatos e públicos-alvo possíveis e imagináveis.
Descobri através da camareira um “Pub” em que boa parte da cidade se encontrava dia após dia ali, era de conhecimento de todos os moradores, provavelmente o patrimônio histórico da cidade, gerações e mais gerações frequentaram o local, passei a visita-lo também, fazia minhas refeições, bebia até cair, mas sempre sem me relacionar com ninguém, apenas acenos com a cabeça, posicionava-me frente a única porta do local, observa os populares e principalmente as idas e vindas, o acesso!

No terceiro dia de visita, estava como de costume sozinho em minha mesa observando as pessoas conversarem, dançarem, beberem entre outras coisas também de olho nas portas fechadas do estabelecimento, após uns quarenta minutos de introspectividade um homem que aparentava ter seus 50 anos de idade sentou-se na única cadeira vazia em minha mesa, de frente para mim, obstruindo minha visão da entrada, fez menção com a mão esquerda antes como se perguntasse “Posso?”. Concordei erguendo meu copo vazio, ele sorriu e se sentou. Tinha os olhos amendoados, eram bem claros quase amarelos. Não possuía barba, que era extremamente bem feita como se ali nunca jamais houvera um único fio.

Eu não havia reparado ou talvez houvesse surgido do nada mas em sua outra mão trazia um copo de Whisky e um fino cigarro de confecção própria.
Usava um chapéu que parecia de cowboy, camisa xadrez vermelha e azul trajando uma jaqueta bem simples de couro que parecia ser feita sob medida e jeans azuis, não consegui ver os seus sapatos apenas.

Após apoiar o copo na mesa estendeu a mão para me cumprimentar, de relance pude ver suas unhas bem aparadas, mão bem cuidada com um anel em cada dedo. Os ponteiros marcavam 15:33, sol raiva, mas o ambiente era fresco e agradável, as janelas possuíam blackout fazendo com que ficasse completamente escuro se não fosse a aconchegante meia-luz dos simples e empoeirados lustres.




Conversávamos sobre trivialidades, papo vai, cerveja e whisky vem, fumaça vai, shots vem...

- Então, Senhor Lucius, o que faz ou fez para ganhar a vida? - perguntei descontraído.
- Administro pessoas. – respondeu com um sorriso e já emendou: - E você Jackson, tão novo e inteligente o que faz ?

- Sou controlador de aces... porra, sou porteiro! E ergui meu copo novamente.

- O senhor é gerente, gestor, supervisor ou algo do tipo?
- Exato, algo do tipo. Sempre com um lustroso sorriso.
- Mas me diga você, não quer fazer faculdade, um curso, tocar um instrumento, seguir uma profissão?
-Eu já sigo, controlo acesso. Pra mim, já é o suficiente.
- E quer isso pro resto da vida?  Não quer ter sua própria empresa, ser rico, comandar, mandar, ditar, lide...
-Não, não tenho esse tipo de desejo, ganhar e cobrir o que consumo está de ótimo tamanho, não almejo, não quero explorar ninguém, não quero maiores responsabilidades. Veja como é simples, você me diz seu nome e pra onde vai, após meu processamento todo o resto é problema seu, a história acaba ali pra mim, não vejo nada de errado com isso.

Lucius balançou a cabeça como se reproduzisse a expressão corporal de “mais ou menos”, ainda que não fizesse sentido no contexto...

- Então diria que o que te define o que você quer é apenas observar e controlar o acesso, apenas isso? Nada mais?
- Não é como se não tivesse coração, não achasse bonito um casal de mãos dadas, o abraço de uma mãe em seu filho, reencontro de amigos... Mas não tenho e não anseio nada disso para mim, vantagens, família, relações, amizades, patrimônios, propriedades... Eu só quero passar, viver, olhar, da minha maneira, sem influenciar, mudar a vida de alguém, guiar ou dar sentido... é simples assim.
Ao enrolar um novo cigarro e acendê-lo o homem de chapéu de cowboy deixou escorregar o anel de seu dedo indicador para perto do cinzeiro e rumou ao sanitário. O anel tinha uma opala de fogo, chamativa, linda, encantadora e poderosa por um momento me imaginei utilizando o anel, apenas para experimentá-lo e nada mais, olhei para ele e estiquei ambas as mãos para avaliar em qual dedo se encaixaria melhor, mas ainda assim não tive o ímpeto de fazê-lo, apenas observá-lo...
O homem ressurgiu atrás de mim, fez o contorno e a medida que deixou seu corpo cair novamente na cadeira deslizou o dedo indicador em toda extensão circular do anel que voltou ao seu lugar original como um ímã.
-Bom, sei que está de férias mas tenho uma proposta para te fazer... Como te disse administro pessoas, pessoas de talento, atrizes, atores, bandas, atletas, esse tipo de gente que ganha muito fazendo pouco e que você reconhece pelo primeiro nome.
-Ah, então o senhor é um agente, empresário, manager sei lá hahaha.- muita, muita cerveja...
- Algo do tipo, mas sem toda essa burocracia, mídia, contratos, é mais parecido como um pacto mesmo.
- Olha, te adianto logo de cara que não tenho nenhum talento a ser agenciado, muito menos vender minha alma por algum tesouro ou habilidade latente.
Ambos rimos muito após esse comentário.
-Em uma fazenda aqui perto eu patrocinarei uma festa em que essas pessoas estarão reunidas, alguns paparazzis, apenas os com as melhores conexões estarão informados e fariam de tudo pra entrar na festa e conseguir uma foto da ganhadora do grammy deste ano completamente bêbada e drogada. Um ou outro presidente de fã clube deve estar a par também, sem contar em outros “agentes” que se aproveitariam do momento para firmar contrato com as minhas estrelas...
-Hm, certo.

- Seu trabalho é controlar o acesso dessas pessoas, deixar entrar apenas aquelas que lhe darei o nome. Quanto você quer não apenas pelo trabalho, mas para não ceder as ofertas tentadoras? 100 mil, 150 mil?

Eu ri ainda mais com a oferta.
- Você está oferecendo 150 mil por uma única noite de trabalho de um porteiro? Ou você está brincando comigo, ou está louco ou é apenas um velho que quer torrar dinheiro, talvez eu te lembre um filho que faleceu? Perguntei com sinceridade.
- Não estou brincando, o que desejas ?
-Observar e controlar o acesso, que até o fim de minha existência estaria ótimo, pode me pagar o que se pagaria normalmente pelo dia de serviço da minha categoria, não precisarei de transporte e comida então algo em torno de 50 estaria ótimo.
- Estás desprezando uma aposentadoria inteira e uns 19 anos luxuosos por um trocadinho mixuruca?
-Não é isso, agradeço a oferta e aceito o trabalho nesses termos, tudo bem?
- Jackson, alguém já elogiou sua falta de ambição?

-Nunca, muito pelo contrário, nunca entenderam...

-Ah mas eu entendi e estou te administrando desde que nos cumprimentamos, negócio fechado então!

Acontece que vim a entender que observar e controlar o acesso por fim eram minhas ambições, sonhos e fervorosa paixão, acontece que possuo diversas coisas que milhares de seres humanos desejaram a vida toda e nunca terão, vi a ruína ainda que de uma posição baixa de todos aqueles que exerceram algum tipo de poder sob mim.
Eu controlo o acesso, o acesso final e com certeza TODOS os que passam por mim rumo a toda eternidade em chamas se lembram de minha face, após 3333 anos nada mudou, continuo querendo saber apenas seu nome, mas já sabendo o destino que irá tomar. A única coisa que restou de mim fora a vontade de observar e controlar as idas e vindas (apenas ida nesse caso) foi a habilidade de “tirar” algo das pessoas, mas infelizmente já não é algo que me satisfaz, quem precisa de lamúrias, desabafos, confissões, arrependimentos ou a própria carne e osso em si?

Talvez tenha sido escolhido para o cargo por não desejar ter sucesso, viver para sempre, ter dinheiro, fama, ser feliz, ter família, queria apenas observar, controlar sendo justo e vivendo para mim. Depois desses três milênios fui conversar com meu empregador, disse que queria férias, em uma cidadezinha do interior no mundo terreno. Não esperava uma resposta positiva, sei muito bem que se alguém entra aqui... jamais sairá...

Para minha surpresa ele me concedeu esse período de férias, com certeza sentiu que eu não desejava escapar e que com certeza voltaria para cumprir minha função. Antes de sair ele me disse :

- Respondendo sua pergunta, sim, você me lembra alguém, você faz com que eu lembre de meu pai.


Depois de alguns dias recluso, decidi ouvir um pouco de música ao vivo em um estabelecimento que apresentava novas atrações diariamente. No terceiro dia de visita, uma mulher na casa dos 50 anos, cabelos ondulados e longos com camiseta regata listrada preto e branco, calças jeans azuis, não pude saber o que calçava, vinha agitando uma garrafa que parecia ser de barro com um delicioso cheiro de trigo sentou-se em minha frente.

Com a mão cheia de anéis, um pra cada dedo me deu um cigarro que parecia ter sido feito manualmente, ao ocupar minha boca foi logo dizendo: - Não tenho nada para despertar sua ambição, mas gostaria de ouvir uma proposta de emprego?