Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
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Domingo
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Ontem eu cheguei rápido demais na faculdade


Demora cerca de 12 até 14 minutos para eu chegar na aula. 

Eu cronometro meu tempo todos os dias. Sei que é estranho, mas é algo que eu faço. Presto bastante atenção no tempo, sempre prestei. Saio de casa as 08h40 em ponto, e chego na faculdade entre 08h52 e 08h54. Depende quanto tempo eu levo para atravessar duas ruas em específico e de quão rápido estou andando. Uma vez eu fiz o caminho em 11 minutos, mas é uma exceção.

Cheguei na minha sala e entrei, descobrindo que a turma de antes da minha ainda estava em aula. Pedi desculpas e sai. Deviam ter se atrasado um pouco. Chequei meu relógio. 

08h43.

Era impossível. Não podia ter chego tão rápido assim, e certamente não estava apressado naquela manhã. 

Devia ter saído mais cedo que o habitual, ter visto o horário errado. Isso fazia mais sentido.

Eu tive aula às 09h, depois um seminário às 10h que durou 2 horas. Fui até o centro estudantil para almoçar e decidi ler do lado de fora. Me sentei eram 12h15 com meu sanduíche e um livro. Li por um tempo, cerca de cem páginas. Chequei a hora. 

12h20.

Era impossível. Meu relógio devia estar morrendo. Eu iria no banheiro, depois passaria na livraria para pegar um novo relógio antes das minhas aulas da tarde.

Entrei no banheiro e fechei a porta do cubículo. De repente todas as luzes se desligaram. Não sei como o banheiro podia estar tão escuro, será que alguém tinha fechado as persianas das janelas? Andei as cegas até a porta e abri para descobrir um prédio escuro. 

Estava de noite. Chequei meu relógio.

19h30.

Andei até uma saída que graças a Deus se fechava por fora e comecei a andar até minha casa.

Minha casa era velha, antigamente uma tia esquisita minha era a proprietária. Quando faleceu, minha família decidiu que eu poderia morar lá por alguns anos enquanto frequentava a faculdade, conseguiria cuidar da casa sozinha e guardar o dinheiro que não gastaria no alojamento. Não fiquei muito feliz, a casa era grande demais para mim e meio assustadora. Preferia viver em um dormitório com meus amigos, mas minha família fez com que me sentisse culpada. E a casa tinha regras estranhas. Sem colegas de quarto, sem convidar amigos para visitar. Era um lugar estranho.

Observei atentamente o relógio em casa. Nenhum problema. O tempo estava passando como deveria. Será que eu estava doente? Realmente estava estressada sobre a prova que teria no dia seguinte. Quatro redações enormes para minha aula de literatura, e o professor era bem rígido. Devia ser o estresse.

Naquela noite dormi com figuras enegrecidas de pé ao lado da minha cama. Eu estava paralizada. "Ela destravou," um disse. "Não demorará muito."

Acordei sozinha, coberta de suor. 

Minha caminhada até a faculdade levou 13 minutos no dia seguinte. Tudo voltara a ser como antes.

A prova começou às 10h03 e comecei a escrever furiosamente. Meus argumentos eram fantásticos. Estava preparada para aquelas questões. Preenchi uma folha inteira de respostas e depois mais metade de uma segunda. Me senti muito bem quando fui a primeira aluna a levantar e entregar a prova. Sabia que receberia a nota máxima. 

A professora olhou as folhas com um olhar embabacado. "No futuro, se quiser trapacear em uma prova, não seja tão óbvia."

Fiquei chocada. "Eu não trapaceei."

Ela riu, "É impossível que você tenha escrito tudo isso em tão pouco tempo."

Chequei meu relógio. 

10h07.

Corri para fora da sala e não parei até chegar em casa. Nada fazia sentido. Entrei pela porta e chequei meu relógio. 10h16. 

Liguei meu computador; precisava descobrir o que estava acontecendo. 

Eu tinha 945 e-mails não lidos. Sou daquelas pessoas que sempre deixa a caixa de entrada vazia. Nunca vou dormir sem checar meus e-mails. Como era possível ter recebido aquela quantidade de mensagens desde a noite anterior? 

Chequei a data. Três semanas haviam se passado. 

Hiperventilei por alguns minutos. Algo de muito errado estava acontecendo comigo. Decidi que ia voltar para o campus e procurar a enfermaria, deviam ter acesso a uma ambulância e me levariam até um hospital. Tinha que ir logo.

Abri a porta e senti um frio absurdo. Não fazia sentido, era um dia quente de verão, eu tinha estado lá fora fazia pouco tempo. Subi as escadas para pegar uma jaqueta e olhar a previsão do tempo para entender como tinha ficado tão frio do nada. 

Não estou entendendo o que está acontecendo. Era para ser Outubro de 2014. As notícias não fazem sentido. Alguém está fazendo uma pegadinha comigo? Porque meu computador está dizendo que estamos em Janeiro de 2019? 

Acho que preciso ir para um hospital. Tem algo de muito errado comigo.

Reunião Familiar

Caiu finalmente a tempestade que tanto ameaçou a cidade naquelas horas plúmbeas precedente ao o ocaso.

A chuva era torrencial e com ela precipitavam-se os mais vorazes trovões e relâmpagos. Alguns dos últimos atingiam o solo assustando perversamente as testemunhas, para depois surdá-las com o ribombar do estrondo que os seguia.

Naquela noite ninguém dormiu direito. Quase toda a cidade passou em claro seu período de descanso. Uns simplesmente estavam horrorizados demais pela violência da tempestade, outros corriam freneticamente no interior de suas casas arrastando móveis e trocando bacias cheias pela água das goteiras.

Mariza fora uma das que não pregaram as pestanas por medo. Passara a noite em alerta sobressaltando-se a cada novo estalido ou trovão. Temia mortalmente as tempestades. Sobremaneira as noturnas.

Quando criança perdera ambos os pais e uma sua irmã para as águas revoltosas do rio que inundara sua casa devido ao aumento absurdo de seu volume promovido pelas águas da chuva.

A moça morava sozinha e sua casa era muito antiga. Sempre que a noite caía, ela pensava ouvir coisas ou mesmo perceber vultos furtivos com o canto dos olhos. As ripas do assoalho as vezes rangiam no escuro deixando os nervos da jovem em frangalhos.

Nesta noite em especial, Mariza havia acendido todas as lâmpadas da casa, pois temia o escuro pouco menos que as tempestades. Tinha aceso também algumas velas, como precaução para o caso de a energia faltar.

Como estivesse em claro por horas a fio e a tempestade fosse de uma força sobrenatural, mantinha-se num estado de excitação nervosa que se protraíra desde alguns minutos após o inicio da torrente chuvosa até aquela hora da madrugada em que a energia, como esperado, finalmente acabou.

Mariza levantou-se da cama imediatamente e correu em direção à vela que se desmanchava por sobre sua penteadeira. A luz fraca da chama refletia-se bruxuleante no espelho oval em que ela se maquiava antes de ir trabalhar.

Assim que alcançou a vela um raio parecido com uma ramificação vegetal atravessou o céu noturno iluminando o aposento silencioso violentamente.

Mariza estancou aterrorizada com a vela por entre os dedos: jurava ter visto refletida no espelho uma forma encarquilhada esgueirar-se pela fresta da porta entreaberta indo desaparecer num canto escuro do quarto.

Seu olho esquerdo piscou involuntariamente algumas vezes de nervoso.

A moça, mais que depressa, saltou agilmente sobre sua cama e direcionou a luz amarela da vela para o tal canto do aposento. E foi com grande surpresa e terror que viu sentada em sua cadeira de balanço uma velha senhora enrugada e macilenta de olhos cavos, profundos e cabeleira revoltosa surgida sabe-se lá de que pesadelo. A velha tamborilava seus dedos aduncos e descarnados nos braços da cadeira como se estivesse tão nervosa quanto a petrificada Mariza exibindo uma terrível careta de desaprovação para a tempestade lá fora.

Ante a visão aterradora da senhora surgida da escuridão, a vela titubeou por entre os dedos da jovem, indo cair macia nos lençóis amarrotados da cama. E nisso apagou-se no mesmo instante, deixando no lugar de sua claridade amarelada a escuridão uniforme.

Adjacente ao quarto em que se encontrava o par inusitado de mulheres havia um pequeno banheiro privativo do cômodo, ao qual se tinha acesso por meio de uma tímida porta na extremidade oposta a em que se encontrava a velha surgida das trevas da noite. Foi pra lá que a moça atirou-se desesperada de terror apertando-se portal adentro desajeitadamente.

O banheiro estava úmido por causa das goteiras e a chuva lançava-se furiosa contra o vitrô entreaberto do cubículo.

Mariza instantaneamente bateu a porta de ripas carcomidas abafando um grito com as mãos trêmulas. Não sabia o que fazer. De onde saíra o demônio que estava sentado em seu quarto?

Instintivamente a moça recuou assustada até encostar-se no canto de uma parede gelada de onde via o vitrô exíguo e a portinhola do banheiro. Um outro relâmpago ofuscante brilhou em meio à tempestade e ela divisou uma sombra negra que estivera em pé na frente da pequena janela pelo lado de dentro do cômodo.

Suas pernas fraquejaram e a pobre mulher soltou um grito de terror escorregando no chão molhado e caindo pesadamente no azulejo frio.

Tentou se levantar, mas o desespero e a umidade no chão impediram-na de lograr êxito.

A forma sombria pareceu caminhar em sua direção. Mariza debatia-se e gritava horrorizada. Seus pés escorregavam no piso molhado do banheiro. E a figura, que agora estava entre a mulher e a pequena porta, aproximava-se inexoravelmente, Outro relâmpago clareou o retângulo azulejado de modo a fazer com que a moça percebesse o corpanzil volumoso de um homem lívido com feições deformadas angulares e cavidades vazias onde deveriam estar seus olhos aproximando-se dela. A tempestade recrudesceu. A portinhola do banheiro soltou um rangido lúgubre e demorado digno dos mais medonhos pesadelos de horror e a velha adentrou o recinto com andar arrastado e rígido.Marisa, ofegante, não conseguia levantar-se e o som da tempestade abafava seus protestos de pavor. Um trovão ensurdecedor ecoou por entre as paredes apertadas do cubículo quando a tétrica mão do ser abissal atingiu a face gélida da mulher terrificada. Uma risada tenebrosamente familiar seguiu-se ao toque do ente macabro juntamente com a voz esganiçada da velha caliginosa.

Marisa, no paroxismo de seu desespero inexplicável, petrificou-se apavorada com o toque glacial do espectro. E nessa hora uma descarga elétrica partiu o céu, dessa vez imediatamente seguida do brado encolerizado da trovoada.

E foi assim que ela acordou encharcada do próprio suor e quase enforcada pela fronha que arrancara do travesseiro enquanto se debatia presa pelos horrores do mais hediondo pesadelo que jamais tivera.

Levantou-se bruscamente e com olhos arregalados de espanto perscrutou o quarto envolto na penumbra sem nada avistar de estranho. Passando alguns instantes presa nessa contemplação fatídica, a mulher finalmente deixou que sua cabeça pendesse abruptamente soltando um suspiro de alívio por perceber que tudo não passara de um sonho mal. Lá fora a chuva caía pesada sobre a cidade.

Contudo, enquanto ainda tentava se acalmar olhando pensativa para as mãos trêmulas notou uma pequena marca arredondada de bordas enegrecidas no forro da cama que lembrava muito bem uma queimadura no tecido. Lembrou-se então da vela que caíra no sonho apagando-se imediatamente. Curiosa, a moça futucou a queimadura com o indicador tremulante.

Ela ainda estava introvertida na averiguação do orifício queimado no lençol quando ouviu um som bastante peculiar e característico vindo de um canto do seu quarto. Aterrorizada com o pesadelo recente imediatamente olhou em direção à cadeira de balanço feita de vime na qual costumava repousar quando se perdia por entre os parágrafos de um livro qualquer.

A cadeira, que ficava exatamente no mesmo lugar em que estivera sentada a bruxa velha do pesadelo, movia-se lentamente fazendo o assoalho de madeira ranger, como se houvesse alguém a se embalar tranqüilo, apesar de estar completamente vazia.

A moça, de um salto, acendeu o abajur que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama e firmou o olhar embaçado: a cadeira continuava a mover-se lentamente.

Nesse instante, vindo do banheiro que tinha sua porta fechada, um chilro sussurrado de vozes misturadas invadiu o quarto, fazendo zunir a cabeça da jovem.

Possuída pelo horror, Marisa tateou o rosto no local onde fora tocada pelo monstro do pesadelo arrepiando-se ao sentir uma chaga indelével em sua face esquerda.

Com o sussurro sobrenatural intermitente, deslocou-se até a porta do banheiro e lentamente forçou-a para dentro, fazendo com que se abrisse num ranger pavoroso.

A cena era horrível!

Dentro do cômodo retangular jazia afogada na latrina com os membros rijos e azulados uma jovem nua de cabelos negros parecidíssima com a irmã que Mariza perdera tantos anos atrás na enchente que arrasara sua família. A anciã diabólica e o homem corpulento de pele lívida e feições deformadas estavam também caídos em decúbito dorsal com os olhos esbranquiçados vidrados no teto. De suas bocas escorria uma repugnante água amarronzada típica das correntes fluviais lamacentas. O líquido espalhava-se por toda a área do banheiro em que se prostravam os três defuntos.

Eram os cadáveres de seus parentes que voltaram do outro mundo trazidos pela inundação do temporal molesto em busca do aconchego familiar perdido para as águas da tempestade maldita que anos atrás assolara o recôndito de seu lar.

Autor: Rodrigo Bispo

Eu sou terapeuta e o meu paciente vai ser o próximo atirador em uma escola (Paciente #107) - Parte 2

Dia 17 de Dezembro

O que você faria se soubesse do 11 de setembro no dia pouco antes de acontecer? Ou Newtown? Ou Vegas?

Como você impediria de acontecer sem parecer um completo lunático?

Algumas pessoas me sugeriram falar com a mãe do Alex. Eu tentei, mas ela disse para eu me afastar ou pediria uma ordem de restrição.

Alguns disseram que eu era um péssimo terapeuta e que eu deveria mandar ele para outra pessoa. Eu não culpo essas pessoas. Esperem até ouvirem de meus outros pacientes.

Alguns sugeriram um 5150 (hospitalização involuntária). Provavelmente foi a melhor ideia, mas eu sou obcecado por ter o controle e acho que eu sei mais sobre o Alex do que qualquer um poderia aprender em 72 horas. Qualquer coisa involuntária só pioraria a condição dele. 

Alguns sugeriram que eu o matasse. Honestamente, passou pela minha cabeça. Não foi meu melhor momento.

Alguns disseram para eu ficar em casa hoje, mas eu não conseguiria fazer isso. Eu não conseguiria ser o próximo terapeuta ou vizinho ou amigo dando entrevista, remoendo sobre como todos os sinais estavam aparentes e como a tragédia poderia ter sido evitada, de algum jeito.

Não poderia fazer isso. Não quando a vida de crianças estavam em perigo.

Para dar algum crédito para a escola, eles contrataram dois seguranças armados, e ambos ficaram do lado de fora do meu escritório enquanto Alex e eu nos sentávamos para começar nossa sessão.

Dadas as circunstâncias, eu não conseguiria estar mais tranquilo do que eu estava. Os seguranças o revistaram todo e tomaram sua mochila. Além do mais, cada segundo que ele passava aqui significava um segundo a mais que ele não estava lá fora. 

"Alex," comecei. "Precisamos falar sobre o que aconteceu semana passada."

Ele estava de cabeça baixa e não falava nada.

"Você não cancelou nossa sessão." eu disse. "Sua mãe não queria você aqui, mas você veio mesmo assim. Posso assumir que você tem repensado?"

Alex levantou os olhos, mas não fez contato visual. "Não vou dizer nada sobre semana passada." ele disse. "Eu sei que você, provavelmente, colocou câmeras aqui."

Meu estômago revirou. Ele não estava errado.

"Okay." eu disse. "Que tal falarmos de outra coisa?"

"Tipo?"

Eu mordi meu lábio e resolvi ir de cabeça. "Seu pai."

Finalmente, seus olhos encontraram os meus. Eles estavam vermelhos, arregalados e exaustos.

"Que que tem ele?"

"Ele foi embora há muito tempo, Alex." eu disse. "Mas acho que você ainda sofre por isso."

"Eu não sofro por isso." ele disparou. "Estou feliz por aquele babaca ter ido embora."

"E Emma?" Perguntei. "Quando ela te rejeitou, deve ter causado algum tipo de sofrimento. Eu vi isso durante o mês passado. Você estava machucado, Alex."

"Eu não estou sofrendo!" ele segurou forte a cadeira. "Ela é só mais uma puta estúpida. Eu não dou uma foda para o que ela pensa."

"Raiva é uma reação completamente normal para dor." eu disse. "Especialmente quando é uma dor recorrente."

"Você quer calar essa boca sobre dor e sofrimento?" ele se levantou da cadeira. "Eu sou um milhão de vezes melhor que a Emma e meu pai.. e melhor que você também!"

Eu respirei fundo e continuei sentado. "E o vazio? O tédio? A solidão?"

"Que?" ele ainda estava de pé, mas agora parecia um animal preso. "Do que você está falando?"

"Todo dia você se sente vazio." eu disse. "Desconectado do mundo e das pessoas ao seu redor. Você sente como se nada tivesse sentido ou motivo. E se conseguíssemos mudar isso?"

Seu rosto ficou rosa e ele, finalmente, abaixou a voz um pouco. "Não podemos."

"Claro que podemos." eu disse. "Inúmeras pessoas antes de você sofreram dessas feridas e inúmeras pessoas se curaram delas."

"Besteira de psicólogo."

Eu mordi meus lábios de novo. Droga, por que eu fiz isso? Terapeutas não devem ter tiques.

"Mesmo que o mundo todo seja sem sentido e falso, como machucar os outros iria ajudar em alguma coisa?"

"Eles merecem. São bullies. Me tratam como se eu não fosse nada."

"Às vezes, quando temos traumas de abandono e rejeição, a gente continua achando isso em vários lugares, mesmo onde não tem." eu disse. "Mas Emma não é uma bully por não querer um relacionamento. Então o que você ganharia machucando ela e os amigos dela?"

Ele pensou nisso por um momento e respondeu. "Eu seria o Deus deles por um dia."

"Mas esse não é o jeito de conseguir fama e reconhecimento." eu repliquei. "Digo, ninguém lembra os nomes dos atiradores depois de Parkland. Nós ficamos anestesiados contra essa coisas agora."

Ele franziu as testas e moveu um pouco a boca. Eu notei que ele tentava replicar e provar que eu estava errado, mas não conseguia pensar num argumento.

"Tudo que peço é que você dê uma chance ao meu jeito" eu me inclinei em direção a ele. "Nós podemos transformar o vazio em um preenchimento de coisas boas. A desconexão em conexão. O que temos a perder?"

Ele andou pela sala sem falar pelo que pareceu uma eternidade.

Finalmente ele parou e o ouvi resmungando "Okay."

Meu coração se encheu de alívio. Eu tinha acabado de reduzir o tratamento de um ano dele em uma conversa de cinco minutos, mas, pelo menos, estávamos chegando em algum lugar.

Mas então, ele adicionou. "Mas..."

Sem mas, por favor. "Alex, eu estou totalmente comprometido a te ajudar para atingirmos o nosso objetivo." eu o interrompi antes que ele tivesse tempo de mudar de ideia. "Mas rápidas sessões como essa não o suficiente para resolver o problema para sempre. Talvez você esteja com esperança agora, mas isso pode mudar hoje à noite, ou amanhã, ou semana que vem."

"O que quer dizer?"

Eu o olhei diretamente nos olhos. "Eu quero você sob vigilância 24 horas. Sete dias na semana." eu disse, decidido. "Você concordaria com hospitalização voluntária? Eu vou tirar licença da escola para passar cada segundo contigo. Para te ajudar a se sentir bem de novo."

Ele olhou para o chão e depois para a porta. "Não fará nenhuma diferença."

"Claro que vai!" eu disse. "Nós vamos..."

"Não, eu quero dizer que eu não sou a pessoa que você tinha que enrolar mais."

Eu franzi a testa. "O que quer dizer?"

"Obviamente eu não conseguiria trazer armas para a escola. Não com os guardas me vigiando de perto. Então nós tivemos que mudar nossos planos depois que você encontrou a calculadora."

"Que?" eu balancei a cabeça. "Alex, que é 'nós'? Que plano?"

"Minha parte era te distrair e manter os guardas nessa parte do prédio."

"Distrair?" eu repeti, com o coração acelerado. "Distrair de que?"

"Até que ele alcançasse a biblioteca."

Antes dele terminar a frase, eu saltei e fui correndo para acionar o alarme de incêndio.

Mas o alarme já estava soando.

Paciente #107 - Arquivo 2 de 3.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!




Desafiei Meu Melhor Amigo a Pôr um Fim na Minha Vida [PARTE 3]

Parte 1


Olá a todos,

Como eu esperava, não tive tempo suficiente para escrever sobre o que aconteceu durante o dia antes de postar, então deixei o post como estava e o enviei naquela noite, como você viu no final da Parte 2.

Alguns de vocês apontaram que eu digo repetidamente que “comecei a escrever este post”. Escrevo-os quando tenho tempo, não todos de uma vez. É por isso que eu menciono isso repetidamente. Desculpe pela confusão.

Houve alguns outros erros gramaticais que foram apontados. Desculpe, o estresse está aumentando um pouco no momento. Na verdade, é extremamente alto. Não analise meus erros. Neste momento é muito fácil cometê-los.

Antes de falar sobre o que aconteceu desde o meu último post, vou contar meu hiato de um ano depois que Isaac foi morto. Pode ser desnecessário, mas sei que muitos de vocês estão esperando e querem ouvir sobre isso.


Quando cheguei ao apartamento depois que minha mãe veio e me libertou da prisão, Zander me disse que Isaac havia sido assassinado. Quando eu ouvi isso, eu quase surtei.

Na verdade, eu surtei. Vomitei na rua. Minha mãe, que estava lamentavelmente comigo, só podia assistir com horror. Ela estava chateada, para dizer o mínimo, que eu estava envolvido em um plano de assassinato. Demorou muito tempo para eu explicar a situação para ela. Ela simplesmente não podia acreditar.

Uma vez que eu estava calmo, Zander levou-me a alguns passos longe da minha mãe enquanto discutíamos nossas próximas opções.

"Você deveria sair da cidade por um tempo", sugeriu Zander. "Eu não quero que você seja o próximo alvo."

A ideia de que David tentasse me matar me atingiu novamente. Gente, eu sei que entrei como fodão no final do post de Zander, mas isso foi depois de meses superando esse momento. Quando você descobre que alguém realmente pode vir matá-lo, isso muda as coisas. Uma vez que você entende completamente a ideia, ela te horroriza. Eu tive pesadelos por algumas semanas.

"Você deveria ir e ficar com sua mãe. Vou ajudá-lo a encobrir sua localização." Ele ficou em silêncio quando um policial passou onde estávamos. Observou o policial com desconfiança até que ele se foi.

"Vamos fazer David ver isso enquanto você me abandona, e ele vai pensar que está ganhando."

"Ele não está aqui, no entanto. Não sabe por que eu parti. Ele vai ficar desconfiado", eu disse. Zander sacudiu a cabeça.

"Não se atreva a olhar, você entendeu?"

Eu balancei a cabeça, meus cabelos da nuca se arrepiando.

"O complexo de apartamentos do outro lado da rua. Terceiro andar, segunda janela do lado oeste. David está assistindo de lá."

Eu não pude evitar. As lágrimas voltaram imediatamente.

"Jesus Cristo", eu disse através das minhas lágrimas. "Ele está aqui?!"

"Quieto", Zander disse. "É perfeito. Você tem que fazer uma cena. Sua mãe tem que fazer uma cena. Você tem que sair com raiva."

Zander me contou como entrar em contato com ele mais tarde. Nesse momento, eu pulei para trás e comecei a gritar com ele. Foi uma atuação muito boa, modéstia a parte.

Corri para minha mãe e a expliquei sobre nosso plano através de um pretenso abraço de conforto. Ela confiou em mim, graças a deus. Ela também gritou com Zander e nós fomos embora, esperando que estivéssemos a salvo de David King.

Minha mãe entendeu e confiava na minha necessidade de sigilo. Papai se foi alguns anos atrás, então éramos apenas nós dois nos mantendo conscientes da segurança. Por recomendação da minha mãe, saímos apenas um mês depois. Formei uma corporação com o estado e essa corporação assinou nosso contrato. Eu tive meu primo atuando como agente registrado. Não era um disfarce perfeito, mas acrescentava alguns passos extras para localizar nossa casa.

Minha mãe é incrível. Ela entendeu que David era louco e que ele tinha uma fixação inabalável em Zander e, por padrão, em mim. Ela também fez sua própria pesquisa e fez sugestões para ajudar a melhorar nossa segurança.

Zander não se atreveu a falar comigo pessoalmente, o que foi o melhor. Nós nos comunicamos on-line por meio de mensagens criptografadas na noite em que ele estava no Walmart e enquanto ele estava em fuga. Ele tinha lentamente acumulado alguns telefones descartáveis comprados no shopping e nós os usávamos toda vez que precisávamos conversar. Ele me atualizava sobre os últimos movimentos de David, e eu atualizava minha pesquisa de acordo.

Quando Zander fugiu, insisti que ele viesse conosco, mas ele se recusou a nos colocar em perigo novamente. Enquanto ele estava fora, eu estava fazendo muitos dos meus próprios preparativos. Zander sabia que, eventualmente, teríamos que lutar diretamente contra David. Isso significava que nós dois tínhamos que nos preparar como ele.

Eu já estava bem musculoso, mas comecei a treinar ainda mais. Fiz algumas aulas de defesa pessoal além de malhar. Também encontrei dois novos empregos para me manter ocupado. Zander continuou me dizendo repetidas vezes para estudar também e aprender sobre fraudes de cartão de crédito e roubo de identidade, computadores e qualquer outra coisa para combater David. David usou o sistema contra nós, então tivemos que aprender como contornar isso.

Em um momento de honestidade brutal, vou lhe dizer que me esforcei para me importar com esses tópicos. Zander poderia absorvê-los em minutos e aproveitar o estudo. Eu odiava esse estudo. Eu tentei, de verdade, mas não tinha o mesmo fascínio que Zander. Eu compensava enviando dinheiro quando podia. Mas não podia lutar contra David em um nível intelectual.

Trabalhei duro durante esse tempo, no entanto. Ia a ambos os meus trabalhos, trabalhei e fiz o meu melhor para manter a minha privacidade e da minha mãe. Eu compartilharia meus métodos, mas com Zander ausente, não sei o que é seguro compartilhar. Só mencionei alugar um apartamento em nome de uma empresa porque nos mudamos desde então e mudamos de tática.

Um dia, Zander me ligou do nada e teve uma ideia. Uma ideia sobre como prender David King. Foi aí que chegaram seus últimos posts.

Eu era muito cético sobre isso. Havia muitas coisas que poderiam dar errado ou não funcionar. Zander foi insistente, no entanto. Ele disse que estava estudando David há tanto tempo que o conhecia bem. Ele alegou que David constantemente procurava na web por seu próprio nome como um maníaco egoísta. Se o nome dele aparecesse no Reddit, ele não seria capaz de resistir à leitura.

Mas para que ele encontrasse, precisava ser popular o suficiente.

Zander estudou esse plano. Quero dizer, ele REALMENTE estudou. Ele disse que olhou para outros meios de publicação e tentou encontrar os que funcionariam melhor. Eu não me importava muito em escolher o meio certo, eu estava apenas pronto para fazer minha parte.

Antes de Zander publicar a Parte 5, ele me contatou novamente. Nós nos encontramos com muito cuidado. No momento em que essa parte foi publicada, a popularidade de seus posts era suficiente. David acompanhou a história. Agora era a hora de começar os preparativos.

Zander já havia selecionado o antigo depósito antes mesmo de postar a série. Ele mostrou para mim, e eu concordei que seria um bom lugar para um confronto. Havia a sala de controle que poderia fornecer um encontro de perto, e o resto do armazém fornecia cobertura caso as coisas ficassem feias.

Ajudei-o a desmontar as outras escadas que levavam à sala de controle, trouxemos algumas caixotes de madeira extras que ele havia comprado para dar mais cobertura e autenticidade, e limpamos a sala. O gerente anterior havia deixado toneladas de fotos nas paredes, cadeiras e outros móveis. Nós removemos tudo, exceto pelas duas mesas pesadas, porque elas não cabiam na porta.

Zander passou óleo na porta do escritório e eu acorrentei todas as outras entradas. Ele instalou uma fechadura que não estava enferrujada na porta e, em seguida, bateu nela para que ela se misturasse.

Depois que terminamos, fizemos o que podíamos para cobrir nossas atividades. Zander trouxe um balde de terra e nós jogamos em torno de onde pisamos.

David King era um filho da puta esperto. Nós tivemos que cobrir nossos rastros como se o próprio diabo estivesse procurando por algo fora do lugar.

Quando Zander me ligou para o confronto alguns dias depois,nos preparamos. E u esperei nas passarelas que se espalhavam pelo armazém. Assisti em silêncio, tentando não respirar e esperando que David não olhasse para cima. Se o fizesse, eu seria um alvo fácil e nosso elemento surpresa seria perdido.

Quando ele atirou em seu parceiro, eu quase gritei. Zander disse em seus posts que aquele era o momento em que ele surtou um pouco e a realidade se infiltrou. Foi o mesmo momento que eu quase gritei. Eu lutei para assistir depois disso: estava convencido de que ele atiraria em Katie apenas para provocar Zander.

Quando eles entraram na sala de controle, eu silenciosamente rastejei em direção à entrada. Me movi devagar. Se David olhasse pela janela, ele ainda poderia me ver. Movimentos súbitos poderiam atrair sua atenção e arruinar a armadilha.

Uma vez que eu estava fora da vista da janela, peguei meu celular e liguei para o 911. Eu disse calmamente o endereço em que estávamos e disse que tiros tinham sido disparados. Deixei a ligação correndo no meu bolso e abri a porta atrás do filho da puta do David King.


O tiro foi, em uma palavra, doloroso. Eu nunca senti nada assim em toda a minha vida. Ela bateu no meu ombro esquerdo, aparentemente quase acertando uma das minhas artérias. Ele lascou um pedaço de osso na minha clavícula, no entanto. A bala parou no meio do meu ombro porque o osso diminuiu a velocidade, e eu tive que fazer uma cirurgia para removê-la e os fragmentos ósseos.

O médico diz que vai demorar de três a quatro meses para a pele cicatrizar completamente, seis meses para o osso parar de doer, e mais algumas semanas até que eu possa tirar essa tipóia estúpida. Mover meu braço demais poderia abrir a ferida de volta.

O melhor é que ela atingiu meu ombro esquerdo, então eu não estou preso usando minha mão não dominante para tudo. Obrigado, David King.

Falando de David King, nesses poucos minutos antes de a polícia entrar, observei seu corpo sem vida. Toda a frente dele estava pingando sangue e cheia de buracos. Sua cabeça se afundou em seu peito quase como se estivesse rezando. Foi o menos gracioso que eu já vi David King. Foi gratificante saber que ele estava morto.

Infelizmente, ele nem sempre está morto para mim. Às vezes eu o vejo quando estou fora de casa. Apenas vislumbres de seu rosto em uma multidão ou em torno de um canto. Me assusta. Eu acho que tenho algum transtorno pós traumático ou algo assim.

Quando a polícia chegou, eles invadiram o depósito como tropas de assalto. Eu chamei por ajuda e eles subiram correndo as escadas. Limparam a sala em segundos e conseguiram um paramédico para ajudar a remendar meu ombro. Eles deram uma olhada longa e dura em David King. Pelo menos um dos quatro policiais o reconheceu e ligaram para o chefe.

Fui escoltado para fora da sala muito rapidamente depois disso. Tentei dizer aos policiais que havia câmeras instaladas em todos os lugares para que pudessem ver o que havia acontecido. Eu devo ter me repetido muito, porque eles ficaram irritados comigo.

Os técnicos da cena do crime já estavam chegando quando os dois médicos guiaram meu corpo para fora do prédio em uma maca que fez até mesmo as escadas parecerem que eu estava flutuando em uma nuvem. Poderia ter sido o analgésico, no entanto.

Enquanto eu estava sendo levado para a ambulância, vi Katie sentada na beira de outra ambulância. Eu tentei olhar em seus olhos, mas ela estava sentada perfeitamente em linha reta e olhando para o médico que estava inclinado na frente dela, as mãos nos joelhos.

Esta próxima parte é algo que estou lembrando apenas agora. Eu notei, mas não tinha pensado nisso até agora.

Enquanto giravam minha maca para me colocar na ambulância de cabeça, vi dois homens que saíram de um veículo escuro caminhando em direção às portas do armazém. Eles usavam jaquetas "Coroner" e carregavam sacolas dobráveis. Um que eu não conhecia. O outro sim. Era Jackson, nosso antigo colega de quarto.


A polícia veio me interrogar no hospital depois da cirurgia. Zander foi, é claro, muito longe. Já fazia dois dias que os médicos deixavam que eles me interrogassem. Eu tive uma pequena infecção durante a cirurgia, então eles não deixariam a polícia falar comigo imediatamente.

A polícia me disse que eles encontraram todas as câmeras que eu estava falando no local e que estavam processando os dados. Eles queriam ouvir meu lado da história e me perguntaram onde Zander estava. Eu disse a eles que esperaria até ter um advogado. Fui informado de que nenhuma acusação estava sendo feita contra mim, então um advogado não seria necessário.

Felizmente para mim, não acreditei neles e insisti em um advogado. No dia seguinte, eles me acusaram de cúmplice de homicídio voluntário, possivelmente assassinato. Pelo menos eu não tinha dito nada incriminador.

Desde então, fui liberado para casa com uma tipóia e ataduras e disse para descansar. Eu dormi muito, conversando com Zander de vez em quando apenas para ouvir que ele estava bem. Eu li os comentários também, muitos dos quais me fizeram rir. Obrigado a todos.

Isso resume bem o meu hiato, então vou voltar a contar o que aconteceu nos últimos dois dias.

De manhã, chamei Katie para dizer que ia ver Hernandez. Ela insistiu em ir junto, então fomos juntos para a delegacia. Eu informei a minha mãe onde estaríamos antes de decolarmos. Levamos o HD de David e os três relatórios policiais conosco.

Devo acrescentar que quando minha mãe e eu nos mudamos, mudamos algumas cidades para longe de onde o cenário de David King caiu. Então, ver Hernandez seria uma viagem de um dia inteiro.

Durante o passeio de carro, perguntei se ela havia encontrado algo interessante nos computadores de Zander. Ela balançou a cabeça. O resto do passeio de carro foi praticamente em silêncio. Isso me deprimiu. Nós costumávamos ser bons amigos e agora não conseguíamos ter uma conversa decente.

Chegamos no meio da tarde e entramos na estação. A moça da recepção nos indicou a escrivaninha de Hernandez, e nos sentamos para esperá-lo, já que ele parecia estar fora para o almoço. Aproveitei a oportunidade para começar a escrever este post enquanto esperávamos. Katie ficou perfeitamente imóvel e olhou para a frente.

Enquanto esperávamos, o telefone de Zander tocou de novo.

M4N513THO: Onde está Zander?

Eu mostrei para Katie, que me disse para ignorá-lo novamente. Relutantemente obedeci.

Hernandez chegou meia hora depois carregando um almoço tardio.

"Clark", ele cumprimentou. "Katie", disse surpreso. Sentou.

"Oi, detetive", eu disse, afastando o telefone de Zander.

"Como está seu ombro?" Ele perguntou, apontando para minha tipóia.

"Bom o suficiente", respondi.

"E Katie, bom te ver", ele acrescentou cautelosamente.

"Igualmente", ela disse em um tom neutro.

"Estamos aqui pra falar sobre Zander", eu disse.

Seu rosto caiu.

"Ainda não há notícias dele?" Ele perguntou.

"Não muito", eu disse. "Encontramos o seu esconderijo mais recente, mas está cheio de mais perguntas do que respostas."

"O que você achou?" Ele disse, tirando um hambúrguer da bolsa. "Por favor, ajudem-se com algumas batatas fritas." Ele as empurrou para nós. Eu comi algumas, mas Katie balançou a cabeça.

"Três computadores, seu telefone, alguns relatórios policiais e o HD de David King", eu disse.

Hernandez abriu bem os olhos.

"O HD de David? Clark, se ele acabou de deixar o HD lá..." ele insinuou.

"Eu sei. Pode haver algo errado", eu disse. "Sem mencionar o fato de que algum maromba idiota me atacou lá."

"O que?" Perguntou Hernandez. Eu contei a ele sobre o ataque e sua mandíbula.

"O que há com vocês que sempre acabam sendo alvos?" Ele acusou.

"Estamos aqui por causa dos relatórios policiais", disse Katie, puxando-os do colo e abrindo-os na mesa de Hernandez. Hernandez se inclinou e olhou para eles.

"Zander tinha uma versão digital, mas eles estavam todos apagados", eu expliquei enquanto ele olhava. "Nós assumimos que eles vieram de um banco de dados da intranet da polícia."

"Não posso verificar se eles vieram da intranet ou não, se não estou designado para um caso relacionado", disse Hernandez. "Eu preciso de permissão, e duvido que consiga."

Ele examinou os relatórios.

"Você conhece algum deles?" Katie perguntou enquanto ele pegava outro relatório. "Havia mais algumas referências a outras pessoas nas anotações de Zander, mas ele tinha os relatórios policiais para essas".

Hernandez trancou o relatório policial de Jack. Ele pegou e leu-o completamente.

"Você conhece Jack Hemsey?" Eu disse casualmente.

Ele olhou para nós, seu rosto calculista. "Sim, eu sei", disse ele.

Nós dois nos inclinamos.

"Nem uma palavra sobre isso pode vazar", disse ele em um sussurro, dando uma olhada casual ao redor. "Entenderam?"

"Hernandez, claro", eu disse. "Você pode confiar em nós."

Ele sussurrou em voz muito baixa. "Jack Hemsey foi o parceiro que David King atirou no armazém."

"Filho da puta", eu sussurrei. "Eu aposto que os outros dois são mais alguns dos amigos de David."

"Não tire conclusões precipitadas sobre os outros nomes", disse Hernandez.

"Por que mais eles estariam aqui?" Eu disse.

"Eles poderiam ser vítimas", Hernandez explicou. "Por enquanto, guarde seu julgamento."

"Claro", eu disse de forma neutra. Eles ainda eram vilões para mim.

"O que você sabe sobre o bar em que todos tiveram uma briga?" Katie perguntou. "O bar fica aqui, nesta cidade."

Desculpe a todos. Não irei nomear o bar ou a cidade em que estávamos. Mas deve-se notar que o bar estava na mesma cidade onde Zander viveu quando David começou o desafio.

"O bar recebe chamados de vez em quando sobre brigas, assim como a maioria dos bares", comentou Hernandez. "Eu fui a alguns chamados várias vezes. Não há nada de especial lá. Também não é longe daqui, então é um bar comum".

O silêncio caiu sobre nós por um momento.

"Eu quero ir e ver o esconderijo de Zander", disse Hernandez.

"Nós tiramos tudo", disse Katie bruscamente. "Não sobrou nada."

"E isso é tudo o que você encontrou?", Perguntou Hernandez.

"Sim", eu disse. "O resto está na minha casa."

Katie de repente me beliscou. Eu vacilei e olhei para ela. Um oficial veio até a mesa de Hernandez naquele momento, colocando um arquivo em sua cesta.

"Tenho outro caso", disse ele antes de sair.

Hernandez suspirou. Ele ergueu o dedo para nós esperarmos enquanto abria a pasta e olhava através do conteúdo.

"Bem, merda", disse ele, resignado.

"O que?" Eu perguntei.

"Nós temos tido um problema com assaltos ultimamente. Homens de diferentes idades que estão sentados em seus carros ou de pé na rua de repente são atacados e espancados severamente. Todos os valores são roubados. Com base na parte da cidade em que estão, Nós suspeitamos que eles são cafetões da prostituição.

"Não podemos provar nada, é claro, mas é um pressentimento. Alguém está mirando neles e fazendo um trabalho muito cruel."

"Ok, e daí?" Katie disse impaciente.

"Significa apenas que tenho que ir", disse Hernandez, terminando sua bebida. "Eu tenho que ir fazer uma entrevista secundária com a vítima."


Ok, todo mundo. Os eventos estão agora no passado. Estou tentando te deixar atualizados, e lamento não ter conseguido fazer isso muito rapidamente. Entre toda a pesquisa que estou fazendo agora e digitando com um membro do T-Rex, está indo devagar. Eu vou chegar lá, no entanto. Eu prometo. Não importa o quanto seja difícil ficar motivado. As coisas não acabaram, mas chegaram ao ápice.

-Clark


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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

Meu filho pediu para eu checar se tinha um monstro no seu armário


Recentemente passei por um divórcio bem pesado, mas consegui ficar com a única coisa que me importava: A guarda total do meu filho de quatro anos. 

Perdi quase todo o resto no processo, então tivemos que nos realocar para uma nova casa com quase nada de móveis ou pertences em nossas malas.

Um novo começo, no sentido mais real possível da expressão. 

Eu o ouvi me chamando na primeira noite em nossa nova casa. Era pouco depois da meia noite, acho. Fui checá-lo para ver o que tinha acontecido e me sentei ao lado de sua cama.

Ele estava totalmente desperto e pediu para que eu checasse se haviam monstros no seu armário, o que não era algo surpreendente dada tais circunstancias.

Ele era apenas uma criança pequena, e até sem levar em conta toda a merda que teve que passar por causa da bosta do meu casamento, se mudar para uma casa desconhecida, com quase nenhum móvel devia ser bastante coisa para alguém da sua idade absorver.

E sabe como dizem que seu cérebro sempre fica meio acordado quando você está dormindo em um local novo, certo?

Isso foi tudo o que passou pela minha cabeça num piscar de olhos assim que meu filho falou.

Não era grande coisa. Tudo estava normal, pensei.

Mas imediatamente alguma coisa fez um 'click' dentro do meu cérebro, antes mesmo que eu pudesse olhar para onde meu filho tinha apontado enquanto ele fazia seu pedido inocente.

Algo estava errado.

Virei a cabeça e olhei, e tive que me segurar em tudo que havia dentro do meu ser para não ceder ao medo e ao terror, tudo pelo do meu filho. 


Quando você gera uma criança, precisa proteger seus filhos, não importa o que aconteça, sempre se colocando em perigo, se isso for necessário, e poupá-los de todos e tudo que possa machucá-los.

É por isso que não surtei. Eu não podia, não quando mal tínhamos começado nossa nova vida. Tinha que protegê-lo e, naquele momento, quando me sentei em sua cama, eu só sabia de uma coisa:

Nós precisávamos sair do quarto.

Nós precisávamos sair da casa imediatamente.

"Tudo bem, carinha, é claro" Falei, fingindo coragem. 

Então fiz um pedido quando abaixei meu tom de voz e me aproximei dele:

“Ei, que tal você sair por um minuto? Se houver um monstro lá, vou ter que chutar a bunda dele daqui." 

Ele riu e disse "".

Fiz questão de colocar um pouco mais de ênfase na palavra "bunda", porque é algo que sempre o faz rir quando falo daquele jeito. Felizmente ele se prendei a essa palavra e não ao fato de que eu estava indiretamente admitindo a possibilidade de realmente haver um monstro lá.

Assim que ele saiu do quarto, minha mente começou a correr tentando montar a melhor e mais eficiente estrategia para tirá-lo da casa enquanto pegava as chaves do meu carro e o celular enquanto saíamos.

Quando ouvi as portas do armário se abrindo lentamente atrás de mim, percebi que era partir.

Pulei da cama, saí do quarto e peguei meu filho no colo. Nós estávamos do lado de fora e dentro do carro em movimento menos de um minuto depois.

Eu disse a ele que não conseguia dormir, então estávamos saindo para tomar um sorvete para comemorar. Ele ficou um pouco surpreso e perguntou "comemorar o que?", ao que eu respondi "De estarmos só nós dois juntos. Eu te amo, meu amor".

Não era de forma alguma uma mentira, mas eu só tinha que ter certeza de que ele estava bem e não pensaria em mais nada enquanto literalmente fugíamos da nossa nova casa.

Como mencionei anteriormente, a casa era um ambiente  novo para nós dois. Eu estive lá algumas vezes antes, limpei tudo sozinha e organizei os poucos móveis que tínhamos, então eu sabia o que ficava aonde.

E eu sei que no quarto dele não tinha um armário.


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O Veio de Prata

– Hoje posso dizer que já nem me lembro muito bem do que se passou naquela tarde de travessia pelo maldito lago. Aquilo foi há muito tempo e os fiapos de memória custam a se entrelaçarem em minha mente.

– O fato é que foi tudo muito estranho, sobretudo triste. Quantas vidas perdidas!

“Passavam das dez horas da noite quando o estranho homem de cabelos dourados como a palha do celeiro chegou ao mosteiro. Era o jovem ajudante do comissário de polícia, Alfredo. O homem, visivelmente alterado, trazia notícias não muito animadoras. Seu cavalo espumava de cansaço.

Ao que tudo indicava, um fazendeiro havia afogado toda a sua família na correnteza do riacho que borbulhava farfalhante ao pé da pequena colina onde no cume jazia sua casa. Aparentemente o assassino teria perdido a sanidade durante uma caçada em que havia se afastado demais de casa. Voltara maluco da viagem e como estivesse possuído por entidades maléficas, num acesso de inexplicável ira violenta, afogou sua esposa e dois casais de filhos, tratando de esquivar-se do peso da tragédia por atravessar os próprios miolos com uma bala de sua carabina momentos após o ocorrido.

A essa época a imagem dos vilões – como eram conhecidos os aldeões de hoje em dia – não era lá muito boa por essas bandas da cidade. E sempre que eles se envolviam em acontecimentos bizarros como o narrado pelo esbaforido Alfredo, nós do Prelado de Santo Tito éramos convidados para que, por livre e espontânea pressão, fôssemos até o local bendizê-lo e afastar as ‘malignidades’ restadas dos atos de vilania.

A verdade era que a agência de polícia inteira simplesmente paralisava-se de medo ante a mais ínfima menção a todo e qualquer fato que fosse de sua competência e tivesse sido levado a cabo naquelas regiões longínquas dos campos.

Acalmei o tal Alfredo e lhe disse que sairíamos na manhã seguinte para que não se protelassem os desígnios da tão opulenta justiça local.

Assim que o homem foi embora mandei acordar todos no mosteiro. Teríamos um dia cansativo amanhã e não queria membro algum do séquito atrasando os demais quando começasse a jornada.

Tratei de arrumar tudo antes que a madrugada caísse serena sobre o teto de palha do templo.

No plúmbeo amanhecer seguinte lá estávamos nós: dois Anciãos, eu e mais um, quatro Meados – como são chamados os ajudantes eclesiásticos daqueles –, seis guardas monges e treze Pedantes.

As Pedantes eram mulheres ditas puras por terem devotado, senão toda, pelo menos a grande maioria de suas vidas aos mistérios do antigo Culto de Tito. Essas verdadeiras andarilhas podiam caminhar por horas a fio simplesmente recitando versos litúrgicos sagrados. O que, segundo os Ensinamentos Altos, afastava o mal de qualquer espécie. Os homens do séquito que se dirigiam para os locais a serem abençoados fazendo sua guarda iam sempre a cavalo, por razões óbvias, contudo, essas mulheres iluminadas, segundo os costumes de seu credo, somente se deslocavam quando em serviço sacro a pé. E daí o nome de sua Ordem: as Pedantes de Tito.

Bem, o que interessa é que essa chusma de vinte e cinco pessoas estava pronta e preparada para a longa e infausta viagem a tal fazenda da morte.

Partimos às seis da manhã seguinte à visita estrepitosa de Alfredo. Fazia um frio tremendo e tiritávamos enquanto atravessávamos as longas planícies que perfaziam a região.

O ramerrão das Pedantes era monótono e cadenciado, de modo que marchávamos naquele compasso rígido e lúgubre.

Ao nascer do segundo dia de caminhada nos encontramos com um exíguo veio de águas prateadas que corria apertado por entre suas margens escarpadas vindo de uma cadeia de montanhas a oeste. O pequeno córrego deslizava com agilidade e profusão através de seu leito. Imaginamos logo que aquele seria o início do tal riacho onde a família pretérita fora dizimada pela asfixia e nos felicitamos com a esperança de estarmos cada vez mais perto de nosso destino.

Resolvemos então seguir o curso do riacho e nos encontramos ao cair da tarde com uma densa mata de árvores revoltas e cheias de vida. A floresta estendia-se ao sul até onde nossas vistas avermelhadas de cansaço alcançavam.

Preferimos estancar a caminhada na entrada dessa mata e aproveitar a luz solene do ocaso de maneira a facilitar nosso começo de noite na orla do denso florestal.

Passamos uma noite rápida e mais quente que de costume devido à massa verde que guardava de maneira bastante eficaz o calor do astro rei para alimentar as vidas que a compunha.

Por volta das duas da tarde daquele fatídico dia o nosso guia aquoso havia se transformado num caudaloso riacho que se alargara quase instantaneamente tomando toda a extensão do terreno a frente.

Aquilo atrapalhava tudo.

Não havia sequer indício longínquo de que existisse por ali fazenda alguma. Logo, teríamos de dar a volta para alcançar a planície dourada pelas plantações de trigo do outro lado da agora gigantesca massa d’água.

Dei ordem para que prosseguissem e as Pedantes, mecanicamente, sem nem ao menos modificarem o tom de sua antífona, puseram-se a chapinhar nas terras inundadas em torno da lagoa. Aquelas mulheres eram mesmo disciplinadas.

Caminhamos sob o sol escaldante e o mormaço infestado de mosquitos daquele brejo. Nossas sandálias afundavam na lama ribeirinha e acabamos por nos cansar como se estivéssemos a caminhar nas areias do Saara e tanto mais depressa.

Instei a comitiva a parar para matar a sede nas águas cristalinas do riacho e banhar suas faces no líquido fresco de modo a reavivar as forças exauridas pela caminhada extenuante.

Os guardas, que estiveram todo o percurso a cavalo contentaram-se em apenas completarem suas botas d’água. As Pedantes por seu turno ajoelharam-se na terra fofa e alagada e levavam as mãos à água lavando os rostos vermelhos do sol e

matando sua sede. Bebemos todos e nos refizemos um pouco com a frescura da água boa do lago.

O problema é que não tardamos a nos arrepender do tal ato.

Por motivo a nós não revelado, parecia que aquelas águas tão belas e doces tinham-nos envenenado. Minutos após termos retomado a caminhada e enquanto ainda recitava suas preces infinitas uma das Pedantes simplesmente despencou por sobre suas companheiras que em sua frente seguiam.

Ao ver que uma delas havia tombado as outras preladas automaticamente interromperam sua ária sorumbática e voltaram-se todas no mesmo instante para a mulher togada que fremia e virava as vistas espojando na lama como que possuída por mil demônios.

As mulheres agiram tão rapidamente quanto os monges que nos faziam a guarda e num intervalo curtíssimo de tempo a moribunda estava sendo retirada da lama por um punhado de mãos caridosas que lhe dominavam o estertor doentio.

Colocamos a mulher, que agora desfalecera completamente, deitada sob a sombra de uma árvore a certa distância da margem do lago que acompanhávamos. Ocorre que segundos após termos aninhado a Pedante desacordada sob a umbrela do arvoredo, uma outra freira arremessou-se contra o chão coberto de palha vomitando e gemendo de forma terrível. Seus olhos viravam diabolicamente nas órbitas. A ela seguiu-se outra e mais outra, até que em instantes toda a nossa caravana rugia e embolava-se por entre as folhas como um bando de cachorros que rolassem na carniça. Só eu permanecia senhor de mim.

Imediatamente juntei as mãos crispadas tocando o nariz com a ponta dos dedos médios e submergi meu desespero em orações. No vale verdejante e vívido a luz oblíqua do sol poente esvaía-se em raios tépidos e rutilantes. Enquanto que nas sombras daquelas árvores éramos obliterados um a um por aquela força estranha.

De repente senti que me fora arrebatada a capacidade respiratória. Minhas veias incendiaram-se e meus nervos se retesaram completamente. Minha coluna hirta infeccionou-se de imediato e caí sob o arroubo da morte evidente que me convulsionava os movimentos de forma involuntária.

Sofri os rigores destes sintomas por alguns minutos e então finalmente libertei-me das garras da dor e estanquei retorcido e morto sob a sombra dos galhos que ocultavam o céu escarlate.

Até aí as coisas correram dentro de seus limites naturais. Fomos envenenados por alguma substancia oculta na água do lago maldito e em virtude disso falecemos todos. Temos uma situação triste e incomum, mas natural.

O estranho mesmo foi quando abri de repente os olhos sob o luar amarelado que se erguia refletido nas águas turvas e imóveis do lago.

Divaguei por uns momentos com a mente dormente e os pensamentos convulsionados. Um inseto que caminhava em meu rosto atravessou-me a face esquerda causando um formigamento estranho enquanto andava. A sensação me despertou imediatamente.

Joguei o animal pra longe com um gesto rápido e me levantei com dificuldade. Apoiei-me no tronco da árvore sob a qual jazi não sei por quanto tempo. Uma coruja piava.

Olhei em volta desnorteado e pensei divisar ao longe uma das Pedantes caminhando tropegamente a alguns metros de mim por entre a folhagem agreste.

Chamei-a mas minha voz não saiu. Então, como se imitasse a figura titubeante que caminhava tesa em minha frente, dirigi-me com dificuldade na direção dela. Porém, antes que alcançasse a silhueta trôpega, tropecei em algo e me projetei para frente com tal impulso que espatifei-me fragorosamente na camada seca de folhas que cobria o chão úmido.

Com o tombo percebi que estivera até então surdo, pois mina audição voltara. E com ela o alarido da estranha canção diabólica que ecoava por entre troncos sombrios e lembrava nitidamente as preces outrora entoadas pelas Pedantes durante a viagem.

Saltei de lado ao reconhecer o rosto deteriorado de uma Pedante que, caída meio apoiada numa árvore, me fitava com olhos vítreos de boneca. A pobre mulher

estava apoiada no tronco pela base do pescoço torcido em contato com a madeira escura. Sua boca, retesada num movimento obsceno, jazia escancarada e ressequida.

Reconhecendo com dificuldade a fisionomia da irmã deformada, chamei por seu nome e estendi a mão trêmula na tentativa de tocar-lhe as faces acinzentadas. Ao que o cadáver – se posso chamá-lo assim – rigidamente moveu o escalavrado maxilar que escorria a secreção dos vários ferimentos ostentados e num urro grotesco e abissal aparentemente respondeu com voz soturna ao chamado.

Recolhi imediatamente a mão estendida e me afastei daquela figura hedionda instintivamente. Foi quando senti meus dedos tocarem algo úmido e esponjoso. Recuei aterrorizado e percebi que tinha enfiado a mão na goela esfacelada de um dos Meados que seguira comigo desde aquela manhã gelada em que partimos do mosteiro. O homem estava caído de bruços com o pescoço retorcido, de modo que sua cabeça jazia virada ao contrário, tendo pela frente o que antes foram suas costas. Sua cabeça e garganta estavam dilaceradas e sangrentas, mas seus olhos moviam-se sem parar nas órbitas, como se procurassem incessantemente por algo perdido no ar.

Levantei transido de horror e disparei em direção às águas escuras do lago que refletiam serenamente o luar doentio sobre o vale infausto.

Corri noite adentro enlouquecido pelo terror das diabólicas cenas e perseguido pelo odioso hino mortuário que ressoava intermitente. Não sei de onde parti e nem onde havia chegado quando desmaiei de exaustão.

Sei contudo que acordei dias depois no quarto de uma ermida que ficava na encosta da montanha de onde descia o modesto córrego anteriormente citado. O abade disse que me havia encontrado dias antes meio-morto delirante e balbuciando frases desconexas caído por entre os arbusto que crescem nos arredores do poço que guarnece a abadia na encosta.

Contei a ele minha desfortuna. O homem riu-se da história e me deu um livro de orações e um rosário, além de me aconselhar repouso e reflexão. Acatei os conselhos do anacoreta e caminhava pelo pomar artificial que crescia na encosta durante o dia todo orando como uma Pedante. Fazia isso todos os dias. Mas naqueles

tempos estava completamente louco e achava que tinha mais de uma sombra quando saía à luz do sol ou mais de um reflexo quando me olhava no espelho.

Além disso, durante as noites em que a lua era cheia, ouvia a perversa ária distorcida das Pedantes ecoando nos corredores da ermida vinda das trevas externas ao meu quarto. Tinha suores noturnos e ouvia coisas. Algumas vezes cheguei mesmo a ver imagens trôpegas a caminhar no pátio da capela com seus movimentos rígidos dignos da monstruosidade que avistei naquele dia fatídico há meses passado.

Certa manhã porém, enquanto caminhava pelo pomar recitando minhas orações, divisei uma criatura furtiva que se movia por entre as árvores com movimentos mecanizados como os de um pássaro. Uma não, duas.

Meu coração disparou no peito e me escondi atrás de uma árvore próxima. O que significava aquilo? Será que uma daquelas bestas havia encontrado o baluarte da ermida e me seguira pelas veredas do pomar?

Esperei que as aberrações se aproximassem, e quando isso aconteceu, gadanhei um toco seco que estivera caído ao meu lado e avancei no momento em que passavam com seus movimentos demoníacos ao meu lado. Na fúria cega do horror desferi dezenas de golpes até que seus corpos inertes estivessem completamente destroçados. E ai, como ainda me reprovo por tal feito!

Quando dei por mim e larguei do porrete com que esmagara o crânio dos malditos demônios, percebi que eles não eram ninguém menos do que o abade da igrejinha e seu Meado que caminhavam tranquilamente por entre o arvoredo. Dominado pelo desespero e tomado de um arrependimento monstruoso pelo que havia feito, caminhei friamente em minha loucura até o poço onde outrora fui encontrado e sem cerimônias me atirei buraco abaixo.

Isto aconteceu um dia e meio antes da chegada dos agentes de polícia que vieram inspecionar os chamados recebidos em face das lamentações noturnas de que se queixavam moradores das fazendas próximas ao tal riacho onde houvera fenecido toda a minha comitiva.

Como o poço em que me jogara não continha água suficiente para que me afogasse, simplesmente dilacerei-me por completo, quebrei uma perna e um braço e

fiquei como morto naquela água gélida pela totalidade das horas que se seguiram até que a polícia chegasse.

Fui resgatado pelos homens do comissário que me trouxeram de volta para a cidade. E percebendo minha total ausência de razão, internaram-me naquele maldito hospício doentio, morbidamente perplexo e lânguido.

Demorei a me recuperar dos ferimentos que sofrera por causa da queda no poço. E minha mente jamais foi a mesma. Os demônios que se vestiram dos corpos de minha comitiva ainda me atormentam e posso ouvi-los rastejando no corredor entre as celas durante as noites soturnas que passo aninhado nesse cubículo nefasto a que me encontro preso. São criaturas infernais nascidas do pesadelo para assombrar a vivência dos homens. O cântico funesto que se repetia no interior do vale ainda molesta meus dias e noites.

Contudo, em que pese o grande intervalo de tempo, voltei a concatenar frases de modo lógico novamente e hoje consigo exprimir meus pensamentos de maneira compreensível. Por isso na semana passada esteve aqui um homem de cabelos cor-de-palha que dizia ser comissário de polícia querendo me fazer algumas perguntas. Seu nome era Alfredo. E por um breve momento pensei que também o conhecesse, mas me enganei.”

– Por isso estou aqui lhe dando este depoimento, senhor magistrado. E por tudo o que acabo de lhe contar, hoje chamam aquela passagem na floresta de cancela das lamentações.

Autor: Rodrigo Bispo

Eu sou terapeuta e o meu paciente vai ser o próximo atirador em uma escola (Paciente #107) - Parte 1

Eu tenho tratado o Alex há quase um ano, mas algumas vagas ameaças começaram perto do dia de Ação de Graças.

Ele se apaixonou por uma garota chamada Emma, mas ela não sentia a mesma coisa por ele. Típico drama adolescente. O problema era que ele não desistia. Ele ficava chamando ela pra sair e ela rejeitava ele sempre.

Ele reclamava dela toda semana. Dizia que ela não gostava dele, que ela enganava ele, que os amigos dela zombavam dele, esse tipo de coisa.

Eu sugeri que ele desse espaço para ela e ele se estressou e começou a gritar como todas as mulheres eram putas.

Não era a primeira vez que ele ficava irritado assim. Essa irritação repentina foi o motivo que a mãe dele mandou ele para mim. Ele tinha um histórico de explosões de raiva e comportamentos antisociais, o que levou outros estudantes a excluírem ele.

Mas essa foi a primeira vez que eu senti medo do Alex. Ele tinha um olhar sinistro e parecia incrontrolável, como se ele não fosse mais ele mesmo. E não era apenas raiva. Era uma exaltação sinistra.

Quando ele voltou na outra semana, ele parecia mais calmo, mas isso só fez eu me sentir mais desconfortável. Eu tentei comentar casualmente que ele parecia mais feliz naquele dia e ele simplesmente disse que tinha "entendido tudo".

Eu perguntei o que ele queria dizer com aquilo, mas ele respondeu com um sorriso de canto de rosto.

Sabe quando você tem a sensação que algo terrível vai acontecer, mas você não quer acreditar nisso? Foi essa sensação que tive a noite toda.

Alguns meses atrás Alex era apenas um adolescente perturbado que tinha dificuldade de fazer amigos. Ele tinha muita raiva do seu pai por ter abandonado a sua família, mas as pessoas podiam trabalhar e superar isso. Esse é meu papel.

Mas agora alcançamos outro patamar.

Na sessão da ultima quarta feira, eu fiz algo que eu não me orgulho. Algo que poderia custar meu emprego. Eu pedi para a recepcionista da escola interromper a sessão e chamar o Alex para atender um telefonema.

No momento que ele saiu, eu comecei a fuçar a mochila dele. Encontrei coisas normais de um estudante, como cadernos e fichários. Eu folheei as páginas, mas não encontrei nada além de anotações de aula.

O que eu estava fazendo?

No fundo da mochila dele eu encontrei algo. Era uma daquelas calculadoras gráficas antigas. Eu a tirei da capa e dei meu máximo para me lembrar das aulas de álgebra na escola.

PRGRM. Era o que usávamos para nos divertir com a calculadora.

O primeiro programa se chamava EMMA. Eu o abri, com o coração pulando como louco:

1- QUEM
2- ONDE
3- QUANDO

Eu apertei (1).

Emma, Christine, Sara, Chris. Depois disso, o máximo que conseguirmos. Precisamos de mais de 20 para entrarmos no top 10.

(2)

Provavelmente na aula de química. Talvez a biblioteca, quando ela tiver no período livre dela, junto das outras desgraçadas.

(3)

17 de Dezembro. Bem antes do natal, como em Newtown. Estragar as festas de fim de ano para todo mundo.

Com as mãos suando, fui pegar meu telefone para tirar uma foto. Nessa hora, a porta se abriu.

"O que está fazendo?" Alex se jogou para frente e pegou a calculadora da minha mão.

"Alex, nós precisamos..."

"Você não pode mexer nas minhas coisas" ele murmurou. Então, ele arrumou a mochila e saiu furioso da minha sala.

Merda. Pensei. Merda. Merda. Merda.

Primeiro, eu liguei para a polícia. Eles vieram me interrogar e falaram que tomavam aquele tipo de acusação muito seriamente. Eles perguntaram se eu tinha tirado fotos da calculadora. Não. Alguns segundos a mais teriam feito toda a diferença.

Então eu falei com a escola. Eles disseram que iam ajudar a polícia na investigação.

Mas, ontem a noite, a polícia me informou que eles concluíram a investigação e não encontraram nada que fosse motivo de preocupação.

Claro que não encontraram. Alex sabia que eu ia entregar ele, então ele apagou tudo.

Nossa próxima sessão é amanhã, a última antes do dia 17 de Dezembro.

Ele ainda não cancelou.

Paciente #107 - Arquivo 1 de 3.

Fonte

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

Desafiei Meu Melhor Amigo a Pôr um Fim na Minha Vida [PARTE 2]


Olá à todos novamente.

Obrigado pelo forte apoio e sugestões. Estou lendo cada um e esperando que algumas das suas previsões sejam verdadeiras, e algumas sejam falsas. Vou direto ao ponto e continuar atualizando a sequência de eventos da noite anterior até esta manhã.

Ia ligar para Hernandez logo depois de postar minha última atualização, mas tive outra ideia.

Fui para a casa de Katie em vez disso. Eu teria ligado, mas não tinha o número dela. Seu comportamento calmo de antes me fez pensar que ela seria a melhor pessoa para abordar isso. Hernandez poderia ter criado uma cena de crime e levado todas as provas que eu encontrara.

Eu não toquei em nada no esconderijo de Zander antes de sair. Achei que era melhor que Katie visse como era quando eu cheguei.

A casa de Katie fica a cerca de uma hora do esconderijo de Zander, o que é bastante sorte, considerando todas as outras opções para esconderijos que são muito mais longe.

Bati na porta dela às 9 da noite e sua mãe assustada abriu a corrente presa na porta. Demorou um momento para conseguir a permissão para falar com Katie. Katie agiu ainda mais sem expressão do que antes de sua mãe. Mas seus olhos se aguçaram quando a mãe dela nos deixou sozinhos na sala de estar. Nós nos sentamos no sofá, de frente um para o outro.

"Encontrei onde Zander estava se escondendo", eu disse baixinho. A casa de Katie era tão silenciosa quanto uma cripta, e todas as portas que eu via estavam fechadas. Isso me fez querer falar em um sussurro.

"Estava se escondendo?" Disse ela.

"Eu não sei quanto tempo ele se foi, mas o celular dele foi deixado no chão."

"O celular dele?"

"Sim", eu disse, tirando do meu bolso. Entreguei a ela. Ela abriu e mexeu um pouco. É um Samsung Galaxy S4 para quem se importa. Ah, outro fato preocupante, o telefone dele não tinha uma senha definida. Antes costumava ter.

"O que você está procurando?" Eu perguntei.

"Novas fotos, novos textos, novos e-mails, correios de voz, gravações de voz, qualquer coisa útil", disse ela. "Qual era o percentual de bateria quando você conseguiu?"

"...O que?"

"A bateria estava carregada? Em um nível médio? Acabando?" Ela esclareceu.

"Estava em... eu não sei, acho que 45%?" Imaginei. Lembrei-me de ver que a bateria estava na metade da barra de status.

"Tudo bem", ela respondeu. "Você alterou as configurações? WiFi? Dados móveis? Executando aplicativos? Você reiniciou ou carregou desde que conseguiu?"

"Não", eu disse. "Eu encontrei, olhei um pouco em sua conta do Reddit, postei nele, depois dirigi para sua casa."

"Tudo bem", ela disse. "Leve-me ao esconderijo."

Eu a levei até lá e chegamos lá em uma hora. No caminho, carregamos o celular no meu carro. Atingiu 100% antes de chegarmos. Ela me pediu para mantê-lo desconectado e não usá-lo até chegar a 45%.

Nós subimos pela janela do segundo andar e descemos até o porão. Katie estendeu o braço quando nos aproximamos da porta.

"Fique aqui", ela disse, entrando lentamente na sala. Ela pegou o telefone e começou a tirar fotos. Como se fosse... uma cena de crime.

"Katie, o que você não está me dizendo?" Eu disse, minha voz falhando na minha garganta. Sua atitude introduziu um medo que agora estava sugando minha força.

"No momento, nada importante", disse ela em uma voz distraída. Então tirou várias fotos. "Mas estou me certificando de que podemos descobrir onde ele está."

Depois de um longo tempo de fotos e lentamente movendo as coisas para levar mais, Katie me deixou entrar.

Ela estava folheando uma pilha de papéis em cima de uma CPU.

"O que você está procurando?" Eu perguntei.

"Padrões. Nomes, lugares ou datas que aparecem mais de uma vez. Obviamente Zander estava procurando por algo. O que ele estava trabalhando aqui embaixo? Você sabe?"

"Espere", eu disse. "Você está completamente a par de tudo o que aconteceu depois que você estava... depois de você... você sabe?" Finalizei a frase, fraco.

"Eu li os posts do Reddit", disse ela.

Fiquei surpreso. "Sério?"

"Terminei de ler alguns dias depois que o último foi publicado. Estou ciente do que aconteceu, até onde esses posts continham a verdade", disse ela, virando-se para mim.

"Eles não são totalmente precisos", eu disse. "David King estava lendo, então escrevemos com cautela."

"O desgraçado do David King, pelo que entendi", disse ela com um leve sorriso. "É melhor você me atualizar."

Nós nos sentamos e eu contei a ela sobre o que aconteceu depois que ela foi sequestrada. Vocês conhecem a maior parte da história através dos posts de Zander. Não vou tomar o tempo para elaborar agora. Muita coisa aconteceu, e se eu escrever o que aconteceu comigo durante esse ano, esta atualização será longa demais. Mas no próximo post, vou ter certeza de incluí-la, se puder.

Enquanto conversávamos, o celular de Zander chegou a 45%, então Katie me informou por que ela me fez carregar o telefone e deixá-lo descarregar. O telefone demorou 3 horas para chegar ao percentual de bateria, o que significava que Zander tinha uma vantagem de 3 horas desde que eu encontrei o telefone. Eu tenho que admitir, estou impressionado com a metodologia dela.

Eu terminei de atualizá-la, e muito disso não era novidade para ela.

O fato de que levou apenas 3 horas para a bateria cair era estranho. Analisamos os aplicativos em execução e encontramos vários programas personalizados que são executados nele. Dava pra ver que eram personalizados pois tinham ícones em branco e os títulos eram estranhos.

Coloquei o celular de Zander de volta no carregador e comecei a escrever este post enquanto Katie clicava nos computadores e olhava para os papéis na mesa.

É longo e lento para digitar quando um braço está em uma tipóia. Depois de um tempo escrevendo, o celular de Zander soou com uma mensagem. Era um aplicativo de mensageiro anônimo, não um texto.

M4N513THO: Onde está Zander?

Eu olhei para Katie, que ainda estava olhando para o computador.

"Katie. Zander recebeu uma mensagem", eu disse. "Ou melhor, nós recebemos uma mensagem."

Ela olhou para mim. Seus olhos se estreitaram quando colocou de lado o mouse e se levantou. Ela se aproximou, puxou o telefone das minhas mãos e olhou para a tela. Seus polegares se contraíram como se quisesse responder.

"O que devemos dizer?"

"Até sabermos quem é, nada", disse ela.

"Mas não saberemos quem eles são, a menos que perguntemos", eu disse. "Eles já conversaram antes?"

"Não há histórico de conversas", disse Katie.

"Poderia ter sido excluído. Eles poderiam estar falando sobre coisas importantes, então ele excluiu a conversa."

Ela encolheu os ombros e entregou o telefone de volta para mim. "Não responda. Se qualquer outra mensagem aparecer, diga-me. Enquanto isso, é hora de fazer as malas."

"Fazer as malas? Vamos mexer nessas coisas? Katie, sério, me diga o que você sabe sobre isso!" Eu fiquei com raiva. "Você não está me contando tudo! Você tratou este lugar como uma cena de crime! Está jogando uma pista de lado como se tivesse encontrado uma velha embalagem de doce! Você sabe de alguma coisa!"

Ela parou, olhando na direção oposta.

"Eu tenho procurado através de tudo e tudo que você fez foi pesquisar e escrever posts no Reddit para que algumas pessoas soubessem o que está acontecendo", ela acusou.

"Eles foram úteis da última vez, talvez eles sejam úteis agora", argumentei. Ela balançou a cabeça.

"Zander deixou todos esses papéis ao redor, bem como vários computadores e você mal os tocou. Enquanto isso, eu tenho lido."

"E?" Eu perguntei impaciente.

"E Zander estava atrás de algo."

"O que ele estava fazendo?" Eu disse, começando a ficar frustrado.

"Eu não estou completamente certa ainda. Mas ele tem alguns relatórios policiais que me preocupam."

"Relatórios policiais?"

Katie me entregou uma pilha de pastas. Eu as coloquei na cadeira e comecei a olhar através delas uma de cada vez.

"Os crimes listados aqui são pequenos e simples. Multas aqui e ali, intimações, uma advertência por uma briga, mas nenhuma prisão. Eles deixaram o menor de uma trilha, mas grande o suficiente para encontrar", disse ela.

Eu li os nomes em cada relatório. Três pessoas. Sophie Atrikson. Jack Hemsey. Kraig Munson.

"Encontrei referências a outras pessoas nas anotações de Zander", disse Katie. "Eles não têm registros policiais, no entanto."

"Quem são eles?" Eu perguntei estupidamente.

"Não tenho certeza. Não há fotos incluídas também. Mas se Zander estava olhando para elas, elas provavelmente são importantes."

"Então, o que fazemos?" Eu perguntei.

"Tente correr. Alcance Zander. Descubra o que ele sabe. Descubra quem são essas pessoas e por que Zander as estava pesquisando. Ainda temos HDs inteiros para vasculhar. Espero que eles tenham algumas respostas."

"E a pessoa que acabou de trocar mensagens?"

"Ela poda ser um aliado ou um inimigo. Nós não respondemos até sabermos qual deles é. Mas a mensagem também me preocupa."

"Por que isso te preocupa?"

"Comece a empacotar tudo. Se eles perguntarem onde Zander está, isso significa que eles sabem que temos o celular dele."

Eu congelei. Ela estava certa. Eles poderiam saber onde estávamos.

Nós dois embalamos rapidamente, formando uma pilha no quarto. Consistia em três CPUs, três monitores, teclados e mouses, além de uma pilha de pastas e papéis de três polegadas. Nós carregamos cada CPU no andar de cima rapidamente e as colocamos na janela do segundo andar. Tirei minha tipóia para ajudar a transportar coisas. O tempo era mais importante do que um ferimento de bala devidamente curado.

"Isso vai ser uma merda", eu comentei, olhando pela janela e debatendo se devia ou não colocar meu braço de volta na tipóia. Meu ombro estava doendo um pouco. Transportando três computadores de uma vez? Horrível.

"Eu vou descer primeiro. Precisamos ter certeza de que não há ninguém por perto. Gostaria que tivéssemos estacionado a alguns quarteirões de distância", disse Katie, subindo pela janela. "Se alguém estiver aqui, eles saberão que estamos também."

"Bem, depressa", eu disse. "Quanto mais tempo estivermos aqui, mais nos arriscaremos a encontrar o lugar, se ainda não o tiverem feito."

Katie desceu e correu pela casa. Sentei e escutei a noite. Não havia carros, apenas os sons ambientes dos subúrbios.

Ela apareceu na janela alguns minutos depois.

"Estamos limpos", ela disse, começando a sussurrar. Foi quando comecei a ficar paranóico. Sussurrar me deixa no limite em situações tensas.

Eu abaixei uma CPU na unidade de CA. Katie pegou e colocou na grama ao lado dela. Repetimos o processo para tudo o que estávamos fazendo.

Quando tudo estava no chão, saí e caí na grama. Cada um de nós pegou uma CPU e rastejou pela casa até o jardim da frente.

Ouvindo sons, paramos e nos agarramos à parede. Meu carro estava estacionado bem na frente, um movimento estúpido do ponto de vista de segurança. Minha ansiedade me deixou descuidado.

Nos atiramos no gramado silenciosamente. Peguei minhas chaves e abri a porta do passageiro de trás. Colocamos os computadores dentro, silenciosamente fechando a porta antes de voltar para as outras peças.

Uma vez que o carro foi ligado, entramos.

"Merda, o celular", eu disse, sentindo meus bolsos. Meu próprio celular me confundiu, fazendo-me pensar que eu tinha o celular de Zander no bolso.

"Cadê?" Katie disse, num sussurro.

"Eu deixei na cadeira!" Sussurrei de volta. "Mova o carro algumas quadras para baixo. Eu vou voltar e pegar." Joguei as chaves enquanto corria de volta para a casa. Ela ligou o carro e foi embora quando me aproximei da janela.

No porão, o celular estava exatamente onde eu o deixei. Eu peguei, enfiei no bolso e comecei a subir as escadas. Foi quando ouvi passos acima de mim.

De alguma forma, duvidei que Katie tivesse voltado procurando por mim.

Saí do quarto e examinei o porão, procurando um esconderijo. O porão estava inacabado mesmo no quarto em que estávamos. Isso não me ajudou. Havia algumas tábuas aqui e ali, mas era isso. Nenhuma mobília ou qualquer coisa à vista.

Corri de volta para o quarto, o único cômodo com qualquer mobília. Havia uma cama velha onde eu poderia me esconder, a mesa que estava caindo aos pedaços, uma cadeira em que eu estava sentado e um banquinho perto da mesa.

Passos começaram a descer as escadas.

Eu entrei em panico. Tudo o que tinham que fazer era virar as escadas e me veriam. Minha decisão foi tomada. Peguei o banquinho e joguei na janela.

Ele quicou e caiu no chão fazendo um estrondo.

Merda.

Os passos correram pelo resto das escadas.

Eu me virei para enfrentar o invasor. Um homem enorme entrou correndo no quarto.

Mergulhei para a esquerda quando ele chegou. Caí em direção à porta e corri para as escadas. O dedo do homem mal escorregou dentro do colarinho da minha camisa. Um som de engasgo escapou da minha garganta quando eu fui puxado para trás. Voltei para o quarto e caí no chão. Meu ombro doeu bastante e fiz uma careta. Essa maldita tipóia iria atrapalhar. Deslizei meu braço para fora enquanto estava de pé, mas a deixei pendurada no meu ombro.

O homem estava me observando silenciosamente, seu corpo em uma posição pronta, mas não atacando. Ele bloqueou a porta com os braços abertos. Eu peguei o banquinho novamente devagar, mantendo entre nós dois. O que ele estava esperando?

Ele fingiu uma investida, mas eu vi o que era. Eu aproveitei a oportunidade enquanto ele recuava e girava.

Meu ombro doeu quando joguei o banquinho na janela novamente, desta vez colocando toda a minha força para trás. A janela quebrou.

Corri para frente, me puxando pelo peitoril da janela. A mão dele agarrou minha perna, fazendo-me esmagar meu rosto contra o vidro e pedras na janela também. Eu olhei para trás e dei um chute no nariz dele. Ouvi um som de algo se quebrando e estava livre.

Alguns segundos depois eu já estava fora, com as mãos sangrando por ter pulado pela janela. A janela pela qual saíra abría-se para o quintal. Meus pés deslizaram pela grama desalinhada enquanto eu fazia uma corrida louca em direção à frente da casa.

Cheguei à frente e hesitei por um décimo de segundo. Meu carro foi embora, obviamente, mas outro carro estava na frente da casa. Era um Honda Accord verde escuro. Era discreto, mas definitivamente não era um carro velho. Olhei para a placa enquanto corria para onde Katie tinha dirigido. Eu tentei o máximo que pude memorizar o número.

Depois que eu estava a algumas casas de distância, a figura maciça do homem saiu correndo do pátio e pulou no carro. Eu mergulhei em um jardim antes de seus faróis serem acionados. Eles passaram direto por mim e eu rolei para cima imediatamente. Se eles começaram a circular pelo bairro procurando por mim, eu estava fodido. Eu tinha que sair dali agora.

Katie havia estacionado o carro a três quarteirões de distância. Eu estava completamente sem fôlego quando cheguei lá. Abri a porta do passageiro e mergulhei para dentro.

"Dirige!" Eu gritei. Katie foi embora. Peguei meu telefone.

"O que aconteceu? O que você está fazendo?" Ela exigiu mais e mais.

"Cale-se, cale-se!" Eu gritei, digitando o número da placa que eu estava cantando na minha cabeça. Enviei como uma SMS para mim mesmo. Seguro.

"Alguém estava lá", eu ofeguei, colocando minha cabeça contra o encosto de cabeça. Coloquei meu braço de volta na tipóia também. Estava realmente doendo agora.

"O que?" Katie disse, preocupada.

"Ele entrou quando eu estava pegando o telefone."

"Ele só... entrou? Eu pensei que você disse que a porta estava barricada?"

"Eu não sei! Eu não subi! Ele veio até o quarto e me confrontou. Tive que quebrar uma janela para sair! Ele correu atrás de mim, entrou em um carro e foi embora!"

Eu respirei fundo antes de segurar meu celular e sorrir. "Tenho o número da placa, no entanto."

Katie nos dirigiu em círculos e ziguezagues por umas boas duas horas. Eu estava exausto e adormeci de vez em quando. Nós também passamos por algumas cidades como parte da evasão. Ela queria ter certeza de que não estávamos sendo seguidos.

A noite estava silenciosa e escura enquanto nós dirigíamos. Enviei uma mensagem para minha mãe, deixando-a saber que eu estava seguro e saindo com um amigo. Katie não se incomodou em enviar mensagens de texto para sua mãe ou seu pai.

"Seus pais não vão surtar porque você está fora tão tarde?" Eu perguntei.

"Não", ela respondeu secamente.

"Você foi ... embora ... por um ano inteiro, e eles não estão entrando em pânico toda vez que você sai de casa?" Eu perguntei rudemente. "Isso não parece certo."

Katie pisou no freio e parou. Eu cerrei meus dentes, preparando-me para a tempestade de fogo.

"Eu fui sequestrada." Ela enunciou na minha cara. "Pode falar! Não dance em torno do assunto como se fosse um vaso caro. Eu não sou frágil, você pode dizer a palavra. Jesus Cristo. Todo mundo tem sido assim, especialmente meus pais. Eu tive que dizer a eles para deixarem eu lidar com isso do meu jeito. Eles me deixam fazer o que eu preciso fazer agora, então eu não preciso me explicar para eles. Eles confiam em mim para cuidar de mim, e você também deveria!"

Ela estava respirando pesadamente. Meus olhos estavam presos bem abertos, minha mandíbula apertada.

"Sinto muito", eu disse baixinho.

Ela fechou os olhos. "Eu também. Estou passando por muita coisa ultimamente", ela admitiu, sentando de volta. Então voltou para a estrada de duas pistas entre as cidades.

"Eu confio que você pode cuidar de si mesma", eu disse depois de alguns minutos. "Você se comportou bem até agora."

"Obrigado. Você foi bem lá também", ela elogiou de volta. "Agora, se Zander puder aguentar também..."

"Tenho certeza de que ele está bem", eu disse. Eu parecia esperançoso, não confiante.


Chegamos à minha casa depois de mais meia hora brincando de "não me siga, porra". Nós escolhemos ir a minha casa porque eu tinha passado por todas as medidas extras de segurança para esconder minha casa.

Apresentar Katie à minha mãe foi... interessante.

"Ei, desculpe por ficar fora tão tarde", eu disse quando entramos na sala e a encontramos acordada com a TV ligada. Eram quase quatro da manhã.

Nós dois pousamos as CPUs que estávamos carregando.

"Eu nunca me lembro de chegar em casa às 4 da manhã carregando computadores quando saí com meus amigos", minha mãe disse com um sorriso de brincadeira.

"Esta é... Katie", eu disse, apontando para ela. "Katie Simonds."

Os olhos da minha mãe se arregalaram. "Aquela Katie?" Ela sussurrou para mim, vindo até nós do sofá. Eu visivelmente encolhi os ombros como um pedido de desculpas para Katie.

"Sim, mamãe", enfatizei.

"É... bem, é bom conhecer você", disse a mãe, aproximando-se para apertar a mão de Katie. Katie sorriu normalmente.

"Prazer em conhecê-la também", disse ela.

"Nós temos um... problema", eu disse.

"Eu acredito em você", disse a mãe. "Que tipo de problema?"

"Um problema de Zander."

Mamãe suspirou.


Nós trouxemos o resto dos computadores, e minha mãe tentou nos convencer a descansar. Katie e eu nos recusamos. Quanto mais descansávamos, mais à frente Zander chegava. Nós não sabíamos se ele estava com problemas, ou apenas sendo um cuzão heróico.

Passamos algumas horas cada um clicando nos arquivos em dois dos computadores. O terceiro computador continha o HD criptografado de David. Nós inicializamos, mas a senha nos barrou. Esperávamos que Zander tivesse escrito a senha em algum lugar em seus outros dois computadores.

Eu não ousei conectar qualquer um dos computadores à rede. Apenas para garantir. Eu não sei se já disse isso antes, mas Zander é melhor que eu com computadores. Eu não tinha como saber se conectar à rede acionaria um sinal para nossa localização.

Olhando através dos computadores, parecia que Zander tinha um processo de pensamento similar. Ele havia baixado páginas inteiras em HTML e sites para visualização off-line. Algumas páginas eram sobre assuntos legais, como homicídio culposo e casos anteriores que continham situações semelhantes. Obviamente ele estava lendo sobre sua própria situação.

Outras páginas continham artigos de notícias, páginas da Wikipédia sobre diferentes tópicos, documentos de especificações técnicas e todos os tipos de outras coisas que eu não entendo. Também analisamos o celular e todas as contas em que ele havia entrado. Até mesmo sua conta na Amazon teve algumas compras interessantes. E não, isso não é uma insinuação sexual!

Eu linkaria você para essas páginas, mas não sei o que é importante e o que não é. Eu não quero revelar nada do que possamos nos arrepender depois. Desculpe a todos.

Katie relatou que encontrou as mesmas informações no computador que estava usando. Não sabemos por que ele está usando dois computadores para as mesmas coisas. Alguém tem alguma ideia?

Em seu computador, havia versões digitais dos relatórios policiais que tínhamos. Estes eram pesquisáveis ​​e provavelmente vieram de um banco de dados da polícia de alguma forma. Exceto a versão digital diferiu da versão em papel. A versão digital continha menos informação. Os nomes dos indivíduos, suas informações pessoais e todas as citações e avisos foram bloqueados na versão digital. Era como se alguém pegasse o relatório no photoshop e arrastasse a borracha sobre as partes que não queriam.

"Alguém não queria que soubéssemos sobre esses três", comentou Katie.

Todos os três relatórios policiais tinham uma seção que se referia a brigas individuais em um bar. O relatório era tão comum, no entanto, que não fazia sentido. E daí? Sophie, Kraig e Jack estiveram em brigas antes, grande coisa.

Katie foi a única a salientar que o bar era o mesmo em todos os três relatórios, e que as datas para os três estavam próximas: dentro do mesmo mês. Todos eles ocorreram há mais de um ano e meio, mas o padrão era estranho.

Minha mãe estava lendo os relatórios físicos da polícia enquanto clicávamos nos computadores. Ela exigiu fazer parte. Eu alegremente cumpri simplesmente porque ela já sabia sobre a provação de David King. Ela pode ver algo que nós ignoraríamos.

"Fique com sua tipóia", ela disse distraidamente quando eu comecei a tirá-la. Escrever notas era irritante com uma mão agindo como uma garra do T-Rex.

Eu relutantemente continuei, mas fui me sentar e dar um tempo. Foi quando comecei a escrever esta parte. Katie ainda estava fazendo anotações furiosas enquanto eu escrevia. Eu devo ter adormecido no meio do caminho, no entanto.

Acordei agora e continuei escrevendo isso enquanto Katie dorme no que deve ser a posição mais desconfortável do mundo. Ela está caída no encosto do sofá, pernas penduradas nas costas e rosto na almofada do assento.

Minha mãe deve ter voltado para a cama depois de um tempo.

São 10 da manhã agora e deixarei Katie dormir por mais algum tempo antes de acordá-la. Temos mais o que fazer hoje antes que Zander fique muito à frente.

Acho que vou falar com o Hernandez hoje e ver se ele sabe de mais alguma coisa. Vou trazer os relatórios da polícia e perguntar se ele conhece esses três.

Não sei se terei tempo para atualizar todos vocês sobre o que acontece ao longo do dia hoje. Eu sei que é apenas a manhã, e eu tenho um dia inteiro antes de poder postar esta atualização, mas não sei se terei tempo para escrevê-la rapidamente. Se eu não tiver tempo, vou postar o que tenho.

Zander, mais uma vez, se você estiver vivo e bem, me mande uma maldita mensagem. Estou preocupado. Estamos todos preocupados. E cansados.

-Clark



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