Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
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Domingo
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Ela vendia felicidade no pote

O cartaz dizia, "Felicidade! Vendida em um Pote de Vidro! Peça hoje!" e em baixo desse texto, um número de telefone. 

Estava andando para casa depois de um dia exaustivo de trabalho quando vislumbrei aquele cartaz grampeando em um poste de luz. Tirei uma foto por achar divertido.

Queria mostrar para minha esposa assim que chegasse em nosso apartamento, mas acabei começando a fazer meus afazeres e esqueci sobre - janta, louça, roupas sujas, arrumar o lanche da filha, colocá-la para dormir, depois guardar os brinquedos que estavam espalhados pela sala - toda noite, a mesma rotina. 

No dia seguinte, acordei dormindo de costas para minha esposa. Eu sempre acordava mais cedo do que ela para ir trabalhar, então me arrumei e sai na ponta do pé.

No trabalho, eu estava atualizando um relatório dos últimos gastos da empresa. Todos os dias eram parecidos. Estavam me pagando basicamente para ficar nove horas na frente de um computador e colocar alguns números em uma planilha. Terminei meu trabalho rapidamente, então decidi ir embora mais cedo - ser Sexta também ajudava, e várias pessoas vão embora mais cedo no fim da semana. 

Na volta para casa, estava pensando o que minha vida tinha se tornado. Fazia isso com frequência. Sempre sonhei em viajar quando mais novo. Queria dirigir pelo país ou fazer mochilão pela Europa. Então conheci Kelsey. Não me entenda errado, eu amava Kelsey. Quero dizer, ainda amo. Só não temos mais aquela faísca. Quando conhece alguém e entra em um relacionamento, mesmo se era para ser ou não, você coloca alguns planos de vida na espera. E então esse relacionamento vira casamento, e então vocês tem um bebê, então precisa colocar sua filha na escolinha, e dai precisa de um emprego melhor para pagar as contas, e assim vai e vai e vai....

Mas não estou aqui para ficar chorando minhas pitangas. Só estou dizendo que não estava feliz com onde minha vida estava. Não referiria a mim como uma pessoa feliz. 

Enquanto pegava a mesma rota que fazia todos os dias para ir e voltar do trabalho, passei pelo mesmo cartaz que tinha passado no dia anterior. Não sei porque, não sei mesmo, mas decidi ligar para o número. Achei que seria alguma pegadinha. Talvez alguém que só atenda e diga "Eu te amo!" no outro lado da linha e desligue. Ou talvez seja o telefone de uma prostituta. Não sabia bem o que esperar.

Liguei. Tocou apenas uma vez antes de atender. 

"Olá?" uma mulher disse. 

"Ãh, olá - oi, estou ligando sobre o cartaz? Seu anúncio?" 

"Ah, ótimo," disse calmamente. "Quando você quer buscar?" 

"Buscar o que?"

"O pote..." disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. 

"Ah, é claro, hm," percebi que saído do trabalho mais cedo sem falar para Kelsey, então podia muito bem ir naquele momento sem ela saber, "o que é, exatamente? Que você está vendendo?"

"Acabei de te falar. É felicidade. Em um pote de vidro. Bem como diz no cartaz. Felicidade é melhor quando guardada em um pote de vidro. São mais duradoras assim do que, sei lá, numa sacola plástica." 

"Hm, tá. A gente devia se encontrar em algum lugar?" 

"Mas é claro. Não quero que você acabe sendo um sequestrador ou algo do tipo, então vamos nos encontrar em um lugar público." 

O lugar público escolhido foi o estacionamento de um Starbucks que estava a cerca de um quilometro de mim. 

Bem, eu não achava que estava indo comprar um pote literal de felicidade ou sei lá o que. Eu estava com 99% de certeza que me venderia drogas. Talvez heroína estivesse no pote. Lembro de pensar, Ah não, 'felicidade' deve ser a gíria usada para alguma nova droga que estão usando e estou indo comprar drogas. E se ela for uma policial? Será que vou ser preso? Mas algo dentro de mim me disse para continuar, e assim fiz. 

Cheguei lá e mandei uma mensagem. 

Eu: Estou aqui.

Ela. Legal. Estou chegando. 

Eu: Que carro você tem? 

Ela: Camry Prata. 

E quando chegou sua última mensagem, vi seu carro. Pegou um lugar não muito onge de onde eu estava. Pude ver que não tinha mais ninguém no carro com ela, o que fez meu medo de sequestro desaparecer. Abriu a porta e ficou de pé no estacionamento, olhando em volta até que seus olhos cruzaram os meus. Dei um breve aceno de reconhecimento. Respondeu simplesmente acenando a mão, gesticulando para me aproximar, e o fiz. 

Era jovem, por volta de vinte e poucos, com cabelos longos dourados e cacheados. Sua pele era pálida e contrastava com sua roupa toda preta. Para mim, parecia como se Glinda, a bruxa boa do Mágico de Oz tivesse colocado as roupas da bruxa má.

"Dia bonito," disse como se fosse um cumprimento.

"Ah, sim. Não prestei muita atenção." 

"Foi você que ligo sobre o pote, né?"

"Sim, eu mesmo."

"Legal, bem, tá aqui."

Ela me entregou um pote bem pequenininho estilo de conserva. Não devia ter mais do que dois centímetros de altura. Dentro, tinha uma luz. Não uma lâmpada - apenas uma luz. Era como se algo irradiasse luz. Brilhava bastante mesmo no meio do dia. Parecia um pequeno sol, ou um pequeno universo existindo dentro de sua casinha de cristal. Fiquei admirando sem esconder a surpresa em meu rosto. 

"Foda, né?"

"O que - O que é isso?"

"Você já perguntou isso, tipo, umas três vezes, acho. Minha resposta continua a mesma. Felicidade. Felicidade em um pote de vidro." 

"O que eu faço com isso?"

"Guarde," simplesmente disse, "Se precisar de qualquer ajuda, me chama por mensagem." 

"Espera!" Falei, "Achei que você disse que estava vendendo? Quanto é?"

"Não se preocupe, cara," disse sorrindo, "você vai pagar." 

Fechou a porta e eu sai do caminho enquanto dava a ré e depois ia embora. O que diabos tinha acabado de acontecer? O que eu estava segurando? Olhei novamente o potinho, a radiação era encantadora. Coloquei no bolso e pude ver o brilho suave por baixo do tecido da calça. Comecei a andar em direção de casa.

O que era para ser apenas um belo dia agradável e ensolarado, rapidamente se transformou em um dia chuvoso, com nuvens negras envolvendo o céu. Não estava previsto chuva, senão eu teria pego o ônibus ou o metrô para voltar naquele dia. Corri para casa tentando não ficar muito encharcado. Finalmente encontrei abrigo quando cheguei ao meu prédio.

Fui até minha porta e descobri que minha chave não estava mais no meu chaveiro. Merda, não acredito que perdi de novo, pensei.

Bati na porta e disse em voz alta: "Ei, amor, sou eu, não sei o que aconteceu com a minha chave." Ouvi a porta sendo destrancada do outro lado.

Quando a porta se abriu, fui agraciado pela visão de um homem enorme, alto, gordo e de aparência gordurosa dizendo, "acho que você errou de apartamento, mano." 

"Ah!" Falei, desorientado, "desculpa, foi mal, tenha um bom dia."

Ele deu uma risadinha antes de fechar a porta.

Apartamento 33.  

Eu sabia que aquele era o meu apartamento. Eu sabia. Morava no apartamento 33 faziam 5 anos agora. Mas aquele não era o meu apartamento. Pelo que pude ver lá dentro, todos os móveis eram diferentes, era pintado de outra cor, tudo estava errado. Sentia como se tivessem batido em minha cabeça e me drogado. Naquele momento, nada fazia sentido.

Peguei meu celular para ligar para Kelsey para que pudesse me acalmar e só dizer que fiquei confuso por um segundo. Mas seu contato não estava no meu celular. Na verdade, não tinha nada no meu telefone. Não tinha nenhuma mensagem dela. Nenhuma ligação. Sem fotos. Era como se meu celular tivesse sido restaurado de fábrica. Será que aquela garota tinha trocado meu celular seu eu perceber? Podia simplesmente digitar o número manualmente, mas não conseguia lembrar. Se um dia eu soube o número decorado, agora não sabia mais. Precisava voltar ao escritório, tinha todos meus contatos salvos no meu computador. 

Por estar chovendo, subi no primeiro ônibus marcado como centro que passou na frente do prédio. Passei toda a viagem olhando meus sapatos molhados, pensando que porra era aquela que estava acontecendo. 

Temos um cartão magnético para entrar no prédio, assim somente pessoas autorizadas tem acesso. Deixo meu cartão na minha carteira. Mas, surpresa, não estava lá. Apertei no interfone que tínhamos para convidados e entrevistas, ou para empregados caso tenha esquecido seu cartão.

BZZZZ

"Oi, é o Tim, eu devo ter perdido meu cartão. Meu crachá é..." Parei por estar com a mente em branco. 

Uma voz soou pelo interfone, "Tim, acho que a ligação cortou, qual seu crachá?" 

"Hm, não consigo lembrar, eu-"

"Tudo bem, só diga seu nome completo e seu departamento."

"Ãh, financiamento. Estou no financiamento. Meu nome é Tim Brooks. 

"Um segundo."

Cerca de trinta segundos depois, o homem falou novamente. 

"Não temos ninguém com o nome de Tim Brooks que trabalha nesse prédio. Você tinha hora marcada com alguém?" 

Me afastei, surpreso, quase tropeçando nos meus próprios pés. Eu tinha saído daquele escritório não fazia nem duas horas. O que estava acontecendo comigo? Sentia como se estivesse desenvolvendo Alzheimer, mas apresentados todos os estágios em um único dia. Olhei minhas mãos, sem saber se estava no corpo certo. Sentia como se o mundo a minha volta estivesse desintegrando. Não estava mais sob controle. 

Então recebi uma mensagem. Reconheci o número imediatamente, era a garota. A que tinha me dado o pote. Tinha me esquecido completamento até que vi sua mensagem. 

Ela: Oi. Como estão as coisas?

Olhei meu celular, provavelmente com cara de babaca. Fiquei com tanta raiva dela estar falando casualmente comigo. Ela sabia o que estava acontecendo. A culpa era dela. 

Eu: Que porra foi essa que você fez comigo?

Ela: O pior está por vir. 

Eu estava astronomicamente perto de apenas jogar meu telefone o mais longe possível de frustração. Tirei a jarra do meu bolso. Parecia inalterada, ainda brilhando com a mesma intensidade.

"O que diabo você fez?!" Eu gritei para o pote, percebendo que provavelmente parecia um lunático.

Enquanto olhava para o vidro brilhante, percebi uma coisa. Eu não lembrava mais como era o rosto da minha esposa. Eu sabia o nome dela. Bem, sei que começa com um K, ou talvez com C. Não conseguia mais imaginá-la em minha mente. Sabia que tinha uma esposa. Tinha, sim. Sim, porque eu tive uma filha. Eu tinha esposa e uma filha. Mas simplesmente não conseguia lembrar seus rostos - ou seus nomes ou aniversários ou qualquer memória de momentos que passamos juntos.

Sei que elas existiram. Elas existiram. Tinha acabado de vê-las naquela manhã, certo? Não conseguia me lembrar de como ela era, ou qual era seu cheiro. Onde foi o nosso primeiro encontro? Casamos, certo? E o nosso primeiro beijo? Ou minha filha - ou era meu filho? Talvez eu nem tivesse um filho. Mas minha esposa ou namorada, ela era real. Eu sabia que ela era. O pensamento estava me despedaçando. Eu não a via na minha cabeça. Não conseguia me lembrar de um único fato sobre ela.

Estava do lado de fora do mesmo prédio, mas não sabia por que estava lá. Eu trabalhava lá? Eu devia trabalhar em algum lugar. A chuva estava acompanhada por um vento frio agora. Estava chicoteando no meu rosto, fazendo meu nariz e bochechas arderem. Queria ir para casa. Queria estar com ela. Quera estar em um lugar quente Queria trabalhar em um escritório de merda que mantivesse um teto sob minha cabeça. Queria tudo. Eu estava encharcado. Estava infeliz. Não conseguia me lembrar dos meus pais ou da minha infância. Eu ainda tinha amigos? Por que eu estava na chuva?

Olhei para a minha mão. Ainda estava segurando o pote. A única lembrança de toda a minha vida que eu conseguia lembrar concretamente era sobre aquilo que a garota havia me dado. Me dizendo que era felicidade. Não trouxe felicidade. Só trouxe dor. Comprei sofrimento. Eu estava mais infeliz naquele momento do que qualquer outro momento da minha vida.

Meu telefone vibrou:

Quebre o pote, Tim.

Eu olhei para a minha outra mão. Com o sol poente e o céu chuvoso, juro que a jarra brilhava mais do que qualquer luz da rua perto de mim. Não quebrei porque estava seguindo instruções dela. Quebrei porque estava com raiva. Quebrei porque estava chateado. Eu precisava de uma liberação. Levantei meu braço acima da cabeça e o abaixei com um movimento rápido, quebrando o pote no concreto sob meus pés.

O ar frio e escuro que acompanha a chuva se espalhou como se fosse a onda de choque de uma bomba explodindo, e eu estava no epicentro. Vi a luz amarela quente de dentro do frasco se espalhar rapidamente pelo chão e subir ao céu. Era como se eu estivesse assistindo o começo do universo sendo criado - como se Deus tivesse acabado de estalar os dedos e dissesse: "que haja luz". Eu estava envolvido na luz. Não podia mais ver rua ou chuva, ou qualquer coisa escura. Senti como se estivesse mergulhando em uma estrela indo mais rápido que a velocidade da luz. Parecia estar sentado em frente a uma fogueira em uma noite fria de inverno, mas esse calor cobria cada centímetro por corpo.

E então pisquei.

Imediatamente pude sentir os lençóis embaixo de mim e minhas costas mal tocando as de minha esposa. Eu estava olhando pela janela. A luz da manhã encharcou o vidro e brilhou no meu rosto.

Levantei da cama e peguei meu telefone. Era sexta de manhã. Eu tinha uma mensagem de texto me esperando:

Me avise se precisar de outro pote :)

Peguei folga no trabalho. Entrei no quarto da minha filha e a cumprimentei com um beijo e disse que ela não precisava ir para a escola hoje. Nós teríamos um dia em família. Ela sorriu e esticou os braços com um bocejo antes de se enrolar e adormecer.

Voltei para a cama e apertei minha esposa com força. Não a soltei por horas. Nossa filha entrou no nosso quarto e acabou nos acordando - estava pulando na cama e gritando para acordarmos. Ontem eu achava isso irritante. Ontem eu podia achar muitas coisas irritantes, monótonas ou tediosas.

Mas não hoje. Hoje, eu a puxei para debaixo das cobertas entre eu e Kelsey.

Hoje ia ser um bom dia. Hoje eu estava feliz.

Competição de Perca de Peso

Então, com as datas festivas se aproximando, todo mundo está comentando o quão gordos e miseráveis vão se sentir depois do Ano Novo. Sabe como começa. Uma barrinha de chocolate inocente, talvez duas... ou então cinco enquanto arruma os doces do Halloween. Daí as crianças vão para os doces ou travessuras e de repente sua casa está lotada de doces estupendos que potencialmente podem conter laminas ou veneno dentro, então você PRECISA inspecionar, só pra ter certeza. "Ah, olha só... Skittles. Vou dar uma provadinha no arco iris..."



Depois vem o pré-ação de graças. Isso mesmo, eu disse 'pré'. É aquela época que todo mundo está tirando a poeira das assadeiras e logo o escritório está inundado de calda de amendoim, bolinhas doces de rum, e pé-de-moleque. Meu deus, como eu amo pé-de-moleque. 



"Só mais um pedacinho. Quebra um mini pedacinho. Ooops! Não quebrou direito e agora vou ter que comer todo esse pedaço enorme. Sou obrigado a comê-lo. A avó do Frank fez com tanto amor e carinho e ela é só uma idosinha. Pode ser que seja a última ação de graças dela, sabe. Esse pé-de-moleque não pode ser desperdiçado!" 



E então o próprio evento de ação de graças do escritório. Lotado e transbordando com todas aquelas delícias. 



"Ah, não. Acidentalmente encomendamos 72 tortas extras. Vamos deixá-las na área de descanso e com o tempo serão comidas..." E você sabe que serão mesmo. 



E então é ação de graças de verdade, e parece que voltamos a Roma antiga, com toda a família participando desse baquete que não acaba nunca, tudo sendo comido e reposto em um ciclo vicioso. 



Pré-Natal, Natal, festas de Ano Novo, Jogos de futebol. A lista segue.



E então a auto-depreciação. A miséria, o chacoalhar da barriga no espelho e a firme decisão de que você engordou e precisa entrar numa dieta... na Segunda. Coma bastante porcaria no final de semana e então tenha um novo começo. Quero dizer... hoje é quarta-feira ainda, e tipo, quem diabos consegue começar uma dieta na quarta? Ninguém. 



E lá estávamos, em Setembro, se aproximando cada vez mais das datas festivas em uma velocidade absurda. Depois de muita discussão com meus colegas decidimos adquirir vantagem e perder peso ANTES da loucura das festas começarem. Daí, se engordarmos de novo, estaríamos com o mesmo peso de antes e ficaria tudo bem. Sem culpa, sem vergonha e sem auto-depreciação. Ficaria tudo nivelado. 



Então estava certo. Era hora de começar. UMA COMPETIÇÃO DE PERCA DE PESO.



E já começamos faz algumas semanas. Sou eu (Andrea), Morgan do Departamento de Coleções, Kim da Importação e Exportação, meus vizinhos de cubículo do T.I Jim e Tanner, e Peggy do... não sei de qual departamento. Não sei bem qual é a função especifica de Peggy, mas ela senta perto o suficiente de mim que posso ouvir tudo que faz. E sabe o que Peggy parece sempre estar fazendo?



Comendo.



Essa garota está sempre enfiando algo goela abaixo. Não consigo nem dizer quantas vezes por dia ouço barulho de pacotes de salgadinho ou barulho de papel celofane sendo abertos enquanto faz incontáveis lanches. Ela é uma moça grandona, daquelas que sempre está dando risadinhas, rindo das suas próprias piadas. Aparenta passar o dia todo fazendo ligações pessoais e é grossa com qualquer pessoa que aprochega-a com assuntos de trabalho. Juro por Deus, parece que está aqui só para comer e scrollar pelo Facebook. É basicamente uma pessoa irritante para caralho, e estou ansiosa para ficar com seus 50 dólares da aposta. 



Esse é o jogo. 50 dólares de cada, e quem ganhar leva o bolão. Fazemos perca por quilo, calculando a porcentagem de peso perdida. Aqui estão os números iniciais: 



Eu: 75,5 Kg

Morgan: 84,3 Kg

Kim: 69,0 Kg

Jim: 110,6 Kg

Tanner: 87,0 Kg

Peggy: 170,5 Kg... e aumentando. Aposto que os números na balança dela nunca param de subir.



Então, eu tenho narrado toda essa aventura e algo está acontecendo. Todo mundo estava indo aos poucos, mas Peggy estava nos esmagando. Estávamos todos sendo colocados pra trás... mas agora, algo mudou. Algo deu errado. Eu mantive um registro por algumas semanas. Então, deixe-me compartilhar alguns dos destaques com você e retomaremos a situação atual.

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Diário de competição de dieta - Semana 1, 16/09/19 até 20/09/19

-Segunda-

Fizemos nossa primeira pesagem. Peggy está com 170,5 Kg. E sabia que não teria chance nenhuma dado seus hábitos alimentares. Sem chance nenhuma. Então, no fim do dia, ouvi ela conversando com alguém no telefone, dizendo que já havia perdido um quilo e trezentos. Mas que porra é essa? Eu ouvi barulhos de embalagem o dia todo e assisti enquanto ela colocava tipo meio quilo de queijo em cima das suas batatas fritas que comprou na hamburgueria do fim da rua. Só tem uma explicação para isso... deve ter dado uma cagada homérica em algum momento para fazer toda essa diferença de peso. 

-Terça-

Estou com fome. Muita fome. Todo mundo está com fome. Ouço o mastigar de saladas de couve, brócolis cru e cenoura, também o som de alguém tomando provavelmente uma sopa de baixíssima caloria. O microondas está vivo com opções de comidas congeladas saudáveis, e a máquina de refrigerantes fica em silêncio tristemente. 

O cubículo da Peggy recebeu DUAS tele-entregas de comida. A primeira foi chinesa, e algumas horas depois alguns cupcakes - meia dúzia, para ser mais exata - de uma doceria gourmet do outro lado da cidade. Uma hora depoIs, ouvi ela abrindo mais uma embalagem de salgadinho de queijo. Como eu sabia que era salgadinho de queijo? O cheiro é inconfundível e estou com MUITA fome.

-Quarta-

Subi na balança hoje. Perdi um quilo. Sei que não é muita coisa, mas pelo menos me sinto encorajada. O jeito que Peggy continua comendo... está ferrada. Morgan também perdeu um quilo, Kim meio quilo, Tanner um e trezentos e Jim engordou um quilo. Coitado do Jim... ama cerveja. 

Puta merda, Peggy e Kim acabaram de voltar da balança. Peggy perdeu mais dois quilos e setecentos gramas! Mas que PORRA é essa?!?! Como isso é possível? Talvez tenha lombrigas. Como se pega lombrigas, mesmo? Perguntando para um amigo...

-Quinta-

Peggy está me matando. Esse comportamento terá que pegá-la em breve. Acabou de devorar uma pizza grande sozinha, algumas horas depois de entregarem um café da manhã completo de panqueca e salsicha e molho. Eu nem sei onde diabos ela está colocando toda essa comida!

UAU. Apenas... uau. Literalmente neste exato momento estou ouvindo-a abrir um pacote Jumbo de Oreos. Sei que parece que estou a stalkeando, mas é que eu simplesmente amo Oreos. 

-Sexta-feira-

Isto é loucura. Peggy e sua testemunha acabaram de voltar da balança.Menos 3 quilos. São QUASE SETE QUILOS perdidos esta semana, em 4,5 dias. Não é mentira. Literalmente posso ver as roupas dela ficando mais largas. Ela está diminuindo. 

Comentário a parte, ela começou a colocar incenso em seu cubículo. Na verdade, não me importo com o cheiro, pois me lembra de um cara hippie que namorei na faculdade e ele sempre foi um amor... embora seus hábitos de higiene precisassem de um pouco mais de atenção. Enfim ... ela está queimando incenso e eu posso jurar que a estou ouvindo sussurrando, orando ou algo assim. Talvez eu esteja ficando louca. Quem sabe?



Diário de competição de dieta - Semana 2, 23/09/19 até 27/09/19

-Segunda-

Estamos na segunda semana. Aqui está como todo mundo se saiu durante o final de semana. 

Eu: -1,8 Kg.

Morgan: - 1,3 Kg.

Kim: - 1,0 Kg.

Tanner: - 1,2Kg, nenhuma mudança desde sexta. Acho que ele teve um almoço em família no sábado e jacou um pouco. 

Jim: +0,5 Kg...o que significa que ele perdeu um quilo no fim de semana, mas foi um dos quilos que ganhou depois que a competição começou. Ainda assim, progresso é progresso, certo?

Peggy: -9,5 Kg. 

Sim. NOVE QUILOS E MEIO. Não foi um erro de digitação. Ela perdeu mais 3 quilos no final de semana!

Já nem sei mais o que dizer aqui. Não tenho palavras. Estamos fofocando sobre isso por aqui. Quando Peggy foi ao anheiro, Morgan procurou na bolsa dela alguma pílula de emagrecer ou algo assim. Nada. A única coisa fora do normal são os incensos e uma boneca de pano que levemente lembra a própria Peggy. É uma coisa bolotudinha que nem a dona, mas a boneca foi amarrada na cintura com elásticos, pada apertá-la até ficar mais magra. Estranho.

-Terça-

- A investida dietosa de Peggy continua. Ela se empanturrou com um xis de um lugar aqui perto que é tão grande que você ganha uma camiseta se consegue terminar de comer. Mas não deve ter nenhuma camiseta no estoque que caiba nela. Ela até terminou as fritas e tomou todo seu milkshake. Não é possível que não vomite tudo em seu cubículo em breve. Vou aguardar esse momento. 

- Gente, não passou vinte minutos e ela já está comendo Oreos de novo! PARA ONDE VAI TODA ESSA COMIDA?

- São 14:00 e Kim e eu acabamos de voltar de nossa caminhada diária para queimar algumas calorias. Tenho certeza de que estava totalmente sobrecarregada de calorias para queimar depois de um almoço de dois palitos e meio de aipo e uma colher de sopa de manteiga de amendoim.

Enfim ... passamos por atrás do prédio, e no meio do beco estava Peggy, curvada com a bunda que diminuia a cada dia empinada para o ar e a cabeça enfiada na janela do lado do passageiro de uma caminhonete preta de aparência esfarrapada. Nós nos escondemos rapidamente e cautelosamente espiamos pela esquina do prédio para ver o que ela estava fazendo. Nós achamos que era apenas mais uma tele-entrega, mas não... ela tirou dinheiro do bolso, enfiou a mão no carro e, quando a mão voltou, havia uma lancheira de papel marrom com algum tipo de escrita em um idioma que eu não reconhecemos.

Ela voltou para o prédio quando a caminhonete sombria se arrastou lentamente pelo beco, e rapidamente terminamos nossa caminhada. Kim se escondeu atrás de Peggy e tirou algumas fotos do que ela estava tirando da sacola. Não estou brincando, era uma daquelas coisinhas que você coloca em uma tigela de água e cresce um monte. Eu costumava ter alguns quando criança, tipo um pequeno jacaré do tamanho de um carro Hot Wheels que crescia e ficava com quase quinze centímetros depois de estar submerso um tempo. Eram bem divertidos, mas isso não era um jacaré... era Peggy. Uma Peggy MUITO minúscula.

Passamos por seu cubículo depois que ela foi para  e lá estava, sentado em uma tigela de água e já começando a inchar. Isso tá ficando bem estranho.

-Quarta-

Ok, então, por volta das 10h da manhã Peggy foi até a porta da frente do escritório para encontrar o cara da tele trazendo seu brunch, então demos uma olhada na pequena Peggy da tigela. Cresceu absurdamente. Era uma tigela de vidro de tamanho grande e a coisa tinha inchado tanto que os braços e as pernas estavam pendurados nas laterais, pingando lentamente a água viscosa sobre a mesa. Como comparação, eu diria que é do tamanho da luva de um apanhador de beisebol. Vi Peggy pouco tempo depois no banheiro e ela estava jogando a tigela de água na pia. Ela olhou para mim e imediatamente baixou os olhos e correu de volta para o corredor. Definitivamente está tramando algo...

Peggy se pesou de novo essa tarde e diminuiu mais 4,5 Kg. Quatro e meio desde segunda-feira de manhã??? Então,num total, perdeu 14 Kg em dez dias. Uau.



Eu estava de folga quinta e sexta. Então as anotações dessa semana terminaram na quarta. 



Diário de competição de dieta - Semana 3, 30/09/19 até 04/10/19

-Segunda-

-Cheguei mais cedo hoje para xeretar. A boneca de pano Peggy ainda estava sobre a mesa, e estava enrolada tão apertada com elásticos que não tinha como ficar menor. Agora estava deitada de lado, como se tivesse sido descartada. A atração principal era ainda a Peggy inchada da água. Estava na mesa dela desde quarta, e nesse curso de cinco dias tinha encolhido cerca de 15%. Não lembro dos meus brinquedos demorarem tanto nesse processo de encolhimento, mas 25 anos depois a tecnologia de encolhimento de jacarés de brinquedo deve ter melhorado.

- Às 9:13 da manhã, alguém passou por mim e foi ao cubículo de Peggy e começou a mexer nas coisas. Não é normal ver estranhos por aqui, então me levantei um pouco para dar uma espiada. Caramba, era Peggy! Se não estivesse colocando um exército de lanches em cima mesa, nem a teria reconhecido. Ela havia perdido ainda mais peso a tal ponto que parecia uma pessoa diferente.

Ela olhou para cima e me viu, e para que não percebesse que eu estava espionando, perguntei quanto peso ela havia perdido. Ela deu um sorrisinho malicioso, depois pulou e agarrou Kim para ser sua testemunha na balança.

E não estou zoando, ela voltou com esse número: 23,5 Kg. Ela perdeu vinte três quilos e meio desde quarta-feira. Deixe que isso entre na sua mente. Já havia perdido 14 Kg, de modo que pesava 156 Kg na quarta-feira. Então, agora, perdeu mais 23,5. Isso a coloca em 133Kg.

Ok, meu cérebro de 5ª série acabou de me enviar um bat sinal, sugerindo que eu fizesse umas continhas básicas. Peggy estava com 156,5 Kg na quarta-feira, e nós já estabelecemos que hoje ela está com menos 23,5. E isso é 15% de 156,5, basicamente. Quero dizer, não tenho certeza e nem precisa me corrigir se eu estiver errada. Sou muito ruim de matemática. 

Mas aquela coisinha gelatinosa na mesa dela estava 15% menos.

E a Peggy REAL está 15% menor desde quarta-feira.

Uhhh… Então, obviamente, isso se tornou uma corrida para o segundo lugar, mas, independentemente disso, aqui estão os resultados da pesagem no final da segunda-feira, quando começamos a terceira semana.

Eu -2,7 Kg

Morgan -3,1 Kg

Kim -1,3 Kg

Jim -1,8 Kg

Tanner -2,2 Kg

Peggy - 37,5 Kg

-Terça-

Por volta da 13h Peggy deu um grito altamente dramático. Todos corremos para ver o que tinha acontecido, mas ela parecia bem. Mas estava com a cara VERMELHA de um jeito que nunca vi. Quero dizer, muito, muito, muito brava e também aparentava estar com um pouco de medo. Mal conseguiu se acalmar para dizer o que estava acontecendo. Aparentemente o zelador tinha jogado fora a pequena Peggy encolhedora. Ela correu até a lixeira esterna mas o caminhão de lixo já tinha passado. A boneca já era. 

Peggy saiu do escritório perturbadíssima. Kim a seguiu de longe e voltou para reportar que tinha a visto no beco em uma ligação, frenética. Kim aparentemente ouviu-a dizendo "Eu preciso de outra coisa, agora mesmo!" e "Não me importo com preços!"

Pelo que conheço de Peggy, isso podia muito bem ser uma conversa com o seu entregador de tele habitual, mas acredito que dadas circunstancias, era algo bem mais interessante. Nas horas depois do incidente e de sua ligação. não ouvi Peggy comendo. Sem barulho de embalagens, sem entregas de comida chinesa... nadinha. Mas o que EU OUVI foi MUITA cantorias em baixo tom e um novo tipo de incenso sendo queimado. Talvez seja algum mantra aleatório, aqueles que prometem fazer você atingir seu sucesso. 

***OBS:***

-Jim começou a passar tempo demais no cubículo de Peggy por esses tempos. Acho que perdendo todo aquele peso (e não aparenta ter nenhuma pelanca??? Que porra é essa?), ele ficou gamadinho nela. Creio que ele quer dar uns pegas nela antes que sua auto estima fique lá no alto e comece a procurar alguém mais decente. Hahaha, ótimo plano, Jim.

-Quarta-

Na real, tudo estava bem calmo por aqui hoje. Jim ainda continua constantemente no cubículo de Peggy, dando o seu melhor. Ela parece gostar da atenção. Ainda não a ouvi comendo nada. 

-Quinta-

Fizemos mais uma pesagem hoje. Kim perdeu mais meio quilo. Eu também perdi maus meio quilo, Tanner ganhou meio quilo. Morgan e Jim perderam ambos cerca de um quilo e meio. Peggy preferiu não se pesar.... Hmmmm.....

Por volta das 13h assisti Peggy se encontrar mais uma vez com o carro bizarro no beco atrás do prédio. Tirou um bolo bem gordo de dinheiro de sua bolsa e novamente recebeu um pacote misterioso. A segui enquanto voltava para sua mesa, e de dentro do pacote tirou uma daquelas bonequinhas dançarinas de hula-hula, do tipo que geralmente se coloca no painel do carro, mas essa tinha uma pequena placa solar, para que dançasse com o poder da luz. Colocou-a cuidadosamente sobre a mesa, acendeu um incenso, cantarolou mais um pouco e ligou o abajur em cima da boneca para que começasse a dançar.

-Sexta-

-Tá, tô ficando puta sobre o desenvolvimento dessa competição. Tenho dado duro pra caralho com dietas e exercícios que nem louca, e obviamente devia estar orgulhosa dos três quilos e pouco que perdi em três semanas, né? Mas três outras pessoas estão me colocando no chinelo e sei que é um fato que não estão se esforçando como eu.

Então, hoje comecei a xeretar e espionar. Literalmente não fiz nada do trabalho que sou paga para fazer. Hoje foi uma exploração total e segui Peggy toda vez que saia de seu cubículo. Estive rolando minha cadeira o mais perto que pude de qualquer pessoa que parasse na mesa dela, e fiz concha no ouvido constantemente em um esforço incansável para reunir qualquer tipo de informação possível sobre o que diabos está acontecendo. Bem, o que está acontecendo aqui é muito mais que um concurso bobinho de perca de peso. Aqui está o que descobri...

Aparentemente Jim foi pedir concelhos para Peggy como perder mais peso. No começo, não queria contar, mas seu desejo de obter atenção de qualquer homem que fosse fez com que fizesse um acordo com ele... ela conta como perder peso, e ele teria que namorar com ela. Simples assim. Jim perderia peso só se satisfazer os desejos da Peggy por amizade, companheirismo, gestos românticos, e outras coisas as quais nem quero pensar sobre. ENTRETANTO... A ex do Jim, Sharon, trabalha no outro lado do salão. E Sharon é uma invejosa do caralho, só pra por contexto. Em dado momento, notou as visitas frequentes de Jim ao cubículo de Peggy, então tem vigiado a mulher que nem um falcão. Até chegou a ir lá para jogar verde, perguntando para Peggy sobre qual era o segredo de sua dieta, sua vida amorosa, e sobre como também tem uma das dançarininhas de hula-hula no painel de seu carro. 

OK... então eu passei a tarde observando Peggy e o que estou prestes a contar aqui é 100% verdade. Ela tinha ligado a boneca de novo e depois de algumas horas eu espiei lá para dentro e percebi que ela suava absurdamente como se estivesse no meio de um exercício intenso. Se não fosse uma coisa completamente doida de se dizer, diria que a boneca estava agindo como um exercício no corpo de Peggy. Eu tinha que saber se isso era real ou se eu estava ficando louca. Então, tentei algo...

Quando Peggy se levantou para se secar um pouco, entrei de fininho em seu cubículo e desrosquei levemente a lâmpada, fazendo-a desligar. Quando voltou, pude ouvi-la xingar baixinho enquanto ela ligava  e desligava o interruptor, depois grunhidos e arfadas enquanto ela se arrastava sob a mesa para verificar o cabo de força. Ela suspirou pesadamente e se sentou novamente. Eu a espiei várias vezes ao longo da próxima hora e estava seca como um osso. Também parecia chateada.

Quando Peggy foi ao banheiro novamente, voltei e apertei a lâmpada, e fez-se a luz. A garota hula voltou a dançar e, quando Peggy voltou à mesa, soltou um grito de alegria. Alguns minutos depois, o suor escorria dela novamente e os sons de uma embalagem de bolo de lanche preencheu o ar.

Isso é loucura. Quero dizer, literalmente, isso é tipo vudu ou santeria, porra. Estou bastante perturbada com isso, mas pelo menos agora sei como ela está nos deixando para trás. Agora sei o que fazer. Pode ser tarde demais para uma volta por cima para vencer a competição, mas se os principais jogadores não puderam continuar por algum motivo, eu ainda tinha uma chance. Peggy traidora vai ser exportada para o sol.

Está na hora da sabotagem.

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Ok, estamos agora de volta ao presente. Parei de registrar os eventos da competição depois de descobrir as bruxarias que Peggy estava usando para vencer de todo mundo.



Agora vou te contar o resto da história. 



Depois de descobrir como Peggy estava trapaceando, comecei a bolar coisas que podiam ser usadas contra ela. Se eu destruísse a dançarina de Hula, Peggy apenas compraria mais algum item místico de seja lá quem estava vendendo para ela. E também não conseguia pensar em maneiras de reverter aquele efeito. Tentei desviar todos os pedidos de tele entrega dela por alguns dias para que ficasse frustrada e desligasse a garota hula para conter sua intensa fome, mas essas pequenas jogadas não era o ideal. Eu queria colocar quilos de verdade naquela mulher e parar com todas as reverências e elogios.



Enquanto ainda avaliava minhas opções, uma discussão épica começou entre Jim e sua ex, Sharon, no outro lado do salão. Não consegui entender todos os detalhes, mas dava para perceber que Sharon estava chateada com o desenvolvimento do relacionamento dele com Peggy. Entretanto, ele parecia estar nem aí e mandou Sharon calar a boca e cuidar da própria vida. Sharon saiu enfurecida do comodo e Jim voltou para o cubículo de Peggy para contar detalhes da discussão. Tudo aos sussurros, mas de vez em quando Peggy dava risadinhas ou batia palmas baixinho quando ria, sem dúvida, saboreando sua vitória na batalha pelo amor de Jim.



Os dois pombinhos saíram para uma caminhada. Vários minutos depois, vislumbrei Sharon vindo em direção do nosso lado do salão. Fiquei sentada meio abaixada para ficar fora do seu campo de visão, e observei com muito interesse quando a vi entrando no cubículo de Peggy. Não pude ver o que estava fazendo, mas supos que estivesse escrevendo uma carta bem fervorosa para a outra que incluía coisas tipo...



"Ele é meu, vadia."

"Ele ainda me ama, vadia."

"Você é feia e gorda e ninguém nunca vai te amar, sua puta."



Você entendeu a ideia...



Então, depois que Sharon saiu, fui dar uma espiadinha. Nada estava quebrado ou mexido. Os papéis de trabalho de Peggy estavam arrumadinhos, seus salgadinhos estavam meio abertos do jeito que deixara, e assim por diante. Mas, para animar meu dia, de fato lá estava a carta. E dizia assim:



"Olha só, sua puta. Vc pode muito bem deixar Jim de lado porque ele não te ama. Está com vc só pra perder peso. Aliás, obg por deixar o MEU HOMEM mais gostoso do que já era. Ele me falou que vai fikar com vc só até perder o peso que precisa. Ñ sei qual eh a sua e essas merdas de magias que uza, mas pode continuar dando os vudus pra ele ou seja lá o que pega do carro preto. Depois vou rouba de volta para mim, puta." 



Como pode ver, a gramática de Sharon poderia ser melhor, mas essa competição estava pegando fogo! Soltei a fofoca para Kim, Morgan e Tanner, e de repente, houve uma renovada sensação de animação no ar. Não há nada melhor do que um triangulo amoroso no escritório, certo? Claro que não.



Então cerca de uma semana se passou e nada de mais aconteceu. Continuei com as couves e cenouras, Kim e Morgan fazendo caminhadas extras, Tanner tinha basicamente desistido de sua dieta, e Jim estava constantemente perdendo alguns quilos por dia com a ajuda de um pequeno vulcão de usb de vodu em sua mesa, que ficava soltando vapor o dia todo. Ele e Peggy estavam ficando sérios com a demonstração de afeto em público e me parecia que ele estava gostando dela mais do que o acordo pedia. Sharon ainda vigiava o cubículo de Peggy bem de perto, mas não ficava mais fazendo suas carrancas e olhares maliciosos da semana passada. 



Peggy estava perdendo peso... rapidamente.



Nem se importava mais em nos dizer os números que marcavam na balança, mas era claro que a perda estava cada vez mais rápido em um nível que chegava a ser ridículo, e depois de alguns dias já não sorria mais quando voltava de sua pesagem. Ela claramente tinha tido o suficiente da magia, e alguns minutos depois eu a ouvi desligar o interruptor de luz que estava alimentando a menina hula dançante, seguida por um suspiro de alívio. Mas o suor não parou. Ainda estava coberta de suor, o que eu presumi que significaria que ainda estava queimando gordura rapidamente.



Um dia depois, ela e Jim estavam discutindo a situação e ouvi ela falando que estava com medo e decidiu destruir a boneca do hula-hula. Aparentemente, a regra era que se a boneca estivesse na luz para dançar e Peggy estivesse a menos de 100 metros dela, a mágica faria sua parte, mas jogar no lixo também não ajudou. Ela tirou da lata de lixo e no caminho de casa para o trabalho, jogou-a de uma ponte a 32 quilômetros longe de casa. Mas lá estava ela na manhã seguinte... ainda suando... ainda diminuindo. Ligou para o místico que havia colocado o feitiço no bonequinha e ele disse que não tinha como continuar funcionando depois disso. Deveria já estar livre da magia e capaz de voltar à sua vida normal.



Mas ainda assim, diminuía. Ainda, parecia cada vez pior. Pálida doentio, com bochechas concavas e ombros ossudos. Suas roupas ficavam absurdamente largas em seu corpo, como se alguém tivesse jogado um lençol por cima de uma cadeira. E todo o comer... toda a mastigação, devoração, bebidas, comidas, doces, salgadinhos do mundo não estavam mudando sua situação. Uma semana atrás ela parecia estar com menos de 45 Kg. 



Essa foi a última vez que vi Peggy. 



Jim a levou para a emergência algumas noites atrás, quando contaram em total desespero a história da magia, da boneca, da coisa que encolhia, e da hula-hula. É claro que o hospital e a polícia acharam que isso era uma mentira para encobrir uma outra coisa mais cabulosa. Drogas, doença, envenenamento, ou talvez efeito colateral de usar muito óleos essenciais. Quem sabe?



E hoje ela está internada na UTI, por um fio de vida. Os tubos de alimentação, como você pode prever, não estão fazendo muito. A transpiração continua, o peso diminuindo, e está literalmente desaparecendo da face da terra.



Jim criou uma página de arrecadações para ajudar nos custos médicos. Todos nós fizemos o que podemos e compartilhamos em todas as plataformas de redes social. Sharon chegou a ajudar. Acho que o amor dela por Jim é forte o suficiente para colocar suas necessidades em primeiro lugar, e sua necessidade agora é cuidar de Peggy.


Acho que é assim que a nossa competição termina. Peggy, de longe, a vencedora.



O prêmio em dinheiro já foi enviado diretamente para a página de arrecadações de fundos. O dinheiro que ganhou ao perder peso está voltando para ajudar a salvá-la dos efeitos da perda de peso. Que ironia horrível.



Enquanto termino de escrever esta pequena crônica, estou com a página de arrecadação no outro monitor. Tem uma foto antiga de Peggy , segurando um pequeno prato escondido por um pedaço grande e gordo de bolo. Sua boca está em um sorriso desajeitado e aberto, enquanto era interrompida pela câmera ao estar próxima de enfiar um pedaço da delicia açucarada na boca. 


Logo abaixo dessa foto, há uma foto menor de Jim e Sharon, os fortes e dedicados organizadores dessa arrecadação de caridade que, sem dúvida, irradia positividade e esperança para Peggy. Apesar disso, seus rostos mostram aquele sorriso constrangedor de simpatia, onde a boca está trabalhando duro para distrair o espectador da tristeza por trás dos olhos.


Os dois estão em pé na frente do hospital, de costas para o quarto de Peggy. Eu sei disso porque na janela tem pôsteres de "Melhoras, Peggy!" E "Peggy é forte!". Enquanto digito isso, vi mais alguma coisa na janela... é o reflexo do carro de Sharon. E ainda mais uma coisinha... pequenininha. O que é aquilo?? Usando o zoom, consegui descobrir o que era.


Uma bonequinha de hula-hula.



Acho que mencionei que Sharon havia dito há algumas semanas que tinha uma igual à de Peggy. Caralho... será que ela trocou? Isso explicaria tudo. Sempre  estacionou perto do prédio no trabalho, bem dentro da faixa de 100 metros que a magia pedia. Além disso, está estacionando do lado de fora do quarto de Peggy no hospital.

Pelo amor de Deus, Sharon mora no mesmo complexo de apartamentos que Peggy! Se essa é a boneca de Peggy, ela está trabalhando 24 horas por dia! Sharon seria capaz de fazer algo assim? Acho que tenho que contar para alguém... mas quem? Quem acreditaria nessa loucura? Talvez eu possa tirar a boneca do carro de Sharon. Se estiver trancado, eu quebro o vidro. Não ligo para as consequências, preciso fazer isso! 

Meu Deus. Acabei de receber uma mensagem de Kim. É tarde demais. Peggy faleceu há 15 minutos.

Não sei mais o que dizer aqui. Se for de orar, ore por essa pobre alma. E, por favor, não visite um bruxo ou algo do tipo quando precisar de ajuda para emagrecer. Faça da maneira clássica.

Dieta e exercícios.