Postagens Semanais

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Francis Divina

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Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
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Domingo
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Salvei a vida de uma cobra branca.


Comecei a praticar jardinagem depois que meu marido morreu. Não gosto, mas me senti obrigada, porque na minha cabeça, se as plantas dele morressem, seria como se seus últimos vestígios na terra fossem apagados para sempre e ele finalmente seria levado definitivamente de mim. Então eu retirava as ervas daninhas, aguava-as, tive que aprender que plantas eram anuais, para quando o inverno acabasse eu pudesse trazê-las de volta na primavera, assim como ele fez no começo do ano, antes de ser arrancado de mim. Postei fotos do azevinho doente em uma comunidade de jardinagem para que eu pudesse dar um jeito dele voltar à vida e talvez isso seja algum tipo de redenção. Peguei mudas de algumas das plantas e estão espalhadas em xícaras por toda a minha casa, tomando sol no peitoril da janela, enquanto eu as encorajo a criar raízes para que sua linhagem continue e se algo acontecer, posso replantá-las e será como se nunca tivessem morrido. 

Meus amigos acham que é bom que eu tenha encontrado algo produtivo para fazer com meu tempo. Vai ajudar a curar sua dor, dizem, manter esse jardim. 

Mas eu não acho que estou me curando. 

Desmoronei quando vi que uns pássaros destruíram as íris. Eu ouvi a comoção no meu jardim. Corri para a rua e encontrei dois corvos enormes dançando em cima das flores, arrancando-as do chão com suas garras, esburacando a terra com seus bicos. Corri na direção deles, gritando, e saíram voando, berrando em ira para os céus. Então fiquei lá, encarando aquela bagunça, para as plantinhas desenraizadas e desmanteladas, suas hastes quebradas com resquícios de seiva que para mim era como sangue. Eu queria chorar, mas ao invés disso, com as mãos tremulas, comecei a limpar a bagunça e arrumar o solo para poder replantar as sobreviventes. Me senti como se estivesse novamente no quarto do hospital, ouvindo o monitor, meus olhos fixos no rosto dele, até quando as enfermeiras me agarravam pelos braços e me arrastavam de lá, me tirando do lado dele; me agarrei impotentemente à terra, às raízes das íris, percebendo que não havia nada que pudesse ser feito, então voltei para dentro como se nada tivesse acontecido.

Foi aí que encontrei a cobra. Estava enrolada em um buraco sutil no meio da cama de íris, a cabeça enfiada contra o chão. Sangue escorria de uma ferida em seu corpo. Era pequena, não muito maior que a palma da minha mão, com sua cauda enrolada sobre o próprio corpo. 

Fiquei com raiva olhando para ela. Fui até minha garagem e peguei uma caixa de papelão. Cobri o papelão com fita isolante para protegê-la da chuva e cortei pequenas portinhas dos dois lados. Então levei lá para fora e coloquei em cima da cobra, enfiando as beiradas na terra e colocado uma pedra no teto para que não fosse derrubada com facilidade. Fiquei com pena da cobra. Sentia rancor dos corvos pelo que tinham feito com o jardim do meu marido. Não iria deixar que pegassem com facilidade o que tanto queriam.

Depois disso, a cobra se tornou uma figura fixa no meu jardim. Se escondia em sua caixa e me observava da entrada, seus olhos negros fixados em minhas mãos, sua linguinha se remexendo para fora da boca. Eu dava olhadas disfarçadas para ela, fascinada por sua coloração. Era branca com nenhum padrão em seu corpo. Mas não albina. Não é aquele branco pálido-roseado, mas aquele branco de nuvens gordas, ou de um tubo de tinta a óleo, pura. Não era de nenhuma espécie que eu conhecia. Suas escamas eram como pérolas, brilhavam contra a luz do sol, e seus olhos eram como duas pedras ônix. Seu corpo era sulcado com dobras que pareciam de couro, dobras grossas uma por cima da outra, e eu podia ver uma carne rosa escondida por de baixo quando ela se movia e suas escamas se mexiam.

Depois de uma semana, começou a sair da caixa quando eu estava presente. Se rastejava pelo meio das minhas plantas e eu acredito que estivesse me seguindo pelo jardim enquanto eu cuidava de tudo. As vezes eu via os corvos, empoleirados nas árvores próximas ou na cerca, mas não incomodavam a cobra quando eu estava por perto. Comprei uns grilos em uma agropecuária e comecei a levar para ela, deixando os bichinhos perto de sua casinha. Logo, começou a esperar por mim, coloquei minha mão para baixo e ela enrolou seu pescoço em meus dedos e, em seguida, correu pela minha palma. Entrelaçou-se em volta do meu pulso e eu me levantei, levando a cobra comigo, olhando para ela enquanto ela olhava para mim.

Ela falou comigo no dia em que desisti do arbusto de azevinho. Minhas tentativas de salvá-lo foram um fracasso e me senti culpada por não conseguir manter vivo um maldito arbusto, que meu marido havia plantado. Antes, havia esses horríveis arbustos vermelhos nos canteiros e ele passou um mês arrumando aqui, depois colocou uma terra e cascalhos novos e então plantou os azevinhos. Dava uma espécie de frutinhas vermelhas no inverno, ele me disse, a cada dois anos. Agora, o único que sobrara, estava todo enrugado com folhas secas em tons de marrom e amarelo, e seus galhos eram tão frágeis que quebravam ao menor toque. Tinha que tirar aquilo dali, pensei. Talvez substituí-lo. E esse pensamento foi tão esmagador que comecei a chorar. 

Senti a cobra deslizando sobre meu pé, suas escamas geladas e macias, aqueles sulcos estranhos batendo contra o osso do meu tornozelo. Estava crescendo rapidamente. Já tinha bons trinta centímetros. 

"Tia," me perguntou, "porque choras?"

Algo naquilo pareceu tão natural, tão esperado, que nem hesitei em responder. Falei para a cobra que não consegui manter o azevinho vivo e sentia como se tivesse falhado meu marido, pois ele que havia plantado-o. 

"Nada perdura," a cobra me respondeu, "Morrer é algo natural das coisas." 

E então se rastejou de volta para o jardim e me deixou sozinha para chorar a morte do arbusto. 

Todas as plantas do meu marido começaram a esmorecer depois disso. Havia poucas ervas daninhas agora e aquelas que conseguiam brotar rapidamente ficavam amarelas e derretiam de volta à terra, suas folhas putrefazendo-se em lodo. Parei de usar veneno de erva daninha, temendo que estivesse também prejudicando as flores. A cobra veio e conversou comigo muitas vezes, embora na maior parte do tempo apenas ouvia. Às vezes comentava sobre o tempo, mas dizia pouco mais. Começou a me chamar de "tia".

Para complicar meus problemas com o jardim, a grama também estava doente, com partes dela ficando marrom e secas como se chamuscadas. Encontrei alguns coelhos enquanto checava uma dessas partes. Havia cinco deles, do tamanho da minha mão, congelados dentro da toca debaixo de uma camada de grama e pelo solto. Olhei para eles por alguns minutos, encantados com seu tamanho e as manchinhas brancas que carregavam no pelo da testa, e então os deixei lá.


Eu me perguntava sobre a cobra, se era capaz de machucá-los, mas a cobra não era tão grande ainda. Já trocara sua alimentação para camundongos, comprando-os congelados e descongelando-os antes de trazê-los para fora. A cobra era educada, agradecendo-me por suas refeições, dizendo que ainda não ousava deixar a segurança do jardim.

"Por causa dos corvos?" Perguntei. 

"De fato." Seu tom era irônico. "Ainda não sou grande o suficiente para fazer deles minha refeição." 

Essa declaração pareceu uma promessa. Olhei por cima de meu ombro, para onde um par de corvos nos observavam de uma árvore, e parecia como se uma sobra se pusera na frente do sol. 

Poucos dias depois de encontrar os coelhos, caminhei novamente para onde a toca ficava, querendo ver se ainda estavam lá. Encontrei-os espalhados pela entrada do buraco, com as espinhas em pé, as pernas estendidas, os olhos bem abertos e as bocas escancaradas, salpicadas de espuma seca. Não havia marcas neles, mas o chão ao redor deles estava rasgado, como se tivessem arranhado a terra na tentativa de se arrastar para frente e para longe da toca. Meu coração martelou no meu peito. Os corpos estavam rígidos e moscas mortas jaziam em suas peles.


Peguei uma pá na garagem e fui cavar um buraco perto das árvores. A cobra veio se juntar a mim. Observou a pilha de cadáveres por um momento e então se enroscou entre meus pés. Me perguntou por que eu estava tão triste. Coelhos morrem. É para isso que eles nascem.

"Não gosto de vê-los assim," sussurrei. 

Pensei na última visão que tive do meu marido, o corpo torcido para cima, a boca aberta para o teto. Certamente, a casa funerária o fez parecer em paz, mas isso não era ele. Era um corpo, nada mais, e não pode dissipar como ele parecia nos últimos segundos de sua vida. Agora, olhando para os coelhos esparramados diante de mim, eu vi as semelhanças em seus membros torcidos e bocas abertas, silenciosamente gritando com aquela injustiça de ter terminado com sua vida tão cedo.

"Então vá para dentro", a cobra sussurrou, "e eu vou levá-los embora para você."


Eu fui, como se estivesse em transe. E quando voltei para o quintal, descobri que os coelhos tinham sumido e que a toca em que estavam agora era um buraco fundo, estendendo-se na terra negra. Preenchi o buraco.

Só mais de uma semana depois que vi a cobra novamente. Naquela época, meu jardim se recuperou, as plantas cresceram verdes novamente e, infelizmente, as ervas daninhas voltaram. Eu me perguntava onde estava minha amiga cobra e temia que talvez os corvos tivessem conseguido pegá-la, afinal, também não os tinha visto. Então, uma tarde, enquanto eu estava regando as íris, ela saiu de sua casa. Estava muito maior do que antes. Talvez um metro e meio de comprimento e 3 centímetros de diâmetro. Desliguei a mangueira e perguntei onde estava.

"Mergulhei fundo na terra, tia", disse-me. "Procurei o reino dos mortos."

Senti um frio repentino, apesar da luz do sol. Perguntei por que faria tal coisa e balançava a cabeça, a língua remexendo.

"Para encontrar seu marido."


Quase não ouvi o que disse em seguida, minha mente congelada naquelas palavras, na sua impossibilidade, mas a selvagem, audaz esperança que se agitava em meu peito, esperança que freneticamente tentei reter porque não acho que eu sobreviveria se deixasse criar raízes e florescer em meu coração.

"Mas sinto muito, tia," continuou, " Não consegui viajar para tão longe. Ainda estou muito fraca. Deixe-me ficar mais um pouco em seu jardim e então tentarei novamente." 

A primavera passou e se transformou em verão. A horta do meu vizinho começou a produzir sua colheita, embora pequena, pois seu jardim estava sofrendo com a chuva e o calor e suas plantas mal haviam crescido neste ano. Mas havia o suficiente para colher e eu os vi lá um dia, juntando a abóbora e levando-a para a grelha para cozinhá-la. Pude sentir o cheiro do carvão e o cheiro de carne e dos legumes terrosos recém cortados. E estavam acompanhados. Outro casal, e eu podia ouvi-los de dentro da minha casa rindo e conversando no convés de trás. Doeu de um jeito estranho. Minha casa estava silenciosa faziam muitos meses agora.

Não tenho certeza quanto tempo passou antes que eu me desse conta do silêncio vindo do quintal. Pareceu tão de repente e achei estranho, pois ainda estava claro e seus visitantes não podiam ter ido embora tão cedo. Fui até a janela de trás e olhei.


Os quatro estavam deitados no chão. Nenhum deles se movia. Me senti tonta, tropecei para longe da janela, pensei na casa funerária e estando lá sozinha com o corpo do meu marido e odiando como ele ainda estava, odiando olhar para ele e não ver nada, como se ele fosse esculpido em mármore.

Me forcei a me mover. Sair pela porta dos fundos, correr até o portão da cerca e entrar no quintal deles. Para ligar para a emergência. Ajoelhei-me ao mais próximo, a mulher convidada, alguém que eu não conhecia. Seus olhos estavam abertos, cheios de horror e manchados de um líquido preto, e sua boca estava cheia de espuma ensanguentada. O sangue escorria do nariz e das orelhas, seus membros estavam tortos, as costas e o pescoço dobrados como se fosse uma boneca jogada descuidadamente no chão. Eu ouvi os gritos dos corvos nas árvores próximas, enquanto eles pulavam de galho em galho e gritavam para mim.

E então um sussurro da cerca. "Tia", a cobra chamada, "Vem embora. Venha embora. Não olhe."

Fiz isso, fiquei ali de costas para os corpos dos meus vizinhos e chorei enquanto o operador no telefone dizia que tudo ficaria bem e que a ambulância estaria lá em breve. Suas palavras eram vazias e acho que ele sabia disso também.


"Eu sinto muito, tia", a cobra murmurou. "Eu sinto Muito. Eu vou tentar encontrá-los também no reino dos mortos."

Eles levaram os corpos para longe, colocando-os em sacos pretos para que os espectadores na calçada não pudessem ver a espuma ensanguentada e seus olhos enegrecidos. A polícia veio e pegou a comida e depois me questionaram. Não, eu não vi nada de estranho. Não, eu não sabia de ninguém que não gostasse deles. Eu não saia muito, honestamente, não depois que meu marido morreu. Respondi tudo o que perguntaram o melhor que podia e então foram embora.

Eu não vi a cobra depois disso. Encontrei o buraco que ela deixou para trás, cavando a terra enquanto procurava os mortos, e o enchi de volta.


A família do vizinho veio e começou a arrumar sua casa. Ficaram lá por alguns dias e depois a casa ficou em silêncio. Presumi que tentariam vender a casa em algum momento no futuro, quando estivessem prontos. Eu ainda não tinha me livrado dos pertences do meu marido, afinal de contas, e ele já estava morto há meses. Então, mais pessoas vieram e eu não as reconheci, mas elas ficaram no quintal do vizinho, pegaram amostras do solo e cortaram as plantas da horta.

E o meu jardim estava sobrevivendo, mas mal e mal. Tive que arrancar a maior parte das íris e senti uma espécie de desespero aterrorizado toda vez que saía para tentar salvar as plantas que restavam. As árvores perto da cerca dos fundos estavam começando a perder suas folhas, como se o outono estivesse chegando mais cedo, e eu não entendia porque isso estava acontecendo. Não entendia como meu jardim estava morrendo assim como meu marido.


Eu não sabia que a cobra tinha retornado. Não havia me chamado e não fui eu que encontrei. Alguém veio até a minha porta, uma das pessoas que estava pegando amostras do quintal do vizinho. Ele queria fazer o mesmo no meu. Uma amostra do solo, ele disse, e algumas mudas das flores e dos arbustos. Nada intrusivo. Perguntei o que ele estava procurando. Apenas checando contaminantes, disse, e ele não precisava explicar mais nada. Eles temiam que meus vizinhos tivessem morrido porque algo havia entrado em seus vegetais. Eu o levei para o lado da casa e abri o portão. Eu fiquei ao lado da cerca enquanto ele cutucava os trechos secos de grama, apunhalando uma ferramenta de coleta e depois jogando a terra em um saco. Então ele pisou nas lajes de pedra que marcavam o limite do meu jardim e colocou um pé na terra, alcançando as íris restantes.

Houve um lampejo de luz, como se a luz do sol tivesse sido refletida em um espelho, e a cobra branca emergiu do leito ressequido do jardim. Sua cabeça era do tamanho de uma melancia e vi presas do tamanho de minhas mãos quando abriu sua boca. Ergueu-se, o corpo como um tronco de árvore, e o homem abriu a boca para gritar, mas antes mesmo disso a boca da serpente se fechou sobre a cabeça, a mandíbula distendendo-se para engolfá-lo. Ela bateu no chão, empurrando o corpo do homem para baixo, e então a terra ferveu sob suas espirais e a terra subiu e como quando uma baleia irrompe e retorna à água. A cobra caiu de volta no chão e arrastou o homem com ela. O corpo dele ficou mole, os pés foram as últimas coisas que vi antes de entrarem na terra sem deixar nada para trás. 

Eu cobri minha boca com as minhas mãos, sufocando um grito. Me virei, voltei para a casa e só então me permiti desmoronar. Gritei, soluçando, arranhei meu rosto com minhas unhas. O que eu deveria fazer? Deveria chamar a polícia? Dizer que havia uma cobra gigante no meu quintal?


Fiquei dentro da minha casa e não fiz nada. Andei de janela em janela, me preocupando, espiando o quintal. Finalmente, depois de muitas horas, um policial apareceu na minha porta da frente. Alguém tinha vindo aqui mais cedo, disse , para pegar amostras para a investigação. Eu tinha o visto? Seu carro ainda estava estacionado na frente da minha casa.

Falei que ele esteve no meu quintal por último, mas não o vi saindo. Achava que ele havia ido para outros jardins da vizinhança e voltaria quando terminasse. O policial perguntou se poderia procurar no quintal e eu disse que podia. Então ele foi e eu assisti da janela, temendo o que eu veria.

Ele encontrou uma área de terra remexida, onde a submersão da cobra havia rasgou todas as plantas e as enterrou em solo recém-revolvido. Ele cutucou a terra e retirou de lá o celular do homem. Então ele ligou para mais pessoas e me disseram para ficar dentro de casa, resumidamente, e supus que isso significava que suspeitavam que eu tinha feito alguma coisa.

Desenterraram essa parte do quintal e eu chorei quando fizeram isso, porque eles derrubaram os limites feitos de pedra e não haveria como salvar as plantas que tinham arrancado, e todos os seus esforços foram desperdiçados porque a cobra já não estava lá, estava no fundo do profundo. No fim da terra, e levara sua refeição com ela.


Tinham tantas perguntas para mim e eu lhes disse a mesma coisa, de novo e de novo, que ele tinha ido ao quintal e isso era tudo que eu sabia. Que eu não falava muito com os vizinhos depois que meu marido morreu. E finalmente, perplexos, pararam de me fazer perguntas.

Alguns dias depois, recebemos uma carta pelo correio da cidade. Dizia para pararmos de praticar jardinagem. Não corte a grama, dizia, não arranque ervas daninhas, não pode arbustos e, acima de tudo: não coma nada produzido de seus jardins. Fique dentro de casa. Estavam trabalhando em uma maneira de neutralizar alguns contaminantes no solo em nossa área. Estavam trabalhando para descobrir de onde estavam vindo.


Eu sabia. Naquela noite, depois que o sol se pôs, saí para o jardim. Sentei-me perto do local onde as íris antes cresciam e onde eu coloquei aquela pequena caixa para a cobra se esconder. Perguntei por que ela havia matado aquele homem.

"Nada perdura," respondeu e sua resposta veio da terra abaixo de mim. "Já te falei isso. Tudo precisa morrer."

"Não parece justo."

"Não é. Mas é como é." 

Houve um longo silêncio entre nós. Então, a cobra perguntou se era do meu desejo que ela fosse embora.

"Não quero que você vá," eu disse, "mas não acho que seja seguro para nós caso você fique." 

"Eu jamais te machucaria, tia." 

Olhei para o meu jardim, desenraizado e cheia de escombros, todas as flores amareladas e murchas e nos arbustos secos e estéreis. Isso tudo já me machucou, pensei, mas não falei em voz alta.

A cobra disse que iria embora. Que demoraria muito tempo até retornar. Não disse nada do meu marido ou do reino dos mortos.

Então a terra estremeceu, subindo uma crista ao longo da linha de suas costas, e depois diminuiu e eu soube que a cobra tinha ido embora.

Minhas plantas continuam a morrer. Alguns dos meus vizinhos foram embora e deixaram para trás casas que nunca serão vendidas, depois que uma garotinha foi levada de ambulância quando caiu no chão convulsionando, sua boca se enchendo de espuma ensanguentada. A cobra se foi, mas seu veneno permanece.


Não duvido em sua palavra. Ela vai voltar. Talvez daqui a alguns anos, talvez em algumas décadas, talvez em alguns séculos. Mas vai voltar. E as plantas vão murchar e os oceanos vão morrer e nós vamos respirar seu veneno em nossos pulmões e ele vai se misturar em nosso sangue e vai nos devorar e deixar nossos cadáveres putrefatos apodrecendo no solo moribundo e nem mesmo os insetos vão nos tocar.

Ainda estamos recebendo cartas para ficar  dentro de casa. Nos dizendo que estão trabalhando para achar uma solução. Dizendo que, se tivermos outro lugar para ir, devemos considerar se mudar dali. Minha vizinhança parece deserta, no auge do verão, com ruas silenciosas e casas escuras, todos correm para a caixa de correio e voltam, e ninguém pára para conversar um com o outro, com muito medo de passar muito tempo fora com o solo envenenado.

Eu saio à noite para cuidar do jardim. Um punhado de plantas permanece. Não sei por quanto tempo viverão, mas sinto que devo fazer isso, que se eu as deixar morrer, meu marido terá desaparecido completamente. Sei que estão me envenenando, mas já é tarde demais e estou apenas apressando o inevitável. Há apenas um punhado de dias para mim. Já sinto o veneno em meus ossos.


Eu estou feliz que não estarei viva para ver o dia em que a cobra emergirá para fazer com que seu veneno chova sobre a terra.

A Floresta, Feito por Avid.


Meu nome é Sam Wilkinson. Essas serão minhas últimas palavras. Recentemente recebi um e-mail estranho no trabalho e antes de partir dessa para melhor, gostaria de contar para vocês sobre esse e-mail e o que aconteceu depois dele. Não ligo se você vai acreditar ou não em mim, apenas quero deixar um registro. Uma confissão, por melhor dizer. Vou tentar fazer um texto breve, mas creio que o melhor seja que eu comece do começo.

Eu odiava minha vida desde que me conheço por gente. Deu-se inicio no meu primeiro dia de aula. Foi quando o bullying começou. Não sei o que fiz para merece-lo ou o motivo de ter continuado não importava quantas vezes mudasse de escola. Meu único crime, parecia, era ser gordo. Era um círculo vicioso. Quanto mais pegavam no meu pé, mais eu comia para me confortar e quanto mais eu comia, mais pegavam no meu pé. Fui me tornando depressivo e mais anti-social. Quando fiquei mais velho e fui para o ensino médio, comecei a desprezar todas as pessoas no geral. Basicamente qualquer ser humano que não fosse minha mãe. Minha visão misantrópica do mundo não me ajudava muito, creio eu. Vamos dizer que minha personalidade não se desenvolveu para uma das melhores.

Nunca me mudei de casa e passei maior parte dos meus dias no porão da casa da minha mãe jogando vídeo games antigos. E essa era minha vida. Já estou falando no passado... Meu Deus. Essa ainda é minha vida. Minha maior vergonha - minha maior culpa - é que essa minha condição deixava minha pobre mãe infeliz. Já vi fotos dela logo após meu nascimento. Minha mãe me olhava com tanta alegria em seus, naquela época, jovens olhos. Mal imaginava o ser inútil que eu me tornaria. Devia ter imaginado algo diferente. Acreditava que seu menininho iria crescer para se transformar em um homem que lhe daria netos; não achava que eu cresceria e me tornaria... eu.

Nunca desenvolvi outras habilidades a não ser jogar vídeo game, então por muito tempo fiquei desempregado. Mas eu gostava assim. Não queria estar com outras pessoas. Entretanto, cerca de três anos atrás, minha mãe me obrigou a voltar a estudar para que conseguisse encontrar um emprego e ajudar com o aluguel que ficava cada dia mais alto. Relutantemente concordei, e escolhi um curso aleatório na escola técnica mais próxima que encontrei de casa. Não tenho carteira de motorista, então não podia ir muito longe. Mas isso era o de menos, queria mesmo era estar o mais próximo possível do aconchego da minha casa. 

O curso que escolhi não era divertido. Administração de empresas, o que significava basicamente que ficaria o dia inteiro sentado olhando para tabelas de Excel. Nunca achei que me levaria a lugares, não por não ter aprendido o que me ensinaram, mas porque achei que ninguém seria louco o suficiente para contratar alguém como eu. Entretanto, depois do meu estágio em uma grande empresa de tecnologia - não vou mencionar o nome, mas muito provavelmente você já ouviu falar nela - milagrosamente fui contratado. Embora tenha sofrido minha vida toda, foi só quando comecei esse período da minha vida - o qual estou vivendo agora - que comecei a considerar suicídio. 

O estresse era insuportável desde o início. Todos os dias quando eu pegava o ônibus para ir trabalhar tinha que ativamente prestar atenção no fato de que as pessoas escolhiam deliberadamente não sentar do meu lado. No trabalho, os escritórios eram em um espaço aberto, então não havia possibilidade de escapar das pessoas não importa o quanto eu tentasse, e elas não podiam escapar de mim. Por algum motivo, fui colocado junto do pessoal do RH, a galera mais barulhenta e social de todo o prédio. Tinha que ficar ouvido o papo furado deles o tempo todo enquanto ficava encarando minhas tediosas tabelas. E, não foi surpresa o fato de que eles também não gostavam de mim. Na maior parte do tempo apenas fingiam que eu não existia, mas quando era obrigado a falar com um deles - ou quando acidentalmente nossos olhares se cruzavam - eu podia ver a repulsa em seus olhos.

Jennifer, uma moça que ficava ao meu lado, era a que mais me odiava. Sempre me recebia com uma expressão de nojo e podia ver com frequência seus olhos se revirando quando me sentava na cadeira ao lado. Era visível sua irritação quando eu dirigia a palavra a ela. As vezes podia ouvi-los falando de mim pelas costas. Jennifer nem se importava em baixar o tom de voz. E, bem, não tinha como eu ir até o RH e fazer uma reclamação, eles era o RH.

Esse é o resumo da minha vida a três anos. Recentemente minha chefe me chamou para conversar. Aparentemente, uma reclamação tinha sido feita ao meu respeito. Disse que a pessoa que fizera a reclamação desejava permanecer anônima, mas tenho quase certeza que foi a Jennifer. Minha chefe disse, com pena em sua voz, que era a respeito da minha higiene pessoal. 

"Por que você não toma uma banho de manhã?" Perguntou. 

Eu fazia isso, mas depois de andar algumas centenas de metros até a parada de ônibus e de me sentar no transporte público sendo consumido pela minha ansiedade, ficava suado de novo. Não era algo que pudesse evitar. Ouvir aquilo fez com que eu me odiasse demais. Meus pensamentos suicidas dispararam. A única coisa que me impedia de concretizar esse fato, era o quando isso machucaria minha mãe. Não podia fazer isso com ela. Mas, adivinha? Faz uma semana que minha mãe morreu. 

Quando voltei do trabalho, encontrei-a no chão da cozinha. Pude perceber que devia estar lá desde de manhã porque ainda estava vestida com sua camisola. Ainda estava viva, mas não conseguia falar. Gemia com um olhar confuso em seu rosto que um dia fora bonito. Chamei a ambulância imediatamente. Morreu no hospital mais tarde naquela mesma noite. Os médicos me disseram que ela tinha sofrido um derrame fatal. É claro, isso seria devastante para qualquer pessoa, mas, para mim, significava o fim da minha vida. No meu ponto de vista, já não existia nenhum ser humano decente pisando nessa terra. 

Minha chefe não me dispensou do trabalho, nem para eu sofrer meu luto em paz. Esse era o tipo de filha da puta que ela era, mas tudo bem. Ficar em casa só me faria lembrar mais da minha mãe. Todo mundo sabia o que havia acontecido quando voltei a trabalhar. Pude sentir pela atmosfera. Mas ninguém prestou condolências. Eu ficava me imaginando dando um tiro na minha cabeça, explodindo meus miolos na frente de todo mundo. Mas eu não tinha uma arma. Ao invés disso, meu plano real era pular da janela. Afinal de contas, meu departamento ficava no quinquagésimo andar. Não havia nenhuma possibilidade real de sobreviver uma queda de 50 andares. Nunca tinha tido tanta certeza do que precisava fazer. Tinha tomado minha decisão. E foi nesse momento que recebi um e-mail estranho. Como disse antes, isso faz uma semana. 


O e-mail começava assim: 

"Aqui está o seu acesso para A Floresta." 

Havia um login e senha e bem em baixo dizia, "Atenciosamente, Avid."

Avid usava um e-mail corporativo, então assumi que era da parte do TI e que tinham começado a usar um novo software. O que achei estranho era que não explicava o que era no corpo do e-mail. Não pensei muito sobre e só presumi que já tivessem explicado sobre em alguma reunião que eu não prestara muita atenção. Perguntei para Jennifer se ela sabia do que se tratava. Sacudiu a cabeça negativamente com sua atitude de sempre e disse 'não' com um tom de voz enojado. Como sempre, fingi não ser atingido por aquilo, mas por dentro me sentia tão inútil quanto ela achava que eu realmente era. Dei uma olhada rápida para a janela e pensei 'pule'. Mas eu ainda queria esperar até depois do funeral da minha mãe. 'Logo, logo', pensei, e tentei imaginar a reação de Jennifer ao me ver pular. 

Quando fechei o Excel algumas horas depois, antes de sair para o almoço, notei um novo ícone na minha área de trabalho. O ícone era algumas árvorezinhas pixeladas. A Floresta, era seu nome. Achei estranho ter aparecido ali do nada. Geralmente precisava levar o PC até os técnicos de informática para instalarem novos softwares. Sem nada mais para fazer, cliquei no arquivo. 

O que abriu para mim foi um programa que me lembrava o jeito que softwares eram feito nos anos 90. Não tinha grandes conteúdos. Havia uma janela que transmitia o que parecia ser o vídeo de uma floresta. Eu podia usar o mouse para ver em 360 graus, mas além disso, não havia muito mais o que pudesse fazer. A qualidade do vídeo era bem baixa, mas não parecia ser uma animação. No entanto, logo fiquei com a impressão de que deveria ser um jogo, porque em cima da transmissão havia uma barra que permitia definir a velocidade do tempo. Você podia visualizar o vídeo em tempo real, que era a definição padrão, ou aumentar a velocidade do tempo até cem anos por segundo. Abaixo das configurações de velocidade, havia apenas dois botões. Importar e exportar. E era isso. No menu não havia muitas opções. Apenas um Sobre e Sair. Cliquei em Sobre. Apenas dizia: 'Feito por Avid." 

Resolvi mexer um pouco no programa e apertei Importar. 

Surpreendentemente, um catálogo com todos os funcionários da minha empresa apareceu. Desconfiei que talvez estivesse conectado com o Outlook da empresa, onde um catálogo similar ficava disponível. Havia uma barra de busca para facilitar achar quem você procurava. Olhei para cima e vi minha chefe passando pela sala. Fechei o programa rapidamente. 

Fui para casa naquele dia sem abrir de novo o programa, com medo de ser chamado mais uma vez na sala da minha chefe. Em casa, não pensei muito sobre A Floresta. Estava com coisas mais importantes na cabeça, para se dizer no mínimo. Eu iria herdar a casa da minha mãe, mas não muito dinheiro. Sabia que jamais conseguiria pagar o aluguel e outras despesas sozinho, e não tinha motivação nenhuma para fazer algo sobre. Pensando nisso, deitei no sofá da sala, olhando para o local exato onde havia encontrado minha mãe caída, reduzida a uma forma diminuta e confusa de si mesma. Dali em diante eu não estaria apenas ficando ferrado mentalmente, mas fisicamente também. Logo perderia a casa, e provavelmente, iria parar na rua.

Mas eu não pretendia chegar nesse ponto. Adormeci e vi a janela do trabalho nos meus sonhos. Não era um pesadelo. O pesadelo começaria assim que eu acordasse. No dia seguinte, fui para o trabalho uma hora antes do que todo mundo. Normalmente eu não chegaria tão cedo, mas ultimamente não tinha vontade de passar muitas horas em casa, sozinho. Ver o ícone do A Floresta na minha área de trabalho me fez ficar curioso de novo. Abri. Tudo estava igual, exceto que era noite agora na floresta. A lua - mais laranja que nossa lua - produzia uma iluminação amarelada nas folhas das árvores. Aumentei a velocidade do vídeo para alguns minutos por segundo. Nada mudou, mas logo percebi que as nuvens que passavam na frente da lua agora se moviam um pouco mais rápido do que antes. Legal, pensei, sem muita emoção. Depois, tentei apertar o botão Exportar. A mesma janela que aparecera quando eu apertara Importar apareceu, mas sem nenhum nome. Fui para a janela do Importar, olhei a lista de nomes e ponderei o que aquilo devia ser. Eventualmente, tentei me animar um pouco e procurei pelo nome de Jennifer. Selecionei-a e cliquei Importar. Uma caixa de texto apareceu. "Você tem certeza que quer importar Jennifer Norman para A Floresta?" Apertei Sim.

O nome de Jennifer desapareceu da lista. Dei uma risadinha, embora não conseguisse sentir nenhuma alegria de verdade, pensando que esse programa devia ser uma grande piada interna no departamento de TI. Fui abrir de novo a janela de Exportar. Como esperado, o nome de Jennifer estava lá agora. De repente, minha chefe entrou no escritório junto de um outro colega de trabalho. Rapidamente fechei o A Floresta, abri o Excel e fingi trabalhar. 

Mais e mais colegas foram chegando, mas Jennifer não. Primeiro achei que estivesse atrasada, o que não era incomum, e quando não chegou nem por volta da hora do almoço, supus que estivesse doente. Comi um hambúrguer de almoço em um restaurante no fim da rua. Não serviam a melhor comida do mundo, muito longe disso, mas eu sabia que era o único restaurante da redondeza que nenhum colega de trabalho ia almoçar.  In The Year 2525 tocava no saguão. Fiquei sentado ali, comendo meu hambúrguer e tomando meu refrigerante, enquanto ouvia a música e pensava em pular daquela janela. Pensava em fazê-lo no final daquela mesma semana, talvez na sexta, um dia depois do funeral.

De volta no trabalho, minha chefe foi até o departamento do RH e perguntou se alguém havia falado com Jennifer. Aparentemente, ela não havia ligado para avisar que estava doente ou algo do tipo. Só naquele momento que meu cérebro começou a pensar no impossível. Será que isso tinha a ver com o que eu fizera no programa? Obviamente não, mas se por um acaso fosse - com um cuidado supersticioso - abri A Floresta e a exportei. "Tem certeza que quer exportar Jennifer Norman de A Floresta?" 

Sim. Ela desapareceu da lista e apareceu na lista de nomes na janela de importação.

Uma hora depois, Jennifer apareceu no escritório. No final das contas, supus, só estava atrasada como de costume. Enquanto se aproximava, percebi que havia algo estranho nela. Uma colega nossa, amiga dela, se levantou e correu em direção de Jennifer. 

"Jennifer!" exclamou. "O que aconteceu com você?" 

Levantei o olhar para ver a interação.  

"E-eu não sei, Bella, dormi demais - a-acabei de acordar - e.... e... E vim para cá o mais rápido que consegui, mas não me sinto bem. Acho que tenho que falar com a chefa sobre..." 

"O que aconteceu com seu rosto?!" Bella continuou sem nem ouvi-la. "Isso é de verdade? Suas roupas... Você se olhou no espelho antes de sair de casa? Meu Deus." 

Olhei para a cara de Jennifer. Tinha uma cicatriz enorme e bem feia. Suas roupas pareciam velhas e detonadas, como se estivesse vestindo ela a muito tempo. 

"Como assim?" Jennifer falou e colocou a mão no rosto. "Que?!" Correu para o banheiro, presumivelmente para se olhar no espelho e, alguns segundos depois, deu um berro e saiu de lá correndo e chorando. Todos se levantaram, até eu, e a observamos sair do escritório em pânico.

Foi aí que caiu minha ficha... O tempo. O tempo na Floresta estava colocado como algumas horas por segundo. Fiz alguns cálculos rápidos de cabeça. Se isso tivesse alguma coisa a ver com a importação que eu fizera, ela devia ter ficado uns três anos Na Floresta. Enquanto eu estava lá em baixo, comendo meu hambúrguer, ouvindo In The Year 2525, ela havia passado anos lá dentro... Mas isso não podia ser real. Isso seria ridículo. 

Jennifer não voltou para o escritório no dia seguinte. Seu marido, pelo que ouvi dizer dos boatos que corriam rápido, havia ligado e disse que ela não iria poder voltar a trabalhar por algum tempo. 

E então no dia seguinte fui para o trabalho ainda mais cedo. Abri A Floresta. Ainda estava configurado como algumas horas por segundo. Coloquei de volta no tempo real. Alguns pássaros, muito maiores do que qualquer outro pássaro que eu já vira na vida, voaram em direção do céu. Aumentei a velocidade de novo, dessa vez para alguns dias por segundo. Os pássaros rapidamente desapareceram e a lua substituiu o sol e vice-versa algumas vezes em sucessões rápidas. As árvores se moviam como em um vídeo muito acelerado. Isso não pode ser uma floresta de verdade, pensei, não pode. Novamente, coloquei o tempo para o tempo real. 

Thomas, um cara do departamento de economia que sempre fizera piadinhas desagradáveis ao meu respeito entrou no saguão. Olhei em sua direção, caminhando  para seu escritório com sua pasta de couro e seu relógio caríssimo preso em volta de eu pulso. Olhou para mim. Acenei com a cabeça, mas ele me ignorou. 

Eu não podia ver seu escritório do lugar onde eu ficava sentado, mas assim que passou por mim, pude ouvi-lo colocando a mala em sua mesa e abrindo-a. Conferi se o tempo estava definido como padrão e apertei em Importar. "Thomas Wachtmeister", digitei na barra de pesquisar e então o importei. "Tem certeza que quer importar Thomas Wachtmeister para A Floresta?". Eu tinha certeza. Assim que seu nome desapareceu da lista, cuidadosamente andei até onde ele tinha ido. Sua pasta estava aberta na mesa, mas ele havia sumido. Voltei para o meu computador. Olhei para a transmissão da Floresta. Era meio dia lá naquele momento. Lentamente movi a câmera em 360 graus para ver se conseguia encontrar Thomas em algum lugar. Me senti um idiota fazendo aquilo, por tão impossível que era. Não o vi em lugar nenhum, mas vi alguns animais bizarros - duas girafas azuladas - passando por ali. A resolução baixa tornava basicamente impossível de distinguir se eram reais ou animadas, mas como eram girafas azuis, presumi que fosse a segunda opção. Thomas devia ter ido no banheiro. Mas, por precaução, o exportei de volta. Assim que o fiz, ouvi algo em seu escritório. Fui até lá dar uma olhada. 

Thomas estava de pé no meio da sala, parecendo confuso. Seu cabelo, normalmente escovadinho e com gel, estava todo bagunçado como se tivesse acabado de acordar. 

"Ei, Thomas," falei. 

Ele olhou para mim, surpreso por não estar sozinho. 

"E-eu acho que desmaiei," falou, corando um pouco. 

"Como assim?" Perguntei. "Você está bem?" 

"Bem... Eu estava prestes a ligar meu computador quando me encontrei deitado no chão."

"Sério?" Olhei para baixo, tentando pensar em algo para falar. "Você se lembra de alguma coisa dos últimos minutos?" 

Ele olhou para o relógio de pulso.

"Uh, não. Eu apaguei!" 

Fui saindo, dizendo que provavelmente não era nada que precisasse se preocupar, e voltei para o meu computador. Senti uma excitação correr pelo meu corpo, embora ainda não acreditasse 100% que aquilo podia estar acontecendo de verdade.

Outros colegas de trabalho começaram aparecer e não consegui abrir A Floresta novamente pelo resto do expediente, se não seria visto. Durante o dia, houveram mais burburinhos sobre Jennifer. Maior parte do que ouvi eram boatos. Ninguém falava comigo sobre, é claro, mas era difícil não ouvir os sussurros ao meu redor. Umas das amigas mais próximas dela falou que a mesma havia ligado e que era difícil entendê-la. Estava obcecada com um certo pesadelo que estava-a perseguindo todas as vezes que ia dormir. Algo sobre ser caçada por monstros dentro de uma floresta. Tudo começou a ficar muito bizarro para ser uma mera coincidência. Seria eu responsável pelo o que acontecera do Jennifer? Me senti estranho. Por um lado, nunca tinha me imaginado fazendo algo para machucar alguém - nunca fui um cara violento - mas por outro, pensar que uma das pessoas que mais me traziam tormento havia sido forçada a passar três anos em uma floresta monstruosa me trazia um pouco de satisfação.

Não tive coragem de importar mais ninguém no dia seguinte. Continuei a contemplar suicídio, mas mais e mais frequentemente esses pensamentos eram substituídos pela A Floresta. Passei dois dias apenas observando-a, brincando com a ferramenta de tempo. Aumentei ao máximo e fiquei observando as estações passando em questões de segundos. As árvores cresciam, morriam e eram substituídas por novas árvores. Em certo ponto, houve um flash de luz e todas as árvores sumiram. Reduzi a velocidade do tempo. Parecia que havia acontecido um grande incêndio. Aumentei o tempo de novo e, cerca de um minuto depois, as árvores cresceram de novo como se nada tivesse acontecido. Porém, os animais não voltaram tão rápido, mas eventualmente, lá estavam de novo. 

A maioria das criaturas que eu via me lembravam muito mais de monstros do que de animais. Vi uma enorme centopeia branca com milhares de olhos vermelhos, também um tipo de lesma - ou gosma - devorando uma criatura que me lembrava um bicho-pau gigante. Em um momento, uma das girafas azuis chegou perto o suficiente da câmera para eu ver que não tinha cabeça, apenas várias bocas em lugares aleatórios do seu pescoço, cheia de dentes afiados. Sentado na segurança do meu escritório enquanto observava aquelas criaturas horríveis caçando umas as outras me dava uma sensação de aconchego, como estar dentro de casa durante uma tempestade. E haviam muitas tempestades dentro da floresta. As vezes aconteciam durante anos e anos sem parar, e eu tinha que acelerar o tempo em anos para que passassem. Quando virava a câmera para cima durante essas tempestades, eu podia ver uma nuance púrpura dentro das nuvens chuvosas. Isso tudo me deixava tão absorto que já nem mais pensava tanto na janela, mas ainda assim eu sabia que minha vida estava acabada e não tinha muita escolha.

Na quinta-feira - ontem - continuei a observar a floresta. De novo, apertei no Sobre. "Feito por Avid." Quem era ele? Passei boa parte do dia tentando descobrir isso. Abri novamente seu e-mail, copiei-o e procurei na lista de funcionários. Mas ele não apareceu. Mesmo tendo um e-mail corporativo, não parecia estar registrado como empregado. Chequei vários documentos com datas muito antigas, mas não achei nada. O nome Avid nunca apareceu. Pensei que talvez pudesse ter se demitido, mas mesmo assim ainda deveria aparecer nos registros que eu pesquisara. Eventualmente, desisti de procurá-lo e fui para casa sem ter feito nada de produtivo naquele dia.

Hoje eu devia ter ido ao funeral da minha mãe. Era para ser um dia importante para mim, um dia que me traria uma espécie de encerramento. Entretanto, minha chefe não me deu o dia de folga. Falou que eu não havia feito a solicitação de folga no prazo necessário, e talvez até estivesse certa mas, quer dizer... era a desgraça do funeral da minha mãe. É claro, meu plano era ligar e dizer que estava doente na hora, mas algo clicou dentro de mim quando ela fez isso comigo. Não podia mais aguentar.Tinha que parar. Minha chefe, meus colegas e toda aquela companhia era um câncer não somente na minha vida como na sociedade como um todo. Todo o ódio que eu senti por anos começou a borbulhar dentro de mim de um jeito que nem achava ser possível. Antes disso, eu não fazia ideia como aqueles caras que pegavam uma arma do nada e saiam atirando em seus escritórios se sentiam, mas agora sabia. É, eu não tinha uma arma, mas tinha outra coisa: A Floresta.

Cheguei bem cedo no escritório. Sabia que a maioria de meus colegas ainda estavam dormindo. E hoje acordariam em um cenário completamente novo. Entretanto, por algum motivo, minha chefe já estava em seu escritório. Ela não podia me ver de onde estava, mas eu podia ouvi-la falando no celular. Parecia uma ligação importante e provavelmente era o motivo de ter chegado mais cedo.

Abri o A Floresta. Uma tempestade despejava sua chuva roxa por cima das árvores. Por alguns segundos, hesitei. Meu plano era simples. Eu importaria pessoas que eu odiava - que basicamente consistia em todo mundo - para o pesadelo da minha tela e então abriria a janela e acabaria com minha própria vida, sabendo que cada uma daquelas pessoas desprezíveis teriam fins drásticos na boca de monstros. De certa forma, era bastante simbólico realizar isso no dia do funeral da minha mãe. Minha hesitação não durou muito. Apertei em Importar e digitei o nome da minha chefe na barra de busca. O programa perguntou se eu tinha certeza. Ouvi a voz dela ainda conversando no celular e cliquei Sim.

"Sim, eu sei sobre o recesso mas ainda assim temos que..."

De repente ficou tudo em silêncio. Senti um arrepio. Fui até seu escritório. O celular estava caído em sua mesa. Pude ouvir um homem falando no outro lado da linha. "Alô? Cadê você?" Desliguei a ligação e voltei para o meu escritório. Olhei em volta pela floresta, mas não achei minha chefe em lugar nenhum. Depois disso, comecei a importar o resto dos meus colegas, Jennifer inclusa. Senti uma felicidade da maneira que creio que qualquer um sentiria ao poder se vingar de seus inimigos. Sendo que iria me matar logo após, não considerei as consequências das minhas ações. Apenas deixei meus impulsos destrutivos tomarem conta completamente. Depois de importar todos do RH, não consegui me conter. Ao invés disso, continuei importando pessoas da empresa. Se fodeu, se fodeu, se fodeu também, eu dizia enquanto importava até gente que não conhecia. Pra mim já era motivo o simples fato de trabalharem ali. Nesse ponto, meu ódio já havia tomado conta de mim. Depois de um tempo, algumas pessoas começaram a aparecer na tela. Jennifer estava andando na frente da câmera. Andou até lá e gritou algo, mas como não havia som no vídeo, não pude entende-la. E então algo desceu do céu e a agarrou. Caiu alguns metros a frente, parecendo ainda viva. Depois disso, vi três homens - usando seus pijamas - correndo na frente da câmera, sendo perseguido pelo que parecia ser uma aranha, mas na verdade era apenas o cadáver de uma das girafas azuis com oito patas saindo de seu corpo apodrecido. 

Não sei porque - talvez a severidade da situação se tornou mais óbvia quando comecei a ver as pessoas na tela - mas comecei a chorar. Era um choro recheado de tantas emoções diferentes, mas maior parte eram mágoa e ódio. Mas continuei a importar pessoas. Depois de um tempo, percebi que dava para selecionar mais de uma pessoa por vez. Selecionei uma quantidade aleatória dentro das centenas de funcionários da lista. "Você tem certeza que quer importar os 167 sujeitos selecionados para A Floresta?" Sim, porra, tenho toda a certeza do mundo! Me senti vazio por dentro depois de apertar sim, como se mais nada importasse. Meu último resquício de humanidade havia sido perdido. Com o coração congelado - assistindo meus colegas confusos procurando por segurança na floresta tempestuosa - aumentei a velocidade para alguns dias por segundo. Estava indo rápido demais para conseguir ver alguém pela câmera. De repente, uma caixa de texto apareceu na tela. 

"James O. Nilsson está prestes a expirar. Deseja exportá-lo?" 

Apertei Não. Agora eu sabia que havia o matado. Isso aconteceu várias vezes até eu colocar a velocidade no máximo. Imediatamente uma caixa de texto apareceu. "210 sujeitos estão prestes a expirar. Deseja exportá-los?" 

Novamente, apertei Não. Fui para a lista de exportação e vi que agora estava vazia. Considerei importar ainda mais pessoas, mas decidi que minha dívida estava paga. Havia apenas uma coisa para fazer. Olhei para a janela. Minha decisão de pular não tinha nada a ver com o que eu acabara de fazer. Eu não era um covarde fugindo da polícia ou algo do tipo. De qualquer forma, sabia que ninguém iria conseguir descobrir o que acontecera com toda aquela gente. Nunca seria pego. Meu suicídio tinha a ver com o fim da minha dor, e por isso ainda estava decidido a continuar com esse plano. E agora era a hora. Antes de andar até a janela com qual eu havia tanto sonhando me jogar por, coloquei a velocidade de novo em seu tempo normal. 

Era um dia ensolarado na floresta. Para minha surpresa, pude ver um rastro de fumaça vindo do chão, alguns metros da câmera. De princípio não consegui definir do que se tratava, mas depois de uns minutos, percebi que haviam pessoas sentadas em volta de uma fogueira. Mais tarde, um deles andou até a câmera. Era um homem. Estava vestindo a pele de um animal e segurava uma lança. Uma mulher veio para seu lado. Pareciam pré-históricos. Se ajoelharam diante da câmera e colocaram no chão à frente o que parecia ser um pedaço de carne. Isso era uma oferenda? Meu primeiro pensamento foi que essas pessoas já deviam morar na floresta desde sempre, mas então entendi que provavelmente aqueles era descendentes das pessoas que eu havia importado. Deviam ter sobrevivido tempo suficiente para ter filhos. 

Decidi adiar meu suicídio mais um pouquinho para poder observar aquelas pessoas. Mas não faziam muito mais que aquilo. Depois de colocar a carne na frente da câmera, andaram de volta para seu acampamento e desapareceram de vista. Então aumentei a velocidade de novo, alguns anos por segundo. Cerca de cinquenta anos depois, diminuí de novo. Dessa vez, havia uma espécie de altar em volta da câmera - feita de pedras e flores - e eu podia ver mais fogueiras queimando ao longe. Fiquei fascinado com o fato dessas pessoas viverem vidas tão primitivas sendo que seus descendentes eram pessoas da idade moderna. Então percebi que todo mundo que eu tinha importado para A Floresta trabalhavam em um escritório. O conhecimento em Excel que tinham não era muito útil na vida selvagem. Com uma curiosidade flamejante, acelerei o tempo de novo. Dessa vez permiti que algumas centenas de anos se passassem. Quando voltei para o tempo padrão, a primeira coisa que notei foi que o altar havia mudado. Dessa vez, era estruturado. Pedras uma em cima da outra, mas ainda assim de um jeito primitivo. 

As pessoas pareciam as mesmas, ainda vestindo peles de animais e empunhando lanças. Mas dessa vez vi uma mulher carregando algo que parecia ser um arco e flechas. Mas ainda estavam na idade da pedra. Então aumentei o tempo e deixei que se passassem aproximadamente três mil anos antes de voltar ao tempo padrão. Demorei menos de meio minuto para fazer isso com a velocidade no máximo.

Para minha surpresa, os habitante ainda não haviam superado a idade da pedra, embora o altar estivesse um pouquinho mais avançado. Agora parecia um pouco com o Stonehenge. Um pouco desapontado com a demora de sua evolução, uma ideia surgiu na minha mente. Agora levado por uma curiosidade mórbida e não ódio, apertei novamente no Importar. Sabia que estava prestes a mudar a vida de alguém com minhas ações, e sem seu consentimento, mas de certa forma não parecia ser grandes coisas para mim. Acho que tinha me acostumado com aquilo. Procurei pelas pessoas mais inteligentes que conhecia na lista de funcionários. Haviam apenas três deles (horrível, eu sei): Uma médica que havia mudado de carreira na metade de sua vida, um engenheiro que havia trabalhado em projetos experimentais da empresa tipo desenvolver energias sustentáveis, e um servente que já havia trabalhado como dentista no seu país de origem. Importei-os e aumentei o tempo por alguns minutos, deixando metade de um século passar na floresta enquanto eu mal tivera tempo de coçar a cabeça. 

Dessa vez as coisas mudaram drasticamente. As pessoas não pareciam mais viver como nômades, mas em vilarejos. Pelo menos, havia uma vila construída em volta da câmera, então presumi que deviam haver outras. Finalmente, parecia que os habitantes haviam virado fazendeiros. Estavam usando carroças com rodas e até vi um cavalgando uma das girafas azuis como se fosse um cavalo. A culpa mínima que senti ao importar aquelas três pessoas sumiu imediatamente quando vi quanto haviam contribuído durante sua estadia na A Floresta. Passei cerca de uma hora observando os moradores da vila antes de aumentar o tempo novamente. Estava fazendo tudo tranquilamente, sem pressa, pois sabia que meus colegas não iriam para o trabalho naquele dia.

Quando coloquei a velocidade em tempo normal novamente, as pessoas agora viviam em algo que só posso descrever como uma cidade. Ainda parecia um vilarejo, mas era maior e com objetos de metal, como armas e ferramentas. Tipo a idade do bronze, sabe? Cerca de umas vinte pessoas trajando mantos brancos estavam rezando em volta da câmera. Me lembravam uma mistura de Hindus e Muçulmanos.

A devoção que tinham pela câmera fez com que eu me sentisse importante de uma forma que nunca havia me sentido antes. Afinal de contas, essas pessoas nunca teriam nascido se não fosse por mim. De certa forma, eu realmente era o Deus deles. E já me sentia assim. Aumentei a velocidade de novo. Nada muito novo aconteceu. Seu desenvolvimento estava lento. 

Em dado momento, a câmera havia sido tapada por paredes de todos os lados. Eu não podia ver nada, mas - como estava assistindo a floresta numa velocidade de um ano por segundo - logo as paredes desapareceram. Porque fizeram aquilo? Teria acontecido um tipo de mudança em sua religião? Casas eram construídas e destruídas, tempestades iam e vinham. Depois de um tempo, testemunhei a primeira guerra. Diminuí o tempo, mas a guerra passou tão rápido que terminou antes mesmo de eu poder ver parte dela em tempo real. A cidade estava em chamas e pessoas - mulheres e crianças - estavam deitadas mortas pelo chão enquanto homens com seus rostos pintados andavam por lá com lanças muito maiores do que eu já vira. Girafas azuis vestindo selas vazias se alimentavam dos cadáveres espalhados. 

Decidi aumentar a velocidade para cem anos por segundo de novo. Não dava para ver nenhuma ação individual, mas a cidade crescia, depois apareceu totalmente destruída por uma fração de segundo e reapareceu ainda maior que antes. Isso se repetiu diversas vezes e depois de um minuto da minha realidade - seis mil anos na A Floresta - normalizei a velocidade. A cidade era uma cidade antiga, algo como eu imaginava como que Atenas era antigamente. Visualizei a bandeira dessa cidade. Era preta com uma torre dourada no meio. Talvez fosse uma interpretação da câmera, achei. Afinal de contas eu nunca havia visto como era essa câmera e não tinha ideia de como se parecia. Quando aumentei novamente a velocidade, a cidade se destruiu e reconstruiu mais algumas vezes.

"Onde está todo mundo?" 

Era o zelador, um cara que sempre 'brincava' com meu peso.

"Hm," falei, surpreso. "Não faço ideia." 

Tirei o A Floresta da tela.

"Ei, o que era aquilo?" ele perguntou. "Um jogo?" 

"N-não..."

"Vamos, deixe eu dar uma olhada."

Nervosamente, abri novamente o programa. 

"A Floresta?" 

"Hm, é, meio que apareceu sozinho no meu computador," respondi. 

Entrei em pânico e não soube o que dizer além da verdade. 

"E o que você faz? É tipo Age of Empires ou algo do tipo?"

"É..." falei exitante, "não, não é. Não sei direito o que é." Senti uma gota de suor escorrendo pela minha bochecha.

"Você não devia jogar esses joguinhos em horário de trabalho sabia? É por isso que você é tão gordo, tem que parar de jogar essas porcarias o dia inteiro e ir para a academia, cara!" 

Ele riu. 

"Não é bem um jogo," Falei, ignorando seu insulto. "Só tem essas duas opções. Importar e Exportar. E olha só, quando eu clico em Importar abre essa lista com o nome de todos os funcionários daqui." 

Abri a lista. 

"Sério?" ele falou. "Isso é bem estranho." 

"Sim, tá todo mundo na lista. Olha." Digitei o nome dele. "Aqui está você. Você está na lista."

"Tá, e o que acontece se você apertar Importar?"

"E-eu não sei. Vamos tentar."

Selecionei o nome dele e apertei Importar. A caixa de texto de sempre apareceu. "Tem certeza que quer importar Ignacio Gonzalez para A Floresta?" 

Ignacio riu. "Isso é estranho pra caralho, cara, eu..." 

Cliquei Sim. Não cheguei a vê-lo desaparecer. Mesmo estando do meu lado, não o vi sumindo. Só... sumiu. Na verdade, era como se nunca tivesse existido. 

Aumentei a velocidade de novo. 

"Ignacio Gonzales está prestes a expirar, deseja exportá-lo?" 

Cliquei em Não tediosamente deixei que o tempo passasse. Dado o que eu sabia da história da humanidade na Terra, presumi que a civilização na A Floresta logo imitaria a minha civilização. Um minuto depois, vi que eu estava certo. A cidade havia passado de rústica para moderna em sessenta segundos. Mas não avistei nenhum arranha-céu. A câmera estava dentro do que parecia ser uma gigantesca instalação militar. 

Pessoas que pareciam ser cientistas andavam em volta dela fazendo testes diferentes. Por alguns minutos, observei-os trabalhando. Em uma das paredes, havia um enorme mapa mundial. Nele não havia nenhum continente da Terra. Pude ver fronteiras e pontinhos marcando diferentes cidades. De um jeito primitivo, me senti ofendido que as pessoas haviam parado de endeusar a câmera.

Os cientistas trabalhavam meticulosamente e, embora me fascinasse muito, não era muito divertido ficar observando aquilo. Dessa vez aumentei a velocidade para um ano por segundo. Tudo começou a se mover rapidamente na frente da câmera. De repente - com um flash de luz - a instalação militar sumiu e me foi revelado que a cidade estava completamente destruída.

Normalizei a velocidade. Eu não tinha ideia do que acontecera, mas parecia que haviam bombardeado a cidade. Podia ver esqueletos de prédios gigantes na distância e havia fumaça por todos os lados. Então, vi uma luz brilhante no horizonte seguido de uma nuvem de cogumelo subindo aos céus. 

Uma tristeza cresceu dentro de mim. Em poucas horas, eu tinha acidentalmente criado uma civilização, vi a crescer e se autodestruir. Não vi nenhum sinal de vida. Coloquei a velocidade no máximo. Demorou apenas um segundo para tudo ficar verde de novo. A Floresta voltara, tão imaculada quanto no seu início. Agora, pensei, era hora de terminar com minha própria vida. 

Deixei A Floresta rodando no meu computador e andei em direção da janela. Meus passos pareciam pesados. Abri a janela, deixando o ar do verão entrar, e então lembrei que havia deixado meu celular em cima da minha mesa. Não queria que ninguém o acessasse depois da minha morte, então voltei para buscá-lo. 

Algo havia mudado na tela. De alguma forma a humanidade havia sobrevivido na A Floresta. Demorou alguns milhares de anos para se reconstruírem - como se tivessem começado do zero de novo - mas a cidade voltara. Quando diminuí a velocidade - deixando antes alguns milhares de anos a mais passar pela floresta - notei que a cidade era ainda maior que antes. Os arranha-céus iam ainda mais alto e, para minha surpresa, pude ver diversos veículos voando pelos céus. Usei a câmera para olhar em volta e quando direcionei-a para o céu, pude ver luzes nas faces da lua. Haviam pessoas morando lá agora. Enquanto eu observava esse mundo, agora completamente transformado de um mundo terrivelmente selvagem para um paraíso de tecnologias que nunca nem se quer sonhamos aqui na Terra, chorei lágrimas de felicidade. Era uma alegria que jamais havia sentido na vida. 

Olhei pela janela do meu escritório e para a primitiva e tediosa cidade espalhada pelo horizonte e depois para a cidade que brilhava na minha tela do computador. Pensei na minha amada mãe. Ela iria querer que eu continuasse vivo. 

Isso tudo foi antes de começar a escrever isso, minhas últimas palavras na Terra. Acabei de clicar em Importar. 

"Você tem certeza que quer importar Sam Wilkinson para a Floresta?"

Antes de clicar em Sim, quero dizer só mais uma coisa: Se algum dia você receber um e-mail de um cara chamado Avid com um login para A Floresta, não esqueça de agradecer por mim. 

ORIGINAL

Tivemos que inventar histórias de terror em uma aula, essa se destacou.

N.T: Alguns nomes próprios e expressões foram mudadas durante a tradução para auxilar trocadilhos e para melhor entendimento do leitor, outros foram mantidos como no original. O sentido original do conto se mantém.
 
Quando eu estava no ensino fundamental, tínhamos um professor que todos odiavam. Seu nome era Sr. Handscombe. Dava aula de português.

Sr. Handscombe tinha por volta dos 1,65 de altura, com uma cara de rato e óculos fundo de garrafa. Uma barriga que parecia de vermes. Ficando careca no topo. Basicamente todas as desvantagens genéticas possíveis reunidas em um só filho da puta.

Porra, como eu o odiava. Não sei se foi o fato de conseguir ser mais alto do que 30 outros seres humanos em uma única sala que subiu-lhe a cabeça, mas nos tratava mais como se fôssemos prisioneiros do que seus alunos.

Gritava e berrava com as crianças. Humilhava-os. Te colocava na detenção por qualquer coisa que conseguisse pensar. Ele era um pedacinho de bosta.

E ele tinha seus favoritos. Não crianças que gostava, mas os seus preferidos para implicar. Tinha um garoto gordinho chamado John Butão e, toda vez que Handscombe fazia a chamada, chamava-o de "Bundão" e fingia que tinha sido sem querer. Havia uma Menina chamara Maria, que tinha a língua presa. Quando ninguém se voluntariava para ler os textos na aula, ele nomeava Maria. Sempre.

Mas a criança que ele gostava mais de pegar no pé era o Grant.

Grant era um garoto novo no colégio, entrou na nossa turma na sexta série.  Minha mãe me disse que ele era um errante, que significava que se mudava para vários lugares diferentes e morava em uma caravana. Outras crianças usavam outro termo para se referir a ele, mas nunca o diziam na sua frente. O garoto era pelo menos uma cabeça maior do que todos nós, sabe. Portador de ossos grandes e era largo. Tinha uma expressão fixa de você-não-vai-querer-mexer-comigo no rosto que fazia com que todos os outros o deixassem em paz.

Mas isso não impedia o Sr. Handscombe. Nem um pouquinho. Não sei era pelo motivo de Grant ser quase do seu tamanho ou porque a família de Grant era errante, mas Handscombe o tornou um alvo desde o primeiro dia. Ele odiava Grant. Dava para ouvir até em sua voz, toda vez que falava com o garoto. Não gostava mesmo.

Sr. Handscombe alternava entre xingar Grant na frente de todo mundo - podia ser por qualquer coisa, tipo espirrar enquanto ele falava ou por sua camisa não estar dentro da calça - e dar seu melhor para constrangê-lo. Na primeira semana, mandou Grant ir para frente da sala, depois o repreendeu por dez minutos pois seus sapatos não estavam devidamente engraxados.

Outra vez disse que nós iríamos praticar sinônimos, e então escreveu a palavra DIFERENTE no meio do quadro negro. Tivemos que um por um ir até lá e escrever palavras em volta que significasse algo parecido.

Quando terminamos, Sr. Handscombe deu um sorriso cínico.

"Agora precisamos de alguém com um vasto conhecimento nesse assunto para ler todas essas palavras em voz alta para a turma," disse. "Que tal... você, Grant?"

Acho que o professor esperava que Grant fosse um leitor lento, mas estava enganado. O garoto podia parecer um delinquente mas, cara, sabia ler muito bem. Proferiu cada uma daquelas palavras sem problema algum, sem dar sugestão de que o tema o afetava. Pude ver o sorrisinho de Handscombe virando uma cara feia.

As coisas continuaram desse mesmo jeito por boa parte do outono. Handscombe alfinetando e Grant lidando da melhor forma possível. Então, Outubro chegou, e tínhamos uma tarefa especial. Uma para o Halloween. A ideia era escrevermos histórias de terror, então as leríamos em voz alta na aula do dia 31 de Outubro.

Não me lembro da maioria das histórias contadas naquele dia. Na verdade, mal me lembro da minha. Acho que era algo super genérico sobre um monstro que morava na dispensa da minha casa. Mas me lembro a de Grant. Mesmo depois de todos esses anos, eu me lembro. A história que Grant contou era uma espécie de conto folclórico, e prendeu minha atenção assim que começou a contá-la.

Aqui está, nas palavras de Grant, da forma como me lembro:

Era uma vez uma família de bruxas que vivia em uma caverna. As bruxas viviam isoladas, e a maior parte das pessoas e criaturas que viviam no vilarejo próximo as deixavam em paz. Mas havia uma exceção.

Um enorme e horroroso Troll aterrorizava a floresta nos arredores da vilarejo. O Troll tinha dois metros e meio, com uma barriga verde enorme. Furúnculos e verrugas gigantes e vermelhas cobriam seu rosto. Comia qualquer coisa que fosse idiota o suficiente para cruzar seu caminho.

O Troll achava que era dono da floresta, e não gostava do fato de que as bruxas estivessem morando em uma caverna tão próxima. Não gostava mesmo.

Mas ele não podia fazer muito a respeito. Toda vez que via as bruxa, corria atrás delas. Mas elas voltavam logo correndo para a segurança da caverna. Rastejavam para a escuridão de trás das pedras, e o Troll era grande demais para entrar lá.

Ele ficava na entrada da caverna, e todos os dias pronunciava a mesma coisa:

"Bruxas, na caverna, se escondendo como animais,

Saiam dessas terras e não voltem mais!

Se recusarem e escolherem ficar,

Fiquem cientes que o preço vão pagar."

Bem, as bruxas tinham medo do Troll - todos tinham - mas não tinham para onde ir. Então, por um bom tempo, sobreviveram da melhor forma que puderam. Saiam da caverna para conseguir comida e os itens que precisavam para seus feitiços toda vez que o Troll sumia de vista. E toda vez que o avistavam, corriam de novo para a escuridão.

O Troll nunca era esperto o suficiente para apanhá-las, e foi ficando cada vez mais bravo. Logo, começou a matar animais e deixava-os na entrada da caverna para apodrecer. Furões, raposas, pássaros - foi capaz até de um dia pegar uma criança do vilarejo e deixar seu corpinho quebrado e destroçado na entrada da caverna.

Quando as bruxas saíram no dia seguinte e viram aquilo, ficaram horrorizadas. Mas também perceberam outra coisa; algo que o Troll jamais perceberia. Preso junto aos pedaços sangrentos do corpo da criança, haviam um único fio de cabelo negro e grosso. Um fio de cabelo da cabeça do Troll. E quando as bruxas viram aquilo, souberam o que tinham de fazer.

Pegaram o fio de cabelo, e juntaram mais alguns gravetos da floresta e transformaram tudo em um pequeno boneco de madeira. Fizeram o boneco alto, feio e gordo, para que se parecesse o máximo possível com o Troll. Então, colocaram-no em um círculo para fazer um feitiço.

E quando terminaram sua mágica, pegaram o boneco e em turnos começaram a enfiar alfinetes nele. Alfinete depois de alfinete, depois de alfinete, depois de alfinete. Quando terminaram, haviam mais de cem palitinhos de metal enfiados no boneco de madeira.

No dia seguinte, não havia animais mortos na entrada da caverna. Não havia sinal algum do Troll. As bruxas procuraram por ele pela floresta, e logo mais encontraram manchas de sangue negro de troll respingado em arbustos perto do rio. Seguiram o rastro. A quantidade de sangue foi ficando maior quanto mais longe iam, e os respingos ficavam mais e mais frequentes. Mais frescos.

Finalmente, em uma clareia não muito longe do vilarejo, encontraram o próprio Troll. Estava jogado nas sombras de um enorme carvalho. Olhos fechados. Puxando o ar com dificuldade. E sangrava por centenas de pequenos furos espalhados por sua massa verde corpulenta, seu sangue negro vazando do jeito mais lento e doloroso imaginável--


Me lembro que o Sr. Handscombe parou a história nessa parte.

Estava carrancudo enquanto gesticulava para a turma ficar quieta. Dava pra ver que todo mundo estava gostando da história, pelo diversos lamentos que foram soltos quando Handscombe o parou.

"Tá, tá, tudo bem," disse, levantando as mãos pedindo silêncio. "Acho que já ouvimos o suficiente, Grant. Isso foi previsivelmente desagradável. Estou vendo aqui a prova que você pode tirar o garoto da caravana, mas não pode tirar a caravana do garoto."

Esse não foi o último dia que vi Grant, mas deve ter sido perto; ele deixou a escola duas semanas depois. A família se mudou. Ouvi dizer que foram para o Sul, mas ninguém sabia ao certo. Tudo que sabíamos era que um dia ele estava na aula e no outro sua cadeira estava vazia. Sumiu. Simples assim.

Alguns dias depois, Sr. Handscombe também sumiu.

Começou quando um professor substituto apareceu certa manhã para dar a aula dele. Não demos muita bola - só achamos que ele devia estar doente ou algo do tipo. Isso até vermos a página principal do jornal na manhã seguinte.

Nunca ficamos sabendo dos detalhes. Houve boatos na administração e alguns sussurros na hora do recreio, claro - mas a maior parte eram só rumores. Ninguém sabia muito bem no que acreditar.

A única coisa em que todos concordavam era que o Sr. Hanscombe havia sido assassinado. A polícia não tinha pistas. E os detalhes sobre sua morte aparentemente eram macabros demais para serem aprofundados no jornal.
 
***

Não sei o que foi que me fez ir vasculhar o local onde a família de Grant estivera acampando.

Provavelmente uma curiosidade mórbida. Talvez fosse o fato de que eu não conseguia esquecer a história que ele havia escrito. Seja lá o que fosse, fez com que eu passasse semanas passeando de bicicleta pelo local depois da escola e nos finais de semana. Tentando encontrar o local de acampamento exato deles.

E, eventualmente, encontrei.

Foi um homem que trabalhava em uma banca de jornal em uma vila dos arredores que me deu a dica. Apontou a direção de alguns campos perto da floresta. Disse que os errantes tinham ficado em algum local para aqueles lados.

Não demorei a encontrar o campo certo depois disso.

Era próximo dos arredores da floresta, não muito longe de um rio. Me lembrava muito dos cenários da história de Grant.  Só mudar o campo por uma caverna. Desci da minha bicicleta e comecei a vasculhar o local.

A família de Grant já tinha ido embora faziam algumas semanas na época, mas os sinais ainda estavam lá. Grama esmagada. Algumas cadeiras enferrujadas. Bitucas de cigarro. E, no que eu acho que devia ser o centro do acampamento, um círculo de pedra.

Não sei porquê, mas eu estava com uma sensação estranha na minha barriga enquanto me aproximava daquele circulo. Borboletas no estômago, creio eu. Talvez um pouco de medo.

O círculo estava vazio a não ser por uma coisa no meio. Uma forma pequena, encostada em uma pedra. Acho que minha mente já sabia muito bem o que estava prestes a ver antes mesmo de eu me aproximar o suficiente para entender os detalhes. Segurei a respiração.

O objeto encostado na pedra era um boneco.

De madeira, pintado. Entalhado da madeira de alguma árvore dali, acho. Era um boneco pequeno, mas tinha sido decorado em detalhes minuciosos. Uma barriga de vermes. Cabelos finos. Reconheci o pequeno Sr. Handscombe quase que imediatamente.

Havia apenas uma coisa diferente - uma única coisa que diferenciava o boneco da imagem real do professor que aparecera no jornal local. Algo sutilmente errado com seu rosto.

Me aproximei para olhar melhor, e senti uma onda de náusea tomando conta de mim.

Ambos os olhos do boneco estavam pendurados para fora de seu pequeno crânio.

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