15/08/2018

Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 4)



Oi pessoal,

Em primeiro lugar, quero pedir desculpas por não ter tido acesso ao meu notebook nos últimos dias. Tive que ir em um casamento na Escócia para prestigiar dois grandes amigos. Marcaram a festa no meio da semana e, cá entre nós, não acho que vá durar muito esse relacionamento, o que significa que, eu não só negligenciei vocês, mas também gastei dinheiro com um terno alugado e um jogo de chá John Lewis.

Como sempre, agradeço a ajuda que estão me dando na minha tentativa de encontrar Alice. Agora já tenho contato total com o programa de rádio em que trabalhava, e eles vão me enviar o e-mail inicial de Rob o mais rápido possível. Também procurei todas as cidades chamadas Júbilo e entrei em contato com os moradores de cada uma delas. Nenhum deles tem ruas específicas mencionada nos registros anteriores, como “Fileira de Sicômoros” e “Estrada dos Bordos”. Até fiz um pente fino no Google Maps para ter certeza. Não sei qual foi a cidade por onde Alice passou em fevereiro do ano passado, porém parece que não existe em nenhum registro público.

O cara que prometeu refazer a rota da loja de espelhos entrou novamente em contato e me enviou alguns possíveis endereços de Rob. Também mencionou que irá olhar o próprio jogo mais de perto. Não sei o que quis dizer com isso, mas quero deixar claro, por favor, não joguem por minha causa. Não quero que algo aconteça com vocês e que isso se torne minha responsabilidade.

Ok, sem mais delongas, aqui está o próximo registro.


Obrigado novamente.

***

O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 10/02/2017

[Possível abertura do programa] (Quero direcionar essa mensagem à você, ouvinte, só por um momento, com um aviso prévio sobre esse próximo episódio. Tenho certeza de que você percebeu que cada parte desta série, até o momento, tenha sido palco de eventos estranhos e inexplicáveis, e que se passaram em muito e muitos quilômetros de viagem. Não preciso nem dizer que foi algo bem planejado. Tenho resumido as incontáveis horas de meandros insignificantes e tomando cuidado a mais para documentar os fenômenos esquisitos que encontramos ao longo do caminho. Eu queria que a história se movesse rapidamente, para que haja a sensação real de continuidade em cada capítulo. 

Se é o sentimento de intriga exploratória o motivo para você estar ouvindo essa parte em questão, entendo completamente. Tenho certeza de que isso é uma atração primária para quase todos vocês; as reviravoltas, as curvas, os encontros estranhos e misteriosos ao longo de uma estrada tecnicamente impossível.


Mas se esse o caso, sinto que é meu dever informá-lo de que, tirando algumas exceções, quase não haverá muito a se ver no campo do sobrenatural nessa estrada, e os monstros que vamos encontrar serão muito mais humanos; estresse, divisões, desconforto e, como se poderia imaginar, luto.

Se quiser ler a sinopse deste episódio no site e aguardar a próxima parte, você conseguirá ficar em dia com a história e tenho certeza de que voltaremos ao caminho de antes, indo cada vez mais profundamente no desconhecido. Mas sinto que é importante de mostrar o resultado do sequestro de Ace, em parte devido ao significado das revelações que são descobertas em seu rastro, mas também como um gesto de respeito e consideração pela vida que foi perdida. 

Essa é a história da nossa segunda noite na estrada.)

-

À medida que fazemos a curva à esquerda, o terrível espaço atrás de nós foi rapidamente substituído por um vazio quieto à frente. O Wrangler se rastejava, derrotado, em direção ao comboio que nos esperava. Os quatro carros restantes estão estacionados um pouco mais a frente, ocupando mais da metade da estrada. Rob vai até a ponta frontal, ultrapassando todos para retomar a formação original.  Ambas suas as mãos paradas no volante, olhos fixos em algum ponto distante. Não é difícil imaginar que por trás do foco e do silêncio controlado, há um homem transtornado, um homem que não sabe o que dizer, um homem com medo de falar demais.

AS: Aqui é Bristol para todos os carro. Vamos voltar à estrada. Fique em formação e dê espaço para os outros. Temos muito a percorrer antes de pararmos para dormir. 

LILITH: Bristol, onde está Ro... Ferryman? 

AS: Ferryman está aqui. 

APOLLO: Cadê o Ace?

AS: Ace... Ace não conseguiu passar. 

APOLLO: Como é?

LILITH: Como é que é, porra? Cadê ele, porra?

Seria simples descrever o que acontecera ou, pelo menos, resumir os fatos mais básicos; o que aconteceu com Ace, onde tinha ido parar, o motivo de não ter voltado. Mas, por algum motivo, não consegui dizer uma palavra sobre o que acontecera. Algo sobre o evento em si faz com que seja impossível de ser descrito, como se as frases necessárias estivessem trancadas dentro de mim.

AS: Precisamos ir para o ponto de parada. Não estamos seguros aqui. 

Algumas horas antes, quando saímos da esquina da rua Fileira de Sicômoros, Rob deu a entender que o restante da viagem seria sem grandes eventos. Se ele tivesse esperado apenas alguns minutos a mais, estaria completamente correto. Ficamos mais umas quatro horas naquela estrada, cada um de nós com nossos próprios pensamentos enquanto a floresta ao redor ia diminuindo. A paisagem dá lugar a campos de milho que se estendem além do horizonte em ambos os lados.

Nada digno de atenção aconteceu, o que é irônico, sendo que digito muito mais do que realmente preciso. 

Com o sol descendo através de um céu em tons de laranja e rosa, vamos em direção de uma clareira, ao lado de um bosque de macieiras selvagem. Rob desliga a ignição e nós dois ficamos sentados em silêncio. A necessidade de Rob se concentrar para dirigir era uma boa desculpa para ficar quieto, uma boa desculpa para não encarar os fatos. Entretanto, as rodas agora estavam paradas, e a verdadeira razão para nossas reticências mútuas ficam óbvias.

AS: Você acha que ele está morto? 

ROB: Não sei. 

A resposta de Rob não era reconfortante, e fico estranhamente grata por isso. Não existem palavras reconfortantes que possa realmente me consolar, e qualquer tentativa pareceria falsa, uma piada com a gravidade da situação. De qualquer forma, dadas as circunstâncias do sequestro de Ace, nem sei qual resposta eu queria ouvir.

Lilith apareceu na minha janela, batendo com os nós dos dedos contra o vidro com uma impaciência agressiva. Eu não esperaria nada menos naquele momento. Todos do comboio foram obrigados a seguir uma ordem unilateral, uma ordem minha, sem explicações. Viajam por horas acompanhados de uma ausência gritante de outro ser humano que antes nos acompanhava. Olhando no espelho lateral, vejo o resto do comboio, de pé, junto aos carros, observando ansiosamente o Wrangler. 

As mãos de Rob ainda estavam no volante. 

Respirando profundamente, abri a porta e sai para o gramado. Senti o chão que  era macio embaixo dos meus pés enquanto ia até os outros. Provavelmente havia chovido recentemente. Começo a encarar o semicírculo, e quase parecia que eu estava prestes a dar uma das palestras de Rob.

EVE: Bristol, o que está acontecendo? 

APOLLO: Ace deu pra trás? Voltou pra casa?

Encontro o olhar de Apollo. Por um breve momento, considero dizer a todos exatamente isso. Talvez isso os salvasse da dor lenta e pesada que estava tomando conta do meu peito. Talvez isso me salvaria daquela difícil conversa. De qualquer forma, sei que não poderia mentir para eles. Meus compatriotas merecem a verdade, por mais desagradável que seja.

AS: Não, ele não voltou para casa; eles detonaram o carro dele. 

LILITH: O carro guincho? Ele conseguiu sair? 

A resposta não vem com facilidade. Me sinto pressionada para dizer aquelas palavras em voz alta e, quando o fizesse, seria para eu mesma reconhecer a verdade. Parecia que estava sendo levada para um funeral, como se estivesse sendo verbalmente escoltada até um caixão aberto.

EVE: O que aconteceu com ele?... Bristol...

ROB: Ele está morto, Eve. 

Eu não tinha visto Rob sair do carro quando chegou perto do grupo. Era difícil esconder meu alívio quando ele assumiu novamente seu papel de líder, abordando o grupo com naturalidade. Agora realmente era uma de suas palestras. 


ROB: Tinham dois caras no caminhão de reboque que vinha de Júbilo. Eles o pegaram. Levaram de volta para a cidade. E do jeito que estavam o tratando, não ficaria vivo por muito tempo. 

BONNIE: Meu Deus...

EVE: Que? O que vão fazer com ele, Rob?

ROB: Não sei dizer. Isso nunca aconteceu antes. 

LILITH: Bem, temos que voltar. 

ROB: Isso não vai acontecer. 

LILITH: Não podemos simplesmente abandoná-lo. 

AS: Lilith...

LILITH: Nós vamos voltar!

ROB: Não, não vamos. 

APOLLO: Eu e Rob podemos voltar. Você sabe onde fica, não é? 

ROB: O garoto está morto, Apollo. 

LILITH: Mas ele estava vivo quando o viram pela última vez, não é mesmo? 

ROB: Sim, mas...

LILITH: Então quando foi que você decidiu que ele estava morto? 

ROB: Quando eu o vi ser levado para longe com um gancho enfiado na porra de sua garganta!

Rob não deveria ter dito aquilo. Entendo suas razões; queria transmitir uma verdade importante, que nada podia ser feito, ou poderia ter sido feito então para salvá-lo. Sua péssima escolha de palavras faz o trabalho, mas também fez com que uma nuvem de perturbação paire sobre a multidão, plantando na mente de todos a imagem repulsiva que tenho me esforçado para esquecer.

Bonnie cobriu a boca com as mãos em choque e tristeza. Eve fica visivelmente pálida, e até mesmo Lilith, que tinha a intenção de liderar o questionário, é pega de surpresa.

LILITH: Você viu isso acontecer, Bristol?

Assenti solenemente. O grupo arrepia-se com minha afirmação.

AS: Vi o suficiente. Tive que fechar meus olhos quando aconteceu, Rob tentou salvá-lo até que… 

Antes que eu possa terminar minha declaração, minhas palavras são cortadas por algo totalmente inesperado. Em uma resposta espontânea às minhas palavras, uma explosão dura de risadas debochadas e sarcásticas soa de dentro do comboio. Um por um, nos viramos para a fonte, até que todos estavam olhando para Bluejay. Sua risada sem remorso enche o silêncio da noite.

AS: Tá achando graça, Bluejay?

Bluejay tenta falar por entre sua risada que lentamente, muito lentamente, vai diminuindo.

BLUEJAY: É só que... você se autointitula jornalista e... fechou os olhos [risos], meu deus do céu... aí está! Aí está!

AS: Oi?

BLUEJAY: Você fecha os olhos quando está assistindo um truque de mágica? 

EVE: Mas que merda é essa, Bluejay?

APOLLO: Não é hora pra isso, gente.

BLUEJAY: Ah, meu bem, já passou muito da hora. Sério, vocês são todos idiotas? O jogo da esquerda/direita é uma farsa. É falso! Rob Guthard enganou vocês como criancinhas! Ace está bem, provavelmente é apenas um ator! Assim como o caroneiro era apenas um ator e aquelas pessoas da cidade também. Quero dizer, porra, é só ver. 

O grupo é surpreendido pela incredulidade de Bluejay. Ela estava claramente segurando a língua desde o primeiro dia; nossa reação ao sequestro de Ace tinha passado de seus limites.

AS: Eu vi Rob atirar em um deles com um rifle de caça. Eu vi a ferida. Foi real.

BLUEJAY: Já ouviu falar de sangue falso? O rifle provavelmente estava carregado com balas de festim. Dá pra comprar isso em qualquer loja fuleira de mágica. Sério, o que diabos tem de errado com vocês?


LILITH: Ok, em primeiro lugar, eu não estou gostando da porra do seu tom. Em segundo lugar, você percebeu que somos os únicos carros na estrada há quase dois dias? E quanto a Júbilo? Você está sugerindo que Rob contratou a merda de uma cidade inteira? Isso seria impossível.

BLUEJAY: Ah sim, claro, ISSO é impossível, mas é totalmente crível que estamos dirigindo em uma estrada mágica. Talvez esse seja a maior farsa que já vi, mas isso é tudo que é, uma grande mentira. E essa burrinha aqui está dando toda a publicidade que ele quer. O que quero dizer é, esse grupo não passa de um bando de ovelhas, mas você é um psicopata fodido. 

Minha mãe costumava me dizer que você não pode atacar uma pessoa na estrada. Mas encarando o sorriso sombrio e satisfeito de Bluejay, estou mais do que tentada desobedecer as regras de minha progenitora. 


AS: Ok, Bluejay, justo. Não vou fingir que sei exatamente o que está acontecendo aqui, porque afinal de contas, você pode estar certa. Mas por que Rob gastaria o orçamento de produção de um filme de Hollywood para enganar uma jornalista de rádio e duas vloggers? Confie em mim, nosso site não recebe acessos suficiente para-

BLUEJAY: Ah, não vá achando que você é tão importante assim. Não é VOCÊ que ele está tentando enganar.

Bluejay se vira para Rob, fixando um olhar de puro triunfo.

BLUEJAY: Admita, Rob. Admita que isso tudo é uma farsa. Admita que você sabia quem eu era antes mesmo de sair do meu carro.

O rosto de Rob parece ter sido esculpido em mármore. O grupo olha para ele em busca de uma resposta, mas ele responde diretamente ao Bluejay, com os olhos fixos nos dela.

ROB: É verdade… eu sei quem você é, Denise.


A atmosfera muda e, por um momento, a noite irrompe em um milhão de sussurros. A resposta de Rob claramente significa algo para todos, menos para mim.

EVE: Denise?

LILITH: Denise Carver?

APOLLO: Não, não pode ser. É sério? 

AS: Uh, desculpa, mas... quem é Denise Carver?

LILITH: Ela é a maior desmancha-prazeres do nosso meio. 

BLUJAY: Ah, vai se foder, cabeça de vento. 

ROB: Denise é membro do Instituto Americano de Céticos e Racionalistas. Gosta de se convidar em grupos de caça fantasmas com nomes falsos para que possa desbancar tudo publicamente. Vocês devem ter percebido que a senhora aí não acredita no sobrenatural. 

BLUEJAY: Na verdade eu acredito sim no sobrenatural. Acredito que é uma indústria bilionária construída em cima da venda de mentiras confortáveis para os crentes, e cresce por causa de jornalistas de merda e blogueiras que não são mais que putinhas loucas por atenção, que estão dispostas a propagar qualquer merda que darão cliques na internet. 

AS: É por isso que você demorou tanto para contornar o pinheiro. Mesmo quando o caminhão estava vindo em direção de Ace. Você achou que nada disso era real.


BLUEJAY: Uh… e você achou?

Por mais condescendente que seja o discurso dela, suas palavras me provocam uma percepção súbita. Era verdade que, com um orçamento alto o suficiente e alguns idiotas habilidosos, provavelmente poderia-se replicar a maior parte do que vimos na estrada. No entanto, sem perceber, me vi concordando com a versão de Rob, defendendo com unhas e dentes a veracidade do Jogo da Esquerda/Direita contra os ataques dela. Parti naquela jornada com a mesma opinião que Bluejay, totalmente cética, mas em algum lugar entre o túnel e aquele dado momento, eu me tornara uma crente.

Bluejay percebe minha falta de protestos e se volta par Rob. 

BLUEJAY: Estou lisonjeada que você fez tudo isso. Eu não tinha noção que meu trabalho era tão ofensivo assim para você. 

ROB: Admiro seu trabalho, Denise. Sempre admirei. É por isso que eu te trouxe. 

BLUEJAY: Isso é mentira. Fale para seu amiguinho Ace que a atuação dele é uma merda. 

Bluejay tira um pacote de Marlboro do casaco, acendeu um cigarro e foi se sentar no capô do carro mais próximo. Seu comportamento claramente sinalizava que sua parte na conversa acabara, embora suas palavras tivessem deixado um sabor amargo em todos os outros envolvidos. Tentando simpatizar de seu comportamento, deve ser exaustivo passar dois dias com pessoas cujas opiniões são exatamente opostas às suas, tendo que escutar em silêncio enquanto corroboram suas próprias opiniões que, para você, são absurdas. Dito isso, no entanto, fico incrivelmente feliz que a mulher parou de falar. Isso me lembra de uma época em que nos duas nos dávamos bem.

A próxima pergunta foi de Eve, sua voz tremia.

EVE: A gente pode... pode morrer aqui? 

A força de suas palavras entram na mente de todos na roda. É óbvio que os outros também já tinham se perguntado o mesmo, e queriam uma resposta de Rob.

ROB: É uma possibilidade. A estrada nunca matou ninguém antes. Pelo menos não quando todas as regras são seguidas. 

LILITH: Você disse em seus e-mails que poderia ser perigoso.

ROB: Isso mesmo.

LILITH: Mas, por um acaso, não achou necessário falar que poderíamos morrer?

Rob se vira para Lilith, claramente ofendido por sua acusação.

ROB: Nos anos 20, Jon Ebenrow matou 36 pessoas e violou seus corpos. Em um dos vídeos de vocês, as duas foram até a casa dele na Virgínia procurando o fantasma do homem. Bonnie & Clyde gastaram quinhentos dólares para ficar no Murder House de Iowa, um lugar que, supostamente, faz com que as pessoas sejam possuídas e são forçadas a matar uns aos outros.


ROB: Se vocês acreditam honestamente no que tanto perseguem, deveriam aceitar a condição de morte como um possível resultado toda vez que saíssem de casa. Estamos procurando por evidências de um outro mundo. O que fazemos aqui tem um significado científico tão grandes quanto o do pouso na lua, um significado cultural de Colombo descobrindo as Américas e muitas pessoas morreram para que essas coisas fossem feitas. Se você aceitou o risco de perseguir o fantasma de um serial killer, deve estar disposta a aceitar os riscos daqui.

Lilith parecia ter sido repreendida por um de seus pais. Há um fogo em seus olhos enquanto observa Rob, enfrentando sua crítica com desprezo.

LILITH: Ah, então é culpa do Ace? Ele deveria ter "aceitado o risco"?

ROB: Ele aceitou o risco. Ace tomou suas decisões. Ele viu os perigos da estrada em primeira mão e continuou indo. Eu disse que este lugar poderia ser perigoso e talvez vocês não tenham levado isso a sério. Mas você NÃO vai me tratar como se eu tivesse seduzido vocês para cá sob falsos pretextos. 

Ficamos por alguns momentos no vazio desconfortável deixado pelas palavras de Rob. Ninguém sabe ao certo para onde olhar.


APOLLO: Então, o que fazemos agora, Rob? Nós voltamos?

ROB: Não posso tomar essa decisão por vocês. Se quiser se separar e voltar, sugiro que espere até o raiar da manhã. Eu nunca vi nada igual aquilo acontecer antes, mas esse é o maior grupo que já tive dentro do jogo. Talvez isso esteja influenciando em algo.

AS: O que você quer dizer com isso?


ROB: Bem, é a única coisa que mudou das outras vezes. A verdade é que este não é o nosso mundo, e por todos os direitos da lei universal, não deveríamos estar aqui. Mesmo quando é  apenas um carro, a estrada sempre tenta desencorajá-lo a continuar. Talvez seja como bactérias no seu organismo. Uma ou duas podem passar despercebidas, mas quando atinge um certo ponto, é como um…

AS: Como uma resposta do sistema imunológico. Você acha que a estrada está tentando se livrar de seus objetos estranhos?

ROB: E quanto maior o grupo-

AS: ...Mais violenta a resposta.

Fazia sentido, até Bluejay rir novamente. Ao ouvir sua reação, reavalio o que estou dizendo e não posso deixar de me sentir um pouco idiota com a ideia.

ROB: Talvez. É apenas uma teoria ... não sei.


Rob se recompõe.

ROB: De qualquer forma, vocês têm até amanhã para decidir se querem continuar na estrada. Bristol, se quiser ir para casa, tem que encontrar alguém para te levar. Eu não estou pronto para voltar ainda.


Ele se afastou do grupo e marchou em direção do Wrangler. Eu não o vejo novamente pelo resto da noite, e não tinha intenção de incomodá-lo. Eve e Lilith imediatamente se aglomeram ao meu redor, perguntando se estou bem e se revezando para falar mal das ações de Rob. Não consigo fazer o mesmo. Tudo o que posso dizer é…

AS: Posso carregar meu celular no carro de vocês?

O grupo tem pouco o que falar pelo resto da noite. Uma profunda gravidade paira no ar, apagando qualquer semblante de bom humor, como um balde de água em uma fogueira acesa. Ninguém quer conversar com ninguém, o reservatório de gracejos da Apollo  parecia ter esgotado. Todo mundo está se perguntando para onde estão indo daqui para frente, ponderando sobre quem realmente são as pessoas em sua volta. Ou avançam em direção ao perigo ou voltam para um terreno seguro e familiar. É uma questão que terão que responder sozinhos e para si mesmos, e tudo isso antes do sol nascer. 

Eu mesma tenho minhas próprias dúvidas. 

Cerca de uma hora depois de Rob ir para o Jeep, dando boa sorte para as decisões do resto do grupo, vou até o carro de Lilith e Eve. Minha mochila está no banco da frente, um fio preto sai dela até a entrada do carregador. Decidi não dizer para a dupla que estou carregando o detonador de explosivo de nível militar a menos de dez metros de distância delas. Talvez exploda antes dessa transmissão. Se você estão ouvindo isso, desculpa, meninas.

Pego minha bolsa e, verificando se ninguém está olhando, vou direto para o bosque de macieiras. Marcho através da pequena floresta, os sons do comboio rapidamente desaparecendo atrás de mim. Na escuridão da noite, com a lua envolta de legiões de árvores tortas, fico intrigada por não estar com mais medo. Eu vi com meus próprios olhos as coisas que acontecem nesta estrada e, ao passar pelo bosque e entrar no campo ao lado, isolando-me intencionalmente do resto do grupo, estou ciente de que não terei ajuda. Mesmo assim, quando estava cercada de milho por todos os lados, me sinto quase incapacitada de sentir medo. Os acontecimentos do dia tiraram todas as emoções do meu ser, e agora deixei tudo de lado, só tenho uma opção; um desejo irresistível de descobrir mais sobre essa estrada, independentemente das consequências.

Julgando ser suficiente a distância que andei para ficar longe do comboio, retiro a C4 da minha mochila e o coloco no chão. Rangendo meus dentes, meu corpo se encolhendo de um pavor indescritível, aperto o botão liga/desliga do Nokia e espero algo acontecer. Minhas preocupações são instantaneamente suavizadas quando a imagem granulada de duas mãos esticadas uma para a outra aparece, rapidamente substituída por uma tela de menu.


Trabalho rapidamente, as palavras no pacote de papel pardo constantemente me lembrando de que estou me colocando em risco cada segundo que passa.

Primeiramente, digito o número do meu celular no telefone, presumindo, ou pelo menos esperando, que o mecanismo não seja ativado por chamadas de saída. Alguns segundos depois, meu celular toca, me dando o número do Nokia. Ao verificar os registros de chamadas, encontro um segundo número diferente, que parece ter feito uma ligação para o telefone três vezes, uma seguida da outra. Se eu fosse uma mulher de apostas, o que sou as vezes, sugeriria que esse telefone pertencia a quem construiu a bomba, as chamadas representando tentativas de testar o gatilho antes de sua implementação. Se estiver certa, esse deve ser o número pessoal de quem estava dirigindo o carro detonado da estrada.


Minha terceira descoberta é um pouco mais intrigante. Nenhum texto tinha sido enviado deste celular, no entanto, há uma mensagem solitária na caixa de entrada do telefone. É de um terceiro número diferente, que dizia o seguinte:

"Por favor, não faça isso, Rob." 

Encaro aquela frase, uma nova informação desconfortante contra minhas teorias já preconcebidas. Se pode-se dar credibilidade àquela mensagem, e se minhas deduções anteriores estavam todas certas, então significa que Rob Guthard estava dirigindo aquele carro. Que a C4 no porta-malas era dele. Todo esse tempo achei que Rob poderia ter sido responsável por algo terrível, mas e se ele mesmo que caiu para fora da estrada? Se for esse o caso, isso trás uma nova questão... quem tinha sido responsável pelo acidente?

Quando começo a pensar a respeito, o ar explode ao meu redor.

Sou sacudida da minha investigação por uma voz poderosa e ecoante que reflete em tudo. O milho é jogado para todos os lados enquanto o som ecoa de todas as direções, como se falado pelo próprio ar. 


VOZ: Estivesse assistindo seus questionamentos. 

Sem um segundo de hesitação, desliguei o Nokia e joguei dentro da mochila. Pulei para ficar de pé e olhei pelo milharal, procurando a fonte da voz, fazendo meu caminho de volta para o comboio. De repente, quando percebi o quão distante eu estava de meus amigos, comecei a correr, minhas botas batendo violentamente contra a lama enquanto corria para fora da floresta.

Menos de um minuto depois, saio por entre as árvores, minha mochila balançando de um lado para o outro com o peso do bloco. Todos estão em seus devidos carros, parecendo estar adormecidos. Comecei até a achar que estavam aprontando algo. Sem ninguém para conversar, e com um dia inteiro pela frente, presumo que não há nada a ser feito além de recuperar meu folego, escrever meus pensamentos imediatamente, e então ter o meu tão merecido descanso. 

Sinto uma pressão pesada por trás dos olhos enquanto ando até o Wrangler. Em silêncio, abro a porta de trás que fica perto de onde eu durmo, e cuidadosamente escondo o bloco na minha bagagem. Então, silenciosamente fechei a porta novamente, e vou para o banco do carona, onde minhas anotações esperavam para serem feitas. 

Estiquei a mão para a maçaneta, segurando firme. Mas não abro a porta. Na verdade, depois de observar pelo vidro, eu solto. 

A pressão por trás dos meus olhos cede e, antes que eu pudesse perceber, escorreguei para o chão úmido, minhas costas contra o metal frio e duro da porta. Um gemido escapou da minha garganta enquanto lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Minha respiração tremia enquanto eu puxava o ar, e minha tentativa de expirar não é mais do que soluços deprimentes. As lágrimas me pegam de surpresa, mas não as enxugo. Com um gosto agridoce, são bem-vindas, até mesmo necessárias. Carregam nelas uma sensação familiar de libertação. Assim que secam, sinto que talvez eu possa superar os eventos do dia. Os sons na minha cabeça estão um pouco mais baixos, já que agora eu paguei minha dívida com eles. 

BONNIE: Você está bem, querida?

Me levantei assim que vi Bonnie andando cuidadosamente em direção do Wrangler. Tento me recompor, um tanto constrangida por ter sido pega no flagra. 

AS: Eu não sabia que você ainda estava acordada. 

BONNIE: Tenho sono leve, e Martin... Clyde ronca demais. Quer conversar?

AS: Acho que só preciso dormir um pouco. Obrigada, Bonnie. 

BONNIE: Meu nome é Linda, caso estivesse se perguntando.

AS: ... Alice. 

BONNIE: É um lindo nome. Bem, Alice, sei que eu não sou muito de falar, mas sou uma boa ouvinte... se um dia precisar. 

Pela primeira vez, desde o pinheiro caído na estrada, me vi sorrindo. É um sorriso fraco, mais já é alguma coisa. 

AS: Obrigada, Linda. Talvez eu precise. Tenha uma boa noite. 

BONNIE: Boa noite. 

Bonnie volta para seu carro, antes de parar e olhar de volta para mim. Era um último resquício de conforto que podia me oferecer naquele momento. 

BONNIE: E lembre-se, tudo ficará bem assim que chegarmos em Wintery Bay. 

Franzi o cenho, meio sem entender o que ela queria dizer com aquilo. Ela sorri inexpressivelmente, e então termina o caminho até o carro. Ela já tinha mencionado aquele lugar antes, quando estávamos saindo de Júbilo, o que antes parecia ter sido apenas memórias aleatórias. Mas do jeito que citara agora, duvido muito que fosse só isso. 

Depois de tudo que aconteceu, todas minhas suspeitas em cima de Rob, toda minha preocupação com Ace. Teria algo de errado com Bonnie?

Talvez eu tenha entendido errado, talvez Bonnie se expressou erroneamente, mas mesmo assim, o breve conforto que suas palavras tinham me dado já se dissiparam, deixando no lugar uma sensação familiar de confusão e paranoia.

Entrei para o carro, no banco do carona, faço minhas anotações e então rastejo até o colchão inflável. O sono não vem fácil. Fecho meus olhos e tento me convencer que o amanhã será melhor do que esse dia angustiante. Entretanto, toda vez que penso nisso, uma voz na minha cabeça responde:

"Isso só depende para que lado será sua próxima curva."

FONTE


PRÓXIMA QUARTA-FEIRA (22/08/2018), Alguém já ouviu falar do Jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 5) ESTARÁ DISPONÍVEL A PARTIR DAS 08H00! 

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


14/08/2018

Padrão - Capítulo 2

Seus dedos se moveram como grossos galhos no papel branco e com algumas gotas de chá. Eu havia derramado alguns pingos de Mate nele, mas nada muito grave.

O delegado me fitou com um certo tom de acusação no olhar, em seguida dando um sorriso de canto.

- É, não havíamos percebido esse detalhe. - Declarou e em seguida fechou a ficha, jogando-a sobre o meu colo.

Eu me econtrava sentado na cadeira de seu minúsculo escritório abafado, em frente a sua mesa de madeira enegrecida. Minhas mãos suavam e eu as esfregava repetidamente na minha calça.

- Já mesmo? - Perguntei. - Quero dizer, não sabem o padrão dos números, certo?

- É, isso não sabemos. Há algum significado específico por trás, mas eu não faço a menor ideia de qual é, por isso precisamos da sua ajuda. - Disse, em seguida passou a mão em sua cabeça careca, como sempre gostava de fazer quando estava começando a ficar confuso.

- Bom, também acho que há um significado por trás de outras coisas. Por exemplo, em um caso uma mulher foi assassinada com exatamente 7 facadas na barriga, mas dá pra perceber que em outras vítimas ele dá apenas 4, ou até menos, sem número algum em específico. Este pode ser um número relevante, certo? O número 7 pode significar algo.

O delegado tomou um de seu café em sua xícara, não tirando os olhos do teto, pensativo.

- Talvez. Investigue isso, garoto.

- Eu posso dar uma olhada na cena do crime? O caso mais recente, número 15.

- Tudo bem, vou orientar meus homens. Precisa de carona?

- Não, eu posso ir com meu carro mesmo.

Eu me levantei nervosamente da cadeira. O detetive me lançou um olhar de estranheza, mas logo voltou para papeladas sobre sua mesa.

Meu pequeno carro me levou até uma casinha humilde próxima ao centro da cidade. De cor verde, com uma cerca branca no limite do quintal, a única sensação que ela passava era a de paz e tranquilidade.

Alguns policias saíam e entravam pela porta da frente, que ficava sempre aberta. Eles acenavam para mim, em seguida tiravam seus rádios do bolso e diziam coisas que eu não conseguia entender.

Eu escorreguei pelo parapeito da porta, abrindo passagem para outros saírem. Logo de início, o clima passou a ficar pesado, com um cheiro pútrido. Haviam encontrado o corpo ontem, mas os legistas revelaram que estava morta há dias.

A cozinha me recebeu com um odor forte e penetrante. Plaquinhas amarelas com poucos números estavam postas sobre o balcão e o chão. Pelo que li, a vítima recebeu um golpe certeiro de machado, morrendo instantaneamente em 1 segundo. Um único prato fora colocado em cima do chão de ladrilhos brancos e pretos. Não estava quebrado ou arranhado, os outros pratos estavam arrumados cuidadosamente dentro de seus devidos armários. Era como se alguém tivesse feio aquilo de propósito.

Eu passei os dedos pelo bolso, agarrei meu celular a comecei a tirar algumas fotografias das partes mais relevantes da cena, apertando o nariz com força para não inalar mais aquele odor pútrido, que corroía minhas vias respiratórias.

- Vocês têm algum suspeito? - Questionei o delegado assim que entrei no centro policial.

- Nenhum. - Ele respondeu sem tirar os olhos de uma ficha amarela, possivelmente alguma descrição de um criminoso simples. - Bom, tem esse sujeito aqui. - Delegado Joseph me entregou o papel, revelando um homem barbudo e grande.

Eu olhei cada detalhe seu, averiguando uma possível ideia. Era um homem robusto, com uma barba comprida e olhos ameaçadores. Havia passagem na polícia por assaltos, mas nenhum assassinato (fato não comprovado por falta de provas). Era suspeito no assassinato de seu próprio irmão, nas não foi preso.

As descrições conseguiam bater perfeitamente com algumas vítimas. O homem não foi avistado nos dias dos assassinatos. Talvez ele fosse realmente um assassino, ou apenas estivesse no lugar errado, na hora errada.

Eu não queria tirar conclusões precipitadas, então apenas solicitei que ele passasse por um detector de mentiras.

- Já fizemos. - O delegado afirmou, em seguida tomou um gole da xícara de chá em sua mão. Ele puxou a ficha de meus dedos e examinou o rosto feroz do homem, que devia ter por volta de uns 40 anos. - O problema é que estamos correndo em círculos, não há nenhuma pista e o número de suspeitos é equivalente ao tamanho desta cidade. - Falou com certo desespero e bateu firme a xícara já vazia na mesa. - Você é jovem, Adam. Começou ano passado. Lembre-se que eu conheci seus pais, eu sei o quanto você é capaz, desde criança. - Seu tom agora ficou mais alto.

Por instantes, me lembrei de minha infância solitária e melancólica. Eu não tinha nenhum amigo, a minha capacidade de socialização sempre foi infinitamente inferior ao meu poder de dedução. Eu costumava frequentar alguns psicólogos quando pequeno, mas nenhum era bom o suficiente. Não há muitos aqui nesta pequena cidade, somente uns dois ou três.

Lembro-me nitidamente de estar em meu quarto, rodeado de animais de pelúcia, trocando ideias com cada um deles. Meus pais trabalhavam muito na época, então suas paradas em casa eram apenas durante momentos da noite, me largando com babás durante o dia. Meus dragões e cãezinhos de pelúcia eram as únicas amizades que conquistei, além de um único garoto do meu bairro. Algumas vezes eu recebia cuidados de uma vizinha próxima, e ela costumava levar seu filho para brincar comigo. Ele era um pouco esquisito, mas eu não podia desprezar o único amigo que eu recebera.

Em um dia fatídico das férias de verão, meus pais chegaram com uma gigantesca caixa esburacada. Recordo-me como se fosse recente, um pequeno filhote pulou de dentro dela. Eu devia ter uns 12 anos na época, então eles acharam que eu estava apto para ter minha própria companhia animal.

Pobre Ricky, seu rim foi atacado por um tumor, subitamente o retirando de sua existência com 13 anos de vida, mais de 1 ano atrás.

O delegado me arrancou de meu turbilhão de memórias reprimidas, estalando os dedos em frente aos meus olhos.

- Ei, garoto. - Chamou enquanto me encarava com a confusão estampada em sua expressão facial.

- Ah, me desculpe.

- Você precisa parar com esses devaneios. Espero que tenha bolado alguma teoria nesse tempo.

- Não, mas eu visitei a cena do crime e tirei algumas fotos. Eu vou pra casa avaliar o material que tenho em mãos. - Avisei e saí correndo de seu lado, indo até meu velho Palio e mergulhando a chave na entrada.

Eu verifiquei as plantas da minha janela antes de sentar à mesa para analisar. A terra já estava úmida, mesmo que eu não tivesse tido tempo para molhá-las hoje de manhã. Não me preocupei muito com isso, afinal, eu costumo ser um cara um pouco esquecido.

Abri a galeria do meu celular e passei as imagens para o meu antigo computador. As examinei com cuidado enquanto bebia uma xícara de chá morno. Como eu havia dito, realmente não gosto de café.

Eu quase caí no sono após horas. Por uma fração de segundo, pude ver um homem encapuzado em uma foto da cena do crime completa, mas este desapareceu após um piscar de olhos sonolentos. Eu realmente estava com muito sono, chá não me ajudava em absolutamente nada.

Levantei com as pernas bambas e caí sobre o sofá, sendo intempestivamente arrebatado pela sonolência.

Autora: Sofia NAQ


13/08/2018

Deus é Uma Garçonete em Las Vegas

Me encontrei com Deus pela primeira vez depois de uma noite de muito azar em Vegas, onde tinha ficado com dinheiro suficiente apenas para uma xícara de café e um prato de ovos mexidos em um restaurante 24 horas que os moradores locais chamavam de 'O Restaurante da Intoxicação Alimentar'. 

É um daqueles lugares onde as luminárias das lâmpadas fluorescentes são cheias de insetos e você não pede creme no seu café, ou será servido com requeijão vencido. Era quatro da manhã e até os bêbados já tinham ido para casa, deixando eu e Deus sozinhos no restaurante.

Deus era a personificação do que era ser uma garçonete em Las Vegas, uma mulher que provavelmente era linda uma década antes, mas agora o rosto era traçado por rugas de cigarro e anos morando sob o sol do deserto. As primeira palavras que falou comigo foram quando estava reabastecendo minha xícara de café pela terceira vez.

"Como está o café?" Perguntou.

"Bom," respondi. "Mas preferia que fosse vinho." 

Deus sorriu para mim e pegou o copo para examinar de perto. Quando devolveu, estava cheio do que parecia ser vinho tinto. 

"Vá em frente," disse. "Prove."

Dei um gole e minha língua foi agraciada com o sabor de mel e uvas frescas. 

"Como você fez isso?" Perguntei. 

"É fácil quando se é Deus," respondeu, sentando na cadeira em minha frente. 

Nesse momento, provavelmente eu deveria ter surtado, mas havia algo de tranquilizador na presença da garçonete que me acalmava. 

"Você é Deus?" Perguntei. "O que você está fazendo trabalhando em um restaurante em Vegas?" 

"Sou uma pessoa do povo, acho," respondeu. "Parece que Vegas é o lugar perfeito para encontrar pessoas em seu pior momento." 

"Por que você quer encontrar pessoas em seu pior momento?" 

Deus conjurou uma xícara de chá preto e alguns cubos de açúcar do nada. Mexeu os cubos em sua bebida com minha colher.

"Defeitos são o que definem a humanidade," disse. "Bem, isso e livre arbítrio, duas coisas que anjos não tem." 

"Se as pessoas tem tantos defeitos, porque você nos fez assim?" Perguntei. 

Deus ficou encarando seu chá pensativamente antes de levantar seus olhos para mim. 

"Não era para ser assim," disse. "Vocês meio que ficaram assim depois. Efeito colateral de livre arbítrio demais."

"Por que você não nos arruma?" 

Deus balançou a cabeça e vestiu um sorriso irônico enquanto olhava para os insetos mortos na luminária acima da mesa. 

"Não posso," confessou. "Pelo menos não mais." 

"Por que não?" Indaguei. 

Ela tomou um gole de seu chá e suspirou. 

"Você quer mesmo saber?" 

"Agora acho que meio que preciso."

"Bem," começou, "os outros deuses tiraram minha habilidade de criar quando me expulsaram dos Céus." 

"Espera aí," contrapus. "Existem outros deuses?" 

"Claro que sim," ela riu. "Foram eles que criaram todos os diferentes tipos de anjos." 

Me recostei em minha cadeira e respirei profundamente enquanto processava a informação que acabara de receber. 

"Então, por que você foi expulsa?" 

Deus tomou mais um gole de chá e enrugou os lábios. 

"Porque eu quebrei a principal regra dos deuses," confidenciou-me. "Você nunca dá livre arbítrio para um ser inferior." 

"Por que não?" 

Deus terminou seu chá, e o copo se encheu sozinho novamente. Materializou mais alguns cubos de açúcar e os mexeu. 

"Por que você acha?" Interrogou. "Olhe em sua volta. Olhe esse lugar. É cheio de desespero e sofrimento, cheio de sonhos despedaçados e esperanças de um futuro melhor que jamais virá. E quando as pessoas se cansam disso, se encontram nesses lados da cidade e se acabam com uma ou duas garrafas." 

"Essa é sem dúvida uma perspectiva sombria," julguei. 

"Você só diz isso porque não sabe o que eu faço," Deus respondeu. 

Tomei um gole do vinho e franzi o cenho. 

"Bem, então o que é que eu não sei?" Perguntei. 

"Você não quer saber," Grunhiu. 

"Você provavelmente está certa, mas me diga mesmo assim." 

Uma sombra passou pelo rosto de Deus, e pela primeira vez me senti estranho desde que pisara na lanchonete. Respirou profundamente e continuou. 

"Não sou o primeiro Deus a falhar," explicou. "Houveram outros deuses antes de mim - deuses antigos que eram motivados pela crueldade. Criaram criaturas mais sombrias do que seus piores pesadelos, coisas obscuras que existem apenas para machucar, consumir e matar." 

Pude sentir arrepios passando pelos meus braços. 

"Onde estão essas criaturas agora?" Perguntei. 

"Estão lá em baixo," respondeu. "Onde todos os deuses falidos e suas criaturas quebradas são colocados depois da morta - no lago de fogo eterno." 

Meu coração despencou. 

"Então é para lá que todos vamos quando morremos? Direto para o Inferno? Existe alguma chance de redenção?" 

"Não existe chance de redenção," Deus proferiu. "Apenas mais dor do que jamais poderia imaginar." 

Ficamos sentados em silêncio por um tempo, ouvindo os sons do restaurante: o zumbido eterno das lâmpadas fluorecentes, o gotejar lento da cafeteira, um ronco de motor ocasional dos carros que passavam na rua da frente. 

"Eu não devia ter sentado aqui com você," Deus confessou. "Mas as vezes me sinto solitária, afinal de contas sou uma pessoa do povo." 

"Sem problemas," dei de ombros. "Acho que, se vou direto para o inferno, é melhor ficar sabendo antes mesmo." 

Deus sacudiu a cabeça. 

"Não é melhor, não."

Se levantou da cadeira e foi para trás do balcão, desligando a cafeteira. 

"Sua refeição fica por conta da casa," sorriu. "Por que você não pega esses trocados e vai até o cassino no final da rua e coloca tudo no 29 preto? Pelo menos isso te dará dinheiro suficiente para uma refeição decente."

"Valeu," agradeci. 

Me levantei para sair, mas quando cheguei na porta, parei. Olhei uma última vez para Deus, ocupada limpando o balcão. Pensei em dizer adeus, mas não disse. O conselho de Deus foi bem vindo, e minha maré de azar acabou no cassino do final da rua. 

Nunca vou esquecer o que ela disse para mim, e ainda me pergunto quais são os horrores que me aguardam quando morrer. Mas, mesmo sabendo que estava certa, que é melhor não saber, não posso evitar de sentir um alívio por ter me contado - sou só um ser humano, afinal de contas. 




FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!