29/09/16

Tem algo de errado com a minha esposa, e ficarei preso com ela nesse cruzeiro por mais 14 dias.

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Minha esposa Kimmy e eu partimos no nosso cruzeiro há dois dias. Estávamos ansiando por este cruzeiro faziam cinco meses, e quanto mais perto ficava, mal podíamos conter nossa animação. 

Nos últimos quatro dias, nós voamos para a Austrália e embarcamos no nosso cruzeiro de navio, animadíssimos com nossos dezesseis dias de férias que tanto precisávamos. Nosso navio partiu sem problemas, fomos acomodados em nosso quarto, nadamos no mar aberto, comemos em um dos vários restaurantes, e desfrutamos mas maravilhosas e infinitas piscinas. Terminamos a noite tomando uma taça de champanhe na varanda superior no navio; foi sensacional. 

Fomos para a cama, e Kimmy dormiu quase imediatamente, rápido demais para o meu gosto. Fiquei mexendo na internet pelo meu celular alguns minutos antes de capotar também. Por volta das duas da manhã, acordei e percebi que minha esposa não estava ao meu lado. Achei que estivesse no banheiro, então apenas me virei para o outro lado. Meus olhos estavam fechados, e eu nunca a notaria se não tivesse sentindo a respiração no meu rosto. Abri meus olhos e ela estava ajoelhada do lado da cama, respirando pesadamente, os olhos o mais arregalado possível. Seus cabelos estavam jogados no rosto e grudados pelo suor, mesmo que nosso ar condicionado estivesse ligado. Foi absolutamente horrorizante. Pulei para trás na cama e quase cai do outro lado.

"Kimmy...?"

Ela só continuou na mesma posição e ofegou, seus olhos fixos em mim. Chamei seu nome mais uma vez, e ela começou a respirar mais suavemente. Fiquei sentado apavorado enquanto ela se levantava, fazia a volta na cama para o lado que eu estava agora, e começou a se rastejar para o seu lado enquanto eu voltei para onde estava antes. Ela deixou escapar por entre os lábios um sussurro falando "volte para o seu lado", e se deitou. Então dormiu como se nada disso tivesse acontecido. Fiquei deitado lá me sentindo mais ansioso do que já havia sentido em toda minha vida. Meu coração parecia que ia pular para fora do peito, e fiquei suando frio por horas. Senti um alívio absurdo quando o sol saiu.

Quando acordou, perguntei o que tinha sido aquilo durante a noite. Ela não lembrava de nada. Disse que só tinha acordado para ir até o banheiro e quando voltou teve que me pedir para eu ir para o outro lado da cama. Falei que tinha ficado aterrorizado, mas insistiu que devia ter sido apenas um pesadelo bizarro. Mas eu sabia a verdade.

Kimmy estava reclamando de dor de cabeça, então pedimos para entregarem o café da manhã no quarto ao invés de irmos ao buffet. Kimmy fez um pedido enorme, é inacreditável o que essa garota consegue por pra dentro sem ganhar uma grama (ela tem 1,55 e é bem magra). Pediu 4 panquecas, 2 ovos mexidos, 3 tiras de bacon, 3 linguiças e uma porção de batata rosti. Eu pedi algo que eles chamavam de mexido de linguiça. A comida demorou um pouco para chegar, e enquanto isso Kimmy ficou resmungando sobre como não estava se sentindo bem, e que esperava que a comida a fizesse se sentir melhor. A comida chegou e nos sentamos para comer.

Kimmy tirou a tampa do seu pedido e se recostou na cadeira, fazendo uma cara de nojo. Perguntei o que havia de errado e ela falou, "Você só pode estar brincando, né? Não está sentindo esse cheiro?" Falei que não estava sentindo cheiro nenhum além do da comida. Ela olhou para a bandeja fazendo careta, e cortou um pequeno pedaço de bacon. Ela o trouxe até a boca e deu uma mordida, mas imediatamente cuspiu, quase vomitando. 

"O que foi?!", perguntei.

"Essa merda tem gosto de carne podre mofada, Nick, como assim o que foi?!"

A comida parecia normal. Tinha um cheiro bom. Não havia nada de errado. Ela se recusou a comer, e me fez colocar tudo para fora do quarto. Depois de jogar a comida fora, fui até o buffet e peguei uma cesta de frutas, da qual ela comeu tranquilamente, sem reclamar. Depois de comer, Kimmy decidiu tomar um banho para se preparar para o nosso dia. Enquanto fazia isso, me deitei na cama para assistir um pouco de TV. Cochilei um pouco, considerando que não havia dormido muito durante a noite, e acordei uma hora mais tarde. Tive que conferir o relógio do celular umas três vezes porque ainda podia ouvir o chuveiro ligado. Bati na porta, mas não houve resposta. Fiquei com medo nessa hora. Não fazia ideia do que iria encontrar do outro lado da porta. Será que ela havia escorregado e batido a cabeça? Não sabia o que esperar. Anunciei que iria entrar e abri a porta.

Não vi ela em nenhuma parte do banheiro, então era provável que ainda estivesse no box. A cortina estava fechada. Fui andando para lá, meus anos de telespectador de filmes de terror me dizendo que algo iria pular na minha cara a qualquer segundo. Mas nada pulou. Abri a cortina lentamente e encontrei Kimmy me encarando, os olhos tão arregalados quanto na noite anterior.

"Kimmy... o que você está fazendo?" Perguntei, já começando a entrar em pânico, andando lentamente para trás.

Foi aí que notei que a parte inferior direita de seu corpo, a parte que estava sendo respingada com a água, estava vermelha. Mas não havia aquela névoa de costume, e não havia vapor saindo do chuveiro. A água estava mais gelada o possível. 

"KIMMY!" Gritei.

Ela saiu do transe e gritou imediatamente.

"Quando você entrou aqui?! Eu quase morri de susto!" disse enquanto desligava a água.

"Você quase morreu de susto?! Mas que porra foi essa?!"

"Que?"

"Você não viu o que aconteceu?"

"Sobre o que você está falando?", ela insistiu enquanto saia da banheira e se enrolava na toalha.

Expliquei o que havia acontecido. Ela ficou estupefata e disse que eu estava ficando louco. Terminou de se arrumar e seguimos com nosso dia. Tudo ocorreu bem, até que fomos para uma das piscinas infinitas.

Nós estávamos no nosso espacinho na piscina um tanto lotada, apenas papeando e relaxando na água perfeita debaixo do sol quente. Não lembro sobre o que estávamos conversando, mas de repente, Kimmy parou de falar no meio de uma frase e ficou olhando fixamente para alguma coisa acima do meu ombro. Olhei para trás e não vi nada estranho. Perguntei para onde estava olhando, mas ela simplesmente só continuou com o olhar fixo para frente. Vagarosamente, olhei novamente para trás, e quando me virei de volta, Kimmy havia sumido. Só um segundo depois percebi que estava debaixo d'água. 

Eu simplesmente fiquei parado constrangidamente por alguns segundos, sem saber se ela estava zoando comigo ou o que. Então fui para debaixo d´água e abri meus olhos. Quando fiz isso, ela estava bem de frente para mim, com os olhos vermelhos por causa do cloro, arregalados como das outras duas vezes. De instinto, recuei um pouco, mas ela continuou comigo, apenas alguns centímetros de distancia do meu rosto. Voltei para a superfície para respirar. Ela não. 

Seguei-a pelos ombros e a trouxe para a superfície, mas seu corpo estava mole, então caiu de novo na água. Puxei-a de novo e a segurei acima d´água, chamando pelo seu nome várias vezes seguidas. As pessoas começaram olhar em nossa direção preocupados. Então, como se nada tivesse acontecido, ela voltou a si. Olhou para mim, um olhar normal, e me beijou. Perguntou porque eu parecia tão preocupado, mas nem me preocupei em tentar explicar.

O resto do dia seguiu sem nenhum incidente. Jogamos um pouco na sala de fliperama, relaxamos na Jacuzzi, jantamos, e tudo estava bem. Voltamos para o quarto, tivemos um pouco de... tempo a sós, e decidimos ficar por ali mesmo. 

Por volta da mesma hora da noite anterior, duas da manhã, acordei novamente. Dessa vez eu estava virado para Kimmy enquanto dormia, e quando abri meus olhos, a encontrei deitada na cama, virada para mim, com os olhos arregalados e um semi sorriso em seus lábios. Sussurrei seu nome. Ela estava respirando pesadamente, ofegando. Sussurrei o nome dela um pouco mais alto enquanto me sentava na cama. Seu olhar continuou fixo em mim enquanto me mexia. Coloquei minha mão na cabeça dela e percebi que estava extremamente gelada. Chamei pelo seu nome mais uma vez, desta vez em um tom de voz normal, e ela deu um grito curto, porém estridente que deve ter acordado todas as pessoas que estavam hospedadas naquele andar. Me fez pular e cair da cama. Deitado de costas no chão, fiquei observando minha esposa ficar de quatro na cama e vir na minha direção, seus olhos castanhos arregalados e um sorriso no rosto, depois engatinhando pela cama, sem nenhuma direção certa, nunca parando de me olhar. Depois se levantou e deixou a cabeça caída para o lado. Ficou assim me olhando até as 3:30 da manhã, antes de se deitar calmamente e ir dormir.

Eu realmente preciso de ajuda, e não sabia aonde perguntar. Seja lá o que esteja acontecendo com minha esposa, não parece que vai parar em breve, e ficaremos nesse cruzeiro querendo ou não por mais 14 dias. Me ajudem. Por favor.
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!


28/09/16

O Novo Membro da Família

ATENÇÃO: ESSE CONTO ESTÁ CLASSIFICADO COMO +18. PODE CONTER CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS. PODE TER ACIONADORES DE GATILHOS E/OU TRAUMAS SOBRE ABUSO SEXUAL E INFANTIL. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 
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Meu nome é Matt e minha infância não foi normal. Em nenhum sentido. Algo aconteceu com minha família que é quase impossível de se entender. Mas vou dar meu melhor para explicar aqueles cinco anos. Cinco anos a minha vida que foram de puro horror. Cinco anos que passamos com medo. Cinco anos que nunca vamos recuperar.

Meu pai, Spence, não era um homem muito forte, nem fisicamente, nem mentalmente. Era o tipo de pai que deixava a mãe falar por ambos. Bem, não era um pau-mandado, mas geralmente estava contente de ir com a correnteza ao invés de alterá-la. Trabalhava duro e dedicava seu tempo livre à nós, sua família. Fazia questão de que tivéssemos tudo que precisássemos, sua confiança suave sempre sendo a base da nossa família.

Minha mãe, Megan, era a cabeça da casa. Era extrovertida, independente, e extremamente fiel à todos nós. Ela amava o jeito quieto do meu pai, e mesmo quando eu era bem novo, podia ver a química que rolava entre os dois.

Minha irmãzinha, Stephanie, era um ano mais nova que eu. Ela se espelhava em mim e meu pai sempre dizia que era minha responsabilidade cuidar dela. Tentávamos nos dar bem da melhor forma possível, e mesmo que eu dificultasse o lado dela por ser seu irmão, eu a amava. 

Nós morávamos em um bairro de classe média, uma família de comercial de margarina. Meu pai trabalhava em um emprego respeitável das 8h às 17h, enquanto minha mãe dava aulas particulares de yoga. Era uma vida boa; organizada e estruturada. Tudo era discutido, considerado e feito pela família. Era um ótimo lar para se crescer.

Mas isso antes dele aparecer.

Isso era antes do novo membro da família.

***
Julho de 1989

Eu estava sentado na mesa esperando meu pai terminar a comida. Era a vez dele cozinhar e meu estômago estava roncando pelo seu frango com alecrim. Minha irmã, Stephanie, estava deitada de barriga para baixo no chão da sala, colorindo. Seus cabelos loiros caiam em cachos sobre seus ombros quando olhou para mim, sorrindo. Ela mostrou o desenho que estava fazendo e eu só acenei com a cabeça, sem me impressionar.

Fez uma cara de desprezo e continuou com seu esboço. Minha mãe entrou na cozinha, tirando o cabelo de seu rosto limpo, tinha acabado de sair do banho. 

"Todos já foram?" Meu pai perguntou enquanto olhava o forno.

Minha mãe assentiu, "Sim, Spence, a casa é só nossa de novo. É tão melhor dar as aulas de yoga no porão, muito mais fresco. Estou feliz que conseguimos terminar de construir o porão no inverno. Meus alunos também estão bastante contentes. Está fazendo um dia muito quente lá fora."

"Mãe, você pode, por favor, se sentar para a gente comer?" Implorei, já sentado no meu lugar na mesa. Minha mãe se virou para mim e riu.

"Matt, o menino de seis anos de idade mais faminto do Mississipi. Por que você não pede para o seu pai se apressar? Ele que está cozinhando!"

Encostei a testa na mesa, "Paaaaaaaaaai, eu vou morrer!"

Stephanie olhou para mim lá da sala, "Matt, não seja louco." 

"Você que é louca," resmunguei, sem olhar para ela.

"Não-não!" Ela falou, mostrando a língua para mim.

"Tá bom, tá bom," meu pai disse, se virando do forno. Nas mãos segurava uma forma fumegante de frango.

"Venha para mesa, Steph, a comida está pronta!" mandei minha irmã, a visão da carne suculenta fazendo minha boca salivar.

Enquanto ela se levantava e minha mãe ia se sentando ao meu lado, todos nós congelamos quando alguém bateu na porta. Minha mãe e meu pai trocaram olhares confusos. Meu pai colocou o frango na mesa e nos falou para esperarmos um minutinho.

Gemendo, observei meu pai ir até a porta. Ele espiou pelo olho mágico e percebi que estava visivelmente tenso, seu corpo inteiro como uma estátua de mármore.

"Quem é, Spence?" Minha mãe perguntou.

Meu pai se virou para nossa direção, pálido como um fantasma. Seus olhos estavam arregalados e eu podia ver o medo em suas pupilas dilatadas. Ele lambeu os lábios e olhou para Stephanie. 

"Spence!" Minha mãe o pressionou, seu rosto se contorcendo de preocupação.

"Não... isso não pode acontecer... não de novo," ouvi meu pai sussurrar, olhando para o nada.

A porta chacoalhou com outra séries de batidas que ecoaram pela casa.  

Minha mãe se levantou, sua voz tremida pelo medo contagioso, "Quem é, Spence?! O que está acontecendo?"

"Eu sinto muito," Meu pai murmurou, segurando o estômago, o rosto branco com uma folha de papel, "tenho que deixá-lo entrar."

Antes que qualquer um de nós pudesse falar qualquer coisa, ele se virou e abriu a porta. A luz do sol me cegou momentaneamente e espremi os olhos para ver quem era o visitante não anunciado.

"Oi! Eu sou o Tommy Taffy! É ótimo revê-lo, Spence!"

Observei meu pai recuando lentamente para longe da porta aberta. Um homem entrou na casa e fechou a porta.

Minha mente jovem tentava ver algum sentido no que estava vendo, mas mesmo sento pequeno, sabia que tinha algo errado com aquele visitante.

Ele tinha mais ou menos 1,80, cabelos loiros raspados no estilo militar. Vestia bermudas caqui e uma camiseta branca que dizia "OI!" em uma letra vermelha cartunizada. 

Mas não foi isso que chamou minha atenção. Era a sua pele... completamente desprovida de poros, perfeitamente lisa, textura cremosa que quase parecia como um plástico flexível. Seu rosto era de um tom rosa bebê, sua boca um corte alegre de bochecha a bochecha que revelava uma tira branca de dentes... mas não eram dentes. Era uma coluna lisa, sem divisões, como se estivesse usando um protetor bucal. O nariz era apenas uma leve protuberância no centro do rosto, como o de uma boneca, sem narinas. 

E seus olhos...

Seus olhos eram piscinas gêmeas de um azul brilhante, reluzindo em seu rosto estranhamente sem imperfeições. Eram arregalados, como se estivesse em estado permanente de surpresa, e se movimentavam rapidamente enquanto olhava o lugar, movimentos brucos. 

Seu sorriso se alargou e levantou a mão perfeita para nós que estávamos sentados a mesa, "Oi! Sou o Tommy Taffy! É bom conhecer vocês!"

Percebi que ele não tinha unhas ou defeitos na pele. Sem rugas ou hematomas, nada. Era como se fosse um boneco vivo em tamanho humano que falava.

"Spence," minha mãe resmungou, o reconhecimento daquele ser brotando em seus olhos.

"Vai ficar tudo bem, Megan," meu pai falou, sua voz tremendo, "Vamos ser educados com nosso novo convidado, ok?"

O homem, Tommy, virou a cabeça na direção do meu pai, "Hehehehehehe."

Meu pai deu um passo para trás, levantando as mãos, "Q-quero dizer, nosso novo amigo!"

O sorriso congelado nunca saiu do rosto moldado de Tommy, "Hehehehehe." Não havia humor em sua risada estranha. Parecia mais que estava pigarreando ou imitando muito mal um cacarejar. Era pronunciado de mais, cada silaba bem destacada.

Meu pai forçou um sorriso, "Q-quero di-dizer..." Ele olhou desesperadamente para minha mãe, que não ofereceu nenhuma ajuda, o corpo dela totalmente congelado pelo medo.

"Quero dizer: Conheçam o seu novo pai, crianças!"

Stephanie, que estava perto de nossa mãe, franziu o cenho, "Ele não é nosso papai, você é. E porque ele é tão estranho?!"

"Stephanie!" Minha mãe quase gritou, agarrando os ombros de minha irmã.

Tommy riu, andou e se agachou na frente de Stephanie, "Não é legal fazer piada com as pessoas que são diferentes, não é mesmo?"

Stephanie olhou para os pés e corou.

Tommy bagunçou o cabelo dela, "Tudo bem! Anime-se, menina! Nós vamos nos dar muito bem! Vou ajudar seus pais a te criar! É um grande trabalho ser uma mamãe e um papai! As vezes eles precisam de ajuda!"

Tommy se virou para meus pais, aquele sorriso plástico se alongando em seu rosto, "Eu ajudei as mamães e os papais deles a criá-los! Não é mesmo Spence? Megan?"

Megan puxou Stephanie para longe dele enquanto meu pai assentia com a cabeça nervosamente. 

"I-Isso é ver-verdade, crianças, ele ajudou!"

Tommy sorriu e se virou para mim. Eu ainda estava sentado na mesa, observando aquela cena bizarra. Não conseguia entender o que estava acontecendo, nem sabia quem era aquele homem estranho e o que queria conosco. O que ele falava não fazia sentido, mas meus pais pareciam conhecê-lo, então deixei minhas especulações para mim mesmo.

"E você deve ser Matt," Tommy falou, andando em minha direção.

Não olhei para ele, forçando meus olhos a encarar meu prato vazio. De repente, já não sentia mais fome. Podia sentir o homem esquisito ao meu lado, sua presença sobre minha cabeça. Lambi os lábios e senti meu coração acelerar. Eu não gostava deste intruso. Algo nele parecia ser muito perigoso.

Tommy foi para trás de mim, dando risadinhas, suas mãos sobre meus ombros magros, "Ah, parece que temos um tímido aqui. Tudo bem. Vou ajudá-lo com isso," falou para meus pais. Seus dedos cravando em minha pele. Eu me encolhi, mas não soltei um pio.

"Não toque nele," minha mãe sibilou, olhos arregalados.

Tommy olhou para ela, boca esticada, “Hehehehehe.”

Meu pai estendeu as mãos, alarmado, "Hm, não seja tão grosseira, Megan!"

Tommy continuou a olhar para minha mãe que abaixou o olhar nervosamente.

"Você vai ficar para o jantar?" Stephanie perguntou de repente, quebrando o silêncio.

O estranho homem-boneco soltou meus ombros, uma de suas mãos escorregando pela minha bochecha e depois pelos cabelos.

"Ah, sim. Vou ficar aqui por um bom tempo."

***

E foi assim que Tommy Taffy entrou em nossas vidas. Aos seis anos, eu não sabia nada além do que questionar seriamente o que estava acontecendo. Mesmo que meus pais tivessem agido instavelmente quando ele chegou, suas garantias constantes de que era um amigo afastou qualquer dúvida persistente que eu tinha. Quando os dias foram se transformando em semanas, comecei a me acostumar com a presença de Tommy em nossa casa. Meu medo inicial lentamente retrocedeu à apenas uma cautela.

Logo aprendi que Tommy não gostava de companhia. Sempre que minha mãe tinha que dar aulas de Yoga, Tommy puxava-a para um canto e cochichava algo. Eu observava isso em silêncio. Então eu via o rosto de mamãe ficar pálido e depois assentia com a cabeça, cochichando de volta outra coisa. Então Tommy se virava, com aquele sorriso emplastado em seu rosto, subia as escadas e ficava lá em cima até a aula acabar.

Meus pais falaram para mim e para Stephanie que não podíamos contar sobre Tommy para nossos amigos. Fora de casa Tommy não fazia parte de nossas vidas. Não sei porquê, mas nós dois obedecemos essa ordem. 

Outra coisa que notei era que Tommy nunca comia. Ele se sentava na mesa conosco, mas nunca participava da refeição. Stephanie uma vez perguntou para ele se ele nunca sentia fome, Tommy apenas sorriu e silenciosamente acariciou seus cabelos.

De noite, ele reunia toda a família na sala de estar e nos dava uma pequena lição de como ser uma pessoa boa. Nossos pais nunca falavam durante essas conversas, só se sentavam lá, assentindo com a cabeça. Tommy nos falava para não fazermos piadas com os outros, para amar nossos amigos e inimigos, e sempre ajudar aqueles que precisam. Falou que era por isso que estava com a gente. Para ajudar nossos pais a nos criar. Que poderíamos conversar com ele se tivéssemos algum problema na escola ou se não soubéssemos como lidar com uma certa situação.

Foi assim por um mês.

E foi aí que minha mãe surtou.

***
Agosto de 1989

Meu pai tinha acabado de chegar do trabalho e eu estava sentado na mesa da cozinha fazendo minhas tarefas escolares. Minha mãe estava fazendo a janta e Stephanie estava praticando a dança que faria em uma apresentação no colégio. Ela ia ser uma bailarina e tinha três semanas para aprender algumas piruetas simples e outros rodopios. Ela estava praticando severamente nos últimos dias, mas não conseguia acertar. Era novinha demais e seu nervosismo estava fazendo-a errar.

Foi aí que Tommy decidiu ajudar.

Ele estava sentado no sofá assistindo-a praticar quando levantou de repente e foi para trás da minha irmã, colocando as mãos delicadamente em seus ombros.

"Deixe-me ajudá-la, querida," murmurou, sua voz carregando uma nota de felicidade. Minha mãe virou-se do fogão para olhar a sala e pude perceber que estava visivelmente tensa. Ela não gostava que Tommy nos tocasse. Apertou a colher de pau que estava segurando até que seus dedos ficassem brancos, observando enquanto Tommy se agachava e cobria o corpo de Stephanie com o dele. Ele pegou os braços dela e posicionou gentilmente na cintura de Stephanie, pressionando seu corpo suavemente contra o de minha irmã.

"Tommy, deixe ela aprender sozinha," Minha mãe disse, sua voz tremendo.

Tommy nem se quer olhou para ela, só continuou a guiar minha irmã. Pude ouvir meu pai descendo as escadas, tinha acabado de trocar as roupas depois de um dia cheio no trabalho. 

Tommy estava ajudando minha irmã, e pela primeira vez ela conseguiu fazer a pirueta, seus pézinhos girando enquanto acompanhava o movimento perfeito de circulo. Tommy bateu palmas, depois se curvou e deu um beijo na bochecha de Stephanie.

"Boa menina!"

"NÃO FAÇA ISSO!" Minha mãe guinchou, derrubando a colher no chão, seu rosto completamente desprovido de sangue. Dei um pulo na minha cadeira e engoli a seco. Não entendi porque minha mãe estava tão brava, ele só queria ajudar.

Eu também sabia que, bem lá dentro do meu ser, era uma má ideia gritar com o novo membro da família. Esse era o meu instinto infantil, um aviso gentil que ficava sempre na boca do meu estômago.

Tommy se levantou, “Hehehehehehe.”

Meu pai estava de pé no pé da escada, congelado, sem saber o que fazer.

"Megan, o que houve?" perguntou.

Os olhos de minha mãe não saíram de Tommy, "Spence, não aguento mais. Não posso continuar fingindo que isso está certo. Nós sabemos o que é esse monstro é! Nós sabemos o que ele fez com nossa cidade anos atrás. Eu o quero fora dessa casa."

Os olhos do meu pai quase saltaram da cara, pânico em sua expressão, "Megan!", ele lambeu os lábios, olhando para nós e para ela, para nós e para ela. "Não seja grosseira! Tommy tem nos ajudado muito!"

Minha mãe rangeu os dentes, "Para. Para de fingir que você o quer aqui. Não posso assistir isso acontecer. QUERO ELE FORA DAQUI!"

Vagarosamente, Tommy andou até a cozinha e parou na frente da minha mãe. Ficou olhando para ela, seus olhos azuis perfeitos brilhando como duas luas de cristal.

Sua voz era como seda congelada, "Megan, você poderia vir até o porão comigo? Preciso dar uma palavrinha com você."

Minha mãe deu um passo para trás, "Fique longe de mim. Fique longe da minha família! Você não é mais bem vindo aqui!" Ela olhou desesperadamente para meu pai, "Spence, FAÇA ALGUMA COISA!"

Meu pai levantou as mãos como quem diz que não podia fazer nada. Eu podia perceber que estava aterrorizado. Stephanie estava observando da sala, lábios tremendo, olhos cheios d'água. Senti uma vontade absurda de confortá-la, mas era como se estivesse colado na minha cadeira. 

"Vamos lá, Megan, só uma palavrinha."

"Vá se foder," Minha mãe quase cuspiu essas palavras. Eu perdi o ar. Nunca tinha ouvido minha mãe falar um palavrão e isso me deixou cheio de medo.

De repente, Tommy segurou minha mãe pela nuca, o sorriso nunca saindo de seu rosto, e puxou-a em direção da porta do porão. 

"Spence FAÇA-O PARAR! ME AJUDE!" Minha mãe gritou, tentando tirar a mão de Tommy de sua nuca, mas sem sucesso.

Tommy lançou um olhar para o meu pai que o deixou congelado.

"E-eu sinto muito, Megan... Nó-nós te-temos que fazer o que ele manda!" Quase chorou. Stephanie chorava muito agora, lágrimas escorrendo por suas bochechas. Me senti enjoado enquanto olhava Tommy abrir a porta e arrastar minha mãe para a escuridão do porão.

A porta se fechou com um estrondo.

Tudo ficou silencioso por alguns minutos... até que os gritos começaram. 

Nunca tinha ouvido minha mãe gritar antes... e aquele som me deixou em pedaços. Meu pai correu para a cozinha e me colocou de baixo de um de seus braços e depois Stephanie no outro. Nos guiou para o segundo andar até seu quarto e nos colocou em sua cama. Ficamos lá sentados por horas, nenhum de nós proferiu uma palavra.

Minha mãe continuou a gritar.

Finalmente, muito depois que o sol se pôs, nós ouvimos a porta do porão se abrir.

"Hoje a mamãe vai dormir no porão!" Tommy gritou. 

***
Março de 1991

Dois anos haviam se passado. Depois daquela noite, minha mãe nunca mais resistiu ou contrariou Tommy. Quando ela saiu do porão na manhã seguinte ao evento, esperava vê-la coberta de roxos, hematomas e sangue. Mas não havia nenhum machucado visível. 

Eu era novo demais para entender o que havia acontecido, e porquê minha mãe agora andava mancando e continuou andando assim até o final de sua vida. Ela não falou com meu pai por um mês e mesmo depois disso só falava o necessário. Notei que meu pai chorou muito durante aqueles dois anos. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo com minha família, mas continuei com minha boca fechada e obedecendo as regras.

Ouça o Tommy. Não fale sobre Tommy com os outros.

As coisas ficaram calmas durante esses dois anos. Tommy continuou a nos das as lições de vida e a ser um morador da nossa casa. Ninguém, a não ser os membros da nossa família, sabiam que ele morava conosco. Era o nosso segredo, a estrela negra que pairava sobre nossas cabeças. Aprendi a sorrir na presença de Tommy, assim como minha irmã. Se ele pensava que estávamos felizes, ficava mais relaxado.

Mas naquela noite minha mãe o desafiou... isso mudou algo. A cada dois ou três meses, Tommy se certificava sua autoridade sobre meus pais. Ele os testava, medindo os limites da paciência e nervos deles. 

Na maioria das vezes, meu pai e minha mãe se curvavam humildemente a qualquer joguinho sujo que ele jogava. Na maioria das vezes, ele fazia ou dizia algo para Stephanie ou para mim. Algo que sempre me deixava desconfortável. As vezes nos fazia sentar em seu colo e acariciava nossos cabelos. As vezes cantava musicas estranhas sobre amor para minha irmã. As vezes fazia com que tomássemos banho juntos enquanto ele assistia.

Eu sempre tentava manter minha cara de coragem nesses momentos. Stephanie ainda era bem nova, então não se incomodava tanto quanto eu. Era desconfortável e eu sempre olhava para meu pais procurando apoio. Com os rostos pálidos, só assentiam com a cabeça silenciosamente enquanto nós continuávamos a fazer qualquer atividade que ele estivesse mandando.

Foi no começo de 1991 quando o próximo desastre aconteceu com nossa família.

Tommy passou dos limites de novo. 

***

Esfreguei meus olhos sonolentos enquanto olhava meu relógio em formato de carro de corrida na parede. Os ponteiros que brilhavam no escuro marcavam duas da manhã. Pude ouvir algo no corredor perto do meu quarto. Parecia alguém chorando.

Onde será que Tommy estava?

Olhei para todos os cantos escuros do meu quarto para ter certeza que ele não estava lá, me observando dormir. Quando tive certeza que não estava, empurrei as cobertas para o lado e pisei suavemente no chão. Saí de fininho do meu quarto e olhei para o  breu do corredor.

Pude ver um sombra sentada no chão perto da porta fechada do quarto da minha irmã. Era uma pessoa. Deixei meus olhos se acostumarem e percebi que era meu pai, com as mãos sobre o rosto. Estava soluçando, costas contra a parede.

"Pai?" Sussurrei.

Meu pai olhou para mim e imediatamente fez gestos com a mão dizendo para eu voltar para o meu quarto. Eu só fiquei ali parado. O rosto do meu pai era uma mistura de sangue e hematomas.

"Vá para a cama, Matt,  por favor.", resmungou.

Dei um passo hesitante no corredor, "Pai, o que aconteceu com seu rosto? O que está acontecendo? Foi o Tommy?"

Os olhos dele se arregalaram e colocou o dedo sobre a boca enquanto fazia "Shhh". "Não, claro que não! Não diga coisas desse tipo. Tommy é um... ele está ajudando nossa família a ser melhor."

Cheguei mais perto mas congelei enquanto passava a porta do quarto de Stepanhie. Eu podia ouvir um choro abafado. Podia ouvir o medo.

"Pai..." sussurrei, apontando para a porta. "O que há de errado com Steph?"

Meu pai limpou o sangue do canto da boca, olhos lacrimejando, a angustia se esticando por suas feições, "Venha cá, Matt."

Engatinhei até os braços esticados do meu pai enquanto ouvia uma batida forte contra a parede do quarto dela. Dei um pulo e meu pai me abraçou contra seu peito. Pude sentir lágrimas quentes contra minha cabeça.

"Tommy está lá dentro, né?", falei baixinho. 

Meu pai fungou, "Sim, filho."

Olhei para o seu rosto ensanguentado, "O que você fez, pai?"

Meu pai tentou sorrir, mas seu rosto não cooperava, "Ele... ele queria fazer algo com sua irmã e eu não gostei. Falei não para ele."

Enquanto ele falava, percebi o choro da minha mãe vindo do quarto deles.

Ele segurou meu rosto com as mãos em conchas. "Nós não podemos dizer não para o Tommy, tá bom? Lembre-se disso."

Minha irmã deu um grito dentro do quarto, um berro agudo e estridente que arrepiou minha alma. Eu apertei o braço de meu pai.

"Por que ele está aqui?" sussurrei, "Por que ele não vai embora?"

Ficou em silêncio por algum tempo e depois aproximou a boca do meu ouvido, "Ouça bem, Matt. Isso é muito importante. Quando você crescer, não tenha filhos. Ele segue as pessoas que tem filhos." Ele rangeu os dentes, mas lágrimas pingando de seus olhos, "Não sabemos quem ele é ou porquê faz isso. Apareceu na nossa cidade quando éramos crianças, assim como você e Steph. Sua mãe e eu morávamos a duas casas de distância. Tommy infestou nosso bairro. Não sei como. Ele estava...em todo o lugar... sempre. Ele estava na minha casa, mas também na casa do outro lado da rua, e também na casa de sua mãe... ao mesmo tempo. Não sei o que ele quer, qual o seu propósito. Simplesmente apareceu um dia. Apareceu e não foi mais embora. Deus sabe que meu pai tentou fazê-lo ir."

"Foi assim que o vovô morreu?" Perguntei. Eu nunca conhecera o vovô, só sabia que havia falecido vários anos antes do meu nascimento.

Meu pai fez que sim com a cabeça, "Sim, Matt. Tommy... Tommy teve que dar uma lição nele. Teve que ensinar uma lição para todo o bairro. E depois disso... depois disso..."

"Porque você simplesmente não... mata ele?" Sussurrei, ainda mais baixo.

Ele continuou com os lábios perto do meu ouvido, sua voz um sussurro quase inaudível. "Nós tentamos. Tentamos de tudo. Queimamos ele, atiramos nele, cortamos em pedaços... mas nada funcionou. Sempre voltava, batendo em nossas portas. E alguém tinha que pagar. Se nós não seguíamos suas regras... alguém...iria... pagar. Tommy era o nosso segredo. Nosso monstro invisível, escondido do mundo externo. Mortes foram encobertas... abusos e hematomas escondidos debaixo do tapete... porque sabíamos... se alguém falasse uma palavra, Tommy faria o PIOR possível para que o desafiasse."

Digeri tudo aquilo da melhor forma que um menino de oito anos conseguiria, e a única coisa que conseguia pensar era, "Quando ele vai embora?" 

Meu pai beijou o topo de minha cabeça, "Agora só faltam três anos..."

A porta do quarto abriu repentinamente e meu pai pulou, empurrando-me para longe de seu abraço. Tommy estava parado na escuridão, seu rosto totalmente calmo, exceto por sua respiração ofegante. Seu rosto de plástico me deu muito medo, seus olhos azuis brilhando na escuridão. 

Tommy apontou para o quarto de Stephanie e disse, "Essa aí vai dormir feito pedra hoje a noite."

***
Setembro de 1993

Tínhamos mais um ano pela frente. Eu quase podia ver o desespero dos meus pais crescendo a cada dia, implorando para que o calendário virasse suas páginas mais rapidamente. Estávamos quase no fim do pesadelo.

Pensei com frequência naquilo que meu pai havia me dito no corredor. Pensei em tudo que ele deve ter passado quando era criança. Tudo que ele sentiu. Fiquei imaginado a que ponto havia chegado para Tommy ter que assassinar meu avô. Percebi que, apesar de todas as coisas terríveis que estavam acontecendo conosco, era a submissão de meu pai que nos mantinha vivos. Seu silêncio agonizante mantinha a raiva de Tommy ancorada.

Olhando agora, mal posso imaginar a tortura mental que ele teve que aguentar naqueles cinco anos.

Stephanie não falava muito depois daquela noite em Março. Presenciei sua personalidade carismática mudar repentinamente, logo se transformou em uma criança silenciosa que não sorria mais. Não acho que ela tenha entendido o que aconteceu naquela noite, mas provavelmente, enquanto crescia sua mente foi construindo uma parede em volta daquela memória.

Meus pais pareciam estar muito mais tolerantes naquele último ano. Fizeram questão de participar com entusiasmo das lições noturnas de Tommy, e minha mãe tentava desesperadamente que eu e Stephanie regressismos de formas que fizessem Tommy feliz. 

Mas não consegui sair ileso.

Tommy fez questão de deixar uma marca em cada membro de nossa família. 

***

Eu estava no meu quarto com a porta fechada. Era quase hora da janta e todos estavam no andar debaixo. Pude ouvir Tommy rindo na sala de estar.

Olhei para a revista que um dos meus colegas tinha e emprestado. Era uma Playboy. Nós tínhamos olhado as páginas na escola, rindo e cochichando sobre as mulheres nuas que estavam nas fotos. Eu nunca havia visto nada desse tipo. Foi meu primeiro contato com aquele mundo. Fazia meu coração acelerar e eu gostava da sensação estranha, porém prazerosa, que pulsava dentro de mim. Perguntei para o meu amigo se eu podia pegar a revista emprestada, e ele deixou.

Me arrumei na cama e fiquei olhando as fotos. Não conseguia acreditar que algumas mulheres deixavam pessoas tirarem fotos delas daquele jeito. Senti um fisgada na minha virilha e virei para outra página. Meu coração estava acelerando e sentia calor, minhas bochechas coradas.

Eu estava na última página quando ouvi um barulho vindo da porta.

"O que você tem aí, Matt?"

Levantei minha cabeça rapidamente, dando um pulo, a revista caindo no chão. Tommy estava me observando perto da porta. Eu não havia ouvido ele abrindo-a.

"Na-nada," murmurei, pegando a Playboy do chão e coloquei debaixo do travesseiro.

Tommy andou em minha direção, “Hehehehehehe.”

"Nã-não ouvi vo-você entrnado," murmurei de novo, corando.

Tommy colocou a mão de baixo do meu travesseiro e pegou a revista, "Não é legal mentir. Já te falei isso. Por que está mentindo para mim, Matt?"

Engoli seco, meu coração se debatendo contra minha caixa torácica, " Des-desculpa. Eu estava... Eu estou..." Olhei para o lado miseravelmente enquanto Tommy olhava as páginas.

Olhou para mim, "Você gosta disso?"

Sabia que não podia mentir para ele de novo. Assenti com a cabeça, meu rosto vermelho, olhando para o chão.

Tommy sorriu e se sentou na cama do meu lado, colocando uma de suas mãos na minha coxa, "Essas fotos te fazer se sentir... bem?"

Não olhei para ele, mas fiz que sim com a cabeça novamente.

De repente, Tommy escorregou a mão até a minha virilha e apertou gentilmente, "Faz o seu pênis se sentir bem, Matt?"

Dei um pulo, seu toque tinha me assustado. Ele recolheu a mão e riu, tua tira de não-dentes brilhando.

Tommy colocou a revista de lado e fechou as mãos em concha em volta do meu rosto, "Você sabe se masturbar, Matt? Seu pai já te ensinou como é?"

Minha respiração estava curta e ofegante, suas mãos lisas e geladas contra o meu rosto. Não fazia ideia sobre o que ele estava falando, não sabia qual resposta ele gostaria de ouvir. Apenas fiquei o encarando desesperadamente. 

Tommy suspirou, "Provavelmente seja melhor que ele não tenha ensinado. É uma conversa muito delicada, e sinto que é melhor que eu a tenha com você, não ele. Quantos anos você tem agora... dez?"

Assenti, congelado no mesmo lugar.

Vagarosamente, Tommy colocou a mão de novo na minha virilha, "Quer que eu te mostre como é?"

Me contorci ao seu toque, "Nã-não, obrigada."

Tommy sorriu gentilmente, "É normal ficar com medo. Crescer é assustador. Você será um homem lindo." Ele acariciou minha bochecha com a outra mão, a outra ainda lá. "Você já deu o seu primeiro beijo?"

"To-Tommy, po-por favor..." resmunguei, sentindo as lágrimas se acumulando em meu olhos.

Tommy me forçou a deitar na cama, e agora eu estava olhando para ele debaixo para cima, enquanto ele segurava meu rosto, "Você não precisa ter medo de crescer. Há várias coisas boas que vão acontecer com você. E imagine só... quando você tiver filhos, eu vou ir na sua casa ajudar a criá-los. Vai...ser... divertido."

"Me so-solte," sussurrei, chorando abertamente agora, sentindo sua respiração em meu rosto.

De repente, Tommy se inclinou e me beijou, seu lábios engolindo os meus. Deixei sair um guincho de pânico enquanto sentia sua língua deslizar pela minha boca, o seu apertar ficando cada vez mais forte. A boca dele tinha gosto de frutas podres e carne estragada, algo nojento que preencheu minhas papilas gustativas. 

Roçou os lábios mais um pouco nos meus e depois se afastou sorrindo e sussurrando, "Não vai ficar duro para mim?"

Eu só chorei, olhando-o em choque, pânico transbordando dos meus olhos.

Tommy sorriu e sussurrou no meu ouvido, "Não tem problema."

De repente se sentou na cama, me soltando, "Vamos lá, a janta está pronta."

Tremendo, eu enxuguei as lágrimas e o deixei me ajudar a levantar da cama. Eu não sentia fome. 

***
Julho de 1994

Enquanto nós nos aproximávamos cada vez mais de Julho, minha família desenvolveu um silêncio otimista, desesperados pela liberdade que faria tudo isso acabar. Para ele ir embora. Minha mãe e meu pai fizeram questão de deixar tudo certo para que ninguém mais recebesse uma lição. Imploraram para nós que fizéssemos tudo que ele pedisse até Julho, para não acontecer outro incidente.

Só no dia 3 de Julho, quando acordamos de manhã, descobrimos que Tommy Taffy tinha ido embora. Cinco anos exatos. Mal podíamos acreditar. Ele simplesmente desapareceu da noite para o dia. Checamos a casa toda, minha mão enxugando as lágrimas de felicidade ao saber que aquele pesadelo finalmente tinha acabado. Depois de conferir todos os cômodos da casa umas três vezes, nos reunimos na sala de estar para nos abraçar e comemorar. 

Tommy tinha ido embora.

A sentença tinha terminado.

Meu pai pediu férias do trabalho e fomos para praia por duas semanas. Durante aquelas duas semanas, eu ficava na expectativa de acordar e encontrar Tommy ao lado da minha cama, me olhando, com aquele sorriso horrível no rosto. Mas isso não aconteceu.

Tinha acabado.

Meus pais deram o melhor para tentar reconstruir nossa família, preencher as rachaduras que tinham se formado naqueles longos anos. E eu os amo profundamente por isso. Mas alguns monstros não podem ser esquecidos.

Não faço ideia de o que Tommy Taffy era ou de onde veio. Acho que nunca saberei. Qual era o seu propósito? Por que fez aquelas coisas terríveis conosco? Fico me remoendo, pensando nisso de novo e de novo até que começo a chorar, as memórias são muito doloridas para serem lembradas. Algumas coisas são feitas para serem deixadas mortas no passado. 

Mas eu não esqueci o que meu pai me falou naquela noite no corredor, quando ficamos sentados do lado de fora do quarto da minha irmã.

Tenho trinta e três anos agora e continuo sendo solteiro e sem filhos. Não posso arriscar. Não posso arriscar a possibilidade daquele monstro voltar para minha vida. Nunca entendi porquê meus pais decidiram ter filhos. Ambos tinham enfrentado Tommy durante suas infâncias... então porquê ter eu e Stephanie? Talvez eles não acreditassem que ele voltaria.

Mas eu acredito. E estou com muito medo.

Porque, sabe... ontem minha irmã deu a luz a gêmeos.
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FONTE

N.T: Percebi que a quantidade de comentários está diminuindo bastante quando posto uma por dia, então decidi que postarei menos. No máximo três vezes por semana. Beijinhos!

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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26/09/16

Monstros em Meus Ombros - Prólogo & Capitulo 1

Prólogo


Quando eu era criança, eu costumava ouvir vozes. Às vezes elas cantavam... Às vezes elas gritavam, mas em todas às vezes, elas falavam comigo. Meu pai me disse uma vez que um dia elas morreriam, foi confortante saber. Fui ingênuo o bastante para pergunta-lo se ainda demoraria muito para acontecer. Ele sorrira pra mim, foi o sorriso mais feliz que já vira meu pai dar. Na verdade, não me lembro de já ter o visto sorrir antes.

- Só depende de você, meu filho – Ele disse. Entregando-me a navalha que costumava usar para se barbear. E que por alguma razão, sempre carregava em seus bolsos. - Elas podem morrer agora mesmo!

- Como assim, pai? - Eu o perguntei. Surpreso e confuso - O que devo fazer?

Ele me abraçou e sem dizer nada me carregou até o banheiro, pediu que eu tirasse minhas roupas e deitasse na banheira. Eu o fiz, mesmo quando as vozes diziam que eu não deveria.

Meu pai ligou a banheira, pediu que eu fechasse os olhos e relaxasse.

- Tudo acabará logo - Ele estava nervoso, mas forçava-se a parecer entusiasmado.

Eu obedeci. Alguns segundos depois eu senti que ele estava mexendo em meu pulso esquerdo. O que estava acontecendo? As vozes estavam começando a se desesperar. Era difícil relaxar, meu pulso estava ardendo muito, como se estivesse machucado. Comecei a sentir o mesmo no pulso direito. As vozes berravam.

- Shh... As vozes estão morrendo filho, tudo acabará logo, apenas relaxe, está tudo bem agora. - Disse o meu pai.

Sua voz parecia distante, ecoando como se viesse da minha própria mente, mas eu sabia que ele estava ali. Eu sentia a sua presença. Fui ficando fraco, parecia que tinha brincado um dia inteiro e estava quase desmaiando de cansaço. As vozes enfraqueceram.

Capítulo 1
Um Monstro Disfarçado de Criança


Quando eu acordei, eu já não ouvia mais as vozes, minha visão estava embaçada, mas foi melhorando conforme eu piscava. Eu estava sentado em uma cadeira de madeira, de frente pra banheira. A banheira estava transbordando, a água estava vermelha e meu pai estava dentro dela. Seus pulsos estavam machucados.

Mil coisas passaram pela minha cabeça ao me deparar com aquela cena, senti uma pontada em meu peito. O sentimento era indescritível, meu pai estava morto. Eu fiquei o encarando por uns trinta segundos, me perguntando como aquilo teria acontecido. Será que alguém havia invadido a casa? Ou pior...

- Eu o matei? – Pensei. - Essa possibilidade fez com que uma onda de desespero caísse sob mim.

Corri para o meu quarto, joguei-me na cama, enfiei o rosto o mais forte que pude no travesseiro e desatei a chorar. Não me lembro de nenhum outro momento da vida em que chorei tanto.

- Ei, garoto - Ouvi alguém debochar. - Pare de chorar, está me deprimindo.

A voz parecia vir do fundo do quarto, pensei. Talvez ele não estivesse morto de verdade. Virei-me quase que instantaneamente, sentei-me na cama e passei meus olhos por todos os cantos do quarto procurando por ele. Não havia ninguém lá. O único som que eu conseguira ouvir agora era o da casa sendo inundada. Não tive coragem de desligar a torneira da banheira (na verdade isso nem mesmo passou pela minha cabeça) então ela continuara a transbordar.

Lentamente deitei-me novamente. Peguei meu travesseiro, estava encharcado de lágrimas. Mas o pus assim mesmo por cima de minha cabeça na tentativa de abafar o máximo possível o som que vinha do banheiro. Eu estava quieto agora, a tensão que a voz me causou fez com que eu não conseguisse mais chorar.

- Você matou seu pai, garoto maluco - Ouvi novamente a voz no fundo do quarto dizer. Era uma voz rouca e engraçada. Parecia um personagem bêbado qualquer de um desenho animado falando comigo. Confesso que se tudo isso acontecesse em circunstancias diferentes, essa voz poderia me render umas boas gargalhadas, mas não agora. Agora ela só conseguia me causar arrepios.

- Que tipo de filho mata o próprio pai? – Começou a dizer. - Você é um monstro disfarçado de criança! -

A voz parecia se aproximar de mim.

Fui me encolhendo na cama, tapando forte os meus ouvidos com o travesseiro em uma tentativa falha de não ouvi-lo.

- Você vai ser preso, garoto! - A voz começou a berrar. - Vai passar o resto da vida trancado em uma gaiola com pessoas tão ruins quanto você!

- Cala a boca, cala boca, cala boca! - Eu tive um surto e de repente meus pensamentos saíram pela minha boca. Comecei a estapear o vento desesperadamente com a intenção de acertar aquele que berrava em meus ouvidos. - Cala a boca, cala boca, cala a boca!

Mas não havia ninguém ali.

Parecia que eu havia recebido uma injeção de adrenalina. Corri para o banheiro e desliguei a torneira da banheira. Meu corpo queimava. Desci aos saltos a escada que levava para a sala de estar e fui até o sofá para pegar a mochila que eu usava para carregar meu material escolar. Apressadamente joguei tudo o que tinha dentro no chão e corri até a cozinha. Abri as portas da despensa e peguei tudo que fosse prontamente comestível.

Abri também a geladeira, peguei garrafinhas de água, sucos de caixinha e coloquei tudo dentro da mochila. Honestamente, eu não sabia por que estava fazendo aquilo, não parecia que eu estava no controle do meu corpo, eu simplesmente fiz.

Fui até a porta da frente, ainda estava de noite. Parecia estar muito tarde já que a rua estava quieta e vazia. Não havia se quer uma luz acesa em nenhuma das casas da vizinhança. Todos pareciam dormir.

Olhei para trás uma última vez. Tudo o que tinha para ver eram meus livros da escola no chão da sala escura e a escada que levava ao segundo andar iluminada pela luz que vinha por de baixo da porta do banheiro. Respirei fundo, fechei a porta principal e corri. Não tinha nenhum lugar em mente, nenhum plano arquitetado, só simplesmente corri.

Quando eu finalmente parei de correr o dia já havia amanhecido e eu sabia exatamente onde eu estava. Todos estavam me olhando estranho, pareciam estar esperando que eu fosse me aproximar ou dizer alguma coisa, mas eu só fiquei lá, parado, ofegante, me perguntando como eu havia chego a minha escola e nem tivera me dado conta. Elisa, minha professora, viera até a mim e me perguntara o que havia acontecido, mas tudo o que consegui fazer foi abraça-la o mais forte que pude.

Elisa tinha olhos castanhos muito claros, pele clara e cabelos negros e lisos que batiam em seus ombros. Naquela manhã ela usava um vestido azul claro com bolinhas brancas

- Eu matei o meu pai... Quer dizer... Eu acho que o matei, eu não sei... Estou tão confuso! - Eu disse com muito esforço aos soluços, lutando contra o choro. - Eu o matei, foi sem querer, eu não queria que ele morresse.

Ela saiu do meu abraço me empurrando para trás, fazendo com que eu tropeçasse e caísse sentado no chão. Olhei para ela assustado. Ela estava me encarando, parecia estar com muita raiva de mim.

De repente eu senti que alguma coisa estava diferente no clima. Eu olhei ao meu redor, o céu estava vermelho. Parecia algum tipo de anoitecer sangrento. Quando eu voltei os meus olhos para Elisa, ela e todas as crianças que estavam no pátio estavam me encarando. Seus olhos estavam negros e cheios de ódio. Aquilo me apavorou, eu tentei me levantar e correr, mas meu corpo estava agarrado ao chão.

Eles não faziam nada além de me encarar. Nenhum movimento, nenhum barulho. Esse momento deve ter durado uns quinze segundos antes de tudo ficar em silêncio total. Eu não ouvia mais nada, nem se quer o som da minha própria mente. Parecia que de repente o mundo estava mudo e tudo o que existia nele não era mais capaz de emitir som algum. Tudo o que restara era um zumbido até que eles começaram a escancarar suas bocas simultaneamente.

Tudo estava em câmera lenta. Só havia escuridão dentro deles. Sem dentes, sem língua, apenas um buraco negro. Eles não pareciam humanos... Não eram humanos. O som que saiu daquele buraco negro era como um grito de guerra agoniante que a princípio parecia uma turbina de avião estraçalhando uma horda de mortos vivos.

Aquele som perturbador despertou a minha audição. Foi ficando cada vez mais alto e mais alto até que todos eles começaram a correr em minha direção. Eu finalmente podia me mover, mas eu não consegui correr, tudo o que fui capaz de fazer foi fechar meus olhos o mais forte que pude.

Quando finalmente abri os olhos, eu estava deitado em uma cama. Elisa e os outros haviam sumido e aquele lugar certamente não era o pátio da escola. Tudo estava embaçado, havia umas pessoas ali, mas eu não conseguira identificar seus rostos embaçados.

Quando minha visão estabilizou vi claramente quem eram aquelas pessoas e onde eu estava. Era um hospital e meu tio Lincoln e a tia Cassie estavam lá comigo. Eles pareceram bem felizes quando perceberam que eu estava acordado.

- Ele acordou! – Disse tia Cassie histericamente alegre. - Meu bebezinho é um guerreiro, nem acredito que você finalmente acordou!

Tia Cassie era uma senhora simpática, devia ter seus quarenta anos. Cabelos longos e prateados, olhos azuis bem fortes. Ela tinha sardas meigas no rosto e usava uma camisa branca, uma bermuda jeans que iam até os joelhos e um tênis de corrida violeta com detalhes brancos.

Ao lado dela estava o tio Lincoln. Ele era grande, muito grande. Devia medir dois metros de altura. Tinha cabelos negros cujas laterais eram grisalhas, pele morena e olhos quase negros. Os outros garotos da minha idade certamente morreriam de medo da assustadora expressão “ex-soldado de guerra” do tio Lincoln, mas não eu.

Eu o acho incrivelmente descolado. Ele tinha um bigode que em qualquer outra pessoa ficaria bizarro, mas seu rosto era moldado de forma que fazia com que aquele se tornasse o bigode mais estiloso de todos os bigodes do universo. Ele usava uma jaqueta jeans marrom. Uma blusa cinza dos Beatles por baixo da jaqueta, uma calça jeans azul claro e uma bota de couro marrom bem escura.

- Como é que vai garotão? - Disse Tio Lincoln. Seus olhos cintilavam - Como está se sentindo?

- Um pouco fraco e com muita fome - Respondi sonolento. - O que aconteceu comigo, tio Lincoln?

Eles não me responderam imediatamente. Ficaram tensos, trocando olhares nervosos, pensando em como me explicariam a tragédia que me fizera parar naquele hospital. Um minuto se passou. O tio

Lincoln respirou fundo e umedeceu os lábios.

- Seu pai tentou matar você, garoto. - Ele disse, de forma fria e mais direta possível.

- Lincoln! - Tia Cassie deu um soco em seu ombro direito e respirou como se fosse dizer algo, mas desistiu e por fim, só abaixou a cabeça.

- E onde está o meu pai agora? - Perguntei inocentemente como quem que não fazia ideia do quanto tudo àquilo que havia acontecido era trágico. - Ele está preso?

- Não, filho. – Tio Lincoln olhou triste para tia Cassie e mais uma vez respirou fundo e umedeceu os lábios. - Ele se matou depois de ter machucado você, parece ter se arrependido do que fez.

Tia Cassie respirava bem fundo, fechava forte os seus olhos, levava as mãos até a boca e balançava lentamente a cabeça de um lado para o outro a cada palavra sincera e direta do tio Lincoln.

- Entendo... - Respondi pensativo, mas não estava surpreso, nem mesmo chocado. Aquilo já não me parecia uma novidade, não depois daquele último pesadelo. Ele foi tão real que eu já havia aceitado que de alguma forma meu pai estava morto.

E para ser honesto, saber que eu não o tinha matado me fez sentir muito melhor. Mas por que ele havia tentado me matar? Eu não me lembro de ter feito algo que pudesse fazer com que ele me odiasse tanto. Será que as vozes diziam para ele as mesmas coisas que diziam para mim?

- Você sairá daqui hoje mesmo! - Disse tia Cassie enquanto limpava os olhos com um lenço umedecido que havia retirado de sua bolsa. Recompondo-se e transparecendo certo entusiasmo, continuou. - Já preparamos tudo para você ir morar com a gente. Você vai amar seu quarto!

- Eu vou morar com vocês agora? - perguntei, quase que com um sorriso no rosto. Aquilo sim havia me surpreendido e de alguma forma era até animador. A ideia de uma nova vida, uma nova escola, novas pessoas, realmente me excitava.

Não que eu não gostasse da minha vida com o meu pai ou da minha antiga escola. Eu já havia me acostumado á rotina, então vivia um dia de cada vez, sem me lamentar ou reclamar, era indiferente. Eu nunca desejei que as coisas mudassem, mas já que a vida iria tomar um novo rumo, o melhor que eu poderia fazer era esperar algo bom disso, afinal, como toda criança; eu adorava coisas novas.

- Sim, querido - tia Cassie respondeu com os olhos brilhando.

- E você não precisa se preocupar com nada. - Disse o tio Lincoln, parecia animado. - Já levamos todas as suas coisas que estavam na casa do seu pai para a nossa casa. Quando voltarmos nós podemos assistir televisão e jogar vídeo game o dia inteiro! O que me diz?

- Sim, isso seria incrível - Respondi. Eu estava cada vez mais ansioso para sair daquele hospital e ir para o meu novo lar.

- Ah, quase que eu me esqueço! – Disse tia Cassie sentindo-se uma boba procurando algo em sua bolsa – Alguém ai quer sanduíche de atum?

- Com certeza amor! – Disse tio Lincoln acariciando a barriga como quem está com muita fome. – O sanduíche de atum da sua tia é o melhor sanduíche de atum do mundo! Você tem que provar garoto! - Disse ele para mim enquanto mastigava seu sanduíche.

- Demorou! – Eu disse. Não fazia ideia do que era atum, mas eu sabia o que era um sanduíche e estava morto de fome.

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Esses foram os dois primeiros capítulos de um livro que está sendo escrito pelos autores Matheus Ramos e Rômulo Fernandes, intitulado "Monstros em Meus Ombros". Ele entrou em contato conosco para que pudêssemos trazer a história pro blog para que vocês possam nos dizer o que acharam até então. Aguardem os próximos capítulos em breve!


24/09/16

Hábito Antigo



Costumo escovar os dentes no chuveiro. Principalmente pela manhã e antes de dormir. Gosto da água quente, do frescor da pasta de dentes transbordando pelo queixo e escorrendo pelo corpo, pintando de branco minha pele, perfumando de hortelã o box. 

Sinto-me sempre relaxada, prática, satisfeita. 

Exceto hoje. 

Hoje eu peguei a gilette por engano.
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23/09/16

O motivo para a mamãe usar uma cadeira de rodas

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No jantar, percebi que minha filha, que tem 4 anos, ocasionalmente direciona o olhar para sua mãe, depois desvia rapidamente. Sendo tão nova, obviamente não tem muita noção sobre como ser sutil, então é evidente para nós dois que algo está afligindo seus pensamentos. E eu sei o que é.

Eu e minha filha estávamos sentados em uma ponta da mesa, minha mulher na outra. Já era assim mesmo antes da minha esposa sofrer o acidente e nada mudou. A razão de sentarmos assim é que minha esposa ama olhar para nossa filha. "Ela é a coisa mais linda que eu já vi, porquê eu não iria querer ficar olhando para ela o tempo todo?", falou para mim uma vez, e concordo plenamente. 

Estamos dando nosso melhor para não deixar que o acidente despedace nossas vidas, mas é difícil de explicar a situação para uma criança de 4 anos. Deve ser uma época muito confusa para ela. 

Minha filha se inclina na minha direção e sussurra o mais baixo que consegue para que sua mãe não ouça. Bem, como a sutileza não é sua melhor característica, ela praticamente grita. 

"Por que a mamãe tem que sentar naquela cadeira agora?"

Meu coração se parte um pouquinho quando ouço isso. Olhei para minha esposa para ver sua reação, mas ela só sorria docemente. Ela é a pessoa mais carinhosa e compreensiva que conheci na vida, provavelmente essa é a razão para eu ter a pedido em casamento. Ela já era assim antes do acidente e nada mudou. 

O sorriso da minha mulher me diz que terei de explicar a situação para nossa filha mais uma vez, assim como já havia feito tantas vezes, mas a pequena ainda não compreendia. 

"Meu docinho, ouça bem. Você se lembra que a mamãe caiu da escadas e ficou com vários 'dodóis'?" 

"Uhum," ela assente com a cabeça. 

"Bem, mamãe não consegue mais caminhar, então precisa daquela cadeira com rodas para passear mais fácil pela casa, entendeu?"

"Okay..."

Tenho certeza que teremos essa conversa de novo, mas ela parecia satisfeita com a resposta. Mais uma vez olhei para minha esposa, agora ela estava sorrindo para mim como se dissesse que eu havia feito um bom trabalho, então sorri de volta calorosamente. 

Depois da janta, eu lavo a louça enquanto minha filha desenha na mesa. De novo, foi sempre assim que fizemos. Coloco na TV a novela favorita da minha esposa e faço questão de tira-la da cadeira de rodas e colocá-la confortavelmente na poltrona reclinada da sala. Dou um beijo em sua testa. 

Enquanto jogo os restos de comida no lixo, noto que minha filha se inclina na minha direção. 

"Por que o rosto da mamãe tá desse jeito engraçado?"

Novamente, meu coração se parte mais um pouco. Minha mulher é muito linda, mas o acidente a deixou com vários machucados feios no rosto. Eu nunca usaria a palavra "arruinada", mas seu rosto que uma vez fora deslumbrante, agora está... ofuscado; mas isso nunca acontecerá com o amor que sinto por ela. 

"A mamãe caiu da escada, lembra? Ela ficou com vários 'dodóis' no rosto. Sei que ela está um pouco diferente agora, mas ela sempre vai ser a mesma mamãe, okay?"

"Okay..." sussurra novamente. 

Espero com todas as forças que a televisão na sala esteja com o volume alto suficiente para abafar essa pergunta, então sussurro de volta para minha filha. 

"Chega de perguntas sobre a mamãe, okay?"

"Okay, papai." fala baixinho de volta, mesmo que seu rosto esteja coberto de dúvidas. Acho que ela está com medo da própria mãe, e isso me mata. 

Depois de limpar tudo, levo minha filha para o andar de cima para coloca-la na cama. Essa é uma das poucas coisas que mudou desde o acidente, sendo que era minha esposa que cuidava dessa parte, mas ela não consegue subir e descer as escadas, e não temos dinheiro para aquelas cadeiras eletrônicas chiques de subir escadas. Só a compra daquela cadeira de rodas simples já tinha deixado nossa conta do banco vazia. 

Depois que ela já está na cama, pego a cadeira de rodas da minha esposa e coloco no pé da cama da nossa filha. Sabe, antes do acidente minha esposa sempre ficava deitada com ela até que adormecesse. As vezes eu entrava lá e encontrava as duas dormindo, deitadas juntinhas com o rosto em paz. Eu apenas as deixava assim. Mas agora minha esposa não pode fazer isso, então eu a carrego escada a cima e a coloco gentilmente na cadeira de rodas perto da cama. Assim ela ainda pode observar sua pequena amada dormindo. Minha esposa é uma ótima mãe, é muito importante para uma menina ter uma figura matriarcal enquanto cresce. 

Levar minha esposa para o quarto da nossa filha é a melhor parte do meu dia. Seus braços se envolvem em meu pescoço, minhas mãos a seguram e acariciam sua cabeça, e nossos rostos estão tão próximos um do outro que consigo contar quantos cílios ela tem envoltos em seus lindos olhos. Mantemos contato ocular enquanto subimos silenciosamente os degraus atapetados e essa é uma conexão maravilhosa que não mudou desde o acidente. Sinto seu cheiro e deixo nossas bochechas juntinhas enquanto aproveitamos esse momento de paixão que nos deixa sem ar.

Gentilmente colo minha esposa em sua cadeira, dando um beijo em seus lábios, proclamando todo amor que sinto por ela. Então ligo o abajur e me viro para deixá-las finalmente a sós. Foi aí que ouvi nossa pequena resmungando bem baixinho. 

"O que houve, docinho?" perguntei baixinho para ela enquanto me aproximava. 

Seu rosto estava enterrado no travesseiro enquanto falava, "A mamãe tem que ficar aqui a noite toda de novo?". Desta vez ela nem tenta ser sútil. Nem olho para minha esposa, não suportaria ver aquele sorriso triste em seu rosto.

"Chega! Ela ainda é sua mamãe e você vai deixá-la triste se continuar falando essas coisas!" 

"Mas... mas por que ela tem esse cheiro tão estranho?"

Não sei se ela está se referindo ao cheiro do Formol ou... o outro cheiro. Já se passaram 5 dias do acidente e minhas tentativas de preservar minha maravilhosa mulher não tem sido o suficiente. Eu até fiz alguns pontos em sua bochecha para que ela sempre fique sorrindo alegremente, mas ainda não é o suficiente. Só estou contente que ela ainda esteja aqui com a gente, eu ficaria louco se não estivesse. 

 É muito importante para uma menina ter uma figura matriarcal enquanto cresce, você não concorda?
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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22/09/16

O desejo de Amy


Quando Amy tinha 4 anos, eu ensinei a ela o jogo dos cílios. Você sabe qual. Aquele em que você encontra um cílio, fecha os olhos, faz um pedido, respira bem fundo e sopra ele ao vento. "Se você tiver sorte," eu disse a ela, "seu desejo se tornará realidade." Amy considerou por um momento e então disse que era um jogo estúpido. Eu ri e pedi a ela que não dissesse mais a palavra estúpido. Eu lembro de ser grato por ela não pensar que Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa eram estúpidos. Isso teria sido um problema.

Próximo ao aniversário de 7 anos de Amy ela ganhou um presente especial: um irmãozinho chamado Michael. Amy adorou Michael desde o instante que o viu. Ela sempre pedia para segurar ele, o que nós permitimos assim que tivemos a certeza de que ela seria gentil. Ela foi. Michael gostava de sua irmã, e se Dawn ou eu não conseguíamos fazer com que ele parasse de chorar, nós o colocávamos nos braços de Amy e ele instantaneamente ficava calmo. Não é necessário dizer que nós ficamos gratos.

Quando Michael tinha 1 ano, ele desenvolveu uma febre alta. Nós corremos com ele para a sala de emergência onde eles conseguiram baixar sua temperatura, mas havia alguma coisa errada. Testes revelaram o pior cenário possível: leucemia. Ele tinha de começar o tratamento o quanto antes.

Nós não contamos à Amy a história completa a respeito da doença de seu irmão, mas ela era capaz de perceber que era sério. Eu fiz o meu melhor para colocar no rosto uma expressão corajosa, assim Amy não ficaria tão triste. Funcionou por um tempinho. Mas alguns meses depois as emoções dela a apanharam. Ela caiu numa tristeza que eu nunca tinha visto em sua jovem vida. Uma noite, no jantar, Amy começou a chorar. "Michael acha que eu não amo mais ele." Ela me informou, enquanto lágrimas rolavam em seu rosto. Não era uma pergunta, ela estava certa disso.

Eu me senti um péssimo pai. Preso no inferno do dia-a-dia de lidar com a doença do meu filho, eu negligenciei a ajuda que Amy precisava para lidar com os sentimentos que ela vinha sendo forçada a suportar. Aos 39 anos, eu estava tendo sérios problemas para lidar com tudo aquilo, eu não podia imaginar com era isso para alguém tão novo quanto Amy.

Depois que ela foi para cama, eu liguei para Dawn no hospital e nós pensamos em algo que pudesse ajudar. Nós decidimos que ela deveria visitar o irmão, para ver que os médicos e enfermeiras estavam fazendo seu melhor para ajudá-lo a melhorar. Nós estávamos relutantes em levar ela ao hospital por causa da aparência de Michael, ele não parecia muito bem. Nós não sabíamos como ela iria lidar com a visão de seu irmão entubado e ligado a monitores, mas nós também sabíamos que muito tempo havia se passado. Era importante para Amy ver seu irmão.

Quando chegamos, ela só foi autorizada a olhar para Michael através do vidro. Para nossa surpresa, ela ficou animada. Ela acenou e falou com ele, mesmo sabendo que ele não poda ouvi-la, mas ela queria fazer o esforço. Eu a peguei sorrindo pela primeira vez em muito tempo.

Eu notei dois cílios na bochecha de Amy. Esperando adicionar força ao seu renovado senso de positividade e não me importando se ela achava estúpido, eu recolhi os cílios de sua bochecha e coloquei no meu polegar. Então pedi que ela fizesse um desejo, meio que esperando que ela rolasse os olhos e voltasse novamente sua atenção a Michael. Para minha surpresa, ela sorriu novamente, fechou os olhos, pensou por um instante e então soprou o mais forte que podia. Então ela olhou para o irmão e sorriu; Eu não precisava perguntar qual tinha sido o desejo.

Algumas semanas se passaram e o estado de Michael melhorou. Foi completamente inesperado e inexplicável, ele simplesmente começou a ficar melhor. Mas o alívio trazido pela melhora foi curto. Seu estado se deteriorou logo depois. Era o que Daawn e eu sabíamos que ia acontecer, mas mesmo assim não estávamos preparados para aquilo. Nosso lindo filho faleceu no dia 3 de Maio de 2015.

Eu e Dawn estávamos devastados. Obviamente. Mas Amy estava inconsolável. Quando ela descobriu sobre a breve melhora do irmão, ela colocou na cabeça que ele continuaria melhorando. Ela se recusava a acreditar que tudo tinha mudado para pior. Então, quando nós explicamos a ela que ele havia falecido, tudo que ela fez foi gritar. Ela gritou e chorou por dias.

Depois de um mês, quando a realidade da vida sem Michael se fez presente e nós três fomos gradualmente retornando as nossas rotinas normais, eu fiz de meu objetivo ser mais presente na vida de Amy. Eu não era ausente ou sequer distante, mas eu queria ser uma força de positividade na vida da minha filha. Depois de tal trauma, era o que ela precisava. Eu me assegurei que ela estava indo ao psicólogo da escola e eu agendei uma sessão de terapia familiar para a semana seguinte. Eu estava determinado a evitar que a tragédia familiar deixasse marcas mais profundas que o necessário em Amy.

Na noite anterior a nossa sessão de terapia, muito depois que eu tinha caído no sono, eu acordei com Amy em pé ao lado da cama. Eu podia ouvir ela chorando. Eu perguntei se ela queria dormir conosco na cama pelo restante da noite, mas ela não respondeu. No meio de seus soluços, ela estava fazendo um som de sopro. Eu podia sentir a respiração dela no meu peito e rosto. O choro continuava.

"Você esta bem querida?" Eu perguntei, procurando desajeitadamente pelo interruptor da velha lâmpada a lado da cama. O choro e os barulhos de sopro se intensificaram. Finalmente encontrei o interruptor e liguei a lâmpada. Eu engasguei.

O rosto de Amy estava encharcado de sangue. Ela me encarou com os olhos arregalados com uma combinação de terror e ódio. Ela estava com as mãos na boca e estava soprando. Assim que meus olhos se ajustaram a claridade, eu gritei para acordar Dawn e ela começou a gritar. Nas mãos de Amy havia dois pedaços de pele com pelos eriçados neles. Ela continuou me encarando em meio aos soluços. Não, não encarando. Pânico floresceu no meu peito e eu tive dificuldade para respirar. Carne esfarrapada pingava sangue nos olhos de Amy enquanto ela soprava, em pânico, ar quente nas pálpebras amputadas na palma de sua mão. Os cílios balançavam no vento úmido.

"Eu continuei desejando que o Michael voltasse." Ela disse em meio aos soluços. "Mas eu não sou boa niso."

"Você pode me ajudar? Por favor?"



21/09/16

Os Pesadelos de Fairweather

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É uma crença popular de que a industria da televisão é uma grande cabala suja e incestuosa que lida com suas sujeiras apenas jogando-as debaixo do tapete. Sendo uma pessoa que já trabalhou em praticamente todos os cargos que eles pode oferecer - desde entregar cafézinho até produzir e dirigir - não tenho intenção nenhuma de mudar essa tipo opinião. A jogada toda é uma bagunça tóxica e estou feliz por ter saído de lá, mas deixe-me dizer, as piores coisas são o que o público não fica sabendo. 

Há milhões de histórias sobre pessoas sendo devoradas pela máquina - mastigadas, e cuspidas para queimar ao sol ardente das sarjetas de Los Angeles. Incontáveis escritores borbulhantes, estrelas aspirantes, e grandes personalidades brilhantes que foram esmagadas pelas botas coletivas da industria que por muito tempo fiz parte. 

Mas essas histórias deixarei para as manchetes. Não estou aqui para dar com a língua nos dentes sobre o vício em heroína sobre certa celebridade infantil dos anos noventa, ou a queda das diversas princesinhas do pop que foram construídas e depois derrubadas pelos mais "inovadores" shows de talentos. 

Estou aqui só para falar sobre Colleen Fairweather. 

Ela estava programada para ser a estrela da NBC nos anos 90 - uma presença de palco com um cérebro, charme, e versatilidade. Havia uma mágica em Colleen que não se via e nem tem se visto mais desde então, e era uma das poucas pessoas da indústria que eu tinha certeza que - sem contar com a politica de gargantas cortadas no geral - sobreviveria nas redes. Fui sortudo suficiente para trabalhar com ela em vários projetos, e posso atestar que realmente tinha um magnetismo peculiar a seu respeito. 

Deixe-me adivinhar, agora você provavelmente está se perguntando "Se ela é tudo isso, por que nunca ouvi falar nela?"

Vamos chegar lá. Não se preocupe. 

Colleen teve vários papéis pequenos em programas de palco e de variedades, embora eu acredite que os episódios desses respectivos programas tenham sido cortados e encontram-se não disponibilizados. Toque no nome de Colleen Fairweather para Letterman e garanto que o velhote vai ficar todo desconcertado. Essa é a natureza do comércio, quando você é alguém como ela, todos te conhecerão. 

E quando você é alguém como ela, todos estarão de acordo em negar sua existência assim que você sumir. 

É assim que funciona o mundo dos espetáculos, crianças. 

Minhas interações com Colleen eram em sua maioria transitórias, apenas pequenos "Olás" e "Como você está?" quando passávamos um pelo o outro. Minha última interação profissional com ela foi a produção de um episódio piloto de um programa que era seu queridinho muito antes dela entrar na industria da televisão. Me contou que já tinha registrado a ideia no cartório quando tinha vinte e poucos anos. Qualquer outra pessoa que tentasse fazer aquilo receberia milhares de risadas na cara, mas não ela. Conseguia adicionar seriedade a tudo que tocava. 

"Serei grande, Mike," me disse, sua voz cheia daquela confiança total que era sua marca registrada. "É novo, é o que a televisão precisa agora." 

"Tem certeza que não é um tanto, sei lá, esotérico?" Lembro de perguntar, enquanto lia o script mais uma vez. 

"Esotérico? Não tem nada esotérico nisso, Mike. O medo está no sangue do povo americano, nós amamos. Nós nos alimentamos de medo."

"Tá bom, Lovecraft, calma lá. Tenho fé no fato que você poderia executá-lo, mas não faço ideia de como venderemos isso para as redes. Pode destruir nossa credibilidade."

"Não se for verdade."

Isso fez eu pausar. 

"O fato é, Mike, que o público americano está enjoado de ser alimentado a gotas com essas fofocas de celebridades como se estivesse conectado a uma intravenosa de merda. É isso que todos os outros programas de palco estão fazendo. Nós podemos lançar algo totalmente impactante, Mike, algo que pode mudar o jogo."

"Bem Colleen, você mesma disse: só se for verdade. Nenhuma rede de televisão vai comprar uma apresentadora pirada gritando e fingindo alguns sustos."

O tempo depois me provou que eu estava errado, alguns cliques no controle remoto hoje em dia pode provar isso. 

"Você terá que me dar um voto de confiança, Mike. Tenho um contato, algo especial - algo real. Só temos que produzir o piloto, só isso. Te garanto que as redes estarão em cima da gente como moscas em cima de merda de cachorro."

Me reclinei em minha cadeira e suspirei, esfregando a mão na minha cabeça já careca. As vezes havia uma intensidade desconcertante nela, talvez apenas um sintoma de ser confiante demais, mas era uma pessoa difícil de se dizer não. Em outra vida ela poderia ter sido uma ditadora de alguma nação no pacifico. 

"Tá bom." Eu disse, suspirando, finalmente cedendo. "Mas vai ficar na sua conta se for rejeitado. Não espere que eu leve a culpa pela a porra do fantasma Gasparzinho."

Ela  assentiu com a cabeça e sorriu, sabendo que tinha conseguido o que queria. 

Ia se chamar "Os Pesadelos de Fairweather", um programa de palco com convidados que não são celebridades, mas pessoas envolvidas com coisas paranormais, assustadoras e arrepiantes. A vítima de um Serial Killer que escapou, o abduzido por alienígenas, a pessoa com provas irrefutáveis de que sua casa estava sendo assombrada por um espirito maligno, coisas do tipo. Se ela tivesse me proposto isso meia década antes, eu nem teria pensado na possibilidade, mas o Arquivo-X estava varrendo a nação com suas loucuras paranormais e parecia estar se tornando o programa favorito de todos. 

O programa teria lucro se fosse produzido a pouco custo, conseguindo fazer uma grana com o zeitgeist americano. Mas ela não via assim, não, queria que fosse um marco inovador da televisão, mas para mim parecia só um monte de truques bregas.

Talvez ela tinha mais visão do que eu, mas pensando bem, nós dois estávamos nos iludindo. 

Consegui que uma equipe improvisada produzisse o set nas especificações de Colleen. Tenho que admitir que, para alguém que por fora parecia ser feita para a televisão, quanto mais você conversava com ela, mais percebia que sua disposição estava plantada firmemente no alternativo. Ela queria que o set fosse minimalístico, bastante preto, emoldurada por longas cortinas vermelhas em ambos os lados. Também foi bastante especifica em relação as pinturas que queria penduradas na parede atrás do sofá de couro em que os convidados sentariam: Bosch, Munch, Goya. Coisas bem sinistras.

Parte de mim sabia que - mesmo que houvesse uma possibilidade mínima das redes quererem o programa - definitivamente pediriam algumas mudanças. Eu teria que simpatizar com isso; só de estar de pé ali, olhando tudo por trás da câmera, parecia que eu estava tendo um pesadelo febril. Nenhum executivo com a cabeça no lugar acreditaria que o público americano estava pronto para um "Twin Peaks: O programa de Palco".

Mas Colleen era diferente. Ela estava em seu elemento. Aquela estranha, estranha mulher. 

No dia da gravação ela chegou como se estivesse andando nas nuvens, com aquele enorme sorriso de palhaço pintado em seu rosto. Mal notei a família  com aparência miserável a tira-colo quando entrou no estúdio.

"É perfeito!" Disse, com aquela voz quase de cantora profissional, "Sabia que você conseguiria, Mike!"

"É, bem, espero que você também consiga," falei, "tenho perdido vários dias de sono por causa disso aqui."

A família que Colleen trouxera era jovem demais para ser sua. Os pais não deviam ter mais do que vinte e poucos anos, e a menininha com eles parecia ter uns sete. Desde aquele momento percebi que havia algo estranho ali, ela parecia tão magrinha, tão vazia. Pele pálida e bochechas negativas, como se estivesse desnutrida.

"E, hm, quem são seus amigos, Colleen?" perguntei, tentando disfarçar o nervosismo em minha voz.

"Ah. Esses são os Baxters. São nossos primeiros convidados."

"Claro. Prazer em conhecê-los," falei, mas na verdade não fiquei muito a vontade com eles, "Então, qual é a de vocês? Abdução alienígena, casa assombrada...?"

Todos se entreolharam, confusos e assustados, como bêbados que acabaram de ser pedidos por um policial para assoprar o bafômetro. Mas Colleen estava do lado deles.

"Você verá," disse, com outro sorriso perigoso, "Quando estaremos preparados para gravar?"

"Me dê cinco minutos, e verei o que posso fazer."

Não vou falar sobre os testes de som, luz e maquiagem, pois são detalhes não essenciais. Talvez eu devesse dizer que estava com uma sensação estranha, que alguma parte de mim sabia que essa transmissão já estava ferrada desde o começo, mas estaria mentindo. Minha única preocupação era com o estado de saúde da menininha, e como isso ficaria na câmera, mas todas minhas apreensões ficaram em silêncio pelo medo tangível de que minha carreira afundaria se esse projeto de Colleen afundasse. Mesmo quando Colleen já estava sentada em sua mesa, e a câmera estava prestes a começar a rodar, passavam pela minha mente terríveis visões de mim fritando batatas fritas e servindo hambúrgueres no McDonald's, mesmo com vários diplomas e anos de dedicação à minha carreira.

Entretanto, essas angústia sumiu rapidamente quando a filmagem começou. Colleen, como diversos apresentadores de programas de palco, começou com um monologo - mas o dela parecia que devia ter sido feito por Vincent Price do que por Conan O'Brien.

"Sejam todos bem vindos a uma experiência televisiva como nenhuma outra", ela começou gesticulando grandiosamente como um apresentador de circo, "Todos grandes programas de televisão atravessam fronteiras, isso é um fato. Programas de palco atravessam fronteiras pessoais, dando informações sobre uma pessoa ou outra; game shows atravessam as fronteiras da emoção humana, entregando aos telespectadores entusiasmo e prazer no conforto do seu lar; e boas novelas de drama irão, inevitavelmente, atravessar as fronteiras da ficção e da realidade, fazendo seu coração desejar cada vez mais produções de ações não-existentes. Sim, senhoras e senhores, a televisão é uma arte de atravessar barreiras, mas existe uma barreira que eu, Colleen Fairweather, acredito que ainda não foi atravessada em um programa de TV. Essa barreira, meu querido telespectador, é a da vida e da morte."

Quando pausou seu discurso, a sala ficou inundada de um silencio ensurdecedor. Acho que todos nós ficamos chocados com aquele início.

"Você está assistindo", um sorriso se abriu em seu rosto, "Os Pesadelos de Fairweather". 

Esse seria o momento em que colocaríamos os créditos de abertura, mas tive que me segurar para não começar a aplaudir. Já tinha visto recitações de Shakespeare serem feitas com menos paixão nos maiores teatros de Nova York, e em pensar que ela tinha escrito aquilo sozinha? Algo inédito na época. Antes eu estava vendo um desastre, mas agora já via notas de cem dólares caindo como uma cachoeira em meu colo com aquele singelo monólogo, e fiquei orgulhoso de saber que seria um projeto em que meu nome estaria estampado. 

Não começou a ir por água baixo até que Colleen entrevistar os Baxters. 

"Temos uma convidada muito especial hoje a noite, ela está aqui com sua família," Colleen disse, começando a dar atenção aos Baxters enquanto a câmera fazia o mesmo. "Helen Baxter é uma das médiuns mais novas do mundo. Ela consegue entrar em contato com espíritos e permiti-los que façam manifestações através de seu corpo." 

A garota permaneceu em silêncio, mas sua jovem mãe falou.

"Tecnicamente," disse, "Helen é um conduto. Ela é um corredor estreito entre o nosso mundo e o deles, com uma porta trancada no final. Quando os chama, os espíritos podem vagar por esse corredor e espiar pelo buraco da fechadura." 

Colleen abriu um sorriso. Esse era exatamente o tipo de espiritualidade nonsense que os espectadores ingênuos queriam.

"Você faz isso com frequência, Helen?" Colleen perguntou.

"Não," a menininha respondeu, sua voz era fraca e trêmula do jeito que sua aparência dava a entender, "não de propósito."

"Então pode acontecer acidentalmente?"

"Unhum. Pode."

"Pode nos explicar como é, Helen?"

Helen suspirou longamente e assentiu com a cabeça. 

"Tenho que me concentrar com muita força para que fiquem longe," disse, "Eles sempre estão aqui. Sempre. Consigo ouvi-los arranhando a porta. Se não me concentro para manter a porta fechada na minha mente, eles simplesmente entram."

"Como é a sensação de tê-los lá dentro, Helen?"

Na época, achei que podia ser só paranoia minha, e que eu era o único que estava notando, mas Helen parecia bastante perturbada. Parte de mim queria cancelar aquilo e esclarecer toda aquela situação, sabendo que existem pais que fazem seus filhos passarem por todo e qualquer tipo de coisa pela fama. Mas Colleen tinha todos presos em um transe - esse era o seu espetáculo, nós só estávamos a acompanhando. 

"É como estar bem no meio de uma sala lotada. E você não consegue fazer nada, nem mesmo se quiser. Você só se sente coberta de mãos frias - te tocando, te agarrando. Você tenta gritar, mas o som nunca sai da garganta. Você só fica lá, quieta, como se alguém estivesse movendo seus braços e pernas e falando com sua voz." 

Se houve algum momento que pedia uma intervenção lógica, seria quando uma menor de idade falasse aquelas coisas em um programa de TV no horário nobre. 

"Isso é fascinante, Helen," Colleen disse, "acredito que milhões de americanos estão agora com o coração apertado por você, Helen, mesmo que não entendam completamente sua experiência." 

"E se ela mostrar como funciona?" O pai falou, seu rosto brilhando como um garoto adolescente que acabou de descobrir o Boa Noite Cinderela. 

Eu estava louco para matar aquele cara, mas ficou claro que Colleen já havia planejado aquilo tudo. Tinha sido ela que havia encontrado aqueles lunáticos, ela já estava com todas as cartas na manga desde o começo.

"É uma ideia fantástica!" Falou, segurando uma mão a outra de tanta alegria, "Você acha que conseguiria dar uma pequena demonstração para nós, Helen?"

Aquela pobre garotinha apenas assentiu tristemente. Estava prestes a ser humilhada publicamente na TV aberta.

"Exclusivamente aqui, caros amigos!" Colleen falou com uma risada. "Um contato autentico com o mundo espiritual! Nada mal para um programa piloto, não é mesmo?"

Todos riram como um bando de hienas. O encanto já estava quebrado para mim.

"Fique a vontade para quando estiver pronta, Helen. Não queremos te apressar."

Eu esperava uma apresentação clichê. Todos nós já vimos a porcaria do exorcista, e eu basicamente estava com um cartão de bingo da possessão na mão esperando que a cena se desenrolasse. Talvez ela começasse a falar em uma língua desconhecida, ou então xingaria todo mundo enquanto convulsionava. Ou então seus olhos revirariam nas órbitas, talvez até vomitaria no carpete se estivesse completamente dedicada a cena. De qualquer forma, me enjoaria. 

Mas não foi isso que aconteceu. Para começar, ela simplesmente caiu de lado na poltrona como uma boneca de pano, com os olhos fechados. Ela ficou assim tempo suficiente para eu considerar fazer um corte na gravação e chamar a ambulância, mas no momento em que eu estava me levantando da minha cadeira, seus olhinhos verdes reabriram e ela começou a se ajeitar em seu assento. 

O engraçado é que tenho absoluta certeza que, antes dela desmaiar, eram azuis e não verdes.

Por um minuto ou dois, ela ficou lá apenas respirando pesadamente.

Era uma respiração irregular e trabalhosa, como se não estivesse acostumada a fazer aquilo e estivesse tentando pegar o jeito.

E então falou. Com uma voz profunda e masculina.

"Onde estou?" Ela, ou seja lá quem estivesse através dela, falou, "Como cheguei aqui?"

Fiquei horrorizado. Aquilo tinha que ser um tipo de ventriloquismo, uma variedade bizarra de dublagem humana que eu não conhecia. Comecei a analisá-la da melhor forma possível, tentando ver se encontrava microfones ou alto-falantes grudados em sua roupa, mas quanto mais falava, mais difícil ficava de negar que a voz estava saindo de sua boca. 

"Você está em um estúdio de gravação," Colleen falou, tratando aquilo como se fosse algo completamente normal, "Você está seguro aqui. Não se preocupe. O que aconteceu com você?"

A voz que saia de Helen começou a ficar agitada.

"Eu... eu estava em uma boate," ele falou, como se estivesse tentando recordar memorias já apagadas, "estava me divertindo, mas comecei a me sentir mal. E... e eu fui lá fora para pegar ar puro, daí um cara mandou entregar a carteira. Falei que não tinha dinheiro, para me deixarem em paz, mas ele tinha uma faca. Fui gritar... tentar alertar alguém, mas ele só.. só..."

Ele parecia estar a beira das lágrimas. A expressão facial de Helen era compatível com a angustia na voz.

"Ele enfiou a faca no meu pescoço e eu cai. Deus, eu estava sangrando, havia tanto sangue. Estava sentindo minha vida saindo de mim, então senti aquelas mãos. Elas me puxavam para fora do corpo e me levavam para a escuridão fria. Eles fazem coisas terríveis lá, eu só quero voltar. Por favor, me deixe voltar!"

De repente, sem aviso, Helen deu um grito absurdamente alto antes de cair de novo na poltrona. Quando acordou, seus olhos eram azuis novamente, e sua voz estava normal. 

"Isso foi incrível, companheiros," Colleen disse, até aquela confiança característica que parecia infalível parecia um tanto abalada pelo o que havia acabado de presenciar, "uma comunicação ao vivo com o mundo espiritual. Acho que nunca vimos algo parecido com isso." 

Helen Baxter parecia que havia acabado de correr uma maratona usando sapatos de chumbo. Ela já era magra e pálida antes do incidente, mas depois ela parecia estar prestes a sucumbir. Eu estava a um fio de cabelo de cancelar tudo e levá-la para um hospital. 

"Helen, para as boas pessoas que acabaram de ligar seus televisores," Colleen falou, com faíscas brilhando em seus olhos, "Acha que pode fazer de novo?"

"Acho melhor não." Ela praticamente sussurrou.

"Prometo que só pedirei mais essa vez, querida, e depois terminaremos a entrevista. Chamarei meu próximo convidado e você poderá tirar um cochilo no camarim."

Helen olhou para seus pais, provavelmente procurando um pouco de apoio contra os apelos de Colleen. Suas esperanças foram despedaçadas quando rapidamente assentiram com a cabeça, sorrindo de orelha a orelha, aqueles desgraçados negligentes.

"Vá em frente, querida, você consegue." A mãe encorajou-a.

Finalmente, Helen se convenceu que teria que se submeter a todo aquele processo inconfortável novamente e deu outro longo suspiro. Alguns segundos depois, ela caiu em sua poltrona de novo, preparando-se para ressurgir como outro espirito. 

Demorou um pouco mais para voltar daquela vez. Estava na cara que algo de errado estava acontecendo. 

Quando acordou, e seus olhos se abriram preguiçosamente, não estavam azuis. Também não estavam verdes, nem castanhos ou cinzas. Estavam amarelo-mijo - iris, esclerótica, tudo - e a pupila tinha se transformado em uma fenda reptiliana que cortava todo o meio de seus olhos. Sua voz não parecia ser nem feminina nem masculina, era apenas um som profundo, gutural e - além do mais - cruel. 

Era um som completamente difícil de se descrever de uma forma realista.

"Como é bom estar de volta," ela chiou junto de uma risadinha macabra, "Faz tempo que aguardo por isso. Nunca achei que ela abriria a porta para mim." 

Colleen parecia estar totalmente alheia ao perigo que pairava sobre a situação.

"Qual seu nome?" Perguntou para a voz que irradiava do corpo de Helen. Não tenho certeza se ela realmente estava acreditando naquilo ou não.

"Não há razão para tentar," disse, "A boca dessa garotinha não teria capacidade de pronunciar meu nome nem se quisesse. E mesmo se pudesse, você não entenderia."

"Pode nos dizer quem você é?" Colleen perguntou.

"Você faz muitas perguntas, não é mesmo?" a voz perguntou de volta, "Isso te satisfaz, Colleen? Te faz parecer ter algum propósito?"

"Estou tentando ser educada," Colleen disse, mantendo a compostura, "pergunto se pode fazer o mesmo"

"Ah, você está perguntando de novo. Estou ficando terrivelmente entediado."

A jovem mãe falou, "Você está sendo filmado. Diga algo para a câmera."

A coisa riu.

"Merda. Caralho. Buceta." falou isso e deu risadinhas.

"Nós vamos ter que, uh, por o bip nisso tudo." Colleen disse, finalmente estava caindo a ficha dela, sobre toda a bizarrice daquela situação. "Acho que provavelmente é melhor pararmos por aqui.Muito obrigada por sua particip-"

"Mas eu acabei de chegar," a voz falou pela boca de Helen, "não quero ir embora. É muito chato o lugar da onde eu venho. A única coisa que ouço lá são gritos. Aqui consigo pensar por mim mesmo, apesar das suas perguntinhas idiotas."

Primeiro achei que era um truque de luz, mas parecia que Helen estava ficando mais alta. Pouco a pouco, a barra da sua saia se afastava cada vez mais de seus sapatos, e seus braços finos iam se afastando cada vez mais das pontas das mangas. Como já havia me levantando, comecei a andar para trás em choque, vendo aquela garotinha mudar diante dos meus olhos. 

"O que diabos está acontecendo?" Colleen perguntou aos pais, mas eles não tinham respostas.

Helen continuou a se estivar e se dobrar até que não parecia mais ser uma garotinha. Ela estava esticada e corcunda, sua pele bem grudada em seus ossos. Seus lábios estavam repuxados, revelando os dentes e a gengiva, como se algo estivesse querendo sair de sua garganta.

"Mas que porra é essa?" falei em voz alta, finalmente conseguindo dizer algo.

Colleen parecia congelada no seu lugar, enquanto uma língua impossivelmente grande pendia da boca de Helen, indo até seus tornozelos. Era preta como o breu e fedia muito, e parecia pontuda na ponta, quase como um ferrão.

"Meu Deus do céu," Colleen falou, parecendo voltar a vida, "O que diabos eu fiz?"

Ela nunca obteve respostas para aquela pergunta. A criatura enrolou a língua nela, enfiando a ponta na base da garganta e cortando sua traqueia sem nem fazer esforço. Consegui ver aquela ponta negra da língua emergindo da nuca de Colleen, enquanto o sangue caia como uma cascata em seu peito e corpo.

A língua saiu novamente por onde entrara com um som de trituração horrível, depois Colleen colapsou em sua mesa, rosto para baixo.

Naturalmente, comecei a correr para a saída, esperando que a criatura-Helen começasse a perseguir seus pais. De algum jeito, no meio da confusão, uma luz de estúdio estava frouxa em suas dobradiças no teto e desabou no set. As tábuas de madeira e as preciosas cortinas vermelhas de Colleen pegaram fogo, e antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, o palco estava sendo engolidos por chamas. Provavelmente poderia ter sido apagado se alguém tivesse corrido de volta e lidado imediatamente enquanto ainda estava nos estágios iniciais do incêndio, mas todos preferiram correr em debandada para salvar suas vidas ao enfrentar seja lá o que diabos aquela menininha se transformara. 

Conseguir sair bem a tempo, mas a vezes queria não ter conseguido.

Aquela noite foi uma noite de gritos e de chamas. 40 pessoas morreram no incêndio - mas quantas pessoas morreram de fato em consequência do incêndio ainda é uma pergunta aberta. Eles conseguiram encontrar o o corpo chamuscado de Colleen, e partes prováveis dos corpos dos pais da menina. Levou semanas para rasparem e retirarem os outros corpos carbonizados do estúdio, cenário e tudo mais, e ainda mais tempo para identificá-los e fazer com que tivessem um enterro decente.

O pior de tudo é que não encontraram qualquer corpo que fosse levemente compatível ao do monstro que começou toda aquela confusão, e Deus sabe onde ele deve estar agora. Aquela coisa assombra meus pesadelos desde então.

O estúdio emitiu uma ordem de sigilo sobre o caso logo que descobriram sobre toda a situação. Nós pagaram e também ameaçaram que perderíamos nossos empregos se não assinássemos aquelas montanhas de papeis dizendo que não poderíamos dar um pio sobre o caso. Fizeram com que a coisa toda desaparecesse, e todos os que morreram naquela noite trágica tiveram suas mortes reduzidas a um mero acidente, o resultado de um incêndio bizarro. Nada que pudesse ser previsto. 

Um monte de papo furado.

Sem justiça, sem resposta, sem qualquer encerramento satisfatório para os envolvidos que foram completamente descartados da industria. As fitas que tínhamos do caso foram destruídas pelo fogo, e o pior de tudo é que, seja lá o mal que liberamos naquele dia, ainda está solto por aí até hoje. 

Mas então, não vejo nenhum motivo para ficar irritado com isso. 

É assim que funciona o mundo dos espetáculos, crianças. 

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FONTE: DoubleDoorBastard

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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