20/07/2018

Eu atendi à uma ligação de cobrança

"Alô? Eu falo com o Sr. Handerson?"


Não havia nenhum motivo real para eu atender. O aplicativo de spam no meu celular identificou o número misterioso imediatamente. Mas foda-se. Não havia mais ninguém em minha vida para eu conversar. Até mesmo um atendente de cobranças parecia bom no momento.


Minha esposa foi assassinada em 2015. Não há uma maneira fácil de dizer isso além de que ela se foi muito cedo. Foi um assalto que deu errado. Uma noite chuvosa, algum marginal doentio se esgueirou pela nossa casa e atirou nela.

O suspeito foi preso, dois dias depois, e condenado à prisão perpétua. Ele ainda permanece lá.

Eu trabalho com web design desde então. O trabalho é remoto, e o ambiente atende ao meu estilo eremita aqui na floresta do norte de Nova Jersey. A falta de testes de drogas é realmente apenas um benefício adicional. Eu estava perfeitamente livre para foder com o resto da minha vida.


Eu não tenho mais amigos. Às vezes... acho que é fácil procurar por companheirismo em lugares errados.

"O pai ou o filho?" Respondi à mulher com um suspiro antes de me acomodar na poltrona do meu escritório com uma garrafa de vinho. Estava chovendo naquela noite. O vento açoitava o velho pinheiro no quintal tão forte que eu achei que fosse cair.



"Uhh... O pai", disse a voz bonita e calma na outra linha. Ela parecia familiar, mas eu culpava o efeito causado pela garrafa de vinho que já estava meio vazia.


"Desculpe, senhora, mas... meu pai morreu há seis anos." Eu disse, um pouco irritado com a falta de registro da parte deles.

Ela fez uma pausa.

"Oh meu Deus... essa não era a informação que tínhamos. Sinto muito, senhor. Nós não estávamos cientes. Por favor, perdoe a intrusão e a suposição. Você se importaria de aguardar uns instantes enquanto eu checo meus registros?"

Pude ouvir gavetas abrindo e fechando no fundo com uma estática. Meu palpite é que a mulher segurava o telefone no ombro. Eu ri um pouco com a falta de qualidade de áudio.

"Não, não, está tudo bem, não há problema nenhum. Não se preocupe. Por que você não começa me dizendo o seu nome?" Eu perguntei, xingando a mim mesmo pelo flerte desnecessário no final.

Ela riu. Algo sobre essa risada era muito familiar. "Meu nome é Emily, e eu trabalho com a sua companhia de cartão de crédito", disse ela em um tom ensaiado. "Infelizmente, não podemos divulgar qual empresa pelo telefone se você não estiver na conta... o que... você acabou de admitir, é claro..."

"Ok."

"Então o senhor é filho do senhor Henderson, certo?" ela murmurou enquanto folheava audivelmente os papéis.

"Sim senhora, isso mesmo. Mas ele se foi já faz anos... eu não poderia estra preso à dívida do velho, certo?" Eu perguntei esperançosamente.

"Bem, vamos verificar." pude ouvir um som de papéis e livros sendo abertos ao fundo. "Eu sinto muito, senhor", ela respondeu com um tom de pesar. "As regras estão em uma dessas pastas enormes, e são muito difíceis de encontrar. Por favor, aguarde um momento."


"Tudo bem... não sabia que ainda guardavam registros desta maneira... eu recebo uma confirmação desta cobrança por e-mail também?" Perguntei.

"Perdão?"

"E-mail... tipo... correio eletrônico. Uma confirmação da compra?" Eu perguntei novamente, permitindo minha confusão se transformar em frustração. Qual era o problema dessa moça?

"Nós não fazemos isso aqui... ainda estamos há alguns anos de distância desses recursos sofisticados", ela continuou. "Mas, como você sabe, atrasos nos pagamentos são um problema muito sério. Eles podem até afetar a pontuação de crédito de um indivíduo quando uma grande quantia não tiver sido paga."

"Ok, ok, claro", eu disse, genuinamente começando a ficar preocupado e um pouco confuso. "O que eu posso fazer?"

"Existe uma Sra. Henderson na casa?" ela perguntou baixinho.

"A Sra. Henderson morreu em '06"

"Que ano você disse? Oh meu Deus. Isso é tão horrível. Eu realmente estou me superando hoje."

Eu engasguei. Era isso. Essa frase. Eu não sei se foi assim que ela disse, ou o fato de que não muitas pessoas usam esse termo. Mas assim que ela disse... algo acordou na minha memória.

Minha esposa trabalhava para uma empresa de cartão de crédito antes de nos conhecermos. Seu nome também era Emily. A voz soava como a dela... mas era mais jovem. Mais esperançosa do que me lembrava.

"Qual o seu sobrenome?" Perguntei.

A linha ficou muda.

"Olha, eu sei que é uma pergunta estranha. Mas por favor, eu acho que nos conhecemos."

"Não posso dar essa informação..." disse ela.

"Ok. Você estudou no Jefferson Memorial?"

"Sim..." ela respondeu, surpresa. "Como você sabia disso?"

Era impossível. Emily estava morta. A voz no telefone mal soava como a dela. Era mais jovem, mais feliz, mais otimista. Esse tipo de sonho era na verdade o tipo de coisa que me manteve milhares de noites sem dormir no passado. E, no entanto, eu estava acordado. Poderia ser uma coincidência?

"O nome da sua mãe é Eva?"

Houve um silêncio do outro lado da linha. Então sua resposta confirmou minhas suspeitas.

"Quem é?"

Eu respirei fundo. ou eu entendi o que estava acontecendo, ou eu enlouqueci. Mas eu poderia ao menos aproveitar o passeio. "Esta próxima pergunta vai soar estranha. Qual a data de hoje?"

"Desculpe-me, senhor... o que...? Um momento." Ela parou e mexeu em alguns papéis.

"A data de hoje é 9 de julho de 1999."

Era impossível. Poderia ser a tempestade? O aniversário da morte dela?

"Emily, me escute."

"Ok, senhor, esta conversa está ficando um pouco estranha... vamos manter com o plano de pagamento..."

"Ouça-me com atenção... Um dia... um dia você vai conhecer um homem. Você vai amá-lo, Emily. E ele vai te amar mais do que você jamais saberá." Eu tinha que dar a ela algo para lembrar. "Em seu primeiro feriado juntos, ele lhe dará um presente para todos os doze dias de Natal."


"Parece lindo", ela respondeu com uma risada e um suspiro. "Você é um desses médiuns?"

"Eu estou falando sério. Você vai se casar com esse homem, Emily. Ele vai comprar o anel que você sempre quis. A cerimônia será em um lindo lugar em sua cidade natal. Sua família inteira estará lá, incluindo tia Zelda e sua avó, do Tennessee..."

"Eu gostei desse biscoito da sorte", disse ela, com uma ponta de sarcasmo.

"Mas dois anos depois, em 9 de julho de 2015, você será assassinada na casa onde moram."

Ela mexeu o telefone nervosamente.

"Então o que eu faço?"

Primeiro, tentei dizer a ela para evitar a casa naquele dia. Para nunca namorar comigo, ficar longe para sempre e encontrar uma vida melhor em outro lugar. Mas no meio do meu discurso a linha se desconectou ao som de um grito de gelar o sangue. Liguei de volta, mas o número não funcionava. Ela nunca respondeu de novo.

Adormeci ouvindo os trovões no céu. O grito daquela noite se repetia de vez em quando, enquanto flashes de seu corpo no chão ocasionalmente invadia minha mente. Eu nunca questionei a ligação. Eu nunca perguntei o porquê. Talvez fosse Deus; talvez fosse apenas o tempo. Mas ontem de manhã, quando acordei...


Emily estava ao meu lado.




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


19/07/2018

Asylum Series - Capítulo 3: A Bolsa de Estudos


(Capítulo anterior: O Bonewalker)

Depois de ler diversos arquivos, estou começando a ficar um pouco preocupado. Tenho a sensação de que há algum tipo de padrão aqui, mas não consigo definir especificamente qual. Estou particularmente preocupado com as alegações do último paciente, sobre ser eletrocutado e maltratado. Não fazemos terapia de choque aqui. 

Terapia eletroconvulsiva é um possível tratamento para depressão aguda, o que, de fato, ele tem... mas não fazemos isso aqui. 

Ontem à noite, enquanto lia alguns arquivos, a transcrição de uma garota se destacou. Isso claramente faz parte desse padrão que estou sentindo, mas não estou conseguindo ligar os pontos... 
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Esse som... 

- Você pode me dar um pouco disso? 

Do café. 

Por favor é só café. 

Me dá o café! 

Tudo bem, eu falo – mas é melhor que isso não seja um truque. 

Promete? 

Por onde você quer que eu comece? 

Ok... honestamente, foram as aulas. 

Sim, as aulas. Acho absurdo que alguém como eu tenha ido para a faculdade, é realmente por isso que acabei aqui. Minha família não é rica. Aposto que isso não te surpreende. Não estamos aqui ilegalmente, apenas somos novos no país. 

Eu fui a primeira da minha família a entrar em uma boa faculdade. Minha irmã mais velha foi uma inútil durante o ensino médio, enquanto eu, me matei de estudar. Eu imaginava que, depois que eu entrasse, ficaria tudo certo e eu poderia relaxar. 

E eu realmente entrei. 

Mas todo mundo naquele lugar parecia tão imaturo, tão estupido. Eles dão festas o tempo todo, mas nunca estudam, nunca fazem as tarefas, nada. Metade deles nem vai às aulas. Eu não conseguia entender. Eles têm alguma noção de quanto custa aquela faculdade? 

Eu estava tentando pegar o máximo de disciplinas possível, porque mesmo com as bolsas de estudo que eu consegui, nós tínhamos dinheiro para apenas três anos. Eu precisava me formar em três anos, esse era o plano. Mas depois de três meses de aula meus pais me ligaram. Me disseram que a vó estava doente. A família iria usar o dinheiro para pagar o tratamento. Eu disse tudo bem, ótimo, eu amo a vovó. 

Eu fiquei em negação por um tempo. Eu pensei que talvez, se eu conseguisse mais bolsas de estudo, eu conseguiria fazer isso funcionar. Empréstimos para estudante talvez..., mas só de pensar em todos aqueles juros eu me sentia aterrorizada. Meus pais sempre disseram, “Não viemos aqui simplesmente pra viver na pobreza de novo”. 

Faltando mais ou menos um mês para o fim do primeiro semestre eu recebi um e-mail sobre uma nova bolsa de estudos. Comecei a pensar que meus problemas haviam acabado – aquela belezinha era integral! Mas o último dia para entrega da dissertação de inscrição era no dia seguinte. Eu pensei: “sem problemas”. 

Eu tinha uma prova, quatro aulas e um monte de tarefas de casa, mas eu ia conseguir. Isso era importante. Então eu bebi um monte de café, fiquei acordada até tarde e cai no sono por volta das cinco da manhã. O dia seguinte foi desconfortável, cansativo e eu não fui tão bem quanto eu queria na prova, mas consegui fazer tudo. 

Recebi um e-mail em resposta a minha dissertação no mesmo dia. Eles gostaram! Eu estava tão feliz, até ler a parte que dizia que eu tinha apenas passado para a segunda fase. A fase seguinte pedia trinta páginas de uma análise profunda de uma indústria. Trinta páginas! E o prazo final era em alguns dias! Será que todo mundo já estava sabendo disso a meses? Será que os outros candidatos tiveram todo tempo do mundo para fazer esse trabalho? 

Como eu já vinha pensando nisso há algum tempo, decidi falar sobre a indústria de empréstimo estudantil. Isso provavelmente foi um erro. Depois de fazer algumas pesquisas, o que eu aprendi foi que eu estaria perdida sem essa bolsa de estudos. Cem mil dólares ou mais durante três ou quatro anos... e sem direitos, sem poder alegar falência, sem proteções... era muito pior que lidar com um agiota. 

Me enchi de café. Meu vizinho de dormitório me deu uns comprimidos, mas eu não me senti muito bem com isso, então só deixei eles na minha mochila. Consegui dormir, talvez, durante umas três horas nos dias que seguiram. Lutando para assistir todas as aulas, fazer todas as tarefas, estudar para as provas e fazer esse trabalho gigante. Eu estava ficando acabada, mas alguns dias não iam arruinar minhas notas. Essa bolsa era importante... 

Eu estava no meu limite quando finalmente entreguei a porcaria do trabalho de trinta páginas. Esgotada, exausta e fritada numa semana carregada de cafeína e nada sono. Eu dormi muito mal naquela noite, mas a insônia não era nada comparada a dor corporal. Eu acordei com um e-mail me parabenizando por estar entre os cinco candidatos restantes no país inteiro. 

Eu não entendi mais nada. Eles avaliaram todos os trabalhos de trinta paginas de um dia para o outro? Ou talvez quase ninguém conseguiu entregar a tempo? Talvez seja isso, talvez eles só tenham recebido cinco trabalhos, porque ninguém mais teve tempo para isso... e agora eles queriam uma tese em nível de pós-graduação num prazo de duas semanas. 

Eu passei o dia atordoada. Eu não conseguia se quer compreender o tamanho do trabalho necessário para conseguir essa bolsa de estudos integral... e estava chegando a época das finais. Eu quase me desfiz em lagrimas, até que me caiu a ficha: eu tenho uma amiga fazendo pós-graduação. 

Falei com a minha amiga e ela concordou em encontrar comigo e me ajudou a ter uma noção do que eu precisava fazer. Ela vinha trabalhando no dela a um ano... Ela demonstrou certo ceticismo em relação a competição pela bolsa. Mas no fim disse, “Melhor mesmo ir atrás disso – você não quer acabar como eu. Eu tenho tantos juros acumulados, eu nunca vou acabar com essas dívidas”. 

Eu lutei para manter a compostura. Então é isso, se eu não conseguir escrever uma tese em duas semanas, minha única alternativa é me afogar em dividas pelo resto da vida? Os comprimidos na minha mochila começaram a fazer sentido. 

Eles fizeram com que fosse quase fácil, na verdade. Eu ia para as aulas, estudava para as finais e trabalhava na minha tese. Eu fiz de tudo, tudo menos dormir. Em meio aos comprimidos e o café eu me sentia horrível, mas eu estava acordada e trabalhando vinte e quatro horas por dia, e só isso importava. Eu precisava daquela bolsa de estudos. Precisava! 

Eu achava que conseguiria cumprir o prazo, mas no meio do caminho (depois de uma semana) eu comecei a sentir a energia sumindo do meu corpo. Eu não dormi bem durante uma semana e meia, e não dormi mais nada durante os seis dias que seguiram... e ainda faltava mais uma semana. Eu fui até meu vizinho para pedir mais comprimidos. 

Ele estava doente, fungando, e falar com ele me enchia de repulsa. Ele estava... repugnante... cheio de catarro e baba e os olhos dele estavam inchados... Eu peguei os comprimidos e corri dali. 

Comecei a dobrar a dose. E depois, triplicar. 

Eu alcancei um estágio cinza de meia consciência e energia forçada que me manteve trabalhando em tudo por mais uma semana. Eu sabia que o que eu estava fazendo era perigoso, mas eu precisava. Tudo iria valer a pena. Eu ia ganhar aquela bolsa de estudos, eu sabia disso. 

Mas na véspera do prazo eu empaquei. 

Eu fiquei encarando aquela tese imensa que eu produzi, faltando apenas algumas páginas para acabar. Justo a parte mais crítica, a conclusão, me fugiu completamente. Eu não conseguia mais formular palavras na minha cabeça. Eu não conseguia pensar nas coisas que eu precisava digitar. Pisquei algumas vezes, tentando por minha cabeça no lugar. 

Eu estava na biblioteca com meu laptop. Olhei a minha volta, cansada e confusa. Meu dormitório, a biblioteca e as aulas começaram a parecer um borrão da minha memória, a medida que os meus dias sem dormir começaram a se fundir. Minha própria respiração fatigada roçava e ecoava na minha mente, pelo menos, com isso, eu já havia me acostumado. Mas agora, sozinha na biblioteca, no meio da noite, eu pude ouvir algo mais respirando... 

Cuidadosamente guardei minhas coisas sem fazer barulho. Não vi nada de estranho, mas eu tive esse pressentimento que eu precisava sair dali. Dei a volta pelas estantes de livros, tentando não ser vista, mas depois da quarta fileira eu escutei um barulho. 

Algo como uma batida molhada e orgânica. 

Com os olhos queimando de tanto forçar a visão, eu tentei olhar a minha volta e então eu congelei. Tinha algo na biblioteca comigo? Meus olhos não me davam pista, mas meus ouvidos sim; a medida que ele caminhava no corredor a alguns metros de mim. Olhando pelo canto eu vi uma massa gigante de carne vindo na minha direção. 

Observei, petrificada, tentando entender o que era aquilo. Ele tinha membros cobertos por uma pele esticada e flácida, era uma coisa monstruosa que pulsava... eu não sei... era como um saco brilhoso e nojento cheio de carne e órgãos pulsantes, com uma textura nauseante e cabelos em locais aleatórios. 

Meu deus, eu lembro de cada momento encarando aquela coisa. E então ele virou umas protuberâncias brancas e molhadas na minha direção – eu sabia que ele podia me ver. Ele produziu algo como um chiado gorgolejante e veio mais depressa na minha direção. 

Eu fugi. 

É, foda-se, eu sou pequena e sai correndo. O que você faria? 

Tinha outro na escadaria. Na pressa, quase esbarrei nele. Aquilo fez um barulho esquisito e agudo, e esticou um dos membros na minha direção. A pele parecia ser esticada por umas veias fibrosas, bombeando um liquido nojento por entre a massa. 

Eu fugi de novo. 

Eu tinha uma faca comigo, sabe? Eu não sou de um bairro muito amigável. Foi mais ou menos nesse momento que eu soube que precisaria usá-la. Essas criaturas horríveis estavam por toda biblioteca e eu precisava escapar a qualquer custo... precisava terminar minha tese. 

Empunhando a faca, eu corri para a porta principal, mas outra criatura estava na porta. Ele gritou quando me viu. O meio dele começou a expandir à medida que puxava fôlego, se preparando para um ataque, sem dúvida. Através das portas de vidro eu pude ver, à distância, um uniforme de segurança do campus. Minha salvação, ou pelo menos ajuda. 

Eu cortei a criatura, abrindo um buraco na carne esponjosa. Imediatamente ele derramou vários tipos de líquidos, órgãos pulsantes, vermelhos, azuis e roxos. Eu não pude conter a ânsia e acabei vomitando. Eu nunca tinha visto algo tão nojento. Eu deixei o saco partido de carne no chão e corri até as portas. Eu lembro claramente daquele momento, gritando por ajuda. Aquela figura fardada se aproximou rapidamente... 

E era um deles. 

Eu apunhalei esse também. Cortei ele e corri para o meu dormitório. 

Eu não tenho certeza do que eu estava pensando. Eu estava completamente acordada e em choque, disso eu tinha certeza. Então eu terminei minha tese e enviei. 

Eles chegaram mais ou menos uma hora depois. Eu não lembro, mas, aparentemente, eu estava sentada no quarto, apenas sorrindo. Eu sequer tentei dormir. E o resto você já sabe... 

Vocês ficam me dizendo que eu tive um episódio, que eu fritei meus “filtros”, que eu estava apenas vendo os seres humanos como realmente são, sem familiaridade ou senso de reconhecimento... e isso não melhora a situação em nada. Eu ainda vejo tecidos pulsantes, veias fibrosas, órgãos tremulantes, tudo num saco de carne, quando me olho no espelho. 

Você! 

Você, fique atrás desse espelho. Me mantenha isolada. Eu ainda estou doente? E se eu nunca melhorar? Deixe minha família longe de mim, deixe a vovó longe... eu não aguentaria vê-los assim. Meu deus... Eu estou muito cansada... 

Onde esta o café? 

Você prometeu! 

Eu consigo ouvir você bebendo ai atrás! 

ME DÊ O CAFÉ! 
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Lendo a transcrição dessa pobre garota, eu tive um flash de memória. Ela é uma admissão recente. Corri até a sala onde guardamos o que vem no correio e olhei o triturador de papel. Eu pensei ter visto algo... E estava lá. 

Alguém mandou uma carta para ela, no endereço daqui. A carta chegou antes dela. A enfermeira que cuida disso estava doente e, por acaso, eu acabei pegando a correspondência nesse dia. Na época, a carta não fez sentido pra mim, mas agora... 

- Parabéns, diziam os pedaços. Você está entre os três candidatos restantes! Para passar para a próxima fase, por favor, envie em até três semanas um artigo de quatro mil – 

O resto da carta estava rasgada de forma que se tornou indecifrável. Eu não consegui achar o envelope, qualquer nome ou informação de contato entre as pilhas de papel rasgado. Não importa, isso é suficiente. Algo está acontecendo e isso é prova suficiente para começar algum tipo de investigação. 

O diretor médico ao ler os pedaços de papel se inclinou na sua grande cadeira de couro e disse 

- Interessante... Isso realmente bate com a história que você contou... 

- Eu acho que algo maior esta acontecendo aqui. 

Ele respondeu sério. 

- E qual o problema? 

- Há mais na história a se considerar além de ela estar louca. Isso não requer uma investigação? 

- Ela ainda vê pessoas como monstros, ainda empalou um segurança e um aluno. Certo, alguém fez uma pegadinha com esse negócio de bolsa de estudos. Ainda assim, foi ela quem decidiu não dormir por semanas e provocar um dano cerebral a si mesma. 

- Por que isso não te incomoda?! Isto é algo! Na melhor das hipóteses, vamos expor algum tipo de bolsa de estudos fraudulenta e perigosa. 

- Isso não é trabalho nosso. 

Subitamente me ocorreu que ele não faria nada pra ajudar ou, sequer, iniciar uma investigação. Eu menti graciosamente. 

- É, acho que você tem razão, desculpe. 

Ele sorriu de volta. Ele gostava de estar certo. 

Quando eu estava saindo ele disse uma ultima coisa. 

- Eu vi em alguns relatórios que você está desenvolvendo um comportamento estranho também. Lendo arquivos até tarde da noite, esse tipo de coisa. Não se aproxime demais dos pacientes. Não admita que suas histórias são algo além de criações de mentes obsessivas. 

- Por quê? Tem medo que loucura seja contagiosa? 

De forma ríspida, ele apertou sua mandíbula e se manteve em silêncio. Estou convencido que algo mais está acontecendo, não apenas com esta última garota, mas com os outros pacientes também... e eu estou começando a me perguntar se nós temos alguma relação com isso... 

[Atualização: Agora estou certo de que estamos envolvidos em algo muito sombrio] 

Tradução Livre Por: Alicia 


Essa postagem compartilhada foi feita pelo site Não Entre Aqui. Cliquem aqui e visitem o site, para não ficarem de fora de nenhuma novidade.


18/07/2018

Meu filho sempre dormiu mal

Meu filho sempre dormiu mal. Várias noites por semana saía aos tropeços de seu quarto, esfregando os olhos e lutando contra as lágrimas. Eu estava sempre acordado, geralmente assistindo TV bem tarde da noite, enquanto minha esposa cochilava ao meu lado. Não é como se eu não quisesse dormir. Claro que queria. Mas eu era um policial de patrulha e também tinha insônia. Não ter sono, afinal, me serviu para alguma coisa. Mas aqueles anos não estavam nem perto dos melhores da minha vida.

"Você está bem, papai?"

“Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

Eu entrava no quarto dele e fazia uma verificação profunda em seu armário, debaixo da cama e na janela. Era a janela que tinha o assustado. "Tem um cara mau lá fora", sempre dizia. "Eu vou ajudar você a pegá-lo."

Noah queria sempre pegar os caras malvados. Era de se esperar; Eu já era policial desde antes de ele nascer. Me dizia o tempo todo que quando crescer também iria pegar bandidos.

Eu parei de verificar seu quarto por volta do seu quarto aniversário. Ele ainda saía, com os lábios trêmulos, e fazia a mesma pergunta: "Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte a dormir." 

Noah piscou os olhos, sonolento. Um dos olhos estava sempre apertado; nunca conseguia abri-lo até que estivesse acordado por uns bons dez minutos. Então ele olhou para mim, um dos olhos fechado como um pequeno pirata, assentiu e voltou para a cama.

Era o mesmo roteiro, noite após noite. Talvez eu tenha lidado com isso de forma errada. Sempre me perguntei se seria melhor ignorá-lo, ou até ficar com raiva. Mas além desse ritual frequente tarde da noite, ele dormia sozinho. Na maioria das vezes, ele nem lembrava de ter acordado.

Essas noites se fundem calorosamente umas com as outras. Era egoísta da minha parte, mas eu ansiava por esses momentos. Eu trabalhava no terceiro turno com uma dispersão justa de horas extras da madrugada. Devido ao sono e ao trabalho, raramente via Noah. Isso é o que fez nosso ritual noturno ser tão precioso. Era o único momentos que realmente tínhamos só para nós.

Minha esposa estava sempre dormindo quand Noah aparecia. Entre sua doença, cuidar de Noah e o estresse geral, ela não tinha muita energia. Então, na maioria das noites, eu ficava acordado até altas horas, assistindo TV em uma tentativa inútil de suprimir a escuridão que estava me comendo vivo.

Noah afastava um pouco dessa escuridão. Não muito, mas o suficiente para que eu não me jogasse no abismo. 

Seguiu-se assim por mais dois anos, noite após noite. Na última vez que teve um pesadelo, o ritual finalmente mudou. 

Noah saiu aos tropeços do quarto, esfregando os olhos. Estava meio choroso, e seu rosto levemente inchado. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem." Essas palavras - quase um cântico - o acalmava visivelmente. 

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

Ao meu lado, minha esposa se remexeu. 

"Eu quero pegar os caras malvados." 

"Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

Ele soltou um último suspiro. "Eu te amo."

"Eu também te amo. Agora vá para a cama e volte a dormir."

Eu nunca mais o vi.

Bem cedo na manhã seguinte, minha esposa levou Noah para passear. Ele adorava andar de carro. Era o que mais gostava. A viagem estava quase no fim. Eles estavam a três quarteirões de casa. Ela esperou até que a luz do semáforo - a dois quarteirões de distância - ficasse vermelha. Aguardar o fluxo de tráfego reduzir é a única maneira segura de atravessar o cruzamento. E foi o que ela fez. É o que ela sempre fez.

Mas, dessa vez, no momento errado, alguém passou pela luz vermelha a cem quilômetros por hora, acertando o lado do passageiro e matando Noah. Basicamente o pulverizou. Não conseguimos nem sequer ter um funeral de caixão aberto.

Minha esposa nunca se recuperou. Eu não a tratei bem depois disso. Ela teve muitas dores crônicas por causa dos ferimentos e, além de seus problemas de saúde, não conseguia funcionar sem medicação. Eu nunca ousei culpá-la abertamente pela morte de Noah, mas eu a ridicularizava por causa de seus analgésicos. Chamava-a de peso morto. Uma drogada.

Nós nos divorciamos e nunca mais nos falamos. Morreu alguns anos atrás, por causa de complicações de sua doença. Eu sinto saudades dela todos os dias. E eu nunca falei isso para ela, e nunca poderei falar. 

Tento dizer para mim mesmo que ela não se importaria, mas sei que é mentira.

Depois do divórcio, recebi algumas promoções no trabalho por um tempo. Mas eu parei em detetive sênior. O departamento me designou para a unidade de crimes sexuais e me manteve lá por dez anos.

Achei que a patrulha acabasse comigo, mas isso era outro tipo de monstro. Fiz muitos inimigos, alguns de alto calão. Até mesmo revelei merdas de alguns dos meus colegas oficiais, inclusive meu melhor amigo. Me tornei um alcoólatra funcional e me afastei de todos. Amizades e relacionamentos não valiam a pena. Como poderiam valer, quando não havia como saber quem era bom e quem era um monstro?

No final das contas, eu queria morrer. Todas as noites, pegava minha arma e colocava na mesa de centro. Depois, rezava para ficar bêbado o suficiente para tirar minha própria vida.

Cheguei perto algumas vezes. Mas sempre que isso acontecia, acordava da neblina e por apenas um instante, voltava a ter 31 anos, com minha esposa cochilando ao meu lado e meu filho andando pelo corredor perguntando se eu estava bem.

É por esses momentos que vivo.

Semana passada, eu estava tentando chegar nesse ponto. Sentado na sala de estar vazia como sempre, dividindo meu foco entre a TV e a arma, enquanto bebia até ficar entorpecido.

Algum lugar na casa, uma porta rangiu. Não prestei atenção. A casa já era velha quando eu a comprara. Era bem desconfortável e eu não ligava muito para os reparos que precisavam ser feios. Rangia e fazia barulhos com frequência. 

Mas então algo se arrastou pelo corredor. Me virei quando uma voz baixinha e familiar perguntou: 

"Você está bem, papai?" 

E lá estava: Noah, quatro anos de idade de pijama vermelho, um olho fechado e esfregando o rosto enquanto o lábio inferior tremia. 

Por um minuto delirante, eu quase acreditei que os últimos vinte anos não passavam de um pesadelo. "Sim, amigão. Estou bem." 

"Vi algo assustador."

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Ele assentiu e voltou tropegamente para o quarto. 

Depois de alguns minutos, me levantei e fui até seu quarto. Vazio. Limpo, como estivera nas últimas duas décadas. 

Deslizei até o chão. Articulações ruins, músculos doídos, e enjoo pelo álcool trouxe à mim o fato de que tinha mais de cinquenta anos e era totalmente solitário. Nenhum sonho ruim. Apenas uma vida ruim. 

Chorei até dormir.

Noah veio até mim várias noites depois disso. Saindo do quarto vazio, olho apertado e choramingando. O mesmo script. As mesmas palavras. 

"Você está bem, papai?"

"Sim, amigão. Estou bem."  

"Vi algo assustador." 

"Foi só um pesadelo, querido. Volte para a cama e durma." 

Aprendi rapidamente a não ir checar seu quarto depois disso.

Não era muito, sei disso. Mas para ser honesto, era tanto quanto o que eu tinha quando ele estava vivo. Se eu pudesse ter esse ritual - só esse ritual - para o resto da vida, já ficaria feliz. 

Mas ontem, ele veio chorando. "Papai, você está bem de verdade?"

"Sim, amigão. Estou bem."

"Eu vi um cara malvado na janela."

"Foi só um pesadelo, querido."

"Papai, eu quero pegar os caras malvados." 

Minha boca ficou seca. Um desespero profundo tomou conta do meu peito. Então esse era o fim. Nem uma semana, e já era o fim. "Você vai, quando crescer. Até lá, eu estou aqui."

"Não! Quero agora!"

Uma série de batidas abafadas vieram do antigo quarto de Noah. 

Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram. "Vem cá, Noah." 

Noah sacudiu a cabeça, inconsolável. "Não."

Mais batidas e um xingamento abafado. 

Minha arma brilhava na mesinha de café, sinistra e convidativa. Peguei-a e fui lentamente em direção do corredor. 

Passos pesados vinham lá de dentro. A maçaneta se mexeu e a dor rangiu enquanto abria. 

A ponta de uma espingarda apareceu primeiro, seguido do invasor. Congelou quando me viu. Seus olhos brilhavam estranhamente, me lembrando de porcelana envernizada. 

Eu atirei. 

A parte de trás do crânio dele explodiu, cobrindo a parece em sangue e miolos. 

Me virei para Noah, preparado para abraçá-lo e confortá-lo. Mas ele não precisava de conforto, estava radiante. As lágrimas haviam secado e ele sorria. Ele nunca havia sorrido durante nosso ritual. 

Aquilo dizia tudo que eu precisava saber. Meu coração se partiu novamente. 

"Eu peguei o cara malvado!" Ele tropeçou sonolentamente para seu quarto. 

"Sim, você pegou," eu disse. 

Ele parou na porta do quarto, e deixou escapar um suspiro contente, sem parecer perceber o cadáver que estava em seus pés. "Eu te amo, papai." 

"Eu também te amo." Minha garganta parecia inchada, engasgando nas palavras. Noah esperou pacientemente. Foi difícil me manter no controle. Tínhamos uma rotina. Um ritual. Eu estava devendo um término para ele. "Vá para a cama," sussurrei, "e volte a dormir." 

Ele entrou no quarto. 

Depois de um segundo agonizante, corri atrás dele. Claro, estava tão vazio quanto sempre estivera. O vazio me destruiu de uma maneira que nunca tinha feito antes. Me arrastei até o canto onde costumava ficar sua cama e chorei.

Liguei para a polícia algumas horas depois. Pedi desculpas pela demora, disse que tinha tido um ataque de pânico e desmaiado. Ninguém se importava. Fui colocado em uma investigação interna, mas isso é só por fazer, mesmo. 

Meu quase-assassino era um cara que eu tinha colocado na prisão anos atrás. Estuprador de crianças, escória da terra. Nem sequer me lembrava dele. Eu nem quero.

Sei que não verei Noah novamente. Meu filho dormiu mal por vinte e quatro anos, por minha causa. Mas agora ele pegou o cara malvado e salvou seu pai, então tenho certeza que vai descansar agora.

E onde quer que esteja, espero que esteja dormindo bem.




FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


17/07/2018

Olho Mágico

Primeiramente: John Valley, tenho 27 anos e se teve a oportunidade de ler esta carta significa que estou morto. Vamos do início, não quero me prolongar desnecessariamente. Com a recente conclusão da minha faculdade de psicologia, pude arrecadar uma quantia específica com o dinheiro obtido com o estágio e realizar o meu sonho de comprar uma casa própria numa vizinhança pacata e recomendada por um amigo próximo. Não sei se é correto chama-lo de amigo numa hora dessas, mas quero muito acreditar que ele foi ignorante sobre a história da casa. Quem vivia nela, sendo mais exato.

Na primeira olhada entrei com o corretor de imóveis para avaliar as condições e não pude deixar de notar a porta de um armário entre a sala e o corredor que levava aos quartos. Nela estava grudado um papel meio amarelado com os dizeres: "Não perturbe!"

Liguei para o meu amigo, nesse mesmo dia, procurando saber mais informações, e ele simplesmente respondeu que a casa lhe foi ofertada por alguém que não quis se identificar e que se recusasse não teria problema, ele poderia indicar um parente ou amigo pois o preço era o menos salgado dentre todas as outras casas que estavam desocupadas e que não importando quem fosse esta pessoa não se arrependeria do negócio.

Quanto mais perguntas eu fazia, ele ia se evadindo, como se não quisesse revelar mais nada e me passou pela cabeça ele ter até sido ameaçado de morte ao contrário do que me disse. Que tipo de cara faz uma oferta e se nega a dizer quem é?

Por isso, acredito com todas as minhas forças, que ele, à essa altura, está morto!

Não consegui saber, infelizmente, quem foram os moradores antigos. Mas a porta do armário me tirou o sono mais do que qualquer coisa que normalmente me preocuparia - como uma prova ou uma entrevista de emprego.

Escondido do corretor, arranquei o papel e o amassei. Mais do que o papel e o aviso... o que verdadeiramente me chamou mais atenção foi o olho mágico. Quem diabos coloca um olho mágico na porta de um armário? De um armário... Sério isso? O único da casa. Apenas no armário. Não faz sentido, à primeira vista.

Dei duas batidinhas na portas com dois dedos e não tive resposta.

Foi a primeira teoria: Alguém mantido em cárcere privado.

Mas não explicava o aviso. A menos que o morador anterior tenha se trancado por qualquer razão maluca, o que explicaria ele ser desconhecido. Aparentemente, o meu corretor não foi o mesmo do dele.

A vizinhança, em sua maioria, é composta por pessoas que se mudaram muito recentemente.

Felizmente (ou não) descobri a resposta para o mistério que ocupou minha mente por duas semanas. Um prazo que soou para o corretor para um morador tão ávido em adquirir seu tão sonhado lar particular.

Não me resta muito tempo, então serei o mais direto possível.

Consegui uma "cópia" da chave do armário, que, por sorte, funcionou e me possibilitou entrar nele. O interior é basicamente do mesmo tamanho que um porão ou sótão.

Sem lamparinas, mas terrivelmente encoberto de poeira em cada polegada. Usei a lanterna do meu celular e explorei até onde deu. na verdade, até onde eu pude contar com a sorte.

Ouvi passos atrás de mim e por reflexo me virei de frente à porta aberta e vi rapidamente um vulto correndo para fora. As dobradiças tinham chegado ao limite e ele ainda parecia estar lá, mas não sei porque fui tão idiota em ficar parado esperando algo me surpreender. mas tomei iniciativa tarde demais quando ele fechou a porta com uma velocidade incrível. Quase bati meu rosto. Gritei para que ele destrancasse e ameacei chamar a polícia.

Ele tinha grudado um papel do verso da porta - para o lado de dentro. Nele diz: "Sua vez de espiar agora".

Não sei como ele (ou ela?) escreveu com tanta rapidez, em segundos praticamente. O papel certamente já estava ali desde o início, pois está tão gasto e amarelado quanto o da frente.

Depois recebi um torpedo no celular de alguém anônimo, dizendo ser o ofertante da casa e me dando algumas instruções.

A última delas foi destruir o celular, pegar uma faca e cortar a carne de um rato infectado com alguma substância tóxica que ele injetou - tem pelo menos três seringas vazias aqui - e beber de pouca quantidade de sangue dele prometendo que a coisa fortaleceria minha boa memória... e que a obediência faria a vida do meu amigo ser poupada.

Não sei quem é esse cara, mas acho que sei qual é a jogada. Deve ser um plano para colher informações sobre novos moradores da casa. Alguém sempre tem que ficar espiando. Mas por que?

Meu tempo está quase se esgotando...

O processo vai se completar dentro de poucos minutos...

Vou dobrar esta carta e fazê-la passar pela brecha inferior da porta, depois usar a faca para cortar minha garganta. Quem sabe o próximo interessado na casa a encontre ou algum invasor.

Não... Sinto outras coisas... outras presenças. Aqui dentro e no resto da casa.

Pensando bem, talvez ainda dê tempo de dar uma espiadinha.

Autor: Lucas Rodrigo

16/07/2018

Tentei trocar de corpo com minha irmã

Se isso fosse um filme da Disney, eu seria a irmã "malvada". 

Mas será que posso ser culpada por isso? Minha irmã, Eva, teve uma vida bem diferente da minha. Alta, bronzeada, voluptuosa, com uma voz linda e uma personalidade calma. Eu? Sou baixinha e pálida, com um hábito de comer chocolate demais e minha voz parece a de um sapo prestes a morrer. 

As vezes, quando falo sobre isso com ela, minha irmã só ri (pense naquela risadinha clássica feminina, delicada) e fala "Ah, Cora, não seja invejosa! Devíamos nos amar como irmãs, não brigar por coisas idiotas." 

Mas fico pensando se ela falaria isso se não tivesse tirado a sorte grande.

Ontem a noite foi a gota d'água. Fomos para uma festa em uma das irmandades. Acenei para um dos meus colegas, Robby, da aula de física. Mas assim que o fiz, e seus olhos caíram em Eva, estava tudo acabado. Não importava quantas piadas eu fazia, quantas vezes eu tocasse seu braço - ele nem se quer me olhou uma segunda vez. 

Nessa mesma noite, antes de Eva ir dormir, eu saí de fininho de nosso apartamento. Tinha ouvido alguns boatos - boatos bem loucos. Que uma bruxa de verdade morava em uma das casas abandonadas no final da rua. Era algo que nenhuma mulher adulta devia acreditar, obviamente.

Mas eu estava desesperada. 

Quando cheguei na casa, meu coração despencou. As tábuas de madeira estavam apodrecidas e quebradas; as janelas quebradas em pedaços grandes e pontudos de vidro que pareciam presas de animal carnívoro. Entretanto, eu podia perceber que havia uma diminuta fonte de luz vindo lá de dentro - um brilho fraco e amarelado. 

Levantei a mão para bater na porta. 

Mas antes que meu punho se encontrasse com a madeira, uma voz me chamou lá de dentro: "Pode entrar!"

Nhééééc, rangiu a porta. Dei um passo para dentro, minhas pernas bambas. "Olá?" A luz parecia estar vindo de um quarto mais no fundo da casa, então fui em sua direção.

"Bem vinda." 

Uma mulher estava sentada no chão, no meio de um pentagrama, usando um manto com capuz. Ela parecia ser apenas alguns anos mais velha do que eu, seu cabelo loiro claro aparecendo pelas bordas do capuz. 

"Hm... você é a... bruxa?" Perguntei, meio constrangedoramente.

Ela sorriu largamente. "B-R-U-X-A não é um termo que usamos por aqui. Preferimos Mulheres da Arte da Magia." 

"Desculpa! Hm, então-" 

"O que procuras?" me interrompeu. 

"Quero trocar de corpo com minha irmã."

"Um feitiço fácil. Posso fazer por você - mas a pergunta é, poderás pagar o preço?"

"Que preço?"

Ela fez uma pausa, olhando de baixo para cima para mim, com seus olhos azuis acinzentados. "Seu filho primogênito." 

"Eu, hm - eu não sei -" gaguejei. 

Ela deu uma gargalhada. "Estou brincando com você. O pagamento é em dinheiro - mil dólares. Dinheiro ou cartão?" 

"Hm, cartão," Falei, suspirando em alívio. Procurei por minha carteira e alcancei o cartão. "Crédito." 

Ela puxou um celular de um bolso de dentro de seu manto, e depois de passá-lo, bateu no chão e disse. "Venha, sente-se comigo." 

Me abaixei lentamente para sentar no pentagrama. "Depois que estiver feito - ela saberá que isso aconteceu?" 

A bruxa sacudiu a cabeça. "Não. Farei também um feitiço de reformação de memória, assim ela pegará suas memórias e achará que sempre foi você." 

Sorri. "Melhor ainda."

Ela pegou minhas mãos. "Senhora da Escuridão, eu lhe suplico, troque esta mulher e-"

Nhéééééééc

O chão rangiu em um quarto distante. Eu me levantei rapidamente, olhando para as sombras. 

Tump, tump, tump.

Das sombras, a silhueta começou a se formar. Uma mulher - velha e enrugada, com pentagramas gravados em cortes em sua pele esbranquiçada, cicatrizes grossas. Me encarou com seus olhos vermelhos profundos, e senti meu sangue correndo frio nas veias. 

"Você precisa de ajuda, querida?" Perguntou. 

"Não, vó. Eu consigo. Ela só quer trocar de corpo e uma reformulação de memória." 

Mas a mulher deu alguns passos para frente. Se ajoelhou no chão ao meu lado, se aproximou o meu rosto até que eu pudesse sentir um cheiro extramente cítrico emanado de seus cabelos. "Troca de corpo, de novo? Não funcionou da última vez?" 

Olhei para ela, com as sobrancelhas franzidas. "Quê?" 

"Bem, você esteve aqui algumas semanas atrás. Fizemos os exatos mesmos feitiços." 

Encarei-a, começando a entender a situação. "Eu... estive?" 

"Ah, esteve sim." Um sorriso bizarro irradiou em seu rosto, os olhos quase fechados. 

"Você esteve aqui, querendo trocar de corpo com sua bela irmã - e fez questão de que ela jamais se lembrasse disso." 




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