23/05/2018

"Vocês sabiam que uma pessoa normal carrega cerca de 5 litros e meio de sangue?"

Ele falou mais alto. "Vocês sabiam que uma pessoa normal carrega cerca de 5 litros e meio de sangue?" Uma garota em nossa mesa olhou-o com nojo, depois desviou o olhar.

Robert era um garoto bem estranho. Nenhum de nós eramos amigos dele, e não prestávamos atenção nele, então foi uma surpresa ver o seu eu seboso sentado em nossa mesa. Sua franja não lavada cobria a testa, mas uma camada grossa de acne ainda ela visível. Seus pequenos óculos meia-lua faziam seus olhos parecerem estar prestes a pular de seu crânio.

"Pode sentar em outro lugar?" Um dos meninos falou, e outro deu uma risadinha da grosseria. Robert fedia a merda. Era pior ainda por estar sentado bem na minha frente. Se levantou e deu uma risada, como se fosse um de nós. Ele não era um de nós.

Achamos que esse era o fim do problema Robert, e ninguém voltou a pensar em sua existência, até que se sentou de novo conosco no dia seguinte. "Vocês sabiam que demora entre um à três minutos para alguém morrer por uma facada?" Então apontou para uma menina no outro lado da mesa. "Você morreria mais rápido." Riu constrangedoramente e todo mundo ficou se entreolhando, confusos. "Vá se foder," um dos caras disse. "Você é tão estranho, vaza daqui." Robert só o encarou, então começou a falar de novo. "Tá com medo?" se levantou, e saiu. 

Contei para um dos guardinhas sobre o que Robert continuava a falar, e falaram que ele não faria mais almoço ali. Mas, surpresa, surpresa! Robert voltou no dia seguinte. "Você sabi-" e foi derrubado de seu banco por um dos meninos. Seu corpo arredondado caiu no chão e seus óculos quebraram com o impacto. Ninguém se levantou para ajudar Robert, nem as pessoas sentadas na outra mesa. Todos sabiam que ele era totalmente bizarro.

Robert se levantou novamente, seu nariz sangrando que nem uma torneira aberta. "Voooocê nããão pooode meee machucaaaar!" Falou engasgadamente. O cara meteu outro soco nele, empurrando para longe do banco. Ele cambaleou para trás e caiu em outra mesa. Se levantou, as roupas sujas de comida, e saiu rapidamente do refeitório. 

Não me senti mal por ele nem por um segundo, e todo mundo acho que ele voltaria comprando briga. Trocamos de mesa, indo para o fundo do refeitório, e esperamos. Robert entrou, e imediatamente começou a andar em direção da nossa nova mesa. Puta que pariu. Foi um plano idiota, mas achamos que talvez fosse funcionar. 

"Vocês sabiam que a atividade cerebral continua funcionando até dez minutos depois da morte?" disse, e então apontou novamente para uma das meninas. "Eu sorriria para você durante esses dez minutos". Um dos caras se levantou e disse, "Você sabia que eu vou te matar na porrada se você falar mais uma merda dessas?" Robert deu um passo para trás e riu. "Eu vou te matar, seu merda!" ele gritou, e o cara pulou por cima da mesa. A cara de Robert estava contra o chão dez segundos depois. 

Todos nós esperamos e rezamos para que esse fosse o fim de Robert, e felizmente foi. Uma semana depois disso, uma menina de 14 anos chamada Samantha foi retirada do rio. Todas evidências diziam que Robert era o assassino. 

A vida seguiu sem aquele ser humano bizarro indo em nossa mesa. Mas no final do dia, tínhamos que dar crédito a quem merece. 

Realmemente demorou entre um à três minutos para Samantha morrer quando nós a matamos. 



22/05/2018

O Nome Daquele Filme dos Anos 90?

Por volta de 2008, participei de uma discussão no HT Forum com o nome "Clube dos anos 80" onde algumas pessoas relembravam coisas do anos 80 e as vezes também os 90. 

Estávamos lembrando da Rede Manchete e todos os programas que passavam nela. As minisséries, telenovelas e claro, também os animes. Foi divertido ver os usuários relembrarem de como era divertido viver naquela época, estavamos em nostalgia total até um usuário perguntar sobre um filme que passava por volta de 1992, no Cinema em Casa, uma sessão de filmes exibida pelo SBT.

Quem viveu na época, lembra de muitos filmes impróprios ao horário, o que deixava tudo mais divertido na hora de assistir as escondidas. O usuário JackManson555 parecia desesperado para achar esse filme. Abaixo mostra uma parte da discussão que ocorreu naquele dia. Deixando claro que Wolf_1980 sou eu. 

JackManson555: Pessoal, alguém aqui assistia o Cinema em casa entre 1992 e 1994?


Lanacat01: Up 


Robertowtf49: Eu assistia bastante. Por que? 


JackManson555: Lembram de um filme que passava nesse tempo? Era sobre um garoto que sonhava em ser detetive por causa dos programas que ele assistia e então acaba tentando desvendar um mistério sobre uma casa assombrada que tem na vizinhança...Algo do tipo. 


Robertowtf49: Hm...Eu lembro de um parecido. O garoto tinha um cachorro? 


Wolf_1980: Isso não me parece estranho. Passava muitos filmes na época, talvez eu tenha me deparado com esse. 


Lanacat01: Filmes com garotos e cachorros era muito comum, tem um monte desses. 


JackManson555: Sim! Tinha um cachorro que acompanhava ele, o cachorro estava sempre com fome. 


Lanacat01: O cachorro se chamava Buck? 


Wolf_1980: Calma...Acho que também lembro disso...


JackManson555: CARACA! BUCK! Sim, era esse nome. O garoto dizia algo como "Buck, não é o momento para comer, temos que trabalhar!" 


Robertowtf49: Eu lembro das cenas do filme, mas o nome...


Wolf_1980: Lembrei! Não é aquele que o garoto sofre bully e diz que vai mostrar a todos que é um ótimo detetive?


JackManson555: Quando eu li o "Lembrei" Pensei que tinha lembrado o nome do filme Haha. Mas, sim, era esse mesmo. 


Robertowtf49: Sim, mas tem uma coisa estranha. 


Lanacat01: O que? 


Wolf_1980: Qual o problema? 


Robertowtf49: Eu não lembro o final do filme, acho que nem cheguei a ver o final. 


Lanacat01: O estranho é que lembro de ter visto esse filme, mas o final também não me vem a mente. 


JackManson555: Exatamente por isso quero acha-lo. Eu queria saber como acaba, além de recordar minha infância. 


Wolf_1980: Eu não tenho muitas lembranças desse filme, mas sei que tem uma parte onde o garoto está na casa e acontece um sons estranhos. 


Lanacat01: Essa parte me dava medo, e depois a parte onde o cachorro vem correndo com uma mão na boca, coberta de sangue, e o garoto fala "Buck, não coma isso" 


Robertowtf49: Sim kkkkk O filme era totalmente infantil até a metade, quando ele entra na casa. 


JackManson555: Alguém lembra da parte em que ele ver um assassinato? Do cara matando uma mulher. 


Lanacat01: Não me chamem de louca, eu juro que o cara tava estuprando a mulher...


Robertowtf49: Ele estava mesmo, eu lembro! 


Wolf_1980: Estupro? Eu lembro de uma mulher morta e sem roupas mesmo em alguma parte do filme. 


JackManson555: Eu recordo tudo isso, a cena do estupro também, vou lembrando até a parte onde o garoto entrava em um quarto e uma música estranha e distorcida tocava. Ele entra e a porta se fecha de uma vez e então...Não lembro mais.


Robertowtf49: Que estranho....Eu só me lembro até ai também, depois não faço ideia do que ocorreu. 


Lanacat01: Tenho algo para contar. 


Wolf_1980: Pode dizer 


Lanacat01: Eu lembro que devia ter uns 10 anos nessa época, e sobre a cena do garoto entrando no quarto e o som estranho...Depois dessa cena, foi para os comerciais. 


Robertowtf49: E depois? 


Lanacat01: Depois só lembro de ter acordado na minha cama, minha mãe me falou que eu tinha dormindo na frente da Tv. 


JackManson555: Sério mesmo, isso é muito estranho. 


Robertowtf49: Outra coisa que me deixa abismado é sobre os atores, não era nenhum ator que eu conheço. 


Lanacat01: Agora que você comentou...Acho que se eu tivesse visto um dos atores em outro filme por ai, eu teria recordado. 


Wolf_1980: Talvez seja um desses filmes de baixo orçamento, o filme parecia ter sido feito nos anos 70. 


Robertowtf49: Verdade, o filme não tinha uma imagem muito boa. 


Marcusm8485: Pessoal, me intrometendo na conversa, eu acho que o filme que estão procurando é The chosen child.


Robertowtf49: Tem certeza? Estou pesquisando aqui e não encontro nada a respeito disso. 


Lanacat01: Pra mim também não aparece nada. 


Marcusm8485: Sim, eu recordo que aparecia esse titulo quando o filme começava "The chosen child" Apenas isso, o estranho é que não falaram o titulo em português como de costume. 


Wolf_1980: O que diabos significa isso, exatamente? 


JackManson555: Algo como "A criança escolhida" ou algo do tipo. 


Robertowtf49: Criança escolhida? Nossa...Escolhida pra quê exatamente? 


Lanacat01: Marcusm8485 você viu o final desse filme? 


Marcusm8485: Não, estou na mesma que vocês. 


Wolf_1980: Acho algumas coisas com esse titulo mas não esse filme, estou começando a desistir. 


Marcusm8485: Talvez seja algo que fique só nas nossas memórias. 


JackManson555: Espera! Achei algo a respeito. 


Robertowtf49: O que?


Lanacat01: Estou curiosa sobre isso tudo...


JackManson555: Um site com um vídeo onde diz "The chosen child, Filme de horror banido" 


Marcusm8485: Uau...


Lanacat01: Por essa eu não esperava 


JackManson555: É a única coisa que diz, não fala muito a respeito. 


Robertowtf: Como poderam passar isso na tv pra todo mundo assistir? 


JackManson555: Vou ver o vídeo. 


Wolf_1980: Qual o nome do site? Quero ver também. 


Marcusm8485: Sim! diz ae. 


Lanacat01: Ele já devia ter respondido. 


Robertowtf49: Talvez tenha achado o fillme e esteja assistindo. 


Wolf_1980: O melhor é esperarmos ele responder. 


Infelizmente, o usuário JackManson555 não respondeu mais e depois de vários dias, o assunto foi deixado de lado. Continuo procurando esse filme. Tenho certeza que outras pessoas dessa época também assistiram. Espero que alguém entre em contato comigo sobre o assunto.

Autor: Tai


O Corvo

Todos os dias eu ia e vinha a pé do meu serviço, não fazia muita diferença mesmo, o mercado ficava poucas quadras da minha casa. Minha cidade não era das maiores, não tinha muito além do centro da cidade onde eu vivia, então geralmente as pessoas iam para as outras cidades quando procuravam diversão. Mas ainda sim havia uma coisa bem interessante lá, uma praça, cheia de árvores e bancos, e até os mendigos que viviam por lá eram bacanas, usavam ternos velhos e viviam alimentando os pássaros, eu sempre passava por dentro da praça, mesmo sendo o caminho mais longo, valia a pena por causa da vista deslumbrante que eu tinha.

Um certo dia não muito diferente dos outros, eu estava cruzando a praça como de costume e olhando para os galhos das árvores, admirando os raios de Sol de fim de tarde que atravessavam as folhas, quando eu avisto um corvo.

Nunca tinha visto um corvo antes, apenas na televisão, mas sei que eles não são comuns nesta região, na verdade eu não deveria ver se quer um corvo nessa parte do país. De cara fiquei espantado, mas sua beleza era tanta que apenas me deixei levar e me sentei um pouco para admirá-lo, “deve ter fugido de alguma casa” pensei, já que haviam casas de família bem antigas e um tanto ricas por perto.

Lembrei então que precisava fazer a janta que havia prometido, levantei então e fui correndo para casa, eu morava com meu irmão mais novo. Ele trabalhava na área de marketing e vendas de uma empresa, então as vezes passava alguns dias fora, e como ele ia chegar depois de quatro dias fora, decidi fazer algo para nós comermos enquanto ele me contava de sua viajem.

Depois daquela noite inteira de conversa com meu irmão, eu havia me esquecido completamente do meu encontro com o corvo na praça da cidade. De madrugada, acordei com algumas batidas na janela, mas peguei logo no sono, sem dar muita atenção. De manhã fui acordado pelo meu pontual despertador como já estava acostumado, quando abri minha cortina, encontrei uma pequena pedra do lado de fora da janela, de primeira, me perguntei quem a teria colocado ali, mas como não havia acordado direito, apenas a deixei onde estava e fui me arrumar.

Depois de mais um longo dia de trabalho eu mais uma vez atravesso minha adorada praça em direção a minha casa, e mais uma vez ele estava lá, me encarando, o corvo. Seus olhos negros pareciam me hipnotizar... de repente eu ouço um barulho estranho ao longe, mas era apenas um mendigo jogando alguns farelos para os pássaros, quando volto meus olhos para o galho a minha frente, ele havia sumido.

Na mesma noite, eu sou acordado por estranhas batidas, como se alguém estisse batendo em alguma coisa de vidro. Mas como o sono era muito, volto a

dormir. No outro dia, fico surpreso ao encontrar mais uma pedrinha na borda da minha janela, mas resolvo deixar para lá.

Quando estava indo para o serviço, me surpreendo ao ver o corvo parado no galho de um carvalho, em uma parte bem escura da copa, acabei parando para admirar seus olhos através das sombras do velho carvalho da praça.

De repente, sou surpreendido por um homem que coloca uma faca na minha barriga e pede minha mochila. Eu senti um arrepio enorme, e com um pouco de medo do assaltante tanto por eu ser mais baixo quanto por ele ser um tanto alto, acabei deixando ele levar, e por poucos segundos, vejo um pedaço do rosto dele ao me virar para entregar a mochila.

Quando volto minha atenção para o a árvore, o corvo já não estava mais lá...

Tive que ir direto a delegacia registrar uma ocorrência para poder pedir ao meu gerente mais um uniforme, o que ele não gostou muito, mas acabou me dando por obrigação.

E tudo continuou na minha nova rotina, ver o corvo na praça, acordar de madrugaga e ver a pedra na janela de manhã... estava começando a me acostumar com aquilo tudo, por mais estranho que parecesse, eu gostava dos meus encontros com o corvo, se é que se pode chamar aquilo de encontro. Eu o observava até algo me tirar a atenção e ele sumir.

De noite eu tive um sonho estranho com o corvo, ele me olhava friamente em cima da minha coberta enquanto uma batida forte de alguma coisa contra vidro ecoava pelo quarto. Acordo assustado no outro dia e vou tomar café com meu irmão que reclama do meu mau hálito,

Antes de sair para mais um dia de trabalho, recolhi o jornal da cidade que meu irmão assina, estava na porta como de costume, e por algum motivo, resolvo dar uma olhada na primeira página. Fiquei chocado e até mesmo deixando o jornal cair ao ver o que estava na capa do jornal local... o homem que havia me assaltado havia sido encontrado morto na praça com os olhos arrancados. A polícia não havia descoberto como aquilo havia acontecido, mas estava investigando se havia sido um caso de homicídio por dívida de drogas ou algo do gênero. Junto com ele estava a minha mochila roubada que fora citada como minha por causa de meus documentos e uniforme.

Antes de ir para o serviço, passo na delegacia para recuperar a minha mochila roubada e então vou para o serviço. Sou chingado por meu chefe mais uma vez por chegar atrasado, mas ele acaba relevando por não precisar fazer um uniforme novo para mim.

Na saída, questiono meu chefe sobre o pagamento de minhas várias horas extras, mas ele dizia que como gerente, só poderia me pagar quando

recebesse dinheiro da matriz, “Mas do que você está falando? Não existem filiais deste mercado!” mas ele acaba me dando as costas e entrando em seu carro. Eu estava muito furioso, pois precisava pagar as prestações do meu carro, então acabo chutando o seu carro de raiva sem pensar no que estava fazendo, só volto para o planeta terra quando ouço sua voz me de dizendo “está despedido” e seu carro arrancando do estacionamento.

Caio de joelhos no chão, com um certo desespero e derramo algumas lágrimas, estava exausto de tanto trabalhar, e agora desempregado... quando me levanto, olho diretamente para o poste que estava a poucos metros de mim, no seu topo, havia um corvo me observando. Respiro fundo e vou para casa, desta vez tomo o caminho mais curto, resolvendo não passar pela praça, queria apenas chegar em casa.

Pensei naqueles olhos negros a noite inteira... aquelas pequenas esferas negras estavam na minha cabeça e nos meus sonhos agora. Quando amanheceu, ao lado do jornal de meu irmão, estava uma pena negra. Obviamente, não resisti em ler o jornal local, e para minha surpresa, na primeira página havia um acidente de transito catastrófico, parece que a vítima ficou quase irreconhecível, mas a placa do carro pertencia ao dono de um mercado chamado “J & J Mart”... era o mercado que eu trabalhava...

Depois daquilo, as coisas pareciam melhorar... o filho do dono assumiu o mercado, comecei a ganhar o meu salário em dia, tive dinheiro para sair e tudo o mais, e todos os dias eu passava pela praça para me sentar de frente ao corvo.

Na minha casa as coisas também iam bem, meu irmão estava namorando uma garota da empresa onde ele trabalhava e começou a levar ela para casa para jantar.

A praça também ficou um pouco diferente depois da chegada de um novo mendigo, mas diferento dos outros, esse era sujo, com roupas completamente esfarrapadas e parecia estar sempre bêbado ou drogado, o que não agradou muito os outro mendigos que viviam apenas alimentando os pombos ou comendo alguma pipoca que ganhavam de uma senhora.

Algumas pessoas começaram a dar a volta na praça para não precisar cruzar com esse novo mendigo que vivia pedindo esmolas com uma garrafa de vodka vagabunda na mão e com um odor terrível de urina. Aquilo começou a me perturbar muito, já que meus encontros com o corvo estavam ficando cada vez mais curtos graças àquele maldito mendigo.

Como meu salário não estava mais atrasando e meu irmão quase não comia mais em casa, sobrava mais dinheiro para eu gastar comigo, então comecei a comprar algumas roupas de marca.

Isso obviamente chamou a atenção do mendigo. Logo ele começou a me importunar pedindo esmolas e até mesmo sentando do meu lado. Aquilo já estava indo longe de mais. Será que ele não entendia que eu não queria bancar o álcool e as drogas dele?

Até que um dia, após eu sofrer um stress com uma cliente do supermercado, decidi comer uma pipoca na praça olhando para meu amigo corvo. E para a minha surpresa, o corvo não estava lá. Me sentei triste, olhando para a pipoca e me perguntando o que teria acontecido com o corvo. Será que mais alguém sentiu a sua falta? Ou pior, será que seu dono passou por aqui e o achou?

De repente escuto um grunido estranho, quando olho para trás o mendido bêbedo estava vomitando em um arbursto, a cena nojenta me fez levantar e sair dali. Mas ele me seguiu gritando “ei mauricinho, me dá uma grana!”, eu corri com medo de ele possuir uma faca ou algo do tipo.

Por incrível que pareça, apesar de bêbado, ele corria muito rápido a ponto de conseguir me alcançar, quando ele encostou em mim, dei um empurrão nele que o fez cair no chão. Me afasto do lugar, algumas pessoas vieram ver o que estava acontecendo, mas eu logo saio da praça e vou em direção à minha casa, “e seu eu matei o mendigo? E se ele caiu com a cabeça no chão? Eu não fiquei para ver a cena... bom, acho que ninguém vai ligar se aquele mendigo morrer mesmo” passei a noite pensando no ocorrido, mas é claro, sonho com o corvo e as batidas...

Apesar da minha nova rotina, eu decido não ler o jornal hoje, com medo do que eu pudesse ler. Nem se quer olha na janela se havia mais uma pedra. Vou direto para o serviço, mais um dia normal. Decido não passar pela praça, tenho medo de descobrir se o corvo havia ou não voltado e se o mendigo estava ou não vivo.

Mas na volta, esqueço e acabo passando pela praça, para meu espanto, havia policiais em volta de um corpo. Era o mendigo, dilacerado. Meu único alívio é que ele não havia morrido com meu empurrão. Mas o que poderia ter o matado daquela forma tão terrível? O cheiro podre de suas víceras impregnava a praça que estava praticamente vazia, não fosse pelos policiais e o corvo. Corpo. Corvo. Corvo? O corvo estava em cima da cabeça do homem, como os policias não toram?

Ele olhava para mim como se estivesse pronto para me matar. Aquela cabeça de penas negras e reluzentes, aqueles olhos penetrantes. Aquilo pela primeira vez me apavorava.

O corpo com a roupa rasgada e o peito aberto com as entranhas de fora, o buraco do olhos estava negro e cheio de veias saltadas para fora, a boca

estava aperta com a mandíbula quebrada e um fio de sangue seco escorrendo pelo lado e pelos comentários dos policiais, a língua também havia sumido.

Eu corri para minha casa o mais rápido possível. Meu irmão para variar não estava em casa, logo hoje que eu precisava dele.

Não consigo comer ou beber nada. Fico horas em baixo do chuveiro. Até que ouço o barulho de um porta batendo, era o meu irmão.

Me visto e vou para baixo confrontá-lo, como ele podia me deixar sozinho em uma situação como essa?

Ele me questiona como poderia saber que algo assim havia acontecido, mas é claro que eu revido dizendo que ele nunca mais havia ficado comigo em casa depois que ele arrumou aquela namorada.

“Você tá viajando cara, tá precisando de um sono” ele disse. Eu fico de cara com ele, mas vou dormir mesmo assim.

Esse sonho pareceu o mais perturbador, o corvo estava encima do corpo, comendo as víceras dele. Ele rasgou as suas roupas com as unhas e agora arranhava e bicava a barriga até abri-la, então começava a puxar seu intestino para fora e comer alguns órgãos internos.

Seus olhos já estavam arrancados e sua língua estava ao lado do rosto.

O corvo então deixa o corpo, da mesma forma que ele estava quando o encontrei, o corvo então pega a língua e voa.

Eu acordo assustado e tremendo. Levanto rápido e vou tomar banho. Precisava muito desparecer a cabeça. Mas por mais que eu tentasse fazer qualquer coisa para eu não parava de lembrar daquela cena terrível.

Deço as escadas e encontro meu irmão na cozinha. Eu estranho, já que ele geralmente passava mais tempo agora com sua namorada do que em casa.

“O que está fazendo aqui?” questiono a ele.

“Bom dia para você também irmão.”

“Bom dia, mas... o que está fazendo aqui a essa hora?”

“Hoje eu tirei o dia e folga, preciso fazer uma visita.”

“Visita?”

“Sim, eu não contei? Eu e minha namorada vamos alugar o apartamento para nós.”

“Não você não disse nada, você não conta mais nada para mim, você só que saber dela.”

“Calma maninho, você deveria estar feliz que seu irmãozinho se engajou na vida.”

“E eu como fico nessa história?”

“Ué você deveria arrumar uma garota, sair um pouco de casa, transar um pouco, vai fazer bem para você.”

Eu pego minha mochila e e vou em direção a porta. “Cara... na boa, você tá fazendo birra” bato a porta na cara do meu irmão e o deixo falando sozinho.

Eu não podia acreditar que ele ia fazer aquilo comigo. E era tudo culpa daquila maldita namorada.

O meu trabalho monótono já estava cada dia passando mais devagar, eu não aguentava mais contar as horas para sair daquele maldito inferno de uma vez. O fim da tarde era um alívio, onde eu trocava de roupa e ia para a praça ver meu único amigo. Será que ele estaria lá?

Quando chego na praça, sento no banco de costume e me sento. E lá estava ele, no galho do carvalho escuro. Como se nada houvesse acontecido. E eu fico. E eu espero. Até que percebo que a tarde está quase por ir embora, então me levando e vou embora.

Não vejo meu irmão em casa.

A noite foi tranquila, sem sonhos, apenas as batidas na janela.

Mas a semana ainda pioraria. Meu irmão comessa a encaixotar suas coisas.

Quando eu me dei conta dos dias que passaram, não havia mais uma coisa que pertencesse a ele dentro de casa. Se quer um casaco no cabide, uma coberta na cama ou uma meia no armário. Apenas nossas fotos juntos para que eu lembrasse do seu rosto continuaram mantidas nas prateleiras da sala.

Os meus dias agora seriam cada vez piores.

Eu agora não teria mais ninguém, mesmo as poucas visões que eu tinha dele no dia ainda me mantinham um pouco alegre, as poucas palavras que eu trocava com ele me animavam e sentir seu cheiro, seu calou me enriquecia.

Era meu único bem, meu irmãozinho, que se criou comigo desde sempre, o garotinho da qual as travessuras em encobria, os machucados eu tratava e as notas baixas e remediava... não fazia sentido ele me abandonar.

E naquela noite, após a mudança, o corvo em meus sonhos veio a me assombrar.

O corvo estava em cima de um poste, a noite era muito escura e garoáva e apenas aquela luz amarelada do posto iluminada aquele grande pedaço de rua.

Uma outra luz agora surgia no fim da rua, era o farol de uma moto.

A moto se aproximava cada vez mais e quando estava quase em frente ao poste o corvo levantou voo e foi em direção a moto e soltou um terrível grunido que fez com que quem pilotava a moto se perdesse e virasse-a esbarrando no meio-fio e sendo jogada para longe. A pessoa havia havia caído de maneira extremamente brusca, tanto que ao bater o capacete no chão, seu corpo não acompanho a cabeça e o pescoço dobrou.

Eu acordo atordido com a cena. Afinal o que havia acontecido? Eu já mais havia visto uma cena tão completa como essa em sono. Quem era aquela pessoa?

Eram muitas perguntas para nenhuma resposta.

Eu apenas me banho e vou para o serviço. Fico na praça até muito próximo da noite, então volto para casa.

Chegando lá eu vejo um carro, era o do meu irmão. Mas o que ele estaria fazendo ali a essa hora?

Eu abro a porta e ele está sentado, com rios de lágrimas em seus olhos. Ele se levanta e começa a gritar.

“Onde está seu telefone??”

“Eu devo ter esquecido em casa, por quê?”

Ele então corre e me abraça.

“Ela morreu... mano, ela morreu ontem! Vindo para casa.”

Meu corpo inteiro treme.

“Como... como isso aconteceu?”

“Ela estava voltando do trabalho como sempre, então ela sofreu um acidente, ninguém sabe ao certo porque, mas a pericia disse que não há indícios de batida, ela pode ter apenas dormido.”

“Batida? Ela estava de carro?”

“Não, ela vai para o trabalho de moto.”

Meu corpo congela, meu rosto agora estava tomado de pavor, eu não sabia o que dizer, eu não sabia como agir.. eu não sabia de mais nada. Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo, não era lógico, não era normal, não podia ser verdade...

Me sento com ele e tento o consolar.

No outro dia, pesso folga e vou ao velório de minha cunhada.

Todos estão de preto, há cerca de trinta pessoas, algumas mulheres usam véu e choram na borda do caixão, típico de velório, meu irmão junto ao pai da garota cumprimentavam as pessoas e conversavam coisas do tipo “ela era uma pessoa boa, muito honesta”.

Foi muito mórbido, mas nada muito longe de um dia no meu trabalho.

Na hora de levar o caixão o pai dela falou para meu irmão que fazia questão que eu levasse uma das alças, não sei se era para aquilo parecer educado, mas eu não vejo nada de bom em carregar o peso da morte de alguém que eu esculachei até sua morte.

Quando chegamos no cemitério, aquela atmosfera apenas piorou, agora estávamos levando a namorada de meu irmão para baixo da terra... e eles jamais a veriam novamente... aquilo era muito estranho.

Enquanto o padre falava a borda do caixão prestes a ser posto abaixo do chão, meu irmão me abraçava de cabeça baixa e chorava com uma profunda tristeza no coração. Eu estava apenas acompanhando o padre, quando de repente tenho uma leve impressão de que alguém me observava.

Não poderia ser ninguém da família pois estava todos em roda a minha volta. Olho suavemente para trás, para que meu irmão não desconfiasse, já que estava com a cabeça em meu ombro. Mas não havia absolutamente nada.

Até que então eu olho para o caixão. Lá estava ele. Aquele quem me observava o tempo todo. O corvo... o corvo me fitava cruelmente com aqueles olhos negros. Por que ele estava ali?

Eu não sabia...

Depois do enterro, voltei com meu irmão para casa.

Tomamos banho e dei algo de comer para ele, apesar de negar diversas vezes, o covenci que precisava de forças.

Levei ele até o sofá para que olhassemos um pouco de televisão, eu estava sentado e ele deitado com a cabeça no meu colo, enquanto eu fazia carinhos em seus cabelos, me lembrou do tempo em que eramos menores e depois de ele apanhar dos nossos pais, eu ficava com ele nessa posição até que parasse

de chorar e finalmente pegasse no sono. Dessa vez não foi diferente, ficamos daquele jeito até que ele finalmente dorimu.

Eu queria que meu irmãozinho voltasse a morar comigo e agora não havia mesmo mais motivos para ele ficar longe de mim. Aquilo de certa forma me confortou. Eu dormi ali mesmo. Naquela noite dormi bem. Sem batidas, sem nada.

Quando eu acordei ele já havia levantado, estava sentado na mesa tomando café. Vou até ele e pergunto.

“Você vai querer ajuda com a mudança?”

“Que mudança?” ele faz uma cara de espantado.

“Ué, você não vai voltar para cá?”

“Desculpa irmão, mas eu prefiro continuar o que eu comecei, ela não gostaria de me ver acabar com tudo por causa dela, além do mais, lá estão minhas últimas lembraças com ela e...” eu o interrompo.

“Eu não acredito nisso. Eu fiz tudo por você! Te criei, cuidei de você, fiz tudo por você e agora você me abandona!”

“Irmão, você tem que entender que eu já cresci, não sou mais uma criança, você precisa aprender a viver sem mim.”

“Sai daqui agora! Saia, saia da minha casa.”

“Calma, por favor...”

“Não, saia daqui.”

Ele se levanta aturdido, e vai embora.

O que eu acabei de fazer?

Me sento no sofá e fico a manhã inteira sentado ouvindo as batidas vindo da janela do meu quarto.

Lembro que não fui trabalhar. Mas eu não ligo, eu não ligo.

Me levanto e vou para a minha cama, tomo um remédio para dormir e me deito, nem percebi quando caí no sono, mas logo estava dormindo.

Mais uma vez eu sonho... com aquele maldito corvo. Ele estava na minha rua, segurava uma corda com seu bico, então ele voa... para longe, muito longe, até a janela de um prédio.

Lá dentro havia um homem deitado, o corvo abre a janela e vai até em cima dele, colocando a corda em seu pescoço e o levantando no ar. O homem se debatia e sufocava, seu rosto agora estava roxo, suando e com a língua para fora, então, parou.

Eu acordo com o telefone tocando, já era de manhã cedo.

Me levanto e vou em direção ao telefone residencial na sala.

“Alô, você... era o cunhado da minha não era?”

“Alô? Quem está falando?”

“Sabe, eu vim visitar o seu irmão hoje de manhã, para saber como ele estava... a perda de uma filha é uma dor simplesmente incurável, mas a perda de um amor também não é nada fácil, então eu vim ver como ele estava...”

“O que o senhor quer?”

“Então, acontece que eu vim ver como ele estava se sentindo, se gostaria de passar uns dias fora para desparecer a cabeça mas...”

“Diga logo!”

“Acontece que ele não soube lidar muito bem com a morte... e resolveu abraçá-la também...”

Entro em choque no telefone.

“Do que você está falando?!”

“O seu irmão, tirou sua prórpia vida nesa madrugada, a polícia já está aqui, fazem algumas horas já que o corpo dele perdeu a vida.”

Não podia ser verdade, não era, era tudo mentira!

Eu saio correndo rua a fora, enlouquecido, meu irmão havia me deixado seu endereço caso um dia eu quisesse visitá-lo, mas eu nem se quer vi aquele bilhete.

Quando me dou conta, estou próximo a praça, resolvo sentar ali.

O corvo me observava, como em qualquer outro dia.

Ponho as mãos no rosto, incrédulo da notícia que eu acabara de receber...

Então quer dizer que aquele homem no sonho era meu irmão? Afinal quem diabos é esse corvo? Seria um... mensageiro da morte...? Agora tudo fazia sentido, esse animal diabólico, esse agouro alada era um mensageiro da morte que me perseguia

“POR QUÊ?” todos que estavam na praça olham para mim desconfiados.

Mas o corvo continuava ali, imóvel. O que ele queria de mim?

Ponho a mão no meu bolso para pegar o celular e um papel cai no chão. Eu o junto, era o endereço de meu irmão, sem pensar duas vezes levanto e corro para seu apartamento. Quando chego lá está cheio de policiais, explico que sou seu irmão, então ele me deixam ver seu corpo, estava com uma aparência terrível.

Não ouso descrevê-la.

Até mesmo porque não aguentei muito tempo a observando.

Não aguento se quer ficar muito tempo na cena, sou obrigado a deixá-lo ali e sair correndo para casa para não desmaiar.

Quando eu chego em casa, tranco a porta e fecho todas as janelas e cortinas. Precisava beber algo. Me sirvo de whisky, e paro próximo a mesinha do telefone, escorado na parede. Eu olho fixamente para o telefone, tiro o papel do meu bolso. O telefone do meu irmão estava atrás do endereço.

Espera aí... esse papel, com o número do meu irmão... estava ao lado do telefone o tempo todo. Como foi parar no meu bolso?

Deixo o papel cair e vou em direção ao meu quarto com o whisky na mão.

Abro a cortina depois de muito tempo. Haviam apenas quatro seixos. Mas as batidas estavam lá toda noite. Por que só teriam quatro seixos?

Me sento na cama e continuo a beber. Precisava beber para esquecer. De repente tudo começou a girar a minha volta. Devia ser o alto teor alcoólico do whisky. Tiro meus tênis e me deito. Precisava mais do que nunca dormir.

Eu sonho novamente. Eu estava observando o banco da praça. O mesmo banco que eu sentava todos os dias. Então eu vou até um buraco de esquilos no carvalho e cato algo lá dentro, era uma coisa seca e estranha. Parecia até... uma lígua.

Eu a coloco dentro de um saco preto de pano, dentro dele havia mais alguma coisa de metal brilhante que eu não soube reconhecer. Então eu fecho o saco e o levo, levo até o cemitério, atrás da cova do meu antigo chefe. Mas que diabos eu estava fazendo.

Depois daquilo eu volto para a minha casa, bato na janela várias vezes, então deposito mais um seixo junto aos outros quatro.

Eu tento olhar para dentro do meu quarto, geralmente a cortina ficava fechada, mas hoje não, na tentativa de ver o interior do meu quarto acabo olhando meu

próprio reflexo no vidro da janela, então me acordo com o berro grunido e esganiçado do corvo. Eu era o corvo.

Me levanto rápido da cama. Minha cabeça ainda estava pesada por causa da bebida, mas eu precisava tirar aquela história a limpo.

Coloco meus tênis e um casaco e vou até o cemitério. Encontro a sepultura do antigo dono do mercado. Atrás de sua lápide estava... um saco preto. Dentro havia uma língua já seca e uma faca suja de sangue.

Eu olho em volta, em busca do corvo. Nada.

Corro até a praça, nada.

Volto para minha casa, olho pela janela, tentando enxergar o interior do meu quarto. Cinco seixos na janela. Pego um dele e bato na janela, o som é familiar. Na tentativa de tentar ver mais, enxergo meu reflexo, meus olhos são negros como a noite.

Eu sou o corvo.

O meu chefe precisava morrer.

É parado pelo corvo.

O mendigo precisava morrer.

É comido pelo corvo.

A minha cunhada precisava morrer.

Desvia do corvo...

Meu irmão não podia mais morrer...

Foi abençoado pelo corvo...

E agora.

Quem mais está a minha volta?

Eu não preciso de mais nada.

Eu não tenho mais ninguém.

Eu engulo os cinco seixos de uma só vez.

E sufoco.

Criatura imunda é, o corvo, ele precisa morrer, ele é um mau agouro.

Eu. Sou. O. Corvo.

Autor: Guilherme Vaz Antunes


"Papai, tem um homem atrás de você."

Neste momento, estou em um hotel em Nova York. E permita-me ser direto: Eu odeio isso aqui. Há uma sirene a cada cinco minutos, um cachorro latindo ao lado e um cara na calçada reclamando sobre os insetos.

É por isso que eu decidi conversar por Skype com minha família hoje à noite. Depois de digitar errado a senha do WiFi mais de cem vezes e arrumar a cama novamente depois de checar se não tinha nenhum inseto (sim, aquele cara entrou na minha cabeça), eu finalmente liguei pra eles.

Imediatamente eu me senti melhor. Ouvi todos os sons de casa: nosso terrier latindo, Samantha gritando de alegria e o bebê Theo balbuciando alguma coisa. O barulho deles abafou os sons malucos e irritantes da cidade, e eu sorri.

"Ei, deixa eu chamar a Samantha", minha esposa, Gina, disse. "Ela sente muito a sua falta."

Ela saiu da tela e a cabeça de Samantha surgiu sobre a mesa. "Papai! Papai!"

"Oi, querida" Wu diz uma cara triste. "Pobre papei tem que ficar sozinho em um hotel hoje à noite para o trabalho."

"Papai bobo, você não está sozinho", disse Samantha, me dando um de seus grande sorrisos. "Há um homem parado atrás de você!"

Eu congelei. "O que você disse?"

"Tem um homem atrás de você!"

Eu me virei. Mas o quarto estava vazio - tudo o que vi foi uma lâmpada brilhante, a poltrona vazia e o edredom amassado.

"Ele está escondido agora", ela riu.

"Samantha, do que você está falando?"

Mas ela apenas riu e sorriu. "Você está sendo bobo, papai!"

"Coloque sua mãe  de volta."

Gina correu de volta para a tela, com a camisa toda manchada. "Danny, eu estou tentando dar comida para o Theo", disse ela. "O que é tão importante que-"

"Samantha disse que viu alguém atrás de mim."

"Oh, Deus." Samantha balançou a cabeça, enquanto colocava Theo em seu colo. "Desculpe, eu esqueci de te contar. Ela vem falando sobre um amigo imaginário recentemente. Eu já perguntei à Dra. Marks sobre isso; ela diz que é totalmente normal, só uma fase..."

Meu coração começou a desacelerar. "Ela me assustou por um momento!" Eu disse, começando a rir.

"Ah, eu sei. Ela me assusta o tempo todo com isso. Fala sozinha na sala de jogos, conta a Theo sobre ele... é uma loucura." Ela suspirou. "Você já pensou que crianças seriam assim, tão... estranhas?"

"Não, não mesmo."

"Tudo bem, eu tenho que voltar. Falo com você amanhã?"

"Claro."

Fechei o laptop com um clique. Pela janela, carros buzinavam, faixas de vermelho e branco contra o azul do crepúsculo. Olhei em volta pelo quarto vazio, do tapete bege às cortinas puxadas; finalmente pareceu convidativo, agora que eu estava mais tranquilo.

Me levantei e caminhei em direção à cama. O edredom estava amassado, amontoado no canto da cama, e os lençóis estavam enrugados e bagunçados. Que bagunça, pensei, pegando o edredom.

Eu congelei.

Espere.

Depois de checar se havia algum inseto...

Eu arrumei a cama novamente.

Dei um passo para trás.

E foi aí que eu notei - saindo da borda do edredom -

A ponta brilhante de um sapato preto.



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


19/05/2018

Algas

Minha avó cresceu nas favelas da Chicago na era da Lei Seca. Sua família vivia em uma pequena casa perto do porto, e uma de suas memórias mais antigas era de um verão muito quente em que, procurando por um alívio para o calor, ela e sua irmã encontraram uma seção do píer, próxima à um depósito abandonado, que mal era usada. Toda noite por várias semanas as duas garotas iam para as docas e se sentavam na beira do píer conforme o Sol se punha. Minha avó se lembrava vividamente, e por algum tempo com nostalgia, da sensação de ter algas entre seus dedos conforme ela e sua irmã balançavam os pés na água escura.

Não foi até muitos anos mais tarde que ela retornou para o píer e descobriu que o depósito foi demolido. Curiosa, ela decidiu pedir informações ao Departamento de Desenvolvimento Urbano. Aparentemente o depósito pertencia à Máfia, que o usava como a base para operações de um esquema de prostituição. Isso só foi descoberto quando um associado começou a se livrar de prostitutas rivais colocando sapatos de cimento nelas e as jogando nas águas. Oficiais removeram aproximadamente duas dúzias de corpos das águas.

Como os corpos foram descobertos? Um pescador que passou pelo local percebeu os cabelos de algumas vítimas flutuando perto da superfície, como algas.


17/05/2018

Distopia: Episódio 2 (Preview e Avisos)

Perdeu a primeira parte da história? Clique aqui e leia agora: https://goo.gl/mP6v8G

Episódio 2 - Poderia ser Real?

- E então? Tá nervoso? - perguntou minha mãe, dois segundos depois de estacionar o carro.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É o seu primeiro dia de aula. - começou a explicar. - Escola nova... Ensino-Médio... Não tá nem um pouquinho nervoso?

Permaneci encarando-a, estático. Não tinha certeza se entendia o que ela estava dizendo.

- Eu me lembro do meu primeiro dia de aula do ensino-médio como se fosse ontem. - gargalhou. - Pergunte para sua vó qualquer dia desses. Eu quase pirei de nervoso!

Perguntar a vovó? Mas ela não está morta?

- Se ela não estivesse lá, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza! - disse ela ao vento. Pude sentir o pesar em sua voz.

Ela é mesmo minha mãe? Seu rosto é familiar, mas não sinto como se a conhecesse.

Eu sabia que deveria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Tudo o que eu queria era sair do carro e me livrar daquela sufocante e incomoda sensação.

- Eu preciso ir agora, mãe... - disse eu finalmente.

- Fica mais um pouco. - pediu ela de um jeito triste.

Um silêncio desconcertante se iniciou a partir dali e se manteve até que minha mãe achou que seria uma boa ideia ligar o rádio.

O som agudo e inconstante como milhares de unhas arranhando um quadro negro das estações sendo trocadas me causou uma agonia que jamais havia experimentado antes.

"...Acho..." - ouvi a voz de um homem idoso.
"...Que talvez..." - a de uma mulher.
"...Se..." - talvez um garotinho.
"...Ja..." - várias crianças ao mesmo tempo.
"...Melhor..." - a voz grave de um homem
"...Correr..." - uma voz séria e distorcida.

Engoli em seco. Eu devia estar ouvindo coisas.

Quando minha mãe finalmente encontrou a estação que parecia estar procurando, ela levou seus olhos aos meus de forma estranha e disse:

- Eu te amo, filho.

Pude sentir meu cenho franzir e uma tensão me invadir na mesma hora.

- Eu também te amo, mãe... - me forcei a dizer.

Meu desconforto era surreal. E a música que começou a tocar no rádio deixou tudo ainda mais perturbador do que já estava. Minha mãe nunca ouviria algo assim.

The Vogues - Turn Around, Look At Me.

"Há alguém andando atras de você..."

- Eu sei, meu amor. - disse ela, com um grande sorriso estampado no rosto. - Melhor você ir agora. Não vai querer se atrasar no seu primeiro dia, não é, A...?

"A". Foi a única letra do meu nome que ela conseguiu pronunciar antes de travar como um vídeo rodando em uma internet ruim.

- Mãe?

"...Vire-se, olhe para mim..."

- Mãe?!

Passei rapidamente as mãos em frente aos olhos dela, mas ela não esboçou nenhuma reação.

- Meu Deus...

Apavorado, peguei o celular em meu bolso, procurei pelo contato do meu pai e abri sua janela. Mas antes que eu pudesse digitar alguma coisa, uma mensagem dele chegou:

"Corra!"

Senti meu coração explodir dentro do peito, um frio tão intenso quanto o de Moscou subir minha espinha e minhas mãos estremecerem de forma tão inconsciente e bruta que meu celular voou direto para o chão do carro.

Levei meus olhos à minha mãe com cautela, e no momento em que meus olhos se encontraram com os dela, senti que havia alguma coisa diferente.

- Mãe, você tá bem?! - perguntei, com medo de que houvesse alguma resposta. - Mãe?

O que estava diferente? Sua postura? Seu cabelo? Talvez seus olhos?

Não...

Era o sorriso dela. Não era mais o sorriso acolhedor de uma mãe, era um sorriso tétrico; inexpressivo; sombrio, como uma Monalisa planejando o assassinato de Da Vinci enquanto do interior do quadro o observa dormir.

"...Hááá... aaalguééém... veeendooo... ossss... seeeeuuus... paaassooosss..."

Quando me dei conta, a música havia se tornado arrastada; distorcida; mais alta. Era como uma canção de ninar cantada pelo diabo.

"...Dêêê... aaaa... voooltaaaa..."

Com os olhos presos nela, levei cautelosamente minha mão esquerda à maçaneta da porta do carro e a puxei, mas nada aconteceu.

"... Olheee paaaraaa miiiim..."

A maçaneta parecia uma mera ilustração não interativa no carro. Puxei, puxei e puxei com toda a força que tinha, mas ela nem se quer se mexeu.

"...Hááá aaalguééém queee reeeaaalmeeenteee preeeciiisaaa deee vooocêê..."

Minha respiração acelerou, meus olhos arderam em brasa e uma súbita tempestade se iniciou nas nuvens cinzentas que eram meus olhos.

"... Aquiiii eeestoooouuu, cooom ooo coooraaaçããããooo naaa mããããooo..."

- Socorro! - comecei a gritar. Último recurso do desespero, eu acho. - Alguém me ajuda, por favor!



"... Viiireee-seee (viiireee-seee), OOOlheeee paaraaa miiim, (OOOlheee paaaraaa miiim)..."

- Tem alguém ai fora?! Por favor, me ajuda! Socorro!

"...EEEnteeendaaa... EEEnteeendaaa...."

Gritei por um bom tempo antes de finalmente me convencer de que não havia ninguém lá fora para me ouvir ou ajudar.

- Respira fundo, Adam... - sussurrei para mim mesmo. - Não surta...

"...Hááá aaalguééém queee aaapaaareeeceeerááá aaaooo seeeuuu laaadoo..."

Espiei o cenário que as janelas do carro me permitiam ver, e só então me dei conta de que a vida lá fora estava tão congelada quanto a vida dentro do carro.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

As árvores estavam turvas como vultos; as folhas planavam imóveis sobre o céu avermelhado; os carros permaneciam parados na rua como assombrações em fotografias antigas; e as pessoas eram como monumentos de cera expostos à céu aberto. Era como se o planeta tivesse simplesmente parado de girar.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

De repente, a música agarrou, passando a repetir várias e várias vezes o mesmo trecho.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

- Para com isso, mas que inferno! - gritei, golpeando o rádio do carro com os pés várias e várias vezes.

Depois de cinco ou seis chutes, o rádio finalmente desligou, dando lugar a um silêncio ensurdecedor.

Suspirei, aliviado. Fechei os olhos e recostei a cabeça no banco por um breve momento.

- O que eu faço agora? - pensei alto.

"... Vire-se, olhe para mim, Adam..."

Não era a música desta vez. Pude sentir o ar quente e o ruído incontínuo - que mais parecia o respirar de um fumante à beira da morte - adentrar meu ouvido direito no momento em que as palavras foram sussurradas.

Tremula e cautelosamente virei-me para a figura ao meu lado. Pude ouvir o som agudo e inconstante idêntico ao de milhares de unhas arranhando um quadro negro tocar no rádio no exato momento em que meus olhos se encontraram com os da coisa.

"As árvores não estavam mais turvas
As folhas haviam chego ao chão
Os carros haviam partido
E a coisa ao meu lado agora tinha o meu coração"

Recitou o que parecia um coral de crianças na estação que havia parado.

- M-Mãe?!

- OLHE PARA MIM, ADAM!

1 de Janeiro de 2025

- Adam! - Ouvi a voz de alguém gritar ao mesmo tempo em que senti meu corpo sacudir.

Abri os olhos abruptamente, e de forma brusca me afastei das mãos que me tocavam.

- Calma, filho! - disse minha mãe, pegando-me pelos ombros, tão assustada quanto eu. - Você tá bem?

- Nossa, mãe! - disse eu, tão rude quanto o bater de meu coração.

- Levou um susto, foi? - gargalhou.

- Só pega leve da próxima vez... - suspirei. - Sem gritos.

- Eu tentei, né... - começou a explicar. - Mas seu sono estava tão pesado que por um momento achei que estivesse morto.

- Estou vivíssimo. - assegurei. - Posso voltar a dormir?

Ela franziu o cenho.

- Você não bebeu ontem, não é?

- Ontem? - indaguei, confuso.

- É, na tal festa de Ano Novo que você foi com o Zack.

- Ah, é... A festa! - dei um tapa na minha testa, e lancei à ela um sorriso. - Não, claro que não, mãe.

- Tem certeza? - perguntou, tão séria que fez minha espinha gelar.

- Tenho, mãe. - revirei os olhos. - Acha mesmo que eu sou esse tipo de pessoa?

- Então você não é esse tipo de pessoa? - seu tom de voz idêntico ao de Rochelle de Todo Mundo Odeia o Chris.

- Não. - respondi, com firmeza.

- Então que merda é aquela ali, Adam?! - esbravejou, apontando o indicador para o pé da minha cama.

Reclinei-me exitante na direção de seu dedo, e...

Que merda..., pensei.

Havia uma gigantesca poça de vômito ao pé da minha cama e milhares de partículas esverdeadas por todo o resto do cômodo. Era como se eu tivesse literalmente explodido na noite anterior.

- Mentir para mentiroso?! Sério, Adam?!

E assim se iniciou a primeira sessão de esporro da minha vida.

- Sabe quem vai ter que limpar essa merda toda, pendejo?! Pois é! Sou eu, hijo de puta!

- Eu po...

- Nem. Pense. Em. Abrir. A. Boca. Adam! - me interrompeu ela, antes mesmo que eu pudesse assegura-la de que EU limparia tudo.

- Mãe, eu...

- Só... - suspirou. - Só me diz que não esqueceu da sua entrevista, por favor.

- Ai meu Deus... - senti cada centímetro de meu corpo arrepiar. - Que horas são?!

- Seis e meia, Adam! - respondeu imediatamente, furiosa. - Você não é mais criança, meu filho! Tem que começar a se virar sozinho. E se eu não tivesse te acordado? E ai? Como iria ser? Me diz, Adam! Você iria perder a entrevista! iria perder a maior oportunidade da sua vida de ser o que sempre quis ser. E por causa de que?! De bobeira! Porra, toma juízo, cara! Eu não vou tá aqui para sempre não!

Pensei em responder ao discurso de "mãe em fúria" dela por achar que ele não condizia nem um pouco com o tipo de filho que eu era na maior parte do tempo, mas cheguei a conclusão de que era melhor engolir as palavras que decolaram até a garganta e deixar para lá.

- Desculpa, mãe... - disse finalmente, fitando minhas mãos para não encara-la. - Não vai acontecer de novo. - levei meus olhos aos dela com muita coragem. - Prometo.

- Ótimo. - disse ela, forçando um sorriso. - Agora vá se arrumar e tomar café. Assim que terminar de limpar essa bagunça eu desço para te levar para a entrevista.

- Tudo bem...

Levantei-me da cama e caminhei até a saída do quarto me sentindo o cara mais babaca do universo. Era engraçado como minha mãe dominava a arte de me fazer sentir a pior pessoa do mundo por vacilar com ela.

- Não está esquecendo de nada? - perguntou ela, assim que cruzei a porta do quarto.

Dei meia volta, adentrei o quarto, e de cara me deparei com o terno que havia separado para usar na entrevista apoiado na cadeira do computador.

- O que seria de mim sem você, né, mãe?

Peguei o terno, dei um beijo na bochecha dela, saí do quarto, e ligeiramente desci as escadas que levavam ao primeiro andar.

- Bom dia, Jarvis! Bom dia, Floki!

Jarvis, que na verdade se chamava T-83 antes da minha mãe alugar os filmes do Homem de Ferro, era um robô faz-tudo que meu pai construiu para ajudar a mim e a minha mãe durante o tempo em que ele viveria na Inglaterra para "fins científicos", como ele mesmo descreveu. No entanto, não muito tempo depois que ele partiu, descobri que na verdade eles tinham era se divorciado. E adivinha quem me contou? Pois é, o Jarvis. Eu e meu pai só conversamos por Skype desde então.

Floki era o meu cachorro, e assim como Jarvis, era mais uma obra tecnológica do meu pai, que além de ser alérgico a cachorros de verdade, acreditava que eu não estava pronto para correr o risco de ter o coração partido por um animal de estimação mortal. Irônico, não?

- Bom dia, senhor Miller! - respondeu Jarvis. - Parece que o grande dia chegou, não é mesmo?

- Pois é, Jarvis! - disse eu, enquanto acariciava a carcaça de metal de Floki. - Finalmente!

- Não esqueça de se hidratar antes da entrevista. - aconselhou Jarvis. - Preparei alguns biscoitos para você. - notificou em seguida, tirando um tabuleiro do forno, e servindo os biscoitos em um prato de vidro branco.

- O meu favorito! - exclamei, sentando-me à mesa e pegando um biscoito.

- Esse mesmo! - respondeu.

- Já disse que você é o melhor, J-J?

- O tempo todo!

Sorri para ele.

- Sorrindo de volta. - informou Jarvis. Ele sempre descrevia em palavras suas reações físicas por incapacidade de demonstra-las fisicamente.

- Eu sei, amigão! - lancei à ele uma piscadela. - Pode pegar um pouco de leite para mim? E ligar a TV, por favor?

- É para já, senhor! - disse, ligando a TV, e caminhando em direção à geladeira em seguida.

"Mesmo depois de terem se passado quatro anos, o curioso caso do "viajante do tempo", Desmond Greene, ainda intriga as autoridades. - disse Castiel MacWilliams, o apresentador do noticiário da manhã."

"Nova York nunca esquecerá o que aconteceu naquela noite. Uma tragédia! - disse Grant Graham, o policial responsável pelo caso "Greene"."

"O senhor acredita que ele estava dizendo a verdade? - perguntou MacWilliams à Graham."

"Olha, é difícil dizer. Foi tudo uma grande loucura, sabe? Mas segundo o que temos, tudo indica que sim. - respondeu Graham."

"Ouviram isso? Que loucura! E é verdade que o corpo do Desmond e do homem na cabana são fisicamente idênticos?"

- Aqui está, senhor. - disse Jarvis, posicionando um copo de vidro ao lado do prato de biscoitos, e despejando o leite dentro dele logo depois.

- Valeu, J-J! - disse eu, sem tirar os olhos da TV. - Você é o melhor!

- Lançando ao senhor uma piscadela. - notificou, e afastou-se em direção ao sofá, onde passava a maior parte do tempo ou em Stand By ou assistindo Masterchef.

"Sim, é verdade. Segundo os testes feitos com o DNA do garotinho, do Desmond e do corpo que encontramos na cabana, sim, são a mesma pessoa. Como isso é possível? Não faço a menor ideia."

"E quanto a causa da morte do homem? Suicídio ou assassinato?"

"Tá ai uma coisa que ainda não sabemos."

"O que o senhor acha que ele quis dizer com aquela frase que, literalmente da noite para o dia, se tornou viral em todas as redes sociais populares?"

""Eu sou a consequência não calculada de suas invenções do futuro..." ?" - perguntou Graham."

""...Não inventem máquinas do tempo!" - completou MacWilliams. - Essa mesmo!"

"Eu não faço ideia, mas talvez não devêssemos mesmo inventar máquinas do tempo. - brincou Graham."

"É verdade! - MacWilliams gargalhou. - Mais detalhes sobre o caso Greene serão divulgados após os comerciais! Nos vemos já, já! - anunciou."

Peguei meu celular em meu bolso, procurei pelo contato do Zack, e enviei uma mensagem para ele. Zack era tanto meu melhor amigo, quanto era louco por tudo o que tivesse relação com viagem no tempo.

"Viu que estão falando sobre o Greene no noticiário do canal quatro?" - perguntei.

Bom, primeiramente, deixe-me explicar a razão desta mensagem: Em 2021, quando aconteceu a coisa toda do "Caso Greene", e os noticiários da TV e as pessoas da internet não paravam de falar sobre o quão misteriosa era a história toda, Zack, como o louco que já era pelo assunto, agoniado pela falta de respostas por parte da mídia e movido pelo sonho de ser o herói de uma pátria, se sentiu na obrigação de começar suas próprias investigações e teorias sobre o caso "para o seu bem e do mundo".

Por mais incrível que possa parecer, ele realmente descobriu muita coisa que os grandes meios de comunicação não conseguiram. Ele até chegou a ganhar uma grana preta vendendo as informações que conseguia para jornais locais da época.

"O que você acha, Bro?" - respondeu alguns minutos depois. "Não disseram nada que eu já não soubesse."

"As vezes eu me esqueço da vadia que você é quando se trata de viajantes do tempo."

"História assim eu chupo até a última gota *cara de lua*"

O grande problema do romance entre Zack e o "Caso Greene", foi que a cada nova descoberta que ele fazia, o nível de obsessão dele pelo cara e por tudo o que estivesse relacionado à ele só aumentava, chegando à um nível em que frases como:

"Cara, você precisa assistir a trilogia "De Volta Para o Futuro", é incrível."

Se tornaram:

"Mano do céu, você precisa ler sobre o "Caso Greene", é fantástico!".

E mensagens como:

"Vamos ao cinema assistir o novo filme dos Vingadores?"

Se tornaram:

"Vamos ir interrogar um garotinho que estudou com o Desmond?"

Acredito que não seja um equívoco dizer que Desmond Greene era para ele o que Justin Bieber costumava ser para as garotas virgens e retardadas de 2011.

"Risos" - disse eu

"A propósito, já estou saindo de casa. Não se atrase. Fui-me!" - disse ele por fim.

Eu teria avisado que iria me atrasar (e muito) se ele não fosse tão apressado.

"Okay." - respondi.

Comi o último biscoito, matei o leite no copo, pus as louças na pia, e...

- Bom, só falta tomar banho e escovar os dentes. - pensei alto.

Então, foi o que fiz.

[...]

- Mãe, tô pronto! - gritei do pé da escada.

- Tá bom, já tô indo! - gritou de volta.

Caminhei até o sofá e sentei-me ao lado de Jarvis, que parecia estar no décimo sono.

- Jarvis? Tá acordado?

- Sim, senhor. Apenas descansando meus scanners. - respondeu ele, de forma grogue e quase inaudível.

Gargalhei.

- Deita aqui. - disse eu, e ele começou a tombar lentamente para o lado, pousando sua cabeça em minha coxa direita.

"Rouw!"

Floki surgiu de trás da poltrona próxima ao sofá em que estávamos, e com a cabeça inclinada para a direita, passou a nos encarar.

- Vem cá, garoto! - disse eu para ele, que imediatamente saltou para cima da minha coxa esquerda. - Vou sentir muito a falta de vocês quando eu começar a faculdade, caras. - confessei.

"Ownn"

Floki ronronou, e afundou a cabecinha de metal em meu peito.

- Tem fornos no Senhor, biscoito. - murmurou Jarvis.

- Eu amo vocês. - sussurrei.

Um pouco mais de cinco minutos depois, minha mãe desceu as escadas e caminhou até nós. Já não vestia mais as mesmas roupas de quando me acordara, nem se quer carregava mais consigo a expressão de desapontamento que raramente era vista por meus olhos. Aquela mulher era a minha mãe, com certeza. E eu nunca a tinha visto tão radiante quanto naquele momento.

- Vamos? - perguntou ela.

- Vamos!

[...]

"...Quem vai contar a história da sua vida?..."
"...E quem vai se lembrar do seu último adeus?..."
"..Porque é o fim e eu não tenho medo..."
"...Eu não tenho medo de morrer..."

Quando o refrão de "In The End" da banda "Black Veil Brides" começou a tocar nas profundezas do bolso da minha calça, eu já sabia quem estava ligando.

- Mano do céu! - exclamou Zack, sua voz transmitia desespero e indignação. - Cadê você?! Já tô aqui na porta faz dez minutos e nada da banheira da sua mãe aparecer no estacionamento!

- Banheira é o rabo dele. - disse minha mãe, forçando seriedade.

- Banheira é o seu rabo, parceiro. - disse eu.

- Como é que é?

- Palavras da minha mãe.

- Tá no viva voz? - perguntou ele, constrangido. - Mano do céu!

- Não, relaxa! - respondi. - Mas acho deveria começar a prestar atenção no quão alto está falando. - gargalhei.

- Ah... Faz sentido. - murmurou. - A propósito, como vai, senhora Miller?

- Eu vou bem, senhor Oliveira! - respondeu minha mãe, aproximando a boca do celular que estava em meu ouvido. - E você, como vai?

- Se esquecermos que estou puto com o seu filho e a falta de pontualidade dele, eu estou ótimo! - respondeu Zack. - Pode me contar: ele nasceu de vinte meses, não foi?

Minha mãe riu.

- Olha a boca, senhor Oliveira! - advertiu-o.

Minha mãe odiava palavrões, o que era engraçado, já que ela os declamava o tempo todo.

- Pois é, olha a boca, senhor Oliveira! - disse eu. - E a culpa do atraso não é minha, é da minha motorista aqui.

- A culpa é dele sim! - minha mãe começou a dizer. - Se esse pendejo aqui não tivesse sujado o quarto todo de vômito, já teríamos chego ai há muito tempo!

- "Eu cunheçu us beus limitis"; "Ninca pissei mal cum bibidã". - Zack começou a recitar frases ditas por mim na noite anterior em tom de deboche. - Muito vacilão!

Revirei os olhos.

- Há uma primeira vez para tudo na vida.

Nesse momento, minha mãe dobrou à direita e adentrou o extenso estacionamento, do enorme campus, da gigantesca Universidade Google que, como havia descrito Zack na noite anterior, parecia uma versão urbanizada e moderna do castelo de Hogwarts.

- É mais bonito pessoalmente que nas fotos. - disse minha mãe, enquanto procurava uma vaga no estacionamento.

- Tô vendo vocês! - disse Zack, empolgado, acenando loucamente com as duas mãos na frente do prédio principal.

- Esse Isaac é uma figura mesmo. - comentou minha mãe.

- Pois é... - sorri.

- E depois de... - minha mãe conferiu o relógio. -...quatro horas de viagem, cá estamos!

Três horas e cinquenta e sete minutos, na verdade. Sendo três horas e meia do Queens até Cambridge, e vinte e sete minutos de Cambridge para a universidade.

- Cá estamos! - sorri.

- E então? Tá nervoso? - perguntou ela.

Senti uma pontada em meu coração. Déjà vu.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É... É a sua tão esperada entrevista, filho! - começou a explicar, transmitindo certa fascinação em sua voz. - Se passar, o que tenho certeza que vai, estará em uma escola nova; conhecerá pessoas novas; fará coisas novas; viverá uma vida nova. Não tá nem um pouquinho nervoso por isso?

Permaneci encarando-a, estático. Ela riu.

- Sabe, eu me lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade como se fosse ontem. - começou a dizer. - Eu achei que fosse ter um surto de tão nervosa que eu estava.

Sorri para ela.

- Sua vó saberia o que dizer em um momento como esse. Sabe disso, né? Ela sempre sabia...

Vovó morreu tem exatos quarenta e cinco dias e quatorze horas.

- Se ela não estivesse lá, digo, na faculdade comigo, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza!

Gargalhei.

Minha mãe sempre contava histórias assim quando nós estávamos prestes a viver momentos semelhantes aos que ela viveu com a vovó quando jovem.

Com um sorriso meio contente e meio triste, ela levou seus olhos aos meus e disse:

- Eu te amo, filho!

- Eu também te amo, mãe. - disse eu, abraçando-a em seguida.

Ela é minha mãe, com certeza.

- Tá tudo bem mesmo?

- Sim, sim... - respondi, de forma sincera. - Como pôde ver, aquele doido ali vai estar comigo. - Apontei para Zack, que estava impaciente, andando de um lado para o outro nas escadarias da universidade. - Tá, será uma vida nova, mas e dai? A companhia é mais velha que a senhora! - Ela riu. - E isso significa que, no fim das contas, serão os velhos tempos em novos tempos, entende?

Um acolhedor e orgulhoso sorriso de mãe se abriu em seu rosto.

- Entendo sim, meu filho... - seus olhos marejaram. - Vai lá e arrasa!

- Pode deixar! - assegurei, lançando à ela uma piscadela, e saindo do carro em seguida.

"Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo...", sussurrei para mim mesmo durante todo o percurso até Zack.

- Aleluia! - comemorou ele, aproximando-se com a mão estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Antes tarde do que nunca, não é? - disse eu, depois do toca aqui.

- Nesse pique! - gargalhou.

- Já foi lá dentro? - perguntei, transparecendo meu nervosismo.

- Ainda não... - respondeu. - Não iria fazer isso sem você.

- Abriu mão dos possíveis melhores assentos de Cambridge para ficar aqui em pé me esperando?

- Mas é claro, Bro. - assentiu. - Não queria trair o momento que visualizei em minha cabeça nas milhares de vezes em que pensei neste dia. E além disso, quatro horas sentado no carro já foi o bastante.

Segurei o riso. Zack tinha uma engraçada mania de dramatizar de forma cinematográfica todos os momentos importantes da sua vida.

- Três horas e cinquenta e sete minutos. - corrigi.

Ele revirou os olhos, e disse:

- Você deveria começar a usar essa sua pontualidade com números para chegar na hora marcada.

Gargalhei.

- E como visualizou? A coisa toda? - perguntei finalmente.

- Achei que nem fosse perguntar. - sorriu, aliviado. - Bom... - pigarreou. - Nós dois atravessando aquela maldita porta automática ali, - ele apontou para a entrada do prédio. - como os caras mais descolados do universo. - firmou, todo monumental. - Imagina tudo em câmera lenta, beleza? - pediu, cortando todo o tom majestoso da última frase.

- Imaginando em câmera lenta. - disse eu, mais um vez segurando o riso.

- Agora imagina a música tema dos "Anjos da Lei" tocando no fundo.

- Imaginando...

Então ele pigarreou de novo, e continuou:

- E aí... BANG!... Um monte de pombas brancas voando atrás da gente! - disse, fazendo um gesto abrangente com as mãos, e estranhos sons com a boca, que deduzi serem onomatopeias de explosão e fumaça subindo. - Seria descolado para caramba!

- Bom, cara... Não temos pombas... - disse eu. - Nem um rádio...

- Nem somos descolados, mas e dai? - gargalhou.

- Claro que somos! - retruquei, de forma irônica.

- É, pois é... - disse ele, lançando-me uma piscadela.

- E a propósito, eu peguei a referência.

- É por isso que você é o meu melhor amigo, cara!

Gargalhei.

- Mas e ai? Você veio sozinho? - perguntei.

- Não, não... Meu pai me trouxe, e vai passar aqui para me buscar mais tarde.

- E como é que ele tá?

- Ainda processando o fato de que ele é um velho fumante e alcoólatra de sessenta anos que perdeu a esposa vegetariana de quarenta e dois para um maldito câncer.

Desde que sua mãe morreu há exatos treze dias e vinte e cinco horas, Zack só se refere à ela como a esposa de seu pai.

- Entendo, cara...

- Relaxa, a vida tem dessas coisas. É como o pastor lá da igreja sempre diz: "Não devemos jamais lamentar por aqueles que foram chamados pelo Senhor para viver na glória do paraíso."

- Faz sentido.

- Não é?

- É...

Senti que um silêncio embaraçoso iria se iniciar a partir dali, mas Zack não permitiu:

- E ai? Tá pronto? - perguntou, virando-se para a porta automática da universidade em seguida.

Coloquei-me ao lado dele, e disse:

- Só se você estiver, "Bro".

- Eu já nasci pronto, Bro. - disse ele, dando um passo à frente. - Abre-te, Sésamo! - sussurrou cheio de si, e abriu os braços majestosamente ao mesmo tempo que as portas.

- Vemos aqui um verdadeiro Jedi, meus amigos! - exclamei, o aplaudindo em seguida.

- Sim, caros expectadores... - começou a dizer, prestando reverencia. - Sou de fato um poderoso...

- Garoto com demência. - concluiu uma garota, que surgiu do outro lado das portas, e passou por nós com certa pressa.

- Ah, vai se foder! - Zack gritou para a garota, que já estava longe demais para ouvir.

- Bom, já começamos muito bem. - suspirei, e atravessei a porta automática da universidade com certo desânimo. - Você vem ou não? - perguntei, virando-me dramaticamente para Zack, que continuava do lado de fora, observando indignado o pontinho preto que havia se tornado a garota.

- "Guiriti cum dimincia" - disse ele ao vento antes de se virar para mim e dizer: - Que filha da puta!

- Ao que parece isso aqui vai ser igualzinho ao ensino-médio. - disse eu, deixando clara minha frustração.

Zack suspirou, adentrou a universidade, pôs a mão direita em meu ombro e disse:

- Não usávamos terno no ensino-médio, parceiro.

- Bom, nem usaremos aqui... - expliquei. - Isso é só para entrevista...

- Não seja tão pessimista, Bro! - retrucou, dando um tapinha fraternal em meu ombro. - E ai? Vamos ser entrevistados ou não?

Sorri para ele.

- É claro que vamos.

[...]

E então, pela milionésima vez naquela manhã, a porta da reitoria se abriu e a bela mulher de olhos verde-esmeralda, juntamente com suas brilhantes e elegantes roupas, e seu poderoso e excitante sotaque francês, surgiu com seu gigantesco tablet, e disse um nome:

- Adam Miller!

Senti um frio invadir minha espinha e minhas pernas estremecerem.

- Sou eu... - disse, levantando uma das mãos.

Ela sorriu para mim e sinalizou para que eu entrasse na sala.

- Vai que é tua, campeão! - sussurrou Zack, mais no sentido sexual do que no motivacional.

Levantei-me da cadeira de forma desajeitada e caminhei morosamente em direção à sala cuja a mulher estava parada à frente da porta.

- Entre, por favor. - disse ela, adentrando a sala em seguida.

Maldito sotaque francês. Como pode deixar tudo tão sexy?

Cruzei a linha do caixonete da porta e me deparei de imediato com um maldito sósia de George R.R. Martin sentado atrás de uma gigantesca mesa de madeira reluzente.

- Este é Willmore Blencoff, reitor e fundador da Universidade Google. - anunciou a mulher. - Senhor, este é... - a mulher deu uma rápida espiada em seu tablet. - Adam Miller.

- E está é Alícia Chevalier. - disse Willmore, de forma descontraída.

- É um prazer. - disse Alícia.

Forcei um sorriso de relações públicas.

- O prazer é todo meu.

- Bom... Por favor, sente-se, meu jovem. - disse Willmore, cordialmente.

Caminhei até Willmore, puxei a bela poltrona de couro diante de sua mesa e sentei-me de frente para ele.

- É um prazer finalmente conhecê-lo, senhor Miller. - disse ele. - Como minha honorável e fiel assistente já lhe antecipou, me chamo Willmore Blencoff e eu sou o reitor desta universidade.

- É um prazer conhecê-lo também, senhor. - disse eu, deixando explícita minha admiração.

- Tenho que lhe dizer, senhor Miller, seu currículo acadêmico e sua alta pontuação em nosso vestibular me deixou impressionado. O aceitei nesta universidade no momento em que bati meus olhos em sua prova e terminei de ler seu currículo. No entanto, você sabe, tais formalidades são necessárias. Espero que você não me decepcione nesta entrevista, jovem. Me decepcionar explodiria o balão que é o meu ego e a certeza de que nunca erro.

- Muito obrigado, senhor. - disse eu, tentando não surtar. - Não o decepcionarei.

- Ótimo! - ele sorriu. - Bom... Está pronto para começarmos?

- Sim, senhor.

- Farei algumas perguntas bem simples, tudo bem? É só responder com calma e vemos o que acontece. Okay?

- Okay, senhor...

- Primeira pergunta: O que quer cursar aqui?

- Design de Estrutura Inteligente, senhor.

- Por que?

- Por que eu amo criar coisas e sou fascinado por como a arte é capaz de dar vida as coisas, senhor.

- Entendo. Então você gosta de inteligências artificiais?

- Sim, e também de fazer com que sejam mais do que só um monte de lata e formas.

- E por que quer se formar aqui?

- Por que vocês são os melhores.

Willmore gargalhou.

- E além disso, não quero ser só mais um designer no mundo. Quero ser o melhor. E para ser o melhor, é necessário aprender com os melhores. Não concorda?

- Curioso. - sorriu. - Quando surgiu este seu interesse por esta área?

- Quando eu era criança, acho que foi no meu primeiro ano de escola, não tenho certeza.

- E como foi que aconteceu?

- Bom, se não me falha a memória, aconteceu durante um intervalo da escola. - sorri. - O sinal tocou, as crianças correram para o pátio e eu permaneci imóvel em minha carteira.

"Por que não vai brincar com as outras crianças?", perguntou a professora.

"Eu não as conheço", respondi.

"E nem vai se não tentar."

"Faz sentido"

" Você vai ir?"

"Hoje não"

"Tudo bem. O que quer fazer então?"

"Ocupar a minha mente, eu acho"

"Tá legal, tive uma ideia."

"Que ideia?"

- Nesse momento, ela me entregou uma caixinha de lápis de colorir e uma folha de papel em branco...

"Desenhe o que quiser", disse ela.

- Daí eu olhei para aquela folha e vi um mundo em branco cheio de possibilidades, e por alguma razão que não sei explicar, senti-me na obrigação de dar alguma vida à ele.

- E o que você desenhou? - perguntou Willmore.

- Desenhei a mim mesmo brincando com as outras crianças no pátio. - sorri, pensativo. - Não pensei nisso quando comecei a desenhar, mas logo depois que terminei o desenho, percebi que havia acabado de criar um mundo diferente daquele no qual vivia, um mundo melhor, um mundo onde eu era melhor. Tanto poder em uma simples folha de papel, entende? Naquele momento eu me dei conta de que poderia ser e fazer qualquer coisa naquele pequeno porém imenso universo.

- Interessante. E o que a sua professora disse?

- Não mostrei o desenho para ela, mas mostrei para o meu pai. E foi ai que as coisas começaram de verdade.

- Entendo. E o que ele disse?

- Disse que estava incrível e que eu deveria continuar praticando, assim poderia um dia começar a projetar robôs para ele construir.

- E projetou algum?

- Sim, quer dizer, mais ou menos. - gargalhei. - Desenhei um retrato da nossa família uma vez e inclui um cachorro nela. Assim que mostrei para o meu pai, sugeri que adotássemos um para que nossa família ficasse completa como no desenho...

"Só tem um problema, eu sou alérgico a cachorros, filho", ele disse.

- Mas não muito tempo depois disso, o meu aniversário chegou e com ele um cachorro muito familiar...

"Caramba, ele é idêntico ao cachorro que eu desenhei, pai!", disse eu.

"Não é? Adivinha porquê!"

"Por que?"

"Por que É o cachorro do seu desenho!"

"Meu Deus! Você construiu ele mesmo, pai?"

"Sim, meu filho. E ai? Gostou? Como é a sensação de ver sua primeira criação ganhar vida?"

- Indescritivelmente incrível. - disse eu para Willmore. - Como não se apaixonar por algo assim?

- É verdade. - assentiu. - Que nome deu ao novo membro da família?

- Floki. - respondi.

- Como o Viking?

- Na verdade o chamei assim porque gostava de sorvete de flocos e o desenhei com um monte de bolinhas pretas - expliquei - mas hoje em dia digo que é por causa do Viking mesmo. - gargalhei. Willmore também.

- Gosto do seu senso de humor, senhor Miller! - disse ele. - Você é engraçado.

- Desculpa por falar e ser detalhista demais, é o que costumo fazer quando estou muito nervoso. - expliquei.

- Não se preocupe... - disse ele, de forma compreensiva. - Temos e não temos todo o tempo do mundo.

Aquilo fez tanto sentido para mim.

- Tenho apenas um conselho para você, Adam.

- Qual, senhor?

- Faça valer e aproveite bem o seu tempo nesta universidade.

Senti um turbilhão de sensações me invadir e tomar conta de cada centímetro do meu corpo.

- Sim, meu jovem. - Willmore respondeu ao ponto de interrogação explícito em meu rosto, carimbando uma folha de papel. - Aprovado. Meus parabéns!

- Muito obrigado pela oportunidade, senhor!

- Não me agradeça, jovem. - sorriu. - Esta conquista é um mérito seu.

Me senti nas nuvens. Tudo o que eu mais queria naquele momento era sair correndo nu pela Times Square gritando: EU PASSEI, PORRA! OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS, OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS!

- Nos encontraremos de novo em uma semana. - disse ele, dando uma espiada no calendário exposto em sua gigantesca mesa. - Oito de janeiro às dez da manhã.

Assenti com a cabeça.

- Venha pronto para se instalar. - comunicou. - As aulas começarão no dia nove.

- Perfeito! Muito obrigado mesmo, senhor!

- Temos e não temos todo o tempo do mundo. Lembra? - Willmore sorriu, e estendeu a mão para mim.

- Lembro sim! - assenti, apertando sua mão, e levantado-me rapidamente da poltrona.

- Meus parabéns! - disse Alícia toda monumental, abrindo a porta para que eu saísse.

- Muito obrigado! - disse para ela.

Nem precisei dizer nada. Assim que Zack bateu os olhos em mim, ele já sabia o que tinha acontecido.

- PASSOU, CARALHO! - Zack gritou como um torcedor depois de seu time marcar um gol de virada nos segundos finais de um campeonato, levantando-se da cadeira em um salto e direcionando-se a mim com a mão esquerda estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Passei, porra! - sussurrei à um fio de chorar, um milésimo antes de nos abraçarmos e começarmos a pular e gritar no estreito corredor da sala de espera.

Todos na sala olharam para nós com desaprovação como se pensassem: "Esses vieram do Queens, com certeza". Mas quem disse que ligamos?

[...]

Duas horas e meia depois da minha entrevista, Alícia finalmente chamou Zack. Ele deve ter ficado lá dentro por uns trinta minutos antes de sair majestosamente e dizer:

- Senhoras e senhores, meninos e meninas, tratem bem de olhar de perto enquanto podem o mais novo físico negão revolucionário do pedaço, Isaac Oliveira. É isso mesmo que vocês ouviram. Não é Newton, é Oliveira, parceiros. Diretamente das favelas do Rio de Janeiro e do Queens para detonar em Cambridge. Bang, Bang, Pow! Dedo no cu e gritaria. - cantarolou. - Agradeço à todos pela atenção!

Zack não era bem um "negão". Seu pai era um norte-americano branco, sua mãe era uma brasileira negra e ele tinha cor de café com leite quando se tem mais leite do que café. E na verdade, só viveu os três primeiros meses de vida no Rio de Janeiro, o resto foi todo no Queens. Mas ainda assim, ele adorava se vangloriar do quanto era negro e do quanto tinha sido criado nas favelas. Vai entender...

Depois do seu discurso, ele se juntou à mim e caminhamos vitoriosos até a saída da universidade. Naquele momento, eu consegui imaginar a música tema dos "Anjos da Lei" tocando ao fundo, o slowmotion, as explosões de pombas brancas e todo o resto, bem como Zack havia imaginado. Foi com certeza um dos momentos mais épicos da minha vida.

- Tá vendo isso, irmão? - perguntou ele, com o braço direito entrelaçado em meu pescoço e usando o indicador esquerdo para guiar meus olhos pela paisagem do gigantesco campus. - É a nossa nova casa!



Zack ligou para o pai dele, que apareceu vinte e dois minutos depois da ligação. E minha mãe nem se quer havia saído do estacionamento. Contei à ela que passei depois de ter feito um drama obrigatório dizendo que não. Ela surtou. Ligou o carro, e fomos até o McDonalds mais próximo para almoçar. Depois do McDonalds, minha mãe ligou para Jarvis e pediu que ele preparasse minha comida favorita para o jantar, surtou de novo, e então pegamos a estrada de volta para casa.

Chegamos em casa às seis e trinta e um da noite. Quando abrimos a porta de entrada, Jarvis e Floki estavam esperando gente do outro lado com balões, confetes e faixas enormes penduradas no teto preenchidas com a frase: "Parabéns, Adam!"

Floki correu em minha direção e saltou para meus braços e Jarvis se aproximou um pouco mais devagar com seu andar robótico e me abraçou bem forte.

- Parabéns, meu filho! - disse ele, mas não era sua voz habitual, era a voz do meu pai. Isso acontecia de vez em quando, meu pai hackeava o Jarvis para falar comigo ou com a minha mãe ou resolver algum problema quando era muito urgente. Quando contei isso ao Zack, ele levantou uma questão muito curiosa: "Será que seu pai hackeia o Jarvis para transar com a sua mãe?". Nunca mais olhei para o Jarvis do mesmo jeito. - Sandra... - cumprimentou minha mãe.

- Oi, Antony... - disse ela.

- Jarvis me contou que você conseguiu entrar na Google. - explicou ele. - Não quis perder esse momento.

- Legal que veio, pai. Ou quase isso...

Ele riu.

- Bom, o jantar tá quase pronto. Se tiver ficado bom, fui eu quem fez. Se não, foi o Jarvis.

Minha mãe riu. E eu forcei um sorriso.

Eu não tenho raiva do meu pai nem nada do tipo. Sei que foi minha mãe quem pediu o divórcio. Sei que ele sofreu quando precisou ir. Mas desde que ele foi para a Inglaterra não consigo me sentir confortável com ele. Nunca temos muito assunto e eu não sinto que deveríamos ter.

[...]

Às oito nos sentamos a mesa de jantar e comemos. - Lasanha de quatro queijos e estrogonofe de frango, a propósito. Zack diz que é uma mistura esquisita. Eu acho incrível. - Fui o primeiro a terminar de comer. A comida estava ótima, então deduzi que foi o Jarvis quem havia feito, não o meu pai. Levantei-me, pus as louças na pia e subi para o meu quarto, deixando minha mãe e o meu pai a sós.

Joguei-me na cama, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Zack:

"Adivinha quem apareceu aqui"

"Zabuza Momochi: O Demônio do Gás Oculto?" - respondeu ele dois minutos depois.

"Não, idiota. O meu pai..."

"Não pode ser. É ele mesmo?"

"Não, ele nunca sairia da Inglaterra para vir pra cá. Ele hackeou o Jarvis de novo."

"Hoje tem, hein?!"

"Não consigo parar de pensar nessa merda."

"*Risos* Pelo menos ele apareceu, né?"

"Para mim tanto faz."

"Calma, jovem. É o seu pai."

"É, eu sei... Vou dormir agora. A gente se fala amanhã."

"Beleza, Bro! Té mais"

Larguei o celular e passei a encarar o teto.

Sete dias. Era o que faltava para uma vida nova começar. Eu deveria estar radiante, feliz ou sei lá o que. Mas não estava. Eu estava nervoso e com medo. Sentia o frio na barriga e o coração acelerado como se tudo estivesse à um minuto de acontecer.

- Não sei se estou pronto para isso... - pensei alto. - Não sei mesmo...

Não muito depois ouvi a cama da minha mãe ranger como se fosse quebrar a qualquer momento. Porra, Jarvis...

CONTINUA...

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Fala ai, galera do CPBR! Aqui quem fala é o Matheus, criador da série “Distopia” e “Monstros Em Meus Ombros”. Venho aqui, por meio desta divulgação exclusiva do iniciozinho do segundo episódio da série, para contar pra vocês uma grande novidade, e também saber o que vocês acham disso! 

Seguinte: há uns dois meses mais ou menos, enviei o primeiro capítulo de Distopia para uma editora – só de sacanagem mesmo okadokaokd – Só que ai, inesperadamente, ontem, eles me enviaram um e-mail, caras! UM FUCKING E-MAIl!!! E adivinha? Siiim! Eles aprovaram a estória!


Honestamente, eu não sei o que vem a seguir, mas gostaria de tá compartilhando isso com vocês, que tanto me apoiaram nos comentários do primeiro episódio. Muito obrigado mesmo, galera! Dando tudo certo, aparecerei de novo por aqui para avisá-los, mantê-los informados e tudo o mais. Espero que tenham gostado deste pequeno começo do episódio 2, que será muuuuito maior que o primeiro. E espero contar com o apoio de vocês depois que a estória for de fato publicada. Mais uma vez muito obrigado por tudo, galera! E muito obrigado também à todo o pessoal do CPBR pela força <3



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