16/10/2017

Foi a pior coisa que ele já viu

ATENÇÃO: ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.


Quando meu velho amigo da escola, Eric, ligou para casa, eu fiquei mais do que chocado. E pensar que ele lembrava o número. Havia trocado meu celular várias vezes desde a última vez que havia falado com ele.



"Quanto tempo, Keener", ele disse para mim.

"Você ainda se lembra do apelido também", respondi, sorrindo para o nada.

"Nunca esqueço", ele disse, rindo, "Então, vou estar na cidade esse final de semana, só no sábado, você está livre?"

"Sim cara, vai ser ótimo ver você."

"Digo o mesmo. Darren e Gazz ainda estão por aí?"

"Não, eles foram para a universidade e eu meio que perdi o contato."

"Você é bom nisso", ele disse, se referindo ao fato de não termos conversado por um longo tempo.

"Ei, é uma via de mão dupla."

"Brincadeira, nos vemos no Charlie's às sete?"

"Sim, é um dos únicos lugares que ainda tem aqui. Quando o mundo acabar, a última coisa a sumir provavelmente vai ser aquela placa."

Nós dois rimos.

"Estou ansioso para te ver."

E foi isso. Uma conversa rápida, como se não houvéssemos nos separado nem por um dia, imagina quatro anos.

É incrível como sua cidade natal muda conforme o tempo. Quando você mora nela, as mudanças são pequenas e infrequentes, é como se nunca mudasse realmente. Mas para o Eric, ia parecer tão diferente. A biblioteca do cruzamento era agora uma pilha de entulho. O posto policial era meu vizinho, vindo da extremidade da cidade. E os semáforos, eles não estavam lá antes. Mas agora eles brilhavam em fases como luzes natalinas.

Cheguei ao Charlie's. A placa de neon desafiava os anos enquanto iluminava o céu noturno. Ela zumbia e piscava, chamando a atenção dos clientes, persuadindo-os a entrar. Sabendo que dentro seria aconchegante, e teria cerveja no balcão.

Uma fumaça fedorenta me cumprimentou assim que abri a porta. A jukebox retrô dava seu máximo em tocar a música country que lhe empurraram; como um velho recitando canções que há muito esquecera. E lá estava ele, sentado em um banco de frente com o bar.

"Ei, Eric, já podemos te chamar de Doutor?"

Ele corou, "Ainda não, Mike, tem mais alguns anos até poderem."

"Bom te ver, cara", ele disse, me dando tapinhas nas costas.

Ele exalava álcool.

"Igualmente. A quanto tempo está aqui bebendo? Seu hálito parece vodka pura!"

"Eu cheguei um pouquinho mais cedo, e temos que viver o presente."

O encarei, preocupado em ter ofendido meu velho amigo. Pelo que pareceram minutos, nós permanecemos olhando um nos olhos do outro, até que Eric se rendeu, um sorriso apareceu em seu rosto.

"Tô zoando! Só porque fui para a faculdade de medicina, não significa que não tenho senso de humor."

Aliviado, eu sorri de volta.

"Deveríamos pegar uma mesa?" Eu perguntei.

"Tudo no seu tempo; deixe eu te pagar uma bebida, qual você quer?"

"Uma cerveja?"

"Bom, pelo menos seu gosto não mudou. Ei Mike, você se lembra de quando Darren bebeu todo o Miller Light do seu pai? Nós o encontramos numa piscina de vômito no porão."

"Sabe, meu pai ainda menciona isso quando descemos lá. A marca do vômito ainda aparece no concreto", eu disse rindo.

Era como se ele nunca tivesse me deixado.

Peguei minha cerveja e nos dirigimos para uma mesa.

"Então, como a Universidade te tratou?" perguntei.

"Foi bom, bom. Trabalho pesado, mas vale a pena."

"Por que você não voltou antes?"

"Uh," ele gaguejou.

"Tudo bem, você não queria se misturar com a gente, caipiras, é muito baixo para o seu nível." Respondi.

"Ah, cara, não é bem assim."

"Estou brincando, você está muito nervoso."

"Desculpa, me sinto mal sobre isso. Você sabe como é, em período letivo eu não podia, e nos feriados eu estava trabalhando."

"Trabalhando no quê?"

Eric tomou um grande gole de cerveja antes de admitir, "Estive trabalhando no necrotério da Universidade, sabe, ajudando."

"Puta merda, sério?"

"Sim, eles pagam muito bem."

"O que você fazia?"

"Tinha que lavar os corpos para a preparação dos funerais."

"Porra, não tem dinheiro que pague isso. Quanto você ganhava?"

"$50 por hora."

"$50 por hora? Ok, talvez isso pague o serviço."

"Não é fácil como você está pensando."

"Que? Pegue uma esponja, esfregue em algum velho e leve para casa um puta dinheiro?"

"Essa parte é fácil. É quando o corpo não está em perfeitas condições que você realmente começa a batalhar pelo dinheiro."

"Como assim?"

"Bom, corpos baleados são mais difíceis de limpar. Você tem que tomar cuidado para não desmanchar tudo."

"Desmanchar?"

"Sim, se alguém foi baleado no rosto, você tem que tomar cuidado em não mexer muito na cabeça. Os técnicos do necrotério fazem o melhor para reconstruir as coisas, mas não é como se colocassem chapas de metal."

"Por exemplo, se alguém morre numa batida de carro, os ossos não vão se curar. Manter o cadáver parecendo um humano é um trabalho difícil. E quando você pega um resmungão... Isso vai te assustar pra caralho."

"Um resmungão?" perguntei, tomando outro gole da minha bebida.

"Imagina, você está trabalhando até tarde. É um dia ruim; algumas vezes, eu tive seis corpos para lavar. Eles estão deitados em suas respectivas macas de ferro. Você tenta ser o mais respeitoso possível. Mas cada corpo tem a mesma incisão em formato de Y da autópsia. Algumas são piores, devido à quantidade de teste forenses e seus abusos. Você se torna distraído, já que normalmente trabalha sozinho, e de repente houve um gemido."

"Você olha ao redor para ver se tem mais alguém ali. Mas você está sozinho, a única companhia sendo a morte. O gemido se torna mais alto antes de você ver um dos corpos se sentar. Você derruba o quer que esteja em suas mãos e corre igual um desgraçado!"

"Porra cara! Eles estavam vivos?"

Eric ri com escárnio, "Não. Quando você atinge o topo das escadas e vê um zelador encerando o chão, as luzes fluorescentes do hospital te acordam. Você desce as escadas, um pouco envergonhado, e volta ao necrotério."

"Você vê o corpo que agora estende no chão, por ter caído de sua maca. Você se repreende por ter de assustando tanto. A coisa mais vergonhosa é quando você precisa procurar por ajuda para colocar o cadáver de volta no lugar."

"Uma vez, tentei mover um sozinho, e devo ter rompido os pontos, porque os intestinos se espalharam pelo chão como cobras."

"Mas então o que causa isso?", perguntei.

"Dilatação de gás. Acontece com mais frequência do que você poderia imaginar. O cheiro que deixa é horrível. Eu uso Vick Vaporub como se fosse licor de malte."

"Mudei de ideia; $50 por hora não é suficiente!" eu falei envergonhado, "Acho que precisamos de mais bebida."

Eu sinalizei para a garçonete, que se aproximou e anotou nossos pedidos.

"Minha vez", falei, estendendo minha carteira para Eric. Ele tirou uma nota vinte. "Pegue algo legal pra você, linda", ele disse para a garçonete, antes de bater na bunda dela. Ela riu. Não soube se ela estava sendo educada ou tinha curtido.

"Jesus, cara, você tem mais algumas histórias?", perguntei intrigado.

"Sim, isso aconteceu algumas vezes, mas a primeira delas foi assustadora pra porra. Quando você está lavando os corpos, usa luvas e ensaboa as coisas. Tem que levantar os braços e ter certeza de que limpou tudo. De vez em quando, a mão do cadáver vai agarrar a sua com força. Nunca fica mais fácil, sempre assusta. Você encara o corpo, procurando por algum sinal de movimento, e quando não há, você solta os dedos dele um por vez."
"Às vezes você ouve um estalo quando a pressão sobe. Os novatos sempre entram em pânico e não há nada que se possa fazer além de rir. Você tem que encontrar humor nesse trabalho, entende?"

"Puta merda, cara", falei, "você sai por alguns anos e volta um filho da puta mórbido. Então, você cheira a formaldeído o tempo todo e essas bostas?"

"Bom, os banhos são mais longos e tenho que limpar minhas narinas profundamente. Senão, o cheiro da morte dura por dias."

"Isso é loucura cara. Por que você faz?”

Ele esfregou os dedos, simbolizando dinheiro, "$50 por hora, amigo."

Terminei minha primeira bebida e comecei a nova.

"Então, o que você tem feito?" Eric perguntou.

"Nada demais, trabalhando com construções."

"Como é isso?"

"Nem metade do seu trabalho. Fico muito tempo ao ar livre. Não é ruim, pra falar a verdade. Poderia ser pior, tipo lavar o saco de algum cadáver. Mas isso é mais a sua cara."

Ele sorriu. Eu estava feliz em estar com meu amigo, com quem eu tinha passado tanto tempo da minha vida. É incrível como amigos verdadeiros podem fazer você voltar no tempo. Foi esse sentimento que me fez sentir culpa.

"Sinto muito por não ter mantido contato", falei.

"Parece que a cerveja foi direto pra sua cabeça."

"Não é isso, é que eu deveria ter mantido."

"Ei, eu também não mantive. Mas estamos aqui agora. Aproveite isso."

"Qual foi a pior coisa que já aconteceu?"

"O que, no meu trabalho?" Eric perguntou, confuso.

"Qualquer lugar, quero ficar traumatizado."

Ele ergueu sua cabeça e encarou um ponto distante. Um sorriso brincou no canto da sua boca, seus olhos foram de um lado para o outro, como se ele lembrasse de alguma coisa. Pegou sua bebida com uma mão e a levou até a boca.

"Se eu te contar, você promete nunca falar pra ninguém? Tipo, sério."

"Bom, eu não sei o que é ainda."

Ele abaixou a cerveja.

Seu tom se tornou mais baixo e sombrio, "Posso confiar em você, não posso, Mike?"

"Claro", falei, me inclinando intrigado.

"Lembre-se que eu sei onde você mora."

Me sentei ereto novamente.

"Isso é meio sinistro."

Ele riu, "Não estou brincando."

"Prometo."

Ele assentiu, como se juntando a coragem para contar esta história. Seus olhos se voltaram para mim de novo e ele começou.

"Era verão, eu tinha 16 anos. Você estava fora visitando parentes. Me lembro de como estava sozinho, então meu pai me levou para seu trabalho no posto. Como você sabe, ele era policial. Já tinha ido trabalhar com ele antes. Mas quando eu era menor, ele me colocava sentado com a secretária, e me pegava na hora de ir pra casa. Aquele dia foi diferente.

Ele me disse que eu era um homem jovem agora, e que se eu quisesse, podia ir com ele. Ele estava programando a busca por uma garota perdida da nossa escola.

"Eita porra, eu lembro disso", falei.

Eric ficou irritado com minha interrupção, "Você quer que eu conte a história ou não?"

"Foi mal, cara. Continue."

"Nós dirigimos em silêncio por algumas quadras, antes de virar uma rua para o bosque Mayberry. Enquanto nos aproximávamos do estacionamento de cascalho, puder ver vários carros estacionados. Reconheci alguma das pessoas, familiares e vizinhos. Meu pai estava feliz, disse que era uma boa ajuda. Quanto mais gente, melhor. Que cada minuto contava enquanto procurávamos por alguém vivo."

"Saímos do carro e ele começou a reunir todas as pessoas. Lhes deu instruções. Deveriam se dividir em grupos e andar em linhas retas dentro do bosque. Para cobrir a maior área possível."

"Eu fiquei no meio do aglomerado, fascinado como o jeito que todos ouviam e obedeciam meu pai. Alguém nos entregou apitos. Meu pai explicou para os usarmos quando encontrássemos algo interessante. Assim que ele terminou, todos estavam se dividindo e cuidando de seus trabalhos. Sendo um adolescente, fiquei para trás, chutando pedras, minhas mãos enfiadas nos meus bolsos. Depois de mais ou menos quinze minutos, fiquei entediado."

"Não notei quão longe eu tinha ficado do grupo. Gritei e não ouvi nada. Comecei a ficar nervoso. Eu estive naquele bosque muitas vezes antes, mas agora eu estava sozinho. Em todas as direções, haviam apenas árvores, a desorientação veio sem que eu percebesse, e não tinha nem ideia de onde eu havia vindo."

"Apressei o passo, primeiro em uma direção, depois parando e indo em outra. Me lembro de estar me sentindo doente enquanto corria e meu coração esmurrava meu peito. Passei debaixo de galhos e pulei por raízes. Antes de perceber, estava com a cara no chão. Não tinha ideia do que acontecera. Olhei para cima e as árvores giravam enquanto eu tentava meu melhor para retomar o controle. Pequenos pontos brancos dançavam na minha visão."

"Quando me virei para levantar, paralisei. Lá, olhando para trás de mim de dentro dos arbustos tinha um rosto. Um rosto pálido, quase como um fantasma. Tropecei em pânico e fiquei sobre meus joelhos. Pude ver tudo dela. Folhas cobriam a maior parte de seu corpo nu e ela estava deitada imóvel."

"Eu queria gritar, dizer que havia a encontrado. Mas não conseguia. Tudo que pode fazer foi encarar. Seus olhos brilhavam na luz do sol, como se ainda houvesse vida por trás deles. Eu nunca havia visto um cadáver antes, foi inacreditável. Ela parecia tão em paz. Me lembro de ter sorrido, pensando em como
a morte não era tão ruim. Especialmente se você pudesse ficar tão bem nela."

"Meu encanto foi quebrado quando ouvi o eco de um apito pela floresta. Não sei quanto tempo se passou até alguém me encontrar e não sei o que fiz nesse tempo. Disseram que era hora de ir, que eles a haviam encontrado."

"Porra, que pesado."

Eric não disse uma palavra, só abaixou sua bebida.

"Outra?" perguntei, chacoalhando o copo vazio em sua frente.

Ele assentiu. Chamei a garçonete de novo e decidi pedir alguns shots pra tomarmos com a cerveja.

"Não consigo acreditar que nunca me contou isso."

"Eu não terminei", ele disse, num tom sério. "Quando chegamos em casa, meu pai contou à minha mãe o quão bem eu tinha ido. Mais tarde, nos sentamos em frente a TV para assistir o jornal. Meu pai ficou radiante ao ver sua entrevista. Uma foto da garota desaparecida tomou conta da tela e o medo me dominou. Era a cor de sua pele — um marrom pálido. Eu não entendia como a pele podia perder sua cor na morte, e isso me assustou."

"Meu pai me parabenizou de novo pelo bom trabalho. Disse que eu estava pálido e perguntou se me sentia bem. Assenti e tentei esquecer a imagem do corpo branco de porcelana que tinha visto mais cedo aquele dia."

"Foi ela quem você viu?" perguntei.

"Dois dias depois, meu pai chegou em casa chateado, murmurando algo sobre negligência e suspensão para minha mãe. Eu vi na TV depois, um segundo corpo. Ela havia se arrastado pela floresta nua e colapsou na extremidades do caminho. Um guarda florestal a encontrou, mas ela morreu antes da ambulância chegar. Eu a vi, a garota pálida daquele dia no bosque. Ela estava viva e eu poderia ter ajudado. Mas não o fiz, tive medo."

"Você não sabia."

"Eu não contei isso pra ninguém antes. É como tirar um peso dos meus ombros. Obrigada. Me sinto melhor."

"Você acha que esse é o motivo de ter optado pela medicina?"

"Sabe, nunca pensei por esse lado", falou, balançando a cabeça. "Ei, você sabe o nome da garçonete?"

"Não, as mudanças aqui são frequentes. Nunca a vi antes de hoje."

"Vou pedir mais algumas cervejas, ver se consigo o número dela."

"Preciso mijar. Vou pular essa rodada.", falei, me levantando de minha cadeira.

Cambaleei um pouco, o álcool e a revelação que ouvi me deixando tonto. Fiquei na frente da urinária e pensei no meu amigo. Como ele havia carregado aquilo em segredo por tantos anos. Me fez perceber o quão pouco eu o conhecia. Mas o fato de ele ter desabafado, me fez sentir mais próximo a ele do que nunca.

Voltei para nossa mesa, para encontrar assentos vazios. Uma pequena nota de papel estava debaixo da minha cerveja. A peguei, o círculo molhado da latinha atrapalhando a leitura.

"Mike, a garçonete é corajosa. Desculpa te deixar na mão. Lembre-se, eu sei onde você mora ;)"

Havia uma nota de vinte dólares na mesa. Me afundei na cadeira para terminar minha cerveja. Eu não o conhecia, depois de tudo. Paguei nossa conta no bar e terminei a cerveja nos bancos de lá.

Algumas horas depois, caminhei até minha casa. Meus pais já dormiam. Peguei uma cerveja da geladeira e me prometi que aquela seria a última. Deitei no sofá e liguei a TV. Dormi enquanto algum comercial de ginástica passava.

Despertei cedo no outro dia. A claridade da TV machucou meus olhos e eu os desviei. Me arrestei até a cozinha e tirei uma garrafa de OJ da geladeira. Bebi o máximo que pude, tossindo em busca de ar quando terminei. A secretária eletrônica apitou. Cliquei no botão como um zumbi.

"Ei Mike, obrigada pela noite passada. Desculpe por ter saído com pressa. Bem, merda, eu fiquei com a sua carteira. Vou mandar pelo correio ou algo assim, não se preocupe, sei onde você mora. Legal te ver."

Levei as mãos aos bolsos. Porra, ela não estava lá. Procurei pela minha carteira no sofá, olhando cada fresta entre as almofadas. Ouvi o boletim policial na TV.

"Nas primeiras horas da manhã, o corpo de Daniela Smith..."

Me virei para assistir. Uma foto apareceu na tela. Eu a reconheci, mas não sabia de onde.

"Funcionária do Charlie's Bar e Grill, situado no 158. A polícia está atrás deste homem, cuja carteira de motorista foi encontrada junto ao corpo."

Me senti fraco e caí no chão. Era eu. Uma imagem da minha carteira de motorista apareceu no monitor. Eu sabia que era questão de tempo até eles virem atrás de mim. E eu sei que vai ser o pai do Eric que baterá na minha porta. Eu liguei para a Universidade hoje, e eles não ouviram de Eric. Me colocaram para falar com do necrotério. A pessoa com quem falei reconheceu minha descrição. Disseram que ele havia sido demitido por má conduta com os corpos anos atrás. Pedi por detalhes, me foram negados.

E agora eu espero. Está anoitecendo em uma pequena cidade. A polícia estará aqui logo e não acreditarão em mim.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!




15/10/2017

Minhas Vacas

O comércio do Saara, terras áridas onde homens relativamente livres tocam seu negócio relativamente legal. Depois de um dia difícil de trabalho no meio da multidão, Russo sai um pouco do pardieiro que é o local de vendas, ele é um vendedor de animais, exclusivamente de vacas, as trata bem e tem uma certa fama pela qualidade do seu produto.

Chegando a tarde, é hora de ir para casa, mas antes uma passada no bar, porque ninguém é de ferro. O lugar era uma típica espelunca do deserto, mas tinha música ambiente, uma bela vaca adestrada dançava num poste ao centro e o dono tinha um segurança com 2,65m, parecia um touro, que não deixava as discussões chegarem a um nível muito alto. Russo se senta e pede uma raiz forte. Enquanto espera, vê seu amigo Chang, um muambeiro de primeira, consegue produtos mais valiosos que comida pra um esfomeado e tem a manha pra não ser pego pelos guardas.

Chang. "Meu avô dizia que esses lugares já serviram suco de cevada da melhor qualidade... Ei! Traz uma raiz aqui também."

O atendente voltava em pouco tempo e colocava na mesa dois copos de leite com uma raiz marrom dentro, Chang quebrava a raiz, molhava um pouco no copo e começava a comer, parecia meio irritado.

Russo. "Dia difícil?"

Chang. "Difícil pacas, duas das minhas fontes acabaram morrendo na fronteira, espero que tenham morrido rápido e não aberto a boca pra falar meu nome."

Russo. "Já disse tovarisch, quando quiser é só vir comigo, trabalhar pra mim é muito melhor do que passar os dias subornando guardas."

Chang. "Não Russo, eu tô quase conseguindo, mais um pouco de grana e eu consigo me mandar daqui, ir... sei lá, pra América do Sul... bem ao Sul... eu só não quero continuar aqui nesse buraco."

A conversa durava com as reclamações de Chang, eram até comuns, mas naquela noite, ele comeu tanta raiz, que Russo teve de levá-lo para casa ou ele acabaria com o rabo preso pela manhã naquele lugar... em sentidos bem desagradáveis. Então Russo o colocou no jipe e foi dirigindo até sua casa, onde dormiria até de manhã, ele devia muito ao Chang, foi o único que lhe deu emprego quando foi jogado ainda criança no deserto, todo esfarrapado, ele trabalhou para o chinês até os 12, quando teve condições de montar seu próprio negócio por ali mesmo, mas agora Chang não andava muito bem nas finanças, passou a investir tudo em um jeito de sair do deserto.

Chang. "... consegui um cara sabe? É um humano..."

Russo. "Você está completamente adormecido, mas não custa dizer, lhe avisei, pare de vender humanos, ainda mais sem autorização. Ia atrair olhares uma hora ou outra, talvez tenha sido por isso que pegaram suas fontes lá na fronteira, vai ver já estão atrás de você."

Chang. "Não, esse vale a pena, ele é valioso, é velho, mas é valioso."

Russo. "Para que alguém iria querer um escravo velho?"

Chang. "Não um escravo amigo, um objeto de estudo, eu analisei esse cara, ele é quente, eu vi, Russo, ele tem DNA cem por cento humano e acho que ele fala inglês."

Russo. "Que? O que é inglês?"

Chang. "Faz tempo, eu consegui umas peças de avião, tinha caído um lá pelo Golfo e eu consegui uma pechincha nele, tinha coisa que não valia nada, tudo queimado, mas então eu encontrei um livro numa maleta, ele dizia o seguinte: que até em mil e quinhentos, na época das descobertas, quando Himmler descobriu as américas, vários países europeus falavam o inglês, mas com a ascensão de Himmler, essa língua foi sendo esquecida ao longo dos anos, pelo menos é o que o autor do livro teoriza. Daí eu passei a procurar mais coisas, e posso dizer amigo... eu encontrei, eu encontrei tudo e esse sujeito é a cereja no bolo, é ele quem vai me tirar daqui e...."

Antes que Chang terminasse, Russo ouve um tiro vindo do nada, acertava o chinês em cheio pelo lado, Russo era um homem parrudo, mas nesse momento ele sentia um frio no estômago, por um segundo apenas dava pra constatar que não eram ladrões, pela história de Chang, eram os guardas, haviam achado seu amigo, achado ele e o que Russo mais se preocupava, suas vacas.

Chang. "O velho tá no meu galpão, naquele lugar... pega ele, vende pra resistência e sai daqui... eu sei que você consegue... "

O chinês morria no veículo em movimento, Russo fazia uma manobra rápida e pulava enquanto uma cortina de areia era levantada com aquele movimento todo, podia-se ouvir o tiros em direção ao jipe até acertar o tanque de combustível e explodir.

Guarda. "Pegamos, vamos verificar o corpo."

Escondido em meio à e=escuridão e na areia, Russo ouvia os passos chegando, as vozes do guarda e a voz metálica vinda de um fone, falando algo quanto a terem terminado o serviço no rancho. Nesse momento, o sangue de Russo parece subir para a cabeça, ele sai da sua segurança e para sua sorte e surpresa do guarda, consegue correr rápido e sorrateiro o suficiente para estrangular seu agressor num mata-leão, ainda escapando de um último tiro o guarda. Foi até fácil, não era a primeira vez que Russo tinha matado alguém, a vida no deserto era difícil. O corpo do guarda caía no chão.

Russo. "Essa é pelo Chang, seu rato fedorento."

Com o jipe destruído, Russo, pega a roupa e a arma do agressor e vai correndo pelo deserto, à pé, todo o resto do caminho, o guarda devia ter chegado lá em algum veículo, mas ele nem pensava nisso, ele só queria correr até o único rancho que havia naquela região, o dele. Já era tarde, de longe ele via o celeiro pegando fogo, mesmo assim ele ainda queria entrar, abria o portão e entrava na casa, sua mulher e filhos estavam lá, a casa estava intacta e por um momento ele teve esperanças, mas percebeu que se o único local queimado foi o celeiro... ele corre para lá e confirma, estavam todos lá: a família que construiu, a vacas, os funcionários e tudo mais comido pelo fogo. Ele então pega a mulher nos braços, ergue com dificuldade o corpo de 2,45m no colo e vai para fora fazer um enterro digno.

Russo. "Desculpa Chang, mas eu não vou embora, não importa quem seja, eu vou ficar e me vingar, ninguém mexe com minhas vacas!"

Autor: Enoc Fragata

14/10/2017

Alcançando Plutão

Em 1976, a União Soviética iniciou outra tentativa de alcançar uma fronteira espacial antes dos Estados Unidos. O projeto foi mantido em total segredo, e nenhuma informação havia sido revelada até agora. O foguete, que foi construído usando parte da tecnologia e da equipe remanescente do último programa para Marte, foi chamado Tizhonov 1. Seu design foi feito para manter os cosmonautas em relativo conforto durante a longa jornada. Com o trabalho intenso no projeto, o foguete estava pronto para ser lançado em 21 de julho de 1978.

Nos dois anos que se passaram entre o início e o fim da construção do foguete, o governo fez inúmeros testes para selecionar a equipe de 6 pessoas perfeita para viajar nele. O que começou com 200 pessoas terminou, após vários exames físicos e psicológicos, em apenas 12, que foram colocadas em quartos praticamente vazios, onde não haviam ruídos e apenas luzes artificiais. Os últimos 6 a saírem seriam aqueles que viajariam no Tizhonov 1. Após esse teste de resistência, que durou 7 meses, os 6 cosmonautas foram escolhidos: 4 homens (Vladmir, Aleksei, Petrov e um quarto) e 2 mulheres (Elmira e uma segunda). Nenhum de seus sobrenomes é conhecido, uma vez que, assim como os nomes dos 2 cosmonautas desconhecidos, essa informação foi removida na única cópia restante dos documentos.

Nas primeiras horas de 06 de Novembro de 1978, o Tizhonov 1 foi lançado no espaço. Ninguém na imprensa nacional ou internacional foi informado a respeito: a União Soviética manteve tudo em sigilo para que não houvesse nenhuma situação embaraçosa para o governo caso algo desse errado novamente. Para supresa geral, o foguete não apenas foi lançado sem qualquer problema, mas voou muito mais rápido do que foi previsto pelos cientistas do programa espacial soviético. De acordo com todos os cálculos, o foguete levaria, aproximadamente, 11 anos para chegar ao destino, mas na nova, inesperada velocidade que estava alcançado, os cientistas estimavam que levaria apenas 8 anos para chegar ao destino.

Durante os 8 anos que se passaram, a estação fazia contato com os astronautas de hora em hora, para ver como eles estavam. Eles comemoraram quando foram informados do quão rápido o foguete estava viajando, uma vez que, embora eles tivessem passado o teste de resistência, estavam preocupados com a possibilidade de ficarem muito entediados com a longa espera. Nada fora do normal aconteceu por muito tempo, até a segunda metade do sétimo ano.

Os dois cosmonautas desconhecidos informaram a estação que estavam tendo pesadelos estranhos, do tipo que nunca antes tiveram em suas vidas. Embora os cientistas tenham perguntado a respeito, nenhum dos dois forneceu mais detalhes, dizendo que provavelmente estavam apenas perdendo horas de sono devido à ansiedade de estarem tão perto do destino. No entanto, eles ainda reclamaram desses pesadelos por algumas semanas, parecendo cada vez mais frustrados, até que... nada. Toda informação foi removida, e todos os esforços para descobrir o que aconteceu se provaram inúteis. O que quer que tenha acontecido, no entanto, parece ter sido muito melhor que o que aconteceu com os quatro que restaram.

Quando o foguete pousou em Plutão, em 25 de Dezembro de 1986, houve uma grande celebração nos quartéis soviéticos. Os cosmonautas informaram um pouso seguro, e que iriam iniciar uma caminhada no solo do então nono planeta. É aí que as coisas se tornam sombrias, embora, como é de costume, muitos detalhes estão faltando, e nós só sabemos o que sabemos porque um dos cientistas soviéticos, de alguma forma, salvou da destruição sua cópia da gravação dos eventos que transcorreram no único dia que os cosmonautas passaram em Plutão. O que você lerá é uma tradução da transcrição da fita que sobreviveu.



VLADMIR: Nós finalmente estamos aqui. Apesar do termômetro dizer que está fazendo -203 graus agora, nossos trajes espaciais estão nos mantendo surpreendentemente aquecidos neste pequeno e frio planeta. Vivas para a União Soviética, camaradas!

ALEKSEI, PETROV E ELMIRA: Vivas!

ELMIRA: A pressão é muito baixa aqui. Ela é tão baixa que nossas ferramentas sequer podem medi-la. Ou isso, ou elas estão quebradas. Mas eu estou mais inclinada a acreditar na primeira opção. Nós devemos esperar no foguete primeiro para nos acostumarmos à pressão?

Silêncio.

ELMIRA: Entendido. Neste caso, nós seguiremos com nossa missão. Petrov, você poderia abrir a porta para nós?

PETROV: Sim. Um momento.

Passos, e então o som de uma porta sendo aberta, são ouvidos.

ALEKSEI: Perfeito. Não poderemos desperdiçar um instante sequer.

Mais comemorações são ouvidas enquanto os cosomonautas saem do foguete. Após alguns momentos de silêncio, a comunicação é retomada.

VLADMIR: Isso não é o que esperávamos ver em absoluto.

A voz de Vladmir está tensa, e é seguida por silêncio.

ELMIRA: Como poderíamos descrever isso? Não é como qualquer coisa que tenhamos visto antes. Parece... Existem objetos semelhantes a enormes telas de televisão por todo lado. Elas mostram coisas que sumiram muito antes da televisão existir, e coisas que provavelmente irão existir muito após o fim da televisão. E também -

Silêncio.

PETROV, ALEKSEI E VLADMIR: Certo.

Silêncio.

ELMIRA: Não existem pessoas ou seres vivos até onde a vista alcança. Podemos ver coisas semelhantes aos postes de rua, mas o que emana deles não é luz, e sim, escuridão.

Sons de passos são ouvidos por mais de um minuto. Quando as vozes são ouvidas novamente, estão ainda mais tensas que antes.

PETROV: Se vocês pudessem testemunhar o que nós estamos testemunhando aqui! Vocês iriam enlouquecer!

ALEKSEI: E provavelmente nós já enlouquecemos!

Silêncio. De repente, um ruído metálico é ouvido. O som de um tiro vem em seguida.

PETROV, ALEKSEI E VLADMIR: [murmúrio indecifrável coletivo]

ELMIRA: Camaradas, acalmem-se. Deixar-se impressionar por algo assim vai apenas fazer com que tudo fique pior.

VLADMIR: Como podemos nos acalmar? Nós não fomos designados para ver o que nós acabamos de ver!

ELMIRA: Sim, mas -

Silêncio.

ELMIRA: Imagine uma criança cuja pele fosse a mesma de um lagarto. Cujos olhos fossem inexistentes, e através de cujas cavidades você pudesse ver seu cérebro. Cuja boca fosse cheia de dentes afiadíssimos. Imagine tudo isso e mais coisas que não podemos sequer pensar em descrever.

Silêncio.

VLADMIR: Seria muito perigoso. Essa coisa é provavelmente venenosa.

Silêncio.

VLADMIR: Nós não queremos correr o risco.

Silêncio.

VLADMIR: Pare de fazer esse pedido!

Silêncio.

VLADMIR: Está bem! Está bem! Se você quer que seus heróis arrisquem suas vidas, então nós levaremos essa criatura para a Terra com o maior prazer!

ALEKSEI: Temos espaço no foguete para armazenar algo assim?

PETROV: Sim, mas estava reservado para outras coisas do planeta Plutão, não apenas um troféu.

Silêncio.

PETROV: Desculpe-me.

Outro som metálico é ouvido. O que se segue são os gritos dos quatro cosmonautas, e então tiros.

ELMIRA: CORRAM!

Passos apressados são ouvidos. Atrás deles, o ruído metálico fica cada vez mais alto até alcançar os passos. Os gritos ficam mais altos e incoerentes. Tiros são ouvidos.

Ouve-se Vladmir gritando, então gargarejando, e então mais nada é ouvido dele.

Após alguns instantes, Petrov parece tropeçar em algo, e, após um baque forte, ofega antes de silenciar por completo.

Aleksei grita palavrões por todo o tempo restante, até que um som alto e violento de algo sendo cortado é ouvido, seguido por pequenos baques.

Elmira continua a disparar a arma mesmo depois que o último de seus colegas sucumbe. Eventualmente ela alcança o interior do foguete e bate a porta. Ela chora.

ELMIRA: ELES ESTÃO TODOS MORTOS! MORTOS! NÃO HÁ MAIS NADA QUE POSSA SER FEITO!

Silêncio por alguns instantes.

ELMIRA: Vladmir... Ele foi... Então a criatura... Tentáculos... Apêndices sugadores de sangue... Então Petrov.... Ele tentou... Nós tentamos... Mas... Pés... Garras... Pisão... Parou... Aleksei... Cortado... Partido... A criatura... Não é... Nós nunca... Nossas famílias... Eles todos... Nós nunca... Propriamente enterrados... Nós...

Nesse ponto, a fita corta para estática.


Os cientistas e oficiais na Terra ficaram completamente perplexos. Tentativas de retomar contato com os cosmonautas se provaram inúteis. Houveram planos para enviar um segundo foguete a Plutão para tentar ver o que aconteceu aos cosmonautas, mas o projeto foi adiado e eventualmente cancelado devido à crise da União Soviética. Quando ela foi dissolvida e cada país tornou-se independente, quase todas as informações da missão haviam sumido. Os destinos de Elmira, Vladmir, Aleksei, Petrov e os cosmonautas desconhecidos ainda são um mistério.



Originalmente postada no blog Secret colour from hell