23/02/2017

O Gato Preto

Conto de: Edgar Allan Poe.
Enviado por: Breno Henrique. 

Obrigado por enviar Breno :) 

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava,

especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por

um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade.

Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas

não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim.

Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer

qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade.

Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele.

Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, as palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.


Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa —, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu

quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo. Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua

aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo.

Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor

compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo —, pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso —, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim,

homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em

pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse

podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também

para tomar duplamente evidente a minha inocência.

— Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror.

Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja.

Voz reveladora me entregava ao carrasco.

Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!


22/02/2017

Encontrei algo... impossível no meu jardim.

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Nós temos um lago de Carpas no meu jardim. É tipo um projeto sem fim, meu e da minha esposa, algo que, nesses três anos que moramos nessa casa, nos custou muito tempo, esforço e dinheiro. Algumas semanas atrás, decidimos que queríamos aumentá-lo, e semana passada finalmente começamos a fazer o que tínhamos que fazer. Comecei a cavar. Depois de umas três horas, tinha cavado uma quantidade boa, e tinha atingido mais ou menos 1 metro e 20 centímetros de profundidade quando bati com a pá em algo. Seja lá o que fosse, era de metal.

Continuei a cavar, pois seja lá o que fosse, eu estava procurando por uma borda, até que achei. Segui a borda, cavando em volta, e por fim era um quadrado com uma maçaneta em cima, e duas dobradiças em um dos lados. Puxei a maçaneta, mas não consegui abrir. Achei que poderia ser um baú ou caixa de algum tipo, então continuei a cavar dos lados, mas não importava o quanto cavasse, não tinha fim. Por fim, cheguei a conclusão de que era uma escotilha, ou até um abrigo anti-bombas. Quando compramos a casa, não houve menção de um abrigo anti-bombas, nem havia nada mencionado no histórico da casa.

Cavei uma área em torno da escotilha para que pudesse chegar mais facilmente ao topo. Depois de várias horas, uma noite de sono, e no dia seguinte  mais algumas horas trabalhando com maçaricos, brocas, e martelos, finalmente consegui abrir a escotilha.


Assim que abri a porta, fui atingido por uma onda de um cheiro terrível. O fedor era rançoso e pútrido, uma mistura de ovos podres, leite estragado e um grupo de gambás mortos. Depois de recuperar o folego, consegui segurar a respiração para dar uma olhada lá dentro. Havia uma escada que descia mais ou menos uns seis metros, e mal consegui enxergar o chão com a iluminação que o sol provia. Fui até minha garagem e peguei uma máscara contra-poeira, esperando que a máscara fosse diminuir o fedor, e peguei minha lanterna.

Comecei a descer a escada enquanto minha esposa ficava no topo, me observando curiosamente. Quanto mais fundo eu ia, pior o cheiro ficava, e a máscara não estava ajudando nada para encobri-lo. Parei diversas vezes enquanto descia, tomado pela vontade de vomitar. Finalmente, acho que consegui me acostumar o suficiente para não ficar com ânsia a cada inspiração. Fui até o final, e um corredor dobrava para a esquerda, e depois se abria em um cômodo grande.

Assim como já suspeitava, se tratava de um abrigo. Haviam duas enormes prateleiras que um dia abrigaram alimentos não perecíveis, os quais quase todos já não estavam mais lá. Encontrei um interruptor de luz perto de mim e liguei. Para minha surpresa, três fileiras de luzes fluorescentes se ascenderam, permitindo que eu observasse toda a área. Era grande, tipo mais ou menos dois terços do meu porão e logo abaixo dele. Havia apenas uma cama de solteiro com um criado-mudo ao lado, na qual havia um radio portátil (mas não consigo acreditar que funcionasse tão fundo abaixo da terra). Havia um tapete no chão e em cima do mesmo uma mesa. Na mesinha haviam diversos livros, muitos cadernos e outros objetos. Em um dos cantos do cômodo havia um balde obviamente usado para a pessoa se aliviar, cheguei a essa conclusão pela crosta de bosta nas bordas e manchas amareladas de mijo. É um mistério para mim como ou onde balde era esvaziado.

Havia uma haste de suspensão improvisava em uma das paredes, no qual havia pendurado um terno muito, muito velho, e junto um capacete militar. Peguei alguns objetos do abrigo (livros, cadernos, radio, capacete, etc) e coloquei em uma caixa que encontrei em uma das prateleiras. Uma coisa estranha que percebi é que não havia embalagens espalhadas das comidas que haviam sido consumidas, pois, obviamente, esse abrigo já havia sido usado, sendo que a cama estava desfeita e o "banheiro" tinha sido usado. Mas não havia um lugar onde o lixo podia ser colocado. Não liguei muito na hora. 

Eu ainda não tinha dado uma olhada nos cadernos, mas quando o fiz, fiquei totalmente perturbado. Tudo que dizia, em centenas de páginas, eram as palavras "POR FAVOR DEIXE-ME SAIR". Nada mais, apenas essas palavras escritas em diferentes tamanhos em incontáveis páginas. Depois, dei uma pesquisada no capacete. Era um capacete que parecia ter sido utilizado na segunda guerra mundial, pertencendo ao exercito do EUA. Não consigo entender o que um soldado americano estaria fazendo em um abrigo no centro oeste dos Estados Unidos durante a segunda guerra. Outras coisa estranha que descobri que, apesar da maioria dos livros serem da mesma época do capacete, havia algumas cópias do começo dos anos 2000 e o radio havia sido fabricado em 1999. 

Totalmente confuso, voltei até o abrigo. Novamente desci pela escada. Decidi fazer uma inspeção minuciosa no local, com esperança que conseguisse descobrir qualquer coisa sobre quem pudesse ter estado lá. Olhei as comidas restantes nas prateleiras e todas eram da época da guerra. Procurei portas secretas, mas não encontrei nada; as paredes eram perfeitamente sólidas, sem nem uma rachadura sequer. Sentei na cadeira da escrivaninha e abri as gavetas; não havia nada. Examinei a mesa por cima e baixo, mas estava perfeita. Foi só quando eu arrastei a cadeira para trás e dei um passo no tapete que percebi que o chão era oco. Gritei para minha esposa dizendo que havia encontrado algo. 

Movi a cadeira para o lado, e tirei a escrivaninha de cima do tapete. Então, deslizei o tapete para o lado oposto da escrivaninha, o que fez revelar um alçapão que estava trancado com um cadeado enorme que ficava deitado em um afundamento no chão para que o tapete ficasse reto e a porta imperceptível. Com um martelo e um cinzel e um pouco de tempo consegui abrir o abrigo-dentro-de-um-abrigo e cai para trás quando tive um vislumbre de seu conteúdo. 

Era de dentro do alçapão que vinha o fedor. Um corpo em decomposição. Um que parecia estar ali a não mais do que uma ou duas semanas. O espaço era grande o suficiente só para caber um homem, que havia sido depositado de uma forma totalmente inatural para um ser humano. O único jeito que posso descrever é que parecia estar "dobrado", como uma roupa. Imediatamente gritei par amanha esposa sair da escotilha e ligar para a polícia.

O homem estava usando roupas da época da segunda guerra mundial. Em seu bolso havia uma identidade militar, mostrando que ele havia nascido em 1921. Em outro bolso havia um celular Motorola de 2007. Em seu coldre havia uma pistola fabricada em 1979. Algum tempo descobri que o nome registrado da identidade militar não estava nos arquivos de nenhuma força militar, e seu número de identidade pessoal não estava atribuído ao EUA. Ninguém com seu nome tinha sido registrado como desaparecido em toda a história do país.

Foi determinado pela perícia que o solo acima do alçapão não havia sido tocado a muitas décadas, e foi confirmado que a única porta de entrada e saída era a primeira que eu abri. As perguntas são óbvias: quem era esse homem? Como ele tinha tecnologia do futuro? Por quanto tempo ele ficou no abrigo? Quando morreu? Para onde os dejetos dele foram? Como podia parecer estar morto faziam apenas duas semanas no máximo?

Mas a pergunta que não me deixa dormir a noite é quem foi que o colocou em um alçapão, com cadeado, e ainda com um tapete e uma escrivaninha em cima? 
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FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!

TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA



20/02/2017

Não pegue as escadas

Deixe-me apenas começar dizendo que tenho medo de escadas. Um medo real de escadas.
Uma das minhas primeiras lembranças de infância foi quando decidi subir as escadas do meu prédio para alcançar os meus pais que estavam no elevador. As luzes acabaram e eu fiquei perdido no escuro, confuso e sem saber o que fazer. Entrei em pânico e fiquei sentado e chorando até o meu pai me encontrar.
Por muitos anos, nunca peguei escadas sem meu pai, minha mãe ou alguém para quem pudesse pedir ajuda. Era constrangedor que um cara como eu, que enfrentou os piores anos de faculdade, ainda não pudesse subir as escadas sozinho.
E assim, eu tomei medidas para combater isso.
Eu subi as escadas, alegando que eu precisava de exercício, mas sempre com um grande grupo de pessoas.
Mas um dia eu simplesmente não podia. O tempo passa, sonhos de infância fogem. Recebi uma oferta generosa de um escritório de advocacia particularmente famoso. Eu tive que mover meus pés e definir as minhas asas para um grande futuro.

O apartamento que eu escolhi era o único que eu poderia pagar. Tinha um desconto agradável fornecido pelo escritório de advocacia, e eu percebi que era a decisão certa.
O quarto era bonito, havia apenas um problema: eu morava no andar 23. 23 lances de escadas.
Eu nunca poderia fazer isso.
Perguntei para a recepcionista se teria outro quarto e ela disse que não. Como? O estacionamento mostrava que não havia a mesma quantidade de moradores em comparação aos apartamentos vagos. Ela me disse para enviar um e-mail e esperar.
Bom, eu poderia me mudar logo.
Vários dias mais tarde eu cheguei para arrumar o meu apartamento.
Para a minha decepção, a recepcionista não podia me ajudar a levar as malas no quarto. Ela afirmou que havia mais hóspedes para ajudar. Onde? Não conseguia ver uma única alma naquele local.

"Por favor, pegue as escadas", leu o sinal do elevador. Eu não tinha tempo a perder. Negócio, clientes, meu quarto. Para o meu transtorno, as portas não abriam.
Eu precisava pegar as escadas. Então juntei forças e abri a porta que dava para o primeiro lance. Eu não era mais um garotinho. Comecei a subir as escadas e tudo parecia bem.
Controlei a minha respiração e cheguei a rir do meu medo bobo de infância.

Parei de rir quando comecei a cansar, sentindo as minhas pernas doerem. Em que andar estava mesmo? Andar um. Ótimo, faltavam apenas 22 andares. Voltei a pensar em todas as situações engraçadas da minha vida, como quando espirrei e saiu refrigerante pelo meu nariz. Andar um.

Comecei a entrar em pânico, as escadas não mudavam e eu voltava sempre para a mesma porta onde se lia: andar um. Eu comecei a correr. Meus pulmões ardendo e minhas pernas queimando. Nem me preocupei com os papeis na minha pasta.
Novamente: andar um. Pânico; medo e tontura. As escadas não mudam. Não para nunca. Eu quero sair. A porta está trancada. E só consigo ler onde estou: andar um.

Só consigo pensar em escrever na papelada e enfiar por debaixo da porta: Não pegue as escadas.


*Olá, tudo bem? Gostaria de explicar que as minhas traduções são focadas em terror psicológico ou relatos de internautas. Principalmente o terror psicológico, que foca nas sensações de quem ta lendo. Existem muitos tipos de creepypastas e todas devem ser respeitadas. Obrigada e boa leitura! 

18/02/2017

Encontramos o paraíso, e ele estava vazio.

Quase três décadas atrás, foi iniciada a construção de uma máquina que poderia abrir um buraco através da fábrica da realidade. Um buraco direto para outra realidade e além. 

A ideia sugeria que, com determinadas circunstâncias, poderíamos encontrar um universo com energia ilimitada. Isso poderia recompensar pela grande quantidade de energia que a máquina usaria, e os danos irreparáveis que causaria na Terra e no sistema solar ao seu redor. Mas, se encontrássemos um universo ainda no início de sua criação, teríamos uma quantidade insondável de energia que duraria por alguns bilhões de anos. E ao mesmo tempo, cientistas poderiam estudar universos que seguiriam leis da física completamente diferentes para nós mesmos. 

Alguns anos antes do meu nascimento, tudo foi concluído. Com essa energia ilimitada, expandindo a tecnologia além do possível e resolvendo a maioria dos problemas do mundo... Guerras e lutas diminuíram. 

Até que um grupo de religiosos extremistas tentou usar a máquina para provar a existência de Deus. 

Isso iniciou uma guerra, uma das maiores na história. Quase todas as religiões se voltaram para esse pequeno grupo de trinta pessoas, protegidos pelo governo dos Estados Unidos. 

Algumas temiam que seu deus se provasse uma farsa, e outros achavam errado tentar provar que Deus era real ao invés de simplesmente ter fé. 

Mas no fim, não houve guerra. Os líderes mundiais não atacariam os Estados Unidos, que tinham suprimido seus poderes. E os países que atacaram, eram muito pequenos para causar algum grande dano. 

A máquina foi preparada para procurar por um universo com as coordenadas composta por vários números sagrados retirados de uma bíblia cristã. Por semanas ela procurou, e não encontrou nada. Diferentes combinações eram inseridas após cada falha. 

Até que a pouco mais de quatro meses atrás, 19 de janeiro de 2234, encontramos o paraíso. Não poderia ser nada além disso. Era uma realidade com um céu infinito. Nada além de nuvens e um azul que ia até onde os olhos pudessem enxergar. Tão longe quanto qualquer criatura, máquina, ou entidade natural poderia ir. O ar era respirável, fresco e doce. 

E estava completamente vazio. A única coisa notável, eram as poças vermelhas. 

Estavam em vários lugares, e eram incrivelmente frescas. Ainda estavam ondulando ao entrarmos nesse universo. Algumas, de fato, ainda nem tinha caído no chão. Os primeiro a pisarem no universo confirmaram que algumas poças pareciam levemente humanoides.  

Os danos causados ao nosso mundo para que pudéssemos abrir um portal eram irreparáveis e devastadores. Mas agora sabemos que os danos causados ao outro mundo são mil vezes piores. 


Autor: dogman 35

17/02/2017

Reabilitação

Me chamo Austin, tenho 26 anos e quando era criança assistia meu pai surrar a minha mãe sempre que chegava bêbado em casa, ela nunca tentou revidar, mas quando ele saía para trabalhar chutava os móveis e depois me batia como se eu fosse um saco da pancadas. Nunca tive raiva, sabia que era a forma torta dela de afogar as magoas. Tudo o que eu não precisava era que minha mãe também começasse a beber igual meu pai, o tempo passou; porém guardo raiva do meu pai até hoje.  

Se minha mãe estivesse viva ficaria orgulhosa por eu estar nesse lugar, mas ela já se foi a algum tempo, meu pai a matou e depois deu um tiro em sua própria cabeça. Essa foi a cena que vi quando tinha 19 anos e cheguei em casa depois da faculdade. Com o tempo também passei a ter o meu próprio vício e foi assim que vim parar aqui. 

Gosto de observar os outros pacientes da clínica, olhares vazios, andar vagaroso quase que se arrastando, suas roupas brancas em meio a grama do jardim; são como zumbis de uniforme. É deprimente viver nesse lugar quando você não tem nada para fazer além de jogar baralho, assistir TV somente durante o dia e ainda ter que se encher de remédios que derrubariam até um urso.   

Todas as tardes é servido um lanche: pão integral, geleia de uva e um copo de achocolatado. O único prazer que temos é o prazer de comer, é esse prazer que torna tudo aqui menos tedioso, o som crocante do pão sendo mastigado e o achocolatado descendo por suas gargantas traz um pouco de barulho a esse lugar que é quase sempre silencioso. Não sei se isso faz diferença para os outros pacientes, a maioria deles parece ter se acostumado a viver aqui, nem fazem tanta questão das visitas de seus parentes e amigos.

Durante a noite mais remédios são entregues a nós, quem toma só acorda no dia seguinte e mesmo assim sente os efeitos durante todo o dia. Tem algum tempo que parei de tomar; pois consigo dormir bem então não vejo necessidade. Durante o dia finjo que estou sonolento para não desconfiarem, até que finjo bem, ninguém nunca percebeu.

Aos sábados um inspetor vem até a clínica checar o tratamento e saber como estamos reagindo aos remédios; ele é bem gente boa, mas aquele sorriso amarelo e falso me irrita. Minha mãe me deixou uma boa herança e acabei me internando aqui por conta própria, precisava muito fugir dos antigos problemas, o lado bom é que posso sair daqui quando eu quiser.

Quando me libertar, pretendo conhecer tantos lugares, talvez me casar ou apenas namorar uma garota que tenha coisas em comum comigo, mas a verdade é que essa clinica me ajuda muito, o isolamento deixa minha mente mais tranquila e sem a vontade de praticar o vício. 

Mas quando sair e recomeçar a minha vida em meio ao caos da cidade grande sei que o meu vício vai voltar, talvez eu jamais perca a vontade de matar, mas para todos os efeitos eu sou apenas um dependente químico em busca de tratamento.

Acabei de me dar conta que tomei o remédio para dormir, e a enfermeira está em frente à minha cama me olhando como se estivesse esperando o remédio fazer efeito.

Minha visão está embaçando e minhas pálpebras estão pesando a cada piscar de olhos que dou. Eu devo estar tendo alucinações, mas posso jurar que essa enfermeira é a mesma mulher que tentei matar anos atrás. 

Ela está sorrindo agora e se aproximando de mim; o barulho dos sapatos ecoa pelo quarto enquanto o relógio na parede faz tic-tac, é como o som da morte se aproximando, mas a morte dessa vez usa um jaleco branco e segura um bisturi na mão esquerda. 

(Autor: Andrey D. Menezes) 
Espero que tenham gostado, final do mês vai ter a creepy dos fãs que já deixei programada. 


Creepypasta dos Fãs: Rotina

Todo o dia eu saía de casa às 7h e voltava às 20h. Minha rotina era frustrante. Nada de interessante acontecia no meu dia. Eu passava quase o tempo todo em um escritório de publicidade de um jornal velho, quase decadente. Vamos combinar que nos tempo de hoje ninguém mais lê jornal impresso.

Minha sala era pequena, não tinha nenhuma vista glamourosa na janela, diferente dos chefões nos andares superiores, que tinham uma bela vista da cidade ou de um bosque aqui perto. A minha janela dava apenas em uma grande parede de concreto e bem no canto a janela, em uma casa de uma senhora bem idosa, e eu sempre me perguntei se morava sozinha, já que eu nunca vi ninguém por lá.

É sábado e eu acordei às 6h20 e fui tomar café com a minha família. Minha esposa Rose e meus filhos, Austin de 15 anos, um garoto muito inteligente e fanático por baseball, e Jennifer de 10, também muito inteligente e linda, com seus longos cachos loiros e bochechas rosadas, e o caçula Thomas, que acabara de completar 1 ano. Ele era uma criança linda e calma, dificilmente chorava e sempre olhava para mim com um sorriso ou uma gargalhada de derreter qualquer coração.

Hoje, porém, foi bem diferente. Austin e Jennifer não paravam de brigar na mesa e Thomas não parou de chorar até a hora que eu saí para trabalhar. Rose estava estressada de um jeito anormal e gritava com todos para que eles fizessem silêncio, o que deixava tudo pior, é claro. Saí de casa como sempre faço, às 7h. Já tinha começado o dia bem estressado, mas era sábado, e eu ficaria até às 20h no escritório. Pelo menos não teria que aguentar aquilo no dia seguinte.

O dia estava passando mais devagar que o de costume, e vez ou outra eu procurava a senhora do outro lado da minha janela. Não que eu fosse obcecado ou algo assim, mas era reconfortante saber que ela estava bem.

Quando deu 19h45 eu já estava cansado e no ápice do meu estresse. Quando olhei pela janela e a vi, colocando um crucifixo na janela e com um terço na mão, ela me encarava e não parava de falar algo. Acredito que ela estivesse orando, ela tinha uma fisionomia assustada, mas eu a ignorei. “Que velha maluca”, pensei comigo mesmo.

Finalmente 20h e eu iria para minha casa. Peguei meu Ford 98e saí dirigindo. No caminho, parei em um bosque para comprar um hot dog, já que eu estava faminto. Enquanto o comia em um banco, um sujeito bem estranho se aproximou. Ele estava com roupas muito rasgadas, era bem alto, cabelo raspado e algumas tattoos bem mal desenhadas. Pareciam feitas na prisão. Ele falou que estava faminto e, bom, falei que estava com pressa, mas pedi para que o dono do carrinho de hot dogs fizesse um para ele, e deixei pago.

Segui em direção a minha casa, estava dobrando a esquina da minha rua quando vi a porta da minha casa aberta. “Droga, Austin ou Jennifer devem ter deixado aberta”.
Entrei, já preparando aquela bronca, quando vi marcas de sangue vindo dá cozinha e indo até o quarto do pequeno Thomas. Rezei para que tudo estivesse bem. Entrei correndo na cozinha e vi minha resposta debruçada na mesa, onde mais cedo estava cheia de frutas, pães e sucos, agora estava cheia de sangue. Rose estava com a garganta cortada. Me aproximei e comecei a chorar.

Ela já estava morta quando cheguei, mas eu conseguia ouvir seus gritos na minha cabeça. Minha doce Rose... Ela era o amor da minha vida, nunca tinha duvidado disso.

Corri então para o quarto do Thomas. Chegando lá, vi Jennifer de bruços, com seu lindo vestido branco que eu tinha dado a ela de aniversário, que agora estava todo vermelho. Havia marcas de facadas... Tantas que eu nem conseguia contar. Me desmanchei em lágrimas. Estava aos berros quando ouvi um choro vindo de baixo de Jennifer. Era Thomas. Jeniffer estava abraçada com ele. Ela morreu o protegendo.

Tirei o corpo da minha filha de cima dele e o peguei. Eu saí correndo o mais rápido que pude, olhando apenas para baixo.

Quando me deparo com um sujeito na porta, vi que era o cara do parque. Ele agora estava com uma jaqueta de couro preta, calças largas e botas. Ele olhou somente para meu filho em meus braços e gritou “Siga-me!”. Eu relutei, olhei para a janela atrás de mim, pronto pra sair por lá e fugir dele, e então ouvi passos. Austin vinha correndo de seu próprio quarto. Ele tinha uma enorme faca de carne em uma das mãos, estava banhado em sangue, seus olhos estavam brancos e tinha um aspecto de fúria e vinha para matar Thomas e a mim. Ele murmurava “Você encontrará com todos nós no inferno, papai”. O homem me puxou porta a fora e pulou em cima do Austin.

Eu corri sem olhar para trás, peguei meu carro e saí sem direção. De repente, me veio a imagem da senhora orando, do outro lado do meu escritório. Eu sabia que deveria ir para lá. Ela parecia saber que tudo isso aconteceria. Chegando lá, ela me esperava na porta com seu terço, me levou para o seu apartamento e trancou a porta. Eu ia começar a contar o que aconteceu, mas ela me interrompeu e disse que sabia. 10 minutos depois, alguém bateu na porta. Era o mesmo homem que apareceu na minha casa. Ele estava com uma grande bolsa transversal, colocou a bolsa em cima da mesa e veio andando em direção a senhora e disse “Desculpe a demora, mãe”. A senhora respondeu “Vamos depressa, temos que terminar isso antes da meia noite”. O homem então me arrastou para uma sala cheia de velas, cálices e pentagramas. A senhora falou “As cabeças estão intactas, não é? Isso é essencial para o ritual de invocação”.

Ele despejou da sua bolsa três cabeças. Eram as cabeças da minha família. A velha, acendendo as últimas velas, disse: “O seu filho me foi útil, foi muito fácil invocar um demônio para possuí-lo”. Eu estava encurralado. O homem pegou uma adaga, que possuía uma caveira na ponta do cabo, tirou o Thomas dos meus braços com força e o apunhalou na minha frente. Eu me enchi de ódio. Tinha perdido tudo.

“Agora só falta a sua, e finalmente nosso ritual estará completo”, gritou o homem, banhado com o sangue do meu filho. E então eu corri para a sala e pulei contra a janela, quebrando o vidro e caindo do 6° andar.

Qualquer que fosse o ritual dessa velha bruxa, ela não iria conseguir realizar, pois me certifiquei de cair de ponta. Olhei para cima uma última vez e minha última visão foi do prédio onde trabalhei por 13 anos. Em minha mente, estavam apenas meus filhos e minha esposa, sorrindo para mim, e eu sabia que, para onde quer que eu fosse, eu sabia que os encontraria outra vez.


Autor: Dark Duck

Revisão: Gabriela Prado


Creepypasta dos Fãs: Tudo começou quando nos mudamos para uma casa no meio de uma floresta estranha

01001110 11100011 01101111 00100000 01101100 01100101 01101001 01100001
Esse é um manuscrito encontrado no quarto de um paciente.

***

Tudo começou quando nos mudamos para uma casa no meio de uma floresta estranha. Não me entenda mal, eu até que gostava dela, mas o que eu achava estranho era o modo que todos nos olhavam. Sim, todos naquela cidade nos olhavam com um olhar de pena e de medo. Ah, me desculpe. Se você está lendo isso, eu já estou morto. Mas se você é curioso, vá em frente e continue lendo. Mas não te garanto segurança a noite. E se está lendo até agora, significa que você quer realmente saber o que houve comigo e com minha família.

Estávamos de mudança quando fomos para aquela casa, naquela cidade, e naquela floresta estranha.

Eu estava retirando as caixas do caminhão, sendo ajudado pela minha esposa e minha filha de 18 anos. E quando estávamos arrumando as coisas, meu filho começou a sair correndo para fora. Então eu perguntei: “O que foi, Gabriel?”.

Ele disse: “Papai, eu acabei de ver um cara na floresta”.

Eu simplesmente pensei que fosse brincadeira de criança, afinal, meu filho só tinha 7 anos. Era normal para a idade dele ficar criando seus amigos imaginários.

Então, finalmente o sol começou a se pôr. Eu ganhava a vida sendo repórter, e eu havia mudado para aquela cidade para fazer uma reportagem completa sobre a população de lá. Mas não havia contado isso para meus pais, que sempre diziam que queriam o melhor para mim. Então eu simplesmente aceitei o emprego e fui para essa cidade.

No meio da noite, eu fiquei com sede e fui para a cozinha beber algo, mas eu acabei me deparando com meu filho parado, olhando fixamente a floresta. Cheguei perto e perguntei: “Filho, o que foi?”.

E ele simplesmente disse: “Ele não gostou de você”.

Eu paralisei na mesma hora. Meu próprio filho me disse isso, e no meio da madrugada. Eu o levei para a cama. E como eu já estava acordado, eu simplesmente fui usar meu computador, a fim de pesquisar mais sobre a população da cidade, pois eu não queria apenas saber sobre a população, mas sim sobre seus antepassados. Afinal, essa cidade não era tão amigável assim nos últimos séculos, então resolvi pesquisar um pouco sobre aquela cidade.

E após algumas horas pesquisando, eu já havia conseguido criar a reportagem sobre aquela cidade. Mas de repente, meu chat começou a piscar. Alguém havia conseguido meu e-mail, e queria conversar comigo. Eu simplesmente o abri e comecei a conversar:

- Quem é você?

Eu perguntei, e em seguida veio a resposta, que por sinal, eu não entendi nada:

"01010011 01100001 01101001 01100001 00100000 01100100 01100101 01110011 01110011 01100001 00100000 01100011 01100001 01110011 01100001 00101100 00100000 01101001 01101101 01100101 01100100 01101001 01100001 01110100 01100001 01101101 01100101 01101110 01110100 01100101".

Eu apenas achei que fosse algo bobo, e perguntei:

- Escreva, por favor.

E em seguida veio a resposta, que mais uma vez, me deixou bastante intrigado:

"01000101 01101100 01100101 00100000 01100101 01110011 01110100 11100001 00100000 01101111 01100010 01110011 01100101 01110010 01110110 01100001 01101110 01100100 01101111 00100000 01110110 01101111 01100011 11101010 00101100 00100000 01110011 01100101 01110101 00100000 01100110 01101001 01101100 01101000 01101111 00100000 01101010 11100001 00100000 01110011 01100001 01100010 01100101 00100000 01110001 01110101 01100101 01101101 00100000 01100101 01101100 01100101 00100000 11101001 00101110".

E então eu desliguei o computador e fui ver que horas eram no relógio. Era 8h da manhã. O tempo havia passado rápido. Então fui preparar um café para minha família.

Me deparei com minha filha me encarando. Eu logo perguntei o que havia acontecido. E ela me respondeu:

- Pai, eu juro que vi alguém me observando enquanto dormia.

Eu logo paralisei, não sabia o que dizer, então simplesmente dei um beijo na testa dela. Logo após isso, Gabriel acordou, e eu então o perguntei:

- Filho, quem não gosta de mim?

E ele logo apontou para a floresta. Eu não entendi bem. Mas não me importei muito, como disse, ele era uma criança. Amigos imaginários eram normais para ele. Minha esposa levou meus filhos para o colégio e eu logo fiquei sozinho em casa. Por curiosidade, decidi visitar a floresta.

Ela era diferente de todas as que eu já vi. As árvores eram finas, mas o que mais me assustou foi que a visão de longe era hipnotizante demais, e me deixava com arrepios por todo o corpo.

Pode ser loucura, mas eu jurava ter visto uma silhueta negra em meio as árvores.

Então fui logo em direção a ela. E quando cheguei, ela simplesmente desapareceu. Quando olhei para a direção ao lado da árvore, veio um frio em minha barriga.

Essa direção dava de encontro perfeito a uma visão do quarto da minha filha. Então fui de volta para minha casa, e quando entrei no meu e-mail, recebi uma mensagem nova:

"01000101 01101110 01110100 11100011 01101111 00111111 00100000 01101010 11100001 00100000 01110011 01100001 01100010 01100101 00100000 01110001 01110101 01100101 01101101 00100000 01110011 01101111 01110101 00100000 01100101 01110101 00111111".

Cansado de tudo isso, fui procurar algum tipo de tradutor online, e descobri que isso é chamado de código binário. Traduzi, e logo fiquei muito assustado com as mensagens. E fui com muita coragem e medo conversar com a pessoa no chat:

- Então, quem é você?

Não demorou muito até eu receber a ultima mensagem:

“Me encontre na praça da cidade às 14h em ponto”.

Eu até que fiquei surpreso por essa mensagem ser escrita dessa vez. E por curiosidade, fui para a praça quando o relógio deu 14h. Na praça, eu me deparei com uma senhora me chamando. Ela logo foi para uma biblioteca, e eu fui em seguida.

Lá começamos a conversar, primeiro eu perguntei como ela conseguiu meu e-mail. Ela disse que não era difícil conseguir o e-mail de um repórter em uma cidade tão estranha como essa. E então fui direto ao ponto.

- O que você quer comigo?

Ela simplesmente me deu um livro velho, e então me disse: “Tome cuidado com ‘ele’”. Ela foi embora logo em seguida. Como eu já estava em uma biblioteca, comecei a ler o livro.
Ele parecia ter sido escrito no século passado, não me parecia ser muito atual. E então, após algumas horas de leitura, eu comecei a entender do que ele se tratava. Era apenas um livro sobre a história da cidade. Eu logo comecei a rir de tudo aquilo, e então fui para a casa, pensando que uma senhora de idade queria me ensinar o que eu já sabia, afinal, eu já havia dito isso em minha reportagem sobre a cidade.

Cheguei na minha casa, e meu filho logo me chamou animado. Eu fui até ele, e ele me deu um desenho estranho.

Era um ser meio humanizado, ao lado de varias árvores, mas por algum motivo, meu filho não havia feito as roupas desse ser, mas o que mais me chamou a atenção nele era o seu rosto. Ele tinha uma espécie de sorriso torcido.

Eu logo assemelhei a silhueta que vi na floresta à esse desenho de meu filho. Eu comecei a raciocinar... A idosa me disse para ter cuidado com ‘ele’.

Então fui direto até o computador, e em cima da mesinha ao lado, estava o livro que a senhora idosa havia me entregado.

Pesquisei sobre aquela cidade em um site de imagens, e o que eu vi era no mínimo estranho. Era uma espécie de seita, as imagens eram muito parecidas com esta que eu descrevi. Todas sem exceção estavam em conexão com a cidade e a floresta, e o que me deixou ainda mais perturbado era que minha casa estava incluída nessas imagens. Mas pareciam ser de um tempo um pouco passado, pois a tintura não era idêntica a da minha atualmente.

Fui logo pesquisar mais a respeito dessas fotos. Alguns sites diziam que elas eram de algum tipo de seita para uma criatura pagã. Mas isso era apenas uma lenda. Alguns até diziam que essas seitas foram criadas a partir do século XV e foram até meados do século XIX. O motivo para tal ato ser cessado era que alguns povoados começaram a modificar a cultura do local, e logo assim, a criatura adorada começou a ser esquecida ao decorrer dos séculos. E a casa da fotografia era uma espécie de residência temporária do sacrifício religioso, onde a vitima iria viver lá e teria seus familiares mortos brutalmente por esta criatura, mas ele pegaria algum membro dessa família.

Após ler isso, eu fui correndo até o quarto de meu filho Gabriel, e perguntei: 

- Filho, onde seu amigo mora?

Ele pegou minha mão e então caminhamos até a floresta, estava tarde e o sol começou a perder seu brilho, dando passagem para a lua. Enfim chegamos a uma espécie de caverna. Ela ficava um pouco longe da minha casa, e eu acabei entrando neste lugar, mas parei assim que vi uma pequena fotografia no chão da caverna.

Fomos direto para casa. Minha filha estava no seu notebook, e então fui dormir. Acordei em meio da madrugada ouvindo minha filha gritar. Ela me mostrou seu notebook. Ele estava com a tela rachada. Eu logo perguntei se ela não teria deixado cair, e ela simplesmente me contou que estava no Skype com seu namorado, quando a música que estava tocando em seu mp3 player do notebook começou a tocar ao contrário. Ela disse que o notebook começou a bugar totalmente, e então ele desligou. Assim que ela o ligou, ela podia jurar que os códigos de seu notebook começaram a formar uma espécie de chat.

Ela então disse “Oi?” e em seguida a criatura respondeu “01100101 01110011 01110100 11100001 00100000 01100011 01101111 01101101 00100000 01101101 01100101 01100100 01101111 00100000 01100100 01100101 00100000 01101101 01101001 01101101 00111111”.

Ela logo começou a anotar os códigos em seu diário, mas assim que terminou ela recebeu uma nova mensagem: “01100101 01110011 01110000 01100101 01110010 01101111 00100000 01110001 01110101 01100101 00100000 01110110 01101111 01100011 11101010 00100000 01110011 01100101 01101010 01100001 00100000 01100010 01101111 01100001 01111010 01101001 01101110 01101000 01100001 00100000 01100001 01101110 01110100 01100101 01110011 00100000 01100100 01100101 00100000 01101101 01101111 01110010 01110010 01100101 01110010”.

E então ela pode ver a tela do notebook quebrando, e em seguida a janela de seu quarto. Eu não conseguia acreditar no que ouvi. Eu fui até a cozinha, peguei meu telefone e liguei para meu amigo. Ele era perito nessas coisas de computador, então eu o chamei imediatamente. Após isso, desliguei o telefone, ou pelo menos achei que tinha, até ouvir o barulho dele outra vez, eu o peguei e o atendi. Mas ao colocá-lo no ouvido, eu ouvi somente um:

“Eu... Estou... Te observando...”.

O telefone desligou. A voz do outro lado era extremamente grossa e amedrontadora.

Na manhã seguinte, meu amigo me chamou para ver o notebook. Ele simplesmente me mostrou uma espécie de código binário outra vez, mas este havia em forma de imagem na galeria de minha filha, que por coincidência ou não, ela havia anotado o mesmo código. Eu logo comecei a acreditar na minha filha. Mas o que me deixou ainda mais chocado era o fato de que algo realmente quebrou a tela do notebook, mas de dentro. Era como se alguém tivesse dado um soco em uma janela, mas nesse caso, como se a janela fosse a tela do notebook.

Eu logo comecei a procurar a senhora idosa. Quando a encontrei, perguntei se foi ela a responsável por todas aquelas mensagens. Ela simplesmente disse que não. Só me disse para ter cuidado com ‘ele’ outra vez. Por algum motivo, eu coloquei todas aquelas informações na minha reportagem, que por sinal, ela daria a melhor reportagem do mundo.
A enviei para a meu chefe e recebi meu pagamento. Decidi que era hora de nos mudarmos daquela casa e comprarmos uma no estado de Kansas, e então eu avisei ao Gabriel e minha filha que eu ia minha esposa iríamos jantar fora, para aproveitar um pouco o dinheiro. Mas antes, eu decidi queimar aquele livro estranho.

Minha filha estava sozinha com meu filho, que estava na sala assistindo televisão. Ela estava ouvindo música quando começou a ouvir a sua música ao contrário. Assustada, ela desceu para a sala. A televisão estava estática, e meu filho estava jogando uma bola no corredor escuro. Ela simplesmente perguntou: “Gabriel, quem está aí?”. E o meu filho disse:

- Ele quer brincar de esconde-esconde.

Ela viu a bolinha acertar a cruz na parede. Logo em seguida, ela falou para Gabriel se trancar no seu quarto. De repente, ela pegou a faca que estava na cozinha e foi em direção ao corredor, mas nada havia por lá.

Até que ela começou a ouvir passos no chão, ela olhou para todos os lados, mas não viu ninguém. Então ela olhou para cima e viu a criatura humanoide se contorcer e andar pelo teto, até que a mesma olhou para a minha filha, com um sorriso que ia de orelha a orelha. Minha filha correu para seu quarto e se escondeu no armário. Ela colocou a mão na boca para evitar fazer barulho.

Ela podia ver a criatura andando pelo corredor. Ela viu a criatura procurar lentamente por ela, por toda parte. Mas não a encontrou. Minha filha já não podia ver a criatura perambulando pelo quarto. Então decidiu sair do armário, já que ela não via a criatura. Mas de repente, ela sentiu a mesma falar em seu ouvido:

“Achei você...”.

Ela foi jogada no chão com força e começou a rezar, mas a criatura disse mais uma vez em seu ouvido:

“Deus não vai poder te salvar agora...”.

A criatura pegou os braços dela e os quebrou rapidamente. Ela estava agonizando quando disse “Deus, me ajude”. E a criatura a pegou pelo cabelo e respondeu:

“Acho que seu deus está ocupado demais para te ouvir...”.

Ele colocou as mãos no céu da boca dela e levantou seu braço com força, fazendo a boca de minha filha se abrir totalmente.

Após uma hora, eu e minha esposa chegamos em casa. Tudo estava escuro, então tentamos ligar as luzes, mas nada estava funcionando. Era como se alguém tivesse cortado nossa energia. De repente, fomos até a escadaria para procurar nossos filhos, mas algo me desmaiou.

E quando acordei, eu vi a cena mais chocante de minha vida. Minha mulher estava com os braços pregados na parede, formando uma perfeita representação de cristo, mas de forma brutal e nojenta. Seus olhos estavam para fora, sua barriga estava aberta, e ela tinha algum tipo de sorriso maníaco na face, um sorriso gigantesco.

Olhei para o lado e vi meu filho andando para a floresta. Estava tarde e no meio da madrugada. Eu tomei coragem e o segui. Até que eu cheguei exatamente na frente da caverna e vi meu filho segurando a mão da criatura humanoide que vi nos desenhos dele. A criatura simplesmente se aproximou de mim e me desmaiou outra vez.

Acordei em uma delegacia e eu fui internado em um sanatório. Eles disseram que eu havia matado minha família, mesmo depois de eu ter contado tudo a eles. Num certo dia, a velha senhora veio me visitar.

Eu apenas fiquei a ouvindo dizer. Ela disse que isso tudo não era mentira, pois ela mesma já passou por isso. Eu perguntei:

- Mas como?

Ela retirou do bolso uma fotografia, a mesma que eu tinha encontrado naquela caverna. Ela era a irmã mais nova do garoto que foi levado por esse ser. Ela disse que essa criatura na verdade é uma espécie de divindade pagã, adorada desde os últimos séculos e milênios, e que sempre eram oferecidos sacrifícios de sangue para eles a cada mês. E como isso ocorria? Era simples. O último sobrevivente iria escrever em uma espécie de livro, com tudo aquilo que ele presenciou. Assim que terminasse, ele iria entregar para o novo morador, e assim, ele estaria passando a maldição em diante. E o único meio de acabar com isso é escrevendo e mostrando para a próxima vitima, não importa a distância, a criatura sempre iria chegar até essa pessoa e iria matar seus familiares... Deixar ele vivo, pegar um familiar, e então levá-lo para a sua caverna no meio da floresta.


Ela havia me dado aquele livro, que era o grande culpado pela maldição. Mas eu o queimei. Então eu estou livre? Desculpe, mas não. Eu não estou, pois eu tenho que escrever isso, ou senão eu irei morrer também. E sinto muito, mas eu cansei de tudo isso, eu quero viver e ser feliz novamente. E queria te alertar, mas agora que você leu isso, eu me livrei dessa maldição. Ele sabe quem você é, sabe onde você mora, e não importa a distância, ele irá atrás de você. Apenas passe em diante sua experiência. Não acredita em mim? Se você ouvir algum barulho na madrugada, ou sentir medo, sentir que não está sozinho, ou quando for no banheiro e ver algum vulto no corredor, significa que ele está na sua casa, e sua hora chegou. Eu olharia debaixo das camas antes de dormir, pois eu não posso garantir sua segurança. Obrigado por ler até aqui, tenha um bom dia, boa tarde, e boa noite. Pois você vai precisar.

Autor: Desconhecido [Se essa história é sua, nos avise através do e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]
Revisão: Gabriela Prado