17/01/2017

Lambidas de um Urso



ATENÇÃO!!!
Esse conto não é recomendado para pessoas com depressão, ansiedade, TDAH e/ou sensíveis. LEIA COM RESPONSABILIDADE!!! 

1º de Agosto de 2015, 9:00

Faz exatamente um ano desde que Jen foi embora. Isso significa que faz um ano e um dia desde que eu fui demitido. Eu não trabalhei desde então. Eu costumava gostar da ideia de ter uma deficiência, dinheiro fácil e todo o tempo do mundo para passar com ela. Eu acho que ela não pensava assim. Ela sempre foi ambiciosa. Eu não deveria dizer “foi”. Todo dia eu vejo posts dela no facebook detalhando seu constante sucesso. O mais recente era do noivado dela. Eu nunca a vi tão feliz.

Eu acho que eu soube que as coisas entre nós estavam indo ladeira abaixo quando eu olho para as nossas brigas. Ela sempre dizia algo sobre como eu era tão inteligente – que eu era mais inteligente que ela, de fato – mas que eu não tinha ambição. Me sentia tão bem ao ouvir que alguém tão brilhante quanto Jen pensava que eu era inteligente, mesmo que ela gritasse isso para mim em frustação. Ela alegava entender minha depressão e minha ansiedade e como eles eram bloqueadores horríveis no caminho para minha felicidade. Eu achei que ela conseguiria sentir empatia e ainda querer estar comigo de qualquer forma. Aparentemente eu estava errado.

Obter o beneficio para incapacitados não foi muito difícil. O dinheiro não era muito, mas paga o aluguel e me mantém alimentado. O único problema é que eu tenho que ir a terapia toda semana. E também preciso ir a consultas para pegar a receita para os remédios que combatem minha depressão, TDAH e ansiedade. É tudo tão burocrático e desapegado de qualquer coisa que se assemelhe a um cuidado real. Então, eu sou um perdedor solitário, desempregado que aparentemente tem essa "grande mente" que é totalmente inútil. Mas eu não vou ficar assim para sempre. Descobri algo novo. Bem, algo antigo, na verdade.

Hoje começa minha nova vida. A medicação nunca funcionou, a terapia nunca funcionou, as mudanças de comportamento nunca funcionaram. A medicina falhou comigo. Ou talvez eu tenha falhado com a medicina. De qualquer forma, estou tomando o controle de mim mesmo novamente. Eu não vou ser uma vitima das barreiras que meu corpo arma para mim. Chega de problemas de atenção. Chega de depressão. Chega de ansiedade. Pela primeira vez em talvez décadas, estou cheio de esperança.

1º de Agosto de 2015, 15:00

Todas as minhas ferramentas estão limpas e prontas. Dentro de uma hora eu vou começar. Eu preciso manter um diário bem abrangente do procedimento para ter certeza que eu não estou me prejudicando. Eu acho que um diário das minhas experiências vai me fornecer evidencias positivas (ou negativas) das mudanças no meu corpo, meu humor e nas minhas habilidades cognitivas.

1º de Agosto de 2015, 16:05

Depois de traçar um círculo do tamanho de uma moeda na parte superior direita da minha testa, usei uma faca Exacto para cortar a pele. Eu não estava preparado para quanto isso ia doer. Eu parei algumas vezes para limpar as lágrimas para que eu pudesse ver bem o suficiente para continuar. A pele levantou revelando o osso sem muitos problemas uma vez que eu tinha acabado o corte. Eu corri para o banheiro. Agora eu estou esperando o sangramento parar - já parece estar abrandando. É tão estranho ver meu crânio exposto dessa forma.

Eu vou escrever uma frase ou duas antes e depois de cada um dos próximos passos para que eu possa obter uma descrição tão boa quanto possível, para ver se tudo isso funciona tão bem quanto eu estou esperando.
Eu optei por usar uma pequena broca ao invés de uma grande. Um anel de buracos minúsculos vai levar muito tempo para ser feito, mas acho que existe a necessidade de precisão nesse caso. Estou prestes a fazer o primeiro buraco.

O primeiro buraco esta feito. Imagine a sensação de morder um pedaço de papel alumínio do tamanho de um punho o mais forte que você consegue enquanto sua cabeça soa como se estivesse cheia de zangões zumbindo. A vibração era tão excruciante que eu só agora estou sentindo a dor do local da broca em si. Eu vou fazer os próximos dez ou mais buracos antes que eu perca a coragem.

As vibrações tornaram-se menos intensas a cada furo. A dor óssea ficou muito pior, no entanto. Eu nunca tive enxaquecas, mas eu suponho que eles devem sentir algo assim.

Estou iluminando o anel de pequenos buracos e fazendo meu melhor para inspecionar o que está atrás deles no espelho. Não é muito útil. Os elementos estruturais restantes entre os furos são extremamente finos e quebradiços. Eu vou corta-los com o alicate para cortar fios.

Eu acabei de derrubar um círculo do meu crânio na pia. Agora estou olhando para a membrana brilhante e vermelha que esta cobrindo meu cérebro. Estou um pouco surpreso com quantos vasos sanguíneos tem lá. Vou colocar mais algumas toalhas. Cortar a membrana é a parte que mais me assusta.

Está feito, e o buraco está sangrando muito. Estou tomando cuidado extra para não colocar muita pressão sobre o orgão em si quando estou trabalhando para absorver o sangue. Eu estou me sentindo um pouco tonto, então enquanto eu seguro a toalha no buraco, eu como um pedaço de bife e bebo o suco de laranja que eu preparei para o caso de isso acontecer. A ferida esta começando a coagular enquanto eu espero aqui. Toda a área dói. É quase como se eu tivesse um segundo coração batendo lá.

O sangue parou de escorrer e eu estou limpando a área com agua e álcool. Agora eu posso ver meu cérebro. É cinzento. Não parece que ele me pertence. Não sei porque tudo parece tão surreal. É quase como se eu estivesse assistindo tudo isso acontecer com outra pessoa. No lado positivo, eu não estou mais tonto, mas estou exausto. Eu vou cobrir tudo com uma bandagem e ir para a cama. Eu limpo tudo amanha.

2 de Agosto de 2015, 6:30

Eu acordei essa manha com mais energia e animo do que eu jamais senti. Mesmo sentado aqui escrevendo isso me sinto alegre. Eu não estou lutando para encontrar palavras, eu não estou temendo que eu vá reler o que eu escrevi e achar que é estúpido e inútil - tudo apenas... funciona. Os relatos que eu tinha lido sobre pessoas que compartilhavam suas experiências com a trepanação faziam afirmações semelhantes, mas mesmo enquanto eu abria os buracos, eu nunca me permitia acreditar verdadeiramente que funcionaria para mim. Mesmo agora, estou preocupado que seja apenas um efeito placebo. A pulsação é real e mais forte do que nunca. Isso era outra coisa que meu colega de trepanação mencionou. Eles disseram que era porque o corpo está deixando o cérebro crescer novamente. Algo que o crânio havia evitado depois de endurecer após a infância. Não sei se acreditei na explicação, mas não posso negar o que esta acontecendo aqui.

2 de Agosto de 2015, 14:00

Passei o dia limpando o apartamento. Durante o ultimo ano, deixei que as coisas se amontoassem e se tornassem cada vez mais sujas a medida que minha depressão crescia. Hoje, é como se um véu tivesse sido erguido e a luz estivesse se derramando sobre tudo que eu coloco meus olhos. O apartamento precisava ser limpo, então eu apenas me organizei para o trabalho e limpei. Parece melhor agora do que quando eu e Jen nos mudamos. Meu terapeuta recomendou que eu limpasse ele a um tempo atrás, sugerindo que uma área aberta e agradável realmente me ajudaria a ver minha casa com um lugar para o potencial, ao invés de estagnação. Agora eu sei o que ele quis dizer. É com isso que potencial se parece.

O buraco na minha cabeça ainda dói e parece terrível, mas eu esperava por isso. Se eu sair, eu posso usar um chapéu e ninguém vai notar nada de errado. Eu não estou pronto para fazer isso, no entanto. Estou ligeiramente preocupado com o quão terrivelmente o local coça enquanto cura. Estou sendo extremamente assíduo em limpar e cuidar da ferida enquanto cura, mas acho que faz parte desse processo essa maldita coceira. Estou fazendo o possível para não pensar nisso.

2 de Agosto de 2015, 23:30

O primeiro dia inteiro do meu experimento esta prestes a terminar. Estou prestes a dormir e sinto que consegui muitas coisas hoje. Minha casa está impecável, eu terminei um conto que eu estava trabalhando nos últimos meses, coloquei as contas em dia e até fiz algumas flexões. Eu tive que me lembrar de comer, no entanto. Por qualquer razão, eu não estava com fome até que eu percebi que era quase 21h e eu não tinha comido nada o dia todo. Acho que foi devido a minha excitação. Tem sido difícil de conter. Mas, agora eu já tomei banho e coloquei meu pijama e estou pronto para terminar meu dia. Eu mal posso esperar por amanha.

3 de Agosto de 2015, 5:45

Estava de pé antes do meu alarme para ver o sol nascer do telhado do apartamento. Ontem a noite eu dormi como uma rocha e não acordei uma vez sequer. Eu notei um pouco de sangue no meu travesseiro e embaixo das minhas unhas, acho que eu posso ter coçado um pouco por debaixo da atadura enquanto dormia. Eu corri para o banheiro para inspecionar o buraco e, felizmente, não parecia ter nenhum dano. Tudo parece estar curando bem.

3 de Agosto de 2015, 13:15

Eu não sei se são as endorfinas diminuindo ou apenas um artefato da minha depressão, mas a minha euforia diminuiu um pouco desde esta manha. Eu estou agora pensando que poderia ser ambos. Talvez eu precise de uma boa refeição. Deve ter algo na geladeira.

3 de Agosto de 2015, 21:00

O que eu senti esta tarde não parece ter sido um acaso. Enquanto meu humor melhorou um pouco depois do almoço, eu estava de volta ao ponto inicial o resto do dia e a noite. O pulsar do buraco diminuiu com o meu humor, curiosamente. Quando estou me sentindo feliz ou ambicioso, ele pulsa muito. Pode ter algo a ver com a minha pressão arterial, por isso vou ficar de olho nisso. Antes de dormir eu vou fazer alguns saltos e ver o pulso retorna. Estou bastante certo de uma correlação entre a maior taxa de pulsos com um raciocínio melhor.

Acabei de fazer o exercício. O pulsar é o mesmo. Minha frequência cardíaca aumentou, mas o meu humor continua ruim. Estou indo para a cama.

4 de Agosto de 2015, 11:00

Acabei de acordar e me sinto péssimo. Eu estava coçando o buraco novamente. O travesseiro esta encharcado com sangue e há crostas remanescentes sob minhas unhas. Esta noite vou usar luvas. Pondo isso de lado, meu humor está bem próximo de onde estava antes de eu começar esse processo. Estou preocupado que a área de superfície exposta do meu cérebro não seja suficiente para um efeito duradouro. Eu não confio em mim mesmo para ampliar o buraco que já esta lá, mas estou preparado para fazer outro, a uma polegada de distancia ou menos.

4 de Agosto de 2015, 12:30

Houve um problema com o segundo buraco. Eu fiz tudo como da ultima vez, mas no ultimo furo minúsculo formou uma rachadura no crânio entre o furo original e o novo. Eu tive que descascar a pele que eu tinha deixado para ter certeza, mas definitivamente estava lá. Fui forçado a decidir se devia ou não deixar o pedaço quebrado, e optei por tirar. Agora eu tenho um furo oval que tem cerca de 3 centímetros de comprimento e 1 polegada de largura. Remover a membrana dessa parte foi difícil e eu tive um problema com a lamina indo mais profundamente do que eu queria. Felizmente o cérebro não tem receptores de dor. Não poderia ter ido mais de meia polegada a dentro, mas nada estranho aconteceu com meu corpo. Então eu tive sorte e bateu na parte dos 90% que dizem que não usamos. Eu sei que as pessoas estão dizendo que isso é um mito, mas como o que acabou de acontecer comigo, deve haver alguma verdade nisso.

5 de Agosto de 2015, 8:00

Sem coçar durante a noite. O pulso ainda está lá, mas não é nem de longe tão forte como foi a primeira vez. Meu humor ainda está ruim. Eu tenho que ser honesto comigo mesmo aqui: eu me sinto como um fracassado. Todo esse experimento é outro exemplo da minha vontade de fazer algo com boas intenções e acabar com tudo explodindo na minha cara. Mas eu não vou ser derrotado por ele. No passado, eu teria parado, Jen teria começado uma briga comigo e eu apenas a adicionaria a cascata sem fim que são os erros que formam minha identidade. Não desta vez, no entanto. O aumento da minha ambição desde o inicio desse tratamento ainda deve estar forte, porque eu estou determinado a ir até o fim.

5 de Agosto de 2015, 20:00

Há mais quatro furos na minha cabeça. Eu não achei que fosse capaz de fazê-los. No final do ultimo, quase desmaiei. Estou feliz por ter tido a previsão de manter alguns pacotes de açúcar por perto para que eu pudesse recuperar as forças para terminar.

Apesar do problema da minha tontura, estes quatro foram melhores que os anteriores. Eu usei os lados esquerdo e direito da minha cabeça desta vez, bem acima das minhas orelhas. O crânio era muito mais fino do que na minha testa, então a vibração da broca não era tão excruciante. A perda de sangue foi significativamente maior, porem, o que explica o desejo de desmaiar. Eu estou com toalhas de mão enroladas em torno da minha cabeça, assim eu evito sujar o lugar todo de sangue. Sorte minha, meu sangue coagula bem rápido. Palavra engraçada. Coagulo.

6 de Agosto de 2015, 6:20

Eu dormi sentado e acordei com um enorme pulsar, não somente nos buracos novos, mas nos velhos também. O segundo buraco apresenta um pequeno problema, no entanto. Acho que pode estar ficando infeccionado. A coceira é insuportável e acho que pode estar começando a feder. Eu despejei álcool em todos os lados e pressionei toalhas limpas, portanto, esperançosamente acho que isso vai parar qualquer infecção ali.

Meu humor estava ótimo. Ainda não tão bom quanto no primeiro dia, mas muito melhor que os dias seguintes. Estive pensando muito em Jen. Tínhamos tantas coisas em comum. Nós amávamos falar sobre animais e usávamos esse assunto para nos desviar de nossas discussões, falávamos sobre todos os animais exóticos que teríamos quando nós fôssemos ricos. Seus favoritos eram os rinocerontes. Os meus eram hipopótamos. Eu costumava dizer a ela sobre o lago que teríamos em nosso quintal onde meu hipopótamo pigmeu iria brincar com seu bebe rinoceronte. Depois que ficassem cansados, nós os convidaríamos para o pátio onde eles se enroscariam um ao lado do outro enquanto olhávamos para eles e um para o outro. Gostaria de saber como ela se sentiria sabendo que eu tenho feito todo esse trabalho para melhorar a mim mesmo. Ela provavelmente me mandaria fazer mais.

7 de Agosto de 2015, 12:35

Eu fiz mais. Todo o dia de ontem, eu perfurei. Eu perfurei e cortei e puxei e descasquei. Eu sinto que posso enfrentar o mundo. É quase como na vez que eu usei cocaína na faculdade, mas o efeito durou muito mais tempo. Eu vou atualizar novamente hoje se eu tiver que faze-lo, mas por enquanto, vou trabalhar em algumas das minhas historias.

9 de Agosto e 2015. 9:00

Onde eu estive? Escrevendo. Desde o outro dia eu escrevi 100 páginas de uma história que eu nem sabia que tinha em mim. Lê-la é como se eu estivesse olhando para o trabalho de outra pessoa. Alguém muito, muito melhor. Um estranho eu acho.

Em uma nota ligeiramente menos agradável, definitivamente há uma infecção em alguns buracos. Um deles esta escorrendo um liquido cinzento que tem um cheiro terrível e todos eles coçam. Quando eu os esfrego com uma toalha para tentar coça-los eles se abrem e começam a sangrar ou vazar um liquido claro. Eu acho que é como um resfriado que tem que correr seu curso, mas eu vou ser condenado se isso se tornar um problema remotamente parecido com o que a depressão era.

10 de Agosto de 2015, 7:40

Eu cocei enquanto dormia. Não sei o que dizer além de: foi péssimo. É difícil dizer pelo que eu vejo pelo espelho, mas eu posso ter danificado alguma parte do meu cérebro pelos buracos da testa e do lado esquerdo. Um pequeno pedaço esta pendurado em uma linha que se parece com um pequeno vaso sanguíneo. Eu tentei enfia-lo de volta sob a borda do crânio, mas eu tive que pressionar muito para faze-lo e estou preocupado de que eu tornei tudo ainda pior
Ao menos eu vi um urso hoje.

15 de Agosto de 2015, 16:15

Mais buracos para mim. Raspei minha cabeça. Não há mais cabelo, muito mais buracos. Lembra daquelas bolas de beisebol de quando éramos crianças? Um dia eu vou dizer a Jen como eu pensei que minha cabeça se parecia com uma bola de beisebol. Ela sempre gostou de beisebol e de brincar com meu cabelo. Minha infecção na cabeça estava ficando pior antes do urso chegar. Agora ele lambe minha cabeça enquanto eu durmo e mantém longe as coisa nojentas. Jen ama ursos. Ursos e rinocerontes.

Todas as manhas eu tenho que limpar minhas unhas, muito. Acariciar o uso faz elas ficarem realmente sujas. É legal que o urso tenha raspado o pelo quando eu raspei a cabeça, assim eu não me sinto estranho. Esses pulsos na minha cabeça são bons e fortes o tempo todo. Isso é bom. O urso me lambe muito enquanto eu durmo.

15 de Agst de 2015, 5000

Coçar o urso em suas orelhas faz ele lamber, lamber muito. Muitas lambidas significam menos coceira. Jen coçava minhas costas quando estava com coceira. Uma vez ela me viu tentando coçar entre meus ombros usando a moldura da porta. Ela me chamou de urso, porque é isso que ursos fazem quando coça lá atrás. 60 buracos, vou cortar os pedaços entre eles. Farei meu urso orgulhoso já que não pude deixar Jen orgulhosa.


E ai gente? Perdão pelo sumiço, mas a vida é complicada. Enfim, o que acharam do texto? Se  quiserem indicar alguma história só mandar aqui!


06/01/2017

Rostos novos

Olá, meu nome é Seth. Estou escrevendo essa carta, a engarrafando, e a jogando pelo córrego próximo da minha casa. Escrever me ajuda a manter a sanidade. Com sorte, alguém que continuar lendo isso, virá me salvar.

Tudo começou ha um mês. Eu estava em meu escritório, no porão, assistindo Mystery Science Theater 3000 no computador. O telefone tocou ao meu lado, mas eu não dei atenção.

Nunca era para mim; e nas raras vezes, era o meu irmão, e enquanto conversávamos, o meu sobrinho sempre pegava o telefone para tentar falar comigo também. A minha mãe gritou lá de cima que o telefonema era para mim. Sim, eu ainda vivo com meus pais. Pode rir. De qualquer forma, eu atendi.

“Alô?” falei, prestando mais atenção para as palhaçadas que o robô fazia na tela do computador.

“Começou.” A voz soava como um choramingo, um apelo. Eu não reconhecia a voz.

“O que?” Perguntei, imaginando quem poderia estar ligando.

“Eles vieram. Não tenho muito tempo, Jeff; você me pediu que ligasse se o que fizemos desse errado.”

Agora, um pouco preocupado, falei, “Acho que você ligou para o número errado. Aqui é o Seth, não Jeff.”

“NÃO SAIA DE CASA!” A pessoa gritou. Completamente apavorado, bati o telefone. Deveria ser algum trote, mas não foi engraçado. Aturdido, resolvi deixar para lá.

Mais tarde, acabei de assistir e desliguei as luzes para subir as escadas. Estava muito escuro, mas eu já sabia o caminho. Porém, dessa vez a escuridão parecia um pouco mais opressiva. Tentei ignorar a sensação e subi as escadas. Enquanto passava pela sala de estar, arrisquei uma olhada pela janela. Havia pessoas lá fora, andando ou algo assim. Olhei meu relógio e ele marcava 3:00 AM. “Que estranho,” murmurei. Cambaleei para o meu quarto e me preparei para dormir.

Eu fui um tolo naquela noite. Se eu tivesse percebido o que tinha visto, teria me poupado do terror e saído de casa.

Na manha seguinte, a TV estava ligada no noticiário. O que era estranho, pois o meu pai sempre deixava nos esportes antes de sairmos para o trabalho. Mas eu nem dei muita atenção, enquanto puxava uma gravata e seguia para o banheiro. Uma estranha sensação rastejava em minhas entranhas enquanto eu cumpria minha rotina matinal. Eu sempre tinha que lutar pelo banheiro, mas hoje não havia nenhum som pela casa. Dei uma olhada na sala e percebi que a porta da frente estava aberta, mas a porta de vidro que levava para a rua ainda estava fechada. Tudo estava silencioso. Olhei para fora e vi as mesmas pessoas que tinha visto na noite passada.

Abri a porta.

Imediatamente, seus rostos se viraram em minha direção. Recuei e voltei para dentro o mais rápido que pude, sentindo algo agarrar meu tornozelo. Seus rostos mostravam olhares inexpressivos e suas bocas estavam levemente boquiabertas e pingando sangue. Olhei para baixo e vi um deles na varanda, retraindo os braços. Ele tinha tentado me agarrar. Com uma estonteante sensação de horror, reconheci o meu irmãozinho.

Batendo a porta, tranquei e corri de volta para a sala. A televisão anunciava uma doença que estava se espalhando pelo sul do Canadá, atravessando para os EUA. Desliguei a TV e chamei por alguém que ainda estivesse em casa.

Sem respostas...

E assim começou a minha solitária existência. As notícias continuaram por alguns dias antes de cessarem. Os jornalistas mantiveram o mesmo erro estúpido: voltavam para casa todas as noites. A eletricidade ainda estava sendo distribuída; acho que alguém continuava trabalhando na usina. Ou talvez apenas a Nova Inglaterra havia sido tomada; Eu não sei. A internet também tinha caído, o que era irritante.

Enquanto as noticias ainda eram transmitidas, eles os chamavam de zumbis. Eu achava que realmente eram zumbis, pois eles não faziam muitas coisas e estavam definitivamente mortos; eles andavam até suas pernas apodrecerem, então se arrastavam ate literalmente caírem aos pedaços. Porém, enquanto tinham pernas eles eram rápidos. Foi como tinham pego a minha família, eu suponho. E o carro de policia que tinha vindo à procura de sobrevivente... não era algo legal de se ver todas as manhãs.

Eles tinham virado o meu carro, então eu estava preso. Mais um policial veio. Eles não precisavam de comida, então nem acabaram de comer o pobre policial. Mas o desmembraram; por isso ele não pôde se levantar para se juntar a eles. Porém, eu podia vê-lo rangendo os dentes, infrutiferamente.

Por quase uma semana, o cara no rádio falava que estavam caindo aos pedaços, então tudo o que precisaríamos fazer seria esperar que se desintegrassem por completo. Então ele ficou impaciente e saiu. Ninguém passou noticias pelo rádio por duas semanas.

Porém, estou encrencado. Não há mais comida em casa. Não posso esperar que todos caiam mortos outra vez. Fiz algumas expedições para o armazém. Sorte que eu tinha uma coleção de espadas.

Eles eram muito lentos para me pegarem enquanto eu corria, mas estavam em grande número, o que me assustava as vezes. Da última vez, eles quase me pegaram. Enquanto voltava, quebrei a porta que dava para a rua; agora o frio se infiltra na casa todas as noites e nesse mesmo momento posso ver um deles de pé na varanda, a menos de dois metros de onde estou escrevendo essa carta.

Você estará seguro dentro de casa. Não me pergunte os motivos que os fazem evitar de tentar entrar. Seja qual for o motivo, é o que me mantém vivo. Infelizmente, eles parecem saber que há alguém vivendo dentro da casa. Não me pergunte como; esse carinha na varanda nem tem mais os olhos. Talvez possam ouvir batimentos cardíacos, ou sentir o cheiro de suor... ou sangue.

Passei alguns dias pondo nomes neles. Alguns rostos eu já reconhecia. Era sempre o mesmo grupo rondando por aqui pelas ultimas semanas, e a quantidade vai diminuindo conforme vão se deteriorando. Porém, eles nunca vão embora. Lá fora, havia 79 deles que um dia já foram homens e 63 que já foram mulheres.

Uma vez, apenas para ver o que aconteceria, atirei na cabeça de um deles, com uma calibre 12. Apenas para ver se aquela coisa de “atire sempre na cabeça dos zumbis” era realmente verdade. Então, agora tem 79 deles que um dia já foram homens, 62 que já foram mulheres, e 1 que já foi uma mulher e decidiu continuar de pé mesmo perdendo 80% da cabeça. E eu estou com uma bala a menos.

Então eles esperam… e eu estou enlouquecendo. Falo constantemente comigo mesmo e comi um animal empalhado na noite passada. O algodão não desceu tão fácil, mas me sinto bem por ter algo no estômago. Não há arvores frutíferas por perto e, de qualquer forma, estamos em Novembro. A água está ficando escassa. A distribuição foi interrompida há oito dias; com sorte, enchi uma banheira e cada garrafa que pude encontrar antes da interrupção.

Ah, que ótimo. Agora as lâmpadas piscam e fazem uns zumbidos. Me pergunto se a energia também será interrompida.

...

Bom, isso não foi legal. Totalmente sem energia por quatro dias. Já tentou dormir no escuro sabendo que há criaturas lá fora que o mataria e o tornaria um deles na primeira chance que tivessem? Provavelmente, já que essas coisas parecem estar por todos os lugares.

Nota: já mencionei sobre Herschel, o cara em minha varanda?

Uma de suas pernas caiu, e agora ele fica sentado cheirando ela. Graças a Deus por eles terem perdido quase todas as funções cerebrais. Estou bastante certo de que as almas não estejam sendo mantidas em cativeiro dentro dessas coisas, e que continuam funcionando apenas com a função de tentar espalhar essa doença (ou o que seja) o máximo que puderem.

 Não sei se você já percebeu, mas os animais parecem não ser afetados. Isso já é um pequeno conforto. É claro que eles morrem se comerem algum infectado, mas não se levantam depois de mortos.

Estranho, né? Estou ficando com fome e desesperado. Talvez… talvez eu pudesse carregar a .22 e atirar em algum esquilo lá fora. Mas como eu poderia ir pega-lo?

Por um lado, estou otimista por saber que você ainda está por aí, seja lá quem for. A energia não poderia ter voltado se não houvesse pessoas trabalhando para restaura a ordem. Estou me sentindo sortudo; hora de pegar uma espada e ir jogar essa mensagem no córrego. Talvez toda essa coisa já esteja acabando.

Talvez…

Mas por outro lado, se essa coisa já está chegando ao fim...

Por que hoje há rostos novos lá fora?


05/01/2017

Caviar


Fui a diversos locais do mundo para encontrar as melhores comidas. Seis continentes, milhares de regiões, incontáveis pratos; tudo para encontrar a refeição perfeita. Por um tempo, achei que nunca conseguiria. Sempre havia algo meio estranho; o sal, o frescor, a temperatura - pequenos defeitos que, para qualquer outra pessoa, não significaria nada. Entretanto, para mim, havia uma diferença distinta entre perfeição e o comum. Minha missão continuava. 

Durante minhas viagens, eu descobri sobre um "clube de jantar underground" em Moscou, que se encontravam uma vez por ano. Enquanto "clube de jantar underground" parecia ser misterioso e ilícito, é apenas um lugar que funciona causalmente, ou seja: sem um alvará da vigilância sanitária. Chefes de cozinha por todo o mundo fazem isso sempre para seus amigos. Eu mesmo já fui em vários. 

Mas esse tinha o intuito de ser diferente. Eles tinham o melhor caviar. 

Caviar é um item de luxo, mas até na Rússia-obcecada-por-luxo, começou a ser bem menos usado por questões de sustentabilidade. Ainda está disponível abertamente, mas os que são realmente bons estão cada vez mais difícil de se encontrar. É muito complicado colocar as mãos na "coisa realmente boa". Está trancado pelos Oligarcas e chefes de estado; se você não é um deles ou não está em sua companhia, está sem sorte. Então quando ouvi que o clube de jantar estaria servindo o melhor do melhor, eu sabia que teria de ir até lá. 

Mas não foi fácil. 

Levou quatro anos para conseguir me engrenar com gourmets influentes de Moscou. Gastei milhares e mais milhares de dólares em seus restaurantes, construindo uma boa reputação, escrevendo em meus blogs sobre suas comidas e cultivando relacionamentos. Vasily Protchenko, um dono de restaurante e subcelebridade de Moscou, foi quem me notou. Depois de um certo tempo, nos tornamos amigos. Eu não sabia se ele era membro do clube de jantar, mas se realmente existia, ele tinha de ser. Mas não falei nada. Eu aguardei. 

Em uma tarde, Vasily e eu estávamos conversando sobre caviar, especialmente sobre as melhores fontes. Ele mencionou os mares do Japão, o que achei estranho, sendo que o desastre de Fukushima havia afastado as pessoas de comprar frutos do mar daquela área. Ele concordou que o que acontecera lá era moderadamente desconcertante, mas insistiu que o caviar daquelas águas era sublime. Foi aí que aconteceu. 

"Sabe," me falou, "tem um ainda melhor. Algo que quase ninguém sabe a respeito. Você consegue guardar um segredo?"

Eu dei o meu melhor para não parecer super animado. Tinha que ser o que eu estava aguardando todo esse tempo. 

"Claro," falei, e me inclinei em sua direção para ouvir melhor. 

Vasily me contou sobre o clube de jantar. Haviam 20 chefes e poucos dos seus melhores amigos de todo o mundo. Eles se encontravam em um restaurante no final da mesma rua do de Vasily, e se eu estivesse disposto a pagar a barganha de 5 mil dólares e manter minha boca calada, eu poderia ir junto. Uma hora e uma visita até o banco depois, eu tinha os 5 mil. Tudo que eu tinha que fazer era esperar. 

Na noite do jantar, eu me encontrei com Vasily em seu restaurante e tomamos uns drinks. Então andamos até o lugar do encontro, no qual havia uma placa dizendo que estaria fechado no final de semana. Demos a volta e entramos pela porta da cozinha. A cozinha estava cheia de chefes. Alguns eu reconheci de minhas viagens, alguns eram desconhecidos para mim. Todos estavam preparando pratos para a noite. 

Sentamos no salão principal e admirei a decoração. O quarto estava suavemente iluminado com velas e as janelas estavam tapadas com papéis pretos. Estava óbvio que aquele era um jantar particular e que olhos curiosos não eram bem-vindos.

"Como funciona aqui?" Perguntei a Vasily. 

"Eles só começam a trazer os pratos. São pequenos, obviamente, para você poder provar todos. O caviar fica para o final, acho. É o prato mais raro e mais especial de todos." 

Como ele havia dito, a comida começou a chegar. Fomos agraciados com pratos magnificamente preparados por chefes meticulosos e com as mentes mais geniais possíveis. Eu comi e bebi até minha mente girar. 

Vasily pediu licença e foi para a cozinha. Conversei com alguns dos outros convidados e descobri que vários eram como eu - gourmets ricos procurando por a melhor das experiências gastronômicas.

Depois de mais alguns pratos, alguém perto da cozinha bateu palmas para conseguir a atenção de todos. Para minha surpresa, era Vasily. 

"Quero agradecer por todos que vieram nesta noite," anunciou. "A noite, como sempre, foi de um incrível sucesso. Demos uma amostra da culinária dos melhores chefes do mundo, e como de costume, gostaríamos de terminar a noite com algo muito especial. Vocês todos sabem como sou apaixonado pelo meu caviar. Vocês já provaram os melhores de todos os lugares; Rússia, Japão, canada, etc, etc. Hoje à noite, tenho mais um presente. É algo extremamente raro e demora um tempo muito longo para ser produzido em quantidades que se encaixem em nosso consumo." 

Um desfile de garçons carregando travessas prateadas emergiu da cozinha. Se espalharam pelo salão, colocando um prato de comida na frente de cada um dos convidados. Vasily continuou. 

"Esse é o ponto culminante de anos de trabalho. Tive que mexer vários pauzinhos e puxar diversos sacos para conseguir trazer isso para vocês hoje a noite, mas pela primeira vez, eu gostaria de dividir com vocês este caviar. É sem dúvida nenhuma o mais raro do planeta, e acredito também ser o mais peculiar. Por favor, aproveitem." 

Todos aplaudiram e Vasily voltou a sentar do meu lado. 

"Eu não fazia ideia que era você que estava por trás do caviar!" Exclamei. 

Vasily sorriu. "Queria que você ficasse surpreso," admitiu. "Agora, por favor, coma. Quero saber o que você acha." 

Olhei para meu prato. Havia uma torrada, amorenada com perfeição, coberta com uma pasta marrom-avermelhada. Acima da pasta estava um bocado de crème fraîche salpicado com pequenos pedaços verdes de endro. Minha boca salivou. 

Levei até a boca e mordi. Minhas pálpebras se fecharam e mastiguei, saboreando o gosto. Era espesso e salgado, com notas ricas e distintas de fígado. Era totalmente diferente de qualquer caviar que eu experimentara no passado, mas sem dúvida alguma, era espetacular. Comi mais um pedaço. A complexidade do sabor era de tirar o folego. Sem perceber, eu estava sorrindo feito um idiota o tempo todo. 

"Então, o que achou?" Vasily perguntou. 

Engoli e disse, "É a coisa mais incrível que eu já provei. É tão suave e amanteigado; não tem nada do salgado habitual dos caviares normais e, inicialmente eu não percebi, mas então as notas fígado vieram e abraçaram minha língua. De onde é?"

"Coreia do Norte," me respondeu. 

"Meu Deus," respondi, "como você teve acesso aquelas águas sem ser baleado?"

"Bem," começou a falar, "eu conheço um cara. Ele é médico lá." 

Peguei o último pedaço e comi enquanto Vasily falava. 

"Eu sabia que nunca poderia pescar nas águas da Korea do Norte. Mas na primeira vez que eu e o médico conversamos, percebi que ele tinha acesso a esse caviar sem nem perceber. Durante diversos anos, eu paguei uma boa quantia de dinheiro para que ele o coletasse para mim."

Eu estava intrigado. 

"Então o médico te traz o peixe?" Perguntei. 

Vasily riu. "Não, não, não. O médico não é um pescador! Ele é um especialista - ele não tem tempo para pescar."

"Especialista em que?" Quis saber, totalmente confuso. 

"Ginecologia," disse. "Lá eles realizam muitas esterilizações forçadas. É péssimo para elas, mas ótimo para nós. Sem isso, não teríamos esse caviar!"

O salão pareceu escurecer e senti minha boca ficando muito úmida e muito seca ao mesmo tempo. Eu mal consegui formar a pergunta. 

"Vasily, que tipo de caviar é esse?"

O chefe sorriu. 

"Caviar humano!" 
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Todos os créditos para/ All credits to: Unsettling Stories


04/01/2017

Registros finais de uma exploração

Feliz 2017, Creepers! 

09 de Setembro de 2016
Essa cidade não está em nenhum mapa. E se um dia já esteve, essas pessoas estão mortas a muito tempo. Assim como seus filhos. E seus netos. E bisnetos. E tataranetos. E assim por diante. 

No entanto, a cidade está aqui. Minha fonte estava certa. Meu dinheiro foi bem gasto. Essas estruturas antigas são tumbas negras. Nós montamos nosso acampamento nos arredores. Lá na cidade faz muito frio. 

10 de Setembro de 2016
Charles ficou de vigia enquanto eu dormia. Relatou não ter visto sinais de vida, mas um som o mantinha em constante estado de alerta. Um som suave. Suave, molhado, imponente. Sons que iam e vinham nos limites do audível, como se fossem sussurros, porem ardentes e úmidos - resquícios de um último respirar e palavras finais. 

Eu não ouvi nada. Meu sono foi negro como as estruturas à nossa frente. Nenhum som penetrou as minhas muralhas sem sonhos. Por um breve momento ao acordar, acreditei ter falecido. 

Hoje passearemos pela cidade. 

11 de Setembro de 2016
Antes do frio esgotar nossas energias, nós conseguimos explorar as primeiras centenas de metros da cidade. Nos focamos na parte de fora, catalogando as fachadas de pedras nuas da estrutura. Apesar de sua idade milenar, a estrutura não estava abalada. Não encontramos indicações do que poderia ter feito os sons que Charles ouviu. 

Durante a noite, enquanto Charles dormia, eu ouvi. Eram como ele havia descrito. Entretanto, reconheci uma estrutura na neblina esporádica do som. Se não era uma língua, era um fenômeno natural nunca antes descoberto. Minha mente vagava enquanto observava o peito de Charles subir e descer.  

Os sussurros inundaram meu córtex auditivo e uma onda sinestésica de alucinação varreu meu ser. O som cintilava em minha visão e dançava em minha língua. Tinha gosto metálico. Como o de sangue. Mas não senti nojo, senti uma sensação perversa de contentamento. 

12 de Setembro de 2016
Eu pisquei e Charles havia sumido. Como eu havia adormecido era um mistério, pois eu estava de pé. Mas quando abri minhas pálpebras, era dia. E meu parceiro sumira. Em seu lugar haviam pegadas que se direcionavam para a cidade.

Os sons estão altos agora. Estou quilômetros adentro das entranhas da cidade obscura e fria. Torres estruturadas pairam sobre mim e bloqueiam o sol; minha respiração congela na frente de meu rosto, e estamos no final do verão. A temperatura só contribui para a sensação de algo estar completamente errado. 

Quando o vento sopra, eu acho que ouço Charles chamando por meu nome. De novo e de novo e de novo e de novo, varrido por lufadas de ar e pressões mutáveis e permeando os sons molhados que ecoam em cada cabana e residência, ele me chama. Eu não dormirei esta noite. 

13 de Setembro de 2016
O primeiro sinal de vida se apresentou a mim no começo da manhã. Era um pedaço de pele ou cartilagem brilhando sobre a luz do sol. Estava acoplada ao lado de uma pequena estrutura. Quando cheguei perto para investigar, descobri que estava crescendo de dentro da rachadura da pedra. Pressionei minha faca contra aquilo. Sangrou e depois se retraiu para dentro da pedra. Se não fossem pelos barulhos do vento e pelo que sei que eram os gemidos de Charles, eu juro que poderia ter ouvido aqui fazer algum som. Um som baixo e molhado. 

14 de Setembro de 2016
É difícil de manter a fogueira acesa durante a noite. A expansão desta cidade é totalmente diferente do que esperávamos. Não sei onde estou; tenho o fútil desejo de ajudar Charles e voltar para casa.

Quanto mais adentro, pior fica o estado das estruturas. Todas as rachaduras e pedaços faltando de pedra estão preenchidos com aquele mesmo tecido vivo. Sua densidade só cresce enquanto sigo o som. Sei que devia estar correndo na direção oposta. A carne dentro dos edifícios ondula no peristaltismo direcional. Estou seguindo-as. Ainda não vi nenhuma entrada para qualquer uma das estruturas.

15 de Setembro de 2016
A cidade agora é mais de carne do que de pedra. Os sussurros úmidos invadem meus ouvidos e trabalham para se infiltrar em todos meus sentidos. Eu os sinto amaldiçoando meu corpo. Ainda assim, eu continuo a marchar. A temperatura está mais quente. Não consigo pensar em mais nada do que seguir em frente.

16 de Setembro de 2016
O frio foi substituído por calor e umidade. As pedras foram consumidas pela carne; estruturas titânicas de músculos e veias chegam até o céu cinzento. Tudo é molhado. Tudo se move. 

17 de Setembro de 2016
Nessa manhã, encontrei Charles. Um Charles. Se era o meu parceiro ou outra coisa, não sei. Ele estava preso dentro de uma das estruturas de carne. Parecia que seu corpo havia se incorporado entre as outras carnes; veias grossas alimentavam suas pernas e pescoço. 

Perto, outros Charles estavam crescendo em diferentes estruturas. Todos estavam em diferentes etapas de desenvolvimento. Todos se remexendo e se movendo junto das outras carnes. 

Já reconheceram minha presença. Começaram com um simples olhar, mas agora estão tentando encostar em mim. As mãos de meu parceiro - o homem que eu amava - está se esticando em direção de minhas mãos; mãos que segurei incontáveis vezes no que parece ser um passado distante. 

Os sussurros úmidos são sedutores e intoxicantes. Eu olho para trás e vejo o mar de carne e pedra que tive que atravessar para chegar aqui. A lembrança do frio no começo da cidade é horrível. Deixar este útero aquecido onde sou querida e aceita parece absurdo. E agora, enquanto as veias se estendem das mãos dos Charles, pacientemente esperando minha aceitação, tenho de fazer uma escolha. Eu vou embora, com frio e na solidão? Ou adentro essa união em carne?

Já estive em solidão e com frio por tanto tempo. Tenho que acreditar que meu ser está pronto para algo novo. Algo que podemos experimentar juntos. Rezem por mim. Rezem por nós.



22/12/2016

As mensagens criptografadas de Ricky McCormick

Oi Creepers, tudo bom? Hoje, com a parceria da minha página Cons Pirei!, estou trazendo mais um caso real de morte misteriosa. O texto original não é meu, eu apenas o traduzi e o adaptei. As fontes estarão lá em baixo. A leitura é um tanto longa, mas espero que gostem. 

***


Durante três dias quentes em Junho de 1999, ninguém ligou para Ricky McCormick. Não houveram ligações frenéticas para a polícia, ninguém notificou seu desaparecimento, nenhuma mãe ou mulher viúva apelou aos prantos para a mídia por informações ou justiça. Ninguém parecia ligar que o homem negro de 41 anos estava desaparecido, sem contar que poderia até estar morto. Ele tinha sumido e ninguém notara - e então foi encontrado em uma plantação de milho abandonada em St. Charles Country, Missouri. Quando a polícia o encontrou, seu corpo estava tão decomposto que suas digitais já haviam se desfeito.

Imediatamente a polícia suspeitou de um crime: aquele campo era um lugar comum para desovação de corpos. E um descarte após assassinato parecia uma explicação lógica para como McCormick havia parado em um milharal a 30 quilômetros de sua casa - nem sequer de ônibus ele andava. Mas também havia outras razões. Em 1993, ele ficou preso por 11 meses por uma condenação de abuso sexual de primeiro grau; mais recentemente, ele tinha ligações com tráfico de drogas. A polícia então assumiu que, por causa de seu histórico, alguém o queria morto.

Entretanto a polícia não encontrou nenhuma evidência que indicasse quem teria cometido o crime. E que talvez McCormick não teria sido assassinado de fato. O médico legista não havia encontrado nenhum ferimento de facada ou bala; talvez poderia ter sido um ferimento na cabeça, mas o corpo estava em um estado muito avançado de decomposição para que alguém tivesse certeza. “Fizemos tudo que podíamos, mas não podemos provar que tenha sido homicídio, na verdade nem conseguimos descobrir o motivo dele estar morto,” O Major de Polícia de Maryland Heights, Tom O'Connor, disse ao St. Louis Post-Dispatch em 1999.

O xerife classificou a morte de McCormick como "suspeita". Mas sem pistas ou evidências claras de um crime, não havia muito para os investigadores fazerem. Até hoje, o caso permanece aberto.

Nos 12 anos seguintes, o caso de Ricky McCormick ficou frio. Então, em março de 2011, a Unidade de Registros de Criptoanálise e Racketeering (CRRU) do FBI compartilhou duas notas que haviam sido achadas amassadas no bolso das calças jeans sujas de McCormick. As anotações pareciam ser só um monte de bobagens. Mas o FBI acredita que as letras aparentemente aleatórias, números e parênteses rabiscados em papel branco podem conter respostas para a misteriosa morte de McCormick.

A polícia encontrou as notas no corpo de McCormick e, sem saber o que fazer com elas, procurou o FBI para pedir ajuda. Por mais de uma década, o FBI não conseguiu quebrar o código de McCormick, então eles fizeram algo incomum: a agência publicamente compartilhou as anotações. "As rotas padrão de criptoanálise parecem ter atingido paredes de tijolo", disse Dan Olson, chefe da CRRU, na época. "Talvez alguém com um novo olhar possa nos ajudar com uma ideia brilhante." Foi a primeira vez que o público, incluindo a família McCormick, ouviu falar sobre essas anotações.

De certa forma, este anúncio de Olson ressuscitou McCormick - pelo menos digitalmente. Um homem com quem ninguém se importou durante seu sumiço de três dias, enquanto seu corpo se decompôs em um campo, cujo o caso provavelmente já tinha sido esquecido pela polícia, de repente se tornou uma obsessão na internet. Mas ao ressuscitar dos mortos, McCormick estava inclinado aos caprichos dos vivos. Os detetives amadores, redditors ávidos, criptógrafos de fim de semana, e teoristas da conspiração, todos se fixaram nas notas de McCormick. Em suas mãos, Ricky McCormick tornara-se diversas coisas, incluindo  traficante de drogas ou esquizofrênico. Um autista, louco, e até uma criação fictícia de uma agência governamental nefasta.


Quando a Internet se cansou de Ricky McCormick, ele era todas essas coisas e nenhuma delas ao mesmo tempo. Seu código ainda não havia sido desvendado.

Não é de estranhar que o caso de McCormick movimentou a Internet. A morte misteriosa, as notas criptografadas lançadas ao público tardiamente  - é uma história pronta para os teóricos da conspiração e detetives de sofá. Até hoje ele continua aparecendo em blogs, sites e fóruns por conta do fascínio em torno de suas anotações indesvendáveis.

As notas de McCormick entraram em um vortex de textos não-decifrados, que inclui o manuscrito Voynich, o disco Alberti, que inclui ilustrações surrealmente elaboradas do cosmos, o mapa do tesouro codificado Beale Papers e a carta "Dorabella". Mas as notas de McCormick também pertencem a um subgênero dos código indecifrados: os dos casos arquivados, com seus exemplos mais famosos sendo o caso de Tamam Shud (já postado lá na Cons Pirei e aqui no CPBr) e, claro, o Assassino do Zodíaco (pretendo fazer um post sobre ele no futuro, explicando melhor todo o caso).

Na verdade, quando o FBI mostrou as anotações de McCormick, o Assassino do Zodíaco não havia ainda sido esquecido pela internet. O zodíaco é o serial killer desconhecido mais notório dos Estados Unidos. Ativo no norte da Califórnia no final dos anos 60, sua verdadeira identidade ainda é calorosamente debatido na internet até hoje. Suas cartas provocativas enviadas para a mídia incluíram quatro criptogramas, apenas um dos quais foi parcialmente resolvido - por uma equipe  montada por um marido e mulher que eram criptógrafos amadores, Donald e Bettye Harden.

Quase 45 anos após o último assassinato atribuído à ele, centenas de sites e blogs continuam se dedicando para tentar resolver os código do Zodíaco. Muitos dos tópicos dedicados ao Zodíaco mostram uma certa admiração. Há a implicação de que tais códigos robustos devem ser o produto de uma mente de primeira classe. McCormick, pelo contrário, não ganha tal respeito. Ao contrário do zodíaco, na vida ele era conhecido e altamente julgado: era “mal e mal” alfabetizado e sua própria mãe o descrevia como "retardado". Seu código - se  é que realmente era um código - não era um desafio de assassino enviado aos jornais. Eram letras quase ilegíveis no papel, enfiado nos bolsos de sua calça jeans e recuperado apenas após sua morte. "Eles nos disseram que a única coisa em seus bolsos era um bilhete de pronto socorro", disse sua mãe ao Riverfront Times. "Agora, doze anos depois, eles voltam com essas merdas de rabiscos".

Havia uma desconexão, entre o código indestrutível e o homem derrotado. Para muitos detetives de Internet, não havia um grande background histórico para as anotações de McCormick. Ele era apenas um homem morto em um milharal. Além disso, ele era um homem morto que era pobre e negro - ele era um homem morto que tinha gerado dois filhos com uma menina com menos de 14 anos, um crime pelo qual ele serviu 11 meses na prisão. Resumindo, ele era o tipo de homem que acaba morto em um campo.

Essa avaliação dura, repetida através de muitos fóruns, dividiu a especulação amadora dos decifradores em dois pensamentos. Num deles, McCormick simplesmente não escreveu as notas: elas foram colocadas lá pelos traficantes de drogas que o empregara, como uma distração para a polícia. Em 1999, sua namorada disse à polícia que ele estava carregando drogas para Orlando; McCormick tinha feito sua mais recente viagem apenas duas semanas antes de sua morte - e, como observa o Riverfront Times, seus empregadores eram homens violentos.

A advogada mais proeminente dessa teoria é Elonka Dunin. Ela é uma criptógrafa amadora, descrita como "a criptógrafa favorita de todos" por um site de criptografias; Dan Brown nomeou um personagem em O Símbolo Perdido em sua homenagem. Dunin acredita que McCormick não tinha capacidade para criar um código aparentemente tão sofisticado. Em vez disso, ela diz, provavelmente ele serviu como um mensageiro, carregando o código entre partes desconhecidas. Mas mesmo que seja verdade, essa teoria não explica muito, como um redditor lamentou no fórum de Mistérios não resolvidos: “Não encontro explicações do porquê ele teria sido baleado e as anotações ficarem para trás. Ou o mensageiro lhe deu a mensagem e atirou nele, ou o receptor leu as mensagens e atirou nele, ou alguém o matou entre a opção A e B. Nada disto faz sentido". Se McCormick não escreveu as mensagens, então qualquer um poderia ter escrito - e isso deixa aberto para especulações correrem à solta.

Entretanto, a posição oficial do FBI em relação a esse caso é que sabemos quem é o autor das notas: "Tenho toda a confiança de dizer que foi Ricky quem escreveu as notas", disseram. "São notas escritas de um certo formato que parece que alguém escreveu para si mesmo, não para outra pessoa."

Mas então o que significam as anotações de McCormick? As teorias geralmente se concentram nos números, seguidas pela repetição das letras "NCBE". Alguns sugerem que "71", "74" e "75" podem ser referências a rodovias perto de St. Louis, enquanto outros acreditam que eles se referem à numeração de identificação de veículos (em inglês: VIN numbers), anotações sobre jogos (há uma relação significante entre sites de jogos e sites de criptografia), e ainda alguns sugerem que ele se referia à peças de carros.

Comentaristas do “Above Top Secret”, um fórum de discussão dedicado a "temas alternativos", como conspirações do governo e da Nova Ordem Mundial, oferecem interpretações bastante racistas, expondo McCormick como um traficante de drogas. Nesse universo, "NCBE" provável é uma gíria de rua para "No Cash Being Exchanged - Nenhum dinheiro sendo trocado - em tradução livre para português" ou "Nose Candy Buys Eight Ball - Nariz de doce compra Bola Oito - em tradução livre para português " ou "Nickel Bag Everyday - Niqueleira todo dia - em tradução livre para português". Não é um código real, um comentarista escreve: "Isso são abreviações escritas por um traficante analfabeto. Revela para quem ele vende, o quanto vende, uma breve descrição de como os conhece, se os reconhece ou se não os reconhece". Não existem evidências  de que McCormick tenha sido nada além de uma mula, levando drogas de lá para cá. É bastante improvável que esses códigos sejam algo relacionado a tráfico de drogas.

Novamente, as teorias sobre as anotações de McCormick são muitas vezes baseadas na questão fundamental de que se um homem que não completou o ensino médio teria a capacidade de produzir criptografias sofisticadas o suficiente que ninguém, nem decifradores amadores ou até mesmo o FBI poderiam decifrar. Mas talvez as notas nem sequer sejam códigos. Alguns detetives cibernéticos veem a evidência como um caso de transtorno bipolar, esquizofrenia ou até mesmo dano cerebral. "Tendo trabalhado com pessoas que sofreram com lesões cerebrais, tenho que te dizer, isso parece muito como o tipo de jargão que eles escreviam.  Podia ter um sentido perfeito em suas cabeças, mas a mensagem não era bem transmitida quando escreviam.", um comentou. Um redditor viu padrões de esquizofrenia: a escrita instável, a paranóia, a incontrolável necessidade de criptografar pensamentos e idéias aleatórias.

Talvez exista uma explicação ainda mais banal. Alguns vêem o "código" de McCormick como nada mais do que um cronograma manuscrito para sua medicações.

Este é o retrato mais simpático de Ricky McCormick, e o que mais se encaixa com o suposto "código", pelo pouco que sabemos de sua vida. Embora ele não tenha recebido um diagnóstico ou tratamento psiquiátrico oficial, após sua prisão de 1992 por agressão sexual, sua defensora pública acreditava que ele estava "sofrendo de alguma doença mental". Ela pediu um exame de saúde mental, mas McCormick foi considerado apto para julgamento - o que não sugere muito mais de que ele poderia discernir o certo do errado. Sua família, entretanto, descreveu-o de uma forma que se encaixava com um neuroatípico não diagnosticado: além de sua mãe já o ter descrito como "retardado", uma tia lembra dele como um menino isolado com uma "parede de tijolos em volta de seus pensamentos".

A resposta para suas anotações misteriosas poderão ficar para sempre somente nessa mente emparedada, que agora já se foi. Quando as anotações de McCormick reaparecem em fóruns de criminologia ou criptografia, elas geralmente desaparecem rapidamente. Não há mais muito onde procurar, não há mais pistas. E talvez haja uma razão mais profunda, mais pungente. Nick Dunning insinua em seu blog de criptografias misteriosas, escrevendo: "Mas tudo que eu realmente sinto é uma sensação de profunda tristeza - que o que estamos vendo nessas duas anotações é a vida de um pobre rapaz analfabeto que deu um passo maior que perna, e acabou caindo no processo.”
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E aí, Creepers?! Qual sua opinião em relação ao caso de Ricky McCormick? Estaria o FBI e os detetives amadores errados em relação da capacidade de Ricky, ou então realmente seria apenas a obra de uma mente perturbada? Quem matou Ricky e porque? Como ele foi parar a quilômetros de sua casa? Comenta aí!


ORIGINAL ARTICLE BY STASSA EDWARDS / TEXTO ORIGINAL DE STASSA EDWARDS:
OUTRAS FONTES: