Encontro

Quando entramos na minha casa, foi quase que automaticamente para que caíssemos em cima do sofá e começássemos a nos beijar loucamente. Começamos a tirar as roupas, em conjunto, quase que sincronizados e continuamos no mesmo local. Eu olhei nos seus olhos, naqueles grandes e brilhosos olhos verdes, lembrei da minha genitora, da minha tão bela e delicada mãe, mas ignorei para não atrapalhar na nossa noite romântica.

Estávamos sem nada cobrindo os nossos corpos, ela continuou beijando-me e a forma que fazia, era óbvio que havia tempo que não beija alguém, dado que, no primeiro momento do nosso encontro, ela disse que tinha filhos e não havia saído com mais ninguém faz muito tempo. Já eu, naquele momento intenso, continue ignorando as suas palavras. Mas algo fez com que sua voz fosse destruída na minha mente ao observar a sua pele, a sua pele tão branca e nostálgica, quase que sendo um retrato de algo da minha infância. Eu estremeci o meu corpo e apertei a sua mão, que até ficou vermelha, e ela assustou-se por um momento. Expliquei o ocorrido, que exagerei no meu carinho.

- Eu te amo, mamãe, sempre vou te amar para todo sempre... Não é assim que você queria!? - Mais uma vez ela se assustou quando deixei escapar os meus pensamentos estranhos, mas eu percebi que não queria quebrar o clima e continuou naquele momento entre nós dois.

- Acho que nós não podemos fazer isso no primeiro encontro. Aliás, eu esqueci de alimentar o meu filho mais novo e preciso voltar para casa. Sinto muito por qualquer coisa, quem sabe essa semana podemos nos encontrar uma segunda vez, não acha? -Não foi difícil não reparar a cor dos seus olhos, roubados do meu passado, tão verdes e radiantes, que fez com que os meus dentes trincassem com as aquelas palavras, mostrando que estava com medo e percebendo o meu comportamento, o qual se transformou radicalmente. Ela estava visivelmente assustada, sua pele branca ficou um pouco amarelada por conta da palidez. Por alguma razão, esta sentiu aversão a minha pessoa, diante do nosso momento amoroso.

Ela tentou levantar, no entanto, já era tarde demais porque, naquele momento quente do nosso amor, eu comecei a penetrar no seu corpo, diversas e diversas vezes. Ela agarrou o meu rosto, com sua mão machucando a minha face, com a outra, arranhou os meus braços. Eu continuei olhando nos seus olhos e dizendo que estava com saudades, chamando-a de "mãe", lembrando o passado. Isso deixou ainda mais assustada, mas ficou concentrada no momento no qual eu estava penetrando o seu corpo, de forma um pouco selvagem e sem pensar no romantismo dessa noite.

O sofá ficou úmido, eu disse que estava apaixonado, e ela continuou contorcendo-se. Eu não parei de penetrar, em razão de que os seus olhos arregalaram-se, esta deixou escapar um gemido, que foi sendo censurado por aquele momento. Parei por alguns minutos para respirar e observar o que eu fiz, deixando-me chocado, fazendo-me caí do sofá, derrubando alguns móveis e se afastando daquela cena. O meu ódio ficou maior por perceber que não ela nunca vai ser a minha mãe, apesar das semelhanças e de roubar tudo do meu passado. Aquela mulher não era minha mãe!

Conheci ela em um site de encontros, cheio de pessoas carentes e desesperadas, senti algo que havia vislumbrado no meu passado e parecia ser muito ela, mas não... Eu enganei-me mais uma vez! A faca estava quase que grudada no meu braço, como se fosse parte do meu corpo e, para ter razão que não estava errado, fui ao encontro do seu corpo e penetrei mais dezenas de vezes o objeto. Não parecia ser a mamãe! Ela não conseguiu segurar o mesmo ódio que eu tinha por aquela pessoa quando o Sol era jovem. Eu não posso matar mamãe mais uma segunda vez, contudo sinto que eu vou encontrar ela de alguma forma, vou conseguir me vingar mais uma vez daquela pessoa do passado, aquele fantasma horroroso.

Eu preciso! Necessito disso! Não consigo dormir direito! Tenho que fazer mais uma vez! Sei que os seus olhos, a sua pele e a forma de se comportar são as partes chaves que eu vou conseguir encontrar a mamãe. Mesmo após morta, ela está em todos os lugares, e eu conheci uma mulher, creio eu que, dessa vez, eu posso me vingar, tentar sentir o que eu senti naquela época. Vou poder penetrar o seu corpo, dezenas e dezenas de vezes, com a minha faca e sentir o seu sangue sobre o meu corpo, livrando-me do sofrimento que ela me causou...

Autor: Sinistro

Invasão

Já fazem alguns meses desde que eles chegaram, com suas naves de design misterioso eles adentraram nossa atmosfera no meio da noite.

Naturalmente os governos do mundo todo se alarmaram em busca de uma forma de descobrir o que estava acontecendo, mas não foi necessário muito esforço pois rapidamente eles deixaram suas intenções bem claras.

No primeiro contato eles exterminaram mais da metade de toda a população com suas armas de destruição em massa atirando-as contra as cidades mais populosas, as forças armadas planejaram trazer alguns cientistas e militares que sobraram para uma estação de pesquisa subterrânea para tentar de algum modo ganhar um pouco de tempo até elaborarmos uma forma de contra atacar, porém sem sucesso, nada que pudéssemos pensar seria tão destruidor e cruel quanto a tecnologia deles.

Por sorte ou não, eles nos deram uma trégua de seu genocídio desenfreado e começaram a construir uma série de estruturas para fins desconhecidos por nós.

Algum tempo se passou e o restante sobrevivente da população tentava se abrigar de nossos visitantes a qualquer custo, mas eventualmente alguns eram capturados e levados para dentro das gigantescas estruturas metálicas, os outros eram pegos e mantidos presos em espaços confinados sendo abastecidos apenas com o suficiente para sobreviver, não sabemos o porque mas, francamente, algo dentro de mim não quer descobrir.

O governo, ou o que restou dele, já não tinha mais esperança de sobrevivência para nós, era questão de tempo até que eles nos achassem e nos desse um fim trágico também. Enquanto isso pensamos em todas as forma imagináveis de contornar a situação, os cientistas que estão no abrigo estão dando tudo de si para descobrir algo sobre eles mas... eles não se parecem com nada que já tínhamos visto até então.

Não sabemos qual a motivação que os levam a nos atacar de maneira tão brutal sem nos dar sequer a chance de defesa, eles não tentaram negociar ou propor um acordo, apenas nos dizimaram sem resquício de piedade e pior, sem dizer o motivo que os levou a tal ato.

Eu sinceramente não entendo, quando eu era apenas uma criança e ouvia as histórias sobre o fim do mundo eu nunca imaginaria que seria assim, aqueles miseráveis...!

A única coisa que sabemos até agora é que vieram de uma jovem estrela a 72 anos luz de distância que eles chamam de... " Sol ".

Autor: Gabriel Tupã.

Na mira do canal 15

25 anos...Era essa minha idade em 1998, quando participei dessa operação em Weston, uma cidadezinha pacata localizada na Flórida. Era uma tarde de setembro, o telefone da delegacia tocava repetidamente, uma penca de reclamações sobre um canal de TV com programas inadequados passando em plena manhã, quando as crianças estavam em casa, se entretendo em frente à televisão. Foram exatamente três meses até todo esse inferno terminar, simplesmente por não conseguimos entender bem a situação.

Vamos lá, esse canal simplesmente surgiu do nada, não sabemos quando ou em que momento os estranhos programas se deram início. Conversando com uma das pessoas que ligaram naqueles tempos, ela disse que o canal só era estranho, mas os acontecimentos daquele dia foram a causa de toda a confusão e a enorme quantidade de pais furiosos querendo uma explicação.

Eu era o novato nas forças policiais, alguém tinha que assistir os programas enquanto outros tentavam localizar de onde vinha o seu sinal. Tive que fazer anotações, ouvir pessoas, trazer informações, gravar o que passava, esse tipo de coisa. Anotei toda a programação do canal, das 05:00 as 23: 59. Quando dava exatamente meia noite, às famosas barras coloridas apareciam (Talvez entrassem em manutenção?) e ficava assim até voltar a programação normal, às cinco da matina. De início, achei que estavam exagerando, que não precisava da algazarra e escândalo que fizeram. Mudei de opinião quando passei a assistir tudo, eu entendi bem o motivo. Deixarei primeiro um pequeno resumo sobre os programas, para vocês entenderam o que se passava:

05:00 - Celebrities

Celebrities era um tipo de show de fofocas, onde se falavam da vida de celebridades, curiosidades sobre os famosos e toda essa besteira. Não tinha nada de errado com o programa, exceto que, não me recordava de nenhum famoso que aparecia nele. Os apresentadores os tratavam como se fossem super estrelas, conhecidas por todo o mundo, mas eu juro que nunca tinha ouvido ou visto essas “estrelas” da música e do cinema. Um tal de Edward Drum era o ator mais comentado. Cheguei a fazer pesquisas sobre ele, porém, não encontrei nenhum grande ator com esse nome.

06:30 - Mark's friends

Um desenho infantil sobre um garoto inocente e seus...Amigos? Nada de muito novo, era um clichê, típica animação educativa para entreter as crianças. Entretanto, a animação me incomodava, parecia aqueles desenhos Russos que passavam na união soviética. Uma hora tudo parecia normal, depois virava uma explosão de cores, como se os personagens tivessem usado LSD do nada. Era irritante, porém, nada demais.

07:20 - GM

Good Morning (GM) era o típico noticiário da manhã. Notícias, acidentes etc. O que tinha de estranho nisso? Todos os acidentes noticiados, não aconteceram. A polícia local saberia se um maluco da cidade tivesse perdido o controle ao dirigir embriagado, atropelando um monte de gente na calçada. Nunca tivemos notícias desses acidentes, muito menos das pessoas que o causaram. Novamente cheguei a pesquisar sobre isso, sem sucesso.

9:30 - Cooking with Mary

Programa de cozinha liderado por uma mulher de nome Mary. Ela estava na casa dos 40 anos, com seus cabelos negros e um olhar penetrante que me incomodava. Porém, o que mais me perturbava era o seu sorriso, eu tinha a impressão de que seus dentes eram pontiagudos e, ela sempre cozinhava sorrindo, deixando tudo mais difícil para mim. Ela usava ingredientes no mínimo exóticos, alguns eu nem sabia que existia.

11:50 - Masked House

Aqui é onde comecei a perceber que as coisas estavam indo longe demais. Esse estranho seriado contava a história de uma família, vivendo coisas normais do dia a dia, entretanto, tinha um detalhe...Todos andavam sem roupas e usavam máscaras gregas. Isso inclui também as crianças que participavam do show. Não era possível, eu não queria acreditar no que estava vendo, isso não poderia passar naquele horário e, mesmo que passasse nas altas da madrugada, crianças não deveriam participar daquilo, nem interagir com aqueles adultos, completamente pelados. Pedi logo para que o sinal fosse achado para descobrimos quem estava por trás do estranho canal 15

13:40 - Mais desenhos estranhos.

Outra vez, uma onda de desenhos duvidosos voltava a passar, um atrás do outro. Um era de um garoto que corria pela floresta e parecia não chegar a lugar nenhum, outro de um homem que, cansado de ser sozinho, sequestra uma garotinha e força ela a ser sua amiga e tinha um de outro cara que perdeu as duas mãos ao trabalhar em uma fábrica esquisita. Além das animações, agora as histórias também me incomodavam, ótimo.

15:20 - Afternoon Movies!

Uma sessão de filmes da tarde. Foi onde assisti pela primeira e última vez um filme sobre duas crianças que moravam com seus tios, então, um dia decidiram invocar um estranho ser no porão da casa, para pedirem proteção. A criatura mata os tios e os garotos decidem sair pelas ruas, procurando mais pessoas que eles não gostavam para o demônio matar. Nunca mais vi esse filme em lugar nenhum.

17:15 - The novice comedy of John Logg

Um programa de Stand-Up normal, porém, o apresentador usava um tipo de burca. Confesso que não esperava mais nada desse canal de TV. Então, entra o comediante, ele usava um saco plástico azul na cabeça com dois buracos para os olhos e um para a boca. Logo, a câmera muda, focando na...Plateia?!
Era somente bolas com rostos desenhados e eu pude ver uma das câmeras, mas não havia ninguém operando-a. As piadas não tinham conexão, não tinham fim e ele não estava animado para contá-las

18:00 - Charlie: The tales

Um homem velho sentado em uma cadeira contando histórias, chuto dizer que tinha um 60 anos. Ele passava uma impressão largada. Possuía barba, era esguio e usava roupas muito largas, uma camisa de manga longa quadriculada e uma calça característica dos anos 60 ou 70. Eu não pude ver o cenário, pois não havia luz de fundo, somente uma vela em uma mesa de madeira. A câmera se aproximava, chegando mais perto de seu rosto. Nesse ponto, eu já podia ver algumas cicatrizes e feridas em sua face. Ele começa a contar histórias, mas essa foi a que mais me chamou a atenção. Era sobre uma moça cega que as pessoas passavam a mão, ela não poderia ver e nem achar quem foi. Ele interrompia as vezes com uma tosse seca ou limpando a garganta, mas, seguindo a história, dessa vez, o homem contou que ela sentiu uma mordida em sua coxa esquerda, entretanto, ela não havia saído de casa esse dia. Também não tinha só uma ou duas mãos a tocando, mas sim várias. Junto a isso, a moça cega ouvia sons, vozes e risadas. No final, o velho esboça um sorriso e diz para a câmera:

É triste ser cega e louca, não é mesmo?

Fim do programa.

18:40 - Genesi: The World’s New Church

Programa...Religioso? Era chato, pois parecia que não terminaria nunca, mas não deixou de me assustar. Esses cultos religiosos onde um pastor chama alguém possuído ou com problemas para o palco, só que dessa vez, era ao contrário. Eles não tiravam os demônios e sim os colocavam. Pessoas iam ao palco serem possuídas por uma entidade a qual o homem que se dizia pastor, falava que iria ajudá-las. Todos deveriam adorar a entidade e permitir que ela entrasse, era o que ele dizia.

20:00 - Hit or Consequence

Um game show onde um competidor teria que responder corretamente às perguntas feitas pelo anfitrião. Outra vez, tive que saber sobre acontecimentos que nunca aconteceram, como o fato dos Nortistas terem perdido a guerra do Vietnã (sendo que ganharam) e sendo usados como alimento, uma das melhores formas de se livrar de tantos corpos, segundo o anfitrião. Também descobri que a Ku Klux Klan era um exemplo a ser seguido, já que limpou uma boa parte do mundo de raças inúteis e perigosas. Uma loucura atrás da outra, me deixando perturbado.

21:30 - Sleeping

Não sei muito o que dizer sobre esse...Se é um dos mais estranhos ou não. Não me passava medo, nem nada de muito assustador aconteceu, só que era desconfortável. Era apenas um homem de pijama, em um quarto velho e bagunçado. O cômodo só tinha uma cama, nada mais. O estranho cantava uma música sobre dormir e, quando acabava, se deitava na cama. A Câmera chegava mais perto, mostrando-o dormindo. Isso durou até as 23:59, então dava meia noite e aparecia as barras coloridas. Me senti um idiota assistindo um cara dormindo por todo esse tempo.

Agora que informei toda a programação, quero falar um pouco sobre a investigação do canal e outros eventos, sendo Cooking with Mary um dos principais a causar desconforto nos pais e em mim também. Primeiro que não tínhamos um ponto de partida, não sabíamos quem investigar ou como entrar em contato com certas pessoas. Tentamos contatar um dos ganhadores de Hit or Consequence, mas como sempre, essa pessoa não existia, parecendo que sumiu da face da terra, não sei como explicar. Nossa única esperança era descobrir de onde estava vindo o sinal. O que parecia apenas um pequeno problema, se tornou algo fora do nosso controle. Começamos a chamar tudo de: “Na mira do canal 15”. O nome surgiu pelo tempo que passamos assistindo, revezando entre um e outro, tentando achar pistas em alguns dos Shows. Não podíamos fazer nada, aconselhamos os pais a não deixar os filhos assistirem nenhum dos programas e que seria melhor para a saúde mental de todos, que os adultos também não assistissem. Claro que os adolescentes não obedeciam e isso era um problema enorme. Muitos ficaram traumatizados por causa de uma das histórias de Charlie: The Tales. Não sei o que o estranho velho contou, nesse dia, era vez de um dos meus colegas de assistir o canal e, ele também ficou extremamente perturbado. Por mais que eu perguntasse, ele não me dizia sobre o que era, nem ele e nem as pessoas que assistiram. Até hoje, não sei qual o conteúdo da história.

Isso não significa que escapei de ver algo ainda mais perturbante do que já tinha visto. Tinha chegado outra vez o meu dia de passar das 05:00 as 23:59 assistindo aquelas merdas, fazendo pausas apenas para ir ao banheiro ou para comer alguma coisa. Eu não estava no clima, tinha passado a noite tendo estranho pesadelos sobre velhos sentados em cadeiras em um quarto escuro e sobre homens adultos com máscaras gregas, fazendo rituais, usando crianças como sacrifício. Minhas olheiras entregavam o quanto eu estava cansado e esperando o fim disso.

Tudo ocorreu normalmente até as 09:30, quando Cooking with Mary começou. Eu já devo ter falado o quanto me sinto desconfortável com essa mulher cozinhando, sem tirar aquele sorriso macabro dos lábios, entretanto, dessa vez, ela decidiu passar dos limites. Os telespectadores mandaram mais ingredientes exóticos que Mary comentou haver pedido no dia anterior. Uma caixa branca de tamanho médio se encontrava no balcão que ela usava para cozinhar. Segundo a própria, um presente mandado por um telespectador, que teria pedido para ela cozinhar uma das especialidades dele. A mulher de cabelos negros abriu a caixa, tirando o ingrediente cuidadosamente embalado em plástico, em uma bandeja de isopor. Eram fatias de carne, fazendo o sorriso medonho dela alargar ainda mais, me fazendo pensar se uma pessoa normal conseguiria tal coisa. Ela resolveu contar que tipo de carne se tratava.

Deixe-me dizer, foi aí que pedi uns dias de descanso ao meu superior. Minha sorte foi dele ser uma pessoa compreensiva, então ganhei uns dias de folga, me afastando da operação. Você deve se perguntar que tipo de carne era, não é mesmo? No fundo, sei que já tem uma ideia. Claro que já deve saber que se trata de Carne humana, mas, deixa eu contar uma coisa que você não pensou ou talvez pensou. Se tratava de pessoas da áfrica, pelo menos foi o que Mary comentou enquanto cozinhava normalmente, sem sentir nenhuma pena. Lembra do meu resumo sobre Hit or Consequence? A melhor forma de se livrar de corpos ou como a Ku Klux Klan ajudava a limpar o mundo? Eu sei que já entendeu bem.

Semanas se passaram, até eu voltar ao caso. Recebi uma boa notícia quando fui trabalhar, sobre o rastreamento do sinal. Haviam descoberto de onde ele estava vindo. Finalmente aquilo iria acabar, era o que pensávamos na época, quando várias viaturas não perderam tempo em partir até o local. Foi uma viagem de duas horas, para darmos de cara com um terreno baldio. Mais horas se passaram, investigamos tudo, de todas as maneiras possíveis. Não encontramos absolutamente nada, nenhuma ligação ou qualquer coisa que um dia estivesse ali. Só poderíamos suspirar e voltar sem qualquer coisa em mãos.

O FBI se meteu logo após nossa visita ao terreno, deixando claro que isso não era mais problema nosso, que deveríamos apenas voltar a resolver os assuntos de sempre, na cidade. Isso não impediu muitos de nós de investigar por nossa própria conta e risco, mesmo que não tenhamos achado nada de muito relevante. Como eu disse, foram três meses até tudo chegar ao seu fim, não por termos conseguido arranjar um jeito de parar o canal 15, mas sim porque ele, assim como chegou do nada, sumiu do nada.

O que penso de tudo isso? Apenas que, de alguma maneira, conseguimos durante algum tempo, receber o sinal de um estranho mundo paralelo. Foi a única coisa que consegui pensar em todos esses anos. Sinto que minha obsessão pelo canal 15 não diminuiu, apenas aumentou com o passar do tempo. É estranho como ninguém parece lembrar deste ocorrido ou pelo menos fingir que não aconteceu. Tenho uma ideia que tenha sido ordem superioras, pedindo para apagar qualquer vestígio deste acontecimento.

Deixei a polícia há muito tempo, estou por conta própria agora. Mesmo ainda não tendo encontrado nada, continuo minha busca obsessiva por respostas. Talvez um dia, eu traga mais notícias e grandes descobertas ao mundo, sobre esse estranho acontecimento que marcou um eu de 25 anos.

Autor: Tai

A Boneca

A garota nunca conseguiu gostar de verdade daquele objeto, mesmo que tenha sido o último presente de sua avó. Bastava olhar para aquele sorriso pintado sob a madeira para se sentir encurralada, ansiosa e se a encarasse por muito tempo podia até sentir suas mãos tremerem. Até tentou algumas vezes se livrar da boneca, mas sempre que estava prestes a fazê-lo as palavras de sua avó vinham à tona: “Guarde-a com carinho e eu sempre estarei com você”. E mesmo assim sua mãe insistia que a lembrança fosse guardada.

Quando recebia suas amigas em casa, Olívia fazia questão de esconder o presente dentro do guarda-roupa, apenas algumas delas, as mais aventureiras e ousadas acabavam conseguindo ver as feições em tinta e as articulações da boneca, e todas elas ficavam encantadas, sem sentir nem um pingo do desconforto de sua dona.

Alguns anos se passaram e Olívia, que outrora era apenas uma garotinha, agora havia se tornado uma bela mulher, ousada e independente, suas mechas de cabelo tingidas de azul refletiam muito bem isso. Nessa transição deixara tudo de sua infância para trás para morar em uma casa na cidade, ou quase tudo, sua mãe insistiu muitíssimo para que levasse consigo a tal boneca e não havia argumento nem explicação que a fizesse mudar de ideia e com isso logo o objeto estava lá sob a cômoda, o mesmo sorriso, a mesma aparência, tudo estava ali junto com ela inclusive o medo e os calafrios.

Mas como dito antes, Olívia tinha mudado e não conseguia mais viver à sombra de um medo tão irracional. Porém, diferente do que acontece naturalmente a apreensão da garota não cedeu lugar a calmaria, mas sim a raiva, tão devastadora e acumulada que Olívia passou a maltratar a boneca, afinal, sua avó havia morrido há muito tempo e com toda certeza não se importaria com o que iria fazer.

Nos primeiros dias apenas xingou o objeto, ofensas bobas, era como se ainda não tivesse certeza do que estava fazendo, mas bastou um pouco mais de confiança para que começasse a chutar e joga-la contra o chão e paredes, mas até isso só serviu para inflamar ainda mais a raiva da garota, porque qualquer brinquedo eu fosse tratado assim, até os mais resistentes, apresentariam alguma arranhado, mas aquela maldita boneca não, continuava perfeita, nenhuma lasca sequer.

Era a hora de pôr um fim naquilo.

Algumas pessoas que passavam na rua olhavam com estranheza a cena que se desenvolvia naquele quintal, mas a garota se sentia satisfeita, ver aquela boneca ser reduzida a toras carbonizadas era gratificante e quanto mais o fogo queimava, mais Olívia se sentia liberta e ela só saiu de lá quando não havia nada mais a ser consumido. Essa seria a primeira vez em tanto tempo que dormiria em paz.

Porém, durante a madrugada uma sensação de nervosismo atrapalhou os sonhos da garota de maneira tão repentina que ela precisou respirar profundamente várias vezes para que seus batimentos se acalmassem. “Ela nem está mais aqui”, disse para si mesma, e mal terminou a frase quando se ouviu um barulho na casa, um baque no chão que ecoou até os ouvidos de Olívia, não sabia o porquê, mas isso foi o suficiente para que um enorme arrepio percorresse sua espinha, e logo em seguida outro barulho foi ouvido, dessa vez mais suave, como um passo, e depois outro e mais outro, poderia ser alguma coisa boba, um animal sorrateiro, mas isso não acalmava nem um pouco a garota, seu corpo sentia o medo cada vez maior, suas mãos tremiam e seu coração batia tão rápido que quase podia ser ouvido. Sob a luz do abajur ela procurava o que poderia ser, mas a escuridão além da porta de seu quarto não revelava o dono dos passos que ficavam mais próximos.

Olívia se encolheu na cama, assim como faria uma criança, o barulho cessou, mas ela sabia que o que quer que fosse estava ali, à espreita, podia sentir seu olhar tão ameaçador e cruel. Não teve coragem de levantar, ao invés disso ligou a lanterna do celular e apontou de uma vez para a porta: Nada. Sua respiração estava pesada, talvez fosse algo da sua cabeça, se acalmou com um gole d’agua, sempre deixava um copo na cômoda, foi quando sentiu algo tocar seu rosto, fio e suave, seus dedos se esfregaram no local e ficaram negros, olhou atentamente, fuligem. Mas nem fazia sentido, de onde veio? Foi quando a imagem de horas antes lhe invadiu a mente, o corpo pequenino da boneca sendo consumido pelo fogo, deixando no lugar apenas carvão, não poderia ser isso. Olhou para cima com os olhos vacilantes e encontrou ali seu assombro, o medo infantil, a boneca que logo caiu em cima da garota manchando tudo de preto. Olívia gritou com todo seu fôlego por socorro e isso bastou para alertar os vizinhos que chamaram a polícia. Mas esse alarde não a afastou, a boneca, ou o que restou dela, se contorcia raquiticamente e agarrava com força o rosto da garota que só conseguia se debater para tira-la dali, foi quando ela falou, a boneca falou, sua voz grossa como se saída de uma caverna, “Você só tinha que me tratar bem” e assim beijou Olívia na bochecha, o que fez ela gritar mais uma vez por socorro.

Em um ato de desespero conseguiu atira-la contra o chão e correr, ou ao menos tentar, algo estava errado, suas pernas não respondiam como deviam, olhou para elas e viu riscos amadeirados se formando sobre a pele, endurecendo cada movimento, mesmo assim continuava se arrastando, seu corpo não produzia mais o barulho que deveria, era apenas baques surdos no chão e barulho de articulação. Alguém batia na porta, a polícia, mas nem mais sua boca respondia, também estava dura, bateu com a mão ainda boa sobre a bochecha e o som foi perturbador, madeira. Não conseguia mais se mexer, gritar por ajuda, nem seus olhos funcionavam mais, se tornaram feitos de vidro, a última coisa que viu foi a boneca sorrir.

Quando os policiais finalmente arrombaram a porta não encontraram nada, nenhum sinal de roubo, sangue, nada, os cômodos pareciam em ordem. No quarto a mesma coisa, tudo no lugar, cama arrumada, inclusive a boneca de cabelos azulados em cima da cômoda, mas estranhamente a dona da casa não estava lá.

Autora: DarkQueen

Banheiro dos Fundos

Acordar no meio da noite com a bexiga prestes a estourar é uma coisa que realmente odeio. Primeiro que levantar sonolento de madrugada é uma merda, segundo, que sou uma pessoa extremamente azarada. O que isso tem a ver? Você se pergunta. Pode parecer uma conversação sem sentido, mas irei lhe explicar de uma maneira que lhe fará entender.

Moro com meus irmãos em uma antiga casa que nossos avós nos deixaram de herança, algo extremamente bom, pois não tenho dinheiro nem mesmo para um cômodo minúsculo, onde o único espaço um colchão no chão preenche por completo. Estava desempregado e tinha acabado de sair de uma relação conturbada. Não vi problemas em dividir o espaço com meus três irmãos, nos dávamos muito bem (Coisa rara entre irmãos) e éramos todos adultos. Fiquei com a parte de fazer o almoço e o jantar, como estava sem emprego, era a forma que encontrei para ajudar.

A casa é espaçosa, com cinco quartos, uma cozinha, sala de estar e uma garagem que pode acomodar dois carros. O problema mesmo sempre foi a questão do banheiro. Veja bem, temos dois banheiros, um fica no corredor, próximo ao meu quarto, enquanto o outro, apenas nos fundos da casa. Isso significa que, se você estivesse muito apertado e o primeiro banheiro estivesse ocupado, você teria que dar toda a volta até os fundos, destrancar uma porta e atravessar o jardim para acessar o outro. Já era chato fazer isso pela manhã, imagina no meio da madrugada, quando o que você mais quer é voltar a cair nos braços de Morfeu. Outra coisa que preciso lhe falar sobre a segunda instalação sanitária da casa, é que não é nem um pouco acomodadora. Enquanto o primeiro tem azulejos na parede, um teto com forro pintado de cor branca e um chuveiro com uma boa pressão, o segundo parecia mais uma obra não acabada. Paredes para rebocar, um telhado quebrado e uma pia e chuveiro que não funcionavam. A única coisa ali que funcionava era o vaso sanitário antigo, com seu barulho desgraçado quando você dava a descarga. Sério, era um barulho alto o suficiente pra te tirar do modo sonolento e lhe trazer de volta a realidade.

Penso que meus avós estavam planejando esse segundo banheiro, mas morreram antes da obra ficar completa. Em minha infância, meus pais sempre traziam meus irmãos e eu para passar as férias nessa casa e visitá-los, eu não me recordo de um segundo sanitário, talvez fosse mesmo algo meio recente. Vovó tinha morrido primeiro e vovô não conseguiu aceitar a partida da esposa, entrando em um estado profundo de depressão. Em uma manhã, um dos empregados o acharam sem vida, quando foram o acordar para tomar seu remédio para pressão.

Deveriam ser umas duas da manhã quando levantei-me apertado para usar o banheiro e vi que meu irmão tinha chegado primeiro.

- Droga! - Resmunguei-

Até esperei um pouco, mas o idiota estava com problemas de estômago e aquilo iria demorar mais do que deveria. Não tinha jeito, fiz o caminho todo até o maldito cômodo dos fundos a fim de me aliviar. Procurei o interruptor para acender a luz, depois fechei a porta, caminhei até o vaso e fiz o que tinha vindo fazer. Me lembro de ter olhado para o teto, observando as telhas com teias de aranha e buracos feitos pelas brigas de gatos dos vizinhos. Se um dia, eu conseguisse um bom dinheiro, poderia mandar ajeitar tudo, deixar o lugar mais aconchegante pelo menos. Puxei a corda da descarga, ouvindo aquele som alto dos infernos e fui em direção a saída, pretendendo lavar as mãos na torneira do jardim, pois como eu disse antes, a pia dali não funcionava.

Imagina minha surpresa quando puxei a porta e ela não abriu. Eu não a tinha trancado, nem era possível, esqueci de dizer, mas a única maneira de trancá-la era pelo lado de fora. Cogitei na hipótese de um dos meus irmãos está tentando me pregar uma peça, aqueles idiotas gostavam de fazer esse tipo de coisa.

- Muito engraçado, agora abram a porta! - Digo, tentando entrar na brincadeira. Sem resposta. - VAMOS! ABRAM! - Elevo meu tom de voz, novamente sem respostas.

Começo a coçar a cabeça rapidamente, uma mania que tenho quando começo a ficar nervoso. E se não tivesse sido eles? Esse pensamento passava em minha mente, mas não poderia ser isso, quem poderia ter feito tal coisa se não um deles? Um invasor, talvez? Um ladrão que entrou na casa às escondidas e me trancou aqui dentro para não ter que se preocupar com um dos irmãos. Que droga, pensei em muitas coisas, mas nada parecia encaixar. O pior de tudo era que não adiantaria o quanto eu berrasse, os quartos dos meus irmãos eram bem distantes, eles não poderiam me ouvir. A Solução que encontrei foi a de tentar arrombar aquela porta

Tomei impulso, estavas prestes a colocar aquela ideia em ação, mas antes que pudesse fazê-lo, a luz piscou, deixando tudo escuro por aproximadamente cinco segundos. Meu sangue gelou, uma pontada em minha cabeça me fez dar um gemido baixo de dor. Foi tudo muito estranho, me sentei no chão, perto de alguns escombros que ali tinha, pedaços da parede, restos de entulhos, possivelmente deixados por meus avôs.

-Tenho que lembrar os outros a me ajudar a limpar isso aqui. - Sussurro para mim mesmo, me referindo aos meus irmãos.

De repente, minha mão tocava em um pedaço de papel em meio a bagunça. Eu ainda estava me recuperando daquela estranha dor de cabeça de antes, logo, a ideia de arrombar a porta tinha ficado para depois. Sentado, naquele canto nenhum um pouco amigável, trago o papel para minha visão, vendo as letras escritas com uma caneta de cor vermelha.

Traga o prato com um pequeno animal morto

Um lagarto ou um camundongo são as melhores opções

Entretanto, com o camundongo, são altas chances de sucesso

Sem janelas, isso é muito importante

Leia o que lhe enviei em voz alta quando tudo estiver pronto

Você saberá quando funcionou

Lembre-se, cinco vezes é o suficiente

Não entre mais no cômodo depois disso

NÃO ENTRE

Agora aproveite, mate sua saudade.

Fiquei completamente confuso, pensando que tudo não deveria ser mesmo um tipo de brincadeira. Meu coração quase parou quando virei o papel, tinha uma coisa a mais, escrita do outro lado.

Se você desobedeceu e entrou no cômodo mais de cinco vezes, pode ter ficado confiante que nada aconteceu, mas quando você menos esperar, a porta trancará. Isso acontecerá em algum momento após passar o número de vezes. Pode ser logo que quebrar a regra ou pode demorar um pouco. Caso aconteça, espere aquele que você prendeu no cômodo se manifestar. Ele está sozinho, trancado, culpa sua. Preferiu trancá-lo ao invés de deixá-lo descansar em paz, ele quer a sua companhia agora. Implore, talvez tenha sorte na primeira e, caso tenha, NUNCA MAIS VOLTE.

Antes que eu pudesse demonstrar alguma reação, escuto passos em minha direção, levanto a cabeça….É a vovó, ou pelo menos é o que eu acho que era. A senhora alegre de minha infância tinha agora um olhar cansado, seus olhos, grandes e arregalados, pareciam afundar em seu rosto, sendo devorados pelo excesso de pele na face envelhecida.

Oh, Deus! Abri a boca para falar, nada saia, nem um mísero som. Não conseguiria parar de tremer, meu corpo agia por vontade própria, não obedecia mais meus comandos. Todas as informações demoravam para chegar até meu cérebro. Não sei quanto tempo a encarei, até finalmente lembrar daquela palavra: Implorar.

Consegui falar, na verdade, implorei. Falei de tudo para o que quer que fosse, me deixasse partir, eu não tinha nada a ver com aquilo, nem sabia que esse tipo de coisa acontecia aqui. A entidade sorriu largamente, como se estivesse se alimentando do meu sofrimento. Não, aquilo não era a vovó, não poderia ser. Era algo que usava sua pele, com o objetivo de enganar. O rosto distorcido e seu sorriso macabro foi a última coisa que vi quando a luz apagou de vez.

Era de manhã, acordei com meus irmãos me balançando e gritando meu nome. A porta tinha finalmente sido aberta. Eles me ajudaram a se levantar, me levaram até a cozinha, sentei-me em uma das cadeiras e contei tudo que tinha acontecido. No começo, acharam que eu estava brincando, entretanto, minha palidez e o pavor que eu tive quando um deles afirmou que iria até o banheiro, procurar o pedaço de papel, o fizeram acreditar em mim.

Decidi sair da casa três dias depois deste ocorrido, ficaria na casa de um amigo até arranjar um emprego, queria distância daquele lugar. Aconselhei meus irmãos a fazer o mesmo. Nunca mais voltei.

Hoje, pensando sobre isso, entendi que Vovô amava a Vovó, amava o bastante para se iludir que a veria outra vez, fazendo um ritual qualquer, trancando sua alma em um cômodo.

É uma pena, pois aquilo nunca foi ela.

Autor: Tai

As consequências de você ultrapassar os limites de Deus

Nós evoluímos suficiente para hashtag's e é a coisa mais importante na humanidade, se você quiser ser notado. Os jovens e os adultos também querendo ser legais, compartilhavam o mesmo fato científico, que já havia acontecido há muitos anos... Os cientistas descobriram uma maneira de se comunicar com o passado por causa das estrelas destruídas há muito tempo. Descobriram a maneira de enviar objetos e tentar dialogar por bases de sons. Isso foi uma febre ao ser compartilhada na internet! Todos estavam eufóricos para fazer parte disso e aquinhoar a mesma hashtag em todas as redes sociais modernas do ano de 2040.

As primeiras respostas pareciam ser ruídos, e disseram que continuariam mandando várias mensagens. A febre daquele meios de comunicação, ligando todos, uma vez que a televisão já não funcionava mais nesse ano, e tudo se baseavam em "status". Foi ficando maior, e os especialistas queriam surpreender o mundo moderno com coisas que a mente humana não estava preparada para compreender. Em uma dessas correspondências que depois de anos voltou para a humanidade e reproduziu os barulhos... que deixou nos abalados em um certo ponto da percepção.

O que aquele objeto que reproduziu e deixou toda a humanidade chocada por conta dos ruídos aterrorizantes que pareciam ser sofrimentos, torturas e pedidos por socorro, misturados com murmúrios e estrondos no fundo. Você poderia facilmente representar como espelhos, representando a maior e terrível agonia física humana. No entanto, as pessoas ignoram e queriam saber mais sobre isso, inventaram novos mecanismos sofisticados desse novo ano.

As coisas pareciam que seriam baseadas apenas em momentos vibrantes e descobertas, que deixariam nós humanos modernos surpreendidos. No entanto, houve uma rachadura no universo e causou uma explosão tão veloz quanto à luz... Os efeitos catastróficos foram realmente uma coisa aterrorizante em um certo ponto de vista mais distante, mesmo olhando para aquele cara que se dizia "ateu". Você poderia afirmar, espalhando gotas em sua língua que seria o abismo, e nós havíamos explorado ele da forma egoísta.

A invasão homo sapiens causou uma destruição magnética em tudo que você acredita ser "realidade". Os corpos humanos foram fundidos com objetos e fez com que uma carne espalhasse-se por todas as regiões. Gritos eram misturados com vários tipos de coisas sem vida sendo partidos em diferentes fragmentos. Os animais, pobres criaturas, sofrerem mais do que nós, já que poderiam gritar tão altos no cosmo do universo, que deixaria você sem poder ouvir nada, além de pedaços de uma tortura infinita.

O nosso universo começou a misturar o DNA humano com animais e deu de abraço com as partes sem vidas com algo físico, torturando nós... o que se chama de "alma" de várias formas terríveis. A angústia, sofrimento, entre outras coisas da matéria, era tudo que se espalhava naquela imensidão negra. Misturada por organismos eucariontes, multicelulares e autotróficos fotossintetizantes, etc. Você poderia ver a Terra humana se despedaçando em retalhos e transformando-se em poeira cósmica incomensuráveis vezes.

A decomposição física foi espalhando-se em cada momento que o cérebro tentava concretizar uma imagem humana, que a intensidade fosse terrivelmente insuportável e se transformando em mais uma parte da metagaláxia infinita. Você poderia ver imagens, rendimentos sendo despedaçadas e misturadas, criadas e destruídas novamente, espalhando-se em uma mistura doentia e terrível dos fragmentos de coisas que não deveriam ser compartilhadas. No entanto, o homo sapiens conseguiu fazer isso, representando o castigo vivido em incansáveis circunstâncias, que estava se repetindo milhares de vezes em cansáveis.

Eu apenas era um zelador típico de uma região repleta por pessoas mais importantes e que tiveram um estudo melhor, estava tendo os meus braços sendo arrancados, despedaçados, misturados por um sofrimento desmesurável da massa eucariontes e sendo reconstruído de formas infinitas para que o processo seja repetido. Os meus braços estavam sendo corrompidos, esmagados, petrificados e a matéria sendo progressiva milhares de vezes para que se repetisse. Os meus olhos eram arrancados de maneiras indistinguíveis por conta do espaço galático e sendo voltado novamente. Tudo se baseia em aflição e mortificação incansável da lei criada por Deus. Eu sou um dos poucos que ainda continuam gritando e sofrendo, desejando que tudo acabe, mas estou sendo vítima do processo doentio dos erros da minha raça. Não consegui compartilhar da mesma sorte da maioria que foi esmagada no primeiro momento.

Posso ver corpos explodindo em vários estilhaços, os barulhos que deixam suas carnes, tudo até que os toraxes se regenerem novamente para apreciar o mesmo som infinito, toda a destruição desmembrada em explosões... mortificação, sangue por todas as direções e esse tom de um líquido vermelho e congelado pelo tempo que não para de ficar desmesurável. É tudo que eu imagino e desejo cada momento é fazer parte da destruição infinita no DNA homo sapiens e acabar, deixando de ouvir os berros dos bichos sendo despedaçados e misturados com paredes e objetos: ventiladores, televisões, celulares, cadeiras entre outras coisas que já fizeram parte da raça humana e são espalhadas no macrocosmo particulado, com que esse inferno da infinidade das estrelas que continuam.

Eu só desejo que isso acabe junto com os átomos nesse exato momento, que eu sinto o meu corpo sendo espalhado por uns círculos infinitos que encontraram moléculas de água, minerais, carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos nucleicos.... E outros componentes de água, solo, gases, fogo, rochas, etc, que são espalhados pelo vento para uma destruição de sofrimento feroz...

Autor: Sinistro

O Potestador

Como uma das coisas mais prazerosas para uma criança, brincar é algo insubstituível, posso afirmar pra você que uma das brincadeiras favoritas de uma menino de 9 anos é o futebol, e não era diferente na minha infância. Quase todos os dias, a tarde, jogava bola com os meus amigos: Caíque, Felipe, Igor e Batata, até que um fato indiferente nos chamou muito a atenção certo dia.

Era uma dia como todos as vezes em que brincávamos de bola, costumávamos jogar ate às 17 horas, porém nesse dia fomos um pouco além desse horário, motivado por meus amigos decidi ficar também ate mais tarde. Em um momento de cansaço e desatenção, olhei para a minha direita e vi Igor chutar a bola em um terreno ‘’ abandonado ‘’ que tinha uma casa entijolada ao fundo, formando assim um cenário amedrontador, terra rachada, mato alto, parede rachada. O vento aquela noite soprava de modo que balançava as folhas do mato de maneira brusca, gatilho perfeito para se iniciar o medo, Caíque virou para todos nós e perguntou:

- Agora quem é que vai pegar a bola ?

Felipe respondeu:

- Eu não vou, ta doido, quem chutou é que pega!

- Além do mais, é sempre o Igor que isola a bola.

Batata respondeu:

- É verdade, o Igor tem que pegar

Igor respondeu:

- Agora fudeu, tenho medo dessa casa!

- Mas ok, vou lá pegar a bola.

Afirmou o mesmo uma cara apavorada.

Todos nós ali concordamos com a decisão, e então Igor, que entre nós era chamado de Satélite, foi até la pegar a bola. A escuridão, o vento balançando o mato e o silêncio de nós, tornava uma tarefa desafiadora para ele, logo após 10 passos que ele deu adentrando o terreno, Caíque grita apontando para a casa:

- Caralho, vocês viram ? Eu vi um cara ali dentro da casa!!

Batata respondeu:

- Para com isso cara, não tem ninguém la, é mentira gente.

Batata era o mais medroso da turma, porém para sua infelicidade, era mesmo real. Quando Igor acaba de pegar a bola, o mesmo levanta ela com as mãos, estava perto da parede da casa no fundo, quando ele da o primeiro passo para voltar, novamente uma figura fantasmagórica de um velho desfigurado acompanhado de uma barulho muito alto aconteceu dentro da casa, todos nós corremos imediatamente, foi ai que vi Igor largar a bola no chão e fugir para fora do terreno. É claro que ficamos com a pulga atrás da orelha, pois não é algo que acontece todos os dias, aliás, sempre achamos que coisas relacionadas ao sobrenatural não existe, mas esse dia foi surpreendente.

No dia seguinte por volta das 15 horas, nos reunimos e decidimos voltar ao terreno para pegar a bola que tinha ficado lá, já que estava de dia então não tínhamos o que temer, ao chegar no terreno, notamos que a bola inexplicavelmente sumiu, como se nunca estivesse caído ali. Ficamos triste pois era nossa brincadeira favorita, o futebol, porém, lembramos que tinha um velho que morava ao lado desse terreno, velho misterioso, de conduta anormal, fomos ate a casa dele e chamamos por ajuda, explicamos o que aconteceu e ele reagiu de uma forma muito estranha e suspeita, com uma cara sádica, disse que não deveríamos continuar brincando de bola por ali, mas achamos que era mero a aviso e ignoramos. Mais tarde no mesmo dia, ficamos sentados na calçada em frente ao terreno medonho, era uma noite calma, tranquila, convidativa para uma boa conversa, ate que Caíque olhou para a laje da casa e disse:

- Tão vendo aquele vergalhão torto em cima da laje? Foi ali que o Potestador morreu.

Eu respondi:

- Potestador? Quem é esse cara? Como ele morreu?

Caíque respondeu:

- Ele morreu trabalhando naquele laje, quando ele foi pegar a enxada para descer, não viu o vergalhão que estava atrás dele, foi ai que ele se desequilibrou, caiu e ficou com o pé preso ali naquele vergalhão torto, batendo a cabeça com força na parede, e segundos antes de morrer, jogou uma grande maldição para que ousasse adentrar na casa dele de novo... Segundo o que meu pai disse.

Todos nós o olhamos, com uma sensação de incerteza, até que vimos novamente de um idoso desfigurado, e sim, era real, totalmente real dessa vez, era alto, careca, vestes sujas e rasgadas, barba branca, rosto desfigurado, pele meio amarelada, imediatamente corremos para longe dali com muito medo do que vimos, mas antes de correr, olhei involuntariamente para a figura novamente, e percebi que tinha quase a mesma aparência do Seu Erminho, com exceção da pele amarelada e rosto desfigurado, velho que morava ao lado do terreno, que mais cedo pedimos ajuda a ele, por um descuido meu, tropecei e bati a cabeça na calçada, desmaiei completamente. Acordei no dia seguinte segundo a moça que me socorreu, ela me levou para casa... passaram-se meses depois desse evento... nunca mais vi o velho, se evaporou como se nunca estivesse existido, nem mesmo notícia de parentes, amigos ou conhecidos tínhamos.

Com o remédio que a moça que me socorreu me deu, estava me sentindo mais disposto e diferente do que o normal, algo muito estranho, em casa a rotina mudou, ao invés de brincar, tinha que tomar um ‘’ xarope ‘’ avermelhado, mas com um sabor inabitual, trazido pela mesma moça que me socorreu, as vezes me recusava a tomar, porém meus pais me obrigavam a tomar e eu não pensava mais do que três vezes. A moça também me deixou uma pequena carta do pai dela, que dizia o seguinte:

‘’ Certas vezes, achamos que somos imunes a certos acontecimentos, porém, a muito mais no plano espiritual. Você acredita em forças malignas? Acredita em demônios? Caso a resposta seja negativa, não fico triste, pois nós acreditamos em você, ja te observo daqui á muito tempo, ate mesmo nos seus pensamentos mais íntimos, você não esta sozinho e jamais estará. Não tenho pressa nenhuma, o nosso destino é inevitável, algo maior esta sobre nós, não há como evitar... É só questão de tempo... até VOCÊ SER MEU!!!

Seu Erminho, Potestador

Autor: Plazzel

Todas as manhãs, ela está alimentando o seu ódio por mim, lentamente...

Ela encontrava-se na pia, de costas para mim, mexendo em alguma coisa que eu não conseguia enxergar por causa da distância. Mesmo perto o suficiente, eu estava sentado e não dava para me levantar no momento. Ao seu lado, na parte esquerda, estavam eles. Eu poderia jurar que estou ouvindo o barulho que sempre fazem. Não sei se é na minha cabeça somente, só sei que estão movimentando-se para todos os lados. Fiz um ruído educado com a minha garganta, colocando a mão na boca para chamar sua atenção. Era mais ou menos um "oi", então ela olhou por cima dos ombros na minha direção, nem sequer observou no meu rosto, apenas reparou o som que eu fiz. A minha esposa ainda estava com o mesmo ódio por causa da minha traição.

Virou para minha direção e caminhou até a mesa, colocou alguns biscoitos de chocolate com coco por dentro, ajeitando com cuidado em um pratinho branco. A xícara com café estava quente e a fumaça subindo em um movimento de onda para os dois lados, desaparecendo logo depois da altura da minha cabeça. Sentou-se logo à frente, um pouco distante, e colocou um daqueles tabefes na boca, quebrando ao meio em uma mordida rápida. Olhando para o lado, na direção da janela, o sol estava entrando aos poucos porque estava iniciando uma manhã.

Eu nunca soube o que falar nesses malditos segundos que nós estávamos um na frente do outro. Imagino que desculpas não vão ajudar depois de tudo que eu fiz. Nessas manhãs, a minha esposa apenas parece fingir que eu não estou ali. Desde o começo disso tudo, em nenhum momento olhou para a altura do meu pescoço ou se dirigiu diretamente para minha pessoa, mas eu sinto a explosão de ódio dentro da sua cabeça como um vulcão em erupção. O cheiro de café, o aroma forte da cafeína, sem muito açúcar, deixa-me irritado fazendo jogar a xícara próximo dos seus pés, fazendo-a explodir em vários pedaços, e aquele líquido quente espalhando-se e deslizando lentamente fazendo a fumaça ficar menor em cada segundo. Ela suspira um pouco quando percebe o que eu fiz e contínua ignorando-me. Isso me deixa bastante irritado.

Abro os meus lábios para pedir perdão, não sei quantas vezes eu já fiz isso e parece que não existe som na minha boca. Sinto uma dor pressionando os meus pés, principalmente no esquerdo, impedindo-me de tomar uma atitude de homem e se levantar. Ela pega um pano, que estava na porta da cozinha, e passa no chão, cortando o seu dedo do meio por um dos pedaços de vidro. Para estancar o sangramento pequeno, coloca na boca chupando o sangue e despreza o seu marido observando, jogando seus cabelos para trás que cobriam seu rosto. Nesse momento, a única coisa que está dando atenção, na verdade, as únicas coisas são moscas voando ao meu redor, bebendo um pouco do líquido que ainda sobrou naquele lugar que a xícara de café morreu e, algumas mais ousadas, ficam alimentando-se dos biscoitos que eu não comi, naquele mesmo prato alabastrino com detalhes azuis em cima da mesa.

Ela deixou nossas manhãs com cheiro de podridão no lugar. É incrível como eu tento parecer calmo, mas eu estou gritando desesperado como uma vítima de um assassino ou uma mãe observando o seu filho morto em um acidente. Conheço bem a mulher que eu casei, sei quando ela está irritada, você não vai querer estar próximo o suficiente nesses momentos de fúria. Antes de tudo isso, nossos amanhecer resumiam-se em brigas constantes, principalmente na parte da manhã e quando eu chegava tarde da noite; após encontrar mais uma e mais uma, várias outras garotas do escritório. Ela sabia de tudo de alguma forma, descobriu as traições. Pedia de forma patética e implorando o meu amor, eu já não estava dando-lhe mais prazer, muito menos sendo carinhoso como fui no passado. Sussurrei baixinho que ainda lhe amava. Ela levantou-se rapidamente no momento em que estava girando aquele pano em círculos no local onde o café foi derramado. Utilizou as suas mãos para jogar o prato que estava com os biscoitos ao nosso lado. Mirando nos meus olhos, depois de muito tempo, eu senti tanto ódio que parecia que eu seria agredido no rosto por um tapa de revolta...

Nada aconteceu, recuperou a sua postura e saiu. Sentou-se depois que foi para o terraço e limpou aquele pano sujo. Calmamente, colocou dois cubos de açúcar dentro do café que ainda estava fumaçando para terminar sua refeição. O último biscoito foi colocado na sua boca, e ela ficou mexendo a xícara com a colher, movimentando para um lado e para o outro. Cruzou os seus pés e ficou enrolando o seu cabelo da frente com o dedo cortado pelo vidro. Naqueles segundos tudo parecia ficar normal, porque se encontrava cada vez mais serena e calma. A nossa situação aparentava uma manhã qualquer, no entanto, não era bem isso que estava acontecendo. As moscas continuavam nos observando e fazendo um barulho irritante, principalmente nos meus ouvidos e eu contorcendo-me em agonia por dentro.

A última gota da cafeína desapareceu na sua boca, e ela foi até a pia lavar os pratos. Eu fiquei observando tudo e, sinceramente, desejei dizer algo, implorar por perdão. Não adiantou de nada porque as palavras simplesmente se desintegraram no meu cérebro como se, apesar de tudo que está acontecendo, eu fosse o ocupado. Imaginei uma maneira de fazer com que ela me deixe em paz nesse casamento, essa união amorosa que ainda está tentando ligar e culpando-me todas às manhãs. Palavras, letras, etc; rapidamente escapam do meu alcance, deixando-me sendo ocupado e vulnerável para tudo isso.

Finalmente voltou para mesa, estava com a caixa. Eu jurava, como no início dessa manhã, que estava ouvindo eles movimentando-se para todas as direções. Os seus corpos pequenos, nauseantes e famintos desejam consumirem-me. As moscas felizes ou as suas mães apreciando tudo. Nesse momento, eu nem sabia se eram novas ou fruto que saíram da minha perna esquerda putrefata, vítima da gangrena. Pegou o meu outro pé e enrolou um arame, dando cinco voltas apertadas. Eu pude sentir a carne da minha pele sendo cortada e logo aplicou seringas, uma atrás da outra, para que o sangue seja interrompido e a podridão comece do outro lado. Eu senti minha perna formigando e parecia que estava ficando inchada mais cedo do que a outra.

No mínimo, eu deveria estar desesperado e chorando vendo aquelas coisas consumindo-me aos poucos. O seu comportamento era realmente apavorante por conta da naturalidade e a frieza que fazia tudo. Pedi desculpas e disse que ainda estava apaixonado. Mas, minhas palavras eram tão desprezíveis que eu observei os seus lábios rachando para o lado. Sentindo-me mentindo, mais uma vez, ela cuspiu tão baixo que não dava para ouvir com muita clareza essas sentenças: "você consumiu todo o amor que eu te dei e as coisas que fiz pelo nosso casamento, agora é minha vez de consumir você aos poucos". Voltando para sua postura, arremessou aquelas larvas em cima do meu pé, que estava começando a ficar roxo. Sentou-se mais uma vez próxima de mim e começou a virar as páginas do jornal, enquanto as moscas estavam aproximando-se para colocar mais ovos, e os frutos de outras saboreando o meu corpo lentamente.

Autor: Sinistro

O outro mesmo ônibus

Nem todos os garotos têm o luxo de morar na região urbana, já outros, como eu, precisam pegar, pelo menos, três ônibus para chegar ao colégio antes dos portões serem fechados. O ônibus parou, mais ou menos oito estudantes estavam esperando em frente a um milharal, quando aquela multidão saiu como formigas, escapando do calor escaldante. No meio daquela empurração, um garoto estava agitado. Aquele típico babaca que os outros gostam de se aproveitarem. Ele estava nervoso e agoniado, porque havia esquecido algo. Então, os mais fortes o empurraram para fora, e nós entramos logo em seguida. As portas atrás de mim fecharam e um vento sopapeou o meu rosto. Observei, Evan Treborn, o motorista, perguntando se eu queria jogar alguma coisa para fora antes que fechasse a janela, porque estava preste a começar um temporal.

Sentei um pouco à frente, a outra turma foi para os fundos: um casal aconchegou-se no meio, no final um solitário mexendo em seus livros e, quase nas minhas costas, o filho do policial rabiscando algo na vidraça. Enquanto ainda estava distraído, observei que havia escrito com lápis azul de cera: "Não existe o mesmo dia... Sabemos muito bem que essa manhã você pode mudar o seu destino". Ele percebeu quando eu estava terminando de ler e disse que foi alguma coisa que ouviu de manhã, mas não lembra onde. Foi então que virei para frente e me concentrei no rádio ligado. O motorista, provavelmente mais uma vez, encontrava-se chapado e dirigindo. Logo, chegaríamos a estrada.

Uma chamada de alerta estava orientando os motoristas e moradores sobre um fenômeno atmosférico incomum, não havia muito tempo para que chegasse possíveis ventanias, raios e interferências em meios de comunicação. O cara que estava falando pediu para que todos ficassem em suas casas e envitassem dirigir. Evan não era o sujeito que se preocupava muito, este olhou pelo retrovisor e disse que iria pilotar um pouco mais rápido, se não quiséssemos que nós faltássemos a aula. A turma, os outros quatro caras que estavam fazendo barulho no final, não se importaram e os demais permaneceram em silêncio. Nessas circunstâncias o motorista aumentou a velocidade enquanto, aos poucos, a transmissão da rádio foi ficando ruim até que sumiu.

Nós finalmente saímos da estrada de terra e esburacada. Você percebe isso quando o ônibus para de saltar e o sossego do asfalto toma de conta do momento. Estávamos começando a passar por uma parte que fica por quase um quilômetro em um campo aberto. Acho que não percebi quando escureceu, as nuvens tomaram de conta do céu como um véu noturno, o vento estava sacudindo objetos, possivelmente jogados de outros veículos, para um lado e para o outro na rodovia. Finalmente os raios começaram a cair como o cara do rádio alertou, nunca tinha visto algo igual... tantos relâmpagos iluminando o campo, um atrás do outro. Pareciam umas faíscas cada vez que tocavam o campo e alumbrando como flashes de câmeras. A água caindo do céu com o fenômeno estranho, assemelha-se com dezenas de espelhos refletindo. Do outro lado, eu vi um outro ônibus. Quanto mais os relâmpagos caiam, mais parecia uma miragem um outro coletivo correndo por uma estrada igual a nossa. Em um sentimento de repugnância e choque, eu não consegui me mexer até que um estrondo forte e uma claridade fez tudo se acalmar como uma manhã tranquila.

Minha mão ficou presa no ferro que auxilia os passageiros para que subam com mais segurança, o motorista estava olhando para mim e tentando fechar a janela, e o vento tentando me empurrar para trás, mas não havia mais tempo de voltar, porque as portas foram trancadas e os oitos garotos se sentaram nos mesmos lugares. Parecia que eu havia acordado de um pesadelo e entrado em um outro. Olhei para trás: aquele garoto estava riscando o vidro, o casal sentado um pouco atrás e o barulho incessante dos outros quatros quase no final dos assentos. Com mau pressentimento, perguntei ao motorista se estava tudo bem e ele estava esticando sua mão e aproximando o seu rosto para o rádio que estava transmitindo aquelas notícias sobre o mau tempo.

Levantei para falar o que estava preste a acontecer quando olhei para o final do ônibus e vi uma criatura no lugar onde deveria ter um garoto: com tentáculos no lugar das mãos, uma pele repleta de escamas, como se fosse uma criatura do mar, barbatanas nas suas costas, a boca terrivelmente desproporcional para o seu rosto, os olhos esbugalhados e fazendo barulhos estrambólicos. Eu gritei apontando para a coisa e todos miraram para mim como se eu estivesse ficando louco. Diante disso, Evan baixou o vidro para observar e pedindo para eu sentar, bastante aborrecido. Gritei em pânico para a coisa no final das cadeiras, mas todos disseram que eu estava ficando sem noção porque era apenas um garoto mexendo em seus livros e ficando assustado com o meu comportamento.

Naturalmente, abanquei como se eu não estivesse visto nada e concordando com o ódio dos demais. Cruzei minhas pernas, encostei no vidro e estava lembrando as mesmas sensações quando o ônibus chegou na rodovia. A agitação do caminho cheio de buracos desapareceu, e os raios começaram a espetar o chão com luzes incomuns como fogos artificiais. Eu vi o outro ônibus surgindo com criaturas dentro, coisas repugnantes e assustadoras e, no fundo, estava aquele garoto que agora foi substituído por um monstro, gritando e batendo no vidro enquanto os outros se aproximavam e devoram seu corpo... seu sangue se espalhou, pude sentir os seus ossos quebrando e a mandíbula daquelas coisas de outro mundo mastigando lentamente. A tortura durou por alguns segundos até que o clarão voltou mais uma vez, logo após o estrondo o anunciando.

Estava sentado com a cabeça entre os meus joelhos e bastante zonzo. De repente dei um grito porque meu cérebro não soube aceitar todas as informações que estavam voltando com muita pressa e notei o casal, do outro lado, olhando para mim e o cara perguntou se eu estava bem. O motorista pediu para eu parar de bancar o babaca, porque está querendo ouvir o que o rádio estava transmitindo. Os meus braços não param de tremer como nunca aconteceu em toda minha vida, mesmo assim consegui me levantar. A minha atenção foi diretamente para os fundos, e aquela coisa repugnante ainda estava lá, movimentando-se e parecendo que estava grudada naquele assento e me ignorando como se nada estivesse acontecendo. Os namorados continuavam olhando para mim quando eu caí no chão mais uma vez, e a garota disse que eu não estava normal. Nos segundos em que finalmente consegui controlar o nervosismo e buscar de alguma forma explicação para tudo, olhei para o cara que, das outras vezes estava riscando no vidro do ônibus, e observei uma criatura ainda mais assustadora e medonha quanto aquele mostrengo no final dos assentos.

Ele parece uma mistura de homem com algum tipo de díptero braquícero, talvez uma mosca. Eu poderia sentir como se fosse geleia os seus músculos pastosos, o seu corpo não passava de pus e sangue saindo por todas as partes. Seu gemido de agonia, sacudindo a cabeça e batendo contra o vidro, como se estivesse sentindo muita dor, fez um choque correr por todo o meu corpo tão frio quanto o inverno, um erro de Deus ou apenas uma besta fera do inferno expulsa das trevas.

O motorista pediu para que alguém me ajudasse, então o rapaz que estava sentado com a garota me colocou em um banco do lado e disse que eu estava suando muito. Quando percebeu que eu iria me levantar mais uma vez, segurou os meus braços com mais força, já que é um garoto mais forte e falou que ficaria tudo bem. De repente, os rugidos dos relâmpagos chegaram naquele terreno aberto, eu nem percebi quando nós havíamos chegado na estrada. Os olhos do garoto estavam distraídos com outra coisa e os seus lábios anunciaram que havia algum evento do outro lado, e eu vi o outro coletivo, dessa vez mais um outro garoto estava lá, aquele que agora foi substituído por um monstro muscidae ainda mais repugnante, e as criaturas lá devoravam os dois e divertindo-se em euforia.

"Que merda está acontecendo!?" - Ele expulsou um miado de pavor e a sua atenção voltou novamente para o nosso ônibus. Sua expressão era abalada, mas uma curiosidade mudou o seu semblante com uma pergunta curiosa para mim. Entortou os seus lábios para indagar se eu estava ouvindo um "Tic Tac". Finalmente estava escutando junto com ele, e sua cabeça olhou para os nossos pés, e encontramos uma mochila. No mesmo momento, ele abriu como um instinto animal. Quando fez isso, o clarão veio e, dessa vez, nem deu para ouvir nada... apenas o silêncio.

Minha cabeça bateu violentamente contra o vidro e fez rachar como a teia de aranha. Eu sabia que estava acontecendo novamente e virei para o casal, os únicos que se preocuparam comigo, e, agora, eram outras criaturas com tentáculos, gosmas verde, deformidades, escamas, uma mistura doentia de outro mundo, que estava aqui comigo! Um devorando o outro como se fosse uma fome descomunal, os corpos se juntando. Uma verdadeira obra chocante, uma cena tão horrorosa quanto qualquer tipo de pesadelo que existe no mundo. A coisa ficou no final, a outra continuava sofrendo e se golpeando em todas as partes e o grupo.... também transformado em monstros com tentáculos no lugar dos membros e a estrutura física transparente, mostrando os seus órgãos funcionando e se arrastaram para minha direção.

Para tentar escapar desse horror indescritível e imaginário, fui para frente e o motorista, algum tipo de cadáver vivo com vários vermes saindo por todas as partes, tentou dizer algo, enquanto uma gosma negra saia da sua boca. Todos eles foram se aproximando até que eu, mais uma vez, percebi que nós estávamos na tempestade de raios e, do outro lado no ônibus, os outros garotos apontavam para uma das janelas, mas já era tarde demais... pude senti eles partindo os meus membros, enquanto ainda continuava vivo de alguma forma, mastigando e triturando entre os seus dentes e expulsando para dentro dos seus estômagos os meus pedaços. A minha carne sendo cortada pelas suas unhas até que, finalmente, tudo ficou branco.

O freio do ônibus espalhou terra seca em todas as partes com a ajuda da aragem, que estava ficando mais forte. Uma multidão saiu de dentro do ônibus e, no meio daquela bagunça toda, eu pude observar um garoto agoniado porque havia esquecido algo dentro do coletivo. O grupo de fortões e mais altos, o empurraram. Parecia que eu estava fazendo tudo no piloto automático quando entrei e observei Evan Treborn tentando fechar a janela e perguntando se eu tinha alguma coisa para se livrar, enquanto a brisa surrava os nossos rostos. Naqueles segundos, eu corri, empurrando os outros, e peguei aquela mochila jogando-a pela janela, e o motorista disse que não precisava de tanto exagero. O ônibus começou a seguir o seu caminho, e uma notícia começou a falar sobre uma suposta tempestade passageira que, da mesma forma que chegou, desapareceu. Era apenas um efeito atmosférico desconhecido, no entanto alertou para terem cuidado com as estradas.

Nesse amanhecer, a minha família foi avisada sobre um atentado no colégio, no qual algum garoto havia levado bombas dentro da sua mochila e disparado no horário de movimento nos corredores, vários estudantes haviam sido mortos e muitos feridos. As famílias ficaram revoltadas como uma criança de treze anos conseguiu plantar os explosivos e disparar no horário com mais aglomeração de colegas. Eu ainda estava chocado com as coisas que tinham acontecido comigo para ficar aterrorizado com esse novo evento. Uma coisa é certa e que não quer parar de ficar martelando na minha mente: existe algum tipo de ligação que minha mente ou qualquer outra não consegue explicar ou compreender.

No enterro dele não foi ninguém, o que sobrou do seu armário no colégio foi jogado no pátio para que o caminhão levasse. Me aproximei de alguns livros e anotações. O seu armário encontrava-se pichado com coisas ofensivas e vandalizado, um dos livros se destacava... mais conservado do que os outros, como se não fizesse parte daquele espaço, mesmo assim palavras escritas, como se a tinta ainda estivesse jovem, diziam as seguintes citações na capa:

"Entre dois mundos paralelos, eu posso estar sofrendo e no outro eu posso torna-me um monstro. Não existe o mesmo dia... Sei muito bem que essa manhã posso mudar o meu destino e dos outros..."

Autor: Sinistro

Torre 187

Abro meus olhos, estou acordando? Quando eu dormi? Olho para cima e vejo que não estou mais em casa. Não consigo olhar para baixo... tento olhar para ps lados e percebo que meu olhar vai rápido demais, não, vai imediatamente ao local, como um corte de câmera.

O que eu vejo aqui? É alto, estou muito alto, vejo torres, muitas delas... tento colocar a mão na frente para ver melhor, mas sou surpreendido por um zoom. Eu vejo, no topo de outra torre, um espelho se mexendo? Uma câmera? Me pergunto para que serve tudo aquilo e algo vem à minha mente:

ACESS AUTHORIZATION: VT00110110-******** [SELECT * FROM VT11001110]

De repente eu entendo, é uma torre de segurança, eu também estou numa... eu SOU uma, por que? Sempre foi assim? Eu não lembro, eu queria lembrar...

[SELECT * FROM DT10100011] ACCESS DENIED!

Eu preciso lembrar

[SELECT * FROM DT10100011] ACCESS DENIED!

Eu preciso que alguém me diga!

CHECKING... VIOLATION ACCESS!... MALFUNCTION DETECTED... SYSTEM RELOAD...

Não! Eu só queria saber... por que terminei assim... eu.. esqueci o que ia dizer... estou esquecendo mais coisas...

SYSTEM RELOADED

01010100 01101111 01110010 01110010 01100101 00100000 00110001 00111000 00110111 00100000 01110010 01100101 01110100 01101111 01101101 01100001 01101110 01100100 01101111 00100000 01100110 01110101 01101110 11100111 11110101 01100101 01110011 00101110

Autor: Fragata

Não importa o que você fizer, a polícia vai descobrir o seu crime

Cheguei até o hospital e observei a porta branca com uma placa escrita: "Dr. Zachary Quinto. Psicologia em geral". Peguei do meu bolso, encostado na calça, e comecei a observar às anotações pessoais. De acordo com os registros, a última pessoa que Naomi Grossman visitou, antes do desaparecimento, foi o seu médico particular, o psiquiatra forense. Imaginei comigo mesmo que seria muito questionável, além da coincidência assustadora, para os olhos mais inocentes, envolvendo um sumiço de uma garota tão jovem.

"Maldito desgraçado, logo a polícia vai descobrir o que você fez!". - disse a detetive com um timbre agudo, parecendo cada vez mais irritada e furiosa. Bati algumas vezes na porta até ouvir uma voz do outro lado me pedindo para entrar. Denunciei que era um detetive e estava investigando o desaparecimento de uma garota. Seus olhos ficaram confusos e falou que precisava de um mandado ou horário marcado, mas eu ostentei o medalhão dourado, que estava preso no meu pescoço, e ele me pediu para entrar.

Aparentemente, estava desnorteado e não se sentou até que eu me aproximei mais um pouco e a detetive, nas minhas costas, foi chegando sem pressa como eu. Então fui direto ao ponto, quando disse que Naomi estava desaparecida. O psiquiatra logo começou a puxar a sua gravata do pescoço, como se estivesse o impedido de respirar, colocou os seus dois dedos ainda mais afrouxando o nó que, aparentemente, ele mesmo o fez na sua garganta e me pediu para sentar. Naquele instante, aconchegando-se na poltrona na minha presença.

"Você já deve ter uma noção do que eu estou falando e espero que esteja tudo bem". - Para analisar a situação, levei consideração os seus cabelos com gel caro, penteados para trás, lambidos como a língua de um boi, bem nojentos. A sua roupa que estava ficando cada vez mais transpirada pelas axilas e a maneira frenética que ficava puxando a gravata no seu pescoço. Este, tentou segurar a garrafa de café, suas mãos vibrantes não paravam de entregar ao seu nervosismo e a forma que a massa os copos descartáveis, era ainda mais gritante diante de uma situação dessa.

"O que aconteceu com a senhorita Naomi Grossman? É uma das minhas pacientes, e estou preocupado." - perguntou ele colocando suas mãos em cima da mesa, sentando-se na cadeira de uma forma mais firme. Curioso, mas assustado, ao mesmo tempo, com uma risada desformada no rosto, visivelmente forçada demais e exagerada, com uma pergunta confusa e preocupada em sua maneira de se comportar.

"- A garota desaparecida, até então, de acordo com os meus registros pessoais, visitou o seu escritório pela última vez, da mesma forma que fez isso nos últimos meses. É um pouquinho curioso, certo? O que você tem a dizer a respeito disso, Doutor Zachary Quinto!?." "Desaparecida? Eu estou tão confuso quanto a isso. É uma pessoa excepcional, uma das minhas pacientes mais queridas e eu quero saber o que aconteceu. O que você sabe a respeito?"

"- Ok, Zachary. Eu estou aqui porque sei o que você fez com ela. Não tente disfarçar com seu joguinho típico de um mentiroso qualquer! Certamente não passou na sua cabeça a quantidade de pessoas que eu conheci, semelhante a você. Hoje não, em nenhum momento, venha com suas desculpas e ensinação, jovem bonitão. É melhor manter esse momento para o mais verdadeiro possível. Logo em seguida, disse a detetive ao meu lado: acha mesmo que a polícia não vai descobrir o seu crime. As evidências estão apontadas ao seu desfavor, seu desgraçado!"

O psiquiatra levantou-se rapidamente. Um rapaz bem aventurado e alvoroçado, não conseguia segurar a inquietação, nervosismo em nenhum minuto desde que entrei aqui e nos momentos em que mencionei o nome de Naomi. Logo cuspiu ferozmente: "está tudo bem! É isso mesmo que você quer saber? Era apenas uma vadia, mulher promíscua, que saia com várias pessoas. Muito bonita e atraente. Qualquer um ficaria encantado com seu charme e a maneira de provocar. Tudo bem, eu estava me encontrando com a minha cliente, quase todos os dias; mas isso não me torna o responsável por seu desaparecimento, detetive, é isso mesmo que você queria ouvir!?

"Maldito desgraçado! Parei com os seus joguinhos, pois nenhum deles vai fazer escapar do seu crime. Não sente o cheiro da prisão, o sangue está sendo derramado no seu rosto e a culpa vai lhe abraçar em um infortúnio próprio. Você vai pagar por cada coisa que fez." -Sussurro a policial próxima do meu ouvido, bastante irritada e incomodada com tudo aquilo que estava vendo.

"Olha aqui, seu engomadinho! Acha mesmo que as coisas vão ficar assim? Pense bem o que vai acontecer a partir de agora! O principal suspeito é o psiquiatra da garota sumida, tendo caso com a sua vítima e depois assassinando ou escondendo o seu corpo friamente. Imagine a repercussão. Eu poderia muito bem divulgar isso nos jornais e fo**r sua vida completamente, seu babaca arrogante! Apenas responda as perguntas que eu vou fazer e fique de bico calado para qualquer tipo de irritação pessoal, de acordo? - Eu estava agarrando as suas roupas e puxando o seu peito para próximo de mim. Armei um soco bem no meio do seu nariz e percebi a merda que eu estava fazendo. Os braços do psiquiatra estavam levantado, como uma bandeira de paz, e o cagaço escapando entre cada movimento que fazia com seu corpo indefeso e entregue à mim pelo medo. Literalmente morrendo nas minhas mãos pelo estrume e a covardia.

"Quero que você me fale dos encontros, segundo o senhor mesmo, da Naomi Grossman. Exijo conhecer com quem ela estava saindo recentemente. Todas as informações de possíveis namorados obsessivos, agressões, ameaças, tudo aquilo que vocês conversaram pelas últimas reuniões." -Perguntei, sentando-me novamente, arrumando as minhas roupas e escrevendo no bloco de notas.

"Namorados? Sigilo de profissão. Eu não posso dizer nada, com todo respeito, detetive... você não falou seu nome. Eu tô no meu direito de..." - interrompi com um soco forte na mesa, que fez as canetas, guardadas em um recipiente, saltarem e alguns objetos caírem para o lado. Apontei o dedo furioso sobre ele mostrando que iria perder a profissão por estar dormindo com uma das suas pacientes, ainda mais, uma desaparecida, e que o tornaria um dos principais suspeitos, além de perder o seu trabalho. Não apenas isso, iria lidar com a sua esposa, pois observei a aliança entre os seus dedos.

"Não percebeu que tudo que você faz não irá ajudar!? As investigações logo irão encontrar o seu segredo e descobrir o você fez!" -Latiu a detetive, mais uma vez irritada e aborrecida, agora no canto da sala. Apenas mastigando e devorando todo aquele homem que estava diante dos seus olhos.

O cara chutou a mesa, de baixo para cima, ainda mais agressivo, quanto o meu soco que de aborrecido na sua tábua de escritório. Uivou, desesperadamente, as seguintes palavras. Já fodi** o suficiente pelas coisas que eu sabia, expulsou cada coisa que existia no seu cofre pessoal, dentro da sua alma, rastejando entre o seu peito e sua mente incriminada:

"Tratava-se de uma garota problemática, sempre aprontando e fazendo besteiras. Normalmente, estava desabafando sobre suas noites de luxúria com caras diferentes, todos os dias. Uma mulher bonita de fato, porém vergonhosamente não se respeitando. Já deu para perceber que eu dormi com ela algumas vezes, que homem não resistiria aquela beleza e o seu charme provocante!? Eu sou casado, você percebeu isso, e estou a um ponto de perder a mulher que eu amo por conta de uma noite com uma vadia promíscua. Não quero pagar por isso! O que você deseja de mim, policial, não é a confissão suficiente que procura aqui!?" - disse ele, desabafando com um tom imaturo, assumindo as coisas que fez e, aparentemente, não tinha nada a ver com um crime. Isso já seria suficiente para escapar de um sequestro ou assassinato.

"Aparentemente você não sabe de nada. Eu só queria saber o que aconteceu na última vez que ela apareceu no seu escritório, além dos amantes típicos. Não descobriu nada recentemente? Estou tentando ser legal, sendo assim, seja maduro o suficiente para dizer tudo que sabe, porque não vai querer que eu volte ou outro detetive apareça aqui. Nesse momento, estou tentando preservar sua profissão e o seu casamento, certo. Está tudo sendo gravado aqui pelo meu celular. Posso muito bem usar isso para arruinar com sua vida. Então, me diga se ela estava se encontrando com mais um cara, além dos gados de ultimamente!" - Dessa vez eu fui direto ao meu propósito. A expressão da detetive estava ainda mais ansiosa por uma resposta do psiquiatra, e ficamos nós dois observando ele, enquanto transparecia colocando lenços e massageando sua testa com a manga da sua roupa para formular um retorno na sua boca trêmula e patética.

"Na verdade, nos últimos dias, ela disse sobre está encontrando-se com um profissional do seu trabalho, um companheiro de muito tempo, mas eu não sei o nome e de quem se trata, não falou muito além disso, e não sei nada mais do que tencionava dizer e é tudo isso que posso contar. Algumas vezes, disse sobre comportamentos maníacos, ameaças, entre outras coisas, por causa de ciúmes. Entretanto, não faço a mínima ideia de quem seja, como já afirmei agora há pouco." - Finalmente, ele disse calmo, juntando alguns arquivos, que eu não faço a mínima ideia de quem sejam, em um monte e posicionando diante do seu estômago, em cima da mesa, e apontando para mim como se estivesse desabafado tudo aquilo que eu precisava saber.

"Você não pode escapar, seu miserável! As investigações estão no pé." - Eu interrompi as palavras da detetive com um "Ok". Já não é suficiente nós estarmos saindo daqui? - Expulsei como se fosse um soco irritante direto nos seus julgamento irritados.

Saí do escritório psiquiatra do Zachary Quinto, riscando mais um nome e o último deles. Depois de tudo, ninguém sabia mais ou usaria qualquer tipo de evidência para encontrar o assassino. Tudo parecia limpo, uma vez que ninguém, em nenhuma circunstância, imaginária quem seria o real algoz da detetive Naomi Grossman que, nesses instantes, encontra-se atormentando às minhas noites, o seu espírito imundo e julgando-me por cada segundo de ter matado e escondido o seu corpo nas tábuas da minha sala, devidamente ocultada por um tapete. O cheiro abafado por produtos químicos, ninguém conseguiria encontrar, e nenhum tipo de sangue, pois eu consegui e conhecia muito bem a perícia.

Antes de sair, eu falei para o alienista que mais ninguém necessitava saber da minha presença aqui para o seu próprio bem, já poderia utilizar aquela lixeira, que ele regurgitou agora há pouco, para destruir os arquivos na máquina em pedaços a respeito da policial problemática. Pessoalmente, tratando-se dos últimos encontro da Naomi, aquela parceira de trabalho que brinca com os meus sentimentos como qualquer outro, o doutor certamente vai obedecer sem dizer um ar as minhas ordens.

Agora ela está nos meus ouvidos, chamando-me de assassino, criminoso, manipulador e traiçoeiro, mas sabe que, de acordo com a nossa profissão, ninguém pode me incriminar, dado que eu consegui muito bem me livrar de qualquer tipo de testemunha e os vestígios do meu crime em sua morte.

Autor: Sinistro

A garota no espelho

O indivíduo é do sexo feminino. Cabelos longos e pretos, pele clara, olhos de cor castanho escuro, aproximadamente 1.70 de altura. À primeira vista passa uma feição inexpressiva.

— Senhorita Mary, certo? — pergunto.
— Isso — ela responde.
— Por onde a senhorita prefere começar?
— Eu não quero falar nada sobre absolutamente nada — seu olhar, antes inexpressivo, torna-se de seriedade.
— Senhorita Mary, o único motivo de eu estar aqui é porque quero ouvi-la. Está tudo bem. Quero que me encare como seu amigo, nada mais que isso. Se tem alguém que pode lhe ajudar agora, sou eu, mas para isso eu preciso saber da verdade — tento estabelecer uma aproximação.
— Hum... — Mary franze a testa como se estivesse processando o que falei.
— Acha que podemos fazer isso? — insisto.

Nesse momento, Mary analisa toda a sala, vasculhando cada mísero cantinho com seus olhos. Um leigo talvez achasse que ela está procurando algo, mas tenho certeza que ela está se certificando que algo ou alguém não está aqui. O que é bem estranho para a situação, dado que estamos sozinhos em uma sala fechada.

— Você tem algum espelho aí? — ela pergunta.
— Bem... Não.
— Tem certeza?
— Sim — afirmo enquanto esvazio meus bolsos.
— Então tudo bem. Eu vou te contar.

Foi bem mais fácil do que pensei que seria... e bem mais estranho também.

— Começou quando eu era bem pequena. Devia ter uns 10 anos. Minha mãe tinha acabado de sair só pra dar um oi na vizinha e eu tinha decidido escovar os dentes. Quando cheguei no banheiro e olhei no espelho, ela estava lá. A garota.
— Tinha uma garota no banheiro? — pergunto.
— Não, no espelho — responde ela com os olhos arregalados.
— Você quer dizer você, não é? Você quem estava aparecendo no espelho.
— Não, não — ela nega como se eu estivesse falando a maior bobagem da década. — Mas admito, ela parece bastante comigo, tipo, quase tudo mesmo. As pessoas sempre costumam achar que sou eu.
— E qual a diferença entre vocês?
— Ela parece... — olha para os dois lados como se estivesse prestes a me contar um grande segredo. — Errada. Ela parece errada! Como se algo estivesse fora do lugar. Como se de alguma forma, ela não devesse estar ali, entende?
— Entendo — na verdade, eu não entendo — E de que forma isso se relaciona com a nossa 'verdade'?
— Naquele dia, quando a vi, eu não consegui me mexer... Até que ela se mexeu. Meu corpo imitava tudo o que ela fazia, totalmente contra minha vontade. Mas às vezes eu errava.
— Como assim errava? — me vi mais imerso na história do que deveria.
— Ela se movia de um jeito, mas eu não fazia igual. Isso não acontecia sempre, era só às vezes mesmo — ela falava como se fosse algo natural. — O ponto é que... Sempre que tem um espelho ou até mesmo um reflexo, não sou eu quem toma as ações.
— Olha, senhorita Mary — respiro fundo. — Lhe parabenizo por ter me feito por um segundo dar um pouco de credibilidade a essa história. Mas de todas as explicações para um crime, essa foi a pior. Não sei se é pior você achar que isso realmente é verdade ou você ter inventado tudo isso só para fazer uma brincadeira comigo. Eu queria apenas lhe ajudar.

Levanto enfurecido, mas em dúvidas se era com a senhorita Mary pela história absurda ou se era comigo mesmo por estar cogitando que fosse verdade.

— Espere, doutor! — ela grita antes que eu saia da sala. — Eu nunca mataria meu marido, juro!

Fecho a porta e saio.

"Que absurdo! Matou o marido e diz que foi um fantasma no espelho!", é o que eu repito para mim mesmo. Não me entenda mal, não acho que foi uma grande história super bem contada, mas se você visse e ouvisse como ela contava, as expressões, o tom de voz... Um leigo acharia que foi atuação, mas eu tenho certeza que ela acreditava piamente em tudo que estava falando, e isso me perturba.

Em casa, todos os espelhos parecem meus inimigos. Sou um homem cético, mas algo na história daquela mulher me deixa inquieto, algo me faz querer investigar.
Nessa noite, praticamente não dormi. Estou ansioso para encontrar com Mary mais uma vez, ainda mais por saber que essa será a última.

Cheguei 1 hora antes do horário marcado para a sessão e esperei na sala, inquieto. Dentro do meu bolso, há um pequeno espelho. Eu vou mostrá-lo. EU PRECISO MOSTRÁ-LO. Tenho que saber como ela vai reagir. Eu não estou louco, só quero ver com meus próprios olhos que nada vai acontecer e acabar com essa paranoia. MERDA! Sou um psiquiatra com PhD, MERDA!

Finalmente, Mary chega. E no exato momento em que ela senta a minha frente, paralisa. Vidra seus olhos em mim. Sua cabeça treme levemente como se estivesse prestes a convulsionar.

Começo a suar.

Meu coração começa a acelerar.

Meu olho esquerdo começa a tremer.

Engulo a seco.

Será que é verdade? Será que ela pode sentir que eu estou com um espelho? Será que estou louco? Será que ela só é simplesmente louca?
O que pra mim parecem 10 horas ininterruptas de Mary me encarando de forma inumana são na verdade 15 segundos.
Repentinamente, Mary volta ao normal.

— Doutor, você está bem? — ela ri.

Repentinamente também, eu volto ao normal. Passa-se pela minha cabeça todos os psicopatas, sociopatas, esquizofrênicos e lunáticos que eu já tinha ouvido. Todas as histórias e declarações absurdas. Percebo que me deixei levar e afetar por uma semana ruim. Tudo que eu preciso é de uma folga.

— Mary... — respiro fundo. — Vamos começar?

Hoje, consegui ter uma consulta e conversa decente com Mary e a diagnostiquei. Esquizofrênica.
Para o azar de Mary, apenas esse laudo não a impede de ser condenada à pena de morte por injeção letal.

Decido visitar Mary na prisão na véspera de sua sentença ser cumprida. Acho que ninguém mais irá visitá-la. Como a última pessoa a ouvir seus sentimentos, decido tentar confortá-la de alguma forma e me desculpar pela nossa primeira sessão.

A visita é igualzinha aquela dos filmes mesmo, com uma divisória de vidro e cada um com um telefone.
Vou direto ao ponto.

— Oi Mary... Olha... Quero me desculpar, não fui profissional na nossa primeira sessão. E amanhã... Não quero que você se vá pensando que todos lhe acharam louca ou algo do tipo. Nesse último dia, valorize suas próprias verdades e encontre paz com você mesma.
— Está tudo bem, doutor — diz ela com calma. — Obrigado por tudo. Tudo mesmo. Você me fez encontrar a paz depois de muitos anos.
— Acho que falar sobre aquelas coisas te fez sentir melhor, não é? Talvez se tivesse tentado antes não tivesse sido tarde demais...
— Não, doutor, não estou falando disso. Estou falando de ter levado aquele espelho escondido com você naquele dia.

Estou gelando.

— O esp-pelho? M-as — travo.
— Ela sussurrou pra mim, doutor. Ela disse que eu não precisava mais me preocupar, que agora ela iria morar com o senhor. Se você reparar bem, já vai conseguir vê-la por lá, nos seus espelhos. Ou talvez ela já tenha se encontrado com sua esposa ou filhas, se o senhor tiver.

O guarda anuncia o fim do horário de visitas.
Continuo paralisado.

— Tá tudo bem, doutor — disse Mary. — Só não cubra os espelhos. Isso faz ela gritar muito.

Autor: Lucas Queiroz

Surtos em um entardecer de Março

A viatura apareceu pintando todas as paredes da rua de vermelho e amarelo, girando em todas as direções. Tudo parecia tão morto quanto a pandemia. Os dois homens desceram do veículo e encontraram a senhora no endereço indicado pela ligação de emergência, relatando sobre um assassinato. De acordo com a chamada, uma mulher havia matado seu bebê de seis meses, afogando-o dentro de uma panela. Aparentemente, arrependeu-se ou estava entregando-se pelo seu crime hediondo.

Os olhos deles foram diretamente ao seu objetivo. Claramente não existia nada além disso, observaram a senhora destruída e acabada, em cima do carpete de "boas-vindas". Seus cabelos longos cobriam seu rosto, e suas mãos estavam para frente. Uma camisola de dormir rosa ocultava o seu corpo branco. Máscaras cirúrgicas descartáveis era tudo o que os homens estavam ostentando no rosto para evitar a contaminação do COVID-19 que, desde o início, estava atormentando todos. Aproximaram-se da porta e pediram à mulher para entrar - com a autorização dela, é claro, já que não tinham o devido mandado.

Perguntou um dos policiais, com o nome de Benjamin, enquanto segurava um caderno de anotações próximo ao seu peito direito e desligava o rádio patrulha no seu ombro: "Senhora, o que aconteceu, pode me dizer com clareza? Recebemos uma denúncia de assassinato, uma confissão, na verdade." O outro policial continuou examinando em todas as direções, com o olhar preocupado e não saindo da sua posição, ao lado do seu companheiro.

"Eu não sei. Tudo parece um tormento e minha cabeça começa a doer quando tento lembrar. As memórias vagas desaparecem como um pesadelo, mas sei muito bem o que eu fiz... Ele ainda está lá dentro da panela de pressão, com seus pés acima da água, afogado e morto, mas eu sei que tem algo além disso! Lembranças como partes fragmentadas... Estão assistindo televisão, passando os canais, falando sobre a mesma contaminação viral e, num desses intervalos, eu vi algo misterioso..."

"Misterioso?" - murmurou o homem, que ainda continuava intrigado, olhando em todas as direções, e o outro não parava de rabiscar em um caderno pequeno as informações que estava ouvindo do ocorrido.

"Sim, senhor! Eu estava mexendo no controle remoto até que vi um anúncio, aquele tipo de comunicação urgente do Governo, falando sobre o Covid-19. As notícias não eram nada de inovadoras, diziam sobre: lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool gel, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca e manter os ambientes bem ventilados e, além disso, decretando, numa nova lei de acordo com o presidente atual do Brasil... falava que devíamos matar todas as crianças e velhos sem piedade alguma, dado que eram os principais devorados por tudo isso e que os seus corpos, com o passar do tempo, estavam sendo casulos para uma coisa ainda maior, que superaria qualquer tipo de obstáculo no combate contra o contágio.

É Isso que está matando todos, uma caracterização da mutação do coronavírus e ainda pior do que imaginamos, segundo as palavras do Presidente do Brasil. Só sei que repetiam dezenas de vezes, com imagens circulares e brilhosas, na televisão, tanto que fez minha cabeça formigar como dezenas de patas de besouros, logo controlando o meu corpo... Eu já não sabia mais se era eu ou outra coisa dominando os meus movimentos, e quando me dei conta, eu estava afogando a minha filha."

Com os olhos fundos em seu crânio, ela continuou.

"Era como uma enxaqueca, repetindo dezenas de vezes para, nesse momento, matar qualquer tipo de idosos ou crianças abaixo de quinze anos, pois o novo coronavírus, agora "Covid-20", acabou evoluindo para um novo estágio, ainda mais agressivo e brutal. A humanidade estava com medo das pessoas próximas, segundo eles, referindo-se a pessoas mais frágeis." - falou após um intervalo pensativo do seu próximo texto, tentando recordar a confusão. Infelizmente, suas palavras desconexas não revelavam nada além de uma moradora sob o uso de drogas. A senhora começou a repetir as coisas que estavam vindo da televisão, enquanto não podia sentir nada além do seu corpo manipulado afogando aquele corpo frágil e pequeno.

O policial militar parou o lápis nas suas mãos, parecia apenas ficar girando sua caneta nos papéis, em círculos infinitos. Deu para perceber na sua buchecha esquerda um corte com sangue há não muito tempo feito. Então, mantiveram seus olhos curiosos e perguntaram sobre um possível marido ou qualquer tipo de membro na família além da criança em estado de decomposição inicial dentro da panela. O outro sujeito, acompanhando os seus movimentos dos lábios, copiou o gesto do seu companheiro encarando a mulher, assombrosamente perdida e desgastada pelo seu crime, além da preocupação, tropeçando na sua própria mente.

Percebendo a descrença dos homens, ela tentou mais uma outra maneira de, no mínimo, explicar o que ocorreu há alguns minutos.

"Não há nada além de tudo isso que vocês estão vendo aqui. Há alguma coisa acontecendo e acabou de ser vista na televisão, precisamos comunicar às autoridades urgentemente!" - suas palavras foram interrompidas pelo choque absoluto de ver um dos policiais indo para a cozinha e pegando uma faca grande de cortar carne, perfurando a coxa esquerda do seu companheiro e cortando a sua outra bochecha; enquanto rasgava sua roupa e feria seu próprio corpo com mutilações similares as de uma agressão.

Benjamin guardou o seu bloco de notas, visivelmente com círculos estranhos no papel. Pegou a radiopatrulha e disse que a mulher surtada matou o seu próprio filho e tenta atacar o socorro, mas que, como estavam devidamente preparados, conseguiram neutralizar mais um surto nessa noite. "A contaminação do vírus realmente está extrapolando os seus limites e causando uma histeria em massa: pessoas tornando-se agressivas para com os seus familiares e outros próximos. Nessas circunstâncias, fomos obrigados a usar a força necessária para tal crime." - suas palavras deixaram a mulher ainda mais aflita no chão, perdida e observando como uma caricatura morta o comportamento inusitado dos dois guardas.

A senhora ficou ainda mais arrasada e percebendo tudo à sua frente. Repetiu mais uma vez que havia alguma coisa estranha acontecendo com os meios de comunicação e falou que o apresentador, com seus olhos e rosto apagados como uma borracha, mas mantendo as órbitas oculares com coisas triangulares e vermelhas, de alguma forma conseguiu controlar sua mente. Mesmo assim, o policial aponta uma arma logo em seguida, guardando os óculos escuros que estava usando mesmo à noite, próximo da manga da sua camisa, e mostrando que as íris viraram triângulos nos seus rostos, iguais ao do apresentador na televisão, segundo a moradora extasiada pelo medo. Em seguida, disparou a arma.

"Mais um caso de contaminação", - disse eles. Os dois sujeitos trocaram olhares com suas íris transformadas em algo medonho. No momento em que ligaram o rádio patrulha, uma outra chamada deixava o aparelho agitado.

Uma solicitação de vídeo simultânea, nos dois celulares, foi o que os seus rostos observaram. Tratava-se de um capitão não conhecido por eles, falando sobre um novo incidente em uma casa na qual entraram poucos minutos após o último ocorrido, encontrando um novo homicídio. As exigências eram: para matar qualquer tipo de agressor e, depois, os homens da lei seriam ditos como vítimas de um pandemônio da quarentena. Os policiais obedeceram devidamente e comunicaram que foi necessário neutralizar mais um agressor em legítima defesa.

Logo receberam mais uma denúncia sobre um esquartejamento em uma casa de classe nobre. Ligaram a viatura, continuando iluminando as casas com as luzes vermelhas e amarelas, enquanto iam para mais um local onde um assassinato aconteceu e mais uma retaliação seria devidamente feita por suas armas.

Não demorou para que evidências sobre uma suposta chamada de vídeo ou qualquer coisa do tipo desaparecessem nos celulares dos homens, para essa noite de 24 de Março de 2020. Tudo foi apagado e destruído como fragmentos de uma lembrança, e eles estavam apenas cumprindo seus deveres, obedecendo ao sistema....

Autor: Sinistro

Esse ano, o coelho não vai compartilhar apenas chocolate e alegria

Eu sabia que não deveria ter saído de casa, mas me senti obrigado a fazer isso porque, desde que a quarentena foi suspensa, por ordem do governo, após uma aglomeração da população querendo trabalhar e comer, além de pagar o seu aluguel para não ficar jogado nas ruas, eu não era diferente do que qualquer tipo de pessoa preocupada para preencher sua barriga e dá dinheiro pagando aquilo que parecia um ogro bruto batendo na minha porta todos os dias porque fez quase dois meses sem receber um centavo meu.

As coisas começaram ainda mais frenéticas do que antes, o Parque da Disney ficou um tempo sem funcionar, pois estavam todos presos dentro das suas casas e, quando foi aberto, após um anúncio, as famílias se transformaram em colmeias de abelha com centenas de crianças, velhos e adultos querendo tirar o estresse. Os funcionários estavam preparados, com suas roupas. Na Páscoa, semana temática, deveríamos estar ostentando personagens semelhantes a coelhos. Foi difícil para mim, ainda mais sofrendo aquele mal e a tosse com certeza era uma coisa que não devemos mostrar enquanto estávamos escondidos dentro de uma roupa.

Apesar das centenas de mortes, as pessoas não estavam seguindo as ordens obrigatórias e, os mais pobres, precisando receber para ser escravizado pelos ricos, estavam cumprindo os seus deveres dentro do vestiário com outros homens. O ambiente era consumido por barulhos de tosse, alguns reclamando de dores e dificuldade para respirar, mas deveríamos fazer vista grossa e se comportar como se nada estivesse acontecendo ou nos atormentando.

As minhas ordens eram que fosse o Coelho da Páscoa, recebendo dezenas de crianças o dia todo para fotografar e brincar com elas. Os seus rostos angelicais, o corpo pequeno e frágil, aquela alegria contagiante, tudo isso estava me deixando atormentado. No início foi difícil, da mesma forma que estava sendo para todos, mas a pressão do meu patrão, dizendo que bastava apenas uma gota para me despedir e aquele asqueroso querendo receber tudo, foi o que eu precisava para ser obrigado a fazer o que eu estou assumindo.

Mesmo com as mortes aumentando, crianças e idosos sendo consumidas pelo mal e devastando milhares de pessoas, não ligaram para isso. Para o próprio vírus não foi descoberto nenhum tipo de cura após meses, a população sofrendo com isso. O meu desconforto e culpa precisavam ser preenchidas por algo, como se existisse algo para isso. Antes de trabalhar, eu era alcoolizado por minha própria conta, bebendo ferozmente para tentar diminuir a mágoa de ver mais uma vítima minha, uma criança inocente sendo infestada pelo meu próprio demônio.

Não importou os últimos acontecimentos e tudo aquilo que não parava de se espalhar por todos os lugares... Eles acharam que as máscaras, álcool em gel e cuidados resolveriam isso mesmo!? Eram apenas uma forma retardada de serem vítimas. Eu, por exemplo, coloquei uma fantasia bem assustadora para fazer referência com o filme "Bunnyman". Apesar disso, as famílias não se importaram, porque era apenas um cara fantasiado e elas estavam contentes.

Mesmo dizendo que não estava bem, o seu olhar de despreocupação era tão assustador quanto qualquer tipo de história ou filme de horror, o responsável do parque queria ganhar mais. Sentei na minha poltrona, e mais uma criança se aproximou de mim. Então, ele murmurou que essa é a trigésima sétima criança nesse dia. Encolhi o meu corpo, baixei minha cabeça e o odor de álcool forte era transmitido pelo corpo da caricatura de um personagem de filme de horror. Eu estava sendo esmagado por dentro com tristeza e uma caricatura pequena sentou-se próximo da minha perna, com os olhos brilhantes e parecia animada.

Tentei segurar o máximo, contudo minha garganta já estava ferida suficiente para expulsar o ar saindo dos meus pulmões com milhares de bactérias, jorrando dentro da fantasia, aquecendo o meu rosto e sendo expulso pelos buracos de onde eu respiro. No mesmo momento, espalhando os cabelos daquele menino curioso e com os olhos assustados. Ele perguntou se eu estava bem, me chamando de "Sr. Coelho", e eu respondi que sim. Não queria alarmar mais um deles, então começou a dizer o que desejava nessa Páscoa. Tentei trazer euforia e, mais uma vez, colocando minha língua dentro da minha garganta para não tossir uma segunda vez. Apesar de saber que, mesmo com a sua máscara cirúrgica, as bactérias foram espalhadas pelo seu nariz e olhos.

O fotógrafo, na nossa frente, estava tão morto quanto eu, e ele disse que essa era apenas o início de mais uma família feliz... dezenas e dezenas estavam por vir porque nós apenas estamos no começo dessa Páscoa...

Autor: Sinistro