Monstros em Meus Ombros - Prólogo & Capitulo 1

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Prólogo


Quando eu era criança, eu costumava ouvir vozes. Às vezes elas cantavam... Às vezes elas gritavam, mas em todas às vezes, elas falavam comigo. Meu pai me disse uma vez que um dia elas morreriam, foi confortante saber. Fui ingênuo o bastante para pergunta-lo se ainda demoraria muito para acontecer. Ele sorrira pra mim, foi o sorriso mais feliz que já vira meu pai dar. Na verdade, não me lembro de já ter o visto sorrir antes.

- Só depende de você, meu filho – Ele disse. Entregando-me a navalha que costumava usar para se barbear. E que por alguma razão, sempre carregava em seus bolsos. - Elas podem morrer agora mesmo!

- Como assim, pai? - Eu o perguntei. Surpreso e confuso - O que devo fazer?

Ele me abraçou e sem dizer nada me carregou até o banheiro, pediu que eu tirasse minhas roupas e deitasse na banheira. Eu o fiz, mesmo quando as vozes diziam que eu não deveria.

Meu pai ligou a banheira, pediu que eu fechasse os olhos e relaxasse.

- Tudo acabará logo - Ele estava nervoso, mas forçava-se a parecer entusiasmado.

Eu obedeci. Alguns segundos depois eu senti que ele estava mexendo em meu pulso esquerdo. O que estava acontecendo? As vozes estavam começando a se desesperar. Era difícil relaxar, meu pulso estava ardendo muito, como se estivesse machucado. Comecei a sentir o mesmo no pulso direito. As vozes berravam.

- Shh... As vozes estão morrendo filho, tudo acabará logo, apenas relaxe, está tudo bem agora. - Disse o meu pai.

Sua voz parecia distante, ecoando como se viesse da minha própria mente, mas eu sabia que ele estava ali. Eu sentia a sua presença. Fui ficando fraco, parecia que tinha brincado um dia inteiro e estava quase desmaiando de cansaço. As vozes enfraqueceram.

Capítulo 1
Um Monstro Disfarçado de Criança


Quando eu acordei, eu já não ouvia mais as vozes, minha visão estava embaçada, mas foi melhorando conforme eu piscava. Eu estava sentado em uma cadeira de madeira, de frente pra banheira. A banheira estava transbordando, a água estava vermelha e meu pai estava dentro dela. Seus pulsos estavam machucados.

Mil coisas passaram pela minha cabeça ao me deparar com aquela cena, senti uma pontada em meu peito. O sentimento era indescritível, meu pai estava morto. Eu fiquei o encarando por uns trinta segundos, me perguntando como aquilo teria acontecido. Será que alguém havia invadido a casa? Ou pior...

- Eu o matei? – Pensei. - Essa possibilidade fez com que uma onda de desespero caísse sob mim.

Corri para o meu quarto, joguei-me na cama, enfiei o rosto o mais forte que pude no travesseiro e desatei a chorar. Não me lembro de nenhum outro momento da vida em que chorei tanto.

- Ei, garoto - Ouvi alguém debochar. - Pare de chorar, está me deprimindo.

A voz parecia vir do fundo do quarto, pensei. Talvez ele não estivesse morto de verdade. Virei-me quase que instantaneamente, sentei-me na cama e passei meus olhos por todos os cantos do quarto procurando por ele. Não havia ninguém lá. O único som que eu conseguira ouvir agora era o da casa sendo inundada. Não tive coragem de desligar a torneira da banheira (na verdade isso nem mesmo passou pela minha cabeça) então ela continuara a transbordar.

Lentamente deitei-me novamente. Peguei meu travesseiro, estava encharcado de lágrimas. Mas o pus assim mesmo por cima de minha cabeça na tentativa de abafar o máximo possível o som que vinha do banheiro. Eu estava quieto agora, a tensão que a voz me causou fez com que eu não conseguisse mais chorar.

- Você matou seu pai, garoto maluco - Ouvi novamente a voz no fundo do quarto dizer. Era uma voz rouca e engraçada. Parecia um personagem bêbado qualquer de um desenho animado falando comigo. Confesso que se tudo isso acontecesse em circunstancias diferentes, essa voz poderia me render umas boas gargalhadas, mas não agora. Agora ela só conseguia me causar arrepios.

- Que tipo de filho mata o próprio pai? – Começou a dizer. - Você é um monstro disfarçado de criança! -

A voz parecia se aproximar de mim.

Fui me encolhendo na cama, tapando forte os meus ouvidos com o travesseiro em uma tentativa falha de não ouvi-lo.

- Você vai ser preso, garoto! - A voz começou a berrar. - Vai passar o resto da vida trancado em uma gaiola com pessoas tão ruins quanto você!

- Cala a boca, cala boca, cala boca! - Eu tive um surto e de repente meus pensamentos saíram pela minha boca. Comecei a estapear o vento desesperadamente com a intenção de acertar aquele que berrava em meus ouvidos. - Cala a boca, cala boca, cala a boca!

Mas não havia ninguém ali.

Parecia que eu havia recebido uma injeção de adrenalina. Corri para o banheiro e desliguei a torneira da banheira. Meu corpo queimava. Desci aos saltos a escada que levava para a sala de estar e fui até o sofá para pegar a mochila que eu usava para carregar meu material escolar. Apressadamente joguei tudo o que tinha dentro no chão e corri até a cozinha. Abri as portas da despensa e peguei tudo que fosse prontamente comestível.

Abri também a geladeira, peguei garrafinhas de água, sucos de caixinha e coloquei tudo dentro da mochila. Honestamente, eu não sabia por que estava fazendo aquilo, não parecia que eu estava no controle do meu corpo, eu simplesmente fiz.

Fui até a porta da frente, ainda estava de noite. Parecia estar muito tarde já que a rua estava quieta e vazia. Não havia se quer uma luz acesa em nenhuma das casas da vizinhança. Todos pareciam dormir.

Olhei para trás uma última vez. Tudo o que tinha para ver eram meus livros da escola no chão da sala escura e a escada que levava ao segundo andar iluminada pela luz que vinha por de baixo da porta do banheiro. Respirei fundo, fechei a porta principal e corri. Não tinha nenhum lugar em mente, nenhum plano arquitetado, só simplesmente corri.

Quando eu finalmente parei de correr o dia já havia amanhecido e eu sabia exatamente onde eu estava. Todos estavam me olhando estranho, pareciam estar esperando que eu fosse me aproximar ou dizer alguma coisa, mas eu só fiquei lá, parado, ofegante, me perguntando como eu havia chego a minha escola e nem tivera me dado conta. Elisa, minha professora, viera até a mim e me perguntara o que havia acontecido, mas tudo o que consegui fazer foi abraça-la o mais forte que pude.

Elisa tinha olhos castanhos muito claros, pele clara e cabelos negros e lisos que batiam em seus ombros. Naquela manhã ela usava um vestido azul claro com bolinhas brancas

- Eu matei o meu pai... Quer dizer... Eu acho que o matei, eu não sei... Estou tão confuso! - Eu disse com muito esforço aos soluços, lutando contra o choro. - Eu o matei, foi sem querer, eu não queria que ele morresse.

Ela saiu do meu abraço me empurrando para trás, fazendo com que eu tropeçasse e caísse sentado no chão. Olhei para ela assustado. Ela estava me encarando, parecia estar com muita raiva de mim.

De repente eu senti que alguma coisa estava diferente no clima. Eu olhei ao meu redor, o céu estava vermelho. Parecia algum tipo de anoitecer sangrento. Quando eu voltei os meus olhos para Elisa, ela e todas as crianças que estavam no pátio estavam me encarando. Seus olhos estavam negros e cheios de ódio. Aquilo me apavorou, eu tentei me levantar e correr, mas meu corpo estava agarrado ao chão.

Eles não faziam nada além de me encarar. Nenhum movimento, nenhum barulho. Esse momento deve ter durado uns quinze segundos antes de tudo ficar em silêncio total. Eu não ouvia mais nada, nem se quer o som da minha própria mente. Parecia que de repente o mundo estava mudo e tudo o que existia nele não era mais capaz de emitir som algum. Tudo o que restara era um zumbido até que eles começaram a escancarar suas bocas simultaneamente.

Tudo estava em câmera lenta. Só havia escuridão dentro deles. Sem dentes, sem língua, apenas um buraco negro. Eles não pareciam humanos... Não eram humanos. O som que saiu daquele buraco negro era como um grito de guerra agoniante que a princípio parecia uma turbina de avião estraçalhando uma horda de mortos vivos.

Aquele som perturbador despertou a minha audição. Foi ficando cada vez mais alto e mais alto até que todos eles começaram a correr em minha direção. Eu finalmente podia me mover, mas eu não consegui correr, tudo o que fui capaz de fazer foi fechar meus olhos o mais forte que pude.

Quando finalmente abri os olhos, eu estava deitado em uma cama. Elisa e os outros haviam sumido e aquele lugar certamente não era o pátio da escola. Tudo estava embaçado, havia umas pessoas ali, mas eu não conseguira identificar seus rostos embaçados.

Quando minha visão estabilizou vi claramente quem eram aquelas pessoas e onde eu estava. Era um hospital e meu tio Lincoln e a tia Cassie estavam lá comigo. Eles pareceram bem felizes quando perceberam que eu estava acordado.

- Ele acordou! – Disse tia Cassie histericamente alegre. - Meu bebezinho é um guerreiro, nem acredito que você finalmente acordou!

Tia Cassie era uma senhora simpática, devia ter seus quarenta anos. Cabelos longos e prateados, olhos azuis bem fortes. Ela tinha sardas meigas no rosto e usava uma camisa branca, uma bermuda jeans que iam até os joelhos e um tênis de corrida violeta com detalhes brancos.

Ao lado dela estava o tio Lincoln. Ele era grande, muito grande. Devia medir dois metros de altura. Tinha cabelos negros cujas laterais eram grisalhas, pele morena e olhos quase negros. Os outros garotos da minha idade certamente morreriam de medo da assustadora expressão “ex-soldado de guerra” do tio Lincoln, mas não eu.

Eu o acho incrivelmente descolado. Ele tinha um bigode que em qualquer outra pessoa ficaria bizarro, mas seu rosto era moldado de forma que fazia com que aquele se tornasse o bigode mais estiloso de todos os bigodes do universo. Ele usava uma jaqueta jeans marrom. Uma blusa cinza dos Beatles por baixo da jaqueta, uma calça jeans azul claro e uma bota de couro marrom bem escura.

- Como é que vai garotão? - Disse Tio Lincoln. Seus olhos cintilavam - Como está se sentindo?

- Um pouco fraco e com muita fome - Respondi sonolento. - O que aconteceu comigo, tio Lincoln?

Eles não me responderam imediatamente. Ficaram tensos, trocando olhares nervosos, pensando em como me explicariam a tragédia que me fizera parar naquele hospital. Um minuto se passou. O tio

Lincoln respirou fundo e umedeceu os lábios.

- Seu pai tentou matar você, garoto. - Ele disse, de forma fria e mais direta possível.

- Lincoln! - Tia Cassie deu um soco em seu ombro direito e respirou como se fosse dizer algo, mas desistiu e por fim, só abaixou a cabeça.

- E onde está o meu pai agora? - Perguntei inocentemente como quem que não fazia ideia do quanto tudo àquilo que havia acontecido era trágico. - Ele está preso?

- Não, filho. – Tio Lincoln olhou triste para tia Cassie e mais uma vez respirou fundo e umedeceu os lábios. - Ele se matou depois de ter machucado você, parece ter se arrependido do que fez.

Tia Cassie respirava bem fundo, fechava forte os seus olhos, levava as mãos até a boca e balançava lentamente a cabeça de um lado para o outro a cada palavra sincera e direta do tio Lincoln.

- Entendo... - Respondi pensativo, mas não estava surpreso, nem mesmo chocado. Aquilo já não me parecia uma novidade, não depois daquele último pesadelo. Ele foi tão real que eu já havia aceitado que de alguma forma meu pai estava morto.

E para ser honesto, saber que eu não o tinha matado me fez sentir muito melhor. Mas por que ele havia tentado me matar? Eu não me lembro de ter feito algo que pudesse fazer com que ele me odiasse tanto. Será que as vozes diziam para ele as mesmas coisas que diziam para mim?

- Você sairá daqui hoje mesmo! - Disse tia Cassie enquanto limpava os olhos com um lenço umedecido que havia retirado de sua bolsa. Recompondo-se e transparecendo certo entusiasmo, continuou. - Já preparamos tudo para você ir morar com a gente. Você vai amar seu quarto!

- Eu vou morar com vocês agora? - perguntei, quase que com um sorriso no rosto. Aquilo sim havia me surpreendido e de alguma forma era até animador. A ideia de uma nova vida, uma nova escola, novas pessoas, realmente me excitava.

Não que eu não gostasse da minha vida com o meu pai ou da minha antiga escola. Eu já havia me acostumado á rotina, então vivia um dia de cada vez, sem me lamentar ou reclamar, era indiferente. Eu nunca desejei que as coisas mudassem, mas já que a vida iria tomar um novo rumo, o melhor que eu poderia fazer era esperar algo bom disso, afinal, como toda criança; eu adorava coisas novas.

- Sim, querido - tia Cassie respondeu com os olhos brilhando.

- E você não precisa se preocupar com nada. - Disse o tio Lincoln, parecia animado. - Já levamos todas as suas coisas que estavam na casa do seu pai para a nossa casa. Quando voltarmos nós podemos assistir televisão e jogar vídeo game o dia inteiro! O que me diz?

- Sim, isso seria incrível - Respondi. Eu estava cada vez mais ansioso para sair daquele hospital e ir para o meu novo lar.

- Ah, quase que eu me esqueço! – Disse tia Cassie sentindo-se uma boba procurando algo em sua bolsa – Alguém ai quer sanduíche de atum?

- Com certeza amor! – Disse tio Lincoln acariciando a barriga como quem está com muita fome. – O sanduíche de atum da sua tia é o melhor sanduíche de atum do mundo! Você tem que provar garoto! - Disse ele para mim enquanto mastigava seu sanduíche.

- Demorou! – Eu disse. Não fazia ideia do que era atum, mas eu sabia o que era um sanduíche e estava morto de fome.

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Esses foram os dois primeiros capítulos de um livro que está sendo escrito pelos autores Matheus Ramos e Rômulo Fernandes, intitulado "Monstros em Meus Ombros". Ele entrou em contato conosco para que pudêssemos trazer a história pro blog para que vocês possam nos dizer o que acharam até então. Aguardem os próximos capítulos em breve!

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O desejo de Amy

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Quando Amy tinha 4 anos, eu ensinei a ela o jogo dos cílios. Você sabe qual. Aquele em que você encontra um cílio, fecha os olhos, faz um pedido, respira bem fundo e sopra ele ao vento. "Se você tiver sorte," eu disse a ela, "seu desejo se tornará realidade." Amy considerou por um momento e então disse que era um jogo estúpido. Eu ri e pedi a ela que não dissesse mais a palavra estúpido. Eu lembro de ser grato por ela não pensar que Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa eram estúpidos. Isso teria sido um problema.

Próximo ao aniversário de 7 anos de Amy ela ganhou um presente especial: um irmãozinho chamado Michael. Amy adorou Michael desde o instante que o viu. Ela sempre pedia para segurar ele, o que nós permitimos assim que tivemos a certeza de que ela seria gentil. Ela foi. Michael gostava de sua irmã, e se Dawn ou eu não conseguíamos fazer com que ele parasse de chorar, nós o colocávamos nos braços de Amy e ele instantaneamente ficava calmo. Não é necessário dizer que nós ficamos gratos.

Quando Michael tinha 1 ano, ele desenvolveu uma febre alta. Nós corremos com ele para a sala de emergência onde eles conseguiram baixar sua temperatura, mas havia alguma coisa errada. Testes revelaram o pior cenário possível: leucemia. Ele tinha de começar o tratamento o quanto antes.

Nós não contamos à Amy a história completa a respeito da doença de seu irmão, mas ela era capaz de perceber que era sério. Eu fiz o meu melhor para colocar no rosto uma expressão corajosa, assim Amy não ficaria tão triste. Funcionou por um tempinho. Mas alguns meses depois as emoções dela a apanharam. Ela caiu numa tristeza que eu nunca tinha visto em sua jovem vida. Uma noite, no jantar, Amy começou a chorar. "Michael acha que eu não amo mais ele." Ela me informou, enquanto lágrimas rolavam em seu rosto. Não era uma pergunta, ela estava certa disso.

Eu me senti um péssimo pai. Preso no inferno do dia-a-dia de lidar com a doença do meu filho, eu negligenciei a ajuda que Amy precisava para lidar com os sentimentos que ela vinha sendo forçada a suportar. Aos 39 anos, eu estava tendo sérios problemas para lidar com tudo aquilo, eu não podia imaginar com era isso para alguém tão novo quanto Amy.

Depois que ela foi para cama, eu liguei para Dawn no hospital e nós pensamos em algo que pudesse ajudar. Nós decidimos que ela deveria visitar o irmão, para ver que os médicos e enfermeiras estavam fazendo seu melhor para ajudá-lo a melhorar. Nós estávamos relutantes em levar ela ao hospital por causa da aparência de Michael, ele não parecia muito bem. Nós não sabíamos como ela iria lidar com a visão de seu irmão entubado e ligado a monitores, mas nós também sabíamos que muito tempo havia se passado. Era importante para Amy ver seu irmão.

Quando chegamos, ela só foi autorizada a olhar para Michael através do vidro. Para nossa surpresa, ela ficou animada. Ela acenou e falou com ele, mesmo sabendo que ele não poda ouvi-la, mas ela queria fazer o esforço. Eu a peguei sorrindo pela primeira vez em muito tempo.

Eu notei dois cílios na bochecha de Amy. Esperando adicionar força ao seu renovado senso de positividade e não me importando se ela achava estúpido, eu recolhi os cílios de sua bochecha e coloquei no meu polegar. Então pedi que ela fizesse um desejo, meio que esperando que ela rolasse os olhos e voltasse novamente sua atenção a Michael. Para minha surpresa, ela sorriu novamente, fechou os olhos, pensou por um instante e então soprou o mais forte que podia. Então ela olhou para o irmão e sorriu; Eu não precisava perguntar qual tinha sido o desejo.

Algumas semanas se passaram e o estado de Michael melhorou. Foi completamente inesperado e inexplicável, ele simplesmente começou a ficar melhor. Mas o alívio trazido pela melhora foi curto. Seu estado se deteriorou logo depois. Era o que Daawn e eu sabíamos que ia acontecer, mas mesmo assim não estávamos preparados para aquilo. Nosso lindo filho faleceu no dia 3 de Maio de 2015.

Eu e Dawn estávamos devastados. Obviamente. Mas Amy estava inconsolável. Quando ela descobriu sobre a breve melhora do irmão, ela colocou na cabeça que ele continuaria melhorando. Ela se recusava a acreditar que tudo tinha mudado para pior. Então, quando nós explicamos a ela que ele havia falecido, tudo que ela fez foi gritar. Ela gritou e chorou por dias.

Depois de um mês, quando a realidade da vida sem Michael se fez presente e nós três fomos gradualmente retornando as nossas rotinas normais, eu fiz de meu objetivo ser mais presente na vida de Amy. Eu não era ausente ou sequer distante, mas eu queria ser uma força de positividade na vida da minha filha. Depois de tal trauma, era o que ela precisava. Eu me assegurei que ela estava indo ao psicólogo da escola e eu agendei uma sessão de terapia familiar para a semana seguinte. Eu estava determinado a evitar que a tragédia familiar deixasse marcas mais profundas que o necessário em Amy.

Na noite anterior a nossa sessão de terapia, muito depois que eu tinha caído no sono, eu acordei com Amy em pé ao lado da cama. Eu podia ouvir ela chorando. Eu perguntei se ela queria dormir conosco na cama pelo restante da noite, mas ela não respondeu. No meio de seus soluços, ela estava fazendo um som de sopro. Eu podia sentir a respiração dela no meu peito e rosto. O choro continuava.

"Você esta bem querida?" Eu perguntei, procurando desajeitadamente pelo interruptor da velha lâmpada a lado da cama. O choro e os barulhos de sopro se intensificaram. Finalmente encontrei o interruptor e liguei a lâmpada. Eu engasguei.

O rosto de Amy estava encharcado de sangue. Ela me encarou com os olhos arregalados com uma combinação de terror e ódio. Ela estava com as mãos na boca e estava soprando. Assim que meus olhos se ajustaram a claridade, eu gritei para acordar Dawn e ela começou a gritar. Nas mãos de Amy havia dois pedaços de pele com pelos eriçados neles. Ela continuou me encarando em meio aos soluços. Não, não encarando. Pânico floresceu no meu peito e eu tive dificuldade para respirar. Carne esfarrapada pingava sangue nos olhos de Amy enquanto ela soprava, em pânico, ar quente nas pálpebras amputadas na palma de sua mão. Os cílios balançavam no vento úmido.

"Eu continuei desejando que o Michael voltasse." Ela disse em meio aos soluços. "Mas eu não sou boa niso."

"Você pode me ajudar? Por favor?"

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A casa que a Morte esqueceu

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Melinda odiava dirigir à noite. Ela fez o seu melhor pra evitar isso. Viagens curtas até a loja se percebesse que acabaram os absorventes ou não tivesse nada pro jantar depois de chegar em casa -- Esse tipo de coisa acontecia as vezes. Mas ela fez o seu melhor pra para não sair depois de escurecer, ao menos que alguém estivesse vindo busca-la.

Então, naturalmente, ela encontrou-se na viagem mais longa de sua vida esta noite, sem lua, poucas estrelas, com nuvens rodopiando no céu acima, e acres de florestas nos dois lados.

Como todas as coisas desagradáveis na sua vida, essa era culpa do seu pai. Ela não o via ou falava com o idiota há 15 anos, mas essa noite, logo depois de dormir...não, isso tá errado. Seria ontem por esta hora. De repente, seu celular tocou, e a voz dele estava na outra linha.

“Eu preciso de você, Mellie. Por favor, venha agora.”

Ele disse apenas isso, e então a linha morreu.

O velho imbecil estava provavelmente bêbado, mas ele nunca ligou pra ela antes -- Não desde que ela era criança e ele ainda tentava convencer a mãe dela a aceita-lo de volta. Parecia que ela tinha sonhado -- Acordando pra ouvir a voz dele de novo depois de todos esses anos. Parece que ele estava chorando. Sua voz soou exatamente como da última vez que ela a ouviu.

Como num sonho, ela se pôs de pé, se vestiu e entrou no carro. Ela estava bem longe da cidade e na metade do caminho pra casa dele quando percebeu que não tinha como saber se ele pelo menos ainda morava lá. Ela recebeu notícias de onde ele estava pela sua mãe de tempos em tempos através dos anos. A última vez que ouviu sua mãe falar dele foi a sete anos atrás. Teria ele ficado em apenas um lugar por tanto tempo?

Não pelo que ela recordava. Ela tinha sete anos quando sua mãe finalmente se cansou e o botou pra fora. Antes disso, era uma mudança por mês. A casa que eles tinham vivido era a estadia mais longa em um lugar só, dezesseis meses completos. Se transformou em dois anos depois disso, e então a próxima casa tinha sido a que ela deixou quando se mudou por conta própria. Em todo esse
tempo, ela teve notícias dele raramente, no máximo, e finalmente decidiu que era melhor simplesmente esquecer ele.

Até esta noite.

Ela havia descoberto, depois de duas horas de viagem, que estava certa em se perguntar se ele ainda morava no mesmo lugar. Seu último endereço conhecido era um apartamento incompleto em uma área de baixa renda da cidade em que ela cresceu. Seria ele o número 24 ou o número 42? Talvez fosse o 14. Definitivamente tinha um quatro. Não importa, seu nome não estava em nenhuma das campainhas.

Desgraçado! O seu pai bêbado ligou pra ela de noite, quase exigindo que ela fosse até ele por razões que ele não considerava nem importantes o suficiente pra dize-la pelo telefone, e então simplesmente esperou que ela soubesse onde ele vive agora.

Em um turbilhão de raiva, ela se virou e marchou de volta pro cara, batendo a porta e começando a ir na direção em que veio. Ela estava tão puta que nem mesmo olhou pra onde estava indo e perdeu o caminho de volta.

A próxima coisa que ela soube, foi que estava nesse trecho solitário de estrada. Pouquíssimos carros, mas ela se confortou com o fato que passaria por um a cada meia hora mais ou menos. Seu relógio do painel mostrava 2:27 da madrugada. Ela tinha dirigido por mais de cinco horas desde que deixou sua casa. De noite.

A cada cinco minutos ou quase isso, ela checava o celular. Até perceber que estava perdida, ela tinha checado o celular e não encontrou absolutamente nenhum bar. Ela até mesmo parou em um posto de gasolina (fechado, é claro), só pra ter certeza que haveria algum serviço por aqui em algum lugar, mas nada.

“Olhe para a sua vida, Mellie”, ela pensou. “Você já passou dos trinta, odeia seu trabalho, você e sua mãe não se dão bem, você não tem visto ou falado com seu pai em pouco menos da metade da sua vida, você não tem tempo pros seus amigos ou pra um relacionamento graças ao supracitado trabalho que você odeia, e agora aqui está você, presa em uma estrada em que nunca esteve antes, de noite, e sem nem poder ligar pro serviço de assistência *¹, muito menos checar o Google Maps. Que moça esperta você é.”

Ela considerou brevemente parar e acenar pro próximo carro que passasse. Rapidamente percebeu a futilidade desse plano. Qualquer carro nessa estrada não teria nenhum serviço também. Então não havia nada que pudesse fazer. Ela teria que dirigir até ver uma casa. Se sentiria mal por acordar alguém, mas não havia escolha, ela precisava encontrar seu caminho de volta pra estrada principal.

Mas por enquanto, tudo que ela conseguia ver dos dois lados eram árvores. Quilômetro após quilômetro de árvores. Nenhuma luz brilhando através dos galhos. Nenhum sinal que alguém já tenha estado aqui antes, exceto que havia uma estrada e, obviamente, pessoas estavam dirigindo nela.

Nem mesmo havia alguma placa sem ser as marcações de quilometragem. Teria ela realmente encontrado o meio do nada? Ela estava justamente no meio desse pensamento quando seus faróis iluminaram algo na estrada, um sinal quadrado de madeira - obviamente feito por alguém que não seja o governo. Isso não era um sinal de posto/restaurante/pousada, ou uma placa de quilometragem, ou uma marcação de distância. Parecia o tipo de placa advertindo que uma empresa privada estava por perto. Ela desacelerou para ler

Estalagem da Vovó Royce 
Venha passar a noite na vovó! 
Ela tomará conta de você! 
Pensão Completa! Preços baixos! 
Próxima Saída!  

Seu coração acelerou. Ela certamente não estava interessada em passar uma noite na vovó Royce, mas todo negócio tem um telefone. Pelo menos teria um mapa ou saberia o caminho de volta pra estrada. Decidiu parar por lá.

Ela quase perdeu o caminho. A Estalagem da Vovó Royce estava oculta atrás de uma longa e suja estrada de terra, isolada em meio as árvores. Ela tinha quase passado da pequena “estrada” suja antes de perceber que estava lá. Ela derrapou em uma parada e entrou.

A casinha estava bem à frente. Eram dois andares e aparentava ter de oito a dez quartos. Grande para uma casa, mas pequena pra qualquer coisa anunciando “pensão completa”. Ela chegou mais perto e procurou por uma placa de vaga.

Nada. Não é que a placa não estava iluminada, não havia placa alguma. A luz da varanda estava acesa e a frente da construção estava iluminada por ela e por seus próprios refletores. Nenhuma placa de qualquer tipo.

Ela quase se perguntou se não estava no lugar errado, mas estava certa que não viu nenhuma outra saída entre a casa e a placa de anúncio.

Ela fez uma pausa na entrada da garagem e olhou para o celular de novo. Ainda sem serviço. Fez uma busca rápida por qualquer sinal sem fio disponível. Pra sua completa falta de surpresa, não havia nenhum. Nem mesmo um protegido.

“Não há ninguém aqui senão eu”, ela pensou.

Neste ponto, ela não estaria surpresa se encontrasse a casa vazia também. Mas a luz estava acesa e isso deveria ser uma estalagem. Alguém estaria tripulando o balcão de atendimento.

Ela saiu do carro e se dirigiu para a varanda da frente. Enquanto ela se virava pra se certificar que as luzes do carro piscaram quando apertou o botão de trancar das chaves, ela pensou ter visto um lampejo de movimento nas árvores. Algo de forma humana. Ela parou e olhou de novo. Nada.

Decidiu que foi só imaginação.

Na porta da frente, ela hesitou. Se fosse realmente uma estalagem, ela deveria estar livre para entrar, mas se fosse a casa errada? Se ela tentasse abrir a porta e simplesmente entrasse, poderia se ver presa aqui, no cu do judas. *’

Cautelosamente, ela tentou girar a maçaneta. Girou. Pressionou gentilmente a porta. Se abriu. Alívio fluiu através dela quando viu que estava em uma pequena, mas bondosamente decorada sala de estar, que obviamente tinha sido reaproveitada como área de admissão. Um balcão pitoresco com um livro de visitas (Honest-to-god) tinha sido colocado no canto direito e algumas cadeiras tinham sido postas junto com revistas em uma mesa. Ela leu os títulos brevemente - Mademoiselle, Livro Azul, A Nova Vida No Campo, Artes e Arquitetura -- antes de direcionar sua atenção ao pequeno balcão.

Não havia computador. Isso era um toque fofo. Era como se a casa fosse de uma era passada. Talvez a velha Vovó Royce realmente não gostasse de tecnologia moderna. Havia, contudo, um pequeno sino, assim como teria sido em 1929. Não era nem o tipo prateado que você bate para tocar, era uma sineta pequena de porcelana. Esse lugar estava começando a parecer muito fofo para ela.

Por favor, que ela tenha um telefone, e, por favor, que use numeração discada, não os sistemas centrais da década de 50. *²

Ela pegou o sino e deu uma balançada.

Por um tempo, nada aconteceu. Então ela viu uma luz vindo do cômodo dos fundos e a sombra de uma mulher idosa brotou na parede. A sombra se aproximou dela e, em alguns segundos, ela viu sua dona: Vovó Royce, que talvez parecesse como toda avó em todo livro de história.

“Bom, que surpresa”, ela disse. “Minhas terras. Bom dia, minha cara. Perdoe meu atraso, mas faz um bom tempo desde que tive visitas a essa hora. Posso saber seu nome, querida?”

Vovó Royce era pequena, seu cabelo cinza preso em um coque elegante atrás da cabeça, um vestido que parecia ter pertencido a um cidadão idoso nos anos vinte, e um suéter rosa desbotado. Melinda pensou que ela parecia exatamente como ela teria desejado que sua avó fosse, mas a mão de sua mãe morreu quando ela era menor, e ela nunca conheceu a mãe do seu pai. Quase dói negar o serviço desta pequena e doce mulher, mas, no entanto, ela tinha que chegar em casa.

“Na verdade, me desculpe”, ela começou. “Mas o fato é que estou perdida. Eu nem tenho certeza da direção em que estou...”

“Oh, pobrezinha, “Disse vovó Royce. “Sente-se e deixe-me te preparar um chá, ou alguma coisa. Você deve estar com frio.”

“Sério, muito obrigada, mas eu estou bem, “Melinda disse gentilmente. “Eu só preciso usar o telefone, se puder, ou se você tiver um mapa, mesmo isso seria adorável. Eu realmente vivo só a algumas horas daqui...”

Ela parou, sem saber se estava mesmo certa sobre isso. Ela facilmente poderia ter dirigido mais essas cinco horas inteiramente na direção errada.

“Oh, querida, “disse tristemente a mulherzinha. “Me desculpe, meu doce, mas as linhas telefônicas estão desligadas. E quanto ao mapa, bom...Eu costumava ter um, e se eu procurar, ainda posso encontrar, mas acho que provavelmente ele está muito desatualizado agora. A estrada mudou desde então, eu sei bem.”

O coração de Melinda apertou. Como sua sorte poderia piorar? Sem telefone, celular ou linha, e sem mapa. O que ela poderia fazer? Ela tinha que voltar pra casa. Esperava-se que ela trabalhasse as 8 da manhã do dia seguinte. E por que as linhas telefônicas estavam desligadas? O clima estava um pouco frio, mas límpido. Estariam consertando alguma linha ali por perto?

Ela disse a vovó Royce o nome de sua cidade, mas a vovó só disse “Acredite ou não, eu nunca ouvi falar desta cidade. Como você disse que era o nome?”

Ela disse de novo.

“Não, não me soa familiar. Me desculpe, mas eu não poderia dizer em que direção está. Por que você não passa a noite aqui, docinho? Eu te darei um desconto pelo seu problema.”

“Obrigada. Isso é muito gentil da sua parte, mas eu tenho que trabalhar amanhã e preciso voltar para casa. Eu não tenho nem certeza por que sai esta noite. A única razão que eu tinha não parece importar mais.”

“Querida, eu não recomendaria tentar dirigir de volta tão longe esta noite,” Vovó Royce disse. “Por que são quase três horas da manhã, e você não dormiu nem um pouco. Talvez as linhas estejam funcionando de manhã, e você pode ligar para seu trabalho avisando que chegará atrasada.”

“Isso não vai funcionar também, “Ela respondeu. “Eu sou a abridora. Ninguém estará lá. Não, me perdoe, eu realmente preciso ir. Vou me dirigir na outra direção até encontrar a estrada em que eu estava.”

Com isso, a expressão da vovó Royce, já com um tipo de preocupação, pareceu mudar de alguma forma - para o medo. Ela parou, olhando para Melinda como se quisesse dizer alguma coisa para mantê-la lá dentro. Finalmente ela disse, relutantemente, “Tudo bem, querida, se você tem certeza. Apenas seja cautelosa agora. Não fale com ninguém até que esteja de volta na estrada.”

Este último aviso pareceu meio bobo. Depois de tudo, o que era Melinda, uma garotinha? Ela agradeceu a vovó Royce por sua gentileza e seguiu de volta pro carro. Quase no meio do caminho até o carro ela lembrou pensar ter visto algo se movendo nas árvores. Seus olhos examinaram ambos os lados da pequena clareira isolada em que estava, procurando por qualquer coisa que parecesse estar se movendo por contra própria, não sendo empurrada pelo vento. Ela não viu nada. Satisfeita, se dirigiu ao carro. Todos os quatros pneus estavam furados.

Droga!

Ela se abaixou e viu longas marcas de corte em cada pneu. Alguém nesse pedacinho de mato cortou seus pneus no tempo em que ela levou pra descobrir que não tinha nenhuma forma de entrar em contato com ninguém esta noite.

“Crianças de uma fazenda local,” tem que ser, ela pensou sombriamente. “Nada pra fazer, então você poderia muito bem sair e cortar pneus.”

Ela parou e caiu na real. Não iria a lugar algum esta noite. Ela não tinha   nenhuma escolha agora, teria que passar a noite aqui até de manhã, quando, esperançosamente, as linhas telefônicas estariam ligadas e ela poderia ligar para alguém do emprego ir em seu lugar, e então para o serviço de assistência tratar dos seus pneus. Suspirou e andou de volta até a casa. Ela podia ouvir vovó Royce enquanto andava de volta para seu quarto. Ela já tinha desligado as luzes, resignado ao seu destino.

Melinda tocou a campainha de novo.

“É você, senhorita?” Ela ouviu a vovó chamando.

“Sim, sou eu” ela respondeu. “Me desculpe pelo incômodo. Meu nome é Melinda Orton. Perdão por nunca ter mencionado antes. Eu acho que vou querer um quarto pra essa noite, se a oferta ainda está de pé”.

“Oh, é claro que está, querida”, disse vovó Royce, reentrando no quarto e acendendo as luzes. “Melinda. Oh, esse é um nome bem bonito, querida. Vamos te situar. Você põe seu nome e a hora que chegou naquele livro ali e eu te darei uma chave. Todos os quartos de hóspedes estão no segundo andar, e só há alguns restando.”

“Há outras pessoas aqui?”

Isso era surpreendente. Nem mesmo um carro esteve no gramado da frente quando ela entrou.
“Oh, sim, Senhorita Melinda.” Vovó estava mexendo no quarto adjacente. “Senhor Norris, o jovem Calvin, há alguns de nós aqui.” Ela voltou com uma chave na mão. “Só por curiosidade, o que te fez mudar de ideia?”

Ela pareceu se animar enquanto fez a pergunta, como se estivesse aliviada que Melinda ficaria, afinal.
“Oh, provavelmente são apenas crianças da redondeza pregando uma peça,” Ela disse. “Mas eu encontrei meus pneus rasgados.”

Vovó parou de repente, sua face com um misto de interesse e preocupação. Então ela retomou, como se nada estivesse errado.

“Nada precisa ser feito, eu presumo”, Ela disse, com um desvio de tristeza.

“Bom, não até de manhã, de qualquer maneira,” disse Melinda. “Então as linhas estarão ligadas, esperançosamente.”

“Oh,” disse vovó Royce, distraidamente. “Sim, esperemos que sim.”

Ela levou Melinda pela escada escura até um corredor vazio, quieto. Ou talvez não tão quieto. De uma das extremidades do corredor, veio o som abafado de alguém chorando. Seja lá o que fosse, estava chorando de forma suave - não com raiva, ou petulância, ou medo, mas uma tristeza profunda.

Soava como se chorar fosse algo que essa pessoa estava acostumada, mas ainda não era capaz de parar.
“Quem é esse?” ela perguntou, apontando na direção em que o choro estava vindo.

“Oh, não dê atenção a isso, querida”, disse a vovó. “É apenas o Sr. Norris. Ele tem estado assim há algum tempo. Um homem idoso, você compreende. Não está tudo lá”. Ela deu uma batidinha de leve em sua têmpora.

“Eu entendo,” Melinda respondeu, mas perguntou-se como um homem idoso, sem muita coordenação poderia acabar em uma estalagem. “Ele está aqui há muito tempo?”

“Um bom tempo, eu diria”. Respondeu vovó. “Realmente não recordo quanto tempo, exatamente.”
Como é ele paga pelo quarto e a hospedagem?

“Eu acho que ele não dirige”, ela disse para a mulher idosa.

“Na verdade, não parece que qualquer um aqui tenha carro.”

A vovó começou assim, olhando quase com uma expressão envergonhada. “Oh, bom”, ela disse.

“Esse tipo de coisa é da conta dos hóspedes. Eu não pergunto sobre essas coisas.”

Ela girou a chave na fechadura do quarto de Melinda, e abriu a porta. Ligando a luz, ela mostrou à Melinda o pequeno quarto exótico. Melinda pensou que parecia como entrar no passado. Ela podia jurar que esse quarto teria parecido moderno no começo dos anos 50, no mínimo.

Pensando bem, poderia ser todo o resto desse lugar, ela pensou. Sem serviço de internet, sem computador, a sineta antiga. E essas revistas, elas pareciam novas, mas...

Esse pensamento foi interrompido quando a vovó pôs a chave na cabeceira e começou com as instruções.

“Agora, o banheiro está no final deste corredor. Você compartilhará com o andar inteiro, então por favor, tenha isso em mente se precisar ir. Há um esquema do chuveiro na porta também. Primeiro a chegar, primeiro a se servir. Só adicione seu nome na primeira linha disponível e essa é a ordem em que os banhos estão. Eu não me preocuparia se fosse você, todavia. Tenho certeza que será a primeira linha. Eu acordo pontualmente as 06:00 e faço o café da manhã, mas desça na hora em que estiver pronta e eu prepararei algum coisa pra você.”

“Oh, e uma última coisa, minha querida. Eu aconselharia fortemente a não sair da casa até o sol raiar. Nunca se sabe o que poderia acontecer lá fora, no escuro.”

“É claro”, ela respondeu. Eu nunca iria lá fora no escuro se não precisasse...

Ela parou com essa carreira de pensamentos bem no começo.

Depois de alguns minutos, estava sozinha. Sozinha, sem nada para vestir, e nada para tomar banho, escovar os dentes, ou pentear o cabelo de manhã. Ela sentou na cama e olhou pela janela, que dava pra frente. Seu carro permanecia onde ela o havia deixado, a única coisa em milhas de distância que parecia pertencer ao seu mundo.

E um caro e enorme peso até eu poder me comunicar com alguém, ela pensou amargamente.
Apesar do aconchego do quarto, ela se sentiu indisposta a levantar e apagar a luz. De alguma forma, o pensamento de ir dormir nesse quartinho retrógrado pareceu inconcebível. Então ao invés de dormir, continuou sentada, olhando fixamente pra fora da janela.  Uma figura em preto se destacou das sombras das árvores e fez seu caminho até o carro.

Que diabos? Ela saltou e correu até a janela.

A figura era alta, e parecia estar vestindo uma capa feita da noite. Ela viu como se seu braço estivesse estendido. Em sua mão estava um punhal longo e denteado. Ele arrastou o punhal através do lado do carro, deixando uma longa marca de corte na pintura e no metal.

“Ei!” ela gritou.

A figura continuou fincando a adaga. Ela estendeu a mão pra abrir a janela. Não se moveu. Procurou por uma fechadura, mas não conseguia ver nenhuma.

“Ei!” Ela gritou de novo.

Dessa vez a figura levantou a cabeça. Ela podia ver a cintilação de dois olhos embaixo do capuz. A figura levantou a adaga, lentamente, com determinação. Apontou diretamente para a face dela. Ela saltou da janela e correu até a porta. Um barulho do outro lado a deteve. Passos. Passos arrastados e trêmulos. E chorando. O som de uma pessoa para que a tristeza profunda e apetecível é uma forma de vida.

Sr.Norris!

Ela esperou. De alguma forma, ela simplesmente sentiu que deveria deixar o velho homem passar antes que abrisse a porta. Antes que ele chegasse bem longe, porém, ela ouviu outros passos - esses bem mais rápidos e leves - subindo a escada e parando perto da porta do seu quarto.

“Pare!” chiou vovó Royce. “Volte para o seu quarto agora! Você sabe bem. Ela não pode vê-lo ainda. Espero que ela não tenha que ver, de qualquer forma. Agora volte para lá. Você não tem nada a ser feito a esta hora.”

Mas o quê?

Como esta adorável senhora poderia falar com outro ser humano desta forma, muito menos com um idoso com uma mente obscura? Ela quase abriu a porta naquele momento, mas de alguma forma sua mão parou e esperou até que o homem, embaralhado e chorando, tivesse feito seu caminho de volta pelo corredor.  Ouviu a porta dele abrir. Ela abriu sua própria porta bem a tempo de ver seu pé, calçado em uma pantufa gasta, deslizar em seu quarto. A porta fechou suavemente atrás dele.
“Pobre homem”, ela pensou.

Mas agora ela estava determinada a descobrir o que estava acontecendo. O punk com fantasia de halloween lá fora destruindo seu carro, seguido pela vovó gritando com o idoso a fez começar a entender que nem tudo estava bem aqui. Ela desceu para a área de recepção, que estava completamente escura, exceto pela luz do luar e da varanda que entrava pela janela.

Havia, porém, uma luz acesa perto do quarto de trás, do qual vovó Royce tinha saído antes. Melinda parou para dar uma olhada do lado de fora da janela da frente. O maníaco com a adaga estava em nenhum lugar a ser visto no momento, mas estava determinada que foi ele quem ela tinha visto se movendo através das árvores.

Ele poderia ter me matado!

Ela andou a passos largos na direção da luz, vendo que era a luz da cozinha. Continuou, esperando encontrar vovó Royce ainda fazendo seja lá o que os estalajadeiros fazem durante as primeiras horas da madrugada.

Ao invés disso, ela encontrou a vovó sentada com um homem jovem, cerca de vinte anos. Ele tinha cabelo escuro e a barba do pescoço por fazer, estava usando uma camisa de veludo marrom escuro com uma calça cáqui, junto com um chapéu do tipo porkpie. Parecia pronto pra ir vender jornais em uma esquina nos anos 30. Ele esteava tomando chá discretamente enquanto a vovó o repreendia do outro lado da mesa.

“Agora isso foi uma coisa horrível de se dizer!” ela disse. “Quando eu tinha a sua idade, jovens homens moderavam suas maneiras!”

“Isso é ridículo, falando sobre a minha idade”, murmurou o jovem com um sorriso de escárnio. “E quantos anos você tem? Você pelo menos se lembra?”

“Calvin Davidson, você é um problema, jovem,” ela sibilou de volta. Nenhum dos dois tinha notado Melinda ainda. “Um dia desses você dirá algo que vai se arrepender.”

“Oh, vamos lá, vovó, o que eu poderia dizer que tornaria as coisas ficarem piores do que já são?”  Perguntou Calvin. “Quero dizer, olhe para o velho Mr.Norris lá em cima! Ambos somos ve…hm, olá, senhorita. Eu não sabia que tínhamos mais alguém aqui.” Ele tinha acabado de ver Melinda.
“Uh, olá”, ela disse.

Ela teve a sensação de que entrou em uma velha discussão que os dois tiveram muitas vezes, e que não dizia respeito a ela. Seu medo e raiva foram esquecidos no momento. Calvin estava conversando com a vovó como uma criança malhumorada, mas algo sobre o que eles estavam dizendo parecia…errado.

“Posso ajudar, Melinda?” perguntou vovó Royce. “Há algo de errado com seu quarto?”
Isso a trouxe de volta. “Não”, ela disse. “O quarto está bom. Mas nada mais está! Digo, por que diabos você tem uma estalagem aqui, onde parece que ninguém nunca para? Por que a maioria dos quartos está cheio, mesmo quando o meu carro é o único lá fora? Por que eu ouvi você falando com Mr.Norris como se ele fosse um cão? E por que você gostaria de ter certeza que eu não o vi?”
Ela não prosseguiu antes de Calvin interrompê-la.

“Céus, ela não está aqui nem por uma noite e consegue ver isso. Por que você deixou-a entrar, vovó? Por que você simplesmente não fecha a porta? Inferno, se eu pudesse derrubar aquela placa, não acha que eu teria feito até agora? Pombas!” *³

“Tá aí algo que você não ouve muitos jovens dizerem”, pensou Melinda. Ela decidiu ignorar Calvin no momento, pelo contrário.

“E além disso, há alguém lá fora! Ele é o maníaco que rasgou meus pneus e tem estado lá fora destruindo meu carro desde então! E você nem mesmo pode chamar a polícia! Vai me dizer que você nunca teve vândalos aqui antes?”

Houve uma longa pausa no quarto. Nem a vovó nem Calvin pareciam dispostos a rompe-la. Calvin coçou o pescoço. Pela primeira vez, Melinda notou um corte vermelho em sua garganta, meio escondido pelo colarinho. Parecia tanto uma cicatriz bem recente quanto uma ferida ligeiramente curada.

“Escute, senhorita, eu não sei o seu nome”, ele disse finalmente.

“Melinda”, ela disse a ele.

 “Melinda”, ele repetiu. “Melinda, eu acho que você deveria se sentar. Tenho que te dizer algo que você pode achar…preocupante.”

Melinda não gostou como ele disse isso. Ela também não gostou da forma que seu tom tinha mudado de uma criança mal-humorada para um adulto sério. Ele parecia vários anos mais novo que ela, mas estava falando como se fosse seu tio, ou seu chefe. Ele engoliu um gole de chá e suspirou.
Então ele olhou-a direto na face e disse: “A razão pela qual eu não tenho um carro lá fora é que quando eu cheguei aqui, ninguém da minha idade, ninguém no meu ramo de trabalho teria possuído um carro. Teria parecido como um sonho impossível.”

“O que...do que você está falando?” ela perguntou, hesitantemente.

“Eu trabalhava em uma fábrica têxtil”, ele disse. “A fábrica foi fechada no tempo em que cheguei aqui. A maioria dos negócios foram. Então eu me virei; um andarilho procurando qualquer emprego que pudesse achar. E eu parei aqui. Para sempre.”

“Negócios estavam sendo fechados...eu não entendo,” disse Melinda. “Nós estamos passando por tempos difíceis agora, mas as empresas estão, em sua maioria, abertas.”

“Não antes, elas não estavam,” disse Calvin, tristemente. “Eu cheguei aqui...em 1929.”

Melinda piscou. Algo tinha explodido atrás dos seus olhos.

“Esse lugar era novo antes,” disse vovó. “Meu marido e eu tínhamos acabado de abrir. E o jovem Sr.Calvin era um doce e jovem rapaz de dezesseis anos. Oferecime para contratar sua ajuda, apesar das objeções do meu marido. Bom, meu marido era um homem bem-intencionado, mas sabia como ser mão de vaca. Foi um ano depois que eu contratei Calvin que o Sr.Royce morreu. Calvin e eu temos estado aqui desde então. E a cada poucos anos, alguém se junta a nós.”

“Sim”, Calvin interrompeu. “Senhora Tillie foi a primeira, era uma mulher de má reputação que correu até aqui, grávida e com medo de que o homem que iria montar seu negócio em Nova Iorque fosse encontra-la e matá-la. Ela e aquele bebê...”

Ele cessou, agora parecendo a ponto de chorar.

“E então,” disse vovó, “Tinha o Sr. Standish. Ele era um ministro viajante.  Ele não viaja mais.”

“Sr. Norris chegou aqui em 1969, “disse Calvin. “Sua história é provavelmente a pior. Ele era um...bom, ele era um ladrão de bancos, veja. Carregava uma pistola. E ele não gostava de saber por quanto tempo nós tínhamos estado aqui.” Ele fez uma pausa, levantou-se e caminhou até a janela da cozinha. “Ele tentou sair por contra própria, entende. Não é o primeiro a tentar isso, esse foi eu, na verdade. Eu o avisei para não tentar, mas ele não quis ouvir. Mas quando chegou lá fora…e encontrou-se com ele…”

“Calvin!” Chiou vovó. “Nós não falamos sobre isso!”

“Ela tem que saber,” disse Calvin. “Não há sentido nela descobrir lentamente.”

“Ainda há uma chance para ela!” disse a vovó em um sussurro. “Tudo que ela tem que fazer é esperar até de manhã...”

“Ela não vai esperar até de manhã,” disse Calvin com algum remorso em sua voz. “Ninguém nunca espera até de manhã. O fato dela ter vindo aqui embaixo é a prova suficiente disso. Além disso, que bem ela realmente teria feito? Seu carro é inútil. Não temos telefones aqui. Não havia telefone quando este lugar cresceu e nunca haverá. Você sabe disso.”

“Okay, todo mundo, pare!” Melinda gritou. “Basta! Agora, vocês não podem me manter prisioneira aqui e eu não tenho intenção de ficar nem mais um pouco. Apenas aquele maníaco empunhando a faca lá fora está me impedindo de correr até a estrada nesse minuto! Agora, eu preciso saber o que realmente está acontecendo aqui e preciso saber disso já!”

“Nós estamos falando a você,” Calvin disse. “Vovó pode não querer que você saiba tudo, mas você precisa. Porque você não vai embora. Oh, não estamos tentando te manter prisioneira. Eu nem mesmo ligo se você correr por aquela porta bem agora. Mas você nunca vai deixar essa casa novamente mais tarde.

“O inferno que eu não vou!” gritou Melinda.

“Ouça, criança!” disse vovó, levantando do seu lugar na mesa. “Ouça, por favor! Nenhum de nós quer te machucar, minha querida, nem mesmo Sr. Norris. Há pouca coisa que ele pode fazer mais, e ele sabe disso. É por isso que ele está lá em cima, chorando o tempo todo. Mas estamos presos aqui, todos nós. Eu esperava que houvesse uma chance pela qual você correria pela manhã, mas Calvin está certo. Não há garantia que você esteja segura de manhã, de qualquer forma.”

“Mas…que...diabos...tem de errado com este lugar?”  Disse Melinda, sufocando.

Ela estava começando a desmoronar. Podia sentir as lágrimas emergindo dos olhos.

“Foi cerca de um mês depois que o Sr.Royce morreu”, disse Calvin. “Quando ele veio. Ele estava usando aquele manto preto, comprido, carregando aquela adaga ridícula. O vi quando eu estava aparando os arbustos dos fundos. Eu o disse que ele precisava sair daqui, porque não gostava da sua aparência. Ele...ele se moveu tão rápido que eu não o vi chegando. E ele me pegou, daqui...” Calvin tocou seu pescoço. “...até aqui.” Ele tocou seu abdômen inferior, do lado oposto ao corte no pescoço.

Ele começou a tirar sua camisa. Melinda quase vomitou. Sob sua camisa, estava um corte feio, longo e profundo...e ainda estava vazando sangue. Ela podia ver ossos, músculos e intestinos se contorcendo daquela ruína destroçada. “Eu morri naquela noite”, disse Calvin.

“Mas então não morri. A próxima coisa que eu sabia, foi que eu estava sendo arrastado pra dentro da casa pela vovó, e quando acordei, eu quase a matei de susto. Ela estava certa de que eu tinha partido. A questão é, eu tinha. Mas estava acordado. Eu conseguia falar, andar, fazer qualquer coisa que podia enquanto estava vivo. Bom, exceto ter prazer ou nutrição com qualquer alimento ou bebida. Eu ainda bebo este chá porque ele impede que minha pele se torne acinzentada Aprendi isso cerca de cinquenta anos atrás.”

“Ele não foi embora, porém,” Vovó interrompeu. “Eu sai para lidar com ele, carregando meu machado. Ele o tomou e enterrou nas minhas costas. Eu não vou te mostrar a ferida, querida. Calvin não deveria ter mostrado a dele, tampouco. Ninguém deveria vê-la.”.

“Mas é assim que ele trabalha, Melinda”, continuou Calvin. “Ele tem aquela faca, mas se você tentar utilizar qualquer arma contra ele, ele apenas...se move como ele faz e a tira de você. Você nunca tem uma chance. Ele usa seja lá qual arma com que você tente derrubá-lo para acabar contigo. Mr.Norris aprendeu isso na maneira difícil.”

“Isso...isso não está acontecendo!”, Melinda estava pronta a desmoronar. Ela tinha que se manter firme. Ela tinha que sair daqui, de alguma forma. Nada disso estava certo. Nada disso poderia ser real.

Era tudo um sonho; muitas coisas não faziam sentido. Seu pai ligando para ela de repente. Ela saindo para encontra-lo sem pensar duas vezes. Perder-se tão rapidamente, e de forma tão irreversível.

Nenhum serviço de celular em qualquer lugar nesta estrada. Este lugar e tudo sobre ele! Ela estava sonhando; tinha que ser isso. Mas se fosse, ela iria sobreviver a esse sonho. Ela se virou e correu para as escadas. Sua bolsa ainda estava em seu quarto, mas ela iria pega-la e partir. Já teve o suficiente.

Vozes protestantes começaram a balbuciar atrás dela, mas ela não se importava nem um pouco. Mr.Norris estava esperando no topo das escadas. Ao contrário do que vovó Royce descreveu dele, ele não era tão velho assim. Não tinha mais do que cerca de quarenta anos.

Mas ela viu instantaneamente o que a vovó quis dizer com “não está tudo lá”. A metade superior da cabeça do Sr.Norris parecia normal, como um homem razoavelmente atraente, com cabelo escuro salpicado com cinza aqui e ali. Seus olhos, de um verde claro, estavam úmidos com lágrimas frescas.

A metade inferior do seu rosto era uma ruína de fragmentos de ossos, músculos destroçados e sangue.

Muito sangue. O lado esquerdo do corpo estava igualmente destruído. Seus braço pendurado por alguns poucos tendões, o quadril estava justamente como seu rosto, uma confusão de osso e sangue.

Ele manteve sua mão boa no corrimão enquanto cambaleava na direção dela. Atrás dele estava uma jovem mulher de sutiã e calcinha. Seu estômago foi aberto, e olhando pra fora da ferida, com olhos brilhantes e inteligentes, estavam os restos mutilados de um bebê.

Melinda se virou e fugiu para a porta da frente. Sua mão tinha acabado de se fechar na maçaneta quando Calvin correu até ela, colocando suas mãos congelantes sobre a dela.

“Eles não vão te machucar”, ele disse rapidamente. “Mas ele vai. Se você pisar lá fora por mais de alguns momentos, ele vai te matar, e vai doer. E continuará doendo. Para sempre. Depois de um tempo você aprende a lidar com a dor, mas ela nunca vai embora.”

Soluçando, ela fez a pergunta que teve medo de questionar desde chegou aqui.

“Quem é ele?”

“Não sabemos”, disse vovó, por trás de Calvin. “Ele apenas...chegou aqui, e não vai embora. Ele gosta de nos observar, e fazer coisas para nos incitar a sair de novo. Assim que alguém sai, ele lhes machuca mais. Mas não importa quantas vezes ele nos mate, nós não morremos. Acredite em mim quando eu digo, todos nós desejamos que pudéssemos.

Melinda já tinha tido o suficiente disso. Ela empurrou Calvin pro lado e abriu a porta. Ele estava em pé na varanda. A adaga estava estendida bem na frente dele, no nível do rosto. Melinda correu até ele em disparada, o punhal perfurou seu olho direito e sua ponta deslizou pelo meio, saindo do outro lado. Ela só conseguiu ver o sorridente rosto branco e puro do seu assassino, antes de tudo ficar preto.

Algumas poucas horas depois, a casa irrompeu em gritos vindos do andar de cima, enquanto Melinda acordou em um mundo de dor, do tipo que ela nunca tinha conhecido.  

Escrito por: Josh Parker Conteúdo disponível sob: CC BY-AS Traduzido e adaptado por: Gabriel Michelli Disponível para leitura (inglês) em: www.creepypasta.wikia.com/wiki/The_House_That_Death_Forgot 

           ----------------------------------------Notas de rodapé -----------------------------------------  

*¹ - Do original: “can't even so much as call AMA”. AMA é o serviço de atendimento rodoviário americano. *² - Do original: “use the numberplan, not 50s exchanges.” Numberplan é o plano de numeração do telefone. Exchanges, no contexto (phone exchanges), é o sistema central (central office) que estabelece a conexão entre dois telefones individuais.  Muito comum e apenas utilizado antigamente. 

*³ - Do original: “Lord love a duck.” Uma expressão americana bem antiga que demonstra surpresa. Adaptado para uma expressão brasileira de surpresa, também antiquada: “pombas!” *’ - Do original: “Buttfuck nowhere.” Uma expressão Americana que significa “meio do nada / lugar algum”. Adaptado para uma expressão brasileira, igualmente chula: “Cu do Judas”.

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