O Princípio do Fim

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Não sei porque estou escrevendo isso... encontrei essa agenda na minha mochila em meio ao meu uniforme e outras coisas do meu trabalho. Lembro-me de meu chefe de ter me dado ela no último dia de trabalho, antes da empresa suspender suas atividades para as férias coletivas visando as festividades de fim de ano. Agora, neste instante enquanto escrevo essas linhas, me recordo como se fosse ontem... Era dia 23 de dezembro, uma sexta-feira quente, quase infernal. No final do expediente enquanto eu fechava o caixa e separava alguns papéis ajeitando os últimos detalhes para o fechamento da loja, o patrão apareceu como de costume para recolher a féria do dia. Ao abrir a mala para guardar o dinheiro, ele tirou essa agenda de dentro e a ofereceu a mim dizendo: - Você quer? Já tenho um monte delas, todas presentes de fornecedores.

Para ser honesto, não tenho o hábito de usar agenda. Minha vida costumava ser um exemplo perfeito para as palavras "monotonia" e "rotina", mas para não correr o risco de parecer grosseiro, aceitei dizendo: - Obrigado. Finalizei meus deveres, peguei minha mochila no vestiário, guardei a agenda dentro junto com o uniforme que acabara de trocar, e parti em direção a saída da loja para o que seriam as primeiras horas das minhas férias. Já do lado de fora, talvez porque eu fosse o último funcionário a sair, o patrão me ofereceu uma carona. Recusei dizendo que morava perto, e além do mais ia passar no mercado do outro lado da rua para fazer algumas compras de última hora. Mentira... na verdade odeio pegar caronas. Me sinto pressionado ante situações que obriguem a socialização, o que geralmente leva a longos períodos de "silêncio constrangedor".

Pode parecer besteira, mas colocar minhas ideias no papel está ajudando a diminuir minha ansiedade e a me conhecer melhor. Acabei de notar por exemplo um dos motivos da rotina "devorar" as horas do meu dia; sempre evitei situações que pudessem me tirar da minha zona de conforto...  Pena só notar isso agora... creio ser um dos benefícios do "amadurecimento forçado"... Bom... isso não vem ao caso. Gostei da ideia e vou continuar escrevendo; embora saiba que a probabilidade destas linhas serem lidas por mais alguém são mínimas... Vou continuar escrevendo... porque se algum dia esse inferno acabar, aquele que tiver a oportunidade de ler esse "diário", irá tomar conhecimento de minhas descobertas, assim como do sentimento de terror que tomou conta de mim.

Continuando... cheguei em casa naquele dia por volta das 18:00 hs, e apesar de ser antevéspera de Natal minha rotina não mudara; banho, jantar e computador até a hora de dormir. As tradições da data em questão já haviam sido abandonadas há muito pela minha família, era cada um na sua, portanto, o Natal era apenas mais um feriado. Mas naquela noite em especial recebi a visita do meu primo, ela estava a caminho de uma balada quando resolveu parar e me convidar a acompanhá-lo. Meu primo e eu tínhamos quase a mesma idade, ele era apenas alguns meses mais novo que eu, mas ao contrário de mim, havia saído da puberdade demasiadamente cedo. Entrou no meu quarto dizendo: - Vamos, levanta daí, põe uma roupa "da hora" e vamos zuar. Você está de férias mesmo, não tem hora para acordar amanhã.

Na minha cabeça já havia me decidido a não ir, mas fitava o chão em silêncio buscando as melhores palavras para dize-lo sem parecer muito grosseiro. Findei por dizer que o dia no trabalho havia sido muito puxado, e eu estava muito cansando. Depois de mais algumas tentativas frustradas de me convencer do contrário, ele se despediu, e foi em direção a saída. Fui acompanhá-lo até o portão. Enquanto esperava ele entrar no carro e dar a partida para ir embora pude ver meus pais e três das minhas tias no final da rua, do lado oposto para aonde meu primo se dirigia. Digo três tias pois no mesmo terreno onde fica a casa onde moro, existe ainda uma outra casa, onde vivem quatro tias minhas, irmãs de minha mãe, todas "solteironas", portanto, elas vivem na casa da frente, eu e meus pais vivemos na casa dos fundos.

Como se aproximavam rapidamente, decidi esperá-los ao portão, até porque estava curioso. Quando cheguei em casa do trabalho minha tia Cláudia, a única pessoa em casa, havia me dito que todos haviam saído para o velório de um rapaz, vizinho nosso, que havia morrido naquela tarde, mas não soube, ou não quis me dar mais detalhes. Quando todos entraram, fechei o portão e os acompanhei pela porta principal, me despedi de minhas tias que ficaram na casa da frente e segui para a casa dos fundos com meus pais. Uma vez trancada a porta de nossa casa perguntei descaradamente, sem disfarçar meu tom de curiosidade acerca do assunto: - Quem morreu? O que aconteceu?

Meu pai fingiu não ouvir a pergunta, mas minha mãe respondeu: - Foi o William, filho da Cleide. Você lembra que ele gostava de fazer trilha com aquela moto barulhenta dele... Pois é, hoje no comecinho da manhã ele saiu com alguns amigos para fazer a bendita trilha e sofreu um acidente. Ainda curioso, perguntei sobre detalhes do acidente e ela continuou: - Dizem os amigos que estavam com ele que logo na primeira parte da trilha ele acabou ficando para trás. Eles seguiram em frente e pararam próximo à uma clareira para esperar por ele; como ele estava demorando, um deles resolveu voltar pela trilha para ver se o amigo precisava de ajuda, se a moto havia atolado ou alguma coisa parecida. Ele disse ter encontrado o William esticado no chão, sem o capacete, com ferimentos profundos pelo corpo. Como ela interrompeu a narrativa, questionei:

- E aí?

- E aí, que eu não sei de mais nada.

- Como assim!! Retruquei.

- Não ia ficar questionando os pais dele acerca do assunto.

- E como ficou o corpo?

- Foi caixão fechado. Parece que o negócio foi feio.

- Quem foi que o encontrou? Perguntei

- Foi o Matheus, filho da Enid. Conhece?

Achava engraçado esse jeito quase medieval de minha mãe se referir a fulano ou beltrano citando o nome de seus pais. Respondi afirmativamente que o conhecia. Como o assunto havia se encerrado, e ambos pareciam cansados, voltei para o meu computador, ainda curioso. O Matheus era um ex-colega de trabalho, pela manhã inventaria uma desculpa qualquer para falar com ele.

Engraçado... Como a morte me fascinava... Antes disso tudo acontecer, passava horas lendo livros e contos de terror, vendo séries e filmes, buscando sentir "aquele arrepio", e quando finalmente conseguia encontrar algo que me assustava ou me causava medo, passado o primeiro impacto, minha reação era sempre cair na risada, pois no fundo eu sabia que aquilo não podia me ferir... Saudades daquele tempo que e o terror e o medo ficavam limitados a minha imaginação fértil e a tela do computador... Daria qualquer coisa para as coisa voltarem ao normal.

Ainda era noite do dia 23 de dezembro, olhei no relógio do computador que marcava 23:00 horas, já cansado e entediado de ficar fuçando na internet, resolvi ir dormir. Desliguei o computador, desativei o alarme do celular que estava programado para despertar normalmente no sábado, e antes de desligar o celular dei uma última olhada no Whtat's App. As únicas mensagens novas eram do grupo do trabalho. Alguns colegas que ainda mantinham ligações com o Mateus souberam do falecimento do William e estavam comentando sobre. Infelizmente o Mateus não estava no grupo para esclarecer maiores dúvidas. Como não tinha nada a acrescentar na conversa, permaneci calado, mas uma mensagem em meio a tantas me chamou a atenção; uma das participantes do grupo dizia que pelo menos mais quatro corpos foram encontrados em situação semelhante naquela mesma tarde. Desliguei o celular e fui me deitar pensando no assunto.

Será que os ferimentos do William não foram causados pelo acidente?? Será que alguém matou ele?? E se alguém o matou... será que esse mesmo alguém deixou mais quatro corpos para trás?? A contagem de corpos me parecia muito alta para um único assassino, mas se o que a Jéssica disse sobre as condições dos corpos serem as mesmas, a probabilidade de serem casos diferentes, todos seguindo o mesmo "modus operandi" eram mínimas. Pensei se poderia ser um assassino em série, mas nunca havia escutado ou lido sobre um assassino em série que mata cinco no mesmo dia, e em plena luz do dia. Foi quando parei para pensar que não sabia de detalhes sobre nenhum dos casos, que era besteira continuar pensando nisso. Tinha sim que falar diretamente com o Mateus se quisesse satisfazer minha mórbida curiosidade. Limpei minha mente de pensamentos o máximo que pude e acabei pegando no sono.

Ficou claro que além de fã de terror eu gostava também de seriados e romances policial.

Na manhã seguinte, despertei no horário costumeiro; maldito relógio biológico que não me deixa dormir nem cinco minutinhos a mais. Depois de ficar aproximadamente 20 minutos virando na cama, decidi que era melhor me levantar. Meus pais ainda dormiam, portanto, se eu quisesse tomar café da manhã teria que me virar. Olhei na dispensa... sem café, na geladeira... um golinho de leite. Merda... pensei comigo mesmo... vou ter de ir na padaria. Não sou tipo que levanta de manhã, põe uma roupa e está pronto para sair; nesse quesito, meu pai costumava me comparar com minha mãe por causa do tempo que eu levava para me arrumar. Vendo que não tinha como fugir da tarefa, segui a mesma rotina que faria para ir ao trabalho, e rumei para a padaria.

Quando passei pela casa das minhas tias tive a ideia de ver se elas já estavam de pé, assim evitaria a caminhada até a padaria. Parei em frente a porta que ainda estava fechada, olhei pela janela para só para ver todas as luzes apagadas. Sem esperanças, segui o caminho até a padaria.

Ao chegar no estabelecimento que funcionava também como um "mercadinho" peguei os itens que queria na prateleira e fiz o pedido de frios e pães no balcão. Enquanto aguardava o balconista separar meu pedido, notei que o mesmo estava mais preocupado em assistir televisão do que cumprir sua tarefa. Não o culpava, afinal, se eu tivesse de madrugar em pleno sábado, véspera de natal, para trabalhar, eu também estaria puto da vida. Mas as coisas passaram dos limites quando ele abandonou completamente meu pedido, aumentou o som da TV, e chamou outra funcionária para ver o que passava no que parecia ser um dos muitos noticiários que eram transmitidos pela manhã. Estava prestes a chamar-lhes a atenção quando as palavras da jornalista na TV prenderam a minha:

- É uma verdadeira carnificina!!! Temos notícias de corpos mutilados vindos de todos os cantos do Brasil. A Secretária Nacional de Segurança Pública está ativando as Forças Armadas em todo o país, isso inclui os reservistas, para auxiliar no que estão chamando de rebelião civil. Segunda os últimos boletins, as mortes são ações coordenadas de facções que pretendem tomar o controle do país.

O que eu acabara de ouvir me fez estremecer, e não foi o fato de estarem convocando os reservistas para o serviço militar; eu sabia que devido a minha idade e pelo fato de eu ser filho único as chances de eu ser convocado eram mínimas, mas sim por que me fizera lembrar do que havia sido comentado na noite passada no grupo de Watts App do trabalho. Levei a mão no bolso buscando o celular, mas notei que o havia esquecido em casa. Chamei a atenção dos balconistas para o meu pedido, mas eles ainda estavam entretidos na TV que agora mostrava um mapa das rebeliões pelo país. Tive de gritar mais duas vezes para conseguir alguma atenção. Finalmente, virou-se desculpando-se e continuou a separar meu pedido. Acabou tocando no assunto:

- Você viu que merda?? Em plena na véspera de Natal.

- Ouvi um pouco. Mas o que está acontecendo?? Perguntei tentando conseguir alguma informação.

- Uma série de assassinatos pelo país. Estão dizendo que começou ontem e se intensificou durante a 
noite.

- Ouvi falar de rebeliões??

- É o que estão dizendo. Pelo fato dos ataques estarem focados em determinadas regiões. Mas eu não acredito neles não.

- Não acredita?? Porque?? Perguntei

- Primeiro, porque estão acontecendo simultaneamente pelo país inteiro. E segundo, porque os ataques estão ocorrendo também fora do país.

- É?? E como você sabe disso?? Não ouvi a jornalista comentar nada sobre ataques fora do país.

- A TV pode não pode não ter dito, mas a patroa tem um filho morando no Canadá e ainda ontem ela comentou que o país estava em estado de alerta por causa de uma série de assassinatos brutais.

- Ouviu falar de algum ataque pelas redondezas?? Sondei, tentando confirmar a informação do grupo do trabalho.

- Ouvi alguns boatos sim, mas nada confirmado.

Como meu pedido já estava pronto não quis prolongar a conversa, agradeci o rapaz, peguei minhas coisas em cima do balcão e fui para o caixa pagar. Enquanto efetuava o pagamento um rapaz se aproximou da menina que me atendia e disse para que ela fechasse o caixa depois de terminar com último cliente da fila, disse ainda que ele iria baixar as portas e esperar na porta social para liberar a passagem para os clientes; a menina questionou o motivo, no que ele respondeu: - Só estou obedecendo as ordens do patrão, mas parece que ele está com medo dos ataques que a televisão anunciou. Notei que a menina ficou assustada e comentei: - Bom... parece que você ganhou um dia de folga. Não obtive resposta. Meu cartão "enroscou" algumas vezes, aparentemente eles estavam com problemas nas linhas ou na internet, mas foi tempo suficiente para os funcionários baixarem e trancarem todas as 5 portas de aço do estabelecimento. Eles estavam realmente com muita pressa. Ao passar pela portinhola em uma das portas de aço, o funcionário me aconselhou: - Cuidado moço, só Deus sabe o que está acontecendo por aí afora. Não disse nada, apenas acenei positivamente com a cabeça e tomei o caminho de casa.

No caminho para casa pensava sobre as novas informações. Na minha cabeça, as rebeliões lideradas pelas facções faziam sentido, até porque não é novidade nenhuma o poder que essas organizações adquiriram com o passar dos anos, tudo isso graças a negligência de nossos governantes acomodados. O que não fazia sentido eram os alvos dos ataques; era de se esperar que eles atacassem militares, políticos e não civis. Pensava na possibilidade de William ter sido vítima deles, o que definitivamente não fazia sentido algum. E finalmente, se o que o balconista dissera sobre os ataques no Canadá fossem verdade então a teoria das "facções" iria por água abaixo.

Elaborava novas teorias em minha mente, quando gritos me chamaram a atenção. Eles vinham de uma casa um pouco mais a frente, pareciam gritos de mulher, porém, bem mais graves do que se esperaria de uma voz feminina. Fui me aproximando, seguindo meu caminho natural para casa quando percebi os gritos se intensificando, por precaução, cruzei para o outro lado da rua. Quando estava quase em frente à casa de onde partiam os gritos os mesmos pararam, e pude ver o estreito portão automático se abrindo. Com muita dificuldade, quase aos trancos devido ao pouco espaço, o motorista conseguiu tirar o carro de dentro da garagem. Quando finalmente a porta do motorista se abriu, vi sair de dentro um adolescente, de no máximo 16 anos, parecia assustado, branco como a neve. Largou a porta do carro aberta com a chave na ignição e correu para dentro da casa.

Nesse momento eu parei em frente à casa do outro lado da rua para observar a cena que se desenrolava, admito que mais por curiosidade do que por desejo de ajudar. Vi então o adolescente sair carregando com muita dificuldade uma mulher na faixa dos 45 anos de idade que julguei ser sua mãe. A mulher tinha ferimentos por todo o corpo, alguns deles envoltos em trapos e panos de prato na tentativa de estancar o sangramento. Ainda com muita dificuldade o rapaz conseguiu abrir a porta da frente e acomodou a senhora no banco do carona, se esforçava tentando acomodá-la em uma posição mais confortável, quando finalmente estava satisfeito correu para a portão e gritou algo que não pude compreender muito bem. Segundos depois partiu em direção ao carro novamente, ficou segurando a porta de trás aberta como se esperasse alguém entrar no veículo.

E justamente quando achei que não podia ficar mais estranho, vi sair de dentro da casa um senhor de aproximadamente 50 anos de idade, carregando uma mulher que aparentava ter no máximo 25 anos; deduzi que fossem o pai e possivelmente a irmã do garoto. Diferente da primeira senhora a sair da casa que mal se aguentava em pé sozinha, essa tinha as mãos e os pés amarrados com o que me pareceram ser dois lençóis, e ainda o que me parecia ser uma fronha de travesseiro servindo de mordaça. Percebi neste instante que era ela a autora dos gritos guturais que ouvira a pouco, e compreendi o porquê de eles cessarem tão abruptamente. Apesar de completamente imobilizada a mulher lutava com todas suas forças para se libertar, tanto que o senhor usava o máximo de suas forças para conseguir arrastá-la até o carro, e mesmo assim tinha que desviar de eventuais movimentos que a mulher fazia com a cabeça que mais se assemelhavam a tentativas de golpe tentando acertar o homem.

Quando chegaram à porta do carro o homem empurrou o menino que caiu de bunda no asfalto e lá ficou, paralisado. O homem tentou colocar a mulher no carro, mas a mesma se debatia com todas as forças que tinha e se recusava a entrar no veículo, em meio a essa luta o homem empurrou a cabeça da mulher contra a chapa do carro com muita força; pareceu não ter surtido efeito algum, pelo contrário, só serviu para a irritar ainda mais. Vendo que não conseguiria nada com isso, o homem tornou a agarrá-la por trás imobilizando seus braços, apertou-os com tanta força que posso jurar ter ouvido o estalar de um osso seguido de um grito abafado pela mordaça, e então o homem se jogou de costas no banco de trás do carro levando consigo a mulher que ainda se debatia.

Estava em transe, não sabia o que fazer, não sabia se corria ou se tentava ajudar de alguma forma, não conseguia pensar com clareza, no final, não fiz nada, fiquei apenas parado observando, indiferente...

Ouvi pela primeira vez a voz do homem chamando pelo garoto que ainda estava sentado no asfalto. O grito pareceu acorda-lo de seu transe. O mesmo se levantou e foi até a porta aberta do banco de trás. Pude ouvir o diálogo que se seguiu aos gritos:

- Fecha a porta do carro Fábio!!! Você vai ter de dirigir até o hospital.


- Mas pai, eu mal aprendi a dirigir

- Não tem jeito, você não vai conseguir segurar sua irmã no estado que ela está agora. Fecha a porta e entra no carro. Agora!!!

- Mas pai...

- Tua mãe vai morrer moleque!!!! Vai logo!!!

- Eu vou chamar o senhor Juca!!!

- Não adianta. Ele está viajando. A maioria de nossos vizinhos estão viajando, e os que ficarão devem estar muito assustados para meter a cara para fora, caso contrário os covardes já estariam aqui para nos ajudar.

Esse último comentário feriu mortalmente meu orgulho. Justamente eu era um dos que estavam apenas observando o ocorrido, incapaz de tomar alguma atitude. Pensava no que eu poderia fazer, mas nem carta de motorista eu tenho, nunca vi necessidade nem utilidade, uma vez que ninguém em casa tinha um carro ou tinha condições par manter um. Pensei em me oferecer para ajudar a segurar a mulher, afinal, não podia ser tão difícil com ela amarrada da forma que estava, mas nesse instante eu me lembrei do estado em que a senhora sentada no banco do carona se encontrava... se aquela mulher foi capaz de deixar a própria mãe à beira da morte, o que ela não faria comigo... O medo mais uma vez me paralisou. Então notei o portão atrás de mim se abrindo...

Vi passar por mim um senhor já de idade, na faixa dos setenta e poucos creio eu. Ele foi em direção ao carro, abraçou o menino enquanto conversava com o pai. Vi ele recuar por um instante ao colocar os olhos na filha do casal, mas se manteve firme enquanto mantinha o diálogo. Outro portão se abriu, de dentro saiu uma mulher vestindo baby-doll que partiu em direção ao ocorrido. Nos limites do seu portão notei dois meninos que aparentavam ter entre 10 e 15 anos respectivamente, assustados, tanto quanto eu ou mais. Olhei para as casas vizinhas procurando novos sinais de intervenção, mas todas as janelas e portas estavam lacradas. A maioria deveria ter ido viajar como disse o homem ou estavam assustados demais para sequer colocar a cara na janela. Se fosse esse o caso, não os julgava.

A reunião não durou muito. Pouco tempo depois a mulher se afastava da cena amparando o menino que agora se desmanchava em lágrimas; seu choro era tão dolorido que fez meus olhos umedecerem. Eles entraram na casa da mulher, seguidos pelos dois meninos que mencionei antes. O senhor correu em minha direção, passou por mim como se eu não existisse e tornou a entrar em casa. Não ficou nem um minuto lá. Saiu de posse de uma carteira que deveria conter seus documentos, fechou a porta de trás do carro e sentou no lugar do motorista; ajeitou a senhora no banco do carona, que agora parecia ter perdido completamente a consciência, ajeitou o cinto de segurança em torno dela, baixou o portão da casa que ainda estava aberto e saiu com o carro; não cantando pneu como era de se esperar, mas com uma calma e uma habilidade invejável.

Passado o ocorrido o silêncio tomou conta do lugar. Aos poucos, portas e janelas ao longo da rua começaram a se abrir. "Ora-ora, ao menos não sou o único covarde por aqui" - pensei. Esse pensamento não fazia com que eu me sentisse melhor, muito menos esquecer que não fui capaz de fazer nada ante o que acabara de acontecer. Aos poucos fui saindo do transe que o medo me colocara, parei por alguns instantes olhando para uma mancha de sangue do outro lado da rua, e mecanicamente retomei o caminho de casa. Pude ainda escutar o grito de uma senhora do alto de uma janela: - Psiu, você menino!!! Você viu o que aconteceu??? Apenas ignorei, continuei meu caminho de cabeça baixa. A lembrança do choro do rapaz encheu meu peito de angústia e meus olhos voltaram a lacrimejar.

Caminhei lentamente pelo resto do caminho tentando "digerir" o ocorrido. Enquanto me aproximava do portão saquei a chave do meu bolso me preparando para abri-lo, quando virei a chave notei que o mesmo já estava aberto. Estranhei o fato, lembrava-me claramente de tê-lo trancado, e enquanto o trancava novamente atrás de mim pude ouvir claramente um choro de mulher vindo da casa de minhas tias. Meu coração acelerou, abri vagarosamente a porta tentando sondar o que se passava. No sofá que fica na área de fora, perto do corredor que ligava as duas casas, pude ver duas de minhas tias fazendo companhia para outra tia minha que não morava com a gente, ela era a mãe do meu primo que me visitou na noite anterior, pude constatar ser ela a dona dos lamentos que ouvi ainda no portão. Mal me avistaram e uma das minhas tias já disparou:

- Aonde você estava criatura??

- Fui à padaria comprar algumas coisas.

- E porque não avisou ninguém??

Ignorei esta última pergunta. Minhas atenções estavam voltadas para a mãe do meu primo no meio das duas que chorava compulsivamente. Correndo o risco de parecer óbvio demais, perguntei: - Aconteceu alguma coisa?? Aos soluços, a mãe do meu primo me perguntou:

- O Davi... ele saiu de casa ontem... disse que ia passar aqui e te pegar... para vocês saírem juntos...
Antecipando a pergunta, respondi: - Sim, de fato ele esteve aqui, me fez o convite para acompanhá-lo, mas eu estava cansado do trabalho e acabei recusando. Ela continuou:

- Ele disse para aonde ele ia??

- Não, não disse exatamente para aonde ia. Disse apenas que ia "zuar" por aí.

Uma de minhas tias retrucou: - Porque eu não vi ele então??

- Porque vocês estavam no velório do William, aliás, ele saiu momentos antes de vocês chegarem. 

Mas a tia Cláudia o viu, inclusive o recebeu ao portão. Onde ela está?? Perguntei. 

- Ela está dormindo. Aquela não acorda nem com bomba.

Não precisava ser um gênio para compreender a situação. Meu primo tinha passado da conta noite passada e estava de porre em algum motel por aí, sabe-se Deus com quantas garotas. Esbocei um leve sorriso enquanto o imaginava narrando mais uma de suas aventuras sexuais. Mas então me lembrei do noticiário que relatava os ataques, e uma leve onda de preocupação tomou conta de mim, meu semblante se fechou.

Uma terceira tia adentrou no recinto com o telefone na mão resmungando: - Já tentei os dois números umas dez vezes e só da caixa postal. Como nenhuma delas comentava nada sobre os ataques, pressupus que elas não estavam a par da situação. Pensei bem se valia a pena comentar sobre isso naquele momento, e pelo estado que a mãe do meu primo se encontrava achei melhor guardar essa informação. Depois da morte do meu tio, dois anos atrás, esse meu primo, filho único assim como eu, havia se tornado a razão de viver dessa minha tia; alimentar sua angústia com notícias que nem eu mesmo sabia se eram verdadeiras não me parecia correto, acabei por me manter em silêncio. É claro que mais cedo ou mais tarde ela acabaria descobrindo, mas tinha esperanças que meu primo desse as caras em breve como ele sempre fazia. Não que fosse um hábito para ele passar noites fora de casa, mas quando o fazia sempre deixava avisado, só que dessa vez não foi assim, daí a preocupação de sua mãe. Tentando ajudar de alguma forma, disse:

- Vou tentar contato com alguns amigos em comum. Quem sabe algum deles não está com ele.
Uma de minhas tias retrucou: - Se você tivesse ido com ele ao invés de ficar em casa naquele computador você saberia onde ele está.

Passaram ao menos meia dúzia de repostas mal-educadas pela minha cabeça, lancei um olhar fulminante para essa minha tia, pronto para descarregar todo a ira que aquele comentário desnecessário, para dizer o mínimo, despertou em mim, mas no caminho vi o rosto abatido da mãe do meu primo. Em respeito a ela, me calei, me virei e desci para a casa dos fundos sem dizer mais nada.

Entrei em casa e meus pais ainda dormiam, preparei meu café com as coisas que comprei na padaria e guardei o restante em seus devidos lugares. Quando terminei de comer fui para o meu quarto, liguei o computador antes de qualquer coisa, enquanto esperava carregar o sistema as palavras de minha tia ecoavam na minha cabeça, um sentimento de frustração tomou conta de mim, no fundo eu me arrependia de não ter dito o queria e agora isso estava me corroendo por dentro. Mordi minha mão enquanto pensava nas coisas que gostaria de ter dito para ela; essa era a maneira que descarregava minha frustração, era tão comum que já havia uma marca permanente nas costas da minha mão. Não suportando mais a dor da mordida, soquei a mesa do computador soltando um grito abafado... fechei os olhos e respirei fundo... Era como se tivesse tirado um nó da minha garganta.... Pensei comigo mesmo "dia desses vou acabar com um câncer por causa disso"...

O sistema já estava carregado, mas eu não sabia por onde começar. Decidi que o facebook seria um bom lugar para dar início a minha busca por informações. Fazia tempo que eu não acessava qualquer rede social, como eu disse antes, eu não era muito sociável, e isso incluía também minha vida virtual. Logei na minha conta e procurei pelo perfil do meu primo; em sua última atualização no início da noite anterior, ele postou uma foto no carro com mais dois amigos com a seguinte legenda "indo para a zueira com os amigos". Infelizmente eu não conhecia nenhum dos rapazes. Li os comentários buscando mais informações e encontrei justamente o que procurava; o comentário de uma garota dizia "também quero!!! Aonde vocês estão indo??" E meu primo respondeu "naquela chácara perto da gruta, tenho certeza que você se lembra da última vez que estivemos lá, eu não esqueci nenhum detalhe rs!" E pôr fim a menina respondeu com "carinhas de envergonhada". Esbocei um leve sorriso, pois isso ia de encontro a minha teoria, o que tirou um pouco da preocupação acerca dos ataques, tinha certeza que ele estava bem e apareceria a qualquer momento. Pensando em partilhar essas informações com as minhas tias liguei a impressora e imprimi a foto em questão e os comentários; acessei também o perfil da menina que comentou o post e imprimir uma de suas fotos para ver se alguma de minhas tias a conhecia, uma vez que eu também nunca havia visto a garota.

Terminada as impressões, levei as fotos para as minhas tias e as entreguei nas mãos da mãe do meu primo que tomava um copo de chá. Ainda tremendo um pouco, ela pousou o copo em cima da mesa e pegou as fotos de minha mão. Eu olhava para sua face enquanto ela via as fotos e lia os comentários, notei que assim como eu, esboçou um leve sorriso ao ler a resposta do Davi para a garota no post. Fiquei feliz, ao menos isso serviu para aliviar um pouco de sua angústia. Ela disse conhecer um dos rapazes da foto, e disse também conhecer a garota do comentário, disse ainda que tinha amizade com a mãe do rapaz em questão e mais tarde entraria em contato com ela. Perguntei se ela sabia do lugar ao qual meu primo se referiu, e ela disse que conhecia sim, era uma chácara particular que ele e os amigos alugavam de vez em quando para dar festas, lembrou inclusive de ter o telefone do local em algum lugar, disse que procuraria e tentaria ligar para falar com ele. Me agradeceu pelas informações, eu apenas disse: - Não por isso. Mas a verdade é que por dentro eu estava radiante, me sentia um detetive desses de séries de TV.

Sem mais nada para fazer por ali, e com a sensação de dever cumprido, desci para minha casa e voltei para o computador. Só que desta vez foquei em pesquisar a respeito dos ataques que à TV estava noticiando. Dei uma olhada em alguns sites de notícias mais famosos e todos diziam a mesma coisa: "rebeliões por todo o país deixam mortos e feridos", mas não acrescentavam muito ao pouco conteúdo que TV noticiou; sem fotos, sem entrevistas, sem especialistas comentando sobre o assunto, coisas típicas que se esperam ver na TV quando uma calamidade acontece. Relembrando a informação que o balconista me passou sobre ataques no Canadá, acessei alguns sites gringos, em especial os do país em questão; e de fato, todos noticiavam mortos e feridos sobre circunstâncias brutais, unicamente diferenciando as causas. Assim como no Brasil, o mapa de vítimas no Canadá era bem disperso, com focos em todo o país; nas regiões metropolitanas a polícia dizia estar organizando uma força tarefa para caçar uma seita ritualística que seria responsável pelos assassinatos, já no interior e nas áreas menos povoadas os jornais atribuam as mortes a ursos da região. O mesmo acontecia ao redor do mundo em países como EUA, Inglaterra, Espanha, Colômbia, Venezuela, Argentina, Chile e tantos outros que pude lembrar e tinha o mínimo de conhecimento da língua para compreender um pouco o que estava sendo transmitindo.

Meu lado curioso aflorou, e como os meios de comunicação tradicionais não estavam comentando muito sobre o assunto, decidi recorrer a blogs e fóruns focados no bizarro e no sobrenatural que estava acostumado a ler nos momentos de ócio. Acessei todos os sites que conhecia, mas nenhum deles tinha uma atualização, uma nota sequer sobre o assunto. Até pensei em acessar a deepweb, mas desisti depois de ver alguns tutoriais, achei muito trabalhoso. Lembrei então do meu celular e do grupo do trabalho; será que eles tinham mais informações?? Liguei o celular e abri o aplicativo. Havia duas conversas não lidas, uma do meu primo que eu abri imediatamente acreditando que fossem notícias a respeito do seu "sumiço"; ao abrir a conversa, vi de imediato uma self dele abraçado com duas garotas, vestindo apenas lingires e com a seguinte legenda: "Olha o que você perdeu mané!!!" Dei uma risadinha e pensei comigo mesmo, "mas que belo filho de uma puta". O horário de envio da foto no aplicativo marcava 23:55. Isso me tranquilizou ainda mais com relação ao seu "sumiço".

A outra conversa era do grupo do trabalho, devia ter quase cem mensagens não lidas, a grande maioria enviadas durante a madrugada, todas elas relatando supostos ataques. As primeiras mensagens falavam das notícias que a TV transmitia acerca das rebeliões, mas algumas mensagens abaixo começaram a aparecer "detalhes fantasiosos". Participantes falavam que acordaram no meio da noite escutando conversas ininteligíveis, alguns alegavam vir das ruas, outros que ouviam nos apartamentos vizinhos, todos diziam que parecia uma língua estrangeira. Outros alegavam ter visto grupos de arruaceiros correndo pela rua, passavam correndo como loucos sem direção alguma, todos juntos, uma participante disse que corriam tão rápido que em alguns momentos pareciam dar saltos a grandes distâncias. Mas o detalhe que mais me chamou a atenção foi o áudio de um participante que alegava ter ouvido urros e gritos terríveis, quase inumanos, e ao abrir a janela para verificar donde vinham, se deparou com o que ele dizia ser um mendigo arrastando um cachorro, o mendigo arremessava o pobre animal de um lado para o outro, segurando-o pelas patas e batendo sua cabeça contra o asfalto, o garoto que narrava a cena disse que um determinado momento ouviu os últimos ganidos do bichinho, nesse momento sua voz embargou e ele interrompeu a narrativa por um momento; a retomou em outro áudio no qual descrevia que após constatar que o animal já não se mexia, o homem se debruçou sobre ele arrancando pedaços de carne com os dentes e cuspindo-os ao lado do cadáver do animal, depois de um minuto repetindo o processo, se levantou e saiu arrastando a carcaça do que sobrou do cachorro. Disse ainda em um terceiro áudio que fez uma ligação anônima para a polícia, e observou pela janela quando uma viatura encostou próximo a poça de sangue que ficou quase em frente à casa dele. Ficaram lá alguns instantes conversando pelo rádio e passaram a seguir o rastro de sangue com a viatura em baixa velocidade.

Não sei definir exatamente a razão pela qual esse áudio mexeu tanto comigo. Sempre tive uma afeição muito grande por animais, e só não tinha um cão ou gato em casa por que minhas tias proibiam, e como morávamos de favor no quintal delas, não estava disposto a arrumar encrenca. Ouvir que um pobre cãozinho, provavelmente abandonado ou perdido pelas ruas de noite, encontrou seu fim de maneira tão cruel nas mãos de um " verdadeiro animal" me causou uma angústia indescritível. Talvez fosse a emoção com qual o rapaz narrou a cena; diferente das curtas mensagens cheias de erros de português que mais pareciam brincadeiras de mal gosto, sua voz embargada nos momentos mais críticos da narrativa tocou fundo todos os outros participantes. Mas acredito que no fundo, a cena descrita por ele me fizera lembrar do episódio que eu mesmo presenciará mais cedo enquanto voltava da padaria, mais do que isso, me fizera lembrar de toda minha fraqueza e incompetência ante o ocorrido.

Tentando apagar essas ideias de minha mente continuei rolando as mensagens que agora se resumiam a comentários sobre os áudios acima citados. Uma das últimas mensagens era de poucos minutos atrás, depois de um hiato de horas desde a última mensagem. Se tratava de um vídeo com o ícone de download esperando para ser baixado, com a seguinte legenda: "gente, olha que tenso esse vídeo que eu acabei de fazer... não sei o que dizer... só deus para nos proteger numa hora dessas". Curioso, cliquei no ícone para baixar o vídeo e depois de um tempo recebi uma mensagem de erro no download, cliquei novamente... o mesmo erro... chequei meu sinal de wifi que estava cheio e cliquei novamente no botão... nada... o mesmo erro de download, voltei então minhas atenções para o PC pensando em acessa-lo no navegador e notei o sinal de exclamação no ícone de rede perto do relógio, olhei no meu modem e a luz do cabo piscava me alertando que a internet havia caído. Tentei então acionar o 3G do celular, mas depois de tentar baixar o mesmo vídeo três vezes sem sucesso, lembrei de verificar meus créditos, e é claro que estavam zerados. Frustrado e curioso, sem internet no primeiro dia das minhas férias, me reclinei na cadeira, ora olhando para o teto, ora olhando para a luz piscante do modem na esperança de que ela estabilizasse.

Devo ter ficado assim por cerca de quinze minutos, pensando no que fazer; quando me lembrei de que tinha ficado de ir falar com o Mateus sobre a tarde do dia anterior e pegar detalhes do que aconteceu com o William. Aproveitava então para ver se ele tinha internet na casa dele, assim eu poderia baixar o vídeo no meu celular. Olhei no relógio do PC que marcava nove horas da manhã e julguei que a essa hora ele já deveria estar acordado e de pé. Sai do meu quarto em direção a cozinha e notei que meus pais já haviam se levantado e estavam tomando café da manhã ao som de músicas gospel que minha mãe adorava, e meu pai odiava. Junto deles uma de minhas tias, a mesma que quase me fez explodir horas atrás com seus comentários desnecessários, se encarregava de colocá-los a par das últimas notícias sobre o meu primo. Passei por eles com um simples "bom dia", desejoso de não me desgastar ainda mais com minha tia, e fui em direção à rua. Já na rua, notei o silêncio típico de feriados, geralmente podia-se ouvir o movimento frenético da avenida que passava abaixo de nossa rua, no entanto, tudo que se ouvia hoje era o som do vento balançando as folhas das frondosas árvores que ornavam a rua. Gostava de momentos como esse, por alguns instantes me faziam sentir como a última pessoa no mundo. Parei por alguns instantes para curtir o momento, até que um alarme de carro disparou tirando-me do meu transe.

Fui em direção a casa do Matheus que ficava quase de frente para a nossa, já próximo do portão vi que sua mãe passava pela porta principal com uma sacola de nylon na mão provavelmente de saída para as compras. Quando se aproximou do portão, a cumprimentei:

- Bom dia, dona Enid.


- Bom dia, Alexandre.

- Vim conversar com o Mateus, ele está??

Voltando o olhar para o chão e exalando um suspiro respondeu desanimadamente: - Está no quintal dos fundos, cobrindo a moto dele.

Naquele instante não compreendi sua atitude, mas vendo que estava claramente indo às compras, decidi alertá-la sobre o fechamento precoce da padaria.

- A senhora talvez não saiba, mas a padaria fechou as portas mais cedo hoje.

- Entendo que é véspera de natal, mas não são nem meio-dia. Estranhou ela.

- Ficaram com medo dos ataques que a TV noticiou mais cedo. A senhora ficou sabendo??

- Mais do que eu gostaria...

E talvez porque notasse a interrogação no meu rosto, continuou: - O Mateus vai te explicar melhor. Sabe me informar se os outros comércios estão abertos??

- Não senhora, infelizmente não sei dizer.

Pedi licença e entrei pelo portão social, ela saiu pelo mesmo portão trancando-o por fora. Lembrando dos acontecimentos que eu presenciara mais cedo, à alertei: - Se cuida dona Enid. Ela fez um leve aceno com cabeça, e seguiu seu caminho.

Me encaminhei em direção ao corredor lateral do lado externo da casa que levava ao quintal dos fundos. Lá chegando vi o Mateus terminando de cobrir sua moto como a dona Enid me dissera. Como ele não notou minha presença ali, eu disse em voz alta:

- Está aposentando ela??

Ele se virou com um olhar de espanto em um rosto pálido e ficou me encarando em silêncio. Notando o clima estranho no ar, talvez por tê-lo surpreendido com a minha aproximação sorrateira, tentei me justificar:

- Encontrei com a sua mãe saindo para ir às compras, ela disse que você estava aqui atrás e me deixou entrar. Tudo bem cara??

Ele continuou arrumando a capa da moto nos mínimos detalhes sem emitir uma única palavra. Percebi nesse instante que havia algo errado; sua personalidade alegre e gentil que tanto cativara os clientes na loja durante o período em que compartilhamos o ambiente de trabalho, estava agora envolta em pesadas sombras. Conseguia compreender parte das razões por de trás dessa mudança, afinal, há menos de um dia, ele havia encontrado o corpo do amigo e provavelmente acompanhado seus últimos momentos. Achei melhor mudar minha abordagem e não tocar no assunto do acidente envolvendo o William. Acessos de empatia como esses não eram do meu feitio; principalmente quando algo que me interessava estava em jogo, nesse caso, era a minha curiosidade mórbida que eu desejava satisfazer. Mas eu aprendi a gostar do Mateus, pelo fato de sermos vizinhos, nos habituamos a fazer juntos o trajeto do trabalho para casa, e apesar de eu fazer mais o tipo "estranho de poucas palavras", ele desembestava a falar e falar sobre os mais variados assuntos, enquanto eu apenas respondia com monossílabos do tipo "pois é" ou 'que saco". No fundo eu até que gostava dos monólogos dele, acho que posso dizer que ele foi um dos poucos amigos que tive depois de terminado o colégio. Tentei uma nova aproximação:

- Cara, estou sem internet em casa. Me passa a senha do wifi, por favor??

- A internet caiu faz uns vinte minutos.

- Puta merda. Igual lá em casa...

Após alguns momentos de silêncio constrangedor, durante os quais ele continuou a arrumar a capa da moto, eu retomei o diálogo:

- Encontrei sua mãe no portão...

Ele interrompeu: - Você já disse isso

- Eu sei. O que eu ia comentar é que ela me pareceu um pouco abatida. Aconteceu alguma coisa com ela??

Ele respondeu secamente: - Ela está assim desde que eu recebi a convocação para servir no controle das rebeliões.

Essa notícia me pegou de surpresa. Eu já tinha ouvido sobre a convocação dos reservistas, mas não esperava que já estivessem sendo chamados tão cedo. Ainda me recuperava do choque da notícia quando ele me interpelou:

- Você não foi convocado??

- Sou filho único, se lembra??

- Filho de uma mãe sortudo de uma figa.

Tentando amenizar a situação, brinquei: - Se você deixar, eu posso me casar com a sua irmã, daí então você passa a ser o homem da casa, uma vez que seu pai já não tem condições de trabalhar, você poderia alegar que sua família depende de você.

Ele imediatamente respondeu: - Nos seus sonhos talvez, minha irmã não é para o seu bico.

- Cara, eu só queria te ajudar. - Repliquei

- Sei...

Perceptível abatimento se fez notar na sua última resposta, então perguntei: - Você está com medo??
E a resposta foi: - Depois do que eu vi ontem, poucas coisas me assustam nesse mundo.

A conversa havia atingido o ponto que eu queria. Como a iniciativa de tocar no assunto partiu dele, subentendi que ele estava disposto a falar sobre, então, perguntei:

- Você se refere ao que aconteceu ontem durante a trilha??

- Sim. - E você ficou sabendo que fui eu quem encontrou o corpo do William??

- Sim, eu soube. Disse tentando disfarçar minha curiosidade.

- E se eu bem conheço você, imagino que você queira saber dos detalhes. Certo??

- Surpreendido pela colocação, retruquei: - Julgas me conhecer tão bem assim??

- O suficiente. - Se bem me lembro, durante os nossos papos no trajeto do trabalho para a casa, os únicos assuntos que lhe empolgavam a manter um diálogo, eram aqueles relacionados ao sobrenatural e a morte.

- Sério. Era tão escancarado assim?? Resmunguei constrangido.

Ele sorriu discretamente, e respondeu:

- Sim..., mas tudo bem. É exatamente por você acreditar "nesses lances" que eu me sinto à vontade para lhe contar a versão completa do que aconteceu ontem... Com a única condição de que esses fatos não cheguem aos ouvidos de minha família e tão pouco ao conhecimento dos pais do William.

Estava começando a ficar com medo. Sua última frase veio carregada com uma frieza que fez os pelos do meu braço se arrepiarem. O que poderia ter acontecido de tão grave?? Intimamente, começava a me perguntar se eu queria seguir em frente e saber detalhes do ocorrido. Ainda repassava os pensamentos na minha cabeça quando o Matheus perguntou:

- Você acredita mesmo naquelas coisas que você me falava??

- Gosto de ler sobre o assunto, mas isso não faz de mim um expert, para dizer a verdade, sou cético com relação a maioria das coisas com que tenho contato. Para mim é um hobby, gosto da adrenalina que o medo causa. Só isso.

- Mesmo assim, você parece ter a mente mais aberta em relação ao assunto que qualquer um que eu conheça. Além do mais, compartilhar isso com mais alguém vai me tirar um peso das minhas costas, e se por acaso algo me acontecer algo durante as rebeliões, não quero carregar esse arrependimento comigo.

Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer. O Matheus então aproveitou para começar sua narrativa...


Autor: Alexandre Barbosa

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Sentimentos Indescritíveis

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26 de novembro de 2015, 18:00h, mais um assassinato realizado em Stelford, um lugar grande, com muitos habitantes. Maior parte pobre, menoria ricos e mendigos. Izaya, um jovem de 14 anos, vive por lá numa condição financeira razoável.

Um jovem cujo no amor não acredita, não tem amigos, adora matar e ver o desespero e sofrimento no rosto das pessoas. Ninguém nunca entendeu do porquê dele ser assim, apenas o temem para que não sejam sua próxima vítima. Em 2012, Izaya sempre foi uma ótima pessoa, simpático, amoroso e amigável.

Sempre andava feliz e amava uma certa garota com a aparência bem peculiar. Até que, algo terrível acontece: todos os seus colegas, principalmente a garota que tanto amava, o humilhava com palavras que nem sequer podem ser descritas por serem tão ruins.

Aquilo abalou o coração de Izaya, todo o seu amor, a sua simpatia, os seus amigos, foram embora. Até que, ao chegar em casa, percebe o desprezo de sua família para com ele. Izaya era visto como uma pessoa morta e infeliz aos olhos de sua família.

Após esse dia, ele fez um juramento com sangue dizendo que, jamais amará outra pessoa, que dedicará sua vida vendo outras pessoas sofrerem e vendo o quão ruim é este mundo.

- Vou matar todos eles, um por um. A humanidade não presta, bando de inúteis desgraçados e falsos fadados à morte, terei o sangue de cada um em minhas mãos. – Dizia Izaya com um sorriso psicótico.

As pessoas pensavam que Izaya tinha apenas uma mágoa efêmera dentro de si, já outras, pensavam que tudo aquilo era apenas ele querendo atenção. O olhar dele começou a ser diferente depois do ocorrido com seus colegas e em casa.

Diversas teorias sobre o sentimento de Izaya foram criadas após isso, mas no fim, foi considerado como um "Sentimento Indescritível".

Próximo dia se passa. Izaya acorda do mesmo jeito de sempre, com uma vontade imensa de matar alguém.

- Filho, seu café da manhã está pronto, venha comer! – Gritava a mãe de Izaya na cozinha.

- Já estou indo. – Diz com uma voz fria.

(Morra, maldita.)

Izaya desce, vai até a cozinha e se depara com sua família na mesa tendo um agradável café da manhã e ignorando-o. Daí de repente surge uma vontade imensa de querer o sangue de alguém:

(Preciso matar, eu quero matar. Devo matar toda a minha família aqui e agora? Devo realmente matá-los? Eu posso, eu tenho a vontade e a força, vou matá-los! hahahahah!) – Pensa Izaya desesperadamente.

Izaya se levanta da mesa.

- O que? Já acabou filho?

- Vou apenas pegar uma coisa alí na gaveta.

Izaya vai até a gaveta da cozinha e pega duas facas bem grandes que sua mãe costuma usar para cortar peixes e galinhas. Depois de pegar a faca, ele dá um sorriso malicioso e vai até a sua família que estavam comendo juntos na mesa.

- Morram!

Izaya começa pelo seu pai. Enfia a faca na sua nuca e depois remove-a rapidamente. Após isso, avança na sua irmã. Pega as duas facas e encaixam nos olhos dela. Depois, ele avança para a sua mãe cortando o seu pescoço e limpando o sangue de sua mãe no seu rosto. Seu irmão vendo isso, corre desesperadamente da cozinha, até que Izaya o percebe:

- Você não vai fugir, hahahaha! – Diz Izaya dando uma risada psicótica.

Izaya joga uma das facas em seu irmão que por sorte, pega certinho em sua canela. O irmão de Izaya, o único vivo dentre todos, cai no chão com a faca encravada na perna. Tentando andar um pouco para fugir do irmão, ele continua se arrastando até que Izaya chega perto dele e pisa fortemente na faca fazendo com que ela penetre mais sua canela.

- Isso não é horrível, irmãozinho? Essa dor desgraçada... Não é horrível pra você? Fique tranquilo! Farei você ter uma morte rápida seu desgraçado! hahahahahahahah!

Izaya vira o seu irmão de frente à ele. Pega a outra faca que estava na mão dele e começa a penetrar rapidamente em seu peito fazendo com que crie muitos buracos em sua barriga.

Toda a família de Izaya morreu, a cozinha estava coberta de sangue, um dos vizinhos viu tudo desesperadamente e ligou para polícia. Izaya conseguiu fugir rapidamente e hoje, vive num orfanato.

Autor: Izaya

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A Atração Abandonada da Universal Studios

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Era a primeira vez que eu visitava o parque, eu sou turista, vivo viajando e gosto de parques de diversão. Eu não imaginava, nem de longe que eu encontraria tal atração de tamanho mal gosto dentro de um parque tão famoso como a Universal. 

Eu voltei ao parque mais uma vez, porém tal atração já estava fechada, sem placas que indiquem o que existia ali na época em que fui lá. Por isso vou contar a seguir o que me aconteceu na primeira vez que fui ao parque. 

Foto de um dos cenários que existe dentro da Universal Studios. 

Cheguei ao parque com um carro alugado, estava sozinho, geralmente meus amigos que costumam viajar comigo não curtem parques de diversão e, além disso, a Universal tinha um preço salgado na época, que eles, até por não gostarem, não pagariam. 

Estava esperando o parque abrir em uma pequena fila que havia se formado na entrada. Ainda estava bastante cedo, mas eu queria ser dos primeiros a entrar. Era uma semana de março, suponho que muitas pessoas estavam trabalhando ou estudando, o parque não lotou muito, mesmo depois que abriu. 

Mesmo assim as filas eram gigantescas, quando digo que o parque não estava tão lotado, falo no sentido de que não havia muitas pessoas pelas ruas do parque, mas ainda assim percebi que só iria conseguir ir em três ou quatro atrações naquele dia. Filas duravam até 4 horas, fiquei bastante desanimado, mas iria aproveitar o dia mesmo assim, gosto de desafios. 

Fui em duas atrações e quando deu umas 5 p.m. eu já estava cansado e dei uma parada pra comer alguma coisa. Depois de comer decidi andar um pouco pelo parque, mesmo que eu não conseguisse ir em tudo, queria mesmo assim conhecer o parque por inteiro, aquele sentimento que só fã de parques têm. Fui para uma área do parque onde tinha uma atração com bandeiras de diversos países, aproveitei para tirar algumas fotos ali, porém continuei andando mais para o fundo até a atração “MIB – Homens de Preto”, na época (faz tempo que não vou ao parque e não sei se ela ainda existe hoje). Foi então que começariam os piores momentos da minha vida naquele parque. 

Do lado da atração MIB e onde hoje é um lugar inacessível e, provavelmente, vazio, havia uma atração diferente. Era uma espécie de mansão e o nome era “Real Life” (vida real), tentei pensar em qual filme a atração se baseava, mas não me lembrei de filme algum com esse nome ou que tivesse uma mansão que fosse de longe parecida com a mansão que era a fachada dessa atração. Decidi chegar mais perto para ler a placa que fala sobre as restrições da atração, quando percebi que a fila estava bem menor do que em outras atrações, tinha umas 30 pessoas no máximo naquela fila, até a grade tinha um formato desenvolvido para receber poucas pessoas. Entrei na fila na intenção de perguntar se era uma atração paga, porque as únicas que tinham filas tão pequenas como aquela eram pagas, porém a pessoa me disse que aquela atração estava incluída no valor do ingresso. 

Então decidi ir conferir essa atração (por que não?), não imaginava que encontraria ou veria algo bizarro lá dentro, a mansão tinha uma cara animadora, apesar de algumas atrações de terror que havia no parque na época, por fora não parecia ser o caso dessa. Havia crianças na fila, o que eu não estava ligando muito naquele momento, mas que me importaria depois pelo choque emocional que elas sofreriam dentro dessa atração, eu realmente não esperava ou imaginava o que eu acabei encontrando ali dentro. 

A fila, apesar de pequena foi bastante demorada. Entravam em grupos pequenos de cinco ou seis pessoas (seis quando uma delas era uma criança com um responsável) e demorava cerca de 20 minutos, antes de entrar o próximo grupo, ou até mais, porque eu estava olhando no relógio... Já era quase 6 p.m. quando estava chegando a minha vez de ir, algumas pessoas haviam entrado atrás de mim na fila até esse momento, mas nada que me fizesse prever o que eu iria testemunhar lá dentro. 


Ainda demorou cerca de mais 25 minutos antes de eu conseguir alcançar a entrada, já estava quase desistindo, pois começava a escurecer. Porém cheguei finalmente á entrada. 

Um senhor disse que era proibido tirar fotos dentro da atração e que o percurso era feito a pé e que não podíamos correr ou tocar nos atores... Seguimos em frente para dentro da atração, era uns largos cinco degraus de concreto antes de alcançarmos a entrada da grande mansão, logo imaginei um labirinto (como era algumas atrações do parque), havia uma criança no meu grupo e eu me sentiria mal em breve por tudo o que ela viria dentro dessa atração. 

Logo no primeiro cenário da atração, eu percebi que aquilo era absurdamente anormal. O primeiro cenário era uma cama bastante suja com garrafas de bebidas vazias, um garoto loiro e magro que chorava em uma cama suja enquanto aplicava nele mesmo o que parecia ser heroína ou alguma droga injetável. Aquilo era tão real que me dava nojo, ele então deitava ainda com a agulha no braço e chegava a vomitar em determinado momento da “atuação”, era bastante pesado aquela cena além de ser muito nojento. Depois disso ele pegava uma colher e colocava um isqueiro aceso debaixo dela, a fumaça que saía dali fedia muito, parecia droga de verdade. Eu fiquei bastante comovido com a cena que vi, a criança que estava no grupo começou a chorar, eu logo percebi que ela não deveria estar ali. 

O mais estranho dessa atração, e que eu consigo me lembrar agora enquanto escrevo, é que não haviam portas de saída de emergência em lugar algum ali dentro, portas das quais haviam em enorme quantidade em todas atrações que fui antes dessa. 

Continuamos andando, eu já não queria ver o que teria no próximo cenário, queria voltar, queria sair, aquilo era horrível, uma brincadeira de mal gosto! Mas tivemos que seguir em frente. Passamos por um corredor onde vimos um armário de madeira onde havia vários pinos de cocaína e seringas espalhados sobre ele, achei aquilo ainda mais desumano do que o cenário anterior, não sabia o que estava por vir... 

O segundo cenário era uma cozinha onde um ator estava amarrando uma corda no teto e no próprio pescoço e quando passávamos por ali, ele chutava a cadeira em que estava. Era um suicídio, estava claro isso. Ele se debatia enquanto estava pendurado apenas pelo pescoço, eu vi enquanto ele ficava roxo, era uma cena tão pesada pra mim e para todos que ali estavam. Muitos não queriam ver e até tamparam o rosto. Depois ele parava de se debater em um tom mórbido e cadavérico, eu me pergunto até hoje se ele não se matou de verdade ali, porque eu posso jurar que o vi morrer, eu vi os olhos dele esbugalhados e ele ficando roxo enquanto buscava ar, era horrível, perverso e totalmente anormal algo nesse teor em uma atração que deveria ser divertida. 

Passamos por mais um corredor, dessa vez era um corredor onde passávamos por meio de cordas com nós de enforcamento (o parque estava mesmo nos convidando a nos matar?). 

Em seguida entramos em outro quarto, nesse outro quarto havia uma garota seminua e um cara sem camisa, o cara parecia ter 40 anos e não era bonito, a garota era bonita como deveria ser, porém parecia ter menos do que 21 anos!! Ele a pagava com notas de dólares, ela colocava o dinheiro na bolsa e começava a ter ato sexual com ele, era uma encenação, porque ela não fazia nada explicitamente, mas a intenção do cenário ficou bastante clara. Pedofilia. 

Continuamos andando, o pai da criança já comentava sobre procurar algum funcionário para reclamar sobre isso, eu também queria fazer isso quando saísse dali, era horrível esse tipo de brincadeira não tinha graça alguma e não havia nada divertido ali dentro. 

Passamos por mais um corredor aonde vimos mais um armário e uma arma nele. Havia outras armas penduradas na parede como espingardas e armas antigas, porém no armário havia uma réplica de uma arma bastante usada atualmente, um calibre 38. Eu só lembro disso porque havia uma placa perto do armário e abaixo de todas as armas indicando qual era o modelo de cada uma delas. 

Entramos em mais um cenário, esse cenário era um bar, um cara entrava com uma arma como a que estava dentro do armário apontando para a cabeça do atendente atrás do balcão. Ele pedia para o cara do balcão passar todo o dinheiro pra ele, mas o cara se recusava, eu já imaginava que veria algo que não queria ver, mas isso foi cruel. Ele deu três tiros na cabeça do atendente, foi tão real que eu comecei nesse momento a me perguntar se isso era uma brincadeira de muito mal gosto ou era real. O atendente caiu atrás do balcão desacordado, após 3 buracos estourarem em sua cabeça com muito sangue. Eu corri para ver o que havia acontecido com o ator, porque aquilo não parecia ser brincadeira, mas o cara que segurava a arma me impediu, disse pra continuar andando pela atração. Todo mundo já estava em estado de choque. 

Passamos por mais um corredor, esse era um corredor vazio e num branco translúcido, eu diria que era um branco mais branco do que o branco, porque refletia a luz dali, era um corredor bizarro. 

Então entramos no último cenário. O último cenário era uma sala redonda com um desenho de um palhaço gigante na parede que estava na nossa frente. Havia cinco portas, onde somente o pai com o filho entraria acompanhado de alguém em uma delas. Havia um aviso de que tínhamos que escolher portas separadas onde só podia entrar uma pessoa em cada porta, fizemos isso. A criança já estava chorando bastante e o pai dela nervoso. 

Como se houvesse uma câmera no local, assim que nos colocamos na frente de cada porta, elas se abriram. Eu segui em frente, já estava com bastante medo, não sabia o que iria ver ali dentro, mas não queria ver mais nada dessa atração desgraçada. 

Esse último cenário era um quarto escuro, que assim que entrei, não sabia se continuava andando ou parava de andar, a porta se fechou atrás de mim. Ouvi risos por todos os lados e decidi continuar andando. Esbarrei em algo gelado na minha frente, era algo pendurado e gelado, parecia um boneco, mas estava muito frio e fedia. Risos continuavam por todos os cantos daquele cenário. Ouvi alguém dizer no alto-falante que agora eu era condenado porque tinha visto a vida real, ou algo do tipo, pois não me lembro direito (e nem quero lembrar) e ele terminou a frase em mais risos. Eram risos agudos e graves, não eram risos da mesma pessoa. Eu havia parado de andar ao esbarrar naquilo que estava na minha frente, aquele lugar fedia demais. A luz então começou a piscar e eu vi, vi o que eu não queria ver! 

Naquele quarto havia diversos cadáveres. Era muito real. Eles estavam no chão empilhados, alguns pendurados nas paredes ou no teto por correntes, eram crianças, adultos e animais. Era uma cena muito nojenta e de muito mau gosto e então percebi que cheiro era aquele, era um cheiro de formol misturado com podridão, era um cheiro horrível e que até hoje não me esqueço. A imagem que eu via diante dos meus olhos era inacreditável, eram cadáveres reais, era tudo muito real. Então uma porta que levava para fora da atração se abriu em uma das paredes e, finalmente, eu saí. 

Nunca vou me esquecer dessa atração. Fui até o SAV e reclamei dela, era uma brincadeira de muito mau gosto, se é que era uma brincadeira. Fui embora logo em seguida, estava me sentindo mal para continuar no parque. 

Quando voltei ao parque em Dezembro do mesmo ano, a atração não existia mais. Existia um local vazio, placas haviam sido tiradas e o local estava cercado por tapumes. Dava pra ver que a mansão ainda existia atrás daqueles tapumes, mas não estava mais funcionando (ainda bem). 

Hoje dizem que ali não há mais vestígios do que era a atração “Real Life”, mas eu nunca mais voltei ao parque para ver isso. Eu ainda sinto nojo do parque por fazer uma brincadeira de tão mau gosto com os visitantes e com várias crianças que chegaram a entrar na tal atração e que hoje devem ter traumas irreversíveis. Quando as pessoas me chamam para ir ao parque eu me sinto mal, pisei só duas vezes no parque, sendo que na segunda vez eu já não me sentia tão bem só de me lembrar da tal atração... E minha história é essa.

Autor: Silas Tib. Almeida

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Criatura das Sombras

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Lá estava eu, sozinho, em casa, mais um dia de trabalho tinha passado e nada de novo havia ocorrido, aquele velho sistema: acorda, trabalha, dorme. Minha vida pessoal também permanecia calma, sem muitas saídas com os amigos ou colegas de serviço, até porque, trabalho bem longe, no meio de uma rodovia à 30 Km da minha casa, mas como minha família possui uma chácara que fica à 3 Km de distancia da fábrica optei por começar a morar sozinho.

De começo não parecia uma idéia boa, teria que fazer todos os serviços como limpar a casa, organizar o quarto e preparar comida, mas com o tempo, comecei a levar a vida à minha maneira, preparava coisas simples pra comer, limpava a casa de vez em quando (até porque não recebia visitas) e o quarto deixava bagunçado mesmo.

Talvez o único medo que eu tinha era o que minha mente criava, pois sou criativo. Então qualquer barulho que acontece fora de casa já estou olhando pelos vidros. Faz um ano e meio que já estou nessa vida, mas algo mudou está noite.

Era aproximadamente umas onze horas da noite já estava deitado na cama quando os cachorros começaram a latir sem parar, fui para a janela lateral ver se via algo onde eles estavam, eles estavam na lateral da casa olhando para o portão, então me dirigi até a janela da sala, quando olhei para o portão pude ver uma figura parada, me assustei mas permaneci observando, fui buscar meu celular no quarto e vi que estava sem sinal, voltei para frente e a pessoa havia sumido, imaginei, foi embora, está tudo bem, os cachorros se calaram e fiquei na cama alerta.

Estava quase dormindo quando ouvi barulho no porão, olhei para baixo e pude ver luz atravessando pelas frestas do piso de madeira, entrei em pânico, sabia q não podia me mover para não dar sinal de movimento, permaneci quieto até ouvir a porta se fechar, avancei em direção a sala e me posicionei na escada que levava para o sótão agora, subi ela em silêncio e fiquei observando pelo buraco. Ouvi o trinco sendo forçado até que uma porrada quebrou ele, agora a casa estava aberta, permaneci atento, escondido, a pessoa andou por toda a casa, ate começar a subir a escada. no que ele chegou pude ver que não tinha o rosto a mostra, usava uma mascara preta que impedia de ver qualquer aparência humana nele, porem fiquei assustado quando não vi nada em suas mãos, faca ou arma.

No momento em que estava indo para o outro lado do cômodo, ele desapareceu na escuridão, fiquei atento e assustado, me perguntando como ele fez isso. Então escutei um estralo na madeira, virei para o lado e vi a figura parada me observando, no que tentei me mover para fugir o ser pulou em cima de mim, começamos a rolar, eu não o espancava, apenas tentava afastá-lo, mas nada funcionava ate que ele consegui me deixar contra o chão, colocou suas mão em meu pescoço e apertou, comecei a sentir a dor e desespero, tentava afastar as mãos mas sem sucesso, até que decidi, num ultimo momento de respiro tentar ao menos ver o rosto de meu assassino, coloquei a mão em sua mascara, e no mesmo momento suas mão afrouxaram eu meu pescoço, ele permaneceu estático, não dei muita bola, e quando puxei amascara, dentro do gorro, não havia nada, apenas um vazio, e todo o ser se desfez em um resto de fumaça negra.

Me senti aliviado, livre e vivo, dormi ali mesmo. Na manha seguinte acordei com a mascara em mão ainda, a levei pro porão, peguei uma caixa de madeira e a enterrei. Me pergunto agora enquanto vou trabalhar se venci a Criatura das Sombras de vez, ou se ela irá retornar algum dia.

Autor: Ricardo B.

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