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Desafiei Meu Melhor Amigo a Arruinar Minha Vida (PARTE 1)

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Meu nome é Zander, e meu melhor amigo está tentando arruinar minha vida. Começou insignificantemente, mas rapidamente ficou fora de controle.

Estou atualmente sentado dentro de uma igreja, usando o Wi-Fi daqui para postar essa história e, claro, aproveitando o ar condicionado. Estou postando essa história caso... Bem, no caso dele me encontrar e me matar em breve. É apenas uma questão de tempo agora, e quero que alguém saiba o que aconteceu antes de eu morrer.

Dois anos atrás, meu amigo David e eu estávamos sentados no sofá da minha casa completamente entediados. Mas não era um tédio temporário. Era um tédio em geral com a vida. Nós dois trabalhávamos em tempo integral no cinema local, conseguindo um salário mínimo limpando a sujeita de idiotas que não conseguiam colocar direito suas pipocas e  seus refrigerantes dentro da boca. Dois anos antes tínhamos nos formado no ensino médio e não tínhamos planos de cursar a faculdade.

A vida parecia vazia para nós. A faculdade não soava atraente, o trabalho era chato e o pouco tempo livre que tínhamos era gasto em videogames e no YouTube.   Ainda por cima. nós dois ainda vivíamos com nossos pais, o que tornava a paqueras um pouco constrangedoras. Olhando agora, tenho certeza de que estávamos sofrendo com uma leve depressão, acima de tudo.

Essas circunstâncias da vida se misturaram para criar a tempestade perfeita que agora tenho que chamar de minha realidade.

Enquanto estávamos sentados no sofá da casa dos meus pais, procurando algo para ver na TV, David me perguntou se eu estava entediado com a vida. Respondi no positivo, e ele suspirou.

“O ensino médio foi muito fácil porque sabíamos nossos propósito e nossos objetivos era pré-estabelecidos para nós. Faça o resumo de inglês. Termine o dever de matemática. Tenha notas decentes. Passe no exame de habilitação. Esteja em casa pelo toque de recolher. Consiga uma namorada. Agora que saímos do ensino médio, não há uma estrutura. Nossas vidas se tornaram sem sentido e estamos apenas flutuando no espaço sem objetivo ou propósito”.

"Você voltaria para o ensino médio, então?" Perguntei. Ele sacudiu a cabeça.

“Naquela época, o ensino médio era entediante. Só agora, olhando para trás, que vejo como era melhor do que achava ser. ”

"Qual a solução, então?" Perguntei.

“Ou vamos para algum lugar que tenha estrutura e possa nos dar o que a escola nos deu, ou criamos nossa própria estrutura”, respondeu David.

"Bem, eu não quero ir para a faculdade nem me alistar no exército", falei. “E não consigo pensar em nenhum outro lugar que forneça a mesma estrutura. Acho que tenho que fazer a minha própria, mas não tenho ideia de por onde começar."

“A verdade sobre o ensino médio era que exigia um esforço mínimo. Se você não desse o  seu mínimo de esforço, enfrentaria as consequências. As conseqüências eram ruins o suficiente para que você e eu fizéssemos um esforço na escola. Quando o ensino médio acabou, esse nível mínimo de esforço diminuiu. Agora nosso esforço mínimo não é suficiente para melhorar nós mesmos. Qualquer que seja a estrutura que construímos, essas consequências devem ser incorporadas e um esforço mínimo que nos faça melhorar constantemente. ”

David era, e é, uma pessoa muito intelectual. Pensa em tudo, se você já não percebeu. Eu era bem burro comparado a ele, mas sempre fiquei por perto porque ele sempre tinha coisas interessantes para dizer. Essa conversa definitivamente era classificada como interessante.

Não vou te entediar com toda a conversa que tivemos, mas durou mais de uma hora onde discutíamos como construir estruturas em nossas vidas.

Eu quero  deixar enfatizado aqui que o tédio é perigoso. Bem, não é perigoso por si só, mas pode levar a coisas perigosas rapidamente. O tédio pode levar à dor, bebês acidentais, tecnologia que destrói  monopólios e até a morte.

Nosso tédio levou a um desafio.

"Eu te desafio a tentar arruinar a minha vida", David disse.

"Como assim?" Perguntei.

“É uma maneira de construir estruturas na minha vida. Se eu sei que você está sempre tentando arruinar minha vida e ativamente tentando me fazer ser um fracasso, então serei obrigado a lutar e agir com iniciativas. ”

"Mas como eu poderia arruinar sua vida?", perguntei.

"Você poderia arruinar a vida de qualquer pessoa se pensar bem o suficiente, ter planejamento e ação", David disse, sorrindo. "Não vou te dar nenhuma ideia. Eu só quero que você tente arruinar a minha vida."

Me lembro de me recostar no sofá e pensar no que ele queria dizer com aquilo. Os primeiros pensamentos que me vieram à mente era fazê-lo tropeçar de vez em quando, ou esconder sua escova de dentes toda vez que eu fosse na sua casa. Minha mente jovem não entendia totalmente o quão sério David estava tratando aquele desafio. Sua mente estava correndo três vezes mais que a minha, então eu não sabia no que estava me metendo quando disse: "Tá, eu vou tentar arruinar sua vida. Mas eu te desafio a tentar arruinar a minha vida também."

Sorriu com um novo entusiasmo e eu sorri de volta. Eu esperava que fosse uma ótima maneira de aliviar nosso tédio com a vida. David se levantou e me deu um soco na perna o mais forte que pôde. Gritei, principalmente de surpresa. Ele apenas riu.

"O desafio começa agora", falou, pegando seus sapatos. "Nós não somos mais amigos, somos inimigos." Abriu a porta da frente e olhou por cima do ombro. "Boa sorte", falou. "Espero que você se esforce ainda mais do que eu."

Depois que ele saiu, apenas fiquei lá esfregando minha coxa dolorida. , pensei, se ele quer guerra, vai ter guerra.

Naquela noite, fiquei acordado tentando pensar em maneiras de tornar sua vida mais difícil. Minhas idéias eram todas absurdamente infantis e inúteis em comparação com o que ele mais tarde jogaria para cima de mim. Tenho vergonha de listar minhas idéias daquela época.

Eu gostaria de poder dizer que me lembro do dia em que David se voltou contra mim de verdade. Mas foi tão sutil que não notei imediatamente. Na minha frente, David agia completamente normal.

Enquanto estávamos no trabalho, eu jogava pipoca em uma sala que acabara de limpar e colocava a culpa nele. Ele apenas ria e dizia: “Isso deveria arruinar minha vida?” Então ia lá e limpava tudo. Eu esperava que ele fizesse o mesmo comigo, mas não fez. Sua falta de retaliação visível me deixou entediado novamente, então parei. Olhando para trás, suspeito que nas minhas costas ele estava sabotando minha imagem com nossos outros colegas de trabalho e com nosso chefe.

Do nada, meu chefe me chamou em seu escritório e me disse que eu tinha sido demitido por não estar fazendo um bom trabalho. David demonstrou estar triste  que eu estava saindo e prometeu que logo sairíamos juntos novamente.

Fui embora, pensando que poderia fazer daquilo algo bom e conseguir um emprego de verdade. Esse sonho morreu e acabei parando no McDonald's.

Depois de estar  trabalhando no McDonalds por um mês, meus pais me confrontaram. Perguntaram se eu estava roubando dinheiro de suas carteiras. Eu nunca roubei um centavo deles e foi o que respondi. Eles recuaram, mas apenas por uma semana, até que o cartão de débito da minha mãe desapareceu.

Me confrontaram novamente, desta vez com muita raiva. Me acusaram de roubar centenas de dólares usando o cartão de débito da minha mãe. Eu não tenho irmãos, então não podia ser mais ninguém na casa. Se transformou em uma luta de gritos e exigiram que eu saísse  de casa o mais rápido possível. Com minha pequena reserva de poupança, encontrei um apartamento perto da faculdade comunitária local que abrigava estudantes universitários. O aluguel era acessível o suficiente para mim, então me mudei no mesmo mês.

Me mudei e fiquei amigo de dois dos meus companheiros de quarto imediatamente, Clark e Ivan. Nosso outro colega de quarto, Isaac, ficava mais em seu quarto jogando videogames 24/7, meio isolado. Minha vida vida melhorou novamente porque eu saía com Clark e Ivan com frequência.

David e eu paramos de nos ver depois que fui demitido do cinema. Eu não tinha me esquecido dele, mas tinha me esquecido do desafio. De vez em quando, mandava uma mensagem para ele no Facebook ou um SMS para perguntar se queria sair, mas minhas mensagens eram sempre ignoradas. Eventualmente desisti.

Dentro de seis meses, minha vida estava ótima. Estava namorando uma garota chamada Katie, fui promovido a instrutor no McDonald’s, o salário era melhor, e minha conta bancária crescia lentamente.

Só reconheço isso como um feito de David quando olho para trás, mas uma quantidade obscena correspondência começou a aparecer no meu nome todos os dias. Revistas, ofertas de cartão de crédito, propostas de viagem e até mesmo cartas físicas de pessoas reais que diziam estar entusiasmadas de começar a trocar cartas comigo. Classificava-os todos os dias tentando encontrar algum padrão. Clark e Ivan achavam hilário. Quando chegava em casa tarde do trabalho,  às vezes eles atiravam a correspondência para cima como se fossem confetes quando eu entrava pela porta, comemorando que o Rei das Cartas tinha chego em casa.

Um dia, lembro de estar cansado de receber todas aquelas cartas e decidi me sentar, ligar para todas as assinaturas e cancelar. Recrutei Clark e Ivan para me ajudar, e em uma tarde nos sentamos com um monte de porcarias para comer e começamos a ligar para todos. 

Em poucos dias, a maré do correspondência diminuiu e comemoramos nossos esforços. Isso durou apenas uma semana.

Na semana seguinte, voltou com força total. Havia o dobro do que antes, e até algumas revistas pornográficas no meio. E não apenas minhas correspondências físicas aumentaram, mas meu e-mail tornou-se inútil com todas as novas mensagens de spam que apareceram. O Google ainda filtrava muitos como spam, mas ainda havia centenas de e-mails que conseguiam passar para a minha caixa de entrada. Meu e-mail tinha sido inscrito em sites dos quais nunca ouvira falar.

Clark e Ivan ficaram impressionados com a nova onda de correspondências inúteis. O evento foi apelidado de “A volta das Porcarias” e se tornou um grande quebra-gelo para Clark e Ivan me apresentarem a outras pessoas em festas.

Um dia eu estava navegando na seção "pessoas que você pode conhecer" do Facebook quando me deparei com o perfil de alguém que tinha minha foto, mas com um nome diferente. A conta estava aberta para qualquer pessoa ver e tinha muitas postagens com pornografia, atualizações de status cheias de palavrões e elogios a Hitler. Fiz uma careta quando cliquei em nas fotos. A maioria das fotos eram as mesmas da minha conta do Facebook, mas havia algumas fotos minhas que não estavam na minha conta ou em qualquer outro lugar na internet. Lembre-se, nessa época eu não lembrava do meu desafio com David, então eu estava muito assustado.

Apertei o botão denunciar e deixei o Facebook saber que a conta era falsa e segui meu caminho.

Acho que três meses depois foi quando mais coisas começaram a acontecer. Katie e eu estamos ficando mais seriamente e discutimos sobre morarmos juntos. As correspondências ainda chegavam, mas comecei a simplesmente jogar fora. Ivan se mudou para ir  para uma universidade de verdade, então um novo colega de quarto, Jackson, veio morar com a gente. Clark e eu tentamos fazer amizade com Jackson, mas ele era parecido com Isaac e se trancava em seu quarto a maior parte do tempo.

Um novo jogo tinha ficado disponível para pré-venda, então mandei um e-mail para reservar uma cópia. Quando tentei fazer login no meu e-mail para verificar se o código de reserva estava lá, não consegui fazer entrar. Pressionei "Esqueci a senha" e perguntei se queria usar meu número de telefone para redefinir a senha. Cliquei no sim e esperei meu telefone acender. Isso nunca aconteceu. Apertei o botão mais três vezes, mas nenhum a mensagem de texto chegou. Tentei senhas antigas que costumava usar, mas nenhuma funcionava. Franzi o cenho, mas acabei apenas desligando o computador. Tentaria novamente em um dia diferente.

Me sentei no sofá e abri o Facebook no meu celular. Um pop-up apareceu. Dizia "você foi desconectado". Então voltou para a tela de login. Achei ter apertado  acidentalmente o botão de deslogar, então digitei meu e-mail e senha. Não funcionou. Tentei novamente, mas ainda dizia que a senha estava incorreta.

Meu celular tocou na minha mão. Katie estava ligando. Atendi e imediatamente fiquei preocupado. Ela estava soluçando.

"Katie?" 

"Você covarde", ela cuspiu. "Você não pode simplesmente me mandar aquele monte de merda no Facebook, não, você tem que pelo menos me falar com sua voz."

"Katie, do que você está falando?", Perguntei.

“Não se faça de idiota. Fale!"

"Falar o quê?"

“Você fala pelo Facebook que está terminando comigo, mas quando te ligo, você nega tudo? O que diabos você está tentando fazer, Zander?” Katie sibilou.

“Katie, meu Facebook foi hackeado! Eu estava literalmente tentando entrar quando você ligou. Você está em casa? Estou chegando. Nós não terminamos, estamos longe de nos separar, meu amor."

Demorei um tempo para convencer a Katie de que não tinha sido eu, mas ela cedeu quando mostrei a ela que não conseguia fazer login. Procurei no Google como recuperar minha conta do Facebook e entrar em contato com o centro de ajuda deles. Felizmente, conseguiram me colocar de volta na minha conta. Muitos links para sites pornográficos foram postados em toda a minha página por quem tinha roubado minha conta, então perdi muito tempo apagando todos eles. Também passei um tempo respondendo a membros da família que perguntavam sobre o “conteúdo estranho” que eu vinha postando. Constrangedor.

Katie também descobriu através das outras redes sociais que meu Twitter e Instagram também tinham sido hackeados. As contas estavam postando centenas de mensagens e fotos grosseiras. Esses dois foram um pouco mais difíceis, mas acabei recuperando também. Arrumar meu e-mail levou alguns dias, mas consegui. 

Não querendo passar por aquela experiencia de novo, fiz minhas senhas em longas sequências de números, letras e símbolos. Cada conta tinha uma senha diferente. Para quem já fez isso, você sabe como é impossível memorizar essas senhas. Eu escrevi em uma folha de papel e coloquei na minha gaveta. Não pretendia ser hackeado novamente.

Estou lhe contando onde coloquei o papel para que entenda como fiquei apavorado quando o Facebook me sinalizou de novo na semana seguinte. Verifiquei minhas outras contas. Bloqueado novamente. Mandei uma mensagem de texto para avisá-la e liguei para a central de ajuda do Facebook novamente. Eles me deram acesso a minha conta e me deram o mesmo aviso de fazer uma senha longa. 

Quando expliquei o tipo de precauções que eu havia tomado da última vez, sugeriram que procurasse por algum vírus no meu computador, caso houvesse um keylogger coletando todas as informações que eu digitava.

Liguei para um centro de reparos de computadores e perguntei o que precisava fazer para que meu computador fosse checado. Eles me pediram para levar lá e dariam uma olhada. 


Eu tinha um computador de mesa, então "levar lá" exigia muita desconexão de cabos. Quando me sentei atrás do computador para desligar tudo, encontrei um minúsculo pendrive que nunca havia visto antes. Franzi o cenho e tentei localizar seu conteúdo no computador. O computador disse que não havia um USB conectado.

O técnico confirmou que o pendrive era um keylogger. Perguntou se meu computador já esteve em qualquer lugar que alguém pudesse ir lá e usá-lo. Falei que não e ele disse que não tinha ideia de como poderia ter parado lá. 

Não me cobrou nada, apenas me avisou para ficar de olho no meu computador.

Mudei todas as minhas senhas novamente, passando por todo quele processo para recuperar minhas contas.

Alguns dias depois, recebi três, sim, três contas de cartão de crédito pelo correio. Eu ainda tinha o hábito de folhear o lixo eletrônico para o caso de haver algo super importante. Fico feliz que o fiz, porque talvez nunca tivesse descoberto os cartões de crédito que estavam registrados no meu nome.

Liguei para as empresas de cartão de crédito para informá-los de que tinham cometido um engano. Eu nunca tinha pedido um cartão de crédito. Meus pais tinham falado tão mal sobre os hábitos de tê-los que eu nunca cheguei a fazer um para mim.

Uma rápida pesquisa no Google me disse o que fazer a seguir. Eu liguei para a Equifax, que é uma empresa que calcula sua pontuação de crédito e diz aos credores que não há problema em você abrir uma conta de crédito. Coloquei um alerta de fraude de 90 dias no meu crédito. Eles disseram que me ligariam se alguém tentasse abrir uma conta de crédito em meu nome.

O cara da Equifax fez a gentileza de me dizer o que eu precisava fazer em seguida. Me pediu para ver o meu relatório de crédito pela internet. Se eu visse quaisquer contas que não reconhecesse, deveria anotar e fazer uma queixa à Comissão Federal do Comércio explicando a situação. Depois disso, tinha arquivar uma cópia disso com a polícia e fazer um boletim de ocorrência. Então tive que pegar esses dois relatórios e ligar para cada uma das empresas de crédito que haviam emitido crédito no meu nome e começar o processo de disputa. Imediatamente me senti muito desanimado com a quantidade de esforço que isso exigiria. Parecia loucura ser obrigado a seguir todos esses passos só porque eu era vítima de roubo de identidade. Desgraça.

Clark ficou horrorizado com o que havia acontecido e até verificou para sua pontuação de crédito. Ficou aliviado quando viu que não tinha nada. Fiz Katie verificar o dela também, só pra ter certeza. Também estava limpo.

Quando descobri as contas, liguei para os meus pais para perguntar se tinham aberto alguma conta em meu nome. Se esse fosse o caso, pelo menos saberia quem era o culpado. Me disseram que não haviam aberto nenhuma conta e eu os avisei sobre meus problemas. Eles prometeram verificar suas pontuações de crédito.

Duas semanas depois que liguei para eles, meu pai ligou. Eles encontraram quinze contas fraudulentas nos nomes deles. Mas que porra era aquela? Dei os passos que precisavam fazer, e falaram que estavam muito agradecidos pelo meu aviso.

Sei que isso é meio chato de ler, mas quero que vocês percebam a loucura dolorosa que foi consertar toda essa merda. Sério, deem uma conferida nos créditos de vocês antes que tenham que passar por tudo que eu passei.

Pedi contas detalhadas das empresas de cartão de crédito que haviam emitido as contas fraudulentas e essas foram enviadas para mim. As contas estavam cheias de compras online. Tinham sido abertas há quase um ano e, nesse período, o ladrão gastou  cerca de 62 mil dólares juntando todas as contas fraudulentas. Fiquei muito chateado que em um ano inteiro, não tinha verificado contas de cartões de crédito que chegavam pelo correio. Eu devo ter jogado tudo fora junto das montanhas correspondências inúteis. Agora entendo que as montanhas de correspondências inúteis foram deliberadamente calculadas para que as contas se misturassem e esperançosamente fossem jogadas fora.

As primeiras compras tinham sido foram de lojas tipo Target, Walmart, etc. Mas quanto mais eu procurava, mais eu achava. Uma palavra se destacou entre tantas: Bitcoin. Eu tinha aprendido um pouco sobre isso em matérias que vi meu feed do Facebook, já que eu tinha alguns amigos do ensino médio que o diziam ser a próxima moeda oficial do mundo. De acordo com os extratos do cartão de crédito, vários milhares de dólares haviam sido trocados por bitcoins.

Comecei pesquisando sobre os bitcoin e tentando descobrir o que era e por que um ladrão de identidade iria querer aquilo. Para simplificar a explicação, o bitcoin permitia que meu ladrão fizesse compras online completamente anônimas. Era como se ele tivesse ido a um caixa eletrônico e esvaziado todos os cartões de crédito só que em dinheiro. Eu não achava que as empresas de cartão de crédito receberiam seu dinheiro de volta.

David agora tinha um monte de dinheiro que poderia usar para arruinar a minha vida. Eu não sabia, obviamente, que na época ele era responsável por tudo isso, mas agora eu sei.

Pessoal, roubo de identidade é um crime sério e é muitíssimo prejudicial para todos na economia. E enquanto esse roubo tinha sido ruim, minha vida estava  prestes a ficar muito pior.

É tudo que tenho tempo para escrever por agora. Tenho que ir e cuidar de uns problemas fodidos. Vou escrever de novo assim que puder.

Meu nome é Zander e meu melhor amigo está tentando arruinar minha vida.




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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TAMAN SHUD - Capítulo 3

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Através dos anos havia se tornado involuntariamente um barqueiro, experiente nas tarefas de manutenção de grandes barcos, e tinha um emprego fixo no porto. Não tinha mais muitas preocupações, conseguia dinheiro para comprar sua comida e manter sua casa, não pensava em mais nada, não pensava em filhos, em esposa, em muitos amigos e nem no passado. Principalmente no passado.

Em uma manhã de segunda-feira, Agungu, um colega de trabalho de Erick apareceu em sua casa com seu pastor alemão e amigo inseparável Budi, estava ofegante, mas esboçava um grande sorriso no rosto:

- Tenho grandes novidades meu amigo – Disse Agungu quase não conseguindo concluir a frase por falta de ar – Como você deve saber, o Ourang Medan está pronto para o mar, e o Capitão me convidou para fazer parte da tripulação.

- Parabéns Agungu – respondeu Erick ainda com o que restava de sua expressão mais indiferente.

- Ah, meu caro amigo, você acha que viria aqui correndo até sua casa somente para me gabar de ter conseguido uma grana extra? O Capitão perguntou se eu conhecia mais alguém capacitado e eu indiquei você, ele pediu para te chamar, então? O que me diz? Vamos trabalhar juntos e embarcados!

- Eu recuso, obrigado pelo recado Agungu

Confuso demais para dar uma resposta de imediato, Agungu involuntariamente esperou alguns minutos em silêncio até responde-lo:

- Do que você está falando Erick? A grana é boa! O emprego é bom, qual o seu problema?

- Eu não trabalho mais embarcado

- E você chegou aqui como? Passou anos trabalhando embarcado, você sabe o que fazer. Enfim, repensa isso Erick, o que você tem a perder?

Erick permaneceu em silêncio com sua expressão de sempre. Budi se aproximou de Erick e enfiou a cabeça entre suas pernas e abanou o rabo. Erick acariciou-o e esboçou algo próximo de um sorriso.

- Budi vai conosco, repensa isso – Disse Agungu mais uma vez antes de se virar e partir.

No dia seguinte as 05:00 horas da manhã como de costume Erick estava no porto, pôde dar mais uma olhada no Ourang Medan e se imaginou embarcado mais uma vez, talvez não fosse uma ideia tão ruim, também seria bom porque não teria mais tanto tempo livre para ficar acordando fantasmas de seu passado. Na metade da manhã daquele mesmo dia confirmou sua presença na embarcação com o Capitão e avisou Agungu, que o convidou para fumar uns charutos e beber a noite. Erick recusou, iria ir para casa se organizar, partiriam em breve.

Autor: Alison Silveira Morais

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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (FINAL)

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Tenho que ser honesto; quando postei a primeiro entrada desses registros, lá no meu quarto no norte de Londres, não achei que iria tão longe. Afinal, por que iria? Eu não era um colaborador regular aqui nesse fórum, nem um experiente veterano sobre assuntos paranormais. Eu era apenas um homem que sentia falta de uma amiga, buscando algumas palavras de sabedoria em um fórum  online, aberto à ideia de que não levaria a lugar nenhum.

Não preciso dizer o quão errado eu estava. 

Nos últimos dois meses, os incríveis conselhos que recebi deste fórum e as dicas que você me enviaram abriram mundos inteiros de possibilidades. É graças a todos vocês que estou onde estou agora; sentado em um carro alugado em uma rua tranquila em Phoenix, Arizona, postando a última entrada da Alice.

Percebi que escrevi mais do que o habitual da minha parte. Desculpas por isso. Se você quiser pular direto para a parte de Alice, tudo bem.

Caso contrário, considere este o prólogo do epílogo.

É muito, muito cedo da manhã aqui, com com os coveiros dos turnos mais madrugais da noite. Por todos os direitos, eu deveria estar na cama e não desperdiçando gasolina em uma viagem sem destino pela cidade. No entanto, o ritual me ajuda a pensar, e recentemente eu tive muito no que pensar, cortesia de uma moça que conheci em um bar da região.

Ela é membro do fórum, que entrou em contato comigo através da caixa de mensagem. Quando nos encontramos no início da noite, ficou claro que havia feito muitas pesquisas; Mapeando cada loja de espelhos em Phoenix em uma tentativa de reconstruir a rota que Alice fez em 07 de fevereiro de 2017.

Nós conversamos por um bom tempo; sobre o jogo, sobre Alice e sobre a vida em geral. Logo mais chegou o horário de fechamento do bar, então me entregou uma cópia da rota mais provável, com todos os locais-chave circulados. Então, nos minutos finais antes de nos separarmos, nervosamente me fez duas perguntas. A primeira me deixou com o humor azedo. A segunda me forneceu o combustível para minha viagem das três da manhã.

Primeira pergunta; Você tem certeza que quer encontrá-la?

Recentemente, eu tenho ouvido o mesmo questionamento vindo de alguns de vocês, especialmente desde que a Parte 9 foi postada. Pessoas comentaram que Alice fez uma escolha clara quando deixou Rob na cidade silenciosa. Que eu estava procurando por alguém que não quer ser encontrada.

Eu gostaria de esperar um momento antes de responder isso, pois responderei posteriormente nesse texto. Para ser claro, a Alice que conheço não faria isso. Ela estava planejando voltar, ela nos falou isso. Não vou gastar seu tempo com minhas teorias, mas vimos o que a estrada pode fazer na mente das pessoas, como podem perder o melhor de seu juízo. Entendo por que esse questionamento está sendo feito, mas se esse tipo de pergunta for tudo que você tem a oferecer, peço que encontre outra maneira de ajudar.

A segunda pergunta era mais fácil de entender; O que você vai fazer agora?

vocês também têm me perguntado isso, mas essa foi a primeira vez que eu ouvi a pergunta em voz alta. No silêncio constrangedor que se seguiu, tornou-se óbvio para ela, e de certa forma para mim, que eu ainda não tinha uma resposta.

Eu decidi dar uma volta para ver se descobria... E fiquei vagando com meu carro pelo resto noite.

Depois de uma hora de meandros sem rumo, percebi que estava perto de um dos locais marcados; o beco onde Alice entrou pela primeira no túnel, o ponto em que ela desapareceu pela primeira vez na estrada. Entrando na rua lateral, logo depois de um grande cruzamento, fiquei brevemente aliviado por não ver nenhum sinal do túnel. Parte de mim que ainda esperava que este jogo fosse apenas um conto de ficção, aumentou com a falta repentina de provas. Minha reação foi curta, é claro, quando percebi que o túnel não teria se mostrado para mim de qualquer maneira. Mesmo que o jogo fosse real, eu dificilmente teria aderido às regras no meu caminho até ali.

Entretanto não havia como negar que o lugar se parecia com as descrições de Alice, e sem sentir ainda um pingo de cansaço em mim, decidi refazer seu caminho, refazendo os passos de Alice em direção à rua de Rob Guthard.

Tá, tenho que admitir neste momento, sofri de um lapso momentâneo de inteligência. Em uma névoa de distração, talvez fosse um jetlag residual e uma ignorância no geral, dirigi por muito mais tempo do que eu gostaria de admitir sob o equívoco de que eu não estava jogando o jogo da Esquerda/Direita. Achei isso por estar indo na direção oposta e ter começado a voltar virando em uma direita, quando as regras explicitamente afirmavam que tinha que começar virando na esquerda. É claro que, como tenho certeza que vocês teriam percebido se estivessem lá, não queria dizer que eu estava fora do jogo, porque obviamente, depois de pegar a direita, eu havia começado o jogo pegando a esquerda seguinte.

Alice sempre foi a mais esperta entre nós dois.

O que estou tentando dizer é que, devido a essa falta de atenção, eu não estava exatamente olhando para a Mulher de Cinza quando passei pelo que deveria ser sua esquina. Não houve uma loja de espelhos dessa vez, é claro,  a loja ficava lá apenas quando a virada 34º está vindo do outro lado. É estranho, porém, quando penso em minha jornada, sinto que devia ter a notado. As ruas estavam praticamente desertas, tanto que os pedestres se destacavam imediatamente. Sei que deveria estar mais atento, mas, se você perguntar a minha sincera opinião, não acho que ela estivesse lá.

No momento em que percebi isso, senti de novo; a esperança fraca e perversa de que eu havia sido enganado, que toda essa história não era nada mas que uma invenção muito  bem elaborada.

Não demorou muito até eu passar por uma antiga loja de espelhos e, 34 viradas depois, chegar ao que deve ter sido o ponto de partida de Alice. Era um bairro do centro da cidade cujos moradores estavam todos dormindo. A partir do momento em que percebi que estava dentro do jogo, eu estava pensando cada vez menos sobre essa rua em particular, e mais sobre a que viria logo a seguir, parada, me esperando no próximo cruzamento. Vim para o outro lado do mundo com a força da narrativa de Alice, mas ainda não tinha visto nenhuma prova em primeira mão de que o Jogo da Esquerda/Direita era real. Se a coisa toda fosse uma farsa, então a próxima rua deveria ser apenas... mais uma rua. Se fosse real, então eu saberia em breve.

Arrastei o carro para a próxima esquina com o coração na garganta. A cada centímetro de estrada por onde meus pneus passavam, me vi esperando mais e mais que aquilo não fosse verdade. Que seja alguém fazendo uma piada com a minha cara, que os textos fossem mentira... Que Alice estivesse em qualquer outro lugar, menos naquela estrada.

Virei a esquina em um arco amplo, estacionando no meio do cruzamento, meus faróis iluminando a próxima rua. 


À minha frente havia uma rua residencial tranquila; carros alinhados e cuidadosamente estacionados nos ambos lados da rua, pátios bem cuidados e janelas de vidro quadradas. No entanto, bem no meio, em total desafio ao modesto bairro residencial, a estrada afundava em um corredor profundo e mal iluminado, cortando a rua e desaparecendo na escuridão total.

Eu sempre soube que era verdade.

Na presença daquela sombria confirmação, a pergunta que me fora feita mais cedo naquela noite começou a apitar em meus ouvidos, como se ecoasse pelo próprio túnel. Depois de uma noite inteira dirigindo, depois de dois meses inteiros de pesquisa, eu ainda não tinha uma resposta.


No final, deixei o motor ligado, como se desligá-la fosse como se eu estivesse saindo do jogo, e decidi digitar esse texto que você está lendo agora. Pensei que talvez o processo de colocar tudo no papel me traria clareza, e me deixasse com ou uma nota de despedida ou uma nota de desculpas para Alice, por não ter conseguido encontrá-la. 

E agora... estou aqui; ainda indeciso, ainda escrevendo, ainda sentado neste carro alugado em uma rua tranquila em Phoenix, Arizona.

Entretanto, talvez a rua não seja tão silenciosa quanto eu pensava.

Olhei de volta para a rua anterior, a rua onde Alice começou sua jornada. Enquanto digito este mesmo parágrafo, vejo uma figura parada na calçada, do lado de fora de uma das casas. Não é a mulher de cinza desta vez.

Embora esteja quase escuro demais para distinguir, posso dizer que a figura é um homem mais velho, bem construído e imponente, com as feições ásperas do rosto envelhecido, meio iluminado pelo luar. Eu nunca vi essa pessoa antes, mas ele tem uma notável semelhança com outro homem; um homem cuja descrição foi bem registrada nas páginas dos registros de Alice.

Ele me observa em silêncio, olhando pela janela do meu carro ainda em funcionamento.


Me pergunto se ele me ajudaria. 

***



O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 20/02/2017

O Jogo da Esquerda/Direita já foi nada mais que um documento de 9 páginas, com as suas páginas escapando de dentro um envelope amarelo, descansando tranquilamente na minha mesa.

Lembro de ter lido-o no meu horário de almoço.

Lembro que me fez rir.

A submissão chegou com as primeiras encomendas do dia pelo correio, circulando silenciosamente pelo escritório, tratado por todos como uma novidade de pouco valor jornalístico. A história era facilmente descartável, sendo muito parecida com as histórias de fantasmas e avistamentos de OVNIs que enchiam nossa caixa de correio diariamente, e que a maioria da equipe sênior tinha aprendido a ignorar instintivamente. Condenado por associação, o documento foi rapidamente desprezado, minha mesa era apenas um pit stop antes de cair na pilha de rejeição.

Entretanto, fiquei curiosa e, depois de alguns meses sem novidades no meu novo cargo, não tive escrúpulos em pescá-lo no lixo. Colocando o envelope na minha mochila, ao lado de milhares e milhares de tantos outros também rejeitados, fui até um café local, lendo-o em uma poltrona perto da janela.

Em algum momento da página três, entre a descrição das regras do jogo e a lista exaustiva de “habilidades exigidas”, minha boca começou a se enrolar em um sorriso irreprimível.


Todos estavam gloriosamente errados sobre aquilo. Não foi uma dissertação paranoica, nem um pedido sensacionalista de atenção. Dentro daquelas páginas, havia um vislumbre introdutório da obsessão apaixonada de um homem. Enquanto eu lia, algo sobre sua sincera excentricidade, incrível meticulosidade e confiança inquestionável tornavam impossível ignorá-lo. Quando eu virei a última página, lendo a última apresentação de Rob Guthard, encantadora e bem formatada, eu sabia que essa era a história que eu queria contar.

Mais tarde naquele dia, eu estava no escritório do editor argumentando sobre tudo isso. Eles não enxergaram exatamente o que eu enxerguei, mas eu estava decidida a conquistá-los de qualquer forma. Falei a eles que a história seria cheia de personagens, colorida, instigante e, no mínimo, que eu não ficaria longe muito tempo. 


Faz doze dias desde então; dez desde que eu entrei pela primeira vez no Wrangler em Phoenix, Arizona, cinco desde que me tornei a motorista, deixando Rob para trás na cidade silenciosa. Não fiz muitas atualizações recentemente, salvo por algumas anotações regulares feitas para mim mesma. Para ser honesta, depois que terminei de escrever minha visão sobre a cidade, me senti dominada por um sentimento irresistível de desnecessidade. Não havia mais ninguém para quem entregar esses registros, nenhum amigo para revisá-lo. Parecia inútil manter o mesmo formato prosaico de antes.

Ainda concordo amplamente com essa pré-avaliação. É apenas devido a um conjunto de circunstâncias excepcionais por ter escolhido continuar a digitar integralmente os eventos seguintes. 

Seja lá a quem isso chegue, quero agradecer você por ter lido até aqui. 

Tenho certeza de que esta será minha cota final. 

A lua está quebrada, e em toda minha vida, nunca vi uma noite tão parada.

O ar estava frio e silencioso, e o Wrangler cortava-o completamente enquanto deslizava por um trecho de asfalto. A cena era definida pela calma e também pela ausência. Não havia uma nuvem no céu, nem um sussurro solitário da brisa, nem uma única folha de grama  se mexia nas margens verde-escuras ao meu lado.

No entanto, mesmo em uma noite tão tranquila como aquela, não pude deixar de me sentir longe de casa. A cidade servira como ponto de mudança nesse sentido. Antes de chegarmos até aqueles monólitos titânicos, as paisagens pelas quais passamos geralmente se assemelhavam ao mundo que eu conhecia. Algumas exceções óbvias à parte, não havia nada sobre os ambientes que parecessem verdadeiramente desassociados da realidade. Agora, tudo havia mudado. Os aspectos aberrantes desse novo mundo são inegáveis, constantemente aparecendo na minha visão periférica, injetando passivamente uma sensação de perplexidade e desconcerto enquanto adentro a tão parada noite. 

Há poucos dias a lua começou a rachar como porcelana antiga. Eu mal notei no começo, meus olhos fixos na estrada enquanto ela pairava acima de mim, silenciosamente se fragmentando em três pedaços irregulares. A partir daquela noite, o espaço vazio entre cada fragmento aumentava significativamente. Se paro e me concentro em ficar observando o céu por algum tempo, quase posso ver os pedaços se afastando um do outro, traçando trajetórias infinitas e solitárias através de um cosmos estéril, em um cenário de constelações estrangeiras.

As próprias estrelas caem mais do que deveriam. O céu noturno desce passando o horizonte e continua abaixo deste, envolvendo-se embaixo das margens gramadas. Era como se a estrada e as estreitas planícies de ambos os lados estivessem suspensas no meio de um vasto abismo; uma plataforma no meio do espaço aberto.


Pelo menos era o que eu achava no começo. Não demorou muito para que eu percebesse que a lua quebrada estava aparecendo duas vezes no céu, uma acima e outra abaixo de mim. Um par de satélites em órbita; idênticas e em perfeito alinhamento. Foi quando percebi que não havia estrelas abaixo de mim. Eu estava apenas olhando através de uma superfície plana tão perfeita e lisa  que, como um espelho, refletia perfeitamente os céus acima.

Eu estava dirigindo pelo centro de um lago.

A água estava incrivelmente parada. Desde que saí da costa na noite anterior, não vi nem uma onda, nem uma ondulação sequer em sua superfície plácida. Também era inegavelmente vasto, indo além do horizonte em todas as direções e continuando ainda mais para longe. Sem ter certeza de como sei, estava ciente de que as águas continuam por uma distância indescritível, que eu chegaria mais rapidamente até as estrelas antes de colocar os pés nas margens opostas.

Me inclinei e mudei as marchas. O ato de dirigir o Wrangler tinha sido assustador no início, mas depois dos primeiros dois dias consegui sobreviver. Um cachecol velho enrolado ao redor do volante serve como uma manivela improvisada, permitindo que eu fizesse as curvas com uma mão só. Eu não tinha uma solução elegante para a mudança de marchas, mas rapidamente me acostumei com o processo. Se aprendi alguma coisa na estrada, é que a elegância é a primeira coisa que você perde quando começa a lutar para sobreviver. A adaptabilidade, por mais desajeitada que seja, supera tudo. 

Alguns minutos depois, o Wrangler chega a uma margem espaçosa. Um grande círculo de terra cercado inteiramente por águas escuras. No outro extremo, a grama parecia cair, caindo abruptamente no lago com uma parada brusca. A estrada continua, é claro, mas é a única coisa que faz. Sem nada de lado nenhum, formava uma ponte estreita de asfalto perfeitamente reto, erguida sobre uma camada de lama e rocha.

Pressionei minha bota no freio, facilitando a parada do Wrangler no centro da clareira. Pela primeira vez naquele dia, abri a porta do carro e sai do meu banco. A única coisa que ouvia era farfalhar suave enquanto eu fazia meu caminho até a beira do lago.


Havia algo na margem, um objeto quase imperceptível, quase totalmente oculto por causa da vegetação rasteira. Era um milagre eu ter conseguido espiá-lo de dentro do carro, embora talvez algo sobre a uniformidade absoluta da paisagem tenha feito se sobressair.

Conforme eu avançava em direção da água, e me aproximava do objeto, sua forma indeterminada se solidifica em minha mente.

Era um braço humano, emergindo da água e tentando alcançar o a margem. Me agachei para examinar os poucos detalhes pertinentes. Os dedos ainda estavam incorporados firmemente no solo. A unha estava quebrada, colorida por uma camada descascada de esmalte desbotado. A pele parecia ser pálida e macia, espalhando-se pelo braço até desaparecer sob uma manga grossa de lã. No ponto em que encontrava a superfície, a água encharcava o tecido, fazendo o cinza virar preto.


Soltando o ar tristemente, me inclino sobre a beira da água.

O corpo de Marjorie Guthard estava encostado no lodo, sua bochecha descansando no leito do lago, os olhos arregalados e confusos olhando para o lago aberto. Estava quase perfeitamente preservada. Exceto pela estonteante firmeza de sua pele e sua palidez manchada e acinzentada, era idêntica a mulher que vi no 34º virada, que tentou me expulsar da estrada, que tinha falado sobre um lago bebendo suas feridas até ficarem limpas.

Parece que suas divagações não eram completamente inválidas. É claro que Marjorie tinha passado por um processo de exsanguinação, na verdade, a única evidência de que sangue um dia fluíra em suas veias era uma grande mancha escura em sua blusa rasgada.


Não demorou muito para o autor do crime desse as caras.

Enquanto encaro a água, um fluxo sussurros sem forma mergulhavam nas profundezas do lago. Os murmúrios suavemente falados chegavam aos meus ouvidos, criando raízes no fundo da minha mente e instantaneamente florescendo em uma onda de promessas profundamente persuasivas.


Me vejo completamente paralisada pela água parada, enquanto uma milhares de generosas oferendas se desdobram em toda a minha consciência. Os sussurros sugerem o fim das dores fantasmas no meu braço ausente, talvez até um membro completamente novo, mais forte do que antes. Além disso, mostra-me um vislumbre de suas extensões incompreensíveis, sua margem mais distante alcançando mundos longínquos, seu ponto mais profundo, abaixo de tudo. Me oferecem conhecimento total de cada légua, todas as profundidades, cada litoral inconcebível. 

Minha mão descia enquanto os sussurros continuavam, cada barganha mergulhada em suas doces beneficências. Um momento depois, meus dedos esticados roçam a grama macia e envolvem o braço exposto de Marjorie.


Cavando meus calcanhares no chão, eu me inclino para trás e puxo. A água ondula e espirra enquanto eu arrasto o corpo sem vida de Marjorie lentamente para a terra. Eu sinto as vozes em minha cabeça ficarem cada vez mais altas, irrompendo em ódio enquanto me afasto do lago.

As promessas haviam sido convincentes, cada solicitação silenciosa era inegavelmente persuasiva. Mas depois de ver o terrível destino de Marjorie e o olhar de traição eterna em seus olhos vagos, me vi ciente de uma sutil contracorrente por trás de cada sílaba, uma sensação de desespero e fome atemporal emanando de baixo da superfície daquele lago. Já tenho uma compreensão clara do que aconteceria se eu me perdesse naquelas águas. Suspeito que não seja coincidência, pois das incontáveis praias que me apresentaram, todas pareciam estar desertas.

Marjorie não teria tido nenhuma chance contra eles. Saiu da floresta sozinha, gravemente ferida e sem veículo. Andou por todo o caminho até aqui, sangrando sem parar, o poder rejuvenescedor da estrada lutando a cada segundo contra a inclinação natural daquele corpo que estava para morrer. Suspeito que a influência da estrada não era forte o suficiente, e quando uma voz sussurrante prometia o mundo, de forma tão gentil, que tudo seria consertado, não estava em posição de recusar.

A outra manga do blusão roçou na terra seca, seu corpo saindo da água pela primeira vez em décadas. Continuei puxando até minhas botas baterem no asfalto, deitando-a na grama ao lado do Wrangler.

Depois de um momento de vigília, andei até a parte de trás do carro e busquei a pá dobrável de Rob.


Longas horas se seguiram. Eu nunca havia cavado o túmulo antes e meu ferimento não facilitava a tarefa. Minha jaqueta amarrada em volta da minha cintura, gotas de suor escorrendo pela testa, lentamente consegui cavar a terra úmida. Cinco horas depois, com as costas doloridas, com a mão dormente por agarrar a pá por tanto tempo, tentei colocar Marjorie no buraco áspero em uma tentativa de delicadeza, suas pernas caíram frouxamente no solo macio, apesar dos meus melhores esforços.

Demorou mais de uma hora para devolver a terra para o buraco. Era uma tarefa sóbria e feia. Enquanto uma camada de terra cobria seu rosto, percebo que esta seria a última vez que uma pessoa viva colocaria os olhos em Marjorie Guthard. Enterrá-la assim, tão de repente pareceu desrespeitoso, como se fosse um ato que eu não tivesse o direito de realizar.


Uma vez terminado, cai de joelhos, uma dor surda em meus músculos enquanto eu aliso o chão remexido com as costas da pá.

MARJORIE: Você.

Mesmo antes de me virar para encará-la, pude sentir a cara emburrada em sua voz. Há uma profundidade odiosa dentro daquela única palavra, um desprezo potente e uma acusação que parecia ter estado sufocando em seus pulmões afogados por décadas.

Relutantemente, me levanto e me viro, encontrando-me cara a cara com a mulher que acabo de enterrar. Ela parece diferente agora, suas roupas estão secas, sua pele clara, sem nada para ser visto através corte profundo e escuro em sua blusa.


AS: Marjorie.

Ao contrário do casco sem vida que estava abaixo do solo, a mulher à minha frente não parecia estar de modo algum em paz. Ela treme e move com a mesma fúria indignada que testemunhei quando nos conhecemos. Quando fala, suas palavras estremecem sob o peso das suas próprias emoções turbulentas.

MARJORIE: Eu te persegui. Eu corri na sua direção. Eu... eu desisti dele por você.

AS: Desculpa , Marjorie, não sei o que você quer dizer. Me explica o que você quer dizer.

MARJOIRE: As coisas que eu vi, coisas tão lindas. E eu vi  ela andando sozinha pelos novos mundos. Eu dei tudo por você!

Eu não sabia bem o que dizer. Não fazia sentido perguntar o que ela queria dizer, tentar entender suas divagações frenéticas. No final, só podia tentar falar a língua dela.


AS: Marjorie, eu ... não era minha pretensão.

A respiração trêmula de Marjorie explodiu numa gargalhada desesperadora.

MARJORIE: Ah... ah sim, era sim. Sim, você fez. E agora... agora você está aqui.

O comportamento selvagem e volátil de Marjorie mudou mais uma vez, seu riso se degradando ainda mais em um choro desesperado, em pânico. 


MARJORIE: E o que eu faço agora? O que eu faço?!

Marjorie se encolhe com o pavor que a própria pergunta a causa, colocando a cabeça entre as mãos e repetindo-a várias vezes. Enquanto a vejo lutando com seu desespero, fico impressionada com uma ideia que nunca havia considerado antes. A desconcertante noção de que, na morte, não somos transportados para um destino determinado por algum atendente etéreo. Na verdade, nada é decidido para nós. Talvez a maneira pela qual passamos a nossa morte seja uma decisão que temos nós mesmos que tornar.

Marjorie estava de pé em cima de seu próprio corpo sem vida, ainda perdido, ninguém estava de luto por aquele corpo.


Não há sinal de um paraíso ilimitado, nem da condenação inescapável ou nada eterno, e a linha comum que essas duas opções compartilham, uma liberação final do peso de nossas ações, está similarmente ausente. Talvez nunca tenhamos essa liberdade, talvez continuemos como sempre fazemos, acompanhados por todas nossas imperfeições, incertezas e descontentamentos.

Talvez a nossa única escolha seja nossa eternidade.

Depois de todo o meu tempo na estrada, essa era possivelmente a ideia mais aterrorizante que me deparei

AS: Ele nunca parou de procurar por você, sabe.

Marjorie saiu de seu estado de desespero, instantaneamente consciente de quem estou me referindo, olhando para mim com uma expressão que eu nunca a vi usar antes.

AS: Eu o vi andando na estrada. Ele não parou. Ele nunca iria parar. Acho que ele estava procurando por você, Marjorie, ele ainda é.


Marjorie olha através de mim. Pela primeira vez desde que nos encontramos naquele tranquilo canto esquecido por Deus, pude ver a fraca faísca de algo além da miséria e da raiva naquele seu rosto manchado de lágrimas.

Sustento seu olhar por mais um momento, antes de puxar meu celular do bolso. Em uma única varredura de meus contatos, apago todos os números, exceto um. Um número que tirei da Nokia durante a nossa segunda noite na estrada. Um número que se conecta a um errante perdido da estrada.

AS: Eu não sei se isso pode ajudar, mas ... coisas estranhas aconteceram.

Enquanto ela olha nos meus olhos, sinto que finalmente estamos nos encontrando pela primeira vez. Sem uma palavra, Marjorie estende a mão trêmula e pega o telefone dos meus dedos estendidos.


Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, Marjorie Guthard se foi.

Alguns momentos depois, uma brisa refrescante bateu contra a minha bochecha, um suave zéfiro, esfriando meu rosto ainda quente. É uma sensação bem-vinda, e é a primeira movimentação do clima que testemunhei desde que chegara no lago. Limpando o suor da minha testa, olhei calmamente ao longo da ponte, a brisa rodando ao meu redor.


Era um vento sutil no início, batendo os cabelos na minha testa, gelando o suor da minha nuca. No entanto, quando estico minha mão e sinto o ar deslizar entre meus dedos, testemunho de um constante aumento de força e magnitude.

O som do vento cresceu de um sussurro para um uivo. Segundos depois, as mangas amarradas da minha jaqueta que pendiam na minha cintura começam a voar para os lados. Meu cabelo não repousa mais nas minhas costas, ondulando no meio de um vendaval em desenvolvimento.


Eu recuo em direção ao capô do Wrangler quando o ar finalmente entra em erupção em um ciclone barulhento e estrondoso. Minha mão procura reflexivamente a estrutura robusta do Wrangler, meus dedos envolvendo a grade, meu braço enrijecendo enquanto o vento implacável ameaça me arrastar pela estrada.

Olhando para a violenta tormenta, me concentro em um único ponto no espaço, logo acima do limiar da ponte. No meio da tempestade, uma linha irregular de luz branca quente irrompe do éter, rasgando o tecido da noite, uma fissura crepitante que se alarga e se abre, forçando para separar as cortinas da realidade enquanto  essas freneticamente lutam para se entrelaçarem novamente. 

Olhando através da ruptura tremula, sou sujeita ao mais breve vislumbre de uma vista ilimitada e impossível. Era um lugar muito longe, tanto na distância quanto no tempo. Um sonho dolorosamente belo e aterrorizantemente glorioso, suportando as majestosas margens do infinito. Cada momento se estende por um milênio e se desdobra em inúmeras direções de uma só vez. Cada sombra carrega uma escuridão que não pode ser medida, suas bordas queimadas pelo brilho de um sol acordado que olha através de todo e qualquer mundo concebível com uma intenção oca e rancorosa.

Em meio aquela paisagem enlouquecedora, uma entidade singular se aproximava, deslizando em direção ao portal com a intenção clara de ultrapassá-lo. Quando atravessa o portão estremecido,e o vento morre ao redor dele, olhei para sua grandiosa forma celestial.


O ser era diferente de tudo que eu já vi; composto inteiramente de arcos elétricos de luz magnésicos brilhante que estouravam de um núcleo central volátil e cegante. Soava como uma tempestade de relâmpagos, seus tentáculos plasmáticos estalando e crepitando, estourando caoticamente pelo ar da noite antes de desmoronarem sobre si mesmos. Quando voltam para dentro do ser, emitem nuvens pálidas vaporosas que desaparecem suavemente no ar.

De certa forma, mesmo quando meus olhos mal se ajustavam à luz cegante, percebo que a entidade geralmente produz uma luz milhares de vezes mais intensa que aquela. Ele  havia amortecido seu brilho por minha causa, de modo que possa aparecer diante de mim sem chamuscar minha retina.

AS: É você... não é? Você é a voz que tenho ouvido. Foi você que me trouxe até aqui. 


O redemoinho de luz paira no ar, crepitando e mudando de forma, seus membros transitórios estremecendo com uma incandescência caótica. Parte de mim quer se esconder, parte de mim quer fugir, mas nenhuma delas é uma opção de verdade. Soltando minha mão da grade do Wrangler, dou um passo à frente, ficando de pé, sozinha, olhando para o núcleo ardente da entidade.

AS: Me concede uma entrevista?

A criatura não reagia. No seguinte silêncio, me sinto sendo observada. Quando finalmente responde, sua voz rompe a noite, ecoando por todo meu corpo.

VOZ: Temos pouco tempo, mas pode me perguntar as perguntas que tem.

Cada sílaba reverberante forma uma cadeia de ondas no lago ao redor, emanando para fora do ser em um círculo perfeito. Observo as ondas rolando à distância, sem mostrar sinais de diminuir, e penso em que pergunta fazer primeiro.

No final, me vem rapidamente; uma promessa é uma promessa, afinal de contas.


AS: O que aconteceu com Marjorie? Por que ela fez o que fez?

O ser fez uma pausa, como se considerasse sua resposta. Quando respondeu, falou com uma calma sóbria.

VOZ: Ela teve um vislumbre do futuro, sonhou com a estrada, das coisas pelas quais passaria.

AS: Tipo, as coisas do outro lado?

Gesticulei em direção do portal, que agora estava quase totalmente bloqueado pela forma espiralada da criatura.

VOZ: Ela sonhava com fronteiras incontáveis. Ela viu uma mulher solitária andando com eles. Com o tempo, aquela visão se tornou tudo que via.

AS: Mas não era ela... ela pensou que estava vendo seu próprio futuro... mas era-


VOZ: Era você, Alice.

Essas três palavras, ao irromperem no ar, lançou três ondas estreitas através das águas ilimitadas, me atingindo com uma força profunda e pesada. Sem saber, décadas antes de eu nascer, Marjorie ficara louca por sonhos de uma grandeza enlouquecedora, de uma vida com possibilidades ilimitadas e um verdadeiro significado. Ela tinha dado tudo para perseguir uma sombra... uma sombra que eventualmente acabou por ser minha.

Eu não tinha apenas puxado Rob para este jogo, eu era o motivo de tudo. Eu era o motivo de todas as tragédias dessa família. 


AS: Ela não sonhava com essas visões. Você a influenciava. Você deixou ela ver... do mesmo jeito que você fez Rob me ver em Aokigahara. Você empurrou e cutucou onde quer que você precisava para que eu acabasse aqui. É por sua causa que Bobby conseguiu as regras em primeiro lugar, não é?

VOZ: Sim.

AS: Mas… por quê? Você brincou com tantas vidas ao longo das décadas. Por que eu? Por que é importante eu viajar pela estrada?

VOZ: Porque em toda a humanidade, em todas as permutações concebíveis, você é quem vai mais longe.

Ele falava claramente, como se a declaração fosse uma conclusão antecedente. No entanto, suas palavras me atingem em silêncio.


O ser continuava.

VOZ: Assisti você vir até aqui, usando suas habilidades e sua tenacidade... e pela sorte, inegavelmente. Você foi trazida para cá por causa dessas qualidades, e elas a levarão mais longe na estrada do que qualquer outro.

AS: Então porque você simplesmente não me trouxe aqui? Tudo que influenciou e você não levantou um dedo... depois de tudo o que aconteceu-

VOZ: Eventos ocorrem como precisavam ocorrer.

AS: Como precisavam ocorrer?! Pessoas morreram! Marjorie. Bobby. Ace. Apollo. Eve. Lilith. Todos. Todos se foram. Você não se importa?


Em resposta às minhas palavras, a entidade permaneceu em silêncio por mais tempo do que o habitual.

VOZ: Eu me importo muito mais do que você imagina. Existem coisas maiores do que seu entendimento, forças que existem além dos reinos da sua compreensão e que você consideraria uma ameaça a tudo o que você ama. Minhas ações foram guiadas por um padrão mais elevado de conhecimento. Seus protestos são baseados em uma falsa compreensão.

AS: Você está dizendo que eu não entendo a morte?

VOZ: Você não entende.

AS: ...Isso ainda não torna isso certo.

VOZ: Independentemente disso, minha influência é necessária. Aquilo que é necessário deve ser feito.

AS: Afinal o que você é?

VOZ: Eu não posso responder essa pergunta de uma maneira que você entenderia.


AS: Isso não é o suficiente.

A criatura não respondeu, como se não achasse que precisava. Até aquele momento, repondia todos os meus argumentos com uma certeza impenetrável. De seus domínios, sabendo o que sabe, meus argumentos deveriam parecer inteiramente dóceis. Mesmo que tenha sentido a necessidade de se justificar, depois de ver o lugar de onde vinha, me pergunto se existe mesmo alguma maneira de  um dia eu compreender seus motivos.

Ainda assim, isso não significava que meus argumentos eram inválidos, e o alto nível de indiferença da criatura estimulava meu desejo de se opor a ela.


AS: E se eu não quiser fazer parte disso?

VOZ: Você está viajando pela costa do anormal; uma falha singularmente estável no tecido da realidade. Enquanto a leva mais longe do mundo que você conhece, você estará livre da influência das velhas leis. Você já percebeu os efeitos naqueles que continuam na estrada, aqueles que se perderam nela e neles mesmos; energia sem consumo, conhecimento sem experiência requerida. Você está perdendo a entropia e a causalidade e, com o tempo, alcançará reinos de entendimento que você não pode imaginar no momento. Você encontrará respostas para perguntas que nunca pensou em perguntar. Você descobrirá a verdade absoluta. Por esse motivo, você continuará.

AS: Esse é o único motivo?

VOZ: Você precisa de outro?

Não é uma pergunta, mas sim outra afirmação contundente. Entendo o efeito de que está falando. Desde a cidade, tenho descobrido algumas noções vagas e idéias fragmentadas que me ocorrem aleatoriamente e sem anúncio. Novas avenidas de pensamento que me levam a revelações que de outro modo estariam além do meu alcance mortal.

Comecei a compreender coisas que eu mal poderia ter concebido em casa, e embora o início dessas noções tenha sido aterrorizante no começo, ficam cada vez mais necessárias a cada dia que passa.

AS: Não... não, eu não confio em você. Eu não-

VOZ: Sua confiança é imaterial. Independente disso, você continuará a viajar pela estrada. 

O brilho já intenso da criatura começou a se intensificar.

VOZ: Eu te acompanhei em todos os momentos... em todos os momentos da sua jornada.

Uma das incontáveis protuberâncias da criatura esvoaça para o ar vazio, formando outra fissura ríspida e brilhante. Se abriu em alguns solavancos, uma membrana transparente quase cristalina esticada no espaço infinito. Através dela, posso me ver, no centro de um milharal, examinando um bloco de explosivo C4. 


É como se eu estivesse olhando para o passado por um espelho falso.

VOZ: Estivesse assistindo seus questionamentos. 

Embora não possamos ser vistos através da abertura, vejo a a fissura envidraçada tremer com a força da voz da criatura. Quando o vidro colapsa, vejo as fileiras de milho em frenesi.


Um segundo arco aparece no céu, formando uma segunda abertura. Desta vez eu já sei que visão terei. Me vejo chorando na floresta... um rádio silencioso ao meu lado.

VOZ: Eu venho assistindo seus esforços. 

A segunda abertura se fechou. O ser tinha suas razões.

VOZ: Eu assisti você lutar... para chegar até aqui.

VOZ: Você não vai voltar.

AS: Você faz parecer que eu não tenho escolha.

VOZ: Você tem, Alice, mas você já fez a escolha.

Por mais que eu detestasse presunção da criatura, naquele momento, sabia que estava certo.

O que ele dizia era a verdade. Fiz coisas que nunca teria imaginado para chegar onde estou agora. Na verdade, se esse ser não tivesse chegado, eu já estaria indo pela ponte. 

Eu não tenho orgulho do que me motiva; era o mesmo impulso horrível que me levou a recusar a oferta de retorno de Rob, que tornou tão fácil deixá-lo na cidade silenciosa. Mas não há como negar que o impulso estava presente. Tem estado comigo o tempo todo, muito antes de eu chegar em Phoenix, Arizona... e está enterrado mais fundo do que eu queria admitir.


AS: Posso… posso dar adeus?

A entidade não diz nada. Ficou suspenso no ar, suas luzes piscando e correndo com seus raios de luz que se irrompiam. A próxima coisa que ouvi foi um leve zumbido mecânico vindo do Wrangler atrás de mim. Me virando, volto rapidamente para o carro, abro a porta e alcanço o banco do passageiro. Meu notebook está inicializando, aparentemente por vontade própria.

Pegando o notebook, levantei a tela enquanto caminho de volta para a ponte. Eu olho para o ser silencioso diante de mim. Quando olho para o notebook, meu e-mail já está aberto.

AS: Quanto... quanto tempo eu tenho?


VOZ: O suficiente.

A entidade começa a voltar, seus arcos diminuindo à medida que o ser voltava para o seu núcleo. Sua mensagem tinha sido entregue. Não havia mais o que ser discutido.

Ao passar pelo portal, em um mundo incognoscível distante do meu, chamo por ele.

AS: Ainda não tenho certeza se posso confiar em você.

O ser se concentra em mim mais uma vez, quando a fissura começava a se fechar. Um conjunto final de ondas atravessa a superfície do lago enquanto me respondia.

VOZ: …Eu me lembro.


Um momento depois, se foi.

Permaneço imóvel no meio da estrada, os comentários finais da entidade passando por cima de mim, sua curiosa escolha de palavras ecoando na minha cabeça. No renovado silêncio, os fracos movimentos de uma revelação esmagadora e terrível começam a se formar em minha mente.

Pode ser que você tenha sido a pessoa mais significativa da minha vida. Foi uma honra conhecê-lo e espero que, entre essas páginas, você encontre as respostas e a paz que você merece.

Para minha mãe e meu pai, lamento que não vou enviar isso para eles. No final, eu fui levado por esse caminho por um profundo egoísmo, e eu simplesmente não consigo encará-los. Nem posso imaginar a dor que eu estou depositando em vocês, e não tentarei justificar minhas ações. Tudo o que posso dizer é que eu os amo e lamento que meu último ato em relação a vocês tenha sido de covardia.


E finalmente para você; a pessoa a quem estou mandando esse e-mail. Eu sinto muito. Eu sempre pensei que te veria novamente um dia, que as estradas que eu tomaria eventualmente me levariam para casa. Isso não me parece mais tão provável agora. Embora pudesse dizer muitas coisas para você, não  vou fazê-lo. 

Mas eu queria ter sido sua amiga por mais tempo.

Parece que faz uma vida desde que cheguei na tranquila rua de Rob Guthard. Lembro-me da incerteza enquanto esperava que ele abrisse a porta, sem nenhuma ideia imaginável do que estava prestes a acontecer.


Como tantas outras coisas, isso já mudou. Apesar de estar em um mundo totalmente novo, mais longe de casa do que qualquer um já esteve, sei exatamente o que vai acontecer a seguir.

Vou fazer uma viagem. Virarei à esquerda, então a próxima rua possível à direita e, em seguida, a próxima esquerda. E repetirei o processo ad infinitum, até que eu termine em algum novo lugar.

E de lá eu continuarei dirigindo, além dos mundos, além do tempo, além dos limites da minha imaginação. Para um lugar onde o lago seca, onde a lua quebrada se reparte, e as estrelas desaparecem no espelho retrovisor.


 Vou para um lugar onde tudo desapareceu e a estrada é a única verdade.

FIM
AUTOR: /NeonTempo

PRÓXIMA SEMANA JÁ TEMOS SÉRIE NOVA! SUGESTÃO DO LEITOR GOLF WANG:
" DESAFIEI MEU MELHOR AMIGO A ARRUINAR MINHA VIDA"

Esse conto foi traduzido a exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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