Eu trabalhava para uma caridade

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ATENÇÃO: ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.
 
Os piores monstros são aqueles que vemos como heróis.

Em meus pesadelos, ainda posso sentir o ar estéril passando pelas minha bochechas nas correntes de vento frias. Ainda posso sentir o cheiro indescritível de material hospitalar misturado com o metálico fedor de sangue. Às vezes, nos momentos entre sonhar e acordar, eu posso até reconhecer os gritos de pessoas que assisti morrerem. Tem me perseguido por toda minha maioridade, e sequer sei como escapar dessa culpa, exceto talvez confessando meus pecados.

Eu fui o típico recém-graduado. Terminei a faculdade com um bacharelado em enfermagem, e sendo novo no mercado de trabalho, me inscrevi em todas as “Vagas Disponíveis” que vi, e fui rejeitado por cada uma delas em seguida. Desesperado, comecei a procurar no exterior, tentando descobrir se eu poderia transferir minhas credenciais. Encontrei algo, um emprego como cuidador em uma instituição de caridade.

O anúncio pareceu perfeito para mim. Pensando agora, aquilo deveria ter sido um sinal de perigo.

Precisa-se de ajuda

Instituição para ____________

Requerimento Mínimo:
Bacharelado em Enfermagem ou equivalente

Remuneração a negociar

Não posso dar detalhes precisos sobre o nome da instituição, ou localização, para minha própria anonimidade e por medo de que eles encontrem isso e venham atrás de mim. Tudo que posso dizer é que se especializavam em cuidados nos países de terceiro mundo, providenciando comida e ajuda para os que estavam morrendo. Pelo menos, é o que parecia. A única coisa complicada foi que eu precisei me mudar para um desses países; isso e também tive que assinar um contrato de sigilo, com advertência de repercussão pessoal caso quebrado. Era uma caridade, gente. Não poderia estar escondendo nenhum grande segredo, certo? E como eu disse, estava desesperado naquele ponto, teria ido a qualquer lugar por um emprego. Sempre admirara Madre Teresa, de qualquer forma, e senti que era um bônus ajudar os necessitados.

Nunca os ajudamos, falando nisso.

No primeiro mês, me enviaram para o departamento de cuidados. Era um trabalho bem simples: medicar, limpar, levar ao banheiro e apenas observar os que precisavam. A maioria dos pacientes eram idosos, vivendo os últimos dias de suas vidas, ou crianças muito pequenas, adoentadas pela malária ou pela febre amarela ou qualquer coisa do tipo. Por um lado, era de se partir o coração, assistí-los partir em suas camas, a carne se juntando aos ossos enquanto eles se tornavam cadáveres. Era ainda pior quando alguma das crianças morria, o sentimento de perda realmente me atingindo quando seus pulmões afundavam em um silêncio doloroso. Por outro lado, eu estava sendo pago para fazer aquilo. Superei isso rápido: a morte veio junto com o trabalho.

Acho que perceberam isso, porque me realocaram nas cirurgias na minha quinta semana lá.

Alguma coisa na sala de cirurgia estava errada. Era muito limpa, muito perfeita, as paredes em um branco brilhante. Minha primeira paciente era uma velha e frágil mulher chamada Mei. Ela grunhia e chiava a cada fôlego, mas parecia saudável além disso. Tirei sua velha, suja roupa e a substituí pela camisola esterilizada de hospital. Debaixo das roupas, ela era magra até os ossos, seu esqueleto saltando de sua pele como se ela não comesse há semanas. Falei para que deitasse na mesa de cirurgia, então fui para a sala de observação quando o cirurgião entrou, cercado por um time pequeno empurrando um carrinho cheio de materiais pontudos.

Assisti, confuso, às enfermeiras prenderem-na na mesa com grossas tiras de couro. Próximo a mim, outro doutor observava pela janela de vidro. Olhando de lado, deve ter percebido a confusão em meu rosto.

“Pensando na anestesia? Você deve ser novo.”

“Bem, sim. Não deveria haver ao menos uma anestesia local? Qual o procedimento aqui?”

“Ha. Esqueça da anestesia. É muito cara, especialmente nestas áreas. Quanto ao procedimento... Só sente-se e assista o show.”

O cirurgião começou a trabalhar. Mei tremeu em agonia enquanto ele traçava uma longa, profunda linha pela sua barriga até a escápula. Sangue imediatamente escorreu pelo corte, descendo por sua pele escura, fazendo uma bagunça na mesa. Ele fez mais duas incisões perpendiculares do começo ao fim do corte. Esses foram muito mais bagunçados, a lâmina correndo enquanto ela agonizava em dor. As tiras de carne foram escancaradas, revelando seu interior em toda sua glória úmida. Sangue brotou da cavidade em seu peito enquanto seus pulmões respiravam pesadamente, as bolhas vermelhas explodindo silenciosamente, sujando o cirurgião com manchas carmesim. Seus gritos se tornaram ainda mais altos quando ele alcançou uma serra. Zuniu quando a lâmina alcançou seu interior, o som abafando a voz de Mei, então o bizarro barulho preencheu o quarto quando ele começou a cortar cada uma de suas costelas metodicamente. Seu corpo tremeu com espamos. Ela estava entrando em choque. Uma parte de mim queria interromper e pará-los. Outra parte de mim sabia que era tarde demais para ela.

Todos eles pararam, imóveis, e esperaram até que ela parasse de tremer. Então o doutor pegou o bisturi e delicadamente o trouxe para dentro da cavidade no peito de Mei. Assisti horrorizado enquanto ele cortava fora cada órgão; o coração, pulmões, o fígado, os rins, e por aí vai, delicadamente colocando cada sangrento pedaço de carne em um compartimento. Subitamente percebi que o eu estava assistindo. Eles estavam... eles estavam traficando seus órgãos. Isso não era caridade. Era um negócio. Um enfermeiro colocou todos os compartimentos em um carrinho refrigerado, e o levou para fora da cirurgia. Eu fiquei ali e encarei, minha mente paralisada pelo choque de tudo aquilo. O doutor que estivera assistindo comigo me deu um tapinha no ombro e saiu com uma risadinha no rosto.

A pior parte de tudo sequer foi assistir a morte dela. Foi ter que explicar para a família que ela pereceu durante a operação. Ofereci minhas condolências, as palavras queimando na minha língua como bile, e meu estômago se revirando enquanto assistia seus rostos contorcidos em tristeza e luto, a culpa esmagando meu coração. Tive que mentir para eles, dizer que os médicos incineraram seu corpo por estar muito infeccioso. Tive que vê-los acreditarem em mim, assentir à sua triste aceitação. Vendi minha alma para o diabo.

Precisava do dinheiro, o suficiente para ficar lá. Eu estive na mesma sala por incontáveis pacientes. Eu senti cada morte. Assisti enquanto eram dissecados vivos.

Provavelmente morrerei arrependido daquele ano que passe na caridade. Sei que nunca esquecerei os gritos de cada um deles, seus suspiros e preces quando perceberam que estava sendo abertos por dinheiro. Cada dólar que gastei está marcado pelo seu sangue, suas lágrimas. Meu único consolo é que nunca estive diretamente na cirurgia. Mesmo assim, me sinto sujo. Pecaminoso. Nunca serei capaz de apagar essa parte da minha vida de minha consciência. Nunca poderei contar a meus filhos qual foi meu primeiro emprego, o que eu vi, o que fiz. Me odeio por ter participado de tudo. Odeio ter fingido que éramos uma caridade.

Dizem que a rua para o inferno é pavimentada com boas intenções. Creio que estão certos.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

obs: o título original da creepy, em tradução livre, seria, "Eu trabalhava para uma caridade que ajudava as pessoas desenganadas com suas mortes", simplificado para melhor aproveitamento do texto. ;)

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Ballet (Part:5 O Favor Misterioso)

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Part1
Part2
Part3
Part4

‘’Grávida de gêmeos perde um dos bebês’’.

‘’Um caso ainda sem explicação está deixando toda a equipe do Hospital Hills intrigada; uma paciente que não teve o nome revelado estava grávida de gêmeos, mas uma das crianças não sobreviveu, o que é estranho é o fato do corpo ter sumido do hospital. ’’

Surpreso e estático Derick saí imediatamente do quarto, ainda com a enorme curiosidade de saber o que tudo aquilo significava e mais ainda no que havia no sótão, mas sua curiosidade poderia esperar, Molly estava chamando. A doce voz que trazia um pouco de luz para aquela casa tão sem vida e amor, trazia também sentimentos novos no coração de Derick, sentimentos esse ainda sem nome definido. 

‘’Derick’’ -  Você me chamou? 
‘’Molly’’- Sim, onde você estava?
‘’Derick’’- Estava andando por aí, esperando você acordar. Me fala, você nunca teve curiosidade de saber o que tem no sótão?
‘’Molly’’- Sim, mas eu nunca tive como tentar entrar lá. 
‘’Derick’’- Na garagem de casa tem algumas ferramentas, talvez alguma sirva. Espera um minuto, eu já volto.

Derick corre até a garagem de sua casa e pega um alicate grande na prateleira, quando se aproxima da casa de Molly percebe que alguém abriu a porta.  Cuidadosamente ele abre a porta, não há ninguém na sala; sobe as escadas e parada enfrente ao quarto de Molly ele vê a sua mãe. Sua mente fica extremamente confusa e perturbada, afinal o que ela estava fazendo lá? Não tinha explicação alguma para sua mãe estar ali, muito menos no horário em que devia estar trabalhando. 

‘’Molly, não se assuste querida, somos vizinhas e sua mãe está no hospital onde eu trabalho, me pediu para que cuidasse de você em nome dos velhos tempos.’’ 
- Vocês são amigas?
- Na verdade eu devo um favor para sua mãe, mas podemos dizer que sim, somos amigas e agora eu sou sua amiga também. Prazer, me chamo Alicia. 
-Eu estou bem, o meu amigo está cuidando de mim. 
''Derick acena com as mãos para que Molly não revele que ele está ali.'' 
-Amigo?! Sua mãe me disse que você não tinha amigos. 
-Deus, ele é o meu amigo.
-Que menina mais doce você é Molly. Agora Deus pode descansar e me deixar cuidar um pouco de você não é? Haha. 

Com um sorriso forçado no rosto Alicia tenta ser uma segunda mãe para ela, mas Molly sente que algo está errado, o uniforme branco parece esconder coisas obscuras em suas boas intenções. Mas não há outra escolha, ela não pode prejudicar Derick. 

Derick dá passos lentos para não ser notado e entra novamente no quarto de Denise. ‘’Eu nunca pensei que elas se conheciam, não sei que diabos devo fazer agora.’’ 

Ele adormece no chão frio do quarto, as horas passam novamente e mais uma vez o dia amanhece; se levanta ainda meio sonolento e vai até o quarto de Molly, mas percebe que ela não está lá. 

Autor: Andrey D. Menezes.
(Continua..) 

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Traição de um Coelhinho

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As lágrimas escorriam pelo seu rosto, o som de seus lamentos preenchia o quarto. Ela não entendia, como ele pode fazer aquilo? Depois de tantos anos juntos, depois de todas aquelas juras de amor, depois de tudo o que ela fez por ele. No fim, era tudo uma grande mentira.

Quanto mais pensava em sua desgraça, quanto mais se lembrava daquela época mágica que passou ao lado dele, mais seu coração enchia-se de ódio.

Ele iria pagar.
Com um plano em mente, a jovem de 16 anos se dirigiu até seu armário, de lá retirou um belo vestido preto com lantejoulas (o mesmo vestido que usou no primeiro encontro que teve com o rapaz que lhe partiu o coração), aplicou uma maquiagem noturna e calçou uma sandália azul escuro de salto alto.

Saiu de casa e seguiu pela rua até a moradia dele, tocou a campainha, a porta se abre e revela uma mulher de belas feições e sorriso meigo.

-Olá querida. Nossa! Como está bonita! Alguma ocasião especial?

-De certa forma sim, Coelhinho está? Preciso falar com ele. – perguntou com um sorriso ao pronunciar o apelido que havia dado ao ex-namorado.

-Não, sinto muito.

-Posso espera-lo então?

-Claro, entre. – deu espaço para que a jovem pudesse adentrar na casa.

Ela passou pela entrada com um sorriso largo, se dirigiu para a cozinha e retirou uma faca do faqueiro.

Agora a diversão iria começar.

Uma hora depois um carro estaciona na garagem da casa, do veículo desembarca um casal de jovens, ambos estão com as roupas amassadas e os cabelos bagunçados.

O par se dirigiu até a cozinha e encontram alguns biscoitos sobre a bancada, ao lado daquelas suculentas guloseimas um bilhete da mãe do garoto manchado com um liquido carmim que supuseram ser groselha, nele estava escrito que a matriarca saíra para fazer compras e que não demoraria a voltar.

Os dois se entreolharam e sorriram, comeram alguns dos biscoitos e subiram para o quarto do jovem.

Foram entre beijos e suspiros que ele se viu nu em sua cama, deitado ao lado da parceira que em meio aos gemidos pedia cada vez mais prazer. Quando ambos já estavam perto do tão aclamado auge daquela paixão, um cansaço debilitante tomou conta dos dois corpos presentes naquele cômodo, ambos nem tiveram tempo para pensar antes de caírem em um sono profundo.



-Acorde Coelhinho. – disse uma voz doce e familiar que em questão de segundos o despertou.

Demorou para que pudesse se acostumar com a fraca luz que tentava iluminar o recinto, delongou mais alguns minutos até o cansaço o abandonar por completo.

Com um sorriso paciente estampado no rosto, a jovem observava atentamente o rapaz à sua frente.

Quando percebeu quem era aquela o fitando, se surpreende.

-O que você...?

-Vim ver o meu amorzinho. – disse com um largo sorriso.

Ele pretendia responder, dizer para ela que tudo havia acabado, que não possuía mais o direito de chama-lo daquela forma melosa, mas quando abriu a boca suas palavras não saíram. Um medo súbito tomou conta dele. Ele percebeu o líquido rubro que banhava o vestido de sua antiga namorada. Percebeu o cheiro metálico que percorria pelo cômodo.

-Hum? Isso? – disse a garota apontando para a própria vestimenta – Você demorou demais para acordar, então eu e a vadiazinha decidimos brincar um pouco. – ela saiu do campo de visão do rapaz e deu espaço para uma cena de puro terror.

A amante do rapaz, presa em uma cadeira, seu rosto completamente desfigurado por cortes de uma lâmina, os olhos que antes esbanjavam malícia e vontade de viver se encontravam sem brilho e arregalados, os cabelos – antes longos e belos – estavam cortados de forma desajeitada e se encontravam encharcados de sangue, seus seios agora se encontravam rasgados e deformados, suas pernas e braços não apresentavam mais pele, seus dedos estavam espalhados pelo chão, sua barriga cortada em “X” revelava um conjunto de órgãos que se apoiavam de forma desajeitada em suas coxas, para completar aquele cenário de horror, ainda ligado ao peito da jovem, em meio aos cortes e ao sangue, seu próprio coração enfiado na boca.

O garoto tentava ao máximo escapar, mas suas pernas e braços estavam presos por firmes amarras que o mantinham ligado à cadeira que estava sentado.

A carcereira volta para o campo de visão dele com um sorriso.

-Sabe, eu não entendo porque você preferiu ela do que a mim. O que ela tem que eu não tenho? Porque, se bem me lembro, você disse que me amava, que eu era a melhor e que nunca iria me abandonar. Mas olha só que ironia! Eu vou até um hotel de terceira por causa de uma ligação de uma pessoa qualquer e em um dos quartos encontro o MEU namorado transando com uma outra qualquer! – o sorriso paciente aos poucos se transformou em uma expressão de pura repugnância – Francamente, eu esperava mais do aluno "nota dez" da sala.

Ele não conseguia dizer uma resposta, estava com medo, em todos aqueles anos que esteve ao lado dela ele nunca tinha visto aquela face de sua ex.

-Sem resposta? Bem, dizem que uma ação vale mais que mil palavras, suas ações já me disseram muito, mas eu ainda não te disse algo, né?

Ela levantou o braço esquerdo e revelou uma faca de cozinha ensanguentada na mão.

-Vamos brincar, Coelhinho? – ela se aproxima lentamente dele.

O adolescente grita por socorro. Mas ninguém aparece para salva-lo.

A garota ria com a tentativa patética daquele traidor.

-Hahahaha, isso! Grite o quanto quiser, ninguém virá te salvar. – ela se aproxima mais e mais, chega bem perto e se senta nas pernas do rapaz em desespero – Vejamos, por onde devo começar?

A faca passeia pelo rosto dele enquanto ela cantarola uma suave melodia. Quinze segundos depois a faca é enfiada na bochecha direita dele e a lâmina é arrastada até sua boca, cortando seu rosto e enchendo-o de sangue.

Ele grita desesperadamente, o sorriso dela se alarga.

-Isso! Grite e sofra Coelhinho!

A lâmina passeia suavemente pelo corpo dele, de segundo em segundo ela enfia a faca e rasga o corpo de sua vítima. O peito, os braços, a faca descia e cortava cada canto dele.

-Foi esse o motivo de você ter me deixado, não é? – disse ela apontando para o membro exposto do rapaz – Por quê? Se cansou do que eu fazia? Se cansou do prazer que eu te dava? Se cansou dos meus gemidos? – os olhos dela brilhavam com o mais puro ódio – Bem, agora vamos ver se você terá algo para se cansar agora. – a faca é enfiada no órgão e o corta ao meio em uma linha transversal.

Os gritos são incessantes, os risos se tornam cada vez mais altos. O sangue escorre do corpo dele, tingindo o cômodo e os dois jovens.

A garota desce do colo dele, levanta o braço e enfia a faca nas coxas do rapaz, ela repete o ato varias vezes conforme os gritos chegam aos seus ouvidos. As risadas ressoam e o sangue pinta o quadro de terror.

O sorriso psicótico se torna cada vez maior. Cada corte se torna a dor na alma da jovem estampada no corpo do rapaz.

Em um determinado momento o jovem perde as forças, os gritos deixam de ressoar, ele fica preso à vida por um único fio de destino.

Os lábios da garota se contraem e formam uma expressão de decepção, a cabeça se inclina e uma voz manhosa ressoa.

-Coelhinho cansou? – mais uma vez o sorriso volta – Então está na hora do gran finale.

A faca sobe até o peito dele, a lâmina é fincada e corta a região, as mãos da jovem adentram no interior do corpo, logo depois elas são retiradas com o coração dele entre os dedos da jovem.

-Abra a boquinha. – a mão esquerda se estende e força-o a abrir a boca.

Usando a outra mão ela introduz o órgão no orifício.

O rapaz tentava se manter vivo, mas a morte se aproximava cada vez mais.

A jovem olhou-o por alguns segundos e depois se dirigiu para a porta que levava para a saída daquele cômodo. Ela abriu a porta e antes de partir se vira e diz com um sorriso:

-Boa noite, Coelhinho.

Autora: Joyce Piv

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Vox e Rei Beau: Rei Beau e o Lugar Escuro (PARTE 3)

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Desculpem-me se isso parece aleatório; estou escrevendo tudo agora. Nunca pensei que contaria essas histórias a alguém. Vocês podem entender por que eu estou preocupada, não é? Ou meu cérebro está trazendo tudo isso de volta, o que é assustador, ou Beau é real e veio pegar minha voz, o que é assustador, ou há algo me perseguindo fingindo ser Beau, o que é assustador. Eu realmente não sei o que fazer. De qualquer forma, aqui está Beau e o Lugar Escuro.

Muitas histórias sobre Beau são coisas fofas que você esperaria de uma garotinha que amava filmes da Disney e pôneis. Nelas, Beau quase se torna uma criança. Nem todas as histórias são assim, no entanto.

Um dia, Beau veio até mim durante um de meus cochilos e perguntou se eu queria brincar em vez de dormir como costumávamos fazer. Ele podia tornar tudo silencioso, então ninguém saberia que eu estava acordada. Eu disse que não podia porque estava cansada, e ele perguntou por que. Eu disse que estava tendo problemas para dormir porque estava com medo que houvesse um monstro em meu closet.

Por que eu estava preocupada com um monstro em meu closet quando eu tinha Beau como amigo imaginário também não faz sentido pra mim, mas não há por que tentar entender a lógica de uma criança. De qualquer forma, Beau ficou furioso. Ele rosnou e pisou duro e usou algumas de suas vozes mais irritadas. Ele disse para que eu não me preocupasse - ele resolveria esse problema por mim. Ele marchou diretamente para meu closet, e foi isso.

Não vi Beau novamente por uma semana inteira, e fiquei realmente preocupada. Chamei seu nome, cantei suas músicas favoritas e até fiquei acordada durante a hora do cochilo mesmo que não houvesse monstro em meu closet, mas não adiantou de nada. Finalmente, uma noite eu acordei e vi Beau entrar por minha janela e sentar no chão perto de minha cama. Ele parecia terrível. Demorou mais alguns dias até que ele tivesse vozes o bastante para me contar a história.

Conforme ele me disse, Beau marchou para o closet, direto para as sombras mais escuras. Como vocês devem saber, as sombras de um closet são algumas das mais escuras e grandes. Demorou muito para que ele atravessasse, mas ele estava determinado. Nada tinha o direito de me assustar enquanto eu fosse dele. Logo as sombras começaram a gemer e se mover ao redor dele. A princípio Beau achou que fosse ser atacado, mas ele percebeu que as sombras estavam formando um túnel. Nas paredes do túnel, ele viu faces. Algumas tinham mandíbulas que nunca fechavam porque elas gritaram por muito tempo.

Algumas estavam ligadas a longos pescoços que se esticavam e tentavam mordê-lo. Outas estavam grudadas umas nas outras porque haviam sido forçadas contra si mesmas por muito tempo. Elas todas haviam passado tanto tempo na escuridão que agora estavam insanas. Foi aí que Beau soube que essa não era uma escuridão ordinária. O Lugar Escuro era muito, muito velho. É óbvio, Beau insistiu que nada disso o incomodou. Ele pensou mesmo em comer algumas das vozes dessas faces apenas para que elas se calassem, mas elas estavam muito usadas para serem poderosas e provavelmente tinham gosto ruim.

Ele andou pelo túnel até que chegou a uma caverna enorme. Dentro dela, as paredes eram feitas de velhos ossos e sombras ao invés de faces. De vez em quando ele pensou ter visto uma das caveiras se mover um pouco. Ele disse que aquele lugar tinha um cheiro podre. Não de carne ou pele podre... simplesmente pura podridão.

Beau falou para o fundo da caverna, que se estendia tanto que ele não podia ver o fim. Ele gritou, "Eu sou o rei do Lugar Quieto. Você está tentando roubar o que é meu. Nós devemos lutar."

E a Escuridão respondeu.

A Criatura do Lugar Escuro não era fácil de descrever. Ela mudava quando você tentava olhar para ela, então só se podia vê-la direito com sua visão periférica. Ela andava com mil mãos, arrastando sua forma inchada pelo chão como uma lesma. Tinha pelo menos cem olhos que olhavam em todas as direções. Alguns haviam saído das órbitas e outros giravam loucamente. Tinha duas bocas com línguas babando e muitas garras e dentes. Quando falou, não tinha qualquer voz.

Ela disse, "Eu sou a Criatura do Lugar Escuro. Eu pego o que eu quiser."

Beau disse, "Essa garota me pertence, e se você a pegar, você pegará a voz dela. Isso me pertence."

A Criatura riu. "Você não a disse para se esconder sob os lençóis? Ela não sabe que deve ir dormir?"

Beau rosnou, "Ela não tem que se esconder ou dormir se não quiser. É por isso que nós vamos lutar. Eu lutei contra o rei mau do Lugar Quieto, e eu posso lutar contra você também."

A criatura riu de novo, e isso deixou Beau ainda mais furioso. Ele gritou e deixou que uma de suas vozes mais fortes e irritadas saísse. Ela refletiu nas paredes da caverna, quebrando ossos e pedras antes de quebrar metade dos dentes da Criatura. Isso a deixou furiosa, então ela atacou também.

Eles lutaram com punhos e garras. Durou dias. Beau começou a pensar que mesmo suas vozes mais fortes não bastariam para manter sua segurança. Conforme ele se cansou, ele começou a cometer erros. Foi assim que a Criatura o jogou contra a parede do túnel. As faces que não eram velhas demais morderam e cortaram-no, e a escuridão começou a queimá-lo, como gelo muito frio queima. A Criatura riu e riu, cutucando Beau conforme ele tentava se libertar. Foi aí que Beau fez algo que ele achou que jamais faria - ele pediu ajuda.

O pedido foi tão claro e puro que cortou a escuridão. Foi diretamente para o Lugar Quieto, onde os caçadores do Rei Beau estavam esperando. Eles correram para ajudar Beau, prontos para atacar. Eles lhe trouxeram as melhores vozes que puderam achar rapidamente e puxaram-no da escuridão que o devorava, mas Beau não deixaria que eles derrotassem a criatura. Ele queria fazer isso sozinho. Então, ele bolou um plano.

"Eu sei como parar você", Beau disse à Criatura.

A Criatura riu com uma boca e rosnou com a outra.

"Você não pode. Ninguém pode."

Os caçadores trouxeram um grande cobertor para Beau, um tão grande que era feito de pelo menos mil outros cobertores. Ele se cobriu, juntou todo seu poder e atacou diretamente o coração escuro da Criatura. Mesmo que ela fosse velha e forte, ainda era um monstro de closet. Monstros de closet não podem atacar com cobertores sobre qualquer coisa. A criatura berrou sem qualquer voz e se despedaçou em um milhão de pedaços, que fugiram e escavaram as paredes da caverna para fugir. Toda a caverna desabou, e Beau e seus caçadores mal conseguiram escapar. Alguns dos caçadores podiam estar aprisionados para sempre na escuridão, ele não sabia dizer.

Eu disse a Beau que ele havia sido muito corajoso e agradeci por ele ter me salvado. Ele disse que não havia salvo ninguém, mas que quando a Criatura voltasse ao normal eu seria uma mulher adulta. Fora isso, ele estava irritado por ter perdido muitas boas vozes, então eu deveria cantar todas suas músicas favoritas pelos próximos dias. Do contrário ele comeria minha voz e acabaria com tudo de uma vez por todas.

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Crianças-cães

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Vou te contar sobre uma cidade – uma cidade onde você nunca deve ir. Para sua proteção, não vou falar o nome ou coordenadas. Mas posso falar isso: se alguma vez você perceber que possa estar nessa cidade, saia o mais rápido possível e não olhe para trás. 

Isso aconteceu há alguns anos. Eu seguia para encontrar um tio que eu nunca havia visitado – dirigindo meio perdido, tentando ler um mapa confuso – quando fiquei sem gasolina. Uma merda né? Nunca consigo entender essas coisas. Os perigos da caminhada eram desencorajadores, mas não havia escolha, então tentei não ficar nervoso e comecei a andar. 

O sol do meio-dia estava opressivo. Minha testa ardia de tanto esforço para manter os olhos apertados, e minhas roupas já estavam encharcadas com uns três litros de suor. Meus braços cansados pendiam mais e mais, assim como a minha esperança por uma carona. Mas, à distancia, tornou-se visível uma pick-up vermelha. “Por favor pare. Por favor,” Eu repetia, esticando o meu polegar o máximo que pude. Enquanto a pick-up se aproximava, eu agitava os braços ate que ela desacelerasse e parasse ao meu lado. 

“Era o seu carro lá atrás?” perguntou o velho camarada ao volante. 

“Sim senhor. Fiquei sem gasolina.” 

“Sobe aí. Vamos conseguir um pouco no próximo posto.” 

Cappy – era um cara legal. Ele realmente gostava de falar sobre a família, mas eram histórias divertidas. Seu filho servindo no exterior, e posso dizer que a sua gentileza era inspirada pela admiração que ele sentia pela nossa geração. Heróis, era como ele nos chamava. Mas eu nunca entraria em linha de frente – sempre fui do tipo que evitava os perigos. Mas não contei isso para Cappy – não queria desaponta-lo. 

Depois de um tempo, comecei a pensar em quando essa cidade apareceria, parecia distante demais. Isso não parecia incomodar Cappy. Acho que ele não tinha nada melhor com que se ocupar – e eu ainda não sabia para onde ele estava indo. A estrada começou a se tornar irregular, e logo tornou-se dividida com uma trilha de grama no meio. Finalmente pude ver uma cidade surgindo naquele horizonte de campos selvagens. 

Era uma típica cidadezinha do interior: casas de um azul desbotado com guarnições brancas, algumas lojas construídas com tijolos, com seus nomes pintados à mão, uma praça, uma capela branca num morro. Carros estavam estacionados em vários lugares, alguns sem pneus; embora eu não tenha visto pessoas por perto. Nada surpreendente para uma aldeia remota, mas o que me surpreendeu foi que, apesar dos celeiros, eu não via os animais. 

Não havia um posto oficial, mas encontramos uma velha garagem com uma bomba na frente. Enquanto entravamos na garagem atulhada, Cappy continuava a se desculpar por ter emprestado sua garrafa com gasolina para um vizinho. Um odor rançoso atingia minhas narinas, me deixando enjoado. “Acho melhor eu ir procurar alguém,” falei, “para que não pensem que estamos tentando roubar algo.” Na verdade, eu queria mesmo me afastar daquele cheiro. 

“Procure por algum galão de casolina, caso eu não encontre um.” 

“Entendido.” 

A cidade parecia deserta, mas eu conseguia ouvir algumas vozes ecoando de algum lugar, então resolvi segui-las. Duas crianças saíram do mato alto, brincando de pega-pega pela estrada. À distância havia um pomar com crianças correndo e jogando maças umas nas outras – algumas estavam agachadas e corriam de quatro. Enquanto me aproximava, risos e grito vinham por todos os lados. Parecia o comportamento normal de crianças, mas notei que todas usavam máscara de cachorro. 

Havia algumas crianças sentadas em uma pequena mesa de picnic, brincando com algo que parecia um bolo – elas o esmagavam com as mãos e espalhavam pelas roupas. Deduzi que, pelo bolo, as mascaras, e toda aquela diversão, estava acontecendo uma festa. Tentando parecer o mais pacífico possível, me aproximei e tentei falar com elas. 

“Tenho certeza que alguem fez esse bolo para ser comido, e não para brincarem com ele,” falei, tentando soar como um pai autoritário. As crianças pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. Senti um arrepio – pelo modo como eles viraram as cabeças exatamente ao mesmo tempo, todos usando aquelas máscaras de cachorro. E não eram máscaras de cachorros fofinhos. O realismo nelas lhes dava características perturbadoras. 

“Desculpa, mas poderiam tirar essas máscaras por um minuto?” As crianças se olharam e logo voltaram-se para mim. Comecei a me sentir envergonhado. “Então, de quem é o aniversário?” Uma das crianças fez um barulhinho. “Ah, é você?” Outra criança imitou o barulhinho. “Então é você? Hmm? É seu aniversário?” Uma terceira criança também imitou. “Talvez seja o aniversário de todos vocês?” Eles não pareciam estar ouvindo, e continuaram a imitar cachorrinhos. 

Finalmente, comecei a me irritar. Toda aquela caminhada no calor já tinha me desgastado, e agora aquelas crianças estavam cutucando uma colmeia. “Escutem aqui. E se os seus pais souberem que estão sendo tão rudes? Por que não tiram essas mascaras e agem feito crianças normais e não como cães.” As crianças começaram a ganir e latir mais alto. “Parem com isso! Onde estão seus pais? Tenho um problema no carro e preciso de um adulto agora mesmo!” As crianças não ligaram para o meu pedido, ao invés disso, começaram a jogar bolo em meu rosto; o gosto era horrível. Não parecia ser um bolo. 

“Tudo bem. Mas quando eu encontrar seus pais eles vão saber sobre isso.” Era como se eles nem soubessem sobre o que eu estava falando. Virei-me para ir embora, mas todas as crianças que estavam brincando estavam agora de pé, lado a lado, bloqueando meu caminho. Ao invés de pedir para que se afastassem, eu simplesmente segui pela esquerda para tentar contorna-los. Mas quando eu ia para um lado, eles também acompanhavam. 

“Já chega!” Eu não queria empurra-los; eram apenas crianças. “Vou contar até três para que se afastem ou vou passar por cima de vocês!” As crianças permaneceram paradas e caladas; devia haver mais de uma dúzia delas. Olhar para eles com aquelas máscaras; era surreal. Não havia duas iguais – cada uma era uma raça diferente de cachorro, com expressões que iam do dócil ao violento. Quando comecei a contar, “Um...” algumas crianças começaram a fazer grunhidos de raiva. Continuei a contagem, “Dois...” a mais crianças se juntaram com os grunhidos. Respirei fundo, sabendo que eles não se afastariam. 

“Beleza… Um!” Todos de uma vez começaram a latir. Me assustei com o quão ferozes e raivosos eles soavam. “Parem com isso!” mandei, mas apenas latiram mais alto. Um deles atirou uma maçã em mim – e machucou. Outro o imitaram, e logo estava sendo alvejado por várias frutas podres. Comecei a gritar, “Esperem ate eu achar seus pais!” mas levei uma maçã no rosto antes que pudesse acabar de falar. Algumas crianças me empurraram enquanto eu estava distraído e perdi o equilíbrio. Todos se jogaram em mim, chutando e arranhando. 

“Chega!” Cansei daquilo. “O que diabos há com vocês?!” Gritei, empurrando cada um deles. Mas eles não se abalavam, continuavam a chutar e arranhar fazendo aqueles sons irritantes. Aquela cacofonia de grunhidos e latidos fez meu sangue ferver. Comecei a bater nelas, sem me importar com a segurança deles ou o que seus pais fariam em retaliação. Depois de derruba-las, corri para encontrar Cappy. 

As crianças me perseguiam pela cidade. Eram apenas crianças, mas eu estava assustado pra caralho. As máscaras, os sons – elas nem pararam depois que as derrubei. Encontrei a pick-up de Cappy mas não o vi por perto. As crianças estavam me alcançando quando tropecei e caí. Mais uma vez fui cercado por aqueles pirralhos violentos. Tentei levantar mas havia muitas crianças sobre mim, e meus gritos por ajuda não atraíram ninguém. 

“Tirem essas malditas mascaras!” Gritei, tentando puxar uma delas; estava bem presa. Os latidos se tornaram risos e temi que houvesse adultos observando – zombando ao invés espantarem suas proles insanas. Minha raiva já estava chegando ao limite quando as crianças pararam de atacar. Todas viraram se viraram para a mesma direção e correram juntas, latindo alegremente. Me levantei, procurando em meu corpo por arranhões e hematomas. 

“Cappy!” Gritei, olhando ao redor. Minha voz ecoava por milhas. As crianças estavam fora de vista, então corri para a pick-up esperando encontrar Cappy ainda na garagem. Primeiro passei pela loja principal, para ver se alguém poderia nos ajudar, mas não havia ninguém dentro. Eles não pareciam estar funcionando – prateleiras estavam vazias e cobertas de poeira. Chequei os fundos – ninguém lá. Então ouvi um berro vindo de fora. 

Espiei pelas janelas mas não vi ninguém, então abri a porta um pouco e tentei ouvir. Eu sabia que algo estava acontecendo com aquelas crianças. Os únicos sons na cidade inteira vinham da direção para onde tinham corrido. Parte de mim sabia que eu deveria voltar para a garagem, mas eu queria ver se as crianças estavam sendo repreendidas por seu comportamento. Segui os ecos, até que claramente ouvi um grito, gutural e angustiado. 

Os gritos continuaram enquanto eu me aproximava da porta da casa mais próxima. “Hei! Tem alguém aí? Por favor!” Sacudi a maçaneta com força – trancada. Havia outra casa próxima, então bati na porta também. Ninguém em casa; ou apenas não queriam responder. Rodeei a casa, batendo nas janelas, mas não adiantava. Tinha que tomar uma decisão. O que um herói faria? Perguntei para mim mesmo, e continuei seguindo para os sons, rodeado por incertezas. 

A comoção vinha de uma casa de fazenda no topo de um morro próximo ao pomar. Corri tão rápido que quase tropecei, porém, hesitei quando me aproximei da casa. A porta estava escancarada e havia máscaras de cachorro pelo chão. Eu precisava saber o que estava acontecendo, mas não estava preparado para descobrir. Pensei em gritar por ajuda outra vez, ou chamar o Cappy, mas eu não poderia fazer barulho. Quando o grito diminuiu um pouco, pisei lentamente varanda e espiei dentro – mas não enxerguei ninguém lá dentro. Máscaras se espalhavam pelo chão. 

Deus me ajude, eu não poderia fugir. Onde eu iria sem um veículo? Eu não poderia roubar o caminhão do Cappy. Eu tinha que entrar. Meus passos faziam o assoalho estalar. Uma trilha de mascaras me levou para mais perto daqueles sons nauseantes e para uma porta aberta que levava ao porão. Um mal cheiro indescritível quase me fez desmaiar. 

Apurando os ouvidos, tentei identificar o que estava acontecendo. Eram aquelas crianças, com certeza – rosnando, latindo, choramingando, babando. As vezes surgia um pequeno gemido de desespero. Eu não queria descer ali, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. 

Me abaixando um pouco, prossegui um passo atrás do outro. Um única lâmpada iluminava a maior parte do porão, mas não alcançava as escadas, então eu sabia que poderia me esconder na escuridão. O chão estava coberto de sujeira que se espalhava enquanto algumas crianças corriam, jogando punhados de sujeira entre si. A maioria das crianças estavam reunidas no centro, embaixo da luz. Parecia que estavam comendo alguma coisa – ou se alimentando. 

Asssiti com nojo, enquanto as crianças rasgavam a carne – sangue pingava em seus queixos e espirrava sobre seus rostos. E, meu Deus! Seus rostos! Como os dentes deles poderiam ser tão enormes?! Os narizes compridos e olhos tão afastados – era medonho! Além disso, todos tinham várias deformidades faciais que não tenho condições de descrever. Os risos eram mais terríveis que todo o resto, pois significava que estavam se divertindo. Eu falo isso, pois sabia o que estavam comendo. Eu conseguia ver o que tinha sobrado de seu rosto, e suas roupas. Eu sabia que estavam comendo o Cappy. 

Cobri minha boca e tentei não gritar; engasguei algumas vezes mas não chamei atenção. Meu corpo estava tão tenso que eu mal conseguia me mover, mas consegui subir aos poucos. Passei pela cozinha e pela sala, rezei para que aquelas crianças não me seguissem. Pensei que estivesse livre assim que alcancei a porta, porém, o cara mais sinistro que eu já tinha visto estava parado na varanda. Ele tinha uma barba horrível e um sorriso desdentado. Ele era enorme, e eu poderia sentir seu cheiro na outra quadra. De início ficamos apenas nos encarando; eu juro que ele tinha um olho de madeira. Esperava que ele me avançasse sobre mim, porém, ele apenas retirou um apito do bolso da frente de seu macacão, pressionou contra os lábios e pareceu soprar, mas não havia som. 

Chorando e tropeçando, corri de casa em casa, batendo em todas as portas. Os latidos alegres das crianças se aproximavam, então me escondi na loja. Eles corriam ao redor do local como se estivessem num jogo de esconde-esconde enquanto eu me escondia no quarto dos fundos, esperando que aqueles monstros desistissem. A porta da frente sacudiu algumas vezes, e de repente percebi que eu estava em um beco sem saída caso aquele cara grandalhão arrombasse a porta. Eu nunca soube por que ele nunca veio atrás de mim. Depois de um tempo, as vozes e passos se distanciaram e a cidade tornou-se silenciosa outra vez. 

A noite chegou, e as crianças podiam ser ouvidas à distancia. Eu me perguntava se elas sabiam onde eu estava e esperavam até que eu saísse. Pensei no pobre Cappy e no quão atencioso ele foi ao ajudar um completo estranho. Ele não mereceu morreu daquele jeito. Eu precisava mais que nunca encontrar a gasolina. Eu não apenas poderia fugir como também poderia queimar aquela casa completamente. Merda, eu queria queimar aquela maldita cidade inteira. 

Os rosnados sumiram, então saí pela porta dos fundos e me arrastei para a floresta, planejando esperar pelo amanhecer e então caminhar para a estrada principal. Não havia luzes acessas na cidade, eu temia que as crianças andassem por aí à noite, mas eu nunca encontraria meu caminho no escuro. Uma única silhueta podia ser vista se aproximando e eu pude ouvir o farfalhar do mato. Eu não poderia correr, temia que pudesse ouvir e alertar os outros. Havia algumas pedras próximas aos meus pés, então peguei uma e segurei firme. 

Fiquei ouvindo enquanto a criança agarrava algum animal que havia saltado do mato. Enquanto ela mastigava a pobre criatura, eu me movi. Ela rosnavam enquanto comia, o que ocultava os sons das folhas secas sob meus pés. Segurei a respiração, me aproximando dela e levantando a pedra lentamente sobre minha cabeça. Varias vezes bati a pedra contra a cabeça da criança. Nunca pensei que pudesse fazer isso com uma criança, mas eu tinha feito, não apenas pela minha segurança, como também para vingar Cappy. 

O sol começou a nascer e observei o corpo do garoto. Quando o vi largado no chão – crânio afundado e ensanguentado – me arrependi do que tinha feito. Claro que eu não era um maldito canibal, mas eu me sentia que tinha caído ao nível deles. Assassinei uma criança e nunca poderei desfazer isso. Algumas risadas ecoaram da cidade. Assustado, corri pelo caminho errado. 

Cansado e com fome, me arrastei por campos e fazendas até que o sol estivesse bem sobre minha cabeça. De vez em quando, eu ouvia fracos sons de motor, mas não conseguia encontrar a estrada. O peso de tudo que tinha acontecido torava difícil prosseguir, mas esse peso diminuiu um pouco quando um rancho surgiu no horizonte. Enquanto eu me aproximava, o indesejável som de crianças brincando ecoou pelo campo. Algumas galopavam pelo local, fazendo estranhos sons. Parecia o comportamento de crianças normais, mas notei que todas usavam máscaras de cavalo.

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Roubei a vida do meu irmão

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ATENÇÃO: ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.

Você já ouviu falar de cucos? Eles não são especiais, pássaros cinzas que podem ser confundidos com pombas. Têm um segredo travesso: deixam seus ovos no ninho de outras aves, e quando o pequeno cuco nasce, ele empurra seus “irmãos” para fora. Se apropria do lugar dos verdadeiros filhos, e a mãe sequer percebe.

Eu tenho me visto nesse exemplo desde que era uma criança.

É difícil ser o gêmeo que é menos. Meu irmão sempre foi Alan, o garoto que todos que todos queriam conhecer. Eu tenho sido apenas “o irmão estranho do Alan”. Alan era o inteligente, o engraçado, o sociável. Eu não. Por toda minha vida, senti que algo havia sido roubado de mim, alguma parte de minha essência que eu nunca poderia ter de volta. Não sou uma pessoa inteira.

Tem tanto poder em um nome. Me custou anos, uma porra de infância inteira, para descobrir. Duas sílabas me separam de Alan. Nós temos o mesmo rosto, a mesma voz, as mesmas marcas de nascença. Nós somos a mesma pessoa, mas ele é o Alan, eu não. Todo o poder estava naquele nome. Eu o queria. EU PRECISAVA DELE.

Ele iria apenas me deixar nessa cidade pacata, o precoce Alanzinho saindo para conquistar seus maiores e melhores sonhos. O bastardo havia ingressado em uma Ivy, e eu nem sequer havia passado na faculdade local, que estúpido. Mamãe e Papai estavam tão animados por ele que esqueceram de me convidar para o jantar de comemoração. Eu não existia, né? Tudo bem.

Eles não sentiriam minha falta quando eu me fosse.

Me escondi debaixo do banco do carro dele naquela noite, enquanto ele finalmente parava de falar sobre seu brilhante e repulsivo futuro. Esperei que estivéssemos completamente sozinhos antes de atacar. Ele não notou as sombras se movendo atrás dele antes que fosse tarde demais. Eu o estrangulei com uma linha de pesca, tremendo junto a ele que se envergava com uma cobra, cuspindo e tossindo. Puxei mais e mais forte, até que seu corpo relaxasse. As mãos dele escorregaram pelo volante, e eu me abracei com o carro deslizando e batendo contra a lateral da via, seguindo por uma plantação de milho em seguida. Gritei de êxtase o tempo todo.

Quando finalmente paramos, o arrastei para fora do banco do motorista. Ele ainda respirava. Muito bom. Poderia me divertir com ele depois. O deixei nu, vesti suas roupas. Procurando na minha bolsa, encontrei uma faca. Levou alguns segundos para que a extremidade da lâmina atravessasse sua língua. Saliva e sangue escorreram pelo canto de sua boca, e eu pressionei sua roupas íntimas contra a boca para estacar o sangramento. Tinha que ter certeza de que ele não gritaria por socorro. Amarrando-o como o porco que ele era, simplesmente o abandonei na base de uma árvore.

Me mudei para seu dormitório. É tão libertador, me reinventar dessa maneira.

Alan estar a apenas alguns minutos de viagem, trancado em um velho depósito na parte industrial da cidade. De vez em quando eu o visito, e ele tenta gritar comigo, mas tudo que consegue é sangue pingando no chão. Algumas vezes ele até tenta me atacar, rosnando como um animal, mas a corda apertada contra seu tornozelo sempre o mantém preso.

Eu o espanco com um chicote sempre que vou lá. É hilário como ele tenta gritar de dor e tudo que sai é um ganido. Sempre que o acerto, o couro deixa marcar em sua pele, sangue gotejando da carne. Nos últimos dias tenho o levado um agrado. O que seria? Um desentupidor com ácido sulfúrico. Tenho derramado devagar, sensualmente, sobre as marcas em sus costas. Se ele ganir baixo o suficiente, posso ouvir sua pele borbulhando, o ácido se espalhando pelo seu corpo. Se eu pudesse ao menos conseguir algo mais forte.

Gosto do novo “ele”. Gosto da formo como sua figura é cheia de marcas e arranhões por dormir nu no concreto. Gosto das feridas que não se fecham. Gosto da forma como ele olha para mim, cheio de ódio, tentando me matar com o pensamento. Gosto como ele decaiu, do garoto perfeito para um animal que caga e mija em si mesmo, implora por comida e água uma vez na semana.

Me lembra de que ele nunca foi melhor do que eu.

Apenas um de nós podia sobreviver nesse mundo. Simplesmente não havia espaço para os dois. Um dos dois precisava deixar o ninho. E eu sou o cuco, a perfeita imitação, empurrando o fraco para fora e pegando seu lugar. Amanhã, os policiais encontrarão meu doente, torturado corpo amarrado no chão em um depósito.

Amanhã, um novo Alan virá ao mundo.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

(N/T: Oi pessoal! Vim me desculpar pelas creepys curtas que tenho postado, dificilmente elas se desenvolvem muito e eu sei disso, mas FINALMENTE acabaram os vestibulares desse ano e posso me dedicar mais a vocês. Vou procurar trazer creepys melhores e mais profundas. Beijos!)

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Memento Mori

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Minha profissão não é daquelas que você pode pensar que vá te meter em problemas. Eu sou um fotógrafo honesto de mortos. Faço o que posso por pucos centavos por semana, e vivo honestamente. Vivendo em uma pequena cidade nos arredores do escuro deserto Americano. Eu nunca pensei muito em mim mesmo. No meu comércio, sempre tive clientes, mas, na virada do novo século tudo se encerrou. Descobri que a maioria das pessoas não gostavam de fotos de seus familiares mortos. Isso significa pra mim que, apesar da grande quantidade de mortos e moribundos na cidade de Durham, a maioria das vezes eu lutava pra seguir em frente no comércio.

Isso foi até Mary Masters falar comigo.

Mary Masters, também conhecida como Mary Ludendorff, tornou-se a dona de casa mais rica em Durham, aos 13 anos. Mary se casou com Thomas Masters, um homem com vinte e tantos anos, quando eu apenas era um garotinho tentando chamar sua atenção.

Os dois eram sempre a conversa da cidade.

Mary e eu já fomos grandes amigos, mas com o tempo nossa amizade diminiu pra quase nada.

Mesmo quando eu ainda amava Mary profundamente, muitas vezes achava que ela havia esquecido quem eu era. Bem, isso até eu receber um recado de que sua filha, Cynthia Masters, morreu na noite anterior, e ela precisa de um Memento Mori. Eu rápidamente coloquei minha grande câmera no meu humilde tripé de madeira, ajeitei ele na parte de trás da minha carruagem, e subi até a parte rica da cidade.

Cynthia morreu de alguma doença na noite passada, eu realmente sinto muito por ela, ela sequer passou da idade dos 8.

Nunca havia falado com ela antes. Já havia visto ela antes, e fiquei de certa forma um pouco ciumento quando a ví. Ela parecia a Mary que eu amava. No entanto, seu nariz e olhos eram de seu pai, o homem que tirou Mary de mim. Porém, passado é passado, certo?

Eu resolvi seguir em frente e me tornar um solteiro de vinte e um anos, o que, sem dúvida, não vai mudar até minha morte. Vejam bem, não odeio Thomas, apenas o invejava. Olha, ele tinha uma família perfeita, vivendo sempre feliz. E eu? Bem, eu tinha os mortos pra me fazer companhia.

A mansão dos Masters ficava em uma grande colina, no extremo norte da cidade. As árvores ainda estavam "nuas" desde o último Outono, e o ar gélido e rápido do Invérno que vem arrepiava minha espinha enquanto chegava perto da casa. Fui recebido por um de seus empregados, que me levaram até um quarto acima das escadas, na parte traseira da casa.

Perguntei onde estavam os pais da jovem, mas um dos empregados estrangeiros não entendeu que eu não o entendia. Por um momento tive a singela esperança de que Mary me chamou para me ver, além de pagar as fotos, mas não tinha certeza. Ainda assim, fiz meu trabalho, já que as mulheres amam um homem que pode cumprir suas tarefas, mesmo que sejam um pouco mórbidas.

Quando chegamos ao quarto da falecida, um dos empregados me observou montando o meu grande aparelho fotográfico. O quarto estava totalmente vazio, tirando por uma cadeira alta e ornamentada no centro do quarto. Sobre ela, estava preso um véu escuro que cobria algo na cadeira. Perguntei a um dos empregados.

- Cynthia está aí?

Ele assentiu com a cabeça.

- Por favor, remova o véu, não consigo fotografar o que não vejo.

O empregado moveu o véu para a porta, então eu entrei no véu da minha câmera para ajeitar a lente. Percebi como a garota estava. Ela parecia uma boneca. Ela estava com a mão no colo e pernas cruzadas, na sua cabeça estava um chapéu bastante grande, que era tão branco quanto o vestido desbotado que ela usava, e suas mãos, cobertas por luvas de veludo. Seu rosto porém, que encarou a lente de minha câmera sem nenhuma expressão, era a coisa mais pálida, mais branca que havia nela.

Eu não conseguia olhar. Quando vi o olho de seu pai, porém com o rosto de sua mãe, não consegui olhar. Eu sinto muito pelos Masters. Eu sei, eu invejava o Thomas, mas nunca eu desejaria algo tão ruim pra ele. Eu nunca gostei de ver crianças mortas, mesmo que isso significasse pagamento a mais.

Saí de baixo do véu da minha câmera e fiquei passeando por ela como um louco que nunca tinha visto uma câmera na vida.

Um dos empregados me perguntou.

- Está tudo bem?

- Tudo sim. - Respondi roendo as unhas. - Ela parece muito com seus pais.

- Os Masters estão muito chateados - Me disse o empregado.

Eu assenti com a cabeça.

- Posso imaginar.

- A Senhorita Masters me falou sobre você - O empregado me disse - Ela disse que fazia um bom trabalho, mas agora olhando pra você, me pergunto se já viu algum cadáver na sua vida antes.

- Quer me dizer que sou um mal profissional?

Ele sacudiu a cabeça.

- De modo algum. Apenas digo que é estranho.

- Eu sou um homem estranho.

- De fato - Assentiu o empregado.

- Se você me desculpar - Disse ao empregado - Gostaria de tirar fotos, sem distrações. Me espere na porta.

Ele assentiu com a cabeça e saiu do quarto. A porta bateu na cara deles.


Fiquei sozinho com o corpo de Cynthia no quarto, que pela minha vida, nunca pude ver ela viva. Ajeitei a câmera, me enfiei por baixo do véu, e de cabeça baixa, estava preparado pra tirar a foto. Não podia ver. Foi quando ouvi uma voz suave e infantil, de uma criança, me perguntando.

- Por que você não quer me ver?

Olhei pra cima, pra o véu escurecido que me cobriu, assustado com o que ouvi. Nunca, em todos os meus dias, em toda a minha vida fotografando mortos, ouvi algo assim. Olhei pra fora do véu, tentei ver se o empregado estava na porta. Quem sabe pregando uma peça? A porta estava fechada.

- Senhor Fotógrafo, por que não olha pra mim?

Virei-me pra o corpo de Cynthia, meus olhos focando em seu olhar frio e morto, fiquei apreensivo.

Não podia acreditar no que ouvi. Mas ela me falou, de novo. Seu corpo e rosto não se moveram.

- Lá vai você. Por que não quer me ver? Está surpreso com minha forma sem vida?

- Eu... - Eu hesitei - Bem, eu... Eu... Você está falando comigo?

- Responda a pergunta, Fotógrafo!

- Você se parece muito com sua mãe, Mary. É difícil encarar seu rosto.

- Quem é essa Mary de que fala, Fotógrafo?

- Sua mãe - Disse estranhando.

Achei estranho, mas não tanto quanto um solitário falando com uma garota morta.

- Ah, sim! Como se ela se lembrasse.

Me movi de volta pra câmera, como se nada tivesse acontecido. Meu coração bateu mais rápido e minha mente "correu". Eu limpava continuadamente o suór de meu rosto, enquanto olhava o corpo nem morto nem vivo de Cynthia.

Cynthia falou novamente, dessa vez uma pergunta.

- Me fará um favor, amigo?

Balancei minha cabeça e menti.

- Só vou tirar sua foto. Tenho compromissos e em breve devo ir.

- Nem pra a filha de sua amada? - Ela perguntou novamente.

- O que disse? - Perguntei nervoso.

- Você ama a mamãe, não?

- Tudo bem, eu faço - Cedi.

- Posso fazer ela te enxergar.

- Como? - Perguntei confuso.

- Toda a sua vida ela nunca te viu como um futuro marido, Senhor Fotógrafo. Ela nunca deu o crédito que você merece.

Senti como se ela pudesse ver através de mim, como se ela soubesse o que sinto. Seus olhos descem, olhando pra o chão, com aquele olhar frio e morto. Balancei minha cabeça.

- Devo estar doente.

- Você não está doente, amigo. Ouça meu pedido.

Não respondi, apenas fiquei de costas pra a menina morta.

- Fique de costas se isso te ajuda a ouvir.

- Por que fala assim? - Perguntei.

A voz ficou mais intensa, era como se eu tivesse atingido ela.

- ESCUTE! Amigo, ela vai te enxergar! Só me ajude. Eles vão me enterrar hoje. Você precisa vir e me retirar do túmulo.

- Não. - Afirmei colocando minha mão na câmera preparado pra tirar a foto.

Tinha que ser coisa da minha cabeça, não podia estar lá.

- Vou te ensinar como reviver os mortos.

Eu olhei pra a garota com o rosto sem vida, olhar paralisado. Não podia ser verdade.

- Pode não parecer, mas isso é real, amigo. Por favor, tire meu corpo do meu túmulo! Me leve pra sua casa! Só vai precisar de um espelho e doze velas.

- Velas? - Zombei - Isso é um sonho! Estou só dormindo.

- Isso você já é. - Disse a menina insinuando que eu era um sonho pra Mary - Me ajude e sua vontade vai "acordar". Você vai "despertar" Mary. Entende?

Assenti com a cabeça.

- Acho que sim.

- Ela vai ouvir cada palavra sua, e você as dela. Me entendeu, amigo?

- Tudo bem, eu farei.

Eu não queria ajuda-la. Eu não queria fazer. No entanto, passou pela minha cabeça: "E se isso ajudar Mary? E se isso ajudar Thomas? Se isso trouxer a garota de volta? Talvez pudessem ser felizes de volta. Talvez me invejariam pelo meu dom, o dom da vida". Eu podia me tornar algo mais.

- Pegue sua câmera e vá embora, não olhe pra foto até que chegue a hora. Também não fale isso pra ninguém! - Ela exclamou.

Esperei nervosamente até anoitecer. Eles enterraram Cinthya perto da mansão Masters, longe do outro lado da colina, perto da floresta. Esperei entre as árvores, me escondendo na espessa escuridão da noite. Eu assisti de longe enquanto Mary chorava nos braços de Thomas. O reverendo da cidade falou algumas palavras da Bíblia Sagrada, enquanto o empregado colocava o corpo de Cynthia no túmulo. Mary com seus cabelos prateados voando com o vento, também parecia um fantasma.

Ela já não era mais a jovem que conheci. Somente o sofrimento e a dor preencheram sua alma, e isso me entristeceu. Me machucou. Porém, eu só podia esperar que o que eu havia planejado fazer ajudasse. Rever sua filha de volta a restauraria.

Mesmo que isso significasse que ela não voltaria a falar comigo, como se eu fosse um necromante, vê-la feliz ajudaria.

Porém, a criança disse que ela voltaria. Não só isso, ela me enxergaria novamente. Essa foi uma oferta que eu não podia recusar.

Esperei que a família partisse do enterro. O coveiro local voltou logo depois, tentou arrumar seu corpo no caixão, mas não conseguiu. Sendo assim, enterrou ela de qualquer maneira. Não fiquei lá por muito tempo, pois uma leve chuva começou a cair.

Levei a garota pra o meu apartamento e, envolvi ela em um lençol, pra parecer que segurava uma criança pequena, cobrindo-a da chuva. Ninguém me notou. Era uma benção entre as maldições que eu vivia frequentemente. Eu temia somente que eles ouvissem a menina sussurrando instruções pra enquanto eu fazia o "ritual", pois enquanto íamos pra minha casa, ela ia dizendo o que eu devia fazer ao chegar lá. Quando chegamos no meu apartamento, sentei a garota em uma cadeira, como ela havia
instruído.

Não era um lugar tão bonito quanto os que ela já viveu, mas já era o suficiente pra cumprir o "ritual". Peguei as velas, todas as doze. Eu só tinha uma pra iluminar meu candelabro, enquanto me movia pelo apartamento ansiosamente pra cumprir o que ela havia exigído. Eu alinhei cada vela em uma linha diagonal de cada perna da cadeira, formando uma espécie de X na minha sala. Eu não os acendi, como pedido foi. Coloquei minha câmera na frente dela e...

O ESPELHO!

Quase ia esquecendo, até me assustei.

Tirei o único espelho que tinha, estava no meu quarto. Era grande, isso significava que eu podia me ver vestido, mas nunca tive nenhuma roupa boa pra me ver como um gentleman, só o espelho. Eu amo ele. Coloquei ele atrás da garota, certificando de não descansa-lo contra a cadeira. Então, fui até a câmera, me pus entre o véu, olhando pra a garota morta e perguntei.

- É isso?

A escuridão da noite encheu a minha sala, com apenas algumas luzes de vela iluminando a garota, ouvi uma voz suave, quase como um suspiro.

- É, amigo.

Enquanto ela falava, um relâmpago clareou toda a minha sala, me deixando cego por alguns segundos. Fiquei assustado.

Então eu me recuperei. Enquanto as faíscas de raio saiam lá fora, eu ainda não estava acreditando no que vi. Eu queria falar, mas meu coração batia tão rápido que não deixava.

- Tire a foto, mas não me olhe pela lente. Não devo ser vista.

Já ia saindo do véu, mas a menina me interrompeu.

- Por me ajudar, o que quer que eu faça primeiro?

- Veja a sua mãe - Disse á ela - Diga á ela que te trouxe a vida, e sinto falta dela.

Ouve um estranho silêncio antes dela falar.

- Então será isso.

Entrei no véu de novo, abaixei minha cabeça preparado pra tirar a foto. Me escondi do escuro da sala no escuro do véu e fui tirar a foto da menina morta. Me perguntei: "Funcionará? Mary vai gostar disso? E se ela não gostar?". Comecei a ficar nervoso e entrar em pânico.

- Tire!

Foi pelo nervosismo, e pela demanda da garota, que tirei a foto. A lâmpada quebrou, seus cacos caíram no chão da sala.

Olhei pra cima, evitando olhar pela lente a garota morta, como ela me instruiu. Quando retirei o véu, segurei meu candelabro, tentando iluminar o corpo da garota pra ver se ela se movia. No entanto, para meu espanto, a garota já não estava mais sentada na cadeira. As velas estavam apagadas, jogando suas fumaças pra cima pra desaparecerem no ar.

A cadeira estava vazia, e o único reflexo no espelho era o meu próprio reflexo, encarando o espelho em choque. Ouvi a porta de meu apartamento se abrir. A chuva forte estava voando em meu rosto com um vento tão áspero, junto com folhas mortas. Deixei meu candelabro e saí correndo pra porta ver se eu poderia apreciar a "morta-viva".

Pra minha desgraça, só vi a silhueta da menina enquanto ela corria pelas ruas. Seu corpo se moveu tão naturalmente, como se suas pernas estivessem mais longas e ela pudesse correr mais. Seu tronco se arrastava, como se fosse papel correndo contra a tempestade. Seus cabelos voavam no vento, e quando uma luz ofuscou o lugar por onde ela tinha ido, a garota desapareceu.

Eu desmaiei com um colapso nervoso, e só acordei algumas horas depois. Estava encharcado, desmaiei na porta mesmo.

Cambaleei pela minha casa, fechando a porta atrás de mim. Meu apartamento estava uma completa escuridão, e o vento da noite me deixava arrepiado da cabeça aos pés. Então, peguei meu castiçal e acendi-o. Removi o filme da câmera, o negativo, segurei-o por baixo da luz. Eu não conseguia ver, estava muito escuro, mas ainda conseguia ver uma coisa.

Parecia ter algo sobre a foto. Não era a menina. Eu rapidamente corri pra meu banheiro, fazer o trabalho de revelar a foto. Eu tinha que ver se meus olhos mentiam pra mim. Eu tinha que ver a verdade no negativo. Não sei por quanto tempo durou a revelação, mas a primeira vez que vi, meu coração disparou. A menina sentada na cadeira, o flash da luz quase me cegando no espelho.
Parecia que a garota tinha um halo nela, uma coroa brilhante. Porém, por trás de tudo isso, algo se sobrepôs.

Havia uma mão longa e não natural sobre seu ombro, garras finas e afiadas cravavam a carne morta. A pele, era quase como se fosse uma mistureba, mas ainda possuía resquícios de pele humana. Atrás do rosto de Cinthya, eu podia ver um focinho, longo e grunhindo. Havia um olho espiando por trás de sua orelha. Era como se eu tivesse tirado a foto assim, como a besta queria.

Mary.

Ninguém sabia como Mary tinha morrido, exceto eu. Dizem que ela morreu de tristeza, mas não. Eu podia imaginar como devia ser o horror de achar que sua filha voltou pra casa, mas não era ela. Essa criatura a levou de mim. Thomas ficou triste, quase louco. Eu podia ouvir seus gritos e choros de noite pelas ruas da cidade. Eu lamento. Eu tentei ajudar, mas só acabei piorando. Eu arruinei a sua vida tentando beneficiar a minha própria.

Como eu odiava isso! Como eu me odiava!

Cynthia nunca foi encontrada. A maioria ainda achava que ela esta no túmulo. Porém, a idéia dela ainda vagar pela terra me partia o coração. Tanto medo, tanta culpa. Eu não sabia se eu ainda conseguia continuar. Eu dizia a mim mesmo: "Também morrerei..." e esperava que alguma criatura não preenchesse meu corpo nesse dia. Esqueci os pensamentos, uma reflexão sobre a morte não podia ser preenchida com tais males. Voltei ao mesmo quarto do lar dos Masters. Thomas havia me chamado pra tirar uma foto de Mary. Não podia recusar, visto que sua morte era minha culpa. O mesmo empregado ficou na mesma porta enquanto eu montava a minha câmera.

Mary parecia diferente, era como se sua alma tivesse sido devorada antes dela morrer.

Não consigo descrever direito, é só algo que senti. Pensei o quão terrível eu fui em desejar mais do que devia naquele dia. Fiquei em pé atrás da câmera, preparado pra tirar a última foto de minha amada, quando ouvi sua voz suave e doce.

- Eu vejo você... Eu ouço você...

- Mary? - Perguntei horrorizado.

- Você me faria um favor, amigo?

Eu não poderia recusar...

Tradução: Jhonatas Cavalcante

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Ballet (Part:4. Descobertas)

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Horas e mais horas se passam até que o dia amanhece. Molly está exausta, mas, aliviada pela dor ter dado uma pausa e só o que a incomoda agora são os malditos movimentos involuntários. Embaixo da mesa de centro está um garfo empoeirado que caiu quando Denise arremessou a bandeja; então um pensamento surge em sua mente, um pensamento um tanto insano que faz com que ela se apoie com as mãos na poltrona e sente-se no chão. Sua mão vai em direção a garfo, segurando-o firmemente e sem hesitar perfura os dedos num ato de desespero.

O grito de dor é intenso e o sangue começa a cair manchando o carpete. – ‘’Que droga eu fiz?!’’ 

A porta se abre grosseiramente após alguns minutos e novamente Deryck aparece. – ‘’Eu escutei o seu grito, o que você fez?!’’ Suas mãos tremulas mostram todo o seu nervosismo e tensão, como se fossem ondas de choque atravessando os dedos. 

Tira da mochila um pedaço de gaze e um frasco com água oxigenada; o que faz com que Molly esqueça a dor por alguns segundos e, comece a se perguntar o que aquelas coisas faziam na mochila dele.  –‘’ Eu sei que você deve estar se perguntando o que isso faz na minha mochila, na verdade a minha mãe é enfermeira e sempre diz que devemos estar preparados para qualquer situação; parece que ela estava certa. 

Ela observa com olhos marejados todo o carinho e atenção que ele a oferece. Não há lembranças boas em sua mente, apenas tristeza e solidão, mas pela primeira vez teria uma memória que poderia ser o papel de parede que cobriria tanta coisa ruim em sua cabeça. 

-‘’ Ficarei cuidando de você até sua mãe chegar, não se preocupe. ’’
-‘’ Mas ela não vai voltar, não agora, pois, sofreu um acidente de carro ontem’’. 
-‘’ Então eu fico aqui, minha mãe está de plantão no hospital. ’’ 
-‘’ Está bem. ’’ 

A conversa entre os dois flui de forma tão natural que parece ser uma amizade de longa data, há muito tempo não existia um sorriso no rosto de ambos já que os dois não tinham amigos e nem uma família como aconchego.  O melhor sorriso que podemos dar a alguém é o sorriso que é expresso não só pela boca, mas pelos olhos; as famosas janelas da alma. 

Derick tira do bolso seu MP4 e dá play na música ‘’How You Remind Me’’ do Nickelback. – Bom, não sei se gosta de rock, mas sempre ouço essa música então achei que gostaria de ouvir também. 

-‘’ Não ouço nada além de música clássica, minha mãe nunca liga o rádio, mas estou gostando, é bom ouvir algo novo, é diferente. ’’ 
-‘’ O que tem no andar de cima?’’
-‘’ O quarto da minha mãe, o sótão e o meu quarto, mas na maior parte do tempo costumo ficar aqui mesmo.’’ 
-‘’ Hum, talvez seja melhor eu te levar para o quarto, deve estar cansada; quando acordar vou fazer um lanche e comemos juntos.’’ 

Derick a leva em seus braços até o andar de cima e gentilmente a põe em cima da cama esperando o seu sono chegar. Quando Molly adormece a sua curiosidade desperta e então saí para explorar a casa; a porta do quarto de Denise está entre aberta, o final do corredor mostra a porta do sótão trancado com um cadeado enorme e enferrujado. 

Ao entrar no quarto e ascender o interruptor, vê a estranha decoração nas paredes, recortes e mais recortes de jornais colados por toda parte, a maioria são matérias sobre as apresentações de ballet, mas também há alguns recortes de matéria policial. Um recorte em destaque com marcação vermelha abaixo do crucifixo é o que chama mais atenção perto da cama. Derick se aproxima devagar em direção ao recorte e na medida em que se aproxima percebe que a matéria se trata de um crime que aconteceu no hospital onde sua mãe trabalha. (Hospital Hills)

(Continua..) 

Autor: Andrey D. Menezes. 

(Espero que estejam gostando) 

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Meia-Noite

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7 de Novembro de 2017, 17:00

Sempre ouvi dizer que à meia-noite se deve fazer um pedido, eu cresci ouvindo essas inúmeras superstições de meus avós. "Faça um pedido a meia-noite Gustavo, ele vai se tornar realidade!". A voz da minha avó ecoava todo o cômodo por ser bastante alta, ela era o tipo que "não falava, gritava", mas eu aprendi a conviver com isso.
Fui criado por meus avós a vida toda, e sempre que eu ficava acordado até mais tarde ela me dizia para fazer um pedido.

8 de Novembro de 2017, 6:30

Agora eu estou casado, com dois filhos, resolvemos visitar minha avó, não pense que ela é super idosa, pelo contrário, está em seus anos de ouro, como ela mesma diz; "Se vivemos bastante é porque não terminamos nossa missão".
Então, ela em seus 87 anos ainda não cumpriu sua missão.

Isabela e Leonardo estão animados para ir ver a avó, fazia tempo que não à visitamos, mas Paula, minha esposa, está completamente receosa sobre ir para lá; ela diz estar com um pressentimento ruim. Mulheres, quem as entende?

8 de Novembro de 2017, 7:10

Depois de uma viagem curta chegamos na chácara onde fui criado, o lugar aparentava o mesmo de sempre, cumprimentamos minha avó e logo entramos, iríamos passar a noite ali, minha esposa arrumava as coisas das crianças enquanto eu vigiava as mesmas a brincarem com minha avó.

8 de Novembro de 2017, 14:09

Depois de um ótimo almoço as crianças pegaram no sono, como esperado da Isa e do Leo, Paula também decidiu descansar, estamos apenas eu e minha avó na sala.

8 de Novembro de 2017, 18:45

Reunimos a família do lado de fora para observar as estrelas, Leo adora, já Isabela prefere seres marítimos.

8 de Novembro de 2017, 22:30

As crianças já foram deitar, minha avó também, minha esposa está no banho se preparando para relaxar em nossa extensa cama.

8 de Novembro de 2017, 23:59

Todos dormem, estou sozinho.

8 de Novembro de 2017, 00:00

Minha avó entrou rapidamente no quarto e pediu para que eu fizesse um pedido.

9 de Novembro de 2017, 6:27

Todos choram, inclusive eu, voltamos para casa e deixamos a tristeza do luto cair sobre nós.

Nunca havia entendido o porquê de minha avó sempre querer que eu fizesse um pedido, mas hoje eu entendo, ela queria que sua missão fosse encerrada, e eu fiz o pedido, e cumpri a tarefa.

Descanse em paz, vovó.

Autor: Annalice Afonso

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