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*** ALERTA DE EMERGÊNCIA *** (QUARTA ATUALIZAÇÃO)

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Ok, gente. Olá de novo. Sei que deixei a última atualização em um suspense, mas estou de volta agora e quero dizer que por enquanto estou de boa. A lanterna está ligada e tenho comida suficiente até amanhã de tarde, talvez noite. Os cachorros estão bem (melhor do que eu, provavelmente) e estamos no momento deitados. Não quero nem arriscar ir lá para cima para pegar mais comida. Além disso, não sei o que pensar sobre o incidente do rádio. Se 013 quisesse entrar, com certeza já estaria aqui. Só se ela for que nem esses vampiros antiquados que não podem entrar sem permissão, mas acho que meu vizinho descordaria dessa teoria. 

Ah, falando no rádio, consegui sintonizar novamente naquelas pessoas. Tive acesso a um sinal melhor dessa vez, mas ainda não tenho informações o suficiente. De qualquer forma, está aqui o que transcrevi do que ouvi. 

-"Alô? Alô Oficial McClellan? É--" - "Presente. Câmbio." - "McClellan. Ei. É Sloan aqui. Câmbio." - "Sloan! Você é música para meus ouvidos! Câmbio." - "Que bom ouvir de você! Câmbio." - "Como está tudo aí na sua ponta? Câmbio." - "Bem, consideravelmente melhor do que antes. Você acha que o que Jones e o chefe falaram é verdade? Câmbio." - " O que, sobre 013? Quer dizer... quero acreditar, acho. Câmbio." - "Todo mundo QUER acreditar, mas você acredita DE VERDADE? Câmbio?" - "Bem, quer dizer... Se Kowalski acha que tem uma pista..." - "Cara, foda-se o Kowalski. Ele é esperto, tá bom? É só o que vou dizer. Câmbio." - "Olha, eu não concordo com tudo que Kowalski diz ou faz. Ele tem boas e más ideias. Claro, acho que o cara tem um ponto de vista obscuro sobre o que temos que fazer com 013, mas não é como se fosse o primeiro. Pessoalmente, estou em cima do muro. Quero dizer... não estou aqui por escolha, e vidas humanas estão em jogo. Talvez Kowalski esteja certo... só um pouco? Câmbio." - "(suspiro) Sloan, não é a opinião dele sobre 013. É só que... o nosso santo nunca bateu. Olha, dada a chance, eu provavelmente me demitiria desse emprego de bosta e faria outra coisa. Eu nem me importo o que aconteça com 013. Mas Kowalski... Vamos ser sinceros. Ele realmente precisa estar aqui? Precisa? Podia estar totalmente desempregado, está montado na grana. Então pra que continuar aqui? Câmbio." - "Sean, pare. Desculpa--McClellan. Você está fazendo acusações perigosas aqui. Não posso evitar de achar que você pensa que isso tenha a ver com-" - "002! Sim, Sloan! Estou te falando, Kowalski manipulou o experimento 002!" - "McClellan! Se recomponha, senhor! Kowalski é um homem bom. Não sei o que você tem contra ele. Não posso te dizer isso porque somos amigos, certo? Além do mais, não liguei para falar do Kowalski. Liguei para perguntar se você vai investigar as interferências com as ondas de rádio na rua [retido]. Câmbio." - "Bem, sim, mas... não vejo motivo. 013 ainda está causando interferências por todos os lados, nenhum deles particularmente próximo de onde se encontra. Câmbio." - "É, mas talvez alguém esteja nos ouvindo. Quer dizer, geralmente, 013 faz com que as interferências sejam piores que essa do que essa. Nunca se sabe, e isso é a última coisa que precisamos agora. Câmbio. - "Tá bom, entendi. Câmbio e desligo." - "Tchau. Câmbio e desligo."

Agora, estou um pouco preocupado que mencionaram a interferência de rádio na minha rua, a qual pode ter sido causada por mim ou outro vizinho ouvido a linha deles. Outra coisa que aprendi com essa conversa, é que 013 não é única, sendo que mencionaram um "002". Chamar 013 de anomalia como na atualização anterior ou na de antes a essa, me faz pensar que ela tenha algo que os outros não tem. 

Notei que o tempo acalmou um pouco. Não tenho ouvido nada além de chuva fraca lá de cima. Julgando por isso, assim como pela conversa de Sloan com McClellan, acho que logo seremos liberados. Acho que 013 será encontrada hoje. Realmente acho isso. Estou bem cansado mesmo sendo cedo, porque mal dormi noite passada, então vou tirar um cochilo. Vou atualizar mais quando acordar. 

Tá, acabei de acordar, cerca de duas ou três horas atrás, e o alerta no meu celular está todo estranho. Tipo, as vezes com letras aleatórias em maiúsculo como aqueles bilhetes clichês de resgate. Creio que seja só uma falha ou algo do tipo, mas ainda assim, é um tanto esquisito. 

Agora é um pouco mais tarde, e estou oficialmente sem comida a não ser por três barrinhas de granola e uma bolacha água e sal. Ah, e uma garrafa de água. O porão cheira a cocô de cachorro misturado com odores corporais, quero sair daqui. 

Gente, o alerta mudou de novo.

Está todo vazio, exceto pela título "SLERTA D EMERGÊNCIA" e um link URL. Tenho um pressentimento ruim sobre aquilo, sendo que é provavelmente um vírus, mas estando preso em um porão com apenas dois cachorros para conversar, um celular que vou conseguir carregar só mais uma vez com os carregadores portáteis, fazendo minhas necessidades em sacolinhas, decidi meter o foda-se e clicar no link. 

Me levou para um site estranho. Era só uma tela preta com a barra de pesquisa do Google e um texto em branco. Para mim, parecia uma transcriação. Dizia assim: 

- O Experimento 013 - Notas: •indivíduo extremamente não cooperativo •indivíduo recusa-se a comer •indivíduo parece apresentar características úncias, possível anomalia.  

DIA 1 - Whitfield: Boa noite, mocinha. Meu nome é Professor Whitfield. - 013: Vá para o inferno. - Whitfield: Calma, calma. Não vamos começar mal. Vamos tentar novamente. Meu nome é Professor Whitfield, e o seu? - 013: Vá se foder. - Whitfield: [estala língua] Querida, querida... Eles me falaram que você não era muito cooperativa. É uma pena. Mas creio que não te trouxe aqui para tomar chá. Estou aqui para dizer que você é uma jovem muito especial. E não da forma que toda criança é especial... Não. Você consegue fazer coisas com a mente, não é? - 013: [balança cabeça] Minha mente consegue fazer coisas comigo. Não controlo. Me deixe aqui mais um pouco e talvez a minha mente corte sua garganta. - Whitfield: [se vira para o observador] Dê um choque. - 013: [grita em agonia enquanto é eletrocutada] Para! - Whitfield: Meu nome é Professor Whitfield, qual o seu? - 013: Elizabeth Keller. - Whitfield: [sorrindo] Perfeito. Bem, eu adoraria ficar e conversar, mas vou deixar que você se familiarize com seu novo aposento. - [013 é presa em sua cela] - 013: Me tire daqui. [tenta manter a voz calma] Me tire daqui. ME-TIRE-DAQUI. Abra a porta. Abra a porta. 

DIA 2 - Whitfield: Olá, criança. Elizabeth, certo? - 013: Sim, Elizabeth. - Whitfield: Assim era. [olhando entre seus papéis] Por um acaso você tem alguma relação com a Sra. Annie Keller? - 013: Não. - Whitfield: Nenhuma relação? - 013: Nenhuma. - Whitfield: Quaisquer relações notáveis? - 013: Não. - Whitfield: Nenhuma? - 013: Já falei, não, seu desgraçado! - Whitfield: Vou te aconselhar a não usar esse tipo de tom de voz comigo. - [013 leva um choque] - 013: [fazendo caretas] Por que você está me prendendo aqui? - Whitfield: Tenho meus motivos. Crianças como você não são fáceis de achar. Agora, você é conhecida por causar tempestades quando está brava. Certo? - 013: Sim. - Whitfield: E me disseram que você não consegue controlar isso. Se fica brava... nada pode ser feito. Teoricamente, claro, se mantida dentro de um certo tipo de estrutura especial, pode ser contida... mas... fico pensando. De qualquer forma, Me diga, Senhorita Keller, você me conhece? Sabe quem eu sou? - 013: Sim. Você é o chefe da polícia local. - Whitfield: Isso foi o que falaram para as pessoas. Não, veja bem, não somos da polícia. Essa cidade não tem policiais de verdade. Não, as pessoas que mandam e cuidam da lei dessa cidade trabalham para mim, mas não são a polícia. Nós somos a Fundação MEW. Isso significa Mentally Engineered Weapon (Engenharia de Armas Mentais). Já entendeu porque está aqui? - 013:Por que você não me deixa ir embora? Eu vou morrer aqui?! - Whitfield: Relaxe. Os doze antes de você tiveram um ótimo destino. Não entendo porque seria diferente com você. 

Tudo depois disso estava corrompido. Talvez tenham descoberto o vazamento e tentaram apagar. Mas... como e porque isso vazou em primeiro lugar? Não consigo não pensar quE tenha sido 013, em alguma tentativa bizarra de expor a Fundação MEW. De qualquer forma, vou indo agora. Nos vemos na próxima atualização. Tá bom, até mais. 


DIA 06/12/17: *** ALERTA DE EMERGÊNCIA *** (QUINTA ATUALIZAÇÃO)

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

FONTE

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A parte da Deep Web que não deveríamos ver - Parte 4 - Revelações

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Estou de volta. Estes são os eventos que me levaram até este ponto:


PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

Não tenho mais certeza do que pensar.

Quero dizer, não é como se tudo fosse claro antes, mas... o mundo continua a ter cada vez menos sentido. Abri o arquivo de contingência. Eis o que continha:

À PROVA DE FALHAS —— AGENTE INCAPACITADO. NOME DE GUERRA: 'JACK RUST'. IDENTIDADE: [EDITADO]. MENSAGEM PERSONALIZADA:

Olá. Se você está lendo isto, eu suponho que estou fora de serviço. Vergonha, acho. Vou presumir que nós chegamos pelo menos ao terminal. Eis o que você deve fazer:

Suba no trem. Faça isso assim que ele chegar. Há apenas uma janela que abrirá para qualquer um por exatos dez segundos. Agora, será na quinta - conte-as, na quinta parada, você precisará sair. Não haverá nenhum anúncio. Nenhuma indicação. Nada. Não pegue no sono, apenas preste atenção. Estre trem anda rápido, mas ainda vai demorar um pouco. Seja paciente.


Enquanto você está lá, não olhe pelas janelas. Não há nada para olhar, de qualquer forma, você estará em um túnel. No entanto... é melhor que você evite fazer isso. Bem, estamos tendo problemas recentemente. Algumas vezes, algo olha para você. E você não consegue desviar o olhar.

Agora o que vou mencionar a seguir é improvável. Eu diria que é uma chance de 1 em 1000. Mas você não tem os meios para lidar com isso, então você precisará de um aviso. Se em qualquer uma das paradas, você ver ou ouvir uma porta abrindo, se esconda  debaixo dos bancos. Apenas feche os olhos e espere saírem. Agora, se eles ainda estiverem lá após a quarta parada... sinto muito.


Uma vez que você tenha chegado na quinta, saia. Será outro terminal. Um bem pequeno. Deve haver uma escadaria comum à direita e uma escada de mão à esquerda. Nem sequer pense em descer a escadaria. À medida que você subir pela escada de mão, deve começar ficar mais escuro. Não se preocupe, é isso que deveria acontecer. Continue subindo. Em certo momento, você tocará em algo sólido. É uma rocha falsa. Empurre-a e suba. Coloque de volta quando terminar.

Agora você deve estar em um campo de trigo morto. Este é o Texas. Entre Crocket e Sutton Country, para ser específico. Comece olhando em volta. Deve haver uma fazendo pequena e abandonada visível a poucos quilômetros de distância. Vá em direção a ela.

Quando estiver lá dentro, procure um porão. O lugar não é grande, você deve achá-lo facilmente. Quando encontrar, desça até ele. Agora, as luzes não funcionam então será escuro. Aumente o brilho do celular, se precisar. Você deve procurar por uma grande porta vermelha. Há apenas uma, então se você pensar que encontrou, é porque encontrou. Haverá um conjunto numérico de botões próximo a maçaneta. A senha é 5-3-2-5-6-7-8.

Agora, a próxima parte é um pouco bizarra. Não que você tenha que fazer algo louco... é exatamente o que estou prestes a te contar.

Veja bem, a razão pela qual essas pessoas sabiam onde te encontrar é porque eles passaram por nós primeiro. Nós tínhamos começado a te monitorar desde que você começou a chegar perto de encontrar esta página. Eu não te contei porque... bem, por que contaria?

Aparentemente, havia um traidor em nosso meio. Acreditamos que ele era membro de um culto que nós pensávamos que tinha deixado de existir há muito tempo. "A facção dos deuses perdidos." É assim que eles se autodenominam. Não vou entrar em detalhes aqui. Tudo o que vou te dizer é que eles iriam até o os confins da terra para encontrar o que você viu aquele dia. Esse é seu primeiro e único objetivo. Eles não são o único grupo procurando por isso. Entretanto... eles são os únicos que nos preocupam.


Eu acho que quando começaram a ouvir sobre esses enigmas, eles pensaram que essa coisa estava tentando se comunicar com alguém. Com eles. Tentando liderá-los.

Mas esta é a parte que não fazia nenhum sentido. O que nos ferrou. Você jamais deveria ter visto o que viu. Isso nem deveria estar lá. Não temos nenhuma pista do porquê estava. Uma das coisas mais estranhas é que ninguém tinha criado a página. Nós não sabemos como você encontrou. Você foi a primeira pessoa que viu desde que o tiramos do site.

Foi aí que as coisas ficaram realmente estranhas para nós. Assim que o informante notou isto, ele convocou um ataque aos nossos QG's do Texas. É para onde você está indo. Foi um massacre. Eles roubaram nosso equipamento e começaram a rastrear você por conta própria. Pra minha sorte, eu não estava lá. Eu já estava a caminho de te encontrar.

Agora, nós não trabalhamos para o governo. Apenas trabalhamos com eles. Mas esses políticos... eles têm um código de ética antiquado. Uma verdadeira ideia antiquada de como consertar as coisas. Sabe, estes membros de culto não tão fáceis de encontrar. Se fossem, teriam sido neutralizados há muito tempo. Por causa disso, existe um protocolo de contingência para este propósito em específico. "Blackout" é como eles chamam. Se eles descobrissem que este grupo teve qualquer chance de encontrar o que quer que você tenha visto, eles colocariam em ação. Acredite em mim, isso não vai ser divertido para ninguém. Eles não estão dispostos a correr mais nenhum risco.

É por isso que não contamos a eles... é por isso que não contamos para a maioria de nossa própria organização. Eles poderiam dar com a língua nos dentes.

No entando, se você ainda está lendo isso... significa que medidas desesperadas podem esperar.

Uma vez que você tenha entrado, vá diretamente em linha reta até que tenha chegado com algo parecido como uma sala de controle. No canto extremo direito, deve haver um computador montado na parede. Por sorte, essa é uma das poucas coisas que eles não levaram.

Ligue-o. Ele irá lhe pedir uma senha. Digite "Primordial". Um alçapão deve se abrir no meio da sala. Desça e você deve se encontrar vendo milhares de armários contendo arquivos. Comece a examiná-los. Você está procurando por uma pasta com o nome "Caine Hunter". Ele é... um velho amigo. Está ordenado em ordem alfabética então não será tão complicado.


Esta pasta deve conter seu endereço. Eu entendo que isto é muito trabalho para apenas um pouco de informação. Contudo, esse cara se muda frequentemente, eu não me preocupei em acompanhá-lo. Você precisa ir e encontrá-lo. Ele terá as respostas que eu não tenho. Neste ponto, ele é a nossa melhor jogada. Diga a ele que Ben o enviou.

Vou deixá-lo com esta mensagem:

A humanidade não deve voltar a se esconder no medo. Ninguém mais nos protegerá, devemos nos defender sozinhos.


Este protocolo do governo não é a forma que iremos conseguir. Boa sorte.

Este era o fim da mensagem. Isso foi... muito para processar, pra dizer o mínimo. Mas parecia que eu tinha um trabalho a fazer. Por sorte, ninguém mais entrou no trem comigo.

Demorou um tempo, mas finalmente cheguei à porta do porão na fazenda. Assim que entrei, um fedor infernal me atingiu. Quase vomitei. Um massacre. Essas palavras se repetiam na minha cabeça.

Encontrei um interruptor na parede e apertei. Á medida que a luz incandescente iluminava o lugar, eu entendi o que ele quis dizer. Foi realmente um massacre. E ninguém estava lá para limpar. Segurando a respiração, andei por cima dos cadáveres em decomposição. Por mais que eu tentasse evitar olhar para eles, não podia parar de dar rápidas olhadas de vez em quando.


Estava prestes a desmaiar quando cheguei à sala de controle. Segui as instruções e encontrei a pasta. Assim que terminei, saí daquele inferno. Quando cheguei do lado de fora, comecei a ler o arquivo. Caine Hunter tinha 45 anos. E morava em Hong Kong.

Merda, pensei. Estava começando a odiar viagens.

Demorou um tempo para que eu encontrasse uma estrada. Consegui uma carona para a cidade. De lá, peguei outra carona para Dallas FOrt Worth. É aqui onde estou agora. Estou terrivelmente cansado, e minha nuca estar coçando pra caralho não ajuda em nada.

O vôo foi longo, então eu contemplei a última semana. Ainda haviam muitas perguntas sem respostas, e eu realmente não sabia o que esperar de Caine Hunter. Me lembrei do terminal. O cartão que eu encontrei no banheiro. "FDDP". Facção Dos Deuses Perdidos. Merda.

Finalmente cheguei e peguei um táxi para o endereço deste cara. Estava com poucos recursos neste momento. Durante a viagem, observei as luzes cintilantes da cidade passando sobre mim. Na superfície o mundo parecia tão simples. Mas acaba se complicando conforme você olha mais a fundo.

Saí do táxi em um complexo de apartamentos. Era modesto. Acho que você poderia dizer que era de classe média. Apertei o número de seu quarto. Demorou um tempo mas alguém finalmente respondeu:

"Quem é?"

Ele parecia surpreso. Como se não estivesse acostumado com visitantes. Levei um segundo para pensar sobre o que eu diria.

"Ben me enviou. Eu preciso de ajuda." Foi minha melhor resposta.

Quase instantaneamente, ouvi o portão ser destrancado. Bem, aqui vamos nós, pensei. Segui para o sétimo andar.

Quandoe eu estava prestes a bater em sua porta, ele a abriu. Um homem de meia-idade bastante despenteado me puxou para seu quarto.

Parecendo extremamente ansioso, ele caminhava de um lado para o outro enquanto eu me sentava. Então parou, virando em minha direção:

"Como assim você precisa de ajuda?" Sua voz, de alguma forma, ficou muito rouca quando ele disse aquilo. Eu sabia que estava prestes a lhe dizer algo que ele não queria ouvir.

"Eu vi... aquela coisa. E agora há pessoas atrás de mim."

Sua expressão se contorceu ao ouvir aquilo.

"Quem está atrás de você? Você sabe?" Sua fala era rápida e desconfortável.

"A facção dos deuses perdidos, é como eu acho que eles são chamados." Foi minha resposta.

Agora seu rosto ficou completamente pálido.

"Eles voltaram?" Me encolhi enquanto ele gritou logo depois.

Ele se sentou, enterrando o rosto em suas mãos. Então olhou de volta para mim:

"O que aconteceu com Ben?"

Meu silêncio foi o suficiente. Ele apenas assentiu.

"Ele era... um bom homem." Apenas assenti em resposta. O ouvi murmurar algo em voz baixa, mas não consegui entender.

Agora era a hora de eu fazer a grande pergunta. A pergunta que ninguém parecia ter a resposta.

"O que era aquilo que eu vi?" Ele apenas me encarou por alguns segundos. Então finalmente falou:

"Eu costumava trabalhar em uma estação espacial chamada Chronos-1. Já ouviu falar?"

Nunca tinha ouvido falar daquilo, e foi o que eu lhe disse.

"Bem, é porque você não deveria saber."

Agora, eu realmente não tinha ideia para onde isso estava indo.

Ele continuou a me dizer como Chronos-1 costumava orbitar no espaço a 1500km da ISS.

"Foi feito para ser usado para navegação e comunicação." Ele afirmou. "Isso é o que nos disseram, de qualquer maneira. Eles estavam fazendo outras coisas, com certeza. Por que mais eles não diriam ao público sobre a existência disso? De qualquer forma, não durou muito."

"Um dia, nós recebemos uma mensagem da NASA. Havia um tipo de sinal, vindo de algum lugar no fundo do espaço. Bem, mais como um tipo de anomalia. Algo que não fazia sentido.  Eles não elaboraram o que isso deveria significar. Acabaram estimando que veio além do Cinturão de Kuiper. Tudo isso era estranho, claro. Eles decidiram verificar."

Ele fez uma pausa, soltando um rápido suspiro.

"Eles enviaram uma sonda interestelar para este sinal. Estimava-se chegar lá em cerca de nove anos. E aconteceu que cerca de nove anos depois, voltei ao espaço depois de fazer um hiato na Terra. Enquanto estava lá, recebemos uma outra mensagem. A sonda havia chegado onde o sinal estava aproximadamente sendo enviado. Eles iriam fazer uma transmissão para assistirmos."

Arqueei a sobrancelha. Ele riu da minha confusão.

"Sim... nós chegamos muito mais longe em termos de tecnologia espacial do que o público é levado a acreditar. Neste ponto, não acho que você devesse estar surpreso. De qualquer forma, todos estavam em torno dos monitores, esperando para ver o que diabos a sonda havia captado. Tenha em mente que havia apenas 10 pessoas na sala na época. Era muito apertado para caber mais, então nós seríamos os primeiros a bordo que veriam aquilo. A transmissão eventualmente piscou na tela."

Ele parou, esfregando as têmporas. Quase parecia que o machucava pensar naquilo.

"Tudo aconteceu bem rápido. Só demorou alguns segundos para que os gritos começassem. As pessoas estavam batendo suas cabeças no chão e nas paredes. Foi um caos. Todos enlouqueceram após ver o que estava naquele monitor. A única razão de eu ter sobrevivido era porque eu na verdade não consegui ver. Ainda estava no banheiro quando a transmissão começou. Saí assim que ouvi a comoção. Aliás eu até desmaiei. Acho que não sou muito bom com sangue. Tudo o que me lembro antes de atingir o chão foi ver uma pessoa solitária ainda grudada na tela. Ele era o único assistindo neste momento. Quando acordei, eles começaram a me fazer perguntas, mas eu não tinha respostas para eles. Eu não havia visto."

"Espera, então qual foi a causa da morte para eles?" Perguntei.

"Suicídip. Na maior parte, força contundente." Ele respondeu. "Todos naquela sala encontraram uma maneira de se matar."

Que porra é essa?Pensei. Será que foi isso mesmo que eu também havia visto?

"E o que aconteceu com o outro cara? O cara que você disse que ainda estava assistindo?"

"Ele também desmaiou. Mas só por um minuto. Além disso, ele disse que estava bem. Nunca nem mesmo tocou no assunto. Quando eles perguntavam o que ele havia visto, ele apenas encolhia os ombros e dizia que não sabia do que estavam falando. Eu conheci ele, na verdade. O nome dele era Blake. Ele sempre foi um cara estranho."

Houve outra pausa. Continuava tentando entender isso na minha cabeça. Caine continuou:

"Mas esse não foi o fim de sua história."

Eu me animei.

"Ele foi demitido pouco depois. Parecia apenas ter parado de se importar com tudo que acontecia ao seu redor. Ele tinha essas... explosões estranhas e sombrias de vez em quando, e isso deixava todos que trabalhavam com ele assustados. Ele estava ficando louco."

"Depois do último dia, ele sumiu do mapa. Sua família, os poucos amigos que ele tinha, nenhum deles sabia pra onde ele foi ou pra onde ele iria. Não havia vestígios dele em nenhum lugar. Mas sem o conhecimento de todos, ele estava viajando pelo país, recrutando pessoas para um culto que ele criara. Você deve imaginar como era chamado."

Não demorou muito para que eu juntasse os fatos.

"A facção dos deuses perdidos."

"Correto." Ele continuou. "Ele até mesmo escreveu e lançou um manifesto explicando por que isso era necessário. Ele continuava dizendo sobre como havia algo inerentemente errado com o funcionamento do nosso mundo externo, e que nós nem deveríamos existir. Aparentemente nosso sistema estava 'corrompido', o que quer que aquilo devesse significar. Ele era desequilibrado. Ou... talvez foi o que ele viu que fez ele se ficar assim."

Ele continuou a explicar como Blake procurava por algo o tempo todo em que estava recrutando membros. Ele estava procurando pela gravação da sonda.

"Sabe, a sonda ainda está lá, transmitindo o que quer que aquilo seja para uma tela que apenas o governo tem acesso. Vou presumir que você viu o site para onde todo o 'conhecimento sensível' vai."

Assenti. Do contrário não estaria aqui.

"De acordo com eles, alguns hackers batendo a cabeça nos teclados de vez em quando não era um grande problema. Mas depois do que tinha acontecido em Chronos, quase ninguém ousou olhar. Os poucos que tentaram... bem, você sabe a história. Mas é aqui onde as coisas ficam incompreensivelmente bizarras. O que estou prestes a lhe dizer... quase ninguém sabe a respeito. E isso inclui 99% dos agentes do governo.

Ele pegou um maço de cigarro e acendeu um. Deu uma longa tragada antes de continuar:

"Após cerca de seis meses, eu voltei para o Chronos. Eles me ofereceram um pacote de indenização só para eu me aposentar e ficar de boca fechada, mas eu decidi ir contra aquilo. Eu era muito arrogante. Tentei fingir que o que vi não me afetou. Aquilo foi um erro."

Ele jogou fora o cigarro e acendeu outro.

"Era uma jornada de trabalho rotineira. Estávamos terminando algumas tarefas de manutenção quando ouvimos um som de zumbido vindo de algum lugar fora da estação. Não era parecido com nada que já tivéssemos ouvido antes. Mesmo agora, eu não consigo imitar o que ouvi, era tão... estranho. Várias pessoas começaram a olhar por suas janelas apenas para ver o que estava acontecendo. No entando, o que aconteceu em seguida me fez questionar em que tipo de universo nós realmente vivemos."

"Eu estava almoçando no meio da bagunça no salão quando ouvi a agitação vindo dos corredores. Eu teria ido verificar, mas foi quando os gritos começaram. Não era normal. Honestamente, não soava nada parecido com que um ser humano fosse capaz de produzir. Lembro-me de olhar para todos na sala. Eles não estavam se movendo. Estávamos todos na mesma situação. Alguns homens criaram uma espécie de barricada com cadeiras na entrada. Entretanto... nós não conseguimos desviar o olhar daquilo. Havia algum tipo de luz saindo das aberturas de baixo e de cima da porta. Mas algo estava errado. A luz não era de nenhuma cor que já tivéssemos visto antes."

A familiaridades dessas descrições fez minha mente girar. Foi aquilo, não foi? Foi o que eu havia visto. Ele continuou:

"Me lembro de ter ficado desorientado apenas por olhar por alguns segundos. As próximas horas foram excruciantes. Os gritos não pararam. Nossa sanidade estava se esgotando. Todos nos sentamos, dedos nos ouvidos e os olhos fechados, esperando pelo fim daquela merda. Eventualmente, a porta se abriu e fomos escoltados. Me lembro de olhar em volta e ver as paredes anteriormente brancas da estação, agora manchadas de vermelho. 90% da equipe morreu naquele dia. Tínhamos perguntas, é claro. Sobre o que aconteceu. Entretanto, todos que poderiam saber agora estavam mortos."

Ele se recostou na cadeira. Tirou outro cigarro do maço. Desta vez, acompanhado por um gole de uísque. Continuou:

"Voltei para a Terra logo depois. Desta vez eles não me ofereceram meu emprego de volta. Apenas um cheque de indenização e um contrato de confidencialidade. Porém, não é como se eu me importasse naquele ponto. Eu teria me demitido de qualquer maneira. Agora, aqui está a conexão com o que você viu."

"Naquele dia, eu estava em minha casa, pensando em minha vida. Então ouvi uma batida na porta. Era Ben. Ele me perguntou o que diabos havia acontecido em Chronos. Eu contei a ele. Mas o que eu não entendia era como ele sabia que algo tinha acontecido. Ele nunca nem trabalhou com a NASA. Então eu o questionei sobre isso."

"Ele disse que uma onda de chamadas de emergência da estação vieram todas de uma vez. Eles descreveram exatamente o que eu havia passado. O problema era que, eles não tinham meios de lidar com isso. Teria levado muito tempo para organizar uma missão de resgate. Todo mundo estava perdido sobre o que fazer. Foi quando o alto-escalão vieram com algo imediatamente. Eles tinham um palpite. Na verdade foi mais um experimento. Verificaram o site. Com certeza, foi invadido mais uma vez. Alguém estava vendo a gravação da sonda.

"Eles o seguiram até um armazém abandonado em Santo Antonio, que era onde Ben estava na época. Naquele ponto, ele era apenas um agente de campo, então eles o contataram o mandaram verificar isto. Ele dirigiu junto com uma equipe da SWAT. Quando chegaram, era um banho de sangue. Eles começaram a ser atingidos no momento em que entraram. Quem quer que estava fazendo isso... estava tentando proteger algo. Metade do time foi morto antes de conseguir assegurar o lugar. Eles detiveram os atiradores e começaram a varrer o resto do edifício. Não havia nada nos andares superiores. Mas então eles chegaram ao porão."

"Havia apenas uma pessoa lá embaixo, sentada na frente de um monitor. Eles se aproximaram dele lentamente, ordenando que levantasse as mãos. Ele ignorou. Um membro da SWAT eventualmente se aproximou dele. Foi quando ele começou a gritar do nada e atirou na própria cabeça. Não há dúvida de que ele tenha oilhado a tela. Ninguém se aproximou depois disso. Todos apenas mantiveram apontando suas armas para e dizendo-lhe para se virar. O cara acabou cedendo. Ele disse que era Blake. Ben o reconheceu, porque ele se tornara infame pelos círculos do governo. Diss que havia sangue saindo de seus olhos e nariz. Pele branca como a lua. Apenas disse uma coisa."

Caine parou e suspirou. Bebeu todo o uísque em seu copo e então olhou para mim.

"Você não pode detê-lo. Se isso não acontecer hoje, acontecerá eventualmente. Nosso julgamento ainda está por vir."

"Ben disse que isso o arrepiou até os ossos. Disse que Blake havia dito isso com um tom e uma convicção que apenas o fez sentir desespero e vazio por dentro. Ben atirou nele logo depois disso. No monitor também."

"Eles reuniram o restante dos membros do culto para interrogatório. Eles não iriam cooperar, obviamente. Todos apenas repetiam as mesmas palavras. Algum tipo de lema ou algo assim. De qualquer forma, o alto-escalão chegou em algumas horas. Eles parabenizaram Ben e o disseram para ir pra casa. Os relatórios desesperadores finalmente tinham parado de ser enviados de Chronos."

"Espera." Interrompi. "Os relatórios... eles pararam assim que Blake foi baleado?"

Caine riu, Foi um riso seco. Não havia humor.

"Sim". Continuou. "Você está descobrindo, não é? Eis a conclusão que eles chegaram: o que quer que a sonda estivesse gravando;;; o que quer que Blake estava assistindo... estava o observando de volta. De alguma forma, eles estavam se comunicando um com o outro."

Isso foi uma coisa horrível de se pensar. Caine continuou:

"Eles estava enviando algo para a Terra. Algo além de nossa compreensão que nós nunca poderíamos entender. Ninguém sabe o que isso quer de nós. Provavelmente nada de bom. De qualquer mandeira... eles decidiram garantir que ninguém visse aquilo novamente. Eles desconectaram a sonda. Pararam completamente a transmissão. Tenho certeza de que a linha de raciocínio foi que, se não o procurarmos, então ele não nos notaria."

"Espera, o que?" Quase gritei. "Então como diabos eu o vi?"

"Era o que eu estava pensando." Ele disse. "Você recebeu alguma resposta?"

Tentei contar a ele sobre a IA, mas as palavras saíram da minha boca embaralhadas de forma incoerente. Ele apenas olhou para mim, confuso.

"Uma IA? Do que diabos você está falando?" Perguntou.

"Naquele site... houve outro prompt. Isso me trouxe aqui, foi como eu encontrei."

"Prompts? Do que você está falando?"

Que se dane, pensei. Ele claramente não sabia sobre aquilo. Ainda havia muitas perguntas na minha cabeça, então não me demorei nisso.

"Quantas pessoas você conhece que viram isso?" Perguntei.

Ele soltou uma risada rápida. "Dos que estão vivos? Você."

Aquilo me deu um calafrio na espinha. Ele continuou:

"O que se deve uma pergunta, é: por quanto tempo você olhou? Apenas uns dois segundos, certo?"

"Não." Respondi. "Quase meio minuto."

Depois que eu disse aquilo, seu rosto empalideceu.

Eu simplesmente encolhi os ombros. "Olha, eu não... eu não sei o que fazer com isso." Foi tudo que eu conseguir gaguejar.

Com uma expressão de choque, Caine apenas olhou para o teto. Quando ele fez aquilo, as palavras da mensagem de contingência passaram pela minha mente. Você foi o primeiro que viu isto desde que o derrubamos. Mas por que eu? Por que eu era tão especial? Por que eu tive que ver?

Caine começou a falar novamente:

"Os computadores podem saber mais sobre a humanidade do que jamais seremos capazes."

Apenas olhei para ele, confuso. Que afirmação estranha a se fazer. Ele continuou:

"Se realmente há uma IA que te levou para aquela página... talvez isso signifique algo."

"Signifique algo? Tipo o que?" Respondi.

"Ninguém mais parece ser capaz de lidar com isso. Mas, como Blake, você parece ser uma exceção."

Eu realmente pensei sobre isso. Ele estava certo, não estava? O que quer que esta coisa seja... pareceu levar as pessoas à beira da loucura após alguns segundos de exposição. Quero dizer, eu com certeza não tinha ideia do que havia visto. E certamente não gostei de ver... mas eu estava em um estado mental normal.

No entanto, havia mais uma pergunta que eu não podia ignorar.

"Estes membor do culto que foram detidos... eles não eram os únicos, eram? Haviam outros membros."

Caine assentiu. "Eles tentaram dizer a si mesmos que eram os únicos. Que isso estava feito. Isso é o que todos queriam acreditar. Subestimar a influência de Blake foi um dos maiores erros que eles poderiam ter cometido."

Neste ponto, eu não queria mais pensar nisso. Precisava de uma pausa desta discussão. Perguntei a ele se havia algum lugar que eu pudesse descansar. Ele me disse que havia um colchão sobrando no armário.

Eu preciso dormir. Mas não antes de entender isto. Milhões de pensamentos ainda estão pessando pela minha cabeça enquanto escrevo isto. Bem disse que aquele cara era nossa melhor jogada, mas nada pareceu ter sido resolvido. Droga, o que ele deveria fazer? Talvez essa contingência "Blackout" fosse necessária. Se tudo o que ouvi for verdade... pode ser a única opção.

Deus, essa coceira na minha nuca está me matando. De qualquer forma, parece que terei que tomar uma decisão em breve.



EDIT: Caine e eu acabamos de ouvir alguém tentando abrir a porta. Ele deu uma olhada através do olho mágico e me disse que havia pessoas com máscaras estranhas em pé lá fora. Isto não é bom.











Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Eu trabalhava para uma caridade

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ATENÇÃO: ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.
 
Os piores monstros são aqueles que vemos como heróis.

Em meus pesadelos, ainda posso sentir o ar estéril passando pelas minha bochechas nas correntes de vento frias. Ainda posso sentir o cheiro indescritível de material hospitalar misturado com o metálico fedor de sangue. Às vezes, nos momentos entre sonhar e acordar, eu posso até reconhecer os gritos de pessoas que assisti morrerem. Tem me perseguido por toda minha maioridade, e sequer sei como escapar dessa culpa, exceto talvez confessando meus pecados.

Eu fui o típico recém-graduado. Terminei a faculdade com um bacharelado em enfermagem, e sendo novo no mercado de trabalho, me inscrevi em todas as “Vagas Disponíveis” que vi, e fui rejeitado por cada uma delas em seguida. Desesperado, comecei a procurar no exterior, tentando descobrir se eu poderia transferir minhas credenciais. Encontrei algo, um emprego como cuidador em uma instituição de caridade.

O anúncio pareceu perfeito para mim. Pensando agora, aquilo deveria ter sido um sinal de perigo.

Precisa-se de ajuda

Instituição para ____________

Requerimento Mínimo:
Bacharelado em Enfermagem ou equivalente

Remuneração a negociar

Não posso dar detalhes precisos sobre o nome da instituição, ou localização, para minha própria anonimidade e por medo de que eles encontrem isso e venham atrás de mim. Tudo que posso dizer é que se especializavam em cuidados nos países de terceiro mundo, providenciando comida e ajuda para os que estavam morrendo. Pelo menos, é o que parecia. A única coisa complicada foi que eu precisei me mudar para um desses países; isso e também tive que assinar um contrato de sigilo, com advertência de repercussão pessoal caso quebrado. Era uma caridade, gente. Não poderia estar escondendo nenhum grande segredo, certo? E como eu disse, estava desesperado naquele ponto, teria ido a qualquer lugar por um emprego. Sempre admirara Madre Teresa, de qualquer forma, e senti que era um bônus ajudar os necessitados.

Nunca os ajudamos, falando nisso.

No primeiro mês, me enviaram para o departamento de cuidados. Era um trabalho bem simples: medicar, limpar, levar ao banheiro e apenas observar os que precisavam. A maioria dos pacientes eram idosos, vivendo os últimos dias de suas vidas, ou crianças muito pequenas, adoentadas pela malária ou pela febre amarela ou qualquer coisa do tipo. Por um lado, era de se partir o coração, assistí-los partir em suas camas, a carne se juntando aos ossos enquanto eles se tornavam cadáveres. Era ainda pior quando alguma das crianças morria, o sentimento de perda realmente me atingindo quando seus pulmões afundavam em um silêncio doloroso. Por outro lado, eu estava sendo pago para fazer aquilo. Superei isso rápido: a morte veio junto com o trabalho.

Acho que perceberam isso, porque me realocaram nas cirurgias na minha quinta semana lá.

Alguma coisa na sala de cirurgia estava errada. Era muito limpa, muito perfeita, as paredes em um branco brilhante. Minha primeira paciente era uma velha e frágil mulher chamada Mei. Ela grunhia e chiava a cada fôlego, mas parecia saudável além disso. Tirei sua velha, suja roupa e a substituí pela camisola esterilizada de hospital. Debaixo das roupas, ela era magra até os ossos, seu esqueleto saltando de sua pele como se ela não comesse há semanas. Falei para que deitasse na mesa de cirurgia, então fui para a sala de observação quando o cirurgião entrou, cercado por um time pequeno empurrando um carrinho cheio de materiais pontudos.

Assisti, confuso, às enfermeiras prenderem-na na mesa com grossas tiras de couro. Próximo a mim, outro doutor observava pela janela de vidro. Olhando de lado, deve ter percebido a confusão em meu rosto.

“Pensando na anestesia? Você deve ser novo.”

“Bem, sim. Não deveria haver ao menos uma anestesia local? Qual o procedimento aqui?”

“Ha. Esqueça da anestesia. É muito cara, especialmente nestas áreas. Quanto ao procedimento... Só sente-se e assista o show.”

O cirurgião começou a trabalhar. Mei tremeu em agonia enquanto ele traçava uma longa, profunda linha pela sua barriga até a escápula. Sangue imediatamente escorreu pelo corte, descendo por sua pele escura, fazendo uma bagunça na mesa. Ele fez mais duas incisões perpendiculares do começo ao fim do corte. Esses foram muito mais bagunçados, a lâmina correndo enquanto ela agonizava em dor. As tiras de carne foram escancaradas, revelando seu interior em toda sua glória úmida. Sangue brotou da cavidade em seu peito enquanto seus pulmões respiravam pesadamente, as bolhas vermelhas explodindo silenciosamente, sujando o cirurgião com manchas carmesim. Seus gritos se tornaram ainda mais altos quando ele alcançou uma serra. Zuniu quando a lâmina alcançou seu interior, o som abafando a voz de Mei, então o bizarro barulho preencheu o quarto quando ele começou a cortar cada uma de suas costelas metodicamente. Seu corpo tremeu com espamos. Ela estava entrando em choque. Uma parte de mim queria interromper e pará-los. Outra parte de mim sabia que era tarde demais para ela.

Todos eles pararam, imóveis, e esperaram até que ela parasse de tremer. Então o doutor pegou o bisturi e delicadamente o trouxe para dentro da cavidade no peito de Mei. Assisti horrorizado enquanto ele cortava fora cada órgão; o coração, pulmões, o fígado, os rins, e por aí vai, delicadamente colocando cada sangrento pedaço de carne em um compartimento. Subitamente percebi que o eu estava assistindo. Eles estavam... eles estavam traficando seus órgãos. Isso não era caridade. Era um negócio. Um enfermeiro colocou todos os compartimentos em um carrinho refrigerado, e o levou para fora da cirurgia. Eu fiquei ali e encarei, minha mente paralisada pelo choque de tudo aquilo. O doutor que estivera assistindo comigo me deu um tapinha no ombro e saiu com uma risadinha no rosto.

A pior parte de tudo sequer foi assistir a morte dela. Foi ter que explicar para a família que ela pereceu durante a operação. Ofereci minhas condolências, as palavras queimando na minha língua como bile, e meu estômago se revirando enquanto assistia seus rostos contorcidos em tristeza e luto, a culpa esmagando meu coração. Tive que mentir para eles, dizer que os médicos incineraram seu corpo por estar muito infeccioso. Tive que vê-los acreditarem em mim, assentir à sua triste aceitação. Vendi minha alma para o diabo.

Precisava do dinheiro, o suficiente para ficar lá. Eu estive na mesma sala por incontáveis pacientes. Eu senti cada morte. Assisti enquanto eram dissecados vivos.

Provavelmente morrerei arrependido daquele ano que passe na caridade. Sei que nunca esquecerei os gritos de cada um deles, seus suspiros e preces quando perceberam que estava sendo abertos por dinheiro. Cada dólar que gastei está marcado pelo seu sangue, suas lágrimas. Meu único consolo é que nunca estive diretamente na cirurgia. Mesmo assim, me sinto sujo. Pecaminoso. Nunca serei capaz de apagar essa parte da minha vida de minha consciência. Nunca poderei contar a meus filhos qual foi meu primeiro emprego, o que eu vi, o que fiz. Me odeio por ter participado de tudo. Odeio ter fingido que éramos uma caridade.

Dizem que a rua para o inferno é pavimentada com boas intenções. Creio que estão certos.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

obs: o título original da creepy, em tradução livre, seria, "Eu trabalhava para uma caridade que ajudava as pessoas desenganadas com suas mortes", simplificado para melhor aproveitamento do texto. ;)

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Ballet (Part:5 O Favor Misterioso)

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Part1
Part2
Part3
Part4

‘’Grávida de gêmeos perde um dos bebês’’.

‘’Um caso ainda sem explicação está deixando toda a equipe do Hospital Hills intrigada; uma paciente que não teve o nome revelado estava grávida de gêmeos, mas uma das crianças não sobreviveu, o que é estranho é o fato do corpo ter sumido do hospital. ’’

Surpreso e estático Derick saí imediatamente do quarto, ainda com a enorme curiosidade de saber o que tudo aquilo significava e mais ainda no que havia no sótão, mas sua curiosidade poderia esperar, Molly estava chamando. A doce voz que trazia um pouco de luz para aquela casa tão sem vida e amor, trazia também sentimentos novos no coração de Derick, sentimentos esse ainda sem nome definido. 

‘’Derick’’ -  Você me chamou? 
‘’Molly’’- Sim, onde você estava?
‘’Derick’’- Estava andando por aí, esperando você acordar. Me fala, você nunca teve curiosidade de saber o que tem no sótão?
‘’Molly’’- Sim, mas eu nunca tive como tentar entrar lá. 
‘’Derick’’- Na garagem de casa tem algumas ferramentas, talvez alguma sirva. Espera um minuto, eu já volto.

Derick corre até a garagem de sua casa e pega um alicate grande na prateleira, quando se aproxima da casa de Molly percebe que alguém abriu a porta.  Cuidadosamente ele abre a porta, não há ninguém na sala; sobe as escadas e parada enfrente ao quarto de Molly ele vê a sua mãe. Sua mente fica extremamente confusa e perturbada, afinal o que ela estava fazendo lá? Não tinha explicação alguma para sua mãe estar ali, muito menos no horário em que devia estar trabalhando. 

‘’Molly, não se assuste querida, somos vizinhas e sua mãe está no hospital onde eu trabalho, me pediu para que cuidasse de você em nome dos velhos tempos.’’ 
- Vocês são amigas?
- Na verdade eu devo um favor para sua mãe, mas podemos dizer que sim, somos amigas e agora eu sou sua amiga também. Prazer, me chamo Alicia. 
-Eu estou bem, o meu amigo está cuidando de mim. 
''Derick acena com as mãos para que Molly não revele que ele está ali.'' 
-Amigo?! Sua mãe me disse que você não tinha amigos. 
-Deus, ele é o meu amigo.
-Que menina mais doce você é Molly. Agora Deus pode descansar e me deixar cuidar um pouco de você não é? Haha. 

Com um sorriso forçado no rosto Alicia tenta ser uma segunda mãe para ela, mas Molly sente que algo está errado, o uniforme branco parece esconder coisas obscuras em suas boas intenções. Mas não há outra escolha, ela não pode prejudicar Derick. 

Derick dá passos lentos para não ser notado e entra novamente no quarto de Denise. ‘’Eu nunca pensei que elas se conheciam, não sei que diabos devo fazer agora.’’ 

Ele adormece no chão frio do quarto, as horas passam novamente e mais uma vez o dia amanhece; se levanta ainda meio sonolento e vai até o quarto de Molly, mas percebe que ela não está lá. 

Autor: Andrey D. Menezes.
(Continua..) 

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Traição de um Coelhinho

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As lágrimas escorriam pelo seu rosto, o som de seus lamentos preenchia o quarto. Ela não entendia, como ele pode fazer aquilo? Depois de tantos anos juntos, depois de todas aquelas juras de amor, depois de tudo o que ela fez por ele. No fim, era tudo uma grande mentira.

Quanto mais pensava em sua desgraça, quanto mais se lembrava daquela época mágica que passou ao lado dele, mais seu coração enchia-se de ódio.

Ele iria pagar.
Com um plano em mente, a jovem de 16 anos se dirigiu até seu armário, de lá retirou um belo vestido preto com lantejoulas (o mesmo vestido que usou no primeiro encontro que teve com o rapaz que lhe partiu o coração), aplicou uma maquiagem noturna e calçou uma sandália azul escuro de salto alto.

Saiu de casa e seguiu pela rua até a moradia dele, tocou a campainha, a porta se abre e revela uma mulher de belas feições e sorriso meigo.

-Olá querida. Nossa! Como está bonita! Alguma ocasião especial?

-De certa forma sim, Coelhinho está? Preciso falar com ele. – perguntou com um sorriso ao pronunciar o apelido que havia dado ao ex-namorado.

-Não, sinto muito.

-Posso espera-lo então?

-Claro, entre. – deu espaço para que a jovem pudesse adentrar na casa.

Ela passou pela entrada com um sorriso largo, se dirigiu para a cozinha e retirou uma faca do faqueiro.

Agora a diversão iria começar.

Uma hora depois um carro estaciona na garagem da casa, do veículo desembarca um casal de jovens, ambos estão com as roupas amassadas e os cabelos bagunçados.

O par se dirigiu até a cozinha e encontram alguns biscoitos sobre a bancada, ao lado daquelas suculentas guloseimas um bilhete da mãe do garoto manchado com um liquido carmim que supuseram ser groselha, nele estava escrito que a matriarca saíra para fazer compras e que não demoraria a voltar.

Os dois se entreolharam e sorriram, comeram alguns dos biscoitos e subiram para o quarto do jovem.

Foram entre beijos e suspiros que ele se viu nu em sua cama, deitado ao lado da parceira que em meio aos gemidos pedia cada vez mais prazer. Quando ambos já estavam perto do tão aclamado auge daquela paixão, um cansaço debilitante tomou conta dos dois corpos presentes naquele cômodo, ambos nem tiveram tempo para pensar antes de caírem em um sono profundo.



-Acorde Coelhinho. – disse uma voz doce e familiar que em questão de segundos o despertou.

Demorou para que pudesse se acostumar com a fraca luz que tentava iluminar o recinto, delongou mais alguns minutos até o cansaço o abandonar por completo.

Com um sorriso paciente estampado no rosto, a jovem observava atentamente o rapaz à sua frente.

Quando percebeu quem era aquela o fitando, se surpreende.

-O que você...?

-Vim ver o meu amorzinho. – disse com um largo sorriso.

Ele pretendia responder, dizer para ela que tudo havia acabado, que não possuía mais o direito de chama-lo daquela forma melosa, mas quando abriu a boca suas palavras não saíram. Um medo súbito tomou conta dele. Ele percebeu o líquido rubro que banhava o vestido de sua antiga namorada. Percebeu o cheiro metálico que percorria pelo cômodo.

-Hum? Isso? – disse a garota apontando para a própria vestimenta – Você demorou demais para acordar, então eu e a vadiazinha decidimos brincar um pouco. – ela saiu do campo de visão do rapaz e deu espaço para uma cena de puro terror.

A amante do rapaz, presa em uma cadeira, seu rosto completamente desfigurado por cortes de uma lâmina, os olhos que antes esbanjavam malícia e vontade de viver se encontravam sem brilho e arregalados, os cabelos – antes longos e belos – estavam cortados de forma desajeitada e se encontravam encharcados de sangue, seus seios agora se encontravam rasgados e deformados, suas pernas e braços não apresentavam mais pele, seus dedos estavam espalhados pelo chão, sua barriga cortada em “X” revelava um conjunto de órgãos que se apoiavam de forma desajeitada em suas coxas, para completar aquele cenário de horror, ainda ligado ao peito da jovem, em meio aos cortes e ao sangue, seu próprio coração enfiado na boca.

O garoto tentava ao máximo escapar, mas suas pernas e braços estavam presos por firmes amarras que o mantinham ligado à cadeira que estava sentado.

A carcereira volta para o campo de visão dele com um sorriso.

-Sabe, eu não entendo porque você preferiu ela do que a mim. O que ela tem que eu não tenho? Porque, se bem me lembro, você disse que me amava, que eu era a melhor e que nunca iria me abandonar. Mas olha só que ironia! Eu vou até um hotel de terceira por causa de uma ligação de uma pessoa qualquer e em um dos quartos encontro o MEU namorado transando com uma outra qualquer! – o sorriso paciente aos poucos se transformou em uma expressão de pura repugnância – Francamente, eu esperava mais do aluno "nota dez" da sala.

Ele não conseguia dizer uma resposta, estava com medo, em todos aqueles anos que esteve ao lado dela ele nunca tinha visto aquela face de sua ex.

-Sem resposta? Bem, dizem que uma ação vale mais que mil palavras, suas ações já me disseram muito, mas eu ainda não te disse algo, né?

Ela levantou o braço esquerdo e revelou uma faca de cozinha ensanguentada na mão.

-Vamos brincar, Coelhinho? – ela se aproxima lentamente dele.

O adolescente grita por socorro. Mas ninguém aparece para salva-lo.

A garota ria com a tentativa patética daquele traidor.

-Hahahaha, isso! Grite o quanto quiser, ninguém virá te salvar. – ela se aproxima mais e mais, chega bem perto e se senta nas pernas do rapaz em desespero – Vejamos, por onde devo começar?

A faca passeia pelo rosto dele enquanto ela cantarola uma suave melodia. Quinze segundos depois a faca é enfiada na bochecha direita dele e a lâmina é arrastada até sua boca, cortando seu rosto e enchendo-o de sangue.

Ele grita desesperadamente, o sorriso dela se alarga.

-Isso! Grite e sofra Coelhinho!

A lâmina passeia suavemente pelo corpo dele, de segundo em segundo ela enfia a faca e rasga o corpo de sua vítima. O peito, os braços, a faca descia e cortava cada canto dele.

-Foi esse o motivo de você ter me deixado, não é? – disse ela apontando para o membro exposto do rapaz – Por quê? Se cansou do que eu fazia? Se cansou do prazer que eu te dava? Se cansou dos meus gemidos? – os olhos dela brilhavam com o mais puro ódio – Bem, agora vamos ver se você terá algo para se cansar agora. – a faca é enfiada no órgão e o corta ao meio em uma linha transversal.

Os gritos são incessantes, os risos se tornam cada vez mais altos. O sangue escorre do corpo dele, tingindo o cômodo e os dois jovens.

A garota desce do colo dele, levanta o braço e enfia a faca nas coxas do rapaz, ela repete o ato varias vezes conforme os gritos chegam aos seus ouvidos. As risadas ressoam e o sangue pinta o quadro de terror.

O sorriso psicótico se torna cada vez maior. Cada corte se torna a dor na alma da jovem estampada no corpo do rapaz.

Em um determinado momento o jovem perde as forças, os gritos deixam de ressoar, ele fica preso à vida por um único fio de destino.

Os lábios da garota se contraem e formam uma expressão de decepção, a cabeça se inclina e uma voz manhosa ressoa.

-Coelhinho cansou? – mais uma vez o sorriso volta – Então está na hora do gran finale.

A faca sobe até o peito dele, a lâmina é fincada e corta a região, as mãos da jovem adentram no interior do corpo, logo depois elas são retiradas com o coração dele entre os dedos da jovem.

-Abra a boquinha. – a mão esquerda se estende e força-o a abrir a boca.

Usando a outra mão ela introduz o órgão no orifício.

O rapaz tentava se manter vivo, mas a morte se aproximava cada vez mais.

A jovem olhou-o por alguns segundos e depois se dirigiu para a porta que levava para a saída daquele cômodo. Ela abriu a porta e antes de partir se vira e diz com um sorriso:

-Boa noite, Coelhinho.

Autora: Joyce Piv

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Vox e Rei Beau: Rei Beau e o Lugar Escuro (PARTE 3)

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Desculpem-me se isso parece aleatório; estou escrevendo tudo agora. Nunca pensei que contaria essas histórias a alguém. Vocês podem entender por que eu estou preocupada, não é? Ou meu cérebro está trazendo tudo isso de volta, o que é assustador, ou Beau é real e veio pegar minha voz, o que é assustador, ou há algo me perseguindo fingindo ser Beau, o que é assustador. Eu realmente não sei o que fazer. De qualquer forma, aqui está Beau e o Lugar Escuro.

Muitas histórias sobre Beau são coisas fofas que você esperaria de uma garotinha que amava filmes da Disney e pôneis. Nelas, Beau quase se torna uma criança. Nem todas as histórias são assim, no entanto.

Um dia, Beau veio até mim durante um de meus cochilos e perguntou se eu queria brincar em vez de dormir como costumávamos fazer. Ele podia tornar tudo silencioso, então ninguém saberia que eu estava acordada. Eu disse que não podia porque estava cansada, e ele perguntou por que. Eu disse que estava tendo problemas para dormir porque estava com medo que houvesse um monstro em meu closet.

Por que eu estava preocupada com um monstro em meu closet quando eu tinha Beau como amigo imaginário também não faz sentido pra mim, mas não há por que tentar entender a lógica de uma criança. De qualquer forma, Beau ficou furioso. Ele rosnou e pisou duro e usou algumas de suas vozes mais irritadas. Ele disse para que eu não me preocupasse - ele resolveria esse problema por mim. Ele marchou diretamente para meu closet, e foi isso.

Não vi Beau novamente por uma semana inteira, e fiquei realmente preocupada. Chamei seu nome, cantei suas músicas favoritas e até fiquei acordada durante a hora do cochilo mesmo que não houvesse monstro em meu closet, mas não adiantou de nada. Finalmente, uma noite eu acordei e vi Beau entrar por minha janela e sentar no chão perto de minha cama. Ele parecia terrível. Demorou mais alguns dias até que ele tivesse vozes o bastante para me contar a história.

Conforme ele me disse, Beau marchou para o closet, direto para as sombras mais escuras. Como vocês devem saber, as sombras de um closet são algumas das mais escuras e grandes. Demorou muito para que ele atravessasse, mas ele estava determinado. Nada tinha o direito de me assustar enquanto eu fosse dele. Logo as sombras começaram a gemer e se mover ao redor dele. A princípio Beau achou que fosse ser atacado, mas ele percebeu que as sombras estavam formando um túnel. Nas paredes do túnel, ele viu faces. Algumas tinham mandíbulas que nunca fechavam porque elas gritaram por muito tempo.

Algumas estavam ligadas a longos pescoços que se esticavam e tentavam mordê-lo. Outas estavam grudadas umas nas outras porque haviam sido forçadas contra si mesmas por muito tempo. Elas todas haviam passado tanto tempo na escuridão que agora estavam insanas. Foi aí que Beau soube que essa não era uma escuridão ordinária. O Lugar Escuro era muito, muito velho. É óbvio, Beau insistiu que nada disso o incomodou. Ele pensou mesmo em comer algumas das vozes dessas faces apenas para que elas se calassem, mas elas estavam muito usadas para serem poderosas e provavelmente tinham gosto ruim.

Ele andou pelo túnel até que chegou a uma caverna enorme. Dentro dela, as paredes eram feitas de velhos ossos e sombras ao invés de faces. De vez em quando ele pensou ter visto uma das caveiras se mover um pouco. Ele disse que aquele lugar tinha um cheiro podre. Não de carne ou pele podre... simplesmente pura podridão.

Beau falou para o fundo da caverna, que se estendia tanto que ele não podia ver o fim. Ele gritou, "Eu sou o rei do Lugar Quieto. Você está tentando roubar o que é meu. Nós devemos lutar."

E a Escuridão respondeu.

A Criatura do Lugar Escuro não era fácil de descrever. Ela mudava quando você tentava olhar para ela, então só se podia vê-la direito com sua visão periférica. Ela andava com mil mãos, arrastando sua forma inchada pelo chão como uma lesma. Tinha pelo menos cem olhos que olhavam em todas as direções. Alguns haviam saído das órbitas e outros giravam loucamente. Tinha duas bocas com línguas babando e muitas garras e dentes. Quando falou, não tinha qualquer voz.

Ela disse, "Eu sou a Criatura do Lugar Escuro. Eu pego o que eu quiser."

Beau disse, "Essa garota me pertence, e se você a pegar, você pegará a voz dela. Isso me pertence."

A Criatura riu. "Você não a disse para se esconder sob os lençóis? Ela não sabe que deve ir dormir?"

Beau rosnou, "Ela não tem que se esconder ou dormir se não quiser. É por isso que nós vamos lutar. Eu lutei contra o rei mau do Lugar Quieto, e eu posso lutar contra você também."

A criatura riu de novo, e isso deixou Beau ainda mais furioso. Ele gritou e deixou que uma de suas vozes mais fortes e irritadas saísse. Ela refletiu nas paredes da caverna, quebrando ossos e pedras antes de quebrar metade dos dentes da Criatura. Isso a deixou furiosa, então ela atacou também.

Eles lutaram com punhos e garras. Durou dias. Beau começou a pensar que mesmo suas vozes mais fortes não bastariam para manter sua segurança. Conforme ele se cansou, ele começou a cometer erros. Foi assim que a Criatura o jogou contra a parede do túnel. As faces que não eram velhas demais morderam e cortaram-no, e a escuridão começou a queimá-lo, como gelo muito frio queima. A Criatura riu e riu, cutucando Beau conforme ele tentava se libertar. Foi aí que Beau fez algo que ele achou que jamais faria - ele pediu ajuda.

O pedido foi tão claro e puro que cortou a escuridão. Foi diretamente para o Lugar Quieto, onde os caçadores do Rei Beau estavam esperando. Eles correram para ajudar Beau, prontos para atacar. Eles lhe trouxeram as melhores vozes que puderam achar rapidamente e puxaram-no da escuridão que o devorava, mas Beau não deixaria que eles derrotassem a criatura. Ele queria fazer isso sozinho. Então, ele bolou um plano.

"Eu sei como parar você", Beau disse à Criatura.

A Criatura riu com uma boca e rosnou com a outra.

"Você não pode. Ninguém pode."

Os caçadores trouxeram um grande cobertor para Beau, um tão grande que era feito de pelo menos mil outros cobertores. Ele se cobriu, juntou todo seu poder e atacou diretamente o coração escuro da Criatura. Mesmo que ela fosse velha e forte, ainda era um monstro de closet. Monstros de closet não podem atacar com cobertores sobre qualquer coisa. A criatura berrou sem qualquer voz e se despedaçou em um milhão de pedaços, que fugiram e escavaram as paredes da caverna para fugir. Toda a caverna desabou, e Beau e seus caçadores mal conseguiram escapar. Alguns dos caçadores podiam estar aprisionados para sempre na escuridão, ele não sabia dizer.

Eu disse a Beau que ele havia sido muito corajoso e agradeci por ele ter me salvado. Ele disse que não havia salvo ninguém, mas que quando a Criatura voltasse ao normal eu seria uma mulher adulta. Fora isso, ele estava irritado por ter perdido muitas boas vozes, então eu deveria cantar todas suas músicas favoritas pelos próximos dias. Do contrário ele comeria minha voz e acabaria com tudo de uma vez por todas.

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Crianças-cães

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Vou te contar sobre uma cidade – uma cidade onde você nunca deve ir. Para sua proteção, não vou falar o nome ou coordenadas. Mas posso falar isso: se alguma vez você perceber que possa estar nessa cidade, saia o mais rápido possível e não olhe para trás. 

Isso aconteceu há alguns anos. Eu seguia para encontrar um tio que eu nunca havia visitado – dirigindo meio perdido, tentando ler um mapa confuso – quando fiquei sem gasolina. Uma merda né? Nunca consigo entender essas coisas. Os perigos da caminhada eram desencorajadores, mas não havia escolha, então tentei não ficar nervoso e comecei a andar. 

O sol do meio-dia estava opressivo. Minha testa ardia de tanto esforço para manter os olhos apertados, e minhas roupas já estavam encharcadas com uns três litros de suor. Meus braços cansados pendiam mais e mais, assim como a minha esperança por uma carona. Mas, à distancia, tornou-se visível uma pick-up vermelha. “Por favor pare. Por favor,” Eu repetia, esticando o meu polegar o máximo que pude. Enquanto a pick-up se aproximava, eu agitava os braços ate que ela desacelerasse e parasse ao meu lado. 

“Era o seu carro lá atrás?” perguntou o velho camarada ao volante. 

“Sim senhor. Fiquei sem gasolina.” 

“Sobe aí. Vamos conseguir um pouco no próximo posto.” 

Cappy – era um cara legal. Ele realmente gostava de falar sobre a família, mas eram histórias divertidas. Seu filho servindo no exterior, e posso dizer que a sua gentileza era inspirada pela admiração que ele sentia pela nossa geração. Heróis, era como ele nos chamava. Mas eu nunca entraria em linha de frente – sempre fui do tipo que evitava os perigos. Mas não contei isso para Cappy – não queria desaponta-lo. 

Depois de um tempo, comecei a pensar em quando essa cidade apareceria, parecia distante demais. Isso não parecia incomodar Cappy. Acho que ele não tinha nada melhor com que se ocupar – e eu ainda não sabia para onde ele estava indo. A estrada começou a se tornar irregular, e logo tornou-se dividida com uma trilha de grama no meio. Finalmente pude ver uma cidade surgindo naquele horizonte de campos selvagens. 

Era uma típica cidadezinha do interior: casas de um azul desbotado com guarnições brancas, algumas lojas construídas com tijolos, com seus nomes pintados à mão, uma praça, uma capela branca num morro. Carros estavam estacionados em vários lugares, alguns sem pneus; embora eu não tenha visto pessoas por perto. Nada surpreendente para uma aldeia remota, mas o que me surpreendeu foi que, apesar dos celeiros, eu não via os animais. 

Não havia um posto oficial, mas encontramos uma velha garagem com uma bomba na frente. Enquanto entravamos na garagem atulhada, Cappy continuava a se desculpar por ter emprestado sua garrafa com gasolina para um vizinho. Um odor rançoso atingia minhas narinas, me deixando enjoado. “Acho melhor eu ir procurar alguém,” falei, “para que não pensem que estamos tentando roubar algo.” Na verdade, eu queria mesmo me afastar daquele cheiro. 

“Procure por algum galão de casolina, caso eu não encontre um.” 

“Entendido.” 

A cidade parecia deserta, mas eu conseguia ouvir algumas vozes ecoando de algum lugar, então resolvi segui-las. Duas crianças saíram do mato alto, brincando de pega-pega pela estrada. À distância havia um pomar com crianças correndo e jogando maças umas nas outras – algumas estavam agachadas e corriam de quatro. Enquanto me aproximava, risos e grito vinham por todos os lados. Parecia o comportamento normal de crianças, mas notei que todas usavam máscara de cachorro. 

Havia algumas crianças sentadas em uma pequena mesa de picnic, brincando com algo que parecia um bolo – elas o esmagavam com as mãos e espalhavam pelas roupas. Deduzi que, pelo bolo, as mascaras, e toda aquela diversão, estava acontecendo uma festa. Tentando parecer o mais pacífico possível, me aproximei e tentei falar com elas. 

“Tenho certeza que alguem fez esse bolo para ser comido, e não para brincarem com ele,” falei, tentando soar como um pai autoritário. As crianças pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. Senti um arrepio – pelo modo como eles viraram as cabeças exatamente ao mesmo tempo, todos usando aquelas máscaras de cachorro. E não eram máscaras de cachorros fofinhos. O realismo nelas lhes dava características perturbadoras. 

“Desculpa, mas poderiam tirar essas máscaras por um minuto?” As crianças se olharam e logo voltaram-se para mim. Comecei a me sentir envergonhado. “Então, de quem é o aniversário?” Uma das crianças fez um barulhinho. “Ah, é você?” Outra criança imitou o barulhinho. “Então é você? Hmm? É seu aniversário?” Uma terceira criança também imitou. “Talvez seja o aniversário de todos vocês?” Eles não pareciam estar ouvindo, e continuaram a imitar cachorrinhos. 

Finalmente, comecei a me irritar. Toda aquela caminhada no calor já tinha me desgastado, e agora aquelas crianças estavam cutucando uma colmeia. “Escutem aqui. E se os seus pais souberem que estão sendo tão rudes? Por que não tiram essas mascaras e agem feito crianças normais e não como cães.” As crianças começaram a ganir e latir mais alto. “Parem com isso! Onde estão seus pais? Tenho um problema no carro e preciso de um adulto agora mesmo!” As crianças não ligaram para o meu pedido, ao invés disso, começaram a jogar bolo em meu rosto; o gosto era horrível. Não parecia ser um bolo. 

“Tudo bem. Mas quando eu encontrar seus pais eles vão saber sobre isso.” Era como se eles nem soubessem sobre o que eu estava falando. Virei-me para ir embora, mas todas as crianças que estavam brincando estavam agora de pé, lado a lado, bloqueando meu caminho. Ao invés de pedir para que se afastassem, eu simplesmente segui pela esquerda para tentar contorna-los. Mas quando eu ia para um lado, eles também acompanhavam. 

“Já chega!” Eu não queria empurra-los; eram apenas crianças. “Vou contar até três para que se afastem ou vou passar por cima de vocês!” As crianças permaneceram paradas e caladas; devia haver mais de uma dúzia delas. Olhar para eles com aquelas máscaras; era surreal. Não havia duas iguais – cada uma era uma raça diferente de cachorro, com expressões que iam do dócil ao violento. Quando comecei a contar, “Um...” algumas crianças começaram a fazer grunhidos de raiva. Continuei a contagem, “Dois...” a mais crianças se juntaram com os grunhidos. Respirei fundo, sabendo que eles não se afastariam. 

“Beleza… Um!” Todos de uma vez começaram a latir. Me assustei com o quão ferozes e raivosos eles soavam. “Parem com isso!” mandei, mas apenas latiram mais alto. Um deles atirou uma maçã em mim – e machucou. Outro o imitaram, e logo estava sendo alvejado por várias frutas podres. Comecei a gritar, “Esperem ate eu achar seus pais!” mas levei uma maçã no rosto antes que pudesse acabar de falar. Algumas crianças me empurraram enquanto eu estava distraído e perdi o equilíbrio. Todos se jogaram em mim, chutando e arranhando. 

“Chega!” Cansei daquilo. “O que diabos há com vocês?!” Gritei, empurrando cada um deles. Mas eles não se abalavam, continuavam a chutar e arranhar fazendo aqueles sons irritantes. Aquela cacofonia de grunhidos e latidos fez meu sangue ferver. Comecei a bater nelas, sem me importar com a segurança deles ou o que seus pais fariam em retaliação. Depois de derruba-las, corri para encontrar Cappy. 

As crianças me perseguiam pela cidade. Eram apenas crianças, mas eu estava assustado pra caralho. As máscaras, os sons – elas nem pararam depois que as derrubei. Encontrei a pick-up de Cappy mas não o vi por perto. As crianças estavam me alcançando quando tropecei e caí. Mais uma vez fui cercado por aqueles pirralhos violentos. Tentei levantar mas havia muitas crianças sobre mim, e meus gritos por ajuda não atraíram ninguém. 

“Tirem essas malditas mascaras!” Gritei, tentando puxar uma delas; estava bem presa. Os latidos se tornaram risos e temi que houvesse adultos observando – zombando ao invés espantarem suas proles insanas. Minha raiva já estava chegando ao limite quando as crianças pararam de atacar. Todas viraram se viraram para a mesma direção e correram juntas, latindo alegremente. Me levantei, procurando em meu corpo por arranhões e hematomas. 

“Cappy!” Gritei, olhando ao redor. Minha voz ecoava por milhas. As crianças estavam fora de vista, então corri para a pick-up esperando encontrar Cappy ainda na garagem. Primeiro passei pela loja principal, para ver se alguém poderia nos ajudar, mas não havia ninguém dentro. Eles não pareciam estar funcionando – prateleiras estavam vazias e cobertas de poeira. Chequei os fundos – ninguém lá. Então ouvi um berro vindo de fora. 

Espiei pelas janelas mas não vi ninguém, então abri a porta um pouco e tentei ouvir. Eu sabia que algo estava acontecendo com aquelas crianças. Os únicos sons na cidade inteira vinham da direção para onde tinham corrido. Parte de mim sabia que eu deveria voltar para a garagem, mas eu queria ver se as crianças estavam sendo repreendidas por seu comportamento. Segui os ecos, até que claramente ouvi um grito, gutural e angustiado. 

Os gritos continuaram enquanto eu me aproximava da porta da casa mais próxima. “Hei! Tem alguém aí? Por favor!” Sacudi a maçaneta com força – trancada. Havia outra casa próxima, então bati na porta também. Ninguém em casa; ou apenas não queriam responder. Rodeei a casa, batendo nas janelas, mas não adiantava. Tinha que tomar uma decisão. O que um herói faria? Perguntei para mim mesmo, e continuei seguindo para os sons, rodeado por incertezas. 

A comoção vinha de uma casa de fazenda no topo de um morro próximo ao pomar. Corri tão rápido que quase tropecei, porém, hesitei quando me aproximei da casa. A porta estava escancarada e havia máscaras de cachorro pelo chão. Eu precisava saber o que estava acontecendo, mas não estava preparado para descobrir. Pensei em gritar por ajuda outra vez, ou chamar o Cappy, mas eu não poderia fazer barulho. Quando o grito diminuiu um pouco, pisei lentamente varanda e espiei dentro – mas não enxerguei ninguém lá dentro. Máscaras se espalhavam pelo chão. 

Deus me ajude, eu não poderia fugir. Onde eu iria sem um veículo? Eu não poderia roubar o caminhão do Cappy. Eu tinha que entrar. Meus passos faziam o assoalho estalar. Uma trilha de mascaras me levou para mais perto daqueles sons nauseantes e para uma porta aberta que levava ao porão. Um mal cheiro indescritível quase me fez desmaiar. 

Apurando os ouvidos, tentei identificar o que estava acontecendo. Eram aquelas crianças, com certeza – rosnando, latindo, choramingando, babando. As vezes surgia um pequeno gemido de desespero. Eu não queria descer ali, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. 

Me abaixando um pouco, prossegui um passo atrás do outro. Um única lâmpada iluminava a maior parte do porão, mas não alcançava as escadas, então eu sabia que poderia me esconder na escuridão. O chão estava coberto de sujeira que se espalhava enquanto algumas crianças corriam, jogando punhados de sujeira entre si. A maioria das crianças estavam reunidas no centro, embaixo da luz. Parecia que estavam comendo alguma coisa – ou se alimentando. 

Asssiti com nojo, enquanto as crianças rasgavam a carne – sangue pingava em seus queixos e espirrava sobre seus rostos. E, meu Deus! Seus rostos! Como os dentes deles poderiam ser tão enormes?! Os narizes compridos e olhos tão afastados – era medonho! Além disso, todos tinham várias deformidades faciais que não tenho condições de descrever. Os risos eram mais terríveis que todo o resto, pois significava que estavam se divertindo. Eu falo isso, pois sabia o que estavam comendo. Eu conseguia ver o que tinha sobrado de seu rosto, e suas roupas. Eu sabia que estavam comendo o Cappy. 

Cobri minha boca e tentei não gritar; engasguei algumas vezes mas não chamei atenção. Meu corpo estava tão tenso que eu mal conseguia me mover, mas consegui subir aos poucos. Passei pela cozinha e pela sala, rezei para que aquelas crianças não me seguissem. Pensei que estivesse livre assim que alcancei a porta, porém, o cara mais sinistro que eu já tinha visto estava parado na varanda. Ele tinha uma barba horrível e um sorriso desdentado. Ele era enorme, e eu poderia sentir seu cheiro na outra quadra. De início ficamos apenas nos encarando; eu juro que ele tinha um olho de madeira. Esperava que ele me avançasse sobre mim, porém, ele apenas retirou um apito do bolso da frente de seu macacão, pressionou contra os lábios e pareceu soprar, mas não havia som. 

Chorando e tropeçando, corri de casa em casa, batendo em todas as portas. Os latidos alegres das crianças se aproximavam, então me escondi na loja. Eles corriam ao redor do local como se estivessem num jogo de esconde-esconde enquanto eu me escondia no quarto dos fundos, esperando que aqueles monstros desistissem. A porta da frente sacudiu algumas vezes, e de repente percebi que eu estava em um beco sem saída caso aquele cara grandalhão arrombasse a porta. Eu nunca soube por que ele nunca veio atrás de mim. Depois de um tempo, as vozes e passos se distanciaram e a cidade tornou-se silenciosa outra vez. 

A noite chegou, e as crianças podiam ser ouvidas à distancia. Eu me perguntava se elas sabiam onde eu estava e esperavam até que eu saísse. Pensei no pobre Cappy e no quão atencioso ele foi ao ajudar um completo estranho. Ele não mereceu morreu daquele jeito. Eu precisava mais que nunca encontrar a gasolina. Eu não apenas poderia fugir como também poderia queimar aquela casa completamente. Merda, eu queria queimar aquela maldita cidade inteira. 

Os rosnados sumiram, então saí pela porta dos fundos e me arrastei para a floresta, planejando esperar pelo amanhecer e então caminhar para a estrada principal. Não havia luzes acessas na cidade, eu temia que as crianças andassem por aí à noite, mas eu nunca encontraria meu caminho no escuro. Uma única silhueta podia ser vista se aproximando e eu pude ouvir o farfalhar do mato. Eu não poderia correr, temia que pudesse ouvir e alertar os outros. Havia algumas pedras próximas aos meus pés, então peguei uma e segurei firme. 

Fiquei ouvindo enquanto a criança agarrava algum animal que havia saltado do mato. Enquanto ela mastigava a pobre criatura, eu me movi. Ela rosnavam enquanto comia, o que ocultava os sons das folhas secas sob meus pés. Segurei a respiração, me aproximando dela e levantando a pedra lentamente sobre minha cabeça. Varias vezes bati a pedra contra a cabeça da criança. Nunca pensei que pudesse fazer isso com uma criança, mas eu tinha feito, não apenas pela minha segurança, como também para vingar Cappy. 

O sol começou a nascer e observei o corpo do garoto. Quando o vi largado no chão – crânio afundado e ensanguentado – me arrependi do que tinha feito. Claro que eu não era um maldito canibal, mas eu me sentia que tinha caído ao nível deles. Assassinei uma criança e nunca poderei desfazer isso. Algumas risadas ecoaram da cidade. Assustado, corri pelo caminho errado. 

Cansado e com fome, me arrastei por campos e fazendas até que o sol estivesse bem sobre minha cabeça. De vez em quando, eu ouvia fracos sons de motor, mas não conseguia encontrar a estrada. O peso de tudo que tinha acontecido torava difícil prosseguir, mas esse peso diminuiu um pouco quando um rancho surgiu no horizonte. Enquanto eu me aproximava, o indesejável som de crianças brincando ecoou pelo campo. Algumas galopavam pelo local, fazendo estranhos sons. Parecia o comportamento de crianças normais, mas notei que todas usavam máscaras de cavalo.

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