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Me apaixonei perdidamente pelo cadáver do meu marido abusivo

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ATENÇÃO: ESSE CONTO ESTÁ CLASSIFICADO COMO +18. PODE CONTER CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE/SENSÍVEL. CONTÉM CONTEÚDO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, VIOLÊNCIA FÍSICA, VIOLÊNCIA SEXUAL, NECROFILIANÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS. PODE TER ACIONADORES DE GATILHOS E/OU TRAUMAS.  LEIA COM RESPONSABILIDADE.  




Foi um errinho bobo. Eu estava tentando pregar a foto favorita do meu marido na parede quando o martelo escorregou da minha mão para trás e perfurei a testa dele com a parte de trás da ferramenta. Ele estava bem atrás de mim, observando bem de perto, como de costume.

Ele desabou no chão do apartamento, a garra enterrada profundamente em seu crânio. Colocando um pé na cara dele, eu desci.
 
Essa minha ação, por sua vez, produziu um sangramento abundante, como um fonte de água vermelha gorgolejando acima de seu olho esquerdo. Encharcou o tapete persa, o qual ele havia insistido que comprássemos com meu cartão de crédito já sobrecarregado.

Determinada a limitar os danos ao apartamento (e meu fundo de garantia), o arrastei até a banheira, onde finalmente terminou de sangrar.

Sentindo pena dele uma única vez, dei um banho de esponja em seu corpo pálido, limpando-o completamente, algo que ele raramente fazia.

Fraca pelo choque, enchi a banheira com água quente até cobrir nos dois até o queixo. Eu, claro, o segurei, tomado pela curiosa ideia de que, se soltasse, ele deslizaria para baixo d'água e se afogaria.

Minha começou a correr. Permaneci enraizada naquele mesmo lugar. Olhei para o meu marido por horas, que se transformaram em dias. Suas feições desmoronaram e seu corpo endureceu. Perdi o medo de que me agarraria pelo pescoço como costumava fazer quando eu fazia algo "ruim".


Então as coisas começaram a ficar estranhas: 

Novamente me apaixonei perdidamente por aquele idiota. Parado e gelado, se transformara no homem que eu sempre sonhara mas nunca tivera. Estava sempre em casa, não pedia meu dinheiro e nunca reclamava.

A  banheira, com a água imunda e cheiro terrivelmente rançoso, se transformou no nosso maravilhoso ninho de amor. Francamente, foi o melhor momento que tivemos juntos desde o dia em que ele perdeu as chaves do nosso quarto durante a lua de mel e não pode me estuprar de novo naquela noite.

Ninguém, nem familiares, vieram até o apartamento. O orgulho e discursos de meu marido havia alienado a todos, incluindo os entregadores de tele-entrega e supermercado. Subsisti em manteiga de amendoim, pão e minha mais nova amiga: paz de espírito. Meu marido, é claro, não precisava de nada além de uma dose diária de óleo pelo seu corpo, para ajudar a preservar a pele seca. 

Inspirada, comecei a escrever um diário, escrevendo os motivos da vida ser bem melhor agora que meu marido está morto. Alguns destaques: 


  1. A última vez em que fedeu a cerveja rançosa foi quando eu o matei.
  2. Não haviam mais pedidos por l'amour as quatro da manhã no dia que minha menstruação começava.
  3. Seu cadáver me mantem fresquinha nas noites quentes, agora que a companhia elétrica desligou nossa energia.
  4. Não havia mais monopolização do controle remoto (agora que eu o tirei de suas mãos frias e mortas).
  5. Finalmente, agora ele é do tipo quietão.
  6. Eu falo, ele ouve. Ou pelo menos parece ouvir quando eu coloco sua cabeça em uma certa posição.
  7. Quando fazemos amor, agora fico por cima. 
Sim, o romance floresceu em nosso esconderijo. Era como colocar uma plaquinha de "Não Perturbe" em todo nosso relacionamento. 

Mas, como os filósofos dizem, tudo que é bom, dura pouco. Não paguei o aluguel, a luz foi cortada e a água também.

Acho que nossa segunda lua de mel acabou. A polícia virá em breve. Já sinto o cheiro. E meu vizinhos já devem ter sentido o cheiro do meu marido também. 

Talvez, mas só talvez, antes de me prenderem, os policiais deixem que renovemos os votos de casamento em uma funerária ou cemitério. Já até imagino sua urna de cinzas em cima do bolo de casamento. 

Tomara que na próxima vez as coisas sejam melhores entre a gente. 

Mas essa é a beleza de amar um cadáver. Se você se cansar de um, poderá sempre desenterrar outro. 

TOC! TOC!

"Abra a porta!"

Policiais na porta, ameaçando arrombá-la! 

"Só um minuto, não estou vestida," arrastei meu marido para o nosso quarto. Não foi difícil. Ele devia ter perdido uns oitenta quilos. 

"Você tem três minutos, senhorita. Ou vamos derrubar essa porta. O síndico pediu para fazermos uma vistoria. O corredor está fedendo. Você está bem?"

"Melhor do que nunca," gritei, colocando meu antigo vestido de noiva. Graças a Deus, ainda servia. Acho que esse é o lado bom de ter comido só torradinhas com requeijão e água morna sob insistência de meu marido. 

TOC! TOC! TOC!

"Só um segundinho!" 

BOOM!

Me movimentando na velocidade de um raio, vesti meu marido em com seu terno, coloquei-o de pé e fiz com que sua boca ficasse em um belo sorriso. 

Os policiais entraram em nosso quarto matrimonial, pararam e ficaram olhando. Não falaram uma palavra se quer. 

Minha mente girando, as semanas de isolação dando seus sinais, pareceu apropriado perguntar "A limo já está lá fora?"

"A o que?" O policial mais próximo de nós perguntou, com a voz fraca. Pelo crachá, pude ver que era o sargento. 

"A limousine. Para nos levar até o casamento. Vamos renovar os votos."

"Ãh..." 

Uma mulher, fardada, madura e inteligente, passou por todos até nós dois. "Claro, querida. Está lá em baixo esperando. Somos a escolta policial. Estaremos abrindo caminho na estrada." 

Ela se virou para o sargento, gentilmente girando o indicador ao lado de sua têmpora. Ele assentiu. 

Isso me irritou. "Ah, você acha que sou louca?"

"Querida, que mulher não fica louca no dia do seu casamento?" Me ofereceu seu braço. "Venha, vamos lá para baixo. O sargento ajudará seu marido. Ele parece um pouco duro. Bem, deve ser a ansiedade." 

Devagar, com uma enorme majestosidade, desci as escadas. A rua estava vazia a não ser por diversas viaturas e suas luzes piscantes. 

"É a escolta policial?"

"Pode chamar assim," a policial respondeu. Era tão gentil!

Um Cadillac comprido e preto estacionou. Dois homens severos saíram e tiraram meu marido dos braços do sargento. 

"Vocês são os motoristas da limousine?" Perguntei. 

Um deles, um homem mais velho usando luvas azuis, me olhou confuso. "Moça, nos somos do necrotério." 

A policial interviu antes que eu pudesse reagir. "Seu marido irá com eles. Você vai aqui," disse, me guiando em direção de um sedan cinza de quatro portas. 

Comecei a me remexer. Pela primeira vez desde que eu matara meu marido, algo parecia errado. "Quer dizer que vamos separados? Nunca ouvi falar disso." 

"É a última moda, pelo menos é o que todas as revistas de casamentos estão publicando," a policial me respondeu. Me segurou um pouco mais forte. 

Dei um tapa em seu rosto. 

Os dois policiais e o motorista do carro cinza lutaram para me colocar no banco de trás. Me prenderam com o cinto de segurança e cintos largos de couro. Um capuz foi colocado por cima da minha cabeça. Mordi com meus dentes. Uma etiqueta virou e pude ler algo. Dizia Propriedade do Hospital Estatal. 

"Não estão me levando para a capela! Vocês vão me internar!" 

"Você terá um quarto privativo," a mulher disse. Seu lábio sangrava e a bochecha estava vermelha.

"É chamada de suíte lua de mel. Por sua causa," o motorista riu. Ligou o carro. 

"Como assim?"

É o mesmo quarto que você ficou quando matou seu primeiro marido a dez anos atrás," a policial falou. Arrumou o capuz para que eu pudesse respirar com mais facilidade. "Com uma caneta, aquela vez." 

Tudo voltou a mim, o segredo que eu havia escondido, quando tinham me soltado em liberdade condicional. Meu pai pervertido. Minha raiva vulcânica. Meu péssimo gosto em homens. 

Gritei. E continuei gritando por dias e dias e depois anos e anos. 

Para garantir que minha voz, e a voz de todas mulheres que já foram maltratadas, fosse finalmente escutada.

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Não há portas na minha nova casa

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Quando ouvi dizer que existem casas à venda em Michigan por três mil dólares, soube na hora que precisava comprar uma. O que acabei encontrando foram casas desmanteladas que mal tinham estruturas físicas ou com árvores crescendo por seu interior e passando pelo teto. Por isso que, quando encontrei uma em condições relativamente boas, fiquei emocionado em saber que tudo que faltava na casa eram as portas. 

A casa de quatro quartos e três banheiros era maravilhosa comparada com o que eu já vira - água encanada e eletricidade funcionado perfeitamente, chão de madeira lindo, nada de mofo, nada podre. Alguém devia ter tirado as portas muito recentemente, até a porta da frente e a dos fundos faltavam, mas o resto todo estava lá, até as torneiras e os puxadores das gavetas de cobre. 

Esperei alguém da imobiliária mandar alguém do escritório oficial. Estava esperando alguém com um carro todo adesivado e um sorriso simpático. O que recebi foi a van mais podre do mundo dirigida pelo motorista mais bizarro, estranho e esquisito que parou com um solavanco. Uma mulher se remexeu lá dentro e colocou a cara contra o vidro lateral da van. Era difícil ouví-la, mas acho que o que falou foi:

"... aí o tempo todo e me disseram que perderam um cara e o Jhonny nunca perdeu nenhum cara porque o Jhonny foi para a guerra e trouxe os caras de volta mas eles procuraram e realmente PERDERAM UM CARA, procuraram pra lá e para cá e pra lá e para cá e não conseguiam encontrá-lo e sabiam que ele estava aí mas ele não estava porque ele colocou PORTAS, mesma coisa que aconteceu com a Sam, ela foi e..."

Tentei dispensá-la com um breve aceno. 

"Tá bom, moça, tenha um bom dia..."

"... PORTAS! Jhonny foi até o quarto dos fundos para falar com a Laurie que havia passado pela cozinha para chegar no quarto. OS DOIS SUMIRAM! E Jhonny, e Jhonny nunca perdeu ninguém, as PORTAS! E-" O motorista pareceu entrar em pânico e saiu cantando pneus quando um carro de imobiliária todo adesivado estacionou na frente da casa com as papeladas reais da casa. Não deixei que aquela única história bizarra inventada me aborrecesse.  

O local da cidade onde a casa se encontrava era barato o suficiente para eu alugar um quarto de hotel enquanto um carpinteiro instalava as portas. As empresas conhecidas e bem cotadas da área nem sequer ficavam na linha assim que eu falava meu endereço. Um deles chegou a rir e ficar na linha tempo o suficiente para dizer "Você deve ser de fora né, ouviu falar sobre as casas baratinhas? Foi aí que aqueles adolescentes sumiram um tempo atrás... há vinte anos atrás. Todo mundo diz que os vê em um dos quartos, ninguém os vê sair. Muitas pessoas tentaram morar aí nas últimas décadas, mas todos vão embora rapidinho. Já vi a polícia passar aí algumas vezes. Se eu fosse você, deixaria a casa para o próximo idiota e dava no pé. Tem um motivo para se tão barata."

Mas o cara sabia que eu não iria embora só por causa de meros boatos. Contratei um grupo de fora do estado para instalar as dezesseis portas, incluindo a dispensa, closet, e as portas de puxar do sótão. Me deram estimativa de duas semanas, a estimativa padrão universal para qualquer reforma no mundo.

Recebi uma ligação do supervisor do local, Bran, dois dias depois, para me dizer que ele e sua equipe estão indo embora e me fazendo o reembolso, sem motivo legítimo. Pareciam assustados e só disseram que se recusavam a entrar no quarto dos fundos - sem motivo legítimo.

Voltei imediatamente para a casa na esperança de pegá-los ainda de saída e perguntar que diabos estava acontecendo. Fiquei feliz em encontrar o caminhão da construtora ainda estacionado na frente, mas não havia nenhum funcionário dentro da casa. Decidi checar o quarto dos fundos e ver qual era o problema de lá. 

O quarto dos fundos era o único quarto perto da porta dos fundos, um cômodo estranho que tinha seu próprio banheiro, uma lavadora e uma secados e dois sofás cheios de bonecas de pano velhas que os antigos donos haviam deixado para trás. Os homens não tinham instalado nenhuma porta além das portas principais da frente e dos fundo e desse dito quarto.

A única coisa estranha nesse quarto, além das bonecas de pano, era o celular de Bran ainda ligado com apenas 4% de bateria, bateria o suficiente para eu ver que ele havia tentado fazer 350 chamadas nas últimas duas horas. Tinham filmado 15 minutos de vídeo, segmentados em vídeos curtos de 2 ou 3 minutos. Assisti o mais longo primeiro.

Era um vídeo em primeira pessoa, tremido, que mostrava a porta do quarto dos fundos aberta para o corredor. Ma tinha algo diferente - as luzes da parede estavam em lugares diferentes. Bran abriu e fechou a porta para mostrar um quarto completamente diferente, o banheiro do andar de cima, depois voltou para o corredor. Alguém perguntou algo em espanhol, e quem segurava a câmera respondeu "é, é sempre um quarto diferente quando abrimos e fechamos a porta. Tô até fazendo esse vídeo... essa é a coisa mais bizarra que já vi..." Andaram até a porta e o cara da câmera disse "abra la puerta", e o cara abriu a porta. O vídeo mostrava a porta da frente se abrindo para o quarto dos fundos. Eles riram, fecharam e abriram de novo. Ainda era o quarto dos fundos. Bran voltou para o quarto dos fundos e abriu a porta, e viu que agora esse dava para o quarto dos convidados. As risadas agora tentava acobertar o medo.

O vídeo foi sacudido violentamente enquanto corriam até a porta dos fundos e abriam para encontrar a porta da frente. Um dos funcionários gritou "ventanas" e o cameraman mirou o vídeo para as janelas. Não mostravam mais a rua, mas outros pedaços da própria casa. Estavam respirando nervosamente, quase hiperventilando.

Correram pela porta da frente, e foram para a cozinha, e então para o corredor, todas as portas alinhadas, mas não deviam estar alinhadas. Finalmente chegaram no quarto dos fundos, mas todas as bonecas de pano não estavam mais nos sofás. Alguém que não aparecia no vídeo deu um gemido apavorado, e o cameraman murmurou "meu deus do céu", e quando a câmera estava prestes a mostrar o que estavam vendo, o celular morreu.

Tirei os olhos da tela preta e levantei a cabeça para ver a porta do quarto dos fundos fechando lentamente sozinha. 

Consegui enfiar os dedos entre a porta e batente um segundo antes dela fechar. Eu juro por Deus que podia sentir que a casa tentava forçar para que fechasse, mas eu fiz mais força. A porta da frente também estava fechando sozinha - se era por uma força maligna, não posso afirmar, mas essa estava fechando rápido. Juro que pude ver de relance o meu próprio quarto começar a aparecer lá fora, mas meti o pé antes dela fechar e me joguei para o mundo real. 

Agora não há portas na minha nova casa.

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O Mendigo da Vila Boa Fé

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O meu preconceito com mendigos não surgiu do nada. Se bem que, preconceito não seria a palavra certa. Eu diria... que é um medo que deu origem ao meu ódio por estes monstros que não possuem um lugar onde possam ser enterrados. As pessoas me julgam e dizem que sou um lixo humano por causa desta minha forma de pensar. O problema é que poucos tem conhecimento de mim...

Quando criança, eu era dotado de um caráter dócil e exageradamente humilde. Quem moldara a parte doce de minha personalidade foi minha mãe, uma jovem dona de casa que sentia prazer em servir o meu pai. Bem, pelo menos era impossível ela não sentir em não ser punida pelo temperamento de meu pai, atiçado pelo álcool. Meu pai possuía uma lavoura de fumo a um quilômetro da casa onde morávamos, em um local esquecido no sul de Santa Catarina. Todas as noites, o meu pai chegava do trabalho e toda a sua angustia alcoólica era descontada em minha mãe. Ele a empurrava para o quarto, fechava a porta e era possível ouvir os gritos de minha mãe. No dia seguinte, ela aparecia com hematomas bem visíveis, embora ela tentasse os esconder de algumas visitas.

O grande desafio de minha infância era uma lenda tradicional do local, que o meu pai fez questão de me dar conhecimento. A lenda popular dizia que uma encarnação do demônio Ubezeleb né forma de um homem sem teto, negro e mal vestido que se alimentava da carne de crianças que ousavam aventurar-se pelos campos depois das sete horas. A lenda era famosa na comunidade. Os sermões de todos os parentais da vila eram claros: depois das sete horas da noite, toda criança na faixa dos cinco e dez anos não deveria circular pela vila.

Certo dia, enquanto brincava com um carrinho de madeira de brinquedo que a minha mãe havia feito, acabei entrando em terreno desconhecido. Escutei uns gritos de agonia. Com medo, corri para casa, mas os meus pais não estavam em casa. Fui desesperadamente para a lavoura de fumo aonde o meu pai trabalhava, mas não o encontrei. Ouvi novamente os gritos. Pareciam ser os gritos de uma mulher, a voz era parecida com a de minha mãe. De uma hora para outra, os berros pararam. Corri o máximo que pude até o terreno desconhecido e me deparei com a cena que até hoje me assombra: a cabeça de minha mãe, com os olhos esbugalhados, cheia de sangue, jogada em uma valeta qualquer. Ao lado, havia o que parecia ser a cabeça do mesmo mendigo da lenda que meu me contara. Era a cabeça negra de um ser iluminado. Entrei em desespero e gritei alto. Corri para casa chorando de desespero. A uma certa distância, o meu pai estava voltando para casa. Eu estava tremendo e logo, acabei contando tudo à ele. Ele tentou me consolar. A notícia se espalhou pela vizinhança. O funeral foi realizado, mas o resto do corpo de meu pai nunca foi encontrado. Todos falavam que o demônio em forma de mendigo que assombrava a vila estava morto.

Uma semana depois, em um fim de tarde de segunda-feira, cheguei de mais umas aventuras pela vila e encontrei uma panela no fogão. Eu estava faminto. Rapidamente, peguei um prato e me servi. Era uma carne macia com um molho apetitoso. Enquanto comia, o meu pai chegou em casa. Curiosamente, ele não estava bêbado. Mas estava com um sorriso malicioso.

– Como está a comida que preparei? –Perguntou ele e eu apenas sorri infantilmente com os dentes sujos. –Sabe que carne é essa? Ela é especial. É uma mistura peculiar do demônio em forma de mendigo que tinha relações com a sua mãe e ela mesma. Eu guardei está carne por dias. Aproveite o rango. – Dito isto, ele se retirou da sala de jantar.

O pior é que, apesar de estar ciente de tudo, eu repeti, pois estava faminto. Naquela noite, eu tive uma congestão e regurgitei todo o peculiar jantar que o meu pai me preparara.

Autor: Gustavo Silper

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O Fantasma Chorão

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Eu o vi nascer.

Incrível, já nasceu chorando. Eu sei que todos choram, mas ele chorou mais que o normal, acredite. Quase 30 minutos interruptos de chororô.

Então, ele cresceu. Saudável, obediente e bunda mole. É sério. Raros eram os dias que o garoto voltava da escola e não estava chorando porque alguém implicou com ele ou algo do tipo.

Cresceu mais, e logo passou a chorar pelas primeiras desilusões de amor. O primeiro fora, esse sim foi triste, eu quase chorei junto também. Mas ele superou, todos superam.

Um dia, ele conheceu uma garota e por ela se apaixonou como nunca se apaixonara por ninguém. O garoto se declarou pra ela, e quando ela disse que amava ele também, ele chorou que nem quando era um neném. Vai entender.

Anos depois eles casaram, e ele, claro, chorou.

Tiveram filhos, dois. E eu sinceramente não sabia que um ser humano podia produzir tanto líquido pelos olhos. Provavelmente foi algum tipo de recorde, nas duas vezes.

Ele nunca parou de chorar. Festas em família, aniversários, natais, todos eram grandes festivais de lágrimas. Mas era um homem bom e feliz.

Até que um dia ele pôde sair mais cedo do trabalho, quase chorou de felicidade, mas ao chegar em casa, encontrou sua mulher com outro homem no quarto. Bom, essa parte eu não vi direito. Pra ser sincero, fiquei com um pouco de vergonha alheia e não quis assistir o que poderia acontecer. Depois de algumas horas eu voltei e ele estava lá, chorando, encostado na porta do quarto, sozinho.

Eu o vi pegar uma corda.

Eu o vi pendurá-la no teto.

Eu o vi amarrá-la no pescoço.

Eu o vi morrer.

Sabe, eu teria impedido se pudesse, eu juro. Principalmente por saber que isso não livraria ele de nada.

Ele virou um fantasma, preso nesse mundo, preso naquela casa. Ao cometer aquele pecado, o garotinho chorão condenou-se a assistir por anos sua mulher e seus filhos terem uma nova vida, superarem sua perda e seguirem em frente, sem poder ser visto, sem poder ser notado.

Eu o via chorar quando ela sorria pro outro cara como quando ela sorria pra ele ao se conhecerem. O choro era ensurdecedor. Tão alto que em um momento as pessoas da casa começaram a ouvir.

A família, então, mudou-se para outra casa. Não os culpo. Quem iria querer viver em uma casa que todas as madrugadas se ouve um fantasma chorão? Deve ser horrível.

Ele ficou sozinho, por longos anos. Vez ou outra alguém comprava a casa, mas logo ia embora ao passar pelas assombrações do choro do fantasma.

Eventualmente, as almas penadas esquecem os seus problemas em vida. E ele esqueceu, e parou de chorar por um tempo. Porém, ao não entender o motivo da sua própria existência, voltou ao chororô desenfreado.

Ele não era burro. Ao perceber que era o seu choro que afastava as pessoas, tentou parar e começar a dar risadas. Não preciso dizer que a risada não deu muito certo, não é?

Um fantasma chorão, sozinho, amargurado, preso.

Ele não percebe, mas tem um ódio que está o consumindo e corrompendo, e logo logo ele vai ficar igualzinho a mim, e então vai poder sair daquela casa e descer pra cá.

Ele era um homem bom, é sério. Mas de boas intenções aqui tá cheio.

Autor: Lucas Queiroz

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