Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
==========

Domingo
==========

Eu trabalho em um hotel. Na última noite, todos do 4º andar desapareceram. [Parte 3] Final

4 comentários
--

Ele deu um passo ao canto iluminado do quarto.

Fora de monitor de computador ele parecia pior. Olhos cansados, com olheiras; cabelo oleoso caindo em sua testa. E ele tinha um sorriso que me dava arrepios.

Jingwen sacou sua arma. "Mãos ao alto", disse ela, tentando parecer calma.

Ele não respondeu, e deu um passo à frente.

"Mãos ao alto! Ou eu atiro!"

"Vá em frente."

As mãos dela tremiam.

E então ela puxou o gatilho

Bang!

Por um segundo, o tempo parou. A luz acima de nossa cabeça tremeluziu e todos ficaram congelados nas sombras cinzentas do amanhecer. O rosto da garota loira se contorceu tristemente. A boca de Jingwen se abriu em um suspiro. E ele continuava com seu sorriso casual, como se estivesse rindo de uma piada.

Ping.


A bala acertou sua jaqueta e caiu no chão-


Agora não maior que um grão de arroz.

Os olhos de Jingwen se arregalaram. "Como - isso não é possível -"

"Vocês ficam céticos no começo", disse ele, pegando um boneco na mesinha de cabeceira. "Mas, mais cedo ou mais tarde, você passa a acreditar."

Acreditar no quê? Que ele... transformou pessoas naquilo? Eu olhei para o boneco em sua mão, e para o que estava na mão da garota. Ambos eram claramente de plástico... apenas brinquedos...

Mas se isso não é verdade... como explicaria a bala?


Ou o fato de que todos do 4º andar desapareceram?


Eu balancei a cabeça. Não importa o que ele acha que está fazendo. Apenas o distraia o máximo que puder. Dei alguns passos para trás, em direção à janela. "Ok, digamos que eu acredite em tudo. Mas por que, então? Por que você está fazendo isso?"

"Você não ouviu?" disse ele, seu sorriso se transformando em uma expressão de determinação. "O momento está próximo." Com o dedo indicador, ele apontou para o céu.


"O que isso significa?" eu perguntei. Meus dedos pressionando a trava da janela, pressionei pra cima e a senti subir um pouco.

"Há uma maneira melhor." Agora ele abriu um sorriso afetuoso para os bonecos espalhados no chão. "O Dia do Reconhecimento está quase chegando e eu fiz muito mais do que meu dever. Eles ficarão tão satisfeitos."

Okay. Ele é louco. Eu não faço ideia do que dizer sobre isso... não faço ideia... "Ei, ela manteve a sua parte do acordo", eu disse, apontando para a garota loira com uma mão, enquanto a outra ficou na janela. Apenas um pouco mais de força e eu poderia abri-la...

Ele zombou. "Com o que você se importa?"

"Você não deveria manter sua palavra?"

"Heh, claro. Parece justo para mim." Ele caminhou até ela, os olhos brilhando com diversão. A garota desenrolou os dedos, revelando um boneco na palma da mão, seus olhos brilhando de esperança. Ele o puxou dela e o segurou em frente a seus olhos.

"Ela é bonita."

Então ele jogou no chão, levantou o pé-

E pisou.

Snap.

A garota gritou. Um horrível grito de dor que se transformou em soluços convulsivos.

"Você deveria saber melhor do que ninguém como negociar com um de nós", ele gritou para ela. "Nós nunca nos comprometemos. O Melhor Caminho é o caminho certo; não há meio termo."

Ela fez uma pausa.

E então, com um grito selvagem, ela saltou em sua direção. Seus braços se fecharam em volta de seu pescoço e os dois caíram no chão em um emaranhado.

Click.

Eu puxei a janela para cima.

"Vamos!" Eu gritei, mergulhando pela janela. Siga-me, Jingwen, por favor...

Eu bati no solo úmido com um baque. Dor atravessou o lado esquerdo do meu corpo; mas eu me levantei. Então me virei, com o coração acelerado -

Não. Ela não estava me seguindo.

A pequena luz amarela na janela piscou.

Não não não -

Thump!

Jingwen pulou pela janela. "Corra!" ela gritou. Entramos no carro, sem fôlego e com dores. Ela enfiou a chave na ignição - um flash de couro preto - caiu pela janela.

O carro guinchou para longe. Nós voamos pela estrada, o cascalho esmagando debaixo das rodas.

--

Ninguém acreditou em nossa história, é claro. Pelo menos não na nossa versão da história. Eles acreditavam que um esquisitão com bonecos estava tentando atrair pessoas para sua casa - apenas isso. Jingwen foi prontamente demitida da força policial, tanto por inventar histórias quanto por levar um civil junto com ela para uma situação perigosa.

Eles mandaram mais policiais para a casa. Quando chegaram lá, já estava completamente vazio - até os bonecos se foram. Eu me demiti do meu emprego no hotel e me mudei para o outro lado do país, onde me tornei barista. Não era um trabalho tão bom, mas pelo menos eu tinha desconto no café, em vez de esquisitos noturnos.

Foi em torno do horário de fechar, depois de uma semana no trabalho que o casal chegou. Uma mulher de óculos e um coque, seguida por um cara loiro. Servi dois cafés e limpei algumas mesas.

Na cafeteria vazia, não pode deixar de ouvir a conversa deles, enquanto ecoava pelo local.

"Como eu disse no e-mail - Eu tenho um problema", disse ele. "Sabe, eu - eu moro com meus pais. Mas eles me importunam o tempo todo - pare de jogar video-game, é muito tarde para sair com seus amigos, esse tipo de coisa. Mas eu não tenho dinheiro para sair. Eu não tenho para onde ir."

Ela assentiu e o olhou com um pequeno sorriso. "Existe um Caminho Melhor", ela disse.

Eu deixei o pano cair.

"Nós iremos cuidar de seus pais", disse ela. "E então iremos cuidar de você."

"Espere - cuidar deles? O que você quer dizer?" Ele começou a parecer nervoso; seus olhos percorreram a loja. "Tudo que eu preciso é de um pouco de dinheiro para sair. Uh, pensei - pensei que você tinha vindo aqui para me dar isso."

A mulher sacudiu a cabeça e apontou para cima. "O tempo está próximo", disse ela. "E você veio a mim em um bom momento."

Nós dois olhamos para ela.

"O Dia do Reconhecimento está quase chegando."




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

4 comentários :

Postar um comentário

Um Problema Muito Grande

9 comentários
Era uma noite quente e sombria, as janelas estavam rangendo, ainda que não houvesse vento. Maira, nossa protagonista, sorria para a parede como se conversasse com um amigo de longa data. Eu não podia vê-lo, mas sabia que algo já não estava bem.

Os dias foram se passando, as aulas começaram e, muito embora tivesse sido uma garota popular entre amigos e funcionários de sua escola, Maira já não refletia a garota educada e prestativa que conhecíamos antes do pequeno período de férias de verão.

Não posso negar, Maira passou por grandes problemas em casa, os pais estavam se divorciando após anos de convivência pacifica, porém, sem amor ou afeto algum. Seu irmão, já distante de casa a alguns anos, era o único que mantinha Maira em sua racionalidade, comportando-se como uma garota comum de ensino médio. Entre uma folga e outra em seus atendimentos no escritório de advocacia, Marcos sempre tentava encontrar um tempo para entrar em contato com Maira, nunca com os pais, pois, como mencionei, os pais viviam juntos, mas não estavam realmente juntos, e Marcos percebia isso a muitos anos. Claro, depois de um tempo Maira já não atendia Marcos também.

Muitos problemas ocorreram na adolescência de Maira, estes comuns para qualquer pessoa normal de classe média, naquela idade, dentre eles, problemas financeiros dentro de casa, amores incompreendidos, crises existenciais, etc., entretanto, nestes milênios que passei nestas terras derrotadas que vocês chamam de Terra, pude perceber que os problemas não podem ser medidos de forma exterior, como um único problema com a sua preocupação sentida na mesma proporção para todos, sendo assim, qualquer que seja o problema, medimos de acordo com a intensidade que se sente, e assim, observamos a existência de pessoas com alto poder aquisitivo, com o que vocês chamam de “depressão”, bem como observamos pessoas de baixa renda desfrutando de cada momento de sua vida medíocre, com grande felicidade. Claro, depois de anos e anos de convivência entre vocês pude perceber que estas últimas pessoas que mencionei tendem a ter uma grande ignorância quanto ao que se passa aos seus redores. Estas são as que não enxergam o mal da humanidade, a ganância das pessoas, a inveja, etc., e também são as mais difíceis.

Como mencionei, Maira mudou drasticamente no período de férias, pude notar isso, claro, estava com ela o tempo todo. No fim de semana que precedeu a primeira semana de aula, Maira estava em seu quarto olhando para a parede novamente, sorrindo, como se conversasse com alguém.

Com o passar dos dias percebi que não havia algo lá, Maira estava vagando em seus próprios pensamentos apenas, e eu, claro, muito embora capaz de diversas coisas neste mundo humano, não podia simplesmente ouvi-los, no entanto, com a minha vasta experiência existencial, pude perceber que estava tudo indo bem.

Quando percebemos alterações comportamentais drásticas em pessoas, inicialmente tendemos a acreditar que “é uma fase”, caso perpetue, começamos a cogitar a possibilidade de uma doença neurológica, ou psíquica, como a depressão. Não levamos a sério inicialmente, e com o passar dos dias, finalmente entendemos que ela existe e pode estar ocorrendo neste exato momento.

Entretanto estas cogitações já não são relevantes para Maira, são 3h da tarde quando percebo que Maira está debruçada em sua mesa de estudos. Seu notebook aberto traz consigo uma página comum de Word, com algumas palavras escritas. Entendo isso como um convite pessoal para sanar dúvidas sobre qualquer que seja a situação que Maira se encontra. Isso é relevante para mim.

“...então, deixarei que ela tome o meu lugar. Já não posso conviver pacificamente com estas pessoas. Sinto-me maltratada, abandonada, e negligenciada a muito tempo. Sinto que aprendi a lidar com isso, que aprendi a guardas nas profundezas da alma os rancores por todos os que me machucaram.

Ela pode me proteger, sinto isso. Eu escuto ela as vezes, falando comigo, me dizendo para continuar, me dizendo que posso ser grande, que posso evoluir, mas sei que não posso, e quanto mais ela me fala isso, mas percebo que não posso de verdade.

Não consigo abandonar esta tristeza profunda, não consigo não lembrar de cada palavra e de cada pessoa que as pronunciou. Não posso esquecer... mas também não posso lembrar... não posso deixar ir, mas deixar ficar me faz mal. Ela, no entanto, é forte, perfeitamente controlada, e protetora.

Diga aos meus pais que eu os culpo, e que não os amo, e diga a ela que tome providências para que eu possa descansar em paz, de fato.”.

Ao lado de seu corpo um frasco de Nembutal, em sua frente meu reflexo. Sim, um reflexo perfeito de um corpo que me pertence agora. Meus olhos, minha boca, meus longos cabelos negros, meus sentidos.

Lembram quando eu disse que os problemas não podem ser medidos de forma exterior? Cada pessoa basicamente vê o mesmo problema de diversas formas e intensidades. Bom, eu realmente disse isso, no entanto omiti alguns pequenos detalhes, claro. Quando nascemos, os de minha espécie, fomos incumbidos de trazer o caos a humanidade. Como de nossa essência, simplesmente fazemos, sem questionar.

Dezessete anos, este foi o tempo que levei para pegar mais uma. Claro, cada um tem seu método, alguns de nós preferem desastres rápidos, ditos naturais, outros preferem a discórdia, já outros preferem observar os humanos se matando e se maltratando, entre eles mesmos, chamamos os que escolhem este metodo de "preguiçoso", porque não é preciso muito esforço para que isso ocorra... ah, o ser humano, criaturas horrivelmente fascinantes. Outros de nós optam por métodos de “acidentes”, que normalmente ocorre após algum ato de negligencia por parte de alguns de vocês.

Meus métodos são mais, digamos, saborosos. Eu implanto situações, claro, mas principalmente, implanto em minhas escolhas, como Maira, a confiança. Alguns, obviamente, acabam percebendo algo estranho, e eu não posso lutar contra a força desta pessoa em querem se livrar de um mal, ainda que ela não saiba exatamente o que é este mal. No entanto algumas dessas pessoas, como Maira, sucumbem aos meus métodos.

É de praxe: até determinado ponto de suas vidas elas se comportam como qualquer outra pessoa, mas a semente já está germinando em seu ser a muito mais tempo do que ela imagina. Há, claro, um gatilho, que pode vir de diversas formas. Uma briga, uma separação, uma traição, ou ainda, um aumento de peso, um amor não correspondido, ah, são tantas formas. E eu volto a afirmar, o segredo é sempre fazer a pessoa sentir intensamente seus próprios problemas, quando na verdade pode nem ser um problema, mas se eu não fizer ela ver e sentir as situações eventuais, ou mesmo as cotidianas, desta forma, eu deixo de existir. Quando concluído meus serviços com a pessoa de minha escolha, na medida de seus próprios limites, com o medo e a insegurança de um futuro não observado, um futuro borrado, incerto, assustador, eles mesmos procuram a forma mais fácil para o abate. Alguns, como Maira, usam de métodos incertos, outros, mais centrados, procuram armas, de fogo, ou mesmo brancas, já outros, não tão corajosos, procuram métodos que, de alguma forma doentia, os façam se sentir menos culpados quando chegarem ao outro lado, como se jogar em um trilho e acreditar que a culpa será dividida entre ele e o responsável pela locomotiva.

Mas o mais importante, algo que nunca conto para eles, NÃO HÁ UM OUTRO LADO, não há nada lá para eles, por isso vocês humanos são as presas perfeitas. Quando “se vão” deixam um recipiente vazio para que possamos entrar e tomar conta dele, um corpo perfeito para que continuemos a conviver entre vocês, realizando o que nos foi mandado, o que nos faz sentir alguma coisa, uma saciedade.

Maira acreditou em mim, me deu de presente seu corpo para que eu cuidasse dele, vivesse por ela, acreditando que sou forte e protetora. Claro, sou forte e protetora sim, mas para nossos interesses, não para os de vocês, uma espécie medíocre e egocêntrica, a única que observa problema em tudo, exatamente tudo o que os rodeiam.

Mas quem sou eu? Não se preocupe com isso, isso não é relevante para você no momento. Na verdade, quando o momento chegar, você perderá qualquer oportunidade de obter esta resposta, no entanto eu, graças a sua insegurança, e a sua negligencia consigo mesmo, estarei lá, à espreita esperando pacientemente a escolha que você fará sobre qual método utilizar. Basta então que você me faça este favor de continuar vivendo a sua vida exatamente da forma que você está fazendo agora, afinal, posso te garantir, estes problemas que você acredita ser grande demais para suportar, só podem realmente assim o ser...

Autora: Dan Yasuge (Insanity Pill)

9 comentários :

Postar um comentário

Chamado do Além

8 comentários
Eu era apenas mais uma menina comum, que estava adentrando na tão temível adolescência, porém diferentemente do que se espera de uma jovem em fase de autoconhecimento eu era muito confiante e segura de si e acreditava ser muito mais inteligente e corajosa que todas as outras meninas da minha idade.

Eu costumava empinar o nariz e estufar meu peito, em todas as oportunidades, possíveis para dizer que eu era corajosa e que não tinha medo de nada. Tirava foto com os animais perigosos e peçonhentos que eu encontrava por aí nas matas, quebrava regras, arrumava briga na escola e praticava qualquer outro tipo de ato arriscado que me fizesse parecer ainda mais destemida e “descolada”.

Com o passar do tempo, os meus amigos começaram a perder o interesse pelas minhas loucas aventuras, eles pararam criar desafios mirabolantes para comprovar a minha coragem e inflar ainda mais o meu ego. Como já não estava mais recebendo toda a atenção desejada em casa e na escola, eu resolvi procurar novas emoções em outros lugares e propagar a minha verdade na internet.

Eu visitava todas as páginas da internet, perfis em redes sociais, fóruns, e vídeos no YouTube que tinham como tema o terror e o sobrenatural. Eu costumava zombar do conteúdo daquelas páginas e fazer comentários sobre o quanto aquelas histórias eram ridículas, e as pessoas que as escreviam mais ainda, por dizer - e acreditar - que coisas assim realmente existiam.

Nem mesmo eu sei dizer quantos comentários eu fiz ou o número de endereços eletrônicos que eu visitei durante esse tempo, só sei que com o tempo fui ganhando certa fama nesse meio de divulgação sobrenatural como: a “Cética” ou o “São Tomé de saía”.

Eu segui contente com o meu novo trabalho de crítica e cética da internet. Até o dia em que um desconhecido, que eu nunca havia visto no fórum, respondeu a uma de minhas postagens.

Eu abri a mensagem, julgando que se trataria apenas de mais uma dessas discussões corriqueiras que eu costumava ter com outros membros do fórum, quando por horas eu tentava convencer a todos do meu ponto de vista.

Gostava de demonstrar o quanto eu era racional e inteligente por não acreditar nessas “lendas” e “mitos” inventados enquanto boa parte do mundo era “idiota” o suficiente para acreditar que esse tipo de coisa realmente existia. Eu me sentia superior por ter uma inteligência privilegiada e fora do comum ao pensar mais racionalmente que todas as outras pessoas.

Porém, a pessoa que respondeu a minha postagem daquela vez parecia ser diferente das outras demais. Ela não parecia estar interessada em discutir ou tentar me convencer do seu ponto de vista. Ela apenas me propôs que eu cumprisse quatro desafios.

O primeiro desafio era algo simples: o anônimo me pediu para que ficasse em silêncio no meu quarto, totalmente escuro, no exato momento que o relógio marcasse três horas da manhã.

A princípio eu pensei em caçoar da “brincadeira” e dizer que aquilo era um desafio ridículo, que não provaria nada, mas como várias outras pessoas do fórum também comentaram na aba me

incentivando e me desafiando a fazer o que o anônimo dizia. Decidi aceitar o desafio, pois seria mais uma chance de provar que eu estava certa.

Então, a noite eu fiquei em trancada no meu quarto com o corpo enrolado na coberta devido ao frio e o celular em minhas mãos, pelos números do relógio digital que ficava na cômoda ao lado da cama eu pude ver que faltavam poucos minutos para as três da manhã. Apesar de eu não ter visto nenhum fantasma ou ter presenciado algum evento sobrenatural á lá poltergeist. Eu senti um sentimento nostálgico e familiar naquela hora, como se alguém passa-se a mão sobre os meus cabelos em um gesto carinhoso. Gesto que eu já não sentia a muito tempo, desde a última vez que vi o meu Tio Roberto a anos atrás.

Apesar daquele estranho acontecimento eu não me deixei abalar, liguei a luz do abajur, puxei as cobertas - que eu acreditava serem as responsáveis por aquela estranha sensação na minha cabeça, visto que, eu estava completamente coberta dos pés a cabeça naquela hora - tirei uma foto do relógio digital que marcava 3:02 AM e em seguida tirei uma selfie minha de pijama, com um sorriso convencido no rosto e um sinal de vitória nas mãos.

No dia seguinte mandei as evidências para o fórum da página, com uma mensagem presunçosa e pedi ao desconhecido para me mandar o próximo desafio.

Ele logo me enviou o segundo desafio, desta vez um pouco mais complicado que o primeiro, eu deveria acender duas velas em conjunto e colocar um objeto pessoal importante sobre uma superfície abaixo de um espelho e esperar sozinha no local com as portas e as janelas fechadas até a meia noite e então, de olhos fechados, perguntar a pessoa que havia me dado o objeto se ela estava na sala.

E assim eu o fiz, fui ao cômodo mais afastado da casa, o antigo escritório do meu pai, que estava vazio desde que ele havia saído de casa ao se divorciar da minha mãe a dois anos, e coloquei o espelho médio que havia trazido do meu quarto apoiado na antiga mesa de madeira e as velas e o objeto pessoal que eu havia trazido na frente do espelho.

Conferi o horário no meu celular, faltavam dois minutos para meia noite. Fiquei de pé de frente para espelho e fitei o objeto que eu havia trazido: uma antiga edição encadernada do livro de Alice no país das maravilhas, que eu havia ganhado do meu tio há muito tempo. Acendi as velas e fechei os olhos e então perguntei em voz alta ao meu tio se ele estava lá, não vou negar que eu me senti meio idiota ao fazer isso afinal eu estava completamente sozinha dentro da sala.

E apesar de não ter visto nenhum fantasma ou evento sobrenatural novamente, devo dizer que fiquei com um pouco de medo quando escutei o barulho alto de um baque surdo, como se algo se fechasse rapidamente. Abri os olhos um pouco assustada e percebi que as velas haviam se apagado e o livro havia se fechado sozinho.

Passado o susto eu ri sozinha, puxando o celular de cima da mesa e tirando outra selfie de pijama em frente o espelho, com um sorriso convencido embora um pouco afetado e outro sinal 'V' de vitória com os dedos.

Recolhi o livro e o espelho e fui para o meu quarto dormir, acreditando que eu não havia fechado devidamente a porta e a janela do escritório e por isso o vento havia apagado as velas e fechado o livro.

Ansiosa para conseguir terminar todos os desafios o mais rápido possível, fui até o fórum no dia seguinte com as novas evidências e perguntei ao anônimo qual seria o próximo desafio. Ele me disse para que eu esperasse até o próximo fim de semana para saber o que fazer.

A semana passou bem rápido, especialmente comigo grudada nas redes sociais todos os dias para o caso de o anônimo mudar de idéia e resolver me dizer o que fazer antes do tempo, porém dessa vez ele não entrou em contato comigo e nada aconteceu.

Eu somente sai da frente da tela do computador quando ouvi o telefone fixo tocar na sala. Atendi ao telefone um pouco surpresa ao notar que aquele era o número do meu tio. Ele me ligou me convidando para visitá-lo na Argentina. Sorri lhe dizendo que iria visitá-lo em sua casa em Puerto Íguazu assim que entrasse de férias na escola.

- Você promete?

- Sim, tio eu prometo. Que assim que sair de férias na escola eu vou visitá-lo onde estiver - disse me despedindo e desligando o telefone, logo em seguida.

Esperei até o fim daquela noite de sábado e não recebi nada, tirei uma foto com um sorriso um pouco cansado mas ainda presunçoso fazendo um sinal de vitória nas mãos e fui me deitar.

O dia seguinte se passou e o anônimo não fez novo contato. Foi somente na segunda-feira que ele mandou um “oi” no privado.

- Fiquei esperando pelo seu contato o fim de semana todo - digitei - Você disse que iria me contatar para me dizer o próximo desafio...

- Você já cumpriu o próximo desafio - respondeu ele.

- Então...presumo que os desafios já estejam acabando e que todos os testes que já fiz até então tenham provado que não existem fantasmas.

- Como assim? Você fez os três testes e ainda não acredita em espíritos?

- Sim! Já estou quase vencendo a aposta! Hahahaha! - ri vitoriosa, tanto dentro quanto fora da tela.

- Bem, então acho que você já “venceu” pois eu não posso lhe passar o quarto desafio sem que você tenha entendido os outros três.

Me irritei com a sua resposta pois achei que ele só estava tentando dar uma desculpa para não admitir que estava errado e que eu já havia vencido a aposta.

- Pois então peço que me explique! Porque realmente não estou entendendo o “propósito” do seu desafio.

- Pois bem...Então vou lhe explicar tudo...Lembra-se de quando fez o primeiro teste? E você teve a sensação de uma mão lhe afagando os cabelos?

- Sim...- respondi curiosa.

- Certo - continuou o anônimo - Aquele era o espírito de uma pessoa importante para você, um espírito bom que tem muito carinho e afeição por você e por isso afagou-lhe os cabelos.

Fiquei estática! Como ele sabia daquilo?

- E lembra-se da segunda vez? As velas se apagaram e o livro se fechou sozinho, não?

- Sim... - respondi começando a ficar receosa.

- Então...Foi a alma desencarnada da pessoa a quem você chamou que fechou o livro e apagou as velas quando o seu espírito passou pela sala.

Apesar de não acreditar em fantasmas, eu comecei a ficar com medo. Como ele sabia que essas coisas haviam acontecido?

Eu não havia contado para ninguém.

- Não sei como você adivinhou todas essas coisas - digitei já começando a entrar em pânico, pensando que ele poderia ser algum stalker ou coisa assim - Mas não sei se quero fazer o terceiro desafio...

- Mas você já o fez.... - digitou o anônimo.

- Como assim? - digitei desconfiada.

- O terceiro desafio era fazer contato com um morto...e você o fez!!!

- Não, eu não fiz!!!

- Sim, você fez. O seu Tio Roberto sofreu um acidente enquanto estava sozinho em sua casa a dez dias atrás...antes de todos os desafios começarem.

- Mas não pode ser! ninguém avisou nada, ninguém soube de nada! Você está mentindo.

- Não, não estou. Ninguém comunicou nada ainda pois ainda não sabem que ele morreu, ele mora em uma parte muito afastada da cidade, você sabe...os parentes não o viam já a algum tempo e por isso não estranharam, ninguém sabe ainda que ele morreu. Pois só vão descobrir isso agora quando eles forem visitá-lo na casa dele e encontrarem o seu cadáver já em estado de decomposição.

Não pode ser! Eu já ia começar a chorar, quando a minha mãe entrou no meu quarto chorando com o telefone na mão.

Meu corpo começou a tremer e eu desabei no chão, começei a chorar pois eu sabia exatamente qual a triste notícia que ela me daria.

Assim que conseguimos nos acalmar e a minha mãe saiu do quarto, eu me dirigi ao computador e ainda chorando enviei a próxima mensagem.

- Qual o próximo desafio? - perguntei.

Eu tinha que saber! Eu precisava saber! Eu tinha que acabar logo com isso!

- Cumprir a promessa que fez ao seu tio...A alma dele estava triste e sozinha, mas depois que você começou a contata-lo e fez a sua promessa ele se sentiu mais alegre...

- Está bem...Eu lhe envio a foto daqui a dois meses.

- Obrigada - respondeu ele, antes que eu desligasse o chat e fechasse a aba do fórum.

Dois meses depois, assim que entrei de férias pedi a minha mãe para que fôssemos a Puerto Íguazu para rever a família e visitar a casa e o túmulo do meu falecido tio. Ela concordou em fazer a minha vontade e em dois dias chegamos a cidade.

Quando cheguei a cidade eu fui visitar o túmulo o mais rápido que pude, levei um livro de Alice no país das maravilhas e um buquê de flores brancas como presente e pedi perdão por não ter podido estar com ele nos seus últimos momentos. Eu rezei para que sua alma descanse em paz e sai do cemitério, já fora do solo sagrado. Eu retirei o meu celular da bolsa de mão e tirei uma foto em frente aos portões do cemitério.

E naquela noite coloquei no fórum, aquela que seria a minha última contribuição naquele site, naquele e em qualquer outro do gênero.

Eu publiquei a minha foto as portas do cemitério no fórum, eu estava vestida com um vestido preto rodado, meias escuras e saltos baixos pretos, havia algumas marcas vermelhas em meu rosto por causa do choro mas não incomodei, nem na hora e nem agora, eu estava com o meu típico sinal de vitória em uma das mãos e um sorriso no rosto.

Um sorriso diferente de todos os que eu havia me habituado a dar ultimamente. Não era um sorriso convencido, debochado ou presunçoso mas um sorriso simples, um sorriso simples e modesto de alguém que havia apreendido uma valiosa lição e estava feliz por isso.

E abaixo da foto eu coloquei a seguinte legenda: “Acredite no Inacreditável. Pois existem mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia é capaz de compreender”

Depois disso. Eu saí do fórum e fui as configurações do site para excluir a minha conta naquela página, no entanto, momentos antes de excluir a minha conta, recebi uma notificação no meu perfil dizendo que o anônimo havia respondido a minha postagem.

Fui verificar a resposta. E a resposta que eu li, jamais irei esquecer.

“ ^_^ Muito obrigada Lilica, por tudo”

Jamais irei esquecer porque a única pessoa que conhecia esse antigo apelido de infância, era a mesma pessoa que o havia me dado á muito tempo atrás...O meu falecido Tio Roberto.

Autor: Aileen Rhiannon

8 comentários :

Postar um comentário

A Casa da Aranha

26 comentários
Três semanas atrás fui visitar minha melhor amiga, Kameko, no Japão. Recentemente eu tinha tido alguns problemas com um cara que namorei, fui traída, depois o caso virou de perseguição quando terminei as coisas, e queria um tempo para minha cabeça, não ter que pensar nessas coisas. E mais importante, estava animada pois nunca tinha ido para o Japão (nem para outro lugar), e não a via pessoalmente desde a nossa formatura, o que fazia cerca de cinco anos. Ela morou em Tóquio por alguns anos e depois voltou para cá, mas quando sua avó morreu, ela herdou a casa da mulher, a cerca de 20 km de Osaki. Era uma enorme casa que estava na família faziam várias gerações, e baseando-me nas fotos que me mandara, fiquei animada em passar as férias em um lugar tão maneiro.

Ela foi até o aeroporto me buscar, depois de me abraçar e de conversarmos animadamente por alguns minutos, fomos para o carro. Parecia ser a mesa de sempre - inteligente, engraçada, cheia de vida - mas eu a conhecia bem demais. Podia sentir que havia algo a preocupando enquanto dirigia pelos lindos campos, enquanto apontava para aquela coisa legal, ou para outro monumento histórico com uma fluidez que me fazia pensar que talvez estivesse inventando alguns fatos e nomes por onde passávamos. Ri internamente com a ideia dela inventando fatos turísticos, mas quando deu um tempo para mostrar as coisas, perguntei se estava tudo bem.

Ela olhou para mim com um sorriso nervoso. "Você sempre faz isso. Sim, está tudo bem, mas tenho debatido sobre quando falar sobre a... sobre a característica singular da minha casa."

Eu estava sorrindo de volta, mas senti minha expressão sumindo ao ouvir sem tom de voz. "E o que seria?"

“Bem, você sabe que minha casa é uma casa antiga, certo? Meus tataravós construíram a mais de cem anos atrás. Eu nunca tinha ido lá enquanto minha avó estava viva." Eu poderia ver que estava tentando criar coragem para botar para fora, e antes que eu pudesse responder, finalmente falou. “Bem, a casa é meio que assombrada? E meio que não ao mesmo tempo? ”Sua voz subiu no final como se ela estivesse pedindo minha confirmação.

Levantei uma sobrancelha. Eu estava esperando que me dissesse que o encanamento estava ruim ou que a fiação estava instável. Não isso. E tipo? O que isso quer....

“O que quero dizer é que não é um fantasma. É um yokai. O que acho que você não faça ideia do que seja. Tudo bem. É tipo um termo geral para uma grande variedade de criaturas e espíritos do folclore japonês. E aparentemente são reais, pelo menos alguns deles, porque eu tenho um."

Me senti desorientada. Achei que fosse uma brincadeira, mas Kameko odiava pegadinhas e eu podia  ver que estava falando sério. Considerei que talvez pudesse estar drogada ou com problemas mentais, mas conhecendo-a, sabia que isso era improvável. Então decidi apenas deixar rolar. 

"Tá. Estranho. E qual é o tipo que você tem? Posso ver?" 

Ela assentiu devagarinho. "Ah, sim. E vai soar bem pior do que realmente é. É só uma aranha gigante." 

Inesperadamente, uma risada explodiu na minha garganta. "Caralho. Achei que você estivesse falando sério." 

Kameko estava franzindo a testa e balançando a cabeça, seus olhos indo de mim para a estrada. Tô falando sério. E não é realmente um aranha, pelo menos não uma aranha normal. Mas sobre o tamanho... bem, sabe aquele filme Lassie? É mais ou menos do tamanho da Lassie. E mora lá desde que a casa foi construída, pelo menos é o que minha vó escreveu na carata que deixou para mim antes de morrer. Não incomoda ou machuca ninguém, e na maior parte do tempo fica escondida. As vezes sai para assistir TV, se estiver ligada. Por algum motivo, gosta de programas de concurso, não sei porquê. Mas a melhor parte é que deixa a casa imaculada."

Pisquei. "Você tem uma aranha fantasma do tamanho de um Border Collie como empregada."

Ela me lançou um olhar. "Não é um fantasma, nem espírito, ou sei lá. Mas sim, ela limpa. Nunca quando estamos por perto, e é por meio de magia, mas nunca tive que levantar um dedo desde que me mudei."

Me virei no meu banco para olhá-la diretamente. "Tá. Qual é o problema? Isso é uma piada por eu ser bagunceira? Não tô entendendo." 

Ela suspirou. "Eu sei como isso soa. Mas eu não queria que você se assustasse quando a visse, e sabe que eu nunca te chamaria para passar as férias aqui se não tivesse cem por cento de certeza que é seguro. Foi estranho para mim no começo. Agora para mim é como... é como se eu tivesse um tipo de cachorro bizarro de família que nunca morre."

Abri minha boca para falar mais alguma coisa, mas não tinha palavras. Finalmente, resolvendo que deixaria essa estranheza só passar, falei que tudo bem, e me sentei quieta no meu lugar.

Quando chegamos na casa, fiquei impressionada com a beleza da casa. Era muito grande, especialmente pelos padrões de uma casa japonesa. Nós passamos por um portão externo e em um jardim meticulosamente bem cuidado. Gesticulei ao redor e sussurrei “foi a aranha?”, Kimeko me deu um olhar fulminante sussurrou de volta “jardineira”. Eu sorri e encolhi os ombros, e depois fomos para dentro.

O interior da casa envergonhava o exterior. Era impecável, mas eu não teria esperado menos de Kameko de qualquer maneira, e era extremamente limpo e organizado, mas sem parecer estéril ou pouco convidativo. Olhei ao redor, simultaneamente feliz e nervosa por estar lá, então finalmente perguntei onde a coisa estava.

Encolhendo os ombros, me levou mais para dentro da casa. "É difícil dizer. Se esconde na maior parte do tempo, e nunca vai se aproximar de você, mesmo que não corra se você se aproximar dela. Acho que, em teoria, deixaria você tocá-la, mas nunca tentei.” Ela deu uma risada curta. "Isso soa tão estranho, na verdade. Tipo falar sobre isso para outra pessoa." De repente ela parou e se virou, me dando um abraço rápido. "Estou muito feliz por você estar aqui."

Não foi até aquela noite, depois de jantarmos e nos instalarmos na sala para ver TV que eu vi o yokai. Eu peguei o movimento pelo canto do olho e comecei a me virar quando a forma que vi me congelou no lugar. Além de todo o resto, Kameko tinha subestimado o tamanho da coisa. Moveu-se silenciosamente para o quarto e subiu devagar por uma parede dos fundos até ficar encostada no teto alto. Eu ouvi a voz de Kameko perto do meu ouvido, me dizendo para respirar, que estava tudo bem. Que tudo bem, eu podia olhar para ela, estava tudo certo, não tinha problema. Com grande esforço, virei um pouco mais minha cabeça para vê-lo mais completamente, observando sua forma sombria no tremeluzir da luz da televisão. Me lembrou um pouco uma tarântula, mas com grandes conjuntos de olhos negros, três menores ao redor de um maior, em ambos os lados do seu rosto. Eu podia senti-lo olhando para mim por um momento, mas depois pareceu voltar a assistir TV.

Se fosse qualquer outra pessoa, eu teria fugido naquele dado momento. Como era ela, passei o dia seguinte tentando convencê-la de que não era seguro ficar ali, e ela passou outros dois me convencendo de que tudo estava bem. Em última análise, ela ganhou. Fiquei por mais cinco dias, me diverti muito e, no final, acenei para a aranha que se arrastava pela sala no dia em que fui embora para voltar para minha casa. Olhou para mim de novo, deu um leve aceno de cabeça e começou a fazer seus estranhos afazeres. 

Quando cheguei em casa, a viagem inteira parecia surreal. E também estava exausta. Larguei minha mala, limpei uma mancha na minha cama bagunçada e adormeci. Acordei cinco horas depois, e vendo as pilhas de roupas sujas, os pratos peludos de mofo na pia e a bagunça no geral que eu só podia culpar parcialmente na viagem, me vi desejando poder ter uma aranha fantasma empregada. Tentando me livrar deste pensamento e, depois de dar uma espiada deprimente dentro da minha geladeira, saí para comer uma pizza.

Quando voltei, tudo estava límpido. Fiquei ao mesmo tempo maravilhada e aterrorizada. A aranha tinha conseguido me seguir até aqui?

Foi então que eu vi minha mala. Havia sido colocada contra uma parede e esvaziada, mas quando me aproximei ainda pude ver uma pequena protuberância no bolso frontal da parte de cima. O bolso estava parcialmente aberto e usei a luz do celular para olhar lá dentro. Havia um ovo lá dentro. Um ovo preto parecendo de couro, do tamanho de um ovo grande de galinha, com a superfície brilhante, exceto por manchas intermitentes de coloração esverdeada. Mesmo à distância, pude ver que o ovo havia sido aberto por dentro e estava vazio.

Corri para a rua e liguei para Kameko. Ela atendeu sonolenta, mas acordou rápido quando contei o que encontrara. Ela disse que seu yokai ainda estava lá, mas acha que talvez tinha tido um bebê? Ela disse que tentaria descobrir o que podia ser, mas para eu ter muito cuidado, já que nem todos os yokai são iguais, e alguns são muito perigosos.

Debati se era melhor eu ir para um hotel, mas acabei voltando, prometendo a mim mesma que iria correr ao primeiro sinal de problema. Quando entrei, eu o vi. Estava na metade da parede do corredor da frente, olhando para mim com oito pequenos olhos de uma coloração azul escuro, como safiras. Era do tamanho de um gatinho filhote, e suas pernas e corpo estavam cobertos com o que parecia ser pelagem branca. A cabeça era a parte mais estranha, pois, além de seus olhos, parecia mais a cabeça de um furão do que de uma aranha. Eu o vi abrir a boca em um bocejo cheio de dentes antes de acenar minimamente para mim.

Foi quase fofo. O que provavelmente significava que aquilo iria me matar e preencher todos os buracos do meu corpo com pequenos ovos. Me arrependi imediatamente desse pensamento e engoli a seco. 

"Estamos bem, eu e você?" Me senti idiota falando com um monstro na minha parede, mas só deixei rolar. A coisinha assentiu com a cabeça. 

"Vamos viver juntos aqui e nos dar bem, sem machucar um ao outro?" 

Assentiu mais uma vez. 

"Tá bom, legal, acho. Vamos tentar. Bem vindo ao lar." A criatura deixou escapar um gorgolejo de felicidade e assentiu antes de ir andando pelo corredor.

Desde então, tudo correu muito bem. Ainda é bizarro, claro, mas me adaptei rapidamente e não tive preocupações reais até esta manhã, quando encontrei o corpo no armário do quarto de hóspedes.

Subi para pegar uma capa de chuva no armário, mas tive dificuldade em abrir a porta. Quando consegui, vi o corpo de um homem, embrulhado em uma teia de seda, sentado no chão do armário. Gritei, mas antes de entrar em pânico, percebi que o homem estava usando uma máscara de esqui preta. Eu o estudei mais perto pelo que eu podia ver através das teias. Ele tinha roupas escuras e uma faca comprida estava cerrada no punho direito.

Eu reconheci essa faca. Chet, meu ex, costumava carregá-la no carro quando saíamos. Senti meu estômago apertar. Consegui soltar a faca com algum esforço e usei-a para liberar um pouco de teia, só o suficiente para remover a máscara. O rosto de Chet estava esburacado e esfolado, e pude ver que tinha sido degolado.

É difícil para mim dizer quanto tempo ele já esteva lá, mas vi o suficiente para saber o que aconteceu. Peguei minha capa de chuva e saí. Quando voltei para casa naquela noite, todos os vestígios dele haviam desaparecido. Pela décima vez considerei chamar a polícia, mas o que eu iria dizer? No final das contas, me sentei no sofá e liguei a televisão. Levou apenas um minuto para encontrar um bom programa de concurso para assistir.

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

26 comentários :

Postar um comentário

Reinauguração do Grito de Horror

2 comentários
Fala Creepers!

Mais uma vez estamos dando uma força para nosso parceiro Grito de Horror! Eles lançaram uma promoção de reinauguração do site que irá premiar você com um exemplar físico da obra "Ed & Lorraine Warren: Demonologistas" da consagrada DarkSide Books!

Corram! A promoção irá até 1 de Julho de 2018
(As regras estão descritas na postagem)


Não esqueça de comentar a hashtag #CPBr para que eles possam saber que vieram de nosso querido blog.

"Alex Lupóz - Gostaria de agradecer imensamente o CPBr por estar conosco em todas as reinaugurações e pela humildade. Isto sim é uma aliança genuína do horror, algo que muitos bloggers hoje em dia mal sabem o quê significam."

Keep Creeping!

2 comentários :

Postar um comentário

Porque Os Malvados São Loucos

12 comentários
Você já percebeu, não? Hitler, Stalin, Ivan o Terrível, Átila o Huno, os serial killers e a lista vai. Todos muito, muito maus. E muito, muito loucos. E claro, você já percebeu que isso não tem como ser coincidência, todas as pessoas já perceberam.

Bem, o ponto no qual quero chegar aqui é, ora, já parou para pensar, o que uma coisa teria a ver com outra? Veja, não se tem qualquer relação direta entre sanidade e ética, ou empatia. Há pessoas boas e amalucadas, assim como pessoas meio mesquinhas e babacas, mas com uma mentalidade relativamente normal, não? Mas e os tais “muito, muito maus”? Psicopatas e ditadores, vivos e mortos, todos completamente malucos, das mil formas mais originais e artísticas imagináveis!!! Paranoia, alucinações, depressão, TOC, raiva desmedida, manias, narcisismo, tudo que há de louco e mais um pouco, artes das mais belas! Ok, ok, vou parar de devanear e ser direto. Eu não entendo muito de psicologia e nem preciso, porque a resposta da questão que entitula essa história não está em nenhuma teoria de algum humanista excêntrico tirada por seus pacientes em divãs, a resposta sou eu.

Olá, prazer, eu não tenho nome. Vocês me chamam de Caos ou Loki, em minha forma personificada. Não sou exatamente um humano, um vivo, um morto, um deus ou um diabo, sou só... Algo que existe, não importa. O que importa é que estou entediado. Eu sempre estou entediado e espero que vocês me compreendam. Quero dizer, tenho milhares de anos e só fico aqui na Terra vendo vocês repetindo as mesmas merdas enquanto dizem que evoluem, é chato, vocês entendem? Por isso eu quero me divertir, e por isso eu me divirto o quanto posso, é claro. E sim, me divirto às custas de vocês, humanos.

Não me levem a mal, nem tenham medo, não vou sair por aí infernizando todo mundo, não poderia nem se eu quisesse. Sabe, as forças que regem, bem... “as coisas”, o “tudo”, elas ainda me supervisionam, são como o meu chefe, assim como o seu, também. Não posso zoar com tudo, mas posso zoar com alguma coisa, ou melhor, com alguns. As forças do Universo não se importam tanto em desajustar com entidades que já são destrutivas, é irrelevante para a ordem das coisas, é apenas caos atacando o caos. E essas entidades existem em tudo que é vivo ou não vivo e dentre vocês humanos, esses dissidentes são conhecidos como “caras maus”.

Acho que vocês já estão sacando onde eu quero chegar. Pois é, sou eu que piro esses caras, é um dos meus hobbies favoritos. E como sei que vocês amam historinhas, vim trazer uma das minhas, talvez nem a melhor, mais divertida ou mais intrigante, mas ainda interessante, acho.

Bem, o cara era um policial corrupto. Ok, isso não é tão incomum em qualquer parte do mundo, mas este, em particular, era o cão. Era abusivo com a esposa e com os filhos, bebia feito carro velho, traçava montes de prostitutas, cobrava dos comércios locais por proteção, torturava alguns adolescentes supeitos ou não, recebia algumas propinas de criminosos um pouco maiores, coisa básica. Eu já tinha conhecimento de todo esse histórico, uma vantagem em exercer essa minha função, e já sabia bem como lançar minha isca. Para começar, fui abençoado também com a habilidade de decidir minha aparência (legal, né?) e na verdade eu não tenho uma forma física original, apenas algumas que gosto mais de usar e naquele dia em particular estava com minha favorita, a de um garoto de treze anos, velho o bastante para dominar as malícias do mundo e jovem o bastante para não ter qualquer maturidade quanto a

elas, existe coisa melhor? Claro que não. Mas beleza, eu estava andando pela rua de uma cidade média, rua que eu sabia que minha presa estaria naquele momento, descendo com seu carro. E foi com um baque que eu percebi que minha isca tinha sido mordida.

— É cego, velho filho da puta? — rosnei fingindo estar com raiva, tentando me levantar com as minhas pernas quebradas pelo impacto do carro. Vi o cara sair pela porta do motorista completamente puto. Perfeito.

— Quer morrer, moleque de merda?? — rosnou minha vítima, já tentando se impor com sua autoridade com ajuda de seus um metro e noventa de altura e 120 quilos. Uma coisa que adoro em pirar os caras maus, eles sempre tentam mostrar um ego gigante quando são desafiados, só para deixar meu trabalho ainda mais fácil e mais divertido. Seguindo a dança, finalmente eu me levantava apoiando-me ao capô e fingindo um pouco de medo misturado com raiva. Resmunguei alguns xingamentos, o que o enfureceu ainda mais.

— Seu merdinha! Pula na minha frente como palhaço, sabe quem eu sou?

Calei-me enquanto ele bufava. Por mais puto que ele estivesse, sabia que ele não negaria socorro a uma criança que acabara de atropelar. Não em público.

— Entra aqui, pivete. — resmungou, tentando baixar um pouco a voz. Ainda quieto, manquei rumo à porta do carona e entrei. Enquanto partíamos, já começava a me deliciar com os resmungos do policial, modéstia à parte, fui bastante sagaz ao pegar o cara justamente em um dos seus piores dias. Claro que ele não me levaria ao hospital, paramos em um ponto mais isolado da cidade, onde ele me puxou pelo braço a um beco ainda mais isolado.

— Escuta aqui, moleque. — rosnou, já alterando a voz de novo. — Já que o viado do seu pai nunca te ensinou respeito, eu vou ensinar agora.

— Vai se foder. — respondi em tom apático.

— COMO É??? — Não se conteve e lançou um soco rumo à minha cara. Desviei facilmente, o que o irritou ainda mais.

— Vai se foder, velho. — repeti. Vendo que precisaria ser mais persuasivo para me submeter, sacou sua arma do bolso e mirou em mim. Dei de ombros, agora já o deixando louco.

Sem raciocinar, apertou forte a arma em sua mão, já pouco se importando se ela iria disparar. Mas não era uma arma. Era um lenço. Ficou encarando a mão com uma expressão de “que porra é essa” e depois olhou pra mim.

— Que foi? — perguntei. Ele não respondeu, só ficou me encarando antes de mandar mais um soco que também só acertaria o ar.

— Tá com algum problema, moço? — perguntei inocentemente. Assustado, viu seu punho apontando para o nada enquanto eu contemplava sem me mecher, uns cinco metros atrás dele. Ele me olhou nos olhos, estupefato e já com algumas gotas de suor frio.

— Quer que eu te ajude com alguma coisa? — insisti. Estávamos no mesmo beco, eu era o mesmo garoto, mas minha perna não estava mais quebrada. Eu era só uma criança qualquer com um ar intrigado olhando pra ele. Ele soltou um pouco de ar, como se ganisse.

Acordou. Estava em uma cama de motel mais uma vez e a puta que tinha pegado parecia estar já tomando banho.

— Você estava gritando dormindo, sabia? — disse a moça ao sair, nua, mas ainda enxugando o rosto.

— N-não foi nada... — começou ele ao que viu a moça revelar o rosto por trás da toalha. Sim, era eu, quero dizer, o mesmo garoto que eu tinha me feito parecer. Ele berrou de novo e acordou de novo, dessa vez no tribunal, no banco dos réus.

— ...O senhor é acusado de cobrar propinas, ameaçar sete lojistas, cárcere privado, violência doméstica, tortura e um assassinato. Há alguma declaração que queira dar.

Ele olhou o juíz, o mesmo garoto. Olhou para o júri, o mesmo garoto, todos eles, conversando entre si normalmente como se nem notassem que os observava. Todos com o mesmo rosto.

— Tá com algum problema, moço? — perguntou o juíz.

Deu um berro de pânico assim que acordou por uma última vez. Estava em seu carro, na mesma rua em que teria acontecido o acidente, mas estava tudo normal, ainda não chegara ao cruzamento e não havia garoto nenhum. A única coisa da alucinação maluca que continuava era sua expressão de terror, que agora podia ver claramente em seu retrovisor. Baixou e segurou sua cabeça resmungando “merda” por alguns segundos. Até ouvir a buzina do carro de trás apressando-o. E assim ele continuou pela rua e tentou tocar sua vida como ela sempre fora. Mas o estrago já tinha sido feito e aquela lembrança teimaria em ficar no fundo de sua mente, deixando-a mais cautelosa, mais paranoica. E se eventualmente ele conseguia bloquear ou mesmo se convencer que tudo era só um devaneio tolo que tivera um dia, o mesmo garoto aparecia na rua, ao longe, sempre acenando para ele com seu mesmo sorrisinho cínico.

E essa foi nossa historinha, gostaram? Pois é, eu tenho várias outras envolvendo os mais diversos “caras maus” desse mundo, crônicas divertidas que adoraria poder compartilhar com todos vocês, mas infelizmente, isso tomaria tempo demais, então paro aqui. E você, leitor? Como vai a sua vida? Como tem se comportado? Bem?

Que pena.

Autor: Dom Jurumela

12 comentários :

Postar um comentário