Arrebatador

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"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido."

{H.P. Lovecraft}


Que tipo de doença não deixa sequelas no corpo, nem nenhum tipo de marca, arranhões ou hematomas, mas faz com que o homem mais sã do mundo comece a caminhar como um bicho boçal, falar coisas incoerentes e ignorar os seus semelhantes...? As pessoas começaram a ficar diferentes, e muitas não voltavam quando entravam na floresta. Dizem que algo apareceu lá, uma coisa que não faz parte da nossa Terra, uma entidade que veio na noite em que o céu brilhou e uma bola de fogo caiu bem dentro da mata, lá no meio, onde as árvores são mais altas.

O meu irmão, que iria se casar com uma moça de uma família nobre e juntar nossas casas, voltou diferente e assutado depois de uma caça. Ele parecia louco, com os mesmos sintomas de uma doença sem explicação para medicina. Ninguém estava conseguindo ajudá-lo, e eu fui obrigado, com dois cães - já que nenhum homem tinha coragem de ir comigo -, a saber o que ele viu, sentir o que sentiu e buscar uma explicação para tentar, ao menos, ajudar o sangue do meu sangue.

Sabe... eu não sou um biólogo e não entendo muito bem sobre os bichos locais, contudo havia algo errado lá... Senti, logo nos primeiros quilômetros, a falta de animais pequenos e grandes, dos barulhos de pássaros, entre outros sons que a floresta fazia. Notei, quando cheguei na parte que as árvores ficavam maiores, que elas foram derrubadas. Quando eu digo "derrubadas", não me refiro no sentido de que alguém tenha utilizado a mão de obra humana, mas elas foram quebradas bem no meio do tronco, como se algo tivesse as derrubado por pura brutalidade. E o que fez isso, de maneira alguma faz parte desse lugar.

Como eu já tinha falado, algumas horas antes a floresta estava diferente, uma vez que, em muitas partes, principalmente onde as árvores foram destruídas, havia um musgo pegajoso, uma substância terrível que inalava um odor insuportável. Os dois cachorros ficaram espirrando diversas vezes e agoniados quando tentaram farejar do que setratava aquilo. O início da noite deixou a floresta ainda mais macabra, com sons perversos! O que estava fazendo isso parecia zombar da natureza, e eles estavam sendo espalhados pelo vento.

Aquelas perturbações cósmicas e doentias diminuíram um pouco para mim, já que consegui colocar dois algodões dos meus ouvidos. No entanto, coisas mais estranhas, aos meus olhos, estavam por vir. Comecei a sentir um cheiro, algo semelhante a ovo podre, e comecei a seguir o odor com os cachorros, que estavam ficando cada vez mais vidrados. Após alguns metros, encontramos algo que... nenhum tipo de arma, nem qualquer tipo de máquina criada pelo homem poderia ter feito: havia uma cratera enorme, algo que havia sido criado recentemente, pois uma fumaça estranha saía de dentro, e os animais ficaram tão agoniados, que eu não consegui ficar mais nem um minuto próximo. Então, começamos a tentar encontrar alguma coisa e o que estava acontecendo naquele lugar.

Em um determinado momento, comecei a tropeçar. Parecia haver vários buracos no chão, mas, quando eu coloquei a lanterna e fiz cálculos, concluí que aquilo não tinha sido feito pela natureza. Se eu fosse pensar da forma mais sem lógica do mundo, poderia dizer que eram pegadas de elefante; todavia, com tamanhos extremamentes desproporcionais para tal animal. De repente, ouvi barulhos de árvore quebrando, e aqueles sons ficaram mais agoniantes! Peguei minha espingarda e comecei a correr na direção daquilo, que fazia agitações semelhantes a terremotos.

A essa altura de adrenalina, estava colocando todas as minhas forças em minhas duas pernas e puxando os dois cães pelas correntes, visto que eles quase que estavam me abandonando. Em um determinado instante, o chão estremeceu tão forte que eu caí arrastando os dois animais, e descemos para um local por causa do solo acidentado. Nessa ocasião, um silêncio reinou, a terra parou de tremer e as árvores não fizeram mais barulhos, como se estivessem sendo quebradas. Estava tão escuro e a minha lanterna não parava de piscar.

O meu corpo estava banhado com aquele musgo gelatinoso. Tentei levantar, sem muito sucesso, e os animais estavam inquietos e latindo para todas as direções, como se estivessem confusos com algo espreitando na imensidão da noite. Da mesma forma que o som parou e as árvores ficaram silenciosas, uma agitação louca saltou em nossas mentes. Eu, como os dois cachorros, estava atônito.

Parecia que algo se movia, quebrando as árvores em todas as direções. O som parou mais uma vez. Minha respiração estava ficando cada vez mais ofegante e, quando estava abraçando a loucura daquele momento, um bafo quente, vindo de cima para baixo, fez com que o meu corpo estremecesse, e os cachorros... OH, MEU DEUS! Os pobres animais gritaram como se fossem uma pessoa observando a pior perversão do mundo. As suas pernas ficaram fracas e eles correram cambaleando, após terem mordido as minhas mãos para que eu largasse as correntes. Saíram em disparada, deixando uma trilha com urina e fezes!

O bafo quente foi jogado mais uma vez em cima de mim. No momento de adrenalina e face ao horror cósmico, peguei o pequeno barril com pólvora e arremessei para cima, na direção que estava vindo o ar quente, e disparei, com um tiro preciso, fazendo com que uma explosão, misturada com os gases tóxicos, os quais estavam sendo espalhados na floresta por conta daquela cratera, criasse uma iluminação. Eu pude enxergar a coisa que estava invisível, a mesma que estava derrubando as árvores e deixando os homens loucos.

O pouco que eu pude vislumbrar, foi algo que não deu para descrever... Não existem palavras humanas capazes de expressar tais profundezas do horror que aquela coisa gelatinosa e verde se assemelhava. O corpo da criatura não era sólido, assemelhava-se a uma gosma nojenta - isso explicava muito sobre o musgo gelatinoso e as suas proporções, respondendo o porquê de as árvores terem sido quebradas por algo grande. A criatura berrou, o som foi tão medonho, blasfêmico, horrível, que a minha mente não conseguiu digerir. Quando eu consegui ter um pouco de noção da situação na qual estava passando, percebi que estava correndo; o meu próprio corpo desafiou a física e a razão humana e começou a fugir por conta própria. Quanto mais longe eu chegava, mais o barulho daquilo grunhindo de agonia estava ficando distante.

Todos perguntaram como eu não tinha ficado louco, mas guardei sequelas daquele dia. Eu não consegui explicar para ninguém e nem encontrar palavras razoáveis para expressar o que está, ainda, na floresta; no entanto, minha forma de olhar e minha boca gaguejando ao tentar balbuciar, fez com que todos soubessem que, dentro do mato, na parte mais remota e sombria da selva, tem algo que a mente humana não vai conseguir explicar.

Autor: Sinistro

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Desafio você

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No início dos anos 2000, um jogo de tabuleiro começou a fazer sucesso na pequena cidade em que eu morava. Algo um pouco incomum, já que a maioria dos jovens preferiam passar o tempo em jogos eletrônicos ou então em casa, com a sua internet. Mas, talvez o fato de ser um lugar simples onde coisas modernas só chegavam bastante tempo depois tenha ajudado.

Era um jogo sem complicações, lembrando bastante Master, a diferença era que, no lugar de perguntas, eram desafios. Assim como o jogo da Grow, "E agora?" Não se jogava com dados, mas sim com fichas para os jogadores se movimentarem pelo tabuleiro e claro, só poderia se movimentar se cumprisse o desafio que estavam nas cartas do jogo. O jogador a sua esquerda deveria tirar uma carta e ler o desafio em voz alta, sempre quando terminasse de ler, ele deveria dizer ao jogador desafiado "E agora?", então, o desafiado deveria dizer se aceitava ou não o desafio.

A maioria dos desafios eram bem simples e bobos, coisas como "Desafio você a tocar a campainha do vizinho" ou então "Desafio você a falar um segredo para um dos jogadores". Mas tinha um desafio que sempre nos deixava confuso, e sempre que jogávamos, deixávamos essa estranha carta de lado, dizendo que não valia. O desafio da carta era simplesmente "Desafio você a ir até o final do Arco Iris". Na primeira vez, rimos bastante disso, pensamos que os donos fizeram isso apenas para trollar os jogadores e fazerem eles voltaram duas casas a força, sendo que caso não quisesse cumprir o desafio, teria que fazer isso. O estranho é que parecia que essas cartas sempre vinha em todos os jogos. Um amigo meu também tinha o jogo na época, disse que em uma de suas cartas, dizia "Desafio você a me achar no centro da cidade".

Com o passar do tempo, o jogo foi ficando esquecido, a tecnologia foi avançando e ninguém mais queria saber de um jogo bobo de tabuleiro. O fato é que, em um fórum na internet em 2010, o jogo foi novamente trazido há tona. Enquanto a maioria dos usuários lembravam dos momentos engraçados e desafios que o jogo proporcionava, o usuário HackJ333 dizia com a maior confiança que não cumprimos o melhor desafio do jogo, que seria o de ir até o final do bendito Arco íris. Claro, todo mundo riu dele, afinal de contas, deveria ser um desses malucos que criam teorias. Disse que o jogo foi criado por um proposito e que deveríamos descobrir e blá blá blá. Não acreditamos.

Um usuário trouxe de volta a questão das cartas estranhas, o que fez todos falarem as cartas que tinham vindo junto em seus jogos. Nada fazia sentindo, eram apenas desafios estranhos que não entendíamos. A coisa ficou interessante quando os desafios de dois usuários bateram. Enquanto um dizia "Desafio você a enxergar no escuro" o outro dizia "Desafio você a correr pela escuridão". Claro que Hackj333 veio correndo para dizer que estava certo o tempo todo. Mas, isso não queria dizer nada, pelo menos não ainda. Perguntamos ao Hackj333 se ele ainda tinha o jogo e se ele também tinha uma carta estranha, o que ele respondeu que sim, e disse também o que estava escrito.

"Desafio você a achar o caminho no escuro". Outra carta que batia com as outras duas. E afinal de contas, por que tanta obsessão com o escuro? Hackj333 afirmou que iria até o fundo disso e seria o primeiro a cumprir esse desafio. Todos do fórum falaram o que tinha em suas cartas, a pedido de Hackj333, que queria pistas e juntar todas as informações que podia. Eu também entrei no meio daquilo tudo, falando o que estava escrito não só na minha carta, como também na do meu amigo. Depois de tudo isso, Hackj333 prometeu trazer mais informações antes de sair do fórum.

Não o vimos online durante algum tempo, até que numa manhã, enquanto estava tomando café, a notícia de um monte de fitas VHS encontradas me chamou a atenção. Na reportagem, deixava claro que os conteúdo das fitas era extremamente perturbador e que as autoridades estavam a procura do autor daquilo tudo. Aquilo me assustou um pouco, por ser raro isso ocorrer nessa pequena cidade, que foi sempre um lugar bastante tranquilo. Porém, o que mais me assustou foi o que ocorreu durante a noite, quando entrei no fórum. Hackj333 estava online, e resolveu contar a todos ali tudo o que ocorreu nos dias em que passou fora.

O texto a seguir foi escrito pelo usuário Hackj333.

Hackj333: O fato é que eu sempre gostei bastante do "E agora?". Lembro-me de tê-lo jogado bastante com meus amigos nas manhãs de verão, quando estávamos de férias. Minha mãe não era muito fã do jogo, dizia que iriamos acabar se ferrando por causa daqueles desafios bobos, o que nunca ocorreu. A maioria dos desafios eram totalmente infantis e serviam apena para nos fazer rir. Talvez por isso que eu queria descobrir o que realmente tinha por trás daquelas cartas. Assim como a maioria de vocês, achei que era apenas uma brincadeira de seus criadores, até descobrir que outras desse tipo vinham em outros jogos.

Pensei que, talvez, se eu juntasse mais cartas dessas, poderia achar algo, poderia cumprir um desafio secreto que ninguém conseguiu e como eu gostava muito do jogo, resolvi tentar. Peguei os desafios das cartas estranhas que vocês disseram e tentei ver por onde eu começava. A maioria não tinha muito sentido, então resolvi começar pelo centro da cidade, seguindo o que estava na carta "Desafio você me encontrar no centro da cidade". Não demorou muito para chegar até lá. Fiquei rodando por horas por todos os cantos, estava começando a achar que aquilo tudo era uma perca de tempo e que deveria deixar toda essa merda de lado, porém, algo me chamou a atenção. Era um grafite, um grafite de um arco íris em um muro. E se fosse o arco íris citado na outra carta que um de vocês me falou? O único jeito de descobrir era seguir o arco íris que estava no muro até o fim.

Fui andando pela calçada enquanto olhava o muro, ansioso para ver aonde aquilo iria me levar. Acabei que chegando a um tipo de beco, fiquei com um pouco de medo de continuar, mas pensei que talvez eu poderia achar algo muito foda, vai saber? Tomei coragem e segui em frente. Andei naquele beco sujo pensando o quanto eu poderia estar perto de descobrir alguma coisa e por isso me bateu uma certa decepção quando vi que era um beco sem saída. Olhei ao redor e as únicas coisas que encontrei foram sacos e um Contêiner de lixo. Me senti frustrado mas não desisti, comecei a revirar as sacolas e mexer no Contêiner. Colocando a mão por baixo dele, achei algo que estava grudado nele com uma fita, era uma carta. Pela aparência, deveria estar ali há tempos, mas ainda era possível ler o endereço que estava na carta, junto com um desafio. "Desafio você a vir até aqui".

Juro que demorei um pouco para cair na real sobre tudo que estava acontecendo, eu finalmente iria desvendar o mistério por trás do jogo? Não perdi tempo em pegar o ônibus para ir até o local da carta, estava tão animado que esqueci que já eram 5 da tarde e que não demoraria muito para escurecer. Quem quer que fosse que estivesse por trás disso, queria mesmo que passássemos por uma aventura. Eu não reclamava, até gostava dessa sensação toda, me sentindo um detetive. Então, enquanto estava perdido em meus pensamentos, o ônibus parou. Desci correndo, bastante eufórico. Era ali, ali eu iria descobrir tudo, quem sabe até ficar famoso por descobrir algo que nenhum desses patetas que jogaram o jogo em uma boa parte da infância perceberam? Quem era o maluco das teorias agora? Eu ria sozinho enquanto pensava nisso.

Infelizmente, meu sorriso se desfez um pouco quando me deparei com uma casa. Ela tinha o mesmo número que estava no endereço. Era uma casa totalmente acabada, parecia ter sido abandonada por anos. Falo isso também pelo gramado enorme que precisava ser aparado. Bem, era um desafio e em todos os anos que joguei esse jogo, eu nunca recusei um desafio sequer, até mesmo tomei um ovo cru, um dos desafios que todo mundo recusava na época. Eu só tinha que entrar naquela casa e pegar o meu prêmio, certo? Tomei coragem após respirar fundo e pulei a cerca do lugar. A cada passo, meu estômago embrulhava, o fato é que eu estava me borrando de medo, não só por estar se aproximando daquela casa ferrada como também daquele matagal, só faltava uma cobra aparecer do nada e atacar meu pé.

Quando finalmente cheguei até a porta, pensei na ideia de bater, até perceber que ela estava entreaberta. Senti um aperto na garganta ao mesmo tempo que meu estômago começava a doer, algo me dizia para voltar e eu deveria ter ouvido, infelizmente, minha teimosia e curiosidade falaram mais alto. Entrei na casa, estava extremamente escuro, eu não conseguia enxergar porcaria nenhuma. Tentei procurar por um interruptor tocando nas paredes da casa, até cheguei a encontrar um, só que não funcionava. No final, meus olhos começaram a se acostumar com a escuridão e consegui enxergar duas coisas que não tinha notado. Primeiro foi uma escada que estava a minha direita, e outra foi uma porta logo a frente. Bem, não tive coragem de subir as escadas, não vou mentir. Resolvi seguir o caminho da porta a minha frente. Assim como a da entrada, essa porta também estava entreaberta.

Agora eu me encontrava em uma pequena sala, o interruptor também não funcionava, pra variar. Resolvi dar uma volta pelo cômodo até tropeçar em alguma coisa. Era uma sacola, tinha alguma coisa dentro. Com um pouco de receio, fui colocando a mão dentro até tocar em algo. Sim, agora estava com algo nas mãos e pelo formato, eu tinha certeza, não restava duvidas que aquilo era uma fita de VHS, e não era apenas aquela, tinha mais algumas na sacola. Pensei que deveria ser aquilo que o criador do jogo queria que eu encontrasse até meus pensamentos serem interrompidos por um barulho que vinha do cômodo de cima. Tinha alguém na casa. Merda, eu tinha que sair dali! Guardei a fita na sacola e corri, passando pela primeira porta até acontecer a pior coisa que poderia ocorrer naquele momento...

Eu caí. A saída estava bem na minha frente, eu ouvi passos na escada, estava chegando perto. Eu não tive coragem de olhar para trás para ver quem diabos era, apenas juntei minha forças e me levantei desesperado, ainda com a sacola na mão. Eu nunca tinha corrido tanto assim na vida, agora passando pela aquela grama alta, pensando se aquilo poderia está logo atrás de mim. Assim que cheguei na cerca, joguei a sacola por cima dela e em seguida pulei. Podem me chamar de maluco, mas eu queria mesmo saber o que tinha naquelas fitas. Depois do que pareceu ser uma eternidade, eu cheguei ao ponto de ônibus onde finalmente pude pegar o ônibus de volta para casa. A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi pegar o meu velho videocassete e pegar uma das fitas para assistir. Fiquei surpreso quando em uma das fitas tinha uma carta dizendo "Parabéns! Você cumpriu o maior desafio do E agora? Agora, desafio você a contar sua experiência para outras pessoas". Vocês não sabem o quanto aquilo me fez dar um sorriso de orelha a orelha, um sorriso que durou até eu colocar o VHS no Videocassete.

O fato é que eu não consigo dizer a vocês o que tinha ali, pensar nisso nesse momento está acabando comigo. Apenas saibam que nunca irei esquecer essa merda, nem mesmo se eu batesse a cabeça e perdesse uma parte da minha memória. Ainda consegui reunir forças para chamar a policia e falar o endereço da casa. Não tinha mais ninguém lá quando a policia chegou. Eu não estou bem. Maldito jogo, maldita curiosidade. Eu espero que todos vocês peguem esses malditos jogos que vocês tem em casa e coloquem fogo, foi o que eu fiz com o meu. Apenas sigam meu conselho. Não quero mais nada que tenha ligação com isso em minha vida.

O texto de Hackj333 terminou assim. Ele não postou mais nada depois disso. Passei a noite toda discutindo com os outros usuários sobre a história que ele tinha contado. Alguns acreditavam, outros não. Mas não podíamos negar que fitas foram encontradas, estavam sempre falando disso na TV. Dias se passaram e tivemos noticia de que a policia começou a passar em todas as lojas atrás do jogo, mas nenhuma loja da cidade o vendia mais, e ela não poderia achar todas as pessoas que comparam o jogo de tabuleiro. Até hoje, eu não sei o que tinha nas fitas e ainda não encontraram o autor e criador do jogo. Também não tivemos mais noticias do Hackj333. Algumas noites, quando chego do trabalho, me pergunto o que realmente aconteceu naqueles dias.

Autor: Tai

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Eu achava que tinha aprendido a lidar com a solidão

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Isso aconteceu comigo tem já mais de um ano e, na maior parte dos dias, eu não costumo ficar lembrando. Mas alguns fatores como ficar sozinho em finais de semana chuvosos, em que tudo parece mais solitário, desencadeia essas lembranças com mais vivacidade na minha memória. Eu sempre fui interessado nesses relatos que contam pela internet, às vezes sem nem saber se são histórias verdadeiras, mas é algo que eu procurava como uma droga, que por mais que me causasse medo e aflição, depois que passava o efeito eu repetia. Mas me ocorreu que eu nunca relatei nenhuma experiência minha, talvez por não achar que isso fosse trazer algo de bom pra ninguém. Por outro lado, acho que liberar essa sensação que eu estou sentindo agora possa me fazer melhorar, além disso quem for ler isso pode nem acreditar no que eu experienciei, como eu mesmo já fiz muitas vezes com os relatos de outras pessoas.

Então... Eu moro num alojamento estudantil, num apartamento com sala que também é cozinha, banheiro e três quartos, que na época só tinha eu morando. O prédio costuma ter vida durante o semestre, apesar da correria da vida de estudante, minha e dos meus vizinhos, mas durante as férias a maioria vai pras casas das famílias descansar. Mas minha família mora longe e eu não tinha dinheiro pra sair da cidade nas férias, então meus dias se resumiam em leituras, chás e eventualmente algum baseado. A solidão não costumava me afetar tanto e o medo, que eu costumava sentir desde a infância, eu já aprendera a lidar com ele. Era o que eu achava.

Eu, tendo ficado o último daquela rodada de estudantes que passaram pelo apartamento, fiquei com as chaves dos dois quartos que ficaram vagos (apesar de nenhum dos dois antigos ocupantes terem saído por terem terminado o curso, mas simplesmente foram morar em outro lugar). E só passariam a ter moradores novos no começo do outro ano. Mas eu deixava as chaves em um vaso de madeira que ficava em cima da geladeira, na sala, nem pensando na existência dos quartos, que ficavam trancados na maior parte do tempo.

Uma noite eu acordei pra ir ao banheiro de madrugada, no escuro mesmo, como de costume, e notei – através das frestas dos cantos da porta – que a luz de um dos quartos estava acesa. Na hora eu senti um calafrio, andei depressa pro meu quarto, acendi a luz e tranquei a porta. Naquela noite eu dormi de luz acesa.

No outro dia, de manhã, criei coragem e destranquei a porta daquele quarto. Abri, e nele tudo estava como eu me lembrava: um colchão no chão, uma escrivaninha e um guarda-roupa vazios, janela fechada e um leve cheiro de mofo. Mas a luz estava apagada! Lancei a mão no interruptor e nada, foi então que eu olhei pro bulbo e NÃO TINHA LÂMPADA! O calafrio voltou com intensidade maior, então eu tranquei a porta daquele quarto o mais rápido que pude e saí do apartamento; fui andar na rua. Mas uma hora eu teria que voltar praquele lugar. Meus amigos que moravam por ali na vizinhança estavam todos "viajando" pras suas casas de verdade. Eu teria que enfrentar aquele medo sozinho mesmo. Antes de anoitecer, então, eu fui pro apartamento, abri a porta do outro quarto vago, não sem antes conferir se ali tinha luz. Tinha, e eu a acendi, assim como as luzes da sala, do banheiro e do meu quarto, deixando trancado só aquele sem luz. Foi assim que eu consegui colocar a cabeça no travesseiro à noite. Mas não significa que eu dormi. A partir de um certo tempo que eu estava deitado, começou a garoar fininho (chuva sempre me traz uma sensação gostosa e estranha ao mesmo tempo, não sei explicar). Fiquei prestando atenção ao som da chuva, até que quase peguei no sono. Quando a porta do quarto que ficou aberto começou a ranger. "Deve ter sido o vento", pensei. Mas as janelas estavam todas fechadas. Então, ouvi um trovão e a chuva engrossou, tornando qualquer rangido posterior que acontecesse menos audível. Minutos depois, começou a me dar vontade de mijar. Comecei a cantar mentalmente alguma música alegre e criei coragem pra ir ao banheiro em meio ao som das trovoadas. Quando tô no meio do meu alívio, ouço um estrondo bem mais alto – um raio por perto – e, segundos depois, cai a força. Não me saía mais nem uma gota de xixi, mesmo eu ainda não tendo terminado. Fiquei ali, parado no escuro, sem reação. Até que eu comecei a ouvir o barulho da fechadura da porta da frente (o apartamento é bem compacto, então dava pra ouvir). Me tranquei no banheiro, no escuro, e não emitia nem som de respiração, embora eu soubesse que quem/o que quer que estivesse mexendo na porta soubesse que eu estava ali. Tentei me tranquilizar imaginando que poderia ser "só" um ladrão. Eu não tinha nada de valor e pouco que tinha faria falta, mas eu não estava em condições pra impedir alguém. Foi o que eu disse pra mim mesmo, enquanto os passos eram dados dentro do apartamento, como se o sujeito estivesse fazendo uma ronda. Deve ter entrado no quarto aberto e no meu – que também estava aberto. De repente, silêncio novamente. Minutos depois, a luz voltou.

Saí do banheiro com um rodo na mão, conferindo cada canto, embora com medo de realmente achar algo. Mas, pra minha surpresa, nada. A porta da frente tava trancada e a fechadura intacta. O quarto trancado eu não tive coragem de abrir. Depois da inspeção eu corri pro quarto, tranquei a porta e fiquei com a luz acesa embaixo da coberta até amanhecer.

Quando me levantei é que me dei conta de que o apartamento estava com o chão todo enlameado, como se alguém tivesse pisado logo depois de ter sujado os sapatos com muita lama. Mas não dava pra distinguir formas de pegadas nem nada. Pois bem, tive que limpar tudo. O curioso é que os rastros iam na direção do quarto que ficou trancado, e dava pra ver que a lama continuava dps da porta. Mas eu não lembro de ter ouvido nenhum barulho da fechadura desse quarto. Achei estranhíssimo e fui abrir a porta, não sem pegar o rodo antes pra usar como arma caso fosse necessário. Abri. As mesmas coisas, o mesmo bulbo sem lâmpada, mas o colchão também estava TODO enlameado. Aquilo dormiu ali? Eu já não sabia o que fazer. Retirei o colchão do apartamento para que não mofasse ali e fizesse tudo ali dentro feder. Estava pesado e bem úmido, e mais morno do que eu esperaria de um colchão cheio de lama. Mas peguei ele da mesma forma e o coloquei no corredor do andar. Terminei a limpeza e saí como de costume pra ver um pouco de vida fora daquele cubículo. Pensei em chamar a guarda universitária, mas me chamariam de desvarido. Mas eu só conseguia pensar nesses acontecimentos. Voltei no fim da tarde pra repetir o ritual, já achando que eu estava começando a ficar louco, como muitas pessoas já ficaram nesse alojamento. "Efeito colateral da maconha", foi o que eu ouvia de muitos que eu considerava caretas. Mas joguei fora qualquer ponta de beck que eu tivesse guardada, na tentativa de voltar pra realidade. A noite chegou e eu trancado no quarto. Tinha improvisado um penico pra não ter que ir ao banheiro de madrugada. Naquela noite não ouvi nada. Nem na seguinte. Quando consegui começar a ter uma noite de sono, acordei com um estrondo de porta batendo com MUITA força. Era de um dos quartos, não sabia dizer qual. Meu cu trancou. E não parou. Ouvi as janelas sendo abertas com violência, depois sons de coisas caindo no chão na sala. Panelas, talheres, potes de plástico. Pratos quebrando, pano rasgando. Me enfiei embaixo da cama e chamei a polícia aos sussuros, apesar de ter sido recomendado pelos colegas moradores a não contar com a PM. Só saí dali quando ouvi o bater de um policial. Me dirigi à porta da frente, não antes de notar que o apartamento estava TOTALMENTE normal. Nada jogado, nada quebrado, porta de um quarto trancada e outra aberta, com tudo aceso. Tive que falar com o policial que deveria ter sido trote de alguém. Ele me contou um sermão e saiu. E eu corri pro meu quarto de novo.
No dia seguinte eu tentei investigar o que tinha acontecido. Bati na porta de um ap vizinho. Não tinha ninguém na hora. Bati em outro. Tinha, aleluia. Um cara me atendeu. Eu aproveitei que ninguém realmente me conhecia ali, a não ser meus amigos, e fingi ser vizinho do apartamento onde, na verdade, era eu quem morava. Falei que ouvi barulhos estranhos, como se tivesse tendo alguma confusão no dito apartamento, perguntei se o cara tinha ouvido algo. Ele disse que não ouviu nada.

Depois desse dia eu peguei o colchão que estava sujo, limpei e deixei secar, e o coloquei de volta no quarto. Comprei uma lâmpada baratinha pra colocar no quarto que estava faltando, e passei a deixar todas as portas abertas à noite. E só deixava acesa a luz do meu quarto e trancava minha porta. Nunca entrou ninguém de carne e osso ali. Era sempre meu colega de apartamento misterioso, como eu o apelidei na minha mente. Havia noites em que ele estava nervoso, e eu ouvia o estardalhaço insano por horas a fio. Outras, eram só os passos pesados e lentos. A lama parou de aparecer e eu tentei me acostumar com aquilo. Uma vez tentei me comunicar com ele, através de leves batidas na parede que separa o meu quarto do que ele estava, mas isso o irritou profundamente. Desde então eu fiquei no meu canto, já que agora eu era só um hóspede nesse apartamento, que pertencia a ele.

Meses depois, era quase como se a estadia dele nunca tivesse existido. Vieram novas pessoas pros quartos, gente boa, que nunca relataram nada de fora do normal. Eu, no entanto, sigo procurando evitar irritá-lo, por via das dúvidas, pra ter um pouco de paz.

Autor: Gabriel Meros

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Reticência

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Estava enrolando algumas partes do meu cabelo entre os meus dedos e observando a rua. O movimento dos carros são tão nostálgicos... faz muito tempo que eu estou aqui e quase sempre vejo as mesmas pessoas: aquela senhora puxando o seu cachorro gordo, aquela mulher levando os seus filhos para o colégio e alguns adolescentes bêbados passando em frente ao cinema.

Só na metade do caminho você se sente culpada quando não tem certeza se trancou a porta. Aliás, eu deveria ter trazido o guarda-chuva porque parece que vai chover. O céu está muito escuro e as nuvens estão negras, como se estivessem carregadas e preparadas para estragar o dia de alguém. Contudo, até o momento, isso não é problema para mim. Espero que aquele babaca que fica preparando as pipocas não venha com suas cantadas roubadas da Internet, que são tão artificiais que apenas uma garota boba cairia em seu jogo patético. Essa tarde senti-me culpada por negar alguns trocados para o mendigo que fica no metrô, já que ele sempre estende o seu braço para mim e eu nunca tenho uma quantia para lhe entregar, mas o sujeito sempre persiste, esticando sua mão em minha direção. Cheguei à minha ocupação para trabalhar das três horas da tarde até as dez horas da noite.

Estava tão distraída que quase não percebi quando ele entrou... um homem com porte físico médio, cabelos escuros, a pele parda, roupas bem arrumadas e uma forma de caminhar estranha, como se estivesse cansado. Ele entrou e eu tive que chamar sua atenção para receber o bilhete:

— Ei, ei, otário! Eu estou falando com você! — ele estava quase entrando sem a minha permissão, até que notou a minha presença chamando sua atenção. Olhou em minha direção, ficou por alguns segundos parado e aproximou-se do vidro do caixa com um semblante engraçado, como se fosse algum retardado que estava sem entender o que estava acontecendo.

— A senhora está falando comigo? — ele perguntou como se estivesse usando um disfarce para que eu não ficasse reparando a sua presença entrando, querendo invadir de graça e assistir ao filme que, provavelmente, já estava mais que além da metade para acabar. Todavia, sua expressão facial não parecia estar debochando apesar da pergunta boba, dado que ele estava sério e o seu olhar era como se não estivesse jogando seus olhos diretamente em mim, mas como se estivesse com uma observação perdida em minha direção, da mesma forma que um cego olha em uma direção apreciando uma escuridão.

— Você precisa pagar para assistir ao filme. Não sei se sabe: já faz uma hora e alguma coisa desde que o filme das sete horas da noite começou. Se quiser participar, vai precisar pagar R$10,35 — cobrei o preço, esperando que não fosse mais um cara ciumento ou alguém drogado que não encontrasse em sua carteira a quantia baixa para entrar.

— Ah, como eu não percebi isso...? — ele disse suas palavras, olhando diretamente para o meu corpo, e eu notei que estava com um decote bem evasivo, sem notar que havia destacado tanto meu busto como se fosse algo de propósito. Fiquei observando os seus olhos em minha direção, como se fossem raios X. Sua forma escrota apreciando, como se eu não me importasse... esse cara deixou-me aos nervos!

— Quanto custa para entrar, mesmo? — mesmo com seu rosto e os seus olhos diretamente em minha direção, ele não parecia contemplar a minha pessoa atrás do vidro, até que juntou sua atenção em meus olhos e eu pude observar o quão vazias e lúgubres eram aquelas duas coisas em seu rosto, perguntando o preço do bilhete. Isso me causou um calafrio muito forte e uma sensação que nunca tive em toda a minha vida. Nesse momento, senti o seu cheiro... aquele mesmo que fica quando estou há muito tempo trancada no meu quarto e de todos os dias, quando chego e sinto aquele mesmo aroma que o corpo transmite. Dava para sentir através dos buracos que são feitos no vidro para eu conversasse com os clientes.

Repeti mais uma vez o preço da entrada e ele colocou as suas mãos dentro dos bolsos e pegou, com os papéis amassados e as moedas contadas, exatamente o mesmo preço que falei, deixando para que eu o apanhasse. A sua maneira de caminhar e o barulho que fazia com os pés fizeram com que eu ficasse com um sono ádvena. Ignorei a sua presença sombria e voltei a minha atenção para a rua, nada em comum com o que eu estou acostumada a presenciar constantemente.

Mais uma vez, estou distraída e aguardando o meu turno acabar para chegar em casa e me trancar em meu quarto. Esperando as horas passarem e pensando nos meus problemas pessoais, me assustei com duas pessoas que saíram correndo de dentro do cinema. Logo, um estampido forte foi ouvido e uma poeira escura cobriu toda a vidraça de onde eu me encontrava. Abri a porta, ouvi muitos gritos de horror e liguei para polícia, que logo chamou os socorristas preparados para esse tipo de coisa. Observando alguns feridos arrastando-se para escapar da poeira, não foi difícil de notar que acontecera uma calamidade dentro do cinema. De acordo com eles, o teto desabara por conta da negligência do dono e muitas pessoas morreram.

Nem consegui sair de frente do local, uma vez que estava aguardando notícias; mas pela cara dos beleguins agitando seus cabelos freneticamente, não era nada bom. Lembro-me das famílias entrando, pessoas velhas... e até os meus amigos, que trabalhavam na parte interior, sendo vítimas da tragédia. A memória daquele homem não sai da minha cabeça. Posso jurar que, em meio àquele tumulto, com aquelas pessoas curiosas tirando fotos para postar na Internet e compartilhar o sofrimento alheio, os repórteres querendo uma matéria boa para transmitir na televisão e ganhar audiência e aqueles jovens reclamando da falta de segurança, pude notar, afastando-se de mim, aquele mesmo sujeito com seu olhar obscuro... saindo da entrada do cinema. Não tem como esquecer aquela forma de caminhar. O esquisitão virou o seu rosto em minha direção e fez uma expressão estranha aos meus olhos, logo desaparecendo.

Apesar das mortes e do dia terrível que passei na semana retrasada, não posso colocar isso em meu caminho como se fosse mais um tormento, já que estou começando uma nova jornada em minha vida, a falta de ar é muito forte e não paro de tossir, como se ainda estivesse fumando. Preciso fixar minha cabeça à frente e esquecer os meus pensamentos negativos, mesmo que o médico tenha dito que tenho poucos dias de vida para desfrutar — mas, de acordo com as suas palavras, eu poderia durar meses combatendo meu câncer de pulmão terminal.

Autor: Sinistro

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As belas curvas da minha irmã (18+)

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Meu nome é Roberto, sexo masculino, e tem algo errado no meu reflexo. Você já ouviu essa história antes, eu sei. Tem uma mulher no espelho. E não sou eu.

Veja bem, não sou louco. Mas eu sou um homem. Com barba, bolas, voz grossa. Isso é algum tipo de pegadinha e logo, logo alguém vai pular de dentro do armário e gritar "Surpresa!" feito uma criancinha retardada e energética de 3 anos. Muito engraçado, cara.
Passei a vida inteira chamado assim; eu tenho sido um filho, irmão, aluno, amigo e algumas outras vezes até namorado. Eu me recuso a mesmo supor que estive me masturbando com um pau imaginário. Impossível.

Dá pra imaginar que quando aquela pessoa, aquela mulher, tomou minha imagem viril no vidro eu pirei totalmente. Senti ânsias de vômito. Meu Deus, por alguma razão inexplicável, ela era linda. Como Beca. Uma moça negra de jeito estranho, magra de ossos marcados pelo torso, seios grandes e faltando todos os seus dentes, que babava vermelho e olhava para minhas "coisas" como gato olha pra frango. Assado. Enfia dois dedos numa extremidade que exibiu totalmente. Tomara que seja menstruação. Ela geme e o cheiro corta o quarto. Entra em mim. Eu não sou aquilo. De jeito algum. Jamais. Quebrei o espelho. 

Por via das dúvidas, liguei pra minha mãe.

Mãe, mãe, eu te amo, diz aí. O que eu sou?
Como assim?
Diz que eu sou homem.
Você é, ué. Tá doido?
Parece que sim. Meu Deus.
O que foi?
Tinha uma mulher no espelho. A mulher mais feia que já vi. Que mulher.
O que você tomou, meu filho? Em nome do senhor isso não é coisa boa.
Ah. Deixe quieto, mãe. Não é nada. Deve ter sido sonho. Tchau.
Vá rezar. Cadê sua irmã?
Tá aqui. Beca tá aqui.


Mas ela continua aqui. Na minha cabeça.

E em todas as vezes que saí de casa ela estava estampada nos corpos vestidos das moças que passeiam pela cidade. E nos copos e pratos e decorações polidas. Nos sonhos mais profundos. Nos pesadelos. Na minha irmã. E em mim.

Se posso vê-la aonde for, eu não posso fugir. Vou ficar aqui até o fim. Beca assente ligeiramente. 

Socorro.

Fazem três semanas. 

Não tem mais nenhum espelho na casa e isso é um problema. Preciso me ver. Agora. Preciso ver o quanto estou linda. Eu sou a moça linda. Que boba fui todos estes dias, afinal. Está tudo claro agora.
Encontrei um pouco de vidro preso entre minhas costelas. Cacos grandes, esperando, intactos. Esqueci de tirá-los dali e tudo bem. Nem dói mais.

Ergui alto aquele vidro e, céus, isso é perfeito. Incrível. Consigo enxergar quase tudo nitidamente. Beca ficaria tão orgulhosa da minha bunda. Meus seios encaixam magnificamente na frente. Caixa torácica escura. Minha pele morena que gruda fácil. Eu sou linda. Coisinhas bem miúdas estralam na boca e só tenho olhos para lá. Embaixo. O centro. O corte. Enfio dois dedos ansiosos ali. Cheira forte. Me deixa molhada. A minha parte preferida de ser mulher. A minha felicidade.

Fico tão feliz de ser como a minha irmã.

Autora: Elle

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Grindr

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Eu sempre fui solitário. E tá tudo bem. Essa não é uma escrita sobre isso. Você não é meu psicólogo e não é algo com que me afete hoje em dia. É só que eu precisava contextualizar. Eu sou gay. Na época que tive essa certeza e revelação, era difícil. Eu era pré adolescente num meio machista e completamente hétero. Porém, eu era mais excluído ainda da minha comunidade por ser gordo naquela época. Bom, os anos passaram. Como, em pleno 2019 a gente arranja nossos parceiros?
- Através de aplicativos. - Disse Bernardo, meu melhor amigo.
Ele realmente me incentivou, disse que mudaria esse meu lado de me sentir sozinho. Que eu deveria experimentar, principalmente pra sair da minha zona de conforto.
Era uma sexta-feira e eu tinha tido um dia cansativo de trabalho. E tudo que eu queria era tomar um bom vinho e entreter minha mente com alguma bobajada. Pois tomei um bom banho quente, abri o meu vinho e fiquei sentado encarando meu telefone. Até que decidi baixar o Grindr. Demorou alguns minutos, minha internet estava lenta. Mas logo quando abri, com a excitação, fiz o meu perfil o mais rápido possível. Fui o mais honesto que dava. Admito que aquilo estava me divertindo. As opções que tinham eram muito 8 ou 80. Muitos homens exibindo seu físico impecável, muitos casados querendo sigilo e todo tipo de estereótipo. O divertido parou de me entreter e eu achei mais prazeroso assistir um pouco de Game of Thrones. A verdade é que quando acabou o episódio, eu ainda estava sem sono. Abri novamente um aplicativo e eu tinha a possibilidade de conversar com um rapaz que se intitulava como “Senhor G” eu pensei: por que não? E quando vi, já estava conversando com Senhor G mais de uma hora. Os gostos em comum, o como ele sempre sabia o que dizer. Cara, aquilo me prendeu. Não me preocupei nem um pouco com o fato que ele não tinha me mostrado seu rosto. Não entendi o fato dele ter só fotos de corpo, ele era mais que isso. Mas, estava sendo o suficiente.


~Perspectiva do Senhor G~


Eu não acreditava que estava mais uma vez perdendo tempo em aplicativos. Mas é que aquele cara realmente me chamou atenção. Alguma coisa nele me remetia a algo. Não sei o que, mas se prendeu minha atenção, é algo pra ser comentando. Bom, eu realmente não me interesso por afeminados, e tem uma história por trás disso. Quando criança, uns 11 anos, precisamente, não aceitava minha condição. E uma vez eu enganei um nerd que a escola toda sabia que era gay, pra me chupar. E quando entrou gente no banheiro eu simplesmente inventei que ele estava me assediando e que precisávamos dar uma lição nele. Veja bem, eu era popular. Em quem iriam acreditar? Quando vi, tinha mais de seis meninos em volta dele, agredindo-o com o que tinha. Eram coisas leves, eu não estava me sentindo culpado. O mais pesado era o que dava cintadas nas pernas dele. Mas de repente, eu me senti irado. MUITO irado. Como ele poderia ser tão bem resolvido? Tinha uma barra de ferro que estava ali de alguma coisa do banheiro. Não sei o que. Aquele banheiro nunca era de fato cuidado pelos serventes. Eu peguei aquela barra de ferro, ordenei que os meninos parassem, e descarreguei nele. Foi a única vez que dei uma coça em alguém. Mas tenho certeza que ele ficou bem marcado. Não só fisicamente, como psicologicamente.
Depois disso, a vida seguiu. Ninguém nunca descobriu, e no ano seguinte ele mudou de escola. Com 18 anos eu me aceitei, e aquele pensamento sobre esse menino parou de me assombrar. A culpa foi embora, sabe? A única coisa que fiquei em mente, que jamais ficaria com afeminados, porque ele era, e eu não queria ter trazer pro meu consciente a memória daquilo. Não esperava que eu fosse quebrar essa promessa, mas aconteceu. Conversei com aquele rapaz horas e horas. Até que precisei dormir, acordava cedo pros meus afazeres.


~Fim da perspectiva do Senhor G~


— Quatro semanas depois. —


Hilário era pra mim o fato que eu estava há quatro semanas conversando com alguém de aplicativo. Era divertida a troca de informações virtuais. Nunca recebi tanta indicação de música, nunca ri tanto. Eu já tinha o WhatsApp de Senhor G, mas ainda não sabia seu nome e nem tinha visto foto de seu rosto. Só que não podia julgar, minhas fotos não eram muito nítidas em relação as minhas feições. E admito que estava gostando dessa aventura.
Naquele sábado, Senhor G sumiu. O dia todo! E apareceu 1h da manhã me mandando mensagens sem sentido. No meio do papo, descobri que ele estava bêbado. Me disse que estava carente e iria me mostrar uma coisa.
Eu pensei comigo mesmo “mas já evoluímos pros nudes?” Não foi nada disso. Ele me mandou enfim uma foto de rosto, com a seguinte legenda. “Eu sou lindo. Eu sou lindo? Me dê biscoito!” Senhor G queria atenção. E depois de ver a foto dele, ele teria de fato a atenção que queria. Só respondi com a seguinte coisa:
“Parque do lago, daqui 30 minutos, encontro?”


~Perspectiva do Senhor G~
Uma galera da faculdade me chamou pra uma choppada. Era a mais esperada do ano. Então excitado com aquilo, eu fui. Chegando lá bebi todos os drinks possíveis. Até que percebi que faltava alguma coisa. Estranho, eu estava querendo ir pra casa conversar com o rapaz do aplicativo? Que ponto cheguei... Resolvi que escreveria pra ele. Sentei no único lugar vazio da festa, tirei uma foto minha e resolvi que queria atenção.
A resposta fez meu coração acelerar. “Parque do lago, daqui 30 minutos, encontro?” Aquele parque era quinze minutos de onde eu estava, eu iria a pé pra ver se adquiria sobriedade. Aproveitaria pra tomar uma coca-cola no caminho. E estaria ali antes dele que morava há cinco minutos do parque. Sai da festa o mais breve possível, e caminhei com passos largos. Como aquele parque era vazio, comprei minha coca no meio do caminho, antes que ficasse deserto. Até que finalmente cheguei, me sentei num balanço e aguardei. Consegui chegar faltando oito minutos pro combinado. Até que recebi uma mensagem “mudanças de planos, podemos nos encontrar em minha casa?” Como ele deixou o endereço e era perto, eu fui.
Realmente levaram os cinco minutos que eu esperava. Quando cheguei naquela casa amarela, eu respirei fundo pra bater na porta. Só que pra minha surpresa, ele abriu. Eu não estava pronto, não esperava, travei todo e fiquei observando. Ele logo quebrou o silêncio:
- Eu não mordo, só se pedir. Não vai entrar? - terminou de dizer.
Até que eu reparei. Mesmo tendo ficado um tempo olhando pra ele, não notei que ele usava uma máscara idêntica ao logo do aplicativo que nos conhecemos. Tive que comentar sobre isso.
- Irado você usar máscara. Mesmo que parte de mim queira ver seu rosto direito já que as fotos eram embaçadas. - Ri depois disso pra disfarçar, não poderia cobrar visto que eu mesmo enrolei pra me mostrar. Bom, eu saí entrando na casa dele. Sabia que ele retiraria aquela máscara depois do comentário. Estava enganado. Ele só fechou a porta pela qual entrei, perguntou se eu bebia Whisky. Não queria parecer mal educado, então aceitei. Ele disse que iria me servir e fiquei sozinho esperando ele naquela sala. Sentei no sofá, era de um vermelho vivo. O engraçado que toda decoração eram de cores bem vividas. Não sei se era o pouco efeito daquela bebida que consumi na festa, mas aquilo realmente me distraiu. Até que ele chegou com as bebidas. Dei o primeiro gole e resolvi puxar assunto:
- Então, estamos aqui finalmente, mas eu não sei seu nome. -
- Me chame de Miller.
Fiquei o encarando. Queria ver melhor suas expressões sem aquela máscara. Mas não sabia como dizer isso. Logo meus pensamentos foram interrompidos por outra fala:
- Então, Senhor G, o que você diria que foi mais importante na sua história de vida?
Aquela pergunta me pegou de surpresa, eu precisava de outra dose de Whisky pra responder, porque precisava pensar no que contar pra impacta-lo e parecer interessante. Mas quando iria justamente pedir outra dose, me senti estranho. Aquela sala girava. E as cores que antes eram vividas, pareciam que estavam se apagando. Eu balbuciei algo como “eu me sinto mal” e juro, eu ouvi ele dar uma gargalhada.


~Fim da perspectiva do Senhor G~


Eu mudei de ideia. Achei que a situação de me encontrar em um parque deserto no primeiro encontro, não passava segurança. Senhor G não assistiu as séries mais recentes? Resolvi sugerir na minha casa por ser relativamente perto da delegacia de polícia. Passaria uma certa segurança. Não é que ele topou? Divertido. Então eu preparei tudo que precisava pra aquele encontro. Me preparei bastante.
Fiquei vigiando pelo olho mágico da porta pra quando ele chegaria. E a cara que ele fez quando abri a porta antes mesmo dele bater, foi impagável. Precisei quebrar o gelo:
- Eu não mordo, só se pedir. Não vai entrar?
Quando ele respondeu sobre tirar a máscara só pensei “não, meu bem. não mesmo” então eu precisava entretê-lo. Quando fechei a porta com força, já com certeza tirei ele dos seus pensamentos. Ofereci bebida pra poder deixá-lo sozinho por um tempo e ver se familiarizava-se com meu ambiente. Quando ele aceitou, corri pra preparar. Bom, não tem muito segredo. Eis os ingredientes:
/ Um copo próprio para o Whisky.
/ Gelo.
/ Whisky.
/ Um líquido especial que chamarei de “breve apagada”
Não é que tá pronto? Fui entregar. Me surpreendi quando ele puxou conversa perguntando meu nome. Afinal, ele parecia estar bem nervoso. Respondi meu sobrenome. Era o mais sensato. Então decidi que estava na hora de começar a esquentar as coisas. Foi quando perguntei:
- Então, Senhor G, o que você diria que foi mais importante na sua história de vida?
Eu vi que meu líquido especial estava começando a fazer efeito. Ele parecia confuso e não muito estável. Quando disse que não se sentia bem, acabei gargalhando. Isso chamou um pouco a atenção dele, que se desequilibrou do sofá e acabou sentando no chão, me olhando confuso. Antes que ele falasse alguma coisa, era meu momento. Dei um soco em sua boca e ele ficou sem entender nada. O sangue escorrendo. Me empolguei e acabei dando socos até ele apagar. Acho que fui mais rápido que o que ele tomou. Com ele apagado, começaria a diversão. Consegui arrasta-lo até a cadeira mais próxima e o coloquei sentado com um pouco de dificuldade. Era incrível como seu corpo estava pesado. Ele estava sentado torto, mas consegui amarra-lo. O despi antes disso. Resolvi amordaça-lo também. Nada como um bom monótono. Ele não tinha o que dizer. Bom, eu não sabia em que momento ele acordaria, resolvi ligar o rádio que ficava na cozinha. Caralho, quando começou a tocar Welcome To The 60's do John Travolta, cresceu em mim um ânimo maior ainda. Eu não podia esperar. Enchi dois baldes de água fria. E joguei um de cada vez no meu querido dorminhoco. Ele acordou, sobressaltado. Eu fiquei falante:
- Sabe, quando te perguntei do dia mais importante da sua vida, eu pensei no meu. Sabe qual foi? - Eu disse isso enquanto tirava minha camiseta. - Bom, você não pode responder, mas eu posso. Foi aos meus onze anos. Quando finalmente o menino que eu era apaixonado me notou. Mesmo que fosse só de uma forma sexual. Ele me notou! Era tudo que eu precisava. Sabe o que ficou de lembrança de ter sido notado? - Mostrei pra ele as marcas que tinha pelo menos pelas costas, da coça que levei. As piores eram nas pernas e eu não estava pronto pra mostrar. Era divertido ver a cara dele, o olhar preocupado e arregalado. - Bom, eu não preciso dizer muita coisa, não é mesmo? Não mais. Pode não ter me reconhecido nem nas fotos embaçadas, nem muito menos pessoalmente. - Ri e apontei pra máscara- Eu nunca fui importante. Porra, realmente não lembrava meu sobrenome? Augusto Miller deveria ser um nome importante pra você. Só que quem bate, esquece. Quem apanha, nunca. -
Interrompi minha fala e peguei a maior faca que encontrei na cozinha. Nessas horas nunca fui tão feliz de colecionar esse tipo de coisa. Quando voltei, olhei pra ele e disse:
- John Travolta era seu cantor favorito. Ironicamente, é o meu também. Vamos nos divertir ao som de You Set My Dreams To Music? - Ele balançava a cabeça negativamente sem parar, e chorava copiosamente. E eu continuei: - Que falta de educação a sua, negando diversão. - Fui esfregando minha faca pelo seu corpo. Até chegar em seu pênis. - Cresceu bastante desde a última vez que coloquei a boca aqui, ein? - Deslizei a faca pelo seu membro, até que sem cerimônias, arranquei. Ele fazia uns barulhos divertidos, devido sua boca estar tampada. O desespero nele me dava satisfação. Bom, o que eu vou fazer a seguir não era plano, mas eu te digo, por que não? Tirei a mordaça dele. E ele só dizia “me perdoa, me perdoa, a gente precisa conversar” e eu só dei um soco em seu nariz e em seguida soquei seu membro em sua boca. E fui breve: - Mastiga ou eu te mato agora. - Ele engasgou e tentou pronunciar algumas palavras. Desocupei a boca dele pra escutar. Simplesmente disse que não faria, pois morreria da mesma forma. Senti ira. Coloquei a mordaça de volta e disse: - Você cometeu um grande erro. Morrer é uma realidade, mas já pensou o quanto isso pode ser demorado? - Fui de volta à cozinha e arranjei um alicate. Resolvi que seria divertido arrancar todas as suas unhas com aquilo. Eu fiz. Também havia buscado ácido, joguei em seu rosto. Ficou atraente até deformado. Divertido. Aquilo estava me cansando. Eu não tinha uma arma, como o mataria? Bom, eu sempre gostei de saunas. Escaldado parecia certo. Eu o deixei sozinho pela última vez e fui preparar seu banho.


~Perspectiva do Senhor G~


Quando me desequilibrei e cai do sofá, eu não imaginava o soco que ganharia. Eu já estava fraco, isso fez com que eu apagasse. Tudo era tão escuro, tão intensamente escuro. Eu não sei quanto tempo se passou. Só sei que eu acordei molhado. Desesperado. Ouvindo meu cantor favorito. E bem, isso não me acalmou. Tudo que Miller dizia, parecia distante. Tudo parecia distante até finalmente começar a ser torturado. Apesar da dor, do desespero, de chorar e toda essa reação humana, eu me desliguei. Senti que saí do meu corpo. Não tinha mais esperanças pra mim. O ponto final foi quando ele tentou fazer com que eu mastigasse meu órgão. Dali em diante, aceitei meu destino. Tudo que aconteceu depois, parecia cada vez mais distante e só me lembro de ouvir a água escorrer. Aquele maldito barulho de água que seria o meu fim. Quando ele me buscou pra me arrastar ao banheiro, me deu vontade de rir. Ele sempre foi tão fraco fisicamente e veja, eu não tenho forças psicológicas pra lutar. Eu aceitei. Só é divertido que ele continua com o mesmo tipo físico, só que emagreceu bruscamente. E as feições, cara, eu realmente não consigo associar ele aquela criança de onze anos que ele um dia foi.
Eu interrompi meu pensamento com aquela sensação de ardor, ardor, ardor. Sufocamento, sufocamento, sufocamento.
Em algum momento, eu não era mais eu. Eu simplesmente parei de existir. E isso deu final aquele ciclo. Aquele maldito ciclo.


~ Fim da perspectiva do Senhor G~


E apesar daquele sofrimento físico, Senhor G foi em paz. Toda a culpa voltou quando Miller se revelou pela primeira vez. Ele achava que merecia aquilo.
Miller não se sentiu realizado como gostaria. Tirou sua máscara e bebeu duas garrafas de água sanitária e isso funcionou para que seu suicídio funcionasse. A única coisa que Miller pensava enquanto apagava, é que se existisse um outro lado, ele realmente queria encontrar Senhor G lá. Já que não terminou satisfeito em vida, quem sabe na morte ache as soluções que tanto procurava?
Esperança boba a de Miller. O inferno é aqui. Não do lado de lá.

Autora: Mars Anjos

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John, por quê?

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O sol passava pela fresta da janela, o que me fez acordar. Estava um dia lindo, meio incomum em um sábado de manhã, e ouvia tudo alegre e contente. Sai da cama, e calcei as pantufas. Sai do meu quarto e percebo que meus pais ainda estavam dormindo, logo, fui o primeiro a acordar. Servi meu leite e me acomodei na poltrona da sala, e passei por vários canais, até achar o Telecine.

O dia estava normal e dentro da rotina, até a campainha tocar... Ninguém deveria estar aqui, somente meu amigo. Eu tinha combinado com ele que iriamos jogar algo favorável pra nós, mas não combinamos nesse horário. Ok, vi no olho mágico, e era... Ninguém?! Deveria ser um trote, mas quando abri a porta, tinha uma carta dizendo no verso: Para Dave. Era para mim a carta. Imaginei que John não poderia vir hoje, e mandou uma carta para mim. Por que ele não utilizou o e-mail, penso comigo mesmo, mas já que estamos aqui, era hora de ver o que tinha ali dentro.

Dentro da carta tinha 3 itens: Uma carta, um pendrive e uma chave. Eu já identificava a chave, e era da casa dele. O que significava todas as coisas que ele me mandou? Só me bastava ler a carta, e depois ver o pendrive.

É triste ver a vida com outros olhos, como se eu não fosse o único a saber disso. Tenho que admitir, ser assombrado pelo passado me faz lembrar de várias coisas, como aquela música: Are you lost in the world like me? Eu me sinto assim, perdido no maior desastre humano: ele mesmo. É complicado explicar, mas eu já era rejeitado, humilhado, pobre na riqueza, pobre no amor... Vocês são meus melhores amigos, e você entende perfeitamente não é?

Você e a... Faca... A faca me ajudou nesses problemas.

Quando eu estava com raiva, vocês dois estavam lá. Quando eu perdi meu pai, vocês dois estavam lá. E eu entendo agora que a vida não é doce, e sim um amargo gostoso, delicioso, suculento... Eu queria me despedir, mas é tarde agora... Estou em mudanças na minha vida, e vou embora junto com minha mãe e o restante dos meus padrastos. Estou indo para um lugar onde todos vão, ou querem ir um dia, Paris talvez? Você vai descobrir Dave. Veja o pendrive, e te mostrarei o lugar mais lindo que existe.

Ass: John


Lágrimas caíram do meu rosto, molhando o papel de caderno. Estou até vendo a imagem na minha cabeça: John indo embora, e eu correndo atrás do carro dele. Fico feliz por ele ter ido para um lugar que ambos gostam.

Mas por que ele citou uma faca como melhor amigo dele? Isso só podia ser.... Um suicídio? Peguei rápido o pendrive e coloquei no computador do meu pai. Acessei os arquivos e tinhas duas coisas nele, um bloco de notas e um PowerPoint... Cliquei no bloco de notas e tinha uma mensagem: Ele vai nos receber. Quem? Quem vai receber eles? Cliquei no PowerPoint, e a mensagem foi explicada rapidamente. Tinha uma gif de caixinha de música em todos os slides, menos uma, que tinha uma imagem de Deus crucificado. Percebi na hora o que aconteceu e peguei a chaves da casa dele e peguei a bicicleta. Eu nunca pedalei tanto naquela bicicleta.

Cheguei em sua casa, e logo destranquei a porta. Sai correndo em seu quarto, e um cadáver caiu na minha cabeça. E tinha mais dois, e mais 3, tinha muitos cadáveres e o pequeno elevador do seu quarto tinha despencado. Poças de sangue para todos os lados, e corpos gelados estavam vazando sangue. John, por que? Por que tudo isso? E quando eu ouvi um barulhinho de roer os dentes, tremeu minha espinha. Era o elevador que subia. Quando chegou no quarto, tinha um fita, daquelas fita cassete, bem antiga. Ainda bem que seu quarto tinha um aparelho que reconhecia a fita, então eu botei-a.

No vídeo tinha apenas ele... Enforcado... No porão...

Eu vi aquilo e comecei a chorar. Chorar de medo e de tristeza. Acabei me dando conta de uma coisa. Se John estava morto enforcado, quem mandou esse fita? Eu gritei de pavor. Tinha mais alguém lá, mas quem seria? Ignorei esse fato e corri para longe da casa. Agora com medo daquela experiência, nunca mais fui o mesmo. Me sentia perturbado... Me sentia desconfortável. Tentava ligar para a polícia mas a ligação dizia que esse número não existia. O que tinha de errado? Meus pais chegaram preocupados me perguntando o motivo daquela perturbação... Eu expliquei e foram falar com os policiais pessoalmente.

Os policiais disseram que foi mais um caso sem solução. Não tinham suspeitos, nem a mim mesmo me suspeitaram. Ainda bem, pensei. Mas tinha mais alguma coisa me incomodando: Quem é o tal assassino? Pedi pra rever a fita, e eu tomei o maior cuidado com o olhar. E eu vi o assassino. Era um vulto preto. Apenas um vulto. Disseram que iam transferir o vídeo para DVD.

Demorou a noite inteira para eles voltarem com a imagem do homem, mas ele chegaram. A foto mostrava um sorriso maligno, com olhos extremamente vermelhos, e o rosto... Parecia o próprio John. Era o próprio John!

Autor: Miguel Velasque Laroque

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O nosso amor virou chocolate

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É verdade mesmo. Meu marido Tom e eu somos os melhores que já existiram na terra, os melhores em amar, os melhores em tudo. Nossa família causa inveja por onde passamos. Minha única filha de 8 anos, Cherry, é o nosso pilar em casa. Ver ela nos anima para que possamos trabalhar mesmo que exaustos. Mais perfeitos que nós, não existiram e nem irão existir na face deste continente.

Trabalhamos como sócios em uma empresa de Hidráulica. Fabricamos máquinas, e várias outras coisas para vendermos a empresas grandes depois. O que mais faz sucesso são nossas prensas, que estouraram as vendas e nosso orçamento ficou entre bilhões de reais. Por isto éramos ricos. Tom era um homem que apenas tratava de negócios dentro do escritório, então nada de amor ou sexo as escondidas como fazíamos antigamente.

Eu ia embora mais cedo. Ordens de Tom, para que eu cuidasse da nossa filhotinha. Ele chegava algumas horas depois que eu, sabe. Mas entendia que era trabalho, não se discute este termo. Mesmo que este trabalho se chamasse Hortênsia, a secretária dele. Sabia que ele estava me traindo com ela desde que ela começou a trabalhar para ele. Veja bem: magra, loira e possuía seus 23 anos. Quanto a mim, a mesma coisa, só que mais velha.

Eu amava minha família. Deixei que ele me tirasse a honra para que continuássemos estruturados. Meu foco principal era transar como ele queria, e ser uma boa mãe para Cherry. Eu servia apenas para isto, acho. Ele dizia que eu era seu "deposito de esperma". Hortênsia era sua princesa que não usava coroa e não era rica. Faltava pouco para Cherry e eu darmos espaço para Hortênsia na nossa mansão.

Acreditava eu, que Tom não iria querer expulsar Cherry de casa, mas a mim sim. Pelo os boatos rolantes pelos funcionários da nossa empresa, Hortênsia não pode gerar filhos e é encantada por menininhas. Mas se era isto que Tom pretendia, não iria tirar de mim minha maior riqueza. Cherry logo estava a par de tudo. Ciente de que eu não seria mais sua mãe, e sim Hortênsia, por conta dos filhos linguarudos dos nossos funcionários. Desde então ela estava fria com Tom e o lembrava que Hortênsia era nova demais para ele.

Juntei todos os funcionários fofoqueiros e os mandei para a rua. Ninguém iria destruir minha familia perfeita, claro que não. Eu não me casei aos 16 anos desesperada por uma família, para que quando chegasse aos 30 não pudesse mante-la estruturada. Jamais, meu caro. Ficamos com 80% dos funcionários, para que tenha uma noção de quantos invejosos trabalhavam para nós. Depois de minha decisão tudo voltou ao normal, exceto Cherry, que ainda não estava convencida. Não seria fácil a manter crente de que tudo era mentira. Não estava sendo fácil nem para mim.

Quando Tom sumiu a polícia me fez questionários para darem início para as investigações. Ainda afim de manter em pé minha família, apenas mencionei o adultério dele com Hortênsia. O resto guardei para mim mesma. O que fizeram foi investigar o álibi de Hortênsia, que estava incrivelmente melhor que o meu. O que me salvou da faixa etária denominada homicídio, foi Cherry. Ela afirmou para a polícia que eu estive cuidando dela o tempo todo. O que faria sem minha princesa, numa situação destas. Deram fim nas investigações e tudo "voltou ao normal". Quando na realidade eu sabia que fim Tom levou.

Hortênsia não tinha culpa de nada. Nem eu. Mas meu subconsciente sim, droga. Algumas semanas atrás eu desapaguei Tom quando tentava transar comigo a força. Foi legítima defesa, eu juro. Depois o arrastei até a nossa empresa e o esmaguei em uma das prensas hidráulicas. Descartei o corpo no terreno dos fundos da empresa, e apenas salvei algumas partes do corpo dele.
Fiz chocolate com elas, e depois as dei para Hortênsia. Eu não sabia que para manter a minha família de pé precisaria fabricar chocolates com meu próprio esposo. Não me arrependo, mesmo que hoje Cherry sinta falta dele e Hortênsia cometeu suicídio. Aquela o amava de verdade. Hoje sou dona de uma fábrica de chocolates.

Minha fábrica vem conquistando mais sucesso, está cada vez mais fácil atrair novos ingredientes humanos para mim. Quanto a Cherry, ela é uma criancinha feliz com meu novo marido, Carl. Ele sabe dos meus planos.

Hoje, quando o vi cumprimentando a irmã mais nova de Hortênsia, o chamei e sussurrei em seu ouvido:

"O nosso amor pode virar chocolate, e você sabe muito bem disto."

Autor: Mirela Colesnic

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Você fica ainda mais bonita em silêncio

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De fato não consigo parar de falar, já fazia muitos anos que queria ter oportunidade de dizer as coisas que eu sinto. Desde quando nós éramos adolescentes, não sei se lembra no período do colégio quando você dizia que nós dois nunca nos separaremos. Foi o momento mais feliz em toda minha vida quando imaginei isso sendo verdade, mas na fase adolescente conheceu os garotos populares e eles também reparam a sua beleza. Passou alguns dias até que foi me esquecendo e se tornou tão repugnante quanto aqueles babacas, ao caçoar de mim junto com eles.

Minha intenção não é assustar-lhe com essas baboseiras que estou falando, acho que estou começando com o pé esquerdo. Não imagina o espanto quando eu vi você aparecendo aqui, chegando de surpresa e fiquei triste com tudo o que havia acontecido, porém, feliz por saber que você seria 100% minha... em um momento tão ruim na vida de todos, principalmente de quem o ama. Posso parecer tão ordinário quanto aqueles caras que dormiram com você, por aproveitar-me desse momento indelicado e compartilhar instantes de prazer entre nós dois; confesso que foi a primeira vez e nunca imaginei que seria com a garota que eu sempre amei.

Não precisa falar nada, deixei eu pentear os seus cabelos tão negros quanto à noite. Creio que nunca disse isso, contudo você fica ainda mais radiante quando apenas ouve e não diz uma frase nos seus lábios carnudos. Sabe? Com certeza não percebeu... Aquele admirador secreto que todas as semanas escrevia poesias e coloca embaixo da sua porta, sou eu! Sempre observei nas redes sociais você compartilhando os meus rabiscos apaixonados, e eu sentia que ficava feliz. Não imagina às noites que eu passo pensando em nós dois e os sentimentos que estão em cada palavra daqueles bilhetes. Pode estar se perguntando: como eu nunca tive coragem de dizer essas coisas pessoalmente. A resposta é simples: deve lembrar da última vez quando você pediu para eu me afastar, e o seu namorado acertou-me com um soco no meu nariz, gargalhando com os outros babacas e me chamando de paspalhão.

Não deve ficar assustada. Olha só como você está pálida. Não sou um cara frio sabendo que ele morreu naquele acidente de carro, imagino como deve ser para você perder alguém tão querido na sua vida. Vocês namoram desde o colégio, e ele sempre te tratou como se fosse qualquer outra; um objeto descartável, e você tentando cada momento, em que ele estava bêbado e se gabando das outras garotas, o agradar. Sei que Gabriel nunca se aproveitou o suficiente de tudo que passou com você. Tudo bem que ninguém pode controlar o coração, ainda mais quando estava junto com o cara mais bonito da escola e que continuou com a mesma aparência típica de um galã do cinema: carismático, forte, alto e atraente.

Mais tarde vai ser uma ocasião especial e irá estar tão bonita quanto sempre foi. Encontra-se apenas com alguns machucados no corpo e fraturas, eu irei cuidar do seu belo corpo. Não percebeu? Eu não me importei com a maneira que você chegou aqui, pois nós compartilhamos cada segundo ardente de amor e não lhe julguei por isso. Não sabe o quanto foi para mim esses momentos e o tempo que eu esperei. Só sei que eu vou cuidar de você em cada minuto que ainda resta e vai estar tão majestosa quanto o sol juvenil de uma manhã qualquer.

Noite passada... Eu não queria dizer isso, não obstante; no momento em que nós nos encontramos, preciso contar e desabafar! Eu fui responsável por sabotar os freios do carro do seu falecido namorado. Naquela noite observei o quanto você estava sofrendo e preocupada com ele, mas não imaginei, em momento algum, que você seria tão idiota de entrar naquele veículo, ainda mais imaginando que ele sairia em alta velocidade em uma corrida entre babacas drogados.

Acho que isso não importa mais, eu preciso-lhe preparar para o seu velório. Nem imagina o quanto fica ainda mais atraente quando está em silêncio...

Autor: Sinistro

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Akai Ito, Uma História Sobre o Fio da Vida

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Oi, meu nome é João, e eu nasci com um dom, tipo um "super poder". Não, eu não sei voar, ficar invisível, nada do tipo. É algo bem mais singular: eu vejo um fio vermelho, vários fios vermelhos. Eles ficam amarrados com um belo laço nos pescoços das pessos, e levam até o pescoço de outra pessoa, onde está amarrada a outra ponta.

Quando eu era pequeno, costumava ignorar, já que achava que era normal e que todo mundo podia ver. Descobri que estava errado aos meus 5 anos, quando questionei meu pai o porquê de ele não ter um fio em seu pescoço. Não, não era todo mundo que tinha. Ele reagiu com espanto a principio, mas depois que tentei explicar, ele fez um carinho em minha cabeça e riu, como quem ri discretamente de uma piada boba.

Nos dias seguintes, passei a questionar mais pessoas sobre isso. Tios, amigos da escola, minha mãe. As reações eram mistas, mas nunca positivas. Risada, desdém, indiferença, era o tipo de coisa que acontecia após tentar falar sobre os fios. Decidi deixar pra lá antes que eu virasse motivo de piada.

Aprendi a ignorar completamente a existência daqueles fios por bastante tempo. Mas alguns anos depois, com o advento da Internet e a facilidade de encontrar informação e pessoas que passem pelos mesmos traumas que os seus, a curiosidade veio à tona novamente e decidi pesquisar sobre os misteriosos fios vermelhos. Para minha surpresa, descobri uma lenda chinesa extremamente difundida pelo mundo chamada Akai Ito. Basicamente, a lenda falava que os deuses ligavam as pessoas que estavam destinadas a serem o amor da vida um do outro por uma grande linha vermelha invisível.

Ok. Gostei.

Mas a partir daí, começou a minha paranóia de reparar aonde ia cada um dos fios. A começar pelo meu pai, que não tinha um. Se a lenda fosse verdade, minha mãe não era o amor da vida dele e, na verdade, ele sequer tinha um. Mas tinha mãe tinha, e o fio ia tão longe que se perdia de vista. Óbvio que ela não era a única com esse problema. Haviam incontáveis pessoas com seus fios indo em direção ao horizonte longínquo.

Passei a anotar e analisar melhor, então percebi que, na verdade, a grande maioria das pessoas NÃO tinha um fio. Ah! Eu também não tinha, a propósito.
Pensei muito sobre como isso era triste. Quer dizer então, que para grande parte das pessoas, por mais que encontrassem alguém com quem ficar, não existia uma com quem ela seria plenamente feliz. Profundo... e triste. Mas eu achava que ainda mais triste que esses, eram aqueles que estava com alguém, mas com o fio ligado a outra pessoa, e o pior é que esses eram praticamente todos. Até os meus 14 anos, eu devia ter visto um ou dois casais com o fio ligado um ao outro, e um deles eram meus tios Miguel e Bianca. Isso era na verdade bem estranho pois sempre rolava na família boatos que minha tia apanhava do meu tio, mas ela negava isso piamente ao ser questionada.

Comecei a pensar o que a essa altura você que está lendo já tem certeza: essa história de amor da vida está com furos demais. Poucos dias depois, presenciei o que me faria ter certeza que a lenda chinesa era balela. Em uma ida ao centro da cidade, passei por um homem que tinha o fio no pescoço, mas do laço saíam umas 5 ou 6 outras linhas, em várias direções diferentes.
Fala sério, se eu tinha certeza de uma coisa, era que você não podia ter 5 amores da sua vida.

Por mais 3 anos, decidi esquecer essa história dos fios, tentar ser uma pessoa normal. Teria dado certo se não fosse o fatídico dia. O dia em que foi noticiado à nossa família que meu tio Miguel havia sido preso após matar à facadas a tia Bianca.

Os dias seguintes foram longos, pois não conseguia parar de pensar na relação dos fios com o acontecido. Precisava me acalmar e encontrar paz para colocar minha cabeça no lugar antes de qualquer coisa. Fui ao cinema sozinho numa noite de quarta-feira para assistir um bom filme de comédia, era o que eu precisava para me aliviar. Realmente funcionou.

O Shopping fica perto da minha casa, então eu voltei a pé mesmo. Eram por volta das 23:00 quando ao chegar na porta de casa, olhei para a esquina e vi uma moça também em sua porta, procurando a chave na bolsa para entrar em casa enquanto um homem se aproximava vagarosamente de suas costas com uma faca. Seus pescoços estavam ligados pela linha vermelha. Para minha quebra de expectativa, ao anunciar o assalto, o homem foi atingido por 3 disparos feitos pela mulher, que havia sacado rapidamente uma arma de sua bolsa ao ser abordada.
Ela rapidamente ligou para a polícia e, ao ver que eu tinha presenciado o ocorrido, veio até mim pedir ajuda pois precisaria de um álibi que confirmasse sua ação em legítima defesa. Enquanto ela falava, meus olhos estavam vidrados na linha em seu pescoço que ia se desfazendo aos poucos.

Não sabia o que fazer, pra ser honesto. Talvez eu fosse mesmo louco, e se eu contasse para alguém seria internado em um manicômio.
Decidi ficar trancado em casa alguns dias. Ver as pessoas com os fios não me faria bem. Evitei até mesmo minha mãe.

Mas hoje de manhã ao acordar, levantei para ir ao banheiro escovar os dentes ainda meio sonolento. Dei um salto para trás ao me olhar no espelho e ver que tinha aparecido um lindo lacinho vermelho em meu pescoço. Tremi. Chorei.
Depois de meia hora consegui me recompor, então fui até a porta da rua seguindo o meu fio. Fiz isso apenas para ver algo que deixaria minhas pernas bambas: meu fio entrando na casa do outro lado da rua.

Na frente da casa, estavam meus pais conversando com o vizinho dono da casa, era o senhor Queiroz, marido da dona Pires. Estavam parabenizando ele por algo.
Aproximei-me deles, suando frio, então minha mãe disse que eu o parabenizasse também pois 'havia dado tudo certo'. Eu estava no piloto automático, então obedeci e o felicitei sem saber exatamente pelo quê e olhando fixamente para dentro da casa que estava de porta aberta.
"Você quer vê-lo? Pode ir!", disse o senhor Queiroz. Olhei para ele com um olhar vidrado rapidamente e depois me virei para dentro da casa de novo. Sem responder nada, fui entrando na casa vagarosamente, sem sentir as pernas, com um misto de angústia, medo e curiosidade. O fio vermelha subia a escada então foi o que fiz. Ela devia ter uns 20 degraus, mas pareciam ter milhões e milhões. Depois do que pareceu um século, cheguei na porta de um quarto que tinha uma placa na porta escrito "AQUI DORME UM PRÍNCIPE".

Ao entrar naquele quarto, vi até onde meu fio levava. Levava até dentro de um berço que a dona Pires estava balançando.

Ela estava grávida há um tempo, lembrei finalmente. E dentro daquele berço, havia um lindo bebê com um laço vermelho no pescoço.

Autor: Lucas Queiroz

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A salvação do nada

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Qualquer gasto de energia tentando entender a filosofia do que estou fazendo aqui é em vão.

Em resumo, as anormalidades deste lugar zombam de minha lucidez em tom sarcástico, enquanto convivo com elas dia e noite. Há tempo as barreiras da loucura, do impossível e do tédio foram ultrapassadas nesse inesperado capitulo da minha existência. Deixe-me soar um pouco poético, provar a minha humanidade á quem quer que esteja lendo é o que me trará forças antes de eu começar a rabiscar as últimas folhas deste caderno que se perderá comigo, aqui neste amargo deserto inóspito, onde nenhum, ou pouquíssimos seres humanos pisaram.

Como eu vim parar aqui não é nada novo, chega a ser um clichê. Acabei me separando por ‘’alguns minutos’’ da minha trilha de amigos para tirar fotos de um ângulo diferente do pôr do sol, acabei me empolgando e ficando tempo demais, e ao me dar conta, o caminho já não era mais o mesmo. Ou melhor, todos os caminhos agora eram os mesmos.

Você pode ter uma idéia do quão fácil é se perder em tais trilhas invisíveis, principalmente quando as próprias têm de serem imaginadas; sendo referenciadas por pontos subjetivos que aguçam o consciente e despertam a atenção e a ansiedade, iludindo sorrateiramente a minha vaga mente débil e prometendo ao meu coração que eu não vou me perder, pois daquela grande palmeira coberta por grossos cascos secos de madeira eu não esqueceria. Não esqueceria.

Me tentando a correr o risco de ser mais ousado, buscava aventura, e encontrei nada menos que desespero e aflição.

Estaria indo totalmente contra a verdade se dissesse que creio Eu estar cem por cento em vida, por mais que possa me sentir em carne e osso, e sentir também lampejos latejantes de dor e cansaço entre tropeços e caminhadas, junto a mais mortal de todas as curas me acompanhando: à esperança, não acredito que eu esteja no mesmo plano terrestre em que me encontrava no que agora eu chamo de... minha vida passada. Porém, se à esperança fosse tirada de mim no momento em que percebi que de fato estava perdido, com certeza eu já teria me entregado a loucura de braços abertos e não sentiria um segundo sequer do tempo passando aqui. Porém eu sinto. Venho sentindo os demônios da lucidez sensorial do tempo há vinte e três anos neste maldito lugar.

Sinto que reencarnei no limbo, de corpo e alma. Mas uma pergunta vem martelando a minha cabeça desde o dia em que notei o quão errado estava todas as coisas em meio a este cenário tão absurdamente pacifico que me encontro. Três madrugadas sem uma gota de água, caminhando quilômetros e não sentia sede, muito menos fome, como quem num susto corajoso empurra o encosto da cadeira, eu me deixei enforcar com tal dúvida: Seria tão injusto eu vir a falecer sem poder ter certeza, que eu de fato morri?

Não quero causar confusões na cabeça de quem está lendo. Por mais que você não tenha idéia da confusão que estou vivendo ha 23 anos nesse mesmo lugar, sem água, sem comida, sem qualquer mudança além do sol e da noite enjoadamente indo e vindo. Imagino que em toda a existência da humanidade, eu não seja o único que tenha vindo parar aqui... imagino.

Não há contornos de montanhas verdes no horizonte, apenas um grande paredão azul fraco de dia e preto á noite armado pelo céu, sem nuvens, em uma terra arenosa, plana, que segue até onde os confins da mente, pelo menos não a minha, possa imaginar. A areia tem seu tom amarelado, com um tom sujo, assemelha-se a mijo escapado da bexiga de um cadáver pútrido. As noites não são frias tampouco o sol é quente, o clima é artificial, de uma forma que em momento algum me traz o agrado de uma boa tarde ensolarada, ou uma plena noite morna.

Notei que o céu não tem estrelas, não queria ter notado isso. A luz do sol é fortíssima, venho tentando a muitos anos de minha estadia aqui ao menos vê-lo em seu grande e acolhedor formato redondo, por mais de dois segundos que seja, mas digo que é impossível para estes olhos humanos. Não há animais, nem insetos, nunca avistei formigas ou percevejos, mal consigo me forçar a imaginar a imagem de pássaros no céu.

Um fato sobre estar aqui há tanto tempo, é que quando você passa anos sem dar-se ao luxo de ver certas coisas, como por exemplo: animais e prédios e um prato cheio de comida, você começa a apagá-las aos poucos da sua memória consciente. Sua mente vira uma desordem total, houve momentos em que fiz bagunças comigo mesmo das mais horrendas e pavorosas apenas lutando contra a agonia de não lembrar nenhuma das cores que contornavam as letras do Google. Coisas cotidianas do passado. Simples, tão distantes. O caos do nada pode ser desesperador. Mas no final, esta tudo sempre na memória, por mais que ás vezes eu demore alguns anos para relembrar. Os cheiros de tudo que não habitam este local eu me já esqueci por completo, mas este foi fácil de acostumar. Fácil... Por favor socorro.

As dunas que encorpam este deserto são monstruosas. Gigantes. Lisas e escorregadias, não há buracos no chão, mas ás vezes acabo por afundar o pé por completo na fina areia das partes íngremes nas tais subidas das dunas enquanto as transito.

Uma paranóia grotesca começou a vir em flashes na minha cabeça há pouco tempo, talvez para substituir os sonhos e pesadelos que não tenho, e é sempre nos vagos momentos aleatórios em que meu pé é sugado pela areia, enquanto migro escalando arduamente pelas dunas inclinadas. A imagem de eu marchando em escalada pesadamente por estas colinas de areia amarela, enquanto meu peito infla para frente e para trás como um lutador no ringue, meu pé mais uma vez sendo afundando para dentro da areia, porém desta vez sem ir de encontro com a parte solida deste chão arenoso. O peso do meu corpo é depositado no pisar em falso me sugando com a força da gravidade em direção ao vácuo, a escuridão, um eterno cair sem fim no infinito do vazio eterno. Sendo absorvido pela terra, para o lugar de retorno de toda alma antes de se confinar no útero.

Bom. Esta é minha última folha deste pequeno caderno escolar, no dia em que me perdera na trilha para cá parecia tão indiferente, sem importância. Agora é basicamente o meu tudo, e este é o fim do seu ciclo. Talvez tudo seja isto, não é mesmo? Ciclos, fins e começos. Uma idéia de que o começo de algo grandioso possa vir a acontecer agora (momento em que estou nas partidas finais de terminar o meu ciclo com este caderno, minhas escrituras) esta mais forte do que nunca. Quem sabe se eu não tivesse terminado no meu primeiro ano neste inferno eu já não teria saído daqui, não?

Mas minha saída esta muito próxima e eu conto a vocês por que.

Enquanto eu vagava tediosamente em passos rotineiros e cansativos pela areia deste cárcere, notei algo inédito; a areia abaixo de meus pés ficou mais sólida, quase como pisar em barro seco, o pisar que antes era rastejante e solto, escorrendo como um rio arenoso entre meus dedos do pé não era mais o mesmo.

Parei de imediato ao notar isso, meu coração acelerou-se, fui de encontro ao chão e comecei a tatear, jogando chumaços de areia seca e solta para os quatro cantos. Algo estava errado, a Loucura acabava de escorregar comigo em seus braços, e esta era minha chance. Tinha de ser. Procurei ligar a minha mente, tira-la do automático e reparar ao meu redor. Era uma tarefa difícil de fazer, levando em conta que tudo continuava tão igual há tantos anos; menos o chão. Agora sentia que meu pisar era outro, meus ossos estavam acostumados á um tipo de areia por anos a finco e esta definitivamente não era a que meus pés comungaram um pacto. Podia ser apenas uma esperança vã, que me empurraria precipício abaixo e mataria qualquer sobra da minha sanidade por completo se não tivesse qualquer significado, mas eu tinha que tentar, precisava encontrar algo nessa quebra de padrão. Meu coração batia cada vez mais rápido. Tentei notar meras mudanças, mas não havia nada. Maldição.

Notei uma grande duna há alguns quilômetros de distancia à minha frente, e com uma grande puxada de ar e um olhar desafiador tornei a correr em sua direção, alguns minutos depois, estava subindo-a. Minhas canelas ardiam, meus pés já haviam se acostumado com a dor, mas a pressão nos ossos era inevitável. Era uma subida difícil, e eu sentia como se a própria duna debochasse dos meus esforços em busca de algo em meio ao nada. Porém, chegando ao topo, lá estava!

Não acreditei.

Peço perdão, pois agora realmente minhas linhas estão nas suas retas finais. Mas preciso contar para quem quer que seja o que eu encontrei. E espero que se você se encontra na mesma situação que eu, não enlouqueça... apenas caminhe. Estou aqui há vinte anos, e o que eu encontrei pode ser minha saída desse lugar. Já na descida da duna, na parte plana, agora havia uma pequena portinhola de madeira no meio do deserto...

Me encontro ao lado dela no momento, e há poucos minutos atrás quando avistei, estava em plena felicidade, infelizmente não há espaço para transcrever o que senti ao avistar meu caminho para a liberdade, minha salvação. Porém, agora, ao me aproximar estou receoso. Muito receoso, pois vejam só, quando estava prestes a puxar a maçaneta enferrujada para abri-la, em algum lugar... lá embaixo, ouvi um grito. Rapidamente tirei a mão da maçaneta, e com um instinto de curiosidade gritei novamente para quem quer que tenha me gritado lá de baixo, porém... outro grito surgiu em um crescente notável desespero, muito diferente do primeiro, gritei mais uma vez e três novos gritos surgiram de repente. Aos poucos novos gritos em diferentes tons foram entrando em sintonia lá abaixo da portinhola, um maldito coral desesperado implora por mim lá embaixo, como se eu fosse Deus, uma salvação ou algo do tipo, e eu do fundo do meu coração não sei o que faz...

Autor: Guilherme Bueno

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Acerto de Contas

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A única coisa que eu desejo nessa noite é terminar essa semana e passar dois dias com a minha família. A minha menina mais velha, Emma, está grávida do seu noivo, e a minha garota de dez anos tirou nota alta na prova de matemática; minha esposa, Emily, falou que essa noite ia fazer a minha comida predileta. Antes de mais nada, fui ao banheiro tomar um banho e, quando estava saindo, notei que as luzes estavam apagadas. Quando caminhava para as escadas, uma sombra, com uma touca cobrindo o rosto, empurrou-me de escada abaixo, e eu apaguei...

A queda acertou a minha cabeça e deixou-me em coma. Fiquei alguns meses deitado naquele hospital, recebendo a visita do meu irmão mais novo, este que havia saído da prisão por conta de uma briga em um bar e me disse tudo de uma só vez. Segundo meu mano, três caras entraram na minha casa para roubar, mas não encontraram nada e mataram todos para que ninguém soubesse, a polícia foi chamada e conseguiram matar dois deles em um confronto de carro. O sobrevivente alegou que estava sendo obrigado. Precisou de um advogado bom, a ficha limpa e um emprego estável para conseguir sair impune.

Aquelas três pessoas tiraram tudo de mim, a minha família, o meu emprego e até a minha saúde, porque ainda fiquei com sequelas daquela noite. Não dava mais para continuar e, ainda mais por cima, aceitando que um daqueles desgraçados ainda está por aí, como se nada tivesse acontecido. Chaney, o meu irmão, sabe o que eu queria fazer, ele também não deixaria barato, pois amava os meus filhos como se fossem dele. Então, disse que já estava planejando uma forma de vingar e acabar com a vida do assassino, até planejou tudo e confessou que iria fazer sozinho, mas, como eu havia saído do coma, achou que eu desejava, com as minhas próprias mãos, matar o ceifeiro da minha família.

Nós marcamos tudo para a noite de quinta-feira, de madrugada. Meu mano falou que até conseguiu um contato para se livrar do corpo depois que nós terminássemos o serviço. Suas exigências eram apenas que eu precisava ir na frente, me esconder e, de maneira alguma, começar sem a sua ajuda. Estava aguardando a sua ligação, quando meu telefone tocou, e ele disse que descobriu o endereço, falou o nome da rua e o número da casa. Quando cheguei ao endereço, aguardei escondido entre alguns arbustos.

Tava quase sentado no chão, sentindo-me ansioso, e as lembranças da minha família começaram enquanto eu observava casa: gargalhadas das minhas filhas, a minha mulher beijando o meu rosto e o cheiro de comida daquela noite ficou tudo na minha cabeça. Não suportei esperar por mais nem um minuto o meu irmão, que estava demorando. Levantei-me igual um animal selvagem e fui até a casa.

Esperava encontrar o miserável dormindo, contudo fui surpreendido com um homem, uma mulher e uma criança na sala, jogando Uno, no tapete. Eles olharam para mim ao mesmo tempo, por conta do barulho da porta sendo quebrada. O homem ainda tentou correr para pegar alguma coisa, mas eu apontei o revólver e disse que ficasse onde se encontrava. Fiquei por alguns segundos olhando em seus olhos e observando a cara da pessoa que tirou tudo o que foi meu, vendo que ele, injustamente, tinha sua própria família: uma criança que, provavelmente, tivesse a idade da minha filha mais nova, e uma mulher. A sede de vingança me deixou cego.


Amarrei o homem com as mãos presas nas costas e as pernas encostadas na parede. O meu revólver é uma arma silenciosa, atirei nos seus dois joelhos, o que lhe deixou ainda mais impossibilitado de lutar. Transformei-me em tudo aquilo que eu nunca fui, um assassino frio ao matar a mulher diante dos seus olhos, após espanca-lá várias vezes até a morte... E depois a sua filha, que matei com minhas próprias mãos, apertando o seu pescoço. Fiquei feliz vendo ele agonizando e tentando gritar enquanto estava com um pano amarrado em sua boca e chorando como uma criança assustada.

Não pareceu que durou quase uma hora que eu cheguei até esse local e terminei fazendo tudo sozinho. A culpa começou atacar a minha consciência ao imaginar que a mulher e a menina não tinham nada a ver com isso, e ele continuou com os olhos perdidos por conta do choque. Sinto que a justiça foi feita, e aquela pessoa está sentindo o que eu estou sentindo nesse momento ao saber que sua família foi morta dentro do seu próprio lar. Aproximei da sua cabeça e dei apenas um disparo de arma, dado que o desgraçado já havia sofrido o suficiente. Após o disparo, o celular tocou em meu bolso.

Era uma ligação de Chaney, provavelmente, desculpando-se por ter se atrasado, e eu já estava esperando uma desculpa esfarrapada quando atendi a ligação, sentando no sofá da casa:

-Mano? Deu merda aqui, eu tive que atrasar, pois os canas me levaram para a delegacia porque estavam suspeitando de mim. Sorte que eu não me encontrava com o revólver. Estava dando alguns depoimentos e eu estou aqui te esperando em frente à casa. Cadê você?

-Achei que você tinha desistido, não aguentei esperar por mais de dez minutos a sua chegada e entrei sozinho. Estou aqui dentro da casa daquele filho da puta.

-Que merda você está fazendo aí esse tempo todo? Eles vão te ver, está tudo suave? Irei entrar agora.

-Não se preocupe, eu cuidei de tudo. Basta apenas você se livrar dos corpos, como disse que iria fazer por nós.

-Espera... o que é que você está dizendo? "Corpos"!? Eles estão aqui, eu estou vendo a família na casa, estão na cozinha e, na verdade, é apenas aquele cara com o seu cachorro. O que é que você está falando?

- Que bobagens são essas, droga! Você disse para vir para a Rua Agamenon de Magalhães, número 306. Estou aqui e fiz a porra toda sem sua ajuda.

-Mano, o que é que você está falando? Repeti mais de uma vez: 303 e não 306. O que você fez...?

Autor: Sinistro

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Você pode tentar gritar, mas ninguém vai lhe ouvir

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O seu corpo era tão magro, escondido no vestido longo com detalhes de flores, o cabelo rosa pintado, típico da galera jovem de ultimamente fã de k-pop. A moça estava inocentemente caminhando próximo à estrada, que corta os três municípios. Era uma presa tão fácil... Quando o carro parou, uma van com a descrição de uma floricultura da cidade vizinha. Ela quase não teve tempo de fazer qualquer tipo de movimento, até ser agarrada pelo pescoço. Tentou dar tapas frágeis na mão do agressor, que pressionou um pano entre o seu nariz e a boca, sufocando-a.

O veículo estava percorrendo desajeitado em um asfalto desgastado pelo tempo. Os movimentos e pancadas para os dois lados acordaram à moça, que já estava imaginando o prenúncio. Todos sabiam das mortes e desaparecimentos das garotas, ninguém conseguia encontrar o assassino, que conseguia aterrorizar três cidades com os mesmos crimes. A coisa de sempre: maldosa e fria com pessoas tão jovens. Os olhos dela apontaram para o homem que estava vendo pelo vidro do carro, o seu sorriso maléfico queria fazer coisas vergonhosas e o medo da menina, que esfregou as cordas nos seus braços e pés sendo dilacerados pelas tiras.

Eles chegaram até um lugar, o carro bufou com seu motor explodindo pelo cano de escape e o cheiro de fumaça, que cobriu todo a região onde estava os dois. Ela já havia lutado suficiente contra os açoites, percebeu o sangue, possivelmente das outras vítimas. À porta rasgando pela ferrugem e mostrando o indivíduo observando a sua vítima. Amedrontada, tentou sacudir mais um pouco seu corpo até ser arrastada e esmagada no chão por um golpe violento, deixou escapar mais um gemido de agonia e os seus olhos haviam sido empapuçados suficientes pelo temor.

"- Vai ficar tudo bem, você não vai sentir quase nada se conseguir apagar no início das coisas que eu irei fazer na minha casa. No quarto dos fundos não dá para ouvir nada, ninguém nunca consegue perceber os gritos. A vizinhança, essas poucas casas aqui próximas, preferem ficar dentro dos seus móveis e nem observar o que se passa com as pessoas que moram perto de suas residências. Você não é a primeira e não será a última que vai saber qual é o verdadeiro horror que existe. Sua inocência será espalhada em minha língua!"

Ele arrastou a garota pelos cabelos como se fosse um animal abatido. Em nenhuma habitação ninguém mais percebeu a estranheza daquele homem com um saco movimentando-se, todos sabiam dos caçadores ganhando a vida procurando animais e comercializando a sua carne nas feiras urbes, são tempos difíceis. Então, preferiam ignorar. Atravessou à entrada, e a mulher foi jogada no meio da sala, à porta fechada por três ferrolhos, as janelas trancafiadas logo em seguida. Sobre o domínio do mal, a sua boca foi aberta para deixar escapar um grito após aquela fita extirpar algumas partes dos seus lábios delicados e rosas.

"- Você não precisa fazer isso, já matou várias garotas inocentes, eu nunca fiz mal para ninguém. Por favor, eu não quero morrer." - Ela tentou suplicar, enquanto ele pegou uma faca pequena, com o bico cortado, mas muito afiada em sua lâmina, e soltou os seus pés e mãos. A expressão do homem mudou deixando aquele sorriso maléfico de lado e apontou para à porta, dizendo que ela poderia escapar. Essa obedeceu ao comando esperançosa, levantando-se rapidamente e tentando encontrar uma saída, mas estava dentro de uma jaula de tigre. Sentindo prazer com o que estava apreciando, mais uma vez o sorriso dele voltou e as chaves estavam no seu casaco, o seu olhar dizia que ela não iria para lugar algum, no momento em que o brilho metálico foi ocultado pelo pano da sua camisa.

Aproximou-se dela com um pontapé entre os seus pés sensíveis, fazendo-a cair mais uma vez no chão e machucar os seus tornozelos. Da mesma forma que foi humilhada pela van, foi arrastada pelo braço enquanto estava se debatendo, como se fosse uma boneca de plástico indefesa. Logo chegaram até o quarto, com alguns pedaços de ossos e sangue seco. O cheiro de morte pairava por todo lugar. Mais uma vez, uma porta foi fechada nas costas do homem e os seus olhos representavam a fisionomia do Diabo em carne e osso. O maléfico trancou mais cinco cadeados exercitando e arremessou a chave no canto do quarto de plasmas.

As paredes estavam cobertas por uma borracha grossa e não existiam fugas, uma lâmpada ficava girando nos dois lados e fazendo as sombras de alguns móveis se movimentarem como se estivessem dançando. Nesse momento, ele fez questão de dizer mais uma vez que ninguém iria ouvir os dois, não tinha como escapar, nenhum grito ou pedido de socorro seria apreciado por ouvidos externos, pois, nessa parte da residência, nem mesmo um carro em seu volume no máximo seria percebido.

Ele pegou uma tesoura de costureira e anunciou que cortaria toda sua roupa para apresenciar as curvas no seu corpo nu. No entanto, naquele momento, ela começou à gargalhar loucamente como se estivesse ficado alucinada diante da situação e as vozes estridentes nos seus lábios causaram um tipo de agonia ao fazer o homem ficar com os pés enraizados e cortar o seu caminho para aquela garota deitada e indefesa no quarto.

"Está com medo? Confuso? Eu disse que iria encontrar alguma forma de vingança! Você não deve lembrar, porque eu sou mais uma..." - ela expressou suas palavras enquanto estava se levantando, os seus ossos pareciam crepitar, pela maneira que os seus braços ficaram impossivelmente alongados. Enquanto o seu corpo começou a suar e a respiração, que estava ouvindo, era sua própria aumentando na frequência dos meus batimentos cardíacos. O maléfico lembrou do rosto daquela garota: foi uma das primeiras e a que mais sofreu nas suas mãos tatuadas por vidas. As risadas eram lâminas cortantes em seus ouvidos, ao ser espalhadas pelo quarto e rasgar a mente dele, expressou mais uma vez as suas sentenças enquanto ele deixava escapar a tesoura de costureira entre os seus dedos, e os seus pés não estavam obedecendo seus comandos. Em toda sua vida, este nunca tinha sentido medo, em nenhum momento que respirou, estava vivenciando algo semelhante... com aquilo sentiu prazer.

O homem olhou para à criatura em suas órbitas oculares, roubando todo o seu sorriso maléfico que esteve por toda sua vida na boca asquerosa, a porta era à única escapatória. Nesse momento lembrou-se da sua própria armadura, as jaulas de tigresas, dado que havia cinco cadeados e a chave estava distante. A sua covardia foi direcionada para as trancas. Imediatamente, ela disse, enquanto ele mijou nas calças e já imaginando e apreciando tudo aquilo que passou para as garotas, agora estava sentindo em sua carne. Quando ela expressou o seu próprio slogan de homicida, repetindo cada palavra que ouviu:

"Você pode gritar, sofrer por várias horas, desejar à morte, ter à esperança que alguém vai lhe ajudar, mas aqui, segundo você mesmo, ninguém pode ouvir os seus pedidos de amparo. Se prepare, já que ninguém vai lhe ajudar... "

Autor: Sinistro

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