Câmaras de pedra

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A oeste da Nova Inglaterra e leste das florestas de Nova York, existem milhares de enigmáticas construções conhecidas como Câmaras de Pedra. Atraindo pouca atenção dos estudiosos, essas onipresentes estruturas parecem fazer parte da paisagem por pelo menos desde as primeiras presenças humanas na região. Apesar de apontadas pelos historiadores locais como armazéns feitos por antigos colonizadores, nunca houve qualquer evidência que aponte quem realmente as construiu, quando e por qual motivo.

Nenhuma tribo americana anunciou-se como proprietários das construções, e nenhum dado existe para comprovar qualquer especulação feita por pesquisadores que tentam comprovar suas origens. Sem artefatos, rabiscos, sem sinal de habitação, nada além de uma construção uniforme e a precisão denuncia a sua natureza artificial.

Uma pequena quantidade de lendas e curiosidades se espalharam sobre as construções em uma tentativa de preencher o vácuo de informações convincentes:


Em Maio de 1988, Frank Muelin e seu filho passaram um final de semana pescando e acampando em Fahnestock State, NY. Na segunda noite de acampamento, os dois decidiram montar a barraca próximo a uma das construções.

 Quando o Sr. Muelin acordou na manhã seguinte, seu filho, Terrance, havia desaparecido. Ele passou horas o procurando sozinho antes de finalmente contatar as autoridades. Nenhum sinal do garoto foi encontrado na área.

A única evidência descoberta deixou a polícia local desconcertada. Dentro da câmara havia uma trilha de pegadas pertencentes ao filho do Sr. Muelin. Porém, parecia que o garoto havia entrado até a metade da câmara, pois as pegadas acabavam de repente.

O que perturbou os investigadores não foi apenas o fato das pegadas não retornarem para fora da câmara, mas as grandes marcas não identificadas que ligavam o fundo da câmara para as últimas pegadas de Terrance. Uma das marcas cobria completamente o último passo do garoto. As estranhas “pegadas” nunca foram identificadas e nenhuma explicação convincente foi dada para elas. Terrance Muelin continua desaparecido.


Muitas cidades tornaram como ato ilegal a destruição ou modificação dessas câmaras. Essas leis nunca pareceram simples medidas de preservação histórica. Muitas foram mencionadas em livros, geralmente explicando que tais leis garantiam a segurança da população contra os “perigos de fora”.


Muitas pessoas já reportaram vertigem e desorientação ao passar um longo período dentro das câmaras. Alguns dizem sentir “olhos os observando” quando se afastavam da entrada.


Uma lenda originária da região próxima ao Lago Champlain, conta sobre uma mulher que usou uma das construções dentro de sua propriedade como depósito de comidas enlatadas. Em uma manhã de verão, quando ela saiu para pegar uma lata de geleia, percebeu que não conseguia sair da câmara onde havia entrado. Alguma força invisível bloqueava o seu caminho. Ela entrou em pânico e desmaiou. Quando ela acordou, percebeu que já poderia sair. Lá fora, a neve cobria o solo e sua casa havia desaparecido. E as árvores pareciam mais longas que o normal.

Quando ela desceu por um caminho arborizado, onde deveria estar a sua rua, ela viu dúzias de câmaras de pedra alinhadas no caminho. De dentro delas vinham terríveis sons de rangidos. Assustada, ela correu de volta para a câmara onde havia acordado e ficou encolhida em um canto, até desmaiar de exaustão. Ela foi encontrada pelo marido após um longo tempo. Ela perguntou por quanto tempo esteve desaparecida. Ele explicou, aliviado e confuso, que ela esteve desaparecida por dois anos, e ele planejava destruir a câmara, pois ela o lembrava de seu desaparecimento.


Nenhuma cópia do único texto sério já escrito sobre as câmaras, “Uma Análise das Câmaras de Pedra da Nova Inglaterra”, existe hoje. Apenas menções em algumas matérias históricas e uma única página em um jornal de Massachusetts foi tudo o que sobrou. Escrito por um autor anônimo em 1919, o texto “Uma Análise das Câmaras de Pedra da Nova Inglaterra” descrevia propriedades matemáticas e físicas expressas na arquitetura das câmaras, relacionadas ao “Éter”.

O final do texto, indica que as câmaras servem como “condutores” para a “energia éter” e poderiam ser utilizadas para ver “o outro lado”. Aparentemente esta foi a razão pela imagem negativa que os meios acadêmicos atribuíram ao texto, já que na época as teorias de Einstein é que estava na populares.


A palavra “retorno” é sempre associada ás câmaras, embora a origem dessa associação seja desconhecida.
Apesar das estranhas histórias acerca das Câmaras de Pedra, aqueles que vivem próximos a elas por gerações, parecem ignora-las. Quando perguntados sobre as câmaras, os locais sempre desmentiram as histórias, tratando-as como superstições sem sentido.

 Porém, será sempre difícil encontrar alguém disposto a passar uma noite dentro de uma dessas câmaras.


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Sob o Jardim - Parte V

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O solo estava difícil de ser escavado, preso junto às raízes e ervas daninhas, mas com cada pá cheia de terra e folhas caídas, essa dificuldade já não era o problema principal de Frederick; que tinha um minucioso pensamento de ter esquecido algo importante que continuava voltando e voltando à sua mente.

Depois de mais ou menos uma hora, o buraco já estava fundo suficiente, e ele esvaziou a caixa com o torso dentro dele, seguido rapidamente pelas pernas, cabeça e braços. Encerrando seu trabalho manual, Frederick estava muito satisfeito, e enquanto sorria de canto a canto revivendo o ecstasy de matar e cortar a garota em pedaços, em sua mente, ele de repente percebeu o que ele havia esquecido.

Descartando juntamente com as várias partes do corpo, havia uma mão, e naquela mão estava o anel da garota.

Ele estava aliviado. Isso era o que estava o preocupando, ele havia esquecido algo importante, mas era apenas desejo por aquele anel. O desejo de ter algo que aquela linda garota era tão apegada. De alguma maneira aquilo o excitava. A profanação de quaisquer memórias ou sentimentos que aquele anel significava para ela; agora guardado por seu assassino.

Mas era arriscado, ele nunca havia feito isso antes. Guardar memórias era um erro, ele sabia disso. Ele sabia que inúmeros assassinos foram pegos por esse motivo, mas sentar ali naquele buraco enlameado, como se acenar para ele fosse uma joia de pequeno valor na qual ele simplesmente não poderia resistir. Em fato, a vontade de possuí-lo era quase tão boa como a vontade que ele sentiu em matá-la; era incomum, mas Frederick estranhamente dispensou essas preocupações.

O buraco brilhava sob a luz da lanterna, e ele pensou para si mesmo por um momento, que isso apareceu como se fosse novo, longe de sua desgastada e desvalorizada impressão inicial de volta a sua casa.

Ele tinha que obtê-lo.

Pulando no buraco, ele pegou o dedo e agarrou gananciosamente o anel. De novo e de novo ele girou e empurrou, mas ele não saiu. Enquanto ele puxava e apertava e contorcia e forçava com todos seus esforços para tirar o anel, algo o chocou. Era o medo de ser descoberto que foi produzido por um som familiar: Um carro estava sendo dirigido por perto.

O que soou como um grunhido contínuo de um poderoso motor, acompanhada do som de rodas no chão, estimulou Frederick a tomar uma ação. Segurando a pá em sua mão, que tinha um tom de branco sedoso, ele decepou o dedo, não o separando do anel.

Guardando o dedo com o anel ainda preso, ele cambaleou para fora do buraco e começou à o encher, cobrindo o restante da garota o mais rápido possível. O barulho de motor ficou mais alto como se parecesse vir de uma direção indecifrável; ele simplesmente não podia imaginar de onde o veículo estava vindo, talvez houvesse alguma estrada por perto na qual ele não estava ciente.

Aquele som soava como se um caminhão poderoso e feroz escavasse mais perto e mais perto, finalmente a luz vazava-se pelas árvores, iluminando os feitos suspeitos de Frederick.

Faróis!

Mais e mais perto!

Os troncos agora estavam num tom de luz branca luminosa, na qual temporariamente deixaram Frederick se sentindo cego, mas apesar da proximidade óbvia, ele ainda não podia entender de onde ela estava vindo. Era como se a luz estivesse surgindo densamente das árvores, na qual o som de galhos, arbustos e ramos, arfando e rachando como se eles dessem um jeito para o veículo ter uma invariável força bruta.

Agora ele se encontrava correndo, mas não antes de pegar os pacotes, arremessa-los e guardar a pá dentro da caixa. Seu carro agora era um disfarce. O monstruoso barulho do motor agora estava sobre ele e a luz ofuscante certamente veio de apenas poucos metros, por trás.

Era isso, ele havia sido pego.
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Continua nos próximos domingos...

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[PÓ-PÓ-PODCAST] Episódio 2: The Walking Dead (ft. Core das Antigas, Montanha & Canal do Bolacha)

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Fala, meus queridos! Hoje, trago pra vocês o segundo episódio da série que eu e o Montanha (Mont Designer) tivemos a ideia de tentar. Se trata do "Pó-Pó-Podcast (nome provisório lol)", uma série onde juntamos uma galera pra falarmos sobre diversos assuntos fodas, e nessa semana, aproveitando as polemicas dessa temporada, o assunto da vez é: The Walking Dead (Série, Quadrinhos e Jogos).

Nesta semana, os participantes foram: Gabriel (Eu mesmo), Mauricio (Toguro), Matheus (Montanha), Caio (Canal do Bolacha), e nosso queridíssimo convidado especial, Henrique (Core das Antigas).

A cada episódio que fizermos e assunto que abordarmos, convidaremos alguns youtubers pra participarem e trocar uma ideia conosco, e o Montanha ficará a cargo da edição foda do áudio \o/ Esperamos que gostem, e se tiverem mais algumas idéias (assunto, áudio, etc), deixem ai nos comentários! É nóis \o/


Canal do Core das Antigas:

Canal do Bolacha:

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Blackbirds

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Jeremy e Anthony tinham o hábito de caçarem juntos. Como todos os bons amigos no Colorado, subiam as montanhas, localizavam os pássaros, e atiravam.

As montanhas ficavam cobertas por uma branca e gelada camada de neve, mesmo durante o verão.

Porém, naquele dia algo estava errado.

Os pássaros circulavam no céu, em um movimento estranhamente coordenado. Excitado, Anthony sugeriu que se aproximassem do local para atirar nos pássaros, pois os movimentos deles estavam fáceis de prever. No entanto, quando chegaram ao local, viram algo terrível.

Era uma criatura. O corpo dela parecia humanoide, mas suas pernas e braços possuíam ossos que rompiam a pele, tornando-se visíveis. A pele possuía cortes em forma de pássaros, como se fossem tatuagens. O único orifício em seu rosto, era uma boca rasgada, com uma língua esponjosa que pendia para fora. A garganta de Jeremy começou a inchar e suas mãos começaram a suar quando ele liberou um tremendo grito de desespero.

Anthony preparou o rifle e atirou diretamente na testa da coisa, enquanto ela se arrastava na direção deles. BAM! O monstro tinha caído. Eles ficaram em silêncio; um tenso e angustiante silêncio.

Bam! Um pedaço de madeira foi atirado diretamente na cabeça de Anthony. Enquanto observava ao sangue escorrer de sua cabeça, como se fosse a clara saindo de um ovo quebrado, um segundo pedaço de madeira acertou Jeremy nas costas. Enquanto Jeremy caía na inconsciência, ele ouviu um leve bater de pés. Então ele acordou de repente, sendo encarado por uma criança. Era uma criança de aspecto frio, sem cor, incrivelmente desnutrida, com uma bulbosa barriga d’água. Ela estava completamente nua, exceto por algumas partes do corpo cobertas por bandagens feitas de folhas. Seu longo cabelo alaranjado cobria os olhos. Ela grunhia e guinchava ruídos excitados enquanto inclinava-se sobre ele.

Assim que Jeremy estava completamente consciente, ela o atingiu com outro pedaço de madeira. Ele acordou em uma mesa, coberto com uma mistura de restos humanos e animais. Coberta pela mesma mistura orgânica, estava a garotinha. Ela ergueu um afiado pedaço de pedra e começou a cantar “Sing a song of sixpence” e continuou “a pocket full of rye,” enquanto cortava a boca de Jeremy, de lado à lado. Sua língua foi forçada a cair para fora como uma esponja úmida. A garotinha continuou a cantar “Four and twenty black birds” enquanto cortava formas de aves por todo o corpo de Jeremy.

Ela continuou “baked in a pie” enquanto retirava os pequenos pedaços de pele dos cortes e os atirava em um pote. E ela cantou “When the pie was opened, the birds began to sing.” Então os pássaros pretos voaram para o pote e começaram a comer a pele que fora jogada ali. “Wasn't that a dainty dish set before the king” ela cantou enquanto mastigava o resto dos pedaços de pele. “The king was in his counting house, counting out his money” ela cantou enquanto usava a pedra afiada para raspar as pernas de Jeremy. “The queen was in the parlor, eating bread and honey” enquanto raspava o peito de Jeremy. “The maid was in the garden, hanging out the clothes.” Enquanto raspava a cabeça de Jeremy. Finalmente, ela cantou “When down came a blackbird and pecked off her nose.” Enquanto arrancava o nariz de Jeremy, cortava suas orelhas e quebrava seus braços.

Ela o jogou de um pequeno morro, e ele imediatamente correu para a floresta.

Ele viu dois homens e correu para pedir-lhes ajuda.

Um dos homens gritou, enquanto o outro preparava o rifle e...


BAM!


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Alguma outra coisa

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Ok, então, vou começar isso com uma daquelas coisas que os escritores fazem – quando eles te dizem que o que estão escrevendo é puramente verdade – mas realmente não importa se você vai acreditar ou não. Ninguém acredita.

Eu só quero deixar escrito, caso eu consiga me convencer de que não foi real e caso haja alguém por aí que vá me levar a serio.

Eu comecei a faculdade no outono, e tive que me mudar pra outro estado, um pouco distante do dos meus pais. E tudo aconteceu normalmente, eu acho. Eu sentia falta dos meus amigos, e até dos meus pais – depois de um tempo – mas eu tentei me focar e só prestar atenção nas aulas. Eu tenho dois irmãos mais velhos – um é advogado e o outro está fazendo faculdade de direito. Os dois foram os melhores de suas respectivas turmas e começaram a ganhar dinheiro antes mesmo de sair da faculdade. Sendo a caçula e a única mulher, eu sempre tive um padrão pra alcançar, e eu ficaria insatisfeita se fosse a única entre eles que não tivesse uma carreira. Então, eu consegui um trabalho no campus e me comprometi à só tirar notas 10.

Então, como você pode imaginar, eu não dormia muito. Me acostumei a ficar acordada durante a noite terminando relatórios e atividades pelo menos uma vez na semana. Minha colega de quarto era acostumada a levantar ás 5:30 da manhã (Ela trabalhava no primeiro turno do café do campus) e me encontrar na cama, encarando o notebook e terminando alguma atividade do dia anterior.

Ficar acordada durante a noite não era um problema para minha colega de quarto, ela dormia com as luzes ligadas de qualquer jeito. Nosso dormitório era supostamente “assombrado” e as garotas ficavam realmente assustadas a noite.

Em uma das minhas primeiras semanas aqui, um cara da turma avançada me contou sobre isso numa festa.

“Ah, sim... Eu lembro de ouvir sobre isso: Alguma garota daquele dormitório se matou no chuveiro ano passado,” Ele explicou. “Tipo, tirou as lâminas do Gillette e começou a se cortar, e não só os pulsos, eu ouvi que ela se cortou toda nos braços e nas pernas. Cortes gigantescos desde a virilha até o pé e me disseram que tinha quase uma poça de sangue no lugar que ela se matou. No entanto, nunca acharam as lâminas...”

Nesse momento seu amigo (bêbado) se meteu na conversa, “É, porque o fantasma dela guardou. Então é bom você não encontrá-la no chuveiro se não ela vai cortar você também!”

Eu não dei ouvidos... Primeiro: O mais sóbrio dos dois ficou tentando colocar a mão na minha perna e pelo que eu entendi, ele parecia preocupado, e se caso eu estivesse muito assustada, poderia passar a noite no dormitório dele.

Segundo: As lâminas de uma Gillette são realmente cortantes, mas muito pequenas. Eu não achava que poderia tirar tanto sangue de alguém. E se essa parte foi invenção, não duvido que o resto também seja.

Eu sabia que o assunto principal era verdade – o suicídio, quero dizer. Vários dos nossos colegas de classe nos disseram o que aconteceu, porque eles eram do mesmo andar no ano anterior. A garota que achou o corpo largou a faculdade (provavelmente traumatizada) e os funcionários não deram nenhum outro detalhe, então, o que algum de nós poderia dizer é que: Houve um suicídio, foi no chuveiro e tinha muito sangue – no entanto, ainda duvido que tenha sido uma poça.

De qualquer forma, ninguém mais ficaria no terceiro andar – onde se passou o acontecido – depois daquele ano, então, o andar e os chuveiros de lá estavam sempre escuros e vazios. As pessoas eram frequentemente desafiadas a passar noites lá, e jogar aquela merda de Ouija, mas nenhum deles era burro o suficiente pra tentar tomar banho lá.

Exceto por mim. Mas em meu crédito, não foi por causa de um desafio idiota.

Era a semana final do meu segundo semestre e eu estava mais ocupada com os deveres do que o normal. Pra minha sorte, o dia seguinte era o último de aula e eu tinha que terminar apenas mais um relatório. Eu fiquei acordada a noite toda pra terminar e dormi durante apenas algumas horas na noite anterior, e porque o efeito da cafeína passa em algum momento, estava ficando difícil manter os olhos abertos. Mas eu precisava de uma boa nota, e outra parte de mim queria ficar acordada pra ver até quando eu poderia durar.

Peguei-me quase dormindo na minha mesa, queixo apoiado nas mãos pela qüinquagésima vez, olhei para o meu relógio e depois para o notebook, eram 05h00 da manhã – eu ainda tinha tempo até a primeira aula, e tudo que eu precisava fazer era escrever mais algumas frases e a conclusão.

Uma parada rápida não ia me atrasar tanto, e eu precisava de um banho. Então, peguei minha toalha, meu roupão e minhas coisas de banho, saindo do quarto um momento depois e fechando a porta lentamente, tentando não acordar minha colega de quarto. Ela tinha apenas mais meia hora de sono antes de levantar.

Quando cheguei aos chuveiros, não fiquei surpresa de perceber que um deles já estava ligado. Eram as últimas semanas, afinal, e eu não era a única no meu andar que tinha passado a noite acordada. Ainda esfregando meus olhos, liguei o chuveiro e um jato de água gelada me atingiu na cabeça. Eu fiquei lá por alguns minutos congelantes, tentando esperar a água ficar quente, mas não ficou.

A água quente provavelmente acabou,  pensei, por um momento realmente chocada por causa da minha colega de dormitório, que estava tomando banho na água fria. Vesti o roupão novamente e enquanto saia do chuveiro percebi que todas as cortinas estavam abertas e o último chuveiro estava derramando água no chão.

Então, sem água quente porque alguém foi burro o suficiente pra sair e deixar um dos chuveiros ligado.

Minha irritação não ofuscou a minha vontade de ficar limpa, então, eu fui até o terceiro andar, tentando não pensar no que eu realmente estava fazendo. Todos no dormitório tinham uma chave específica para o seu respectivo andar, e por um momento me perguntei se isso seria necessário, mas como eu esperava, o terceiro andar estava destrancado. Mas que bela segurança...

Eu observei o espelho enquanto entrava e havia alguns desenhos que lembravam grafites de rua, eu estava na dúvida se esse andar realmente teria água quente, ou até mesmo só ÁGUA. Liguei o chuveiro e assim que percebi a água caindo tentei me afastar, encostando-me na parede, mas isso não impediu que a água me atingisse no ombro. Estava marrom e gelada, mas eu esperei, até que a cor simplesmente desapareceu e a temperatura da água ficou aceitável – não completamente morna – mas aceitável.

Eu não vou mentir, estava assustada lá dentro. Não horrorizada – não acreditava em fantasmas desde os cinco anos de idade – mas definitivamente assustada.

Havia um estranho cheiro metálico lá... O encanamento daqui deve estar uma porcaria, só pode ser isso que está fedendo a ferrugem... Tentei me convencer, mesmo que uma voz na minha cabeça tentasse gritar “sangue

Eu decidi terminar meu banho o mais rápido possível e sair de lá assim que acabasse.

Mas quando terminei de lavar o cabelo, comecei a me sentir melhor. O tempo estava começando a esquentar e pensei em usar shorts, então, por que não passar mais alguns minutos raspando a perna? Meu trabalho estava quase pronto, eu só iria para a aula em duas horas e a única coisa que estava realmente me assustando lá, era o barulho no chuveiro – havia culpado o encanamento novamente –.

Enquanto eu passava a Gillette nas pernas, comecei a pensar nas provas finais e o quanto eu queria tirar 10, mas mesmo assim, algumas das minhas notas estavam medianas.

Acho que não me concentrar foi o que me fez esquecer a Gillette e me cortar... Foi apenas um pequeno corte, nada que eu já não estivesse acostumada, mas a dor inesperada me fez derrubar a lâmina, e enquanto eu me abaixava pra pegar, notei algo.

Havia algo no ralo, e não parecia um bolo de cabelo ou algum objeto, era alguma outra coisa. Era do tamanho de um punho pequeno, como se fosse de criança, e era branco feito neve, o que deixava ainda mais óbvio alguns pêlos que estavam por cima. Por um momento pensei em mármore, ou... Qualquer outro tipo de pedra?

Em um momento de curiosidade – ou simplesmente burrice – me ajoelhei e tentei observar mais de perto, começando a cutucar o que parecia pêlo e tentando me convencer que era algum colar que alguém havia deixado cair lá dentro.

Antes mesmo de abrir o ralo, eu podia ver a coisa se mexendo...

Joguei a telinha pro lado com uma sensação de triunfo e então a coisa começou a sair e vir na minha direção, parecia se mexer com a própria força e eu podia ver algumas marcas abaixo da superfície pálida... Pareciam ossos?

Como?

Senti o medo crescer em mim e comecei a levantar, caminhando pra trás, mas minha incapacidade de acreditar em fantasmas não me deixou correr.

Enquanto a coisa começou a sair de lá, eu percebi que ela começou a se ‘abrir’. Não sei como descrever isso de outra maneira. Quatro dedos começaram a se abrir e revelar o que pareciam ser roxas marcas de violência. Um lado estava melado, com algo que parecia pus saindo de um lugar onde supostamente deveria estar localizado um... Dedão?!

Eu arregalei os olhos assim que percebi que realmente era uma mão. A palma, não era muito maior do que a de uma criança, mas cada dedo parecia ter mais de 20 centímetros cada, com juntas machucadas e no final dos dedos, uma unha.

Na verdade, a palavra ‘garra’ pode definir melhor o que aquilo era. Algumas estavam quebradas, deixando apenas a metade, mas as que não estavam, eram imensas, fazendo os dedos da coisa parecessem ainda maiores. Elas eram grotescas e sujas, mas não deixavam de lembrar lâminas afiadas nem por um momento.

Agora, durante todo o tempo que levei pra observar isso, eu não me importava mais se eu estava acreditando em fantasmas e o quão infantil isso soaria, ou se eu estava sem roupa e minha perna ainda estava completamente coberta de creme de barbear. Eu ia sair dali.

Comecei a andar pra trás, e usei uma das minhas mãos para abrir a cortina do chuveiro, mas estava tudo muito escorregadio e não demorou muito até que eu batesse minha bunda no chão. Quando eu caí, meu tornozelo encostou-se à mão da coisa, era gelada e macia, como algo que você deixa muito tempo dentro da geladeira. Os dedos se mexeram com o contato.

Fiquei de joelhos e por um momento pensei que pudesse me arrastar para fora, mas enquanto eu tentava, eu senti os dedos se agarrarem em mim. Senti uma dor horrível e quase insuportável quando as unhas da coisa se fincaram em mim.

Eu olhei pra trás e por um momento parecia que a coisa ainda estava tentando sair, milímetro por milímetro, de dentro do ralo. Eu podia ver as marcas dos ossos abaixo da pele pálida e o começo do cotovelo, mas não parava de segurar meu tornozelo, e eu não podia evitar as gotas de sangue que começaram a cair cada vez que as unhas entravam mais em minha pele.  Tentei puxar minha perna na direção do meu corpo, mas isso fez com que a coisa segurasse minha perna com ainda mais força, senti outra unha entrando em minha perna e a dor mais insuportável de todas quando ele conseguiu alcançar meu osso. O barulho de “encanamento” estava de volta e a coisa ainda parecia tentar sair do ralo.

Foi a minha colega de quarto que me salvou – ela e o trabalho no café que ela tanto odeia. Ela disse que achou estranho acordar e não me encontrar, mas que o fato do meu notebook estar ligado a fez pensar que eu estava tomando banho. Ela percebeu também que eu havia levado as coisas de banho, mas quando foi aos chuveiros do nosso andar, não havia ninguém lá. Então, mesmo sem acreditar que eu estaria lá, ela checou o terceiro andar.

Os paramédicos disseram que eu fiquei inconsciente por pelo menos 20 minutos; e havia perdido muito sangue. Quando eles me acharam, eu estava com vários arranhões e cortes no meu quadril e nas minhas pernas. Havia alguns cortes pequenos – mas a grande maioria foi profunda e grande –.

A área pior foi no meu joelho esquerdo, os médicos passaram horas tentando ajeitar.

Eles me perguntaram se eu havia utilizado algum tipo de droga ilícita, e eu disse á eles – sinceramente – que não. Então, eles continuaram me perguntando se eu tinha certeza pelo menos umas dez vezes, e depois mandaram um psiquiatra conversar comigo.

Eu estava bastante dopada por causa dos remédios pra dor, mas ainda assim, levei alguns dias pra conseguir conversar com a minha psiquiatra normalmente. Ela me disse que nada além do normal foi encontrado nos chuveiros além de mim – nua e sangrando no chão –. Ela disse que as alucinações são sintomas normais de quem fica muito tempo sem dormir.

“Mas então, como consegui estes cortes?” Eu perguntei.

Ela não tornou as coisas mais fáceis pra mim, “Você fez isso em si mesma, querida. Você estava estressada e cansada, você não é a primeira estudante a ter um colapso durante as provas finais.”

Bom, eu estou começando a acreditar no que ela disse sobre as alucinações, mas eu sei que não foi uma alucinação que me deu esses cortes. Eu não tinha nada afiado ou grande o suficiente pra me cortar desse jeito – nem nos chuveiros, nem no meu quarto, nem em lugar nenhum. Eles acham que eu joguei minha lâmina fora, mas quando eu perguntei á minha colega de quarto, ela disse que estava lá, do meu lado, exatamente onde eu havia deixado, e sem um pingo de sangue.


E esse é o motivo pelo qual eu decidi deixar isso aqui para outras pessoas verem, eu sei que o que eu lembro não faz sentido e deveria ser impossível, mas eu não iria me sentir bem ficando em silêncio sobre isso. Eu quero que as pessoas saibam: Não acho que aquela garota tirou a própria vida no chuveiro ano passado... Acho que alguma outra coisa a matou.

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O jogo do celular - Parte III - Final

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Então eu fui para a escola um dia e nove de nossos colegas de classe haviam desaparecido, incluindo Sam. Estava um tumulto. Ninguém sabia o que havia acontecido com eles, ou onde eles tinham ido. Ninguém exceto a pessoa que tinha feito isso: Stephanie.

Se a quantidade de tempo prolongado era reduzida pela metade cada vez que você trazia alguém para o jogo, então nove pessoas teria dado a ela um pouco mais de duas semanas. O que significava que seu tempo estava acabando novamente esta noite.

Eu a confrontei sobre isso depois da escola.

“Stephanie, a polícia está ficando desconfiada. Você não pode mais fazer isso, e eu não posso assistir você fazer isso de novo. Isso é errado. É perverso!”

Ela me olhou em silêncio. Continuo me lembrando do jeito como me olhou naquele dia. Nesse momento, estava claro que a garota que eu conhecia e amava estava muito longe, e tudo o que restava era uma concha má e sem alma que se agarrava à vida e temia a morte mais do que tudo. Mas, ainda assim, eu continuava a amando mais que do tudo. Ela era minha primeira e única namorada, e eu não poderia deixá-la ir. Eu não poderia deixar nada acontecer com ela.

“Tudo bem,” disse ela. “Eu não farei isso de novo. Eu aceitei o que preciso fazer, e vou fazer isso. Ninguém mais morrerá por minha causa.”

“Stephanie.... tem certeza? Talvez nós possamos encontrar um item de proteção para você se procurarmos agora.”

Ela olhou para baixo triste. “Não adianta correr por isso agora. Eu só quero passar a noite com você hoje, tá? Mais uma noite juntos. É tudo o que quero.”

Meu coração estava despedaçado. Tudo era tão melancólico e melodramático. Eu estava tão triste ao ouvir aquelas palavras, por pensar nela sendo levada.

Eu vomitei. Vomitei e vomitei de novo e de novo numa lixeira tentando lutar contra um fluxo interminável de lágrimas.

Naquela noite ela dormiu comigo de novo. Doente, fraco e cansado, eu dormi por pura exaustão ás 3:00 a.m.

Menos de uma hora depois, então, eu acordei com um sobressalto.

Stephanie se foi.

Eu sentei e olhei em volta aterrorizado, então encontrei um bilhete. Eu o li.

“Jack, me desculpe por mentir pra você de novo, mas eu ainda não estou pronta para morrer.”

Um calafrio desceu em minha espinha. Continuei lendo.

“Eu descobri o que tenho que fazer. Não se preocupe, como prometi, ninguém mais vai morrer por minha causa.”

O que ela poderia estar pensando? Olhei no meu quarto. De repente, notei que a pistola calibre .45 que meu pai me deu no meu aniversário de 18 anos tinha desaparecido, e tudo fazia perfeito sentido.

Foi por isso que ela quis passar a noite comigo. Ela queria minha arma. Ela estava planejando ir até Rottenbacher e pegar SEU item de proteção.

O mais rápido que pude,vesti umas roupas e corri até minha caminhonete. Voei até o apartamento de Rottenbacher.

Quando cheguei lá, a fechadura tinha levado um tiro e havia vozes vindo de dentro.

Eu empurrei a porta aberta. “O que está havendo aqui?” Eu perguntei.

Olhei em volta.Stephanie estava mirando Rottenbacher com minha pistola. As paredes do apartamento estavam cobertas com fotos de Adolf Hitler e banners com a cruz suástica. Haviam chicotes e correntes espalhados por todo o chão do quarto. Rottenbacher estava andando com seu pijama de manga comprida e com seu neo-nazismo típico, gritando com ela sobre “invasão de domicílio” e “chamar a polícia” e isto e aquilo. Ele estava usando até aquela estúpida braçadera nazista. Era óbvio que esse cara era um fanático maluco.

Stephanie gritou para ele. “Cale a merda da boca!”

Ela disparou alguns tiros na parede e fez uma careta.

Lembro de meus ouvidos zumbindo com o volume dos disparos e uma dor aguda nos tímpanos, mas estava tenso demais para me preocupar com isso naquele momento.

“Agora me dê aquele coisa farpada de tortura que você sempre usa ou te mato agora mesmo.”

Sua voz era do mal.

Rottenbacher congelou no local por um momento e vagarosamento começou a tirar as calças do pijama.

“Você está cometendo um grande erro.” Ele disse. “Você deveria apenas aceitar o jeito como as coisas são e morrer com alguma dignidade. Você não vai muito longe com isso.”

Ele tirou o cilício da perna, de onde escorria uma pequena quantidade de sangue, e entregou a ela.

Imediatamente, ela colocou aquilo em sua perna com uma mão, desajeitada com minha pistola enquanto o apertava até machucar, e sua própria perna começou sangrar um pouco.

“Vamos, Jack.” Ela sussurrou enquanto se virava para sair.

Comecei a andar para fora com ela. Do apartamento eu ouvi Rottenbacher gritando.

“Você não vai fugir disso! Ele está vindo para você e ele vai te arrastar para o inferno por tudo o que você tem feito! Você pagará por todas aquelas pessoas!”

Eu podia ver que ela estava mancando um pouco enquanto se afastava.

Eu estava mal. Estava aborrecido com tudo. Estava aborrecido com Stephanie por ela ser tão cruel e egoísta. E eu estava aborrecido comigo mesmo, por ver tudo isso, ver todos os sinais, e não fazer nada para parar isso. Mas pelo menos agora tudo isso estava acabado.

Enquanto andava de volta para a caminhonete eu fiz uma pequena oração por Rottenbacher na esperança de que ele pudesse encontrar um novo item de proteção nas próximas duas semanas. Ele podia ser um racista bastardo, mas de algum jeito, ele continuava sendo melhor que Stephanie se o que ele disse sobre nunca ter amaldiçoado ninguém fosse verdade, e ele não merecia morrer só por isso.

Eu levei Stephanie para casa. Ela estava exausta. Eu teria dado um beijo em sua bochecha, mas eu estava tão mal que tudo o que eu queria é que toda aquela provação terminasse.

“Boa noite” Sussurrei para ela.

“Boa noite, Jack. Te amo.” Ela sussurrou de volta, saiu da caminhonete e voltou para sua casa.

Comecei dirigir para casa, exausto pelos eventos do dia.

Repentinamente, me celular comecçou a vibrar. Eu o peguei. Era uma ligação da Stephanie.

Eu respondi.

“Alô?”

A primeira coisa que ouvi foi um guincho, seguido por um som como o barulho de uma batida em sua porta.

“Jack, Socorro! Ele está aqui! Ele está aqui! ELE VEIO ME PEGAR!”

“O quê? Aguenta aí, Steph!”

Puxei uma inversão de marcha na caminhonete e corri de volta para casa dela. Stephanie estava se tornando mais frenética.

De repente, do outro lado da linha, eu ouvi o som da porta sendo espancada, seguido por outro guincho. Eu podia ouvir Stephanie gritando com todos seus pulmões, um medonho e sangrento grito congelante. Eu ainda me lembro perfeitamente de cada momento, e eu me lembro dos gritos, palavra por palavra.

“Não! Não! Eu não quero morrer” A adrenalina surgiu através do meu coração e eu afundei o acelerador.

“Não, não, não! Pare!”

Ela gritou de novo e eu ouvi o que soava como o celular batendo no chão e os gritos de Stephanie ficando mais e mais distantes.

E então, ar parado.

“Stephanie? Stephanie?! Me responde, porra!”

Sem resposta eu desliguei e chamei a polícia.

Quando cheguei na casa da Stephanie, a porta da frente estava quebrada. Estacionei mei carro em seu gramado e saltei para fora, carregando minha pistola calibre .45 comigo.

Corri para dentro, procurando pelos corredores. Tudo estava em câmera lenta.

Enão, eu entrei no quarto dela. Acendi a luz e chequei todos os cantos com minha pistola apontando o caminho. Por fim, abaixei a arma e alguma coisa chamou minha atenção no meio do cômodo. O celular da Stephanie estava caído no chão perto de sua cama.

No meio do quarto, no carpete, tinha uma pequena marca de sangue. Não era muito mais do que poucas gotas. Mas a visão mais arrepiante de tudo foi que, da borda da cama para a porta do quarto que levava para o corredor, havia um rastro de marcas de garras que ela havia deixado, como se algo ou alguém a tivesse arrastado para sua condenação.

Eu não conseguia aguentar mais. Me virei e deixei o quarto. Na saída não pude deixar de notar que ela tinha arrancado a maioria de suas unhas arranhando o carpete e elas estavam espalhadas pelas trilhas que seus dedos haviam deixado.

Saí para rua e vomitei de novo. Podia ouvir as sirenes se aproximando.

Dias passaram, então semanas, depois meses. A polícia investigou; eles me interrogaram várias e várias vezes de novo, e toda vez a minha história era a mesma. Eu contei a eles a verdade toda como eu sabia, inacreditável como era. Não acho que eles acreditavam em mim, mas todas as evidências amparavam minha história e não havia nada que me comprometesse com qualquer um dos crimes, então finalmente eles me deixaram ir.

As coisas gradualmente foram voltando ao normal.

Nossa turma finalmente se recuperou das perdas de tantos colegas, e ao longo do tempo minha mente meio que aceitou o que havia acontecido até que se parecia como um sonho distante. Eu me formei e fui pra faculdade.

Mas havia uma única coisa que ainda me incomodava, e era Rottenbacher. Ele estava absolutamente bem. Mesmo Stephanie tendo roubado seu cilício, ele nunca desapareceu como os outros.

Porém, se há uma coisa que eu realmente sei é que ainda hoje, se você vir Rottenbacher, ele ainda estará usando a braçadeira vermelha com a suástica nazista.

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Parte I aqui
Parte II aqui



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Omegle

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Por favor, me ouçam, é pelo seu próprio bem. Sinto-me obrigado a alerta-los sobre o perigo que foi liberado recentemente pela internet. Não tenho muito tempo, sinto que ele está mais próximo.

Gosto de navegar pela internet, assim como várias pessoas. Porém, as vezes a internet torna-se entediante, e quando não sei mais o que fazer, entro no site de webcams anônimas conhecido como “Omegle”. Tenho certeza que muitos de vocês o conhecem, já que o site é bastante famoso por ter aqueles pervertidos fazendo besteiras na webcam.

Bom, um dia, quando entrei no Omegle, resolvi utilizar o novo sistema, onde você é colocado com pessoas que dividem os mesmos interesses. Em adição, o sistema também permite o acesso ao Facebook para que você utilize suas informações e interesses constados por lá. Decidi tentar, e iniciei a pesquisa por webcams.

As primeiras pessoas me ignoraram, e também surgiram vários idiotas que ignorei por estarem fazendo besteiras. Então aconteceu. ELE apareceu na webcam. Um homem vestido de preto, um tipo de robe ou roupão, usando o que parecia uma máscara bem detalhada de abóbora de halloween, no entanto, eu nem saberia disser de que a máscara era feita.

O homem se aproximou da câmera e começou a acenar assustadoramente para mim. Eu já estava ficando tenso, mas resolvi me acalmar e perguntei se ele poderia retirar a máscara. O homem permaneceu em silencio, e apenas balançou a cabeça negativamente. Achei isso um pouco estranho.

O tempo passou e comecei a achar que era apenas uma piada. Ri e perguntei se era uma pegadinha. Mas o homem gesticulou para que eu ficasse quieto. Digitei dizendo que passaria para a próxima pessoa e que foi tudo muito engraçado. Então ele respondeu:

“Sei onde você está. E nos próximos três dias, onde você for, eu vou segui-lo. O que você fizer, eu verei. Saberei onde você está, com quem está, o que está fazendo e quando, e tudo que você verá de mim, será esta máscara. Então, depois de três dias. Eu vou mata-lo.”

Como se já não fosse o suficiente, quando acabei de ler a resposta dele e estava indo para o próximo chat, percebi que, de alguma forma, ele estava transmitindo a imagem dele também pela minha webcam. Eu o vi apontar com o dedo indicador para a tela, como se estivesse apontando para mim, e passar o indicador pelo pescoço, como se o estivesse cortando.

É... as vezes o Omegle pode ser assustador...


Resolvi printar a tela como evidência e segui para a delegacia mais próxima. No caminho para a delegacia, percebi em meu espelho retrovisor, que no carro atrás de mim parecia não ter um motorista. Havia apenas uma máscara de abóbora onde o motorista deveria estar.

Quando cheguei na delegacia e mostrei as fotos, os policiais me garantiram que estariam monitorando a minha área, à procura de qualquer mascarado que se aproximasse da minha casa nos próximos dias. Isso me deixou mais aliviado. Com a proteção da polícia, eu poderia seguir a minha vida normalmente.

No dia seguinte fui ao supermercado, pois estava ficando sem mantimentos, e algo muito assustador aconteceu, enquanto eu seguia para a parte de alimentos. A agitação dos clientes foi diminuindo progressivamente, até o ponto em que percebi que não havia mais ninguém no local. Chegando ao caixa, percebi que em todos os balcões havia uma máscara de abóbora. Saí correndo, mesmo sem pagar, e entrei rapidamente no meu carro, empilhando as compras de qualquer jeito no banco do passageiro e acelerando para fora do estacionamento.

Quando cheguei em casa, estava tão assustado que agarrei todas as compras e entrei, trancando todas as portas e janelas. Eu precisava me sentir mais seguro, então liguei para a polícia e perguntei se perceberam algum estranho perto da minha casa, e felizmente, não perceberam. Decidi dormir mais cedo, e subi para o meu quarto.

Quando acordei pela manhã, fiquei aterrorizado ao encontrar, pendurada na porta do meu guarda roupas, a máscara de abóbora. Peguei a máscara, a chave do carro e corri para a delegacia. Mostrei a máscara para eles, e eles me mandaram passar a noite na casa de algum conhecido, enquanto eles investigavam a minha casa.

Liguei para o meu amigo, Brad. Quando eu precisava, ele sempre me arrumava um lugar para passar a noite. Então naquela noite, segui para a casa dele e passamos a noite jogando videogames enquanto eu contava sobre a minha situação. Para a minha surpresa, ele me contou que tinha encontrado o mesmo homem um dia antes de mim, e que estaria completando naquela noite o terceiro dia.

Mais tarde, enquanto estávamos dormindo, fui acordado por um barulho muito alto vindo do quarto do Brad. Assustado, segui lentamente para verifica-lo. Fiquei horrorizado com o que vi; Brad estava na cama, deitado em uma poça de sangue, com aquela maldita máscara de abóbora sobre o peito!


Hoje é o meu terceiro dia, e estou sentado na delegacia, usando o notebook de Brad para digitar este aviso.

CUIDADO COM O HOMEM ABÓBORA!

Não sei o que será de mim, mas se esse aviso salvar o máximo de vidas possível, ficarei feliz.


http://img3.wikia.nocookie.net/__cb20130302150951/creepypasta/images/f/fc/Omegle_is_a_scary_place.png

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Assistindo TV até tarde

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É uma sexta-feira à noite. Seus pais estão fora durante o fim de semana, e deixaram você tomando conta do seu irmão enquanto eles não estão em casa. Quando você tem 17 anos, é claro que você é mais do que capaz de cuidar do seu irmão mais novo e fazer de tudo para que ele não faça nenhuma merda.

Mesmo faltando 15 minutos para meia-noite, nenhum de vocês foi pra cama ainda. No momento, você está no seu quarto terminando seu dever de casa e seu irmão está lá embaixo, assistindo TV na sala de estar.

Seu quarto fica diretamente em cima da sala, então, é sempre possível escutar a TV. Qualquer filme de ação, qualquer reality show, qualquer comercial... Você consegue ouvir cada um deles claramente.

Isso costumava te irritar bastante, mas você se acostumou a estudar com o som ao fundo, agora raramente te distrai, e se distrai, você apenas pede para abaixarem o volume – se você estiver com muita preguiça, pode apenas bater os pés no chão, eles sempre escutam você –

Mesmo estando focado no que está fazendo, você está completamente ciente do que o que seu irmão está assistindo. Você acha que é um filme de ação dos anos 70, ou algo do tipo. Naquele momento, você pode ouvir um personagem, provavelmente um chefão do crime ou qualquer coisa relacionada a isso, gritando e se vangloriando de como a gangue dele vai acabar com a gangue rival.

“Nós vamos atirar neles até eles ficarem completamente cobertos de sangue!” Seu irmão ri alto. Só uma criança sem entendimento conseguiria rir de palavras tão agressivas.

“Vamos sim, Lupo!” Um dos “capangas” respondeu.

Outro personagem diz, com uma voz tímida. “Não tenho certeza se deveríamos fazer isso, não parece certo pra mim...”

“Você tem algum problema com o plano?” O “chefão” fala, e dá para notar que ele está irritado.

Nesse momento, você não consegue mais se concentrar no dever de casa, sua atenção está voltada para o filme e você quer saber o que vai acontecer.

O outro responde, “Não, apenas acho que deveríamos—” ele foi interrompido por algo que parecia uma briga, alguém gritou e logo começaram sons que pareciam tacos de baseball batendo em alguma coisa. Seu irmão ri novamente e você não tem ideia do porque aquilo é engraçado.

O personagem tímido – ou seja lá quem esteja apanhando – continua implorando por misericórdia, mas quem o está machucando não para nem por um momento. A vítima implora uma última vez, e então fica em silencio, logo depois você pode ouvir outro som, como se algo estivesse se quebrando – provavelmente um osso – e outra discussão novamente se inicia, acompanhada de mais risadas do seu irmão.

Depois de um momento, o líder fala novamente. “Alguém tem mais alguma opinião pra dar?”

Ninguém diz nada, e no silencio, você pode ouvir seu irmão ainda rindo.

O líder continua, “Bom, fico feliz que tenham decidido assim.” Ele suspira. “Oh, merda. Agora estou coberto de sangue.” E essa fala faz seu irmão gargalhar... “Ele provavelmente não sabe o que está acontecendo, por isso ele está rindo” Você pensa.

“Dê-me um balde e uma toalha, Frankie.” Ele ordena. “Então poderemos jogar esse pedaço de merda na rua. Os ratos também precisam comer, não é?” Seu irmão simplesmente gargalha como se estivesse escutado a piada mais engraçada do mundo.

E dessa vez a risada continua mais alta e demora cerca de um minuto, isso é estranho.

Você se sente enjoado e algo te diz que você deve verificar, e que seu irmão não deveria estar vendo um filme desse tipo á essa hora da noite. Aliás, nem a essa hora da noite, nem hora alguma! Ele provavelmente vai ter pesadelos, e se for brutal como parece, ele nem irá dormir!

Você grita o nome dele e ele não responde, e depois de um momento você tenta novamente –sem resposta– talvez ele esteja dormindo no sofá, você decide descer e ir buscá-lo.

Você desce as escadas e o barulho da TV para completamente assim que você pisa no último degrau. Lá embaixo está escuro e a TV não está ligada, seu irmão não está no sofá. Você o chama novamente; ninguém responde, e depois de andar todo o andar de baixo, você finalmente se convence de que ele não está lá.

Alarmado, você sobe as escadas novamente e decide espiar o quarto dele – e o encontra – na cama. Ele provavelmente está dormindo há um tempo, já que não tem como ele ter passado pelas escadas sem ter sido visto por você. Nesse caso, você está feliz que ele está bem, e feliz que ele não está mais vendo aquele filme horrível.

Bom, você está feliz até perceber que não tem como ele ter assistido TV há poucos minutos atrás e já ter dormido.


Você sente um frio na espinha e ouve uma risada atrás de você, é a mesma risada, a que você presumiu que era do seu irmão, só que agora, ela está muito mais próxima – e alta –. 

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[PÓ-PÓ-PODCAST] Episódio 1: Terror (ft. Montanha & Canal do Bolacha)

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Fala, meus queridos! Hoje, trago pra vocês uma nova série que eu e o Montanha (Mont Designer) tivemos a ideia de tentar, e já começamos a colocar em prática. Se trata do "Pó-Pó-Podcast (nome provisório lol)", uma série que se trata de juntarmos uma galera pra falarmos sobre diversos assuntos fodas, e pra estréia da série, como não poderia deixar de ser, o assunto da vez é: Terror (filmes de terror, situações bizarras que aconteceram com a gente, entre outras coisas).

Nesta semana, os participantes foram: Gabriel (Eu mesmo), Mauricio (Toguro), Felipe (Digníssimo Senhor Simplório), Lucas (Beluga, nosso editor de videos), Matheus (Montanha) e o Caio (Canal do Bolacha).

A cada episódio que fizermos e assunto que abordarmos, convidaremos alguns youtubers pra participarem e trocar uma ideia conosco. Esperamos que gostem, e se tiverem mais algumas idéias (assunto, áudio, etc), deixem ai nos comentários! É nóis \o/


Canal do Beluga:

Canal do Bolacha:

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O jogo do celular - Parte II

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“O que você está pensando, Stephanie? Você me prometeu que não faria isso!”

“Sim, sim, eu sei. Mas não é nada de mais. Eu já tenho tudo planejado. Além disso, se for verdade e se isso funciona, é uma oportunidade muito boa para deixar passar!”

Ela mostrou o celular. “Olhe!” Ela disse vertiginosamente. 

Uma mensagem de texto foi aberta na tela em que se lia “Bem-vindo ao jogo.”

“Meio bizarro, né? Eu recebi assim que enviei o texto à meia noite, bem como as garotas disseram.”

Meu queixo caiu. Eu estava apavorado e sem palavras. Este jogo não poderia ser real, poderia?

“Stephanie, se isso for real, então você está em perigo agora. Você tem apenas duas semanas para encontrar o item protetor.”

“Eu sei. Por isso que enviei o texto para a Rebecca. Eu vou descobrir se isso é verdade ou não!”

Fiquei puto. “Você fez O QUE?! Mas Stephanie, se isso é real então te faz tão boa quanto um assassino! Você amaldiçoou a Rebecca e agora ela pode morrer por sua causa!”

“Relaxa, Jack. Na verdade eu não acredito em nada dessas coisas. Mas mesmo que for, Rebecca sempre foi uma vadia. Não é como se ela não merecesse.” Ela deu aquele mesmo sorrisinho malicioso que eu sempre amei. Mas nesse momento eu não estava amando nenhum pedacinho dele.

Duas semanas se passaram e nada aconteceu. Mas então, um dia, Rebecca não apareceu na escola. Na hora do almoço, Stephanie estava sentada com a gente como sempre quando o assistente do Diretor veio falar com todos usando um megafone.

“Atenção, por favor.” Todos ficaram em silêncio. “A polícia informou que uma de suas colegas, Rebecca, está desaparecida.”

A pele dourada da Stephanie ficou branca. Ela congelou.

“Seus pais estão muito preocupados com ela. Se algum de vocês sabe alguma coisa sobre isso, por favor, venha e falem comigo depois da escola. Isso é tudo.”

“Stephanie...” Eu sussurrei. Eu estava muito preocupado. Eu tinha muito medo do que ela faria. Ela me olhou e disse “Não diga nada. Apenas não diga.”

Ela se levantou e saiu correndo do refeitório. Eu corri atrás dela.

“Stephanie! Stephanie! O que você está fazendo?”

Ela continuou correndo de mim, o celular na mão.

“Não tente me parar, Jack. Se eu vou sobreviver, preciso de mais tempo. Eu posso ter mais uma semana se eu amaldiçoar mais alguém, e eu terei três semanas para encontrar o item.”

“Stephanie, escuta o que você está dizendo. Você vai amaldiçoar? Você mataria mais alguém por um pequeno tempo extra? Veja o que aconteceu com você!”

Ela estava começando a chorar.

“Eu sei, porra! Mas sei que eu vou amaldiçoar. Ninguém sentirá falta dele, eu prometo.”

“Stephanie, isso não é certo. Você não pode fazer isso. Ninguém merece isso. Me deixe te ajudar. Nós podemos encontrar juntos um item de proteção para você.

Ela se virou e me mostrou o celular. Na caixa de saída tinha um SMS com a mensagem “Bem-vindo ao jogo.”

Ela havia enviado ao Rottenbacher.

Comecei choramingar. Eu a agarrei o mais forte que pude. “Stephanie, Stephanie. Eu te amo. Me desculpe. Isso não está certo. Nada disso é certo.”

Ela me segurou e começou chorarprofundamente. Nós nos abraçamos ali quase por uma hora. Continuo me lembrando como se fosse ontem.

Então, naquela noite antes de irmos para casa, nós dois resolvemos que nós começaríamos a procurar pelo item de proteção no dia seguinte.

No dia seguinte, eu estava andando com a Stephanie pela pista depois da escola quando Rottenbacher se aproximou de nós com seu celular. Ele estava furioso. Ele enfiou o celular na cara dela.

“É essa sua ideia de piada, sua estúpida puta de olhos puxados?”

Verdade seja dita, Rottenbacher tinha o direito de estar um pouco zangado. Certo, ele era um nazista esquisito, mas com todas essas insinuações de assassinato a nossa volta, eu poderia imaginar qualquer um ficando nervoso por receber uma mensagem de texto como aquela.

Mas mesmo assim eu não deixaria ninguém falar com a minha garota daquele jeito.

“Hey, cara, você lave sua boca. Não é jeito de falar com uma dama.”

“Dama?” Rottenbacher gritou. “Essa vagabunda não é uma dama. Ela é só uma vadia, e ela tentou me matar! Eu aposto que você matou aquela outra garota também, não matou? Rebecca? Ela está desaparecida por sua causa, não está?”

Stephanie começou chorar.

Puxei meu braço para trás e dei o soco mais forte que pude na cara do Rotenbacher. Ele cambaleou uns passos para trás e agarrou o lábio, de onde escorria um pouco de sangue, mas manteve a compostura.

Eu meio que esperava ele me bater de volta, mas ele só ficou ali parado.

Depois de um momento, ele falou.

“Você não entendeu isso, não é Stephanie? EU JÁ ESTOU NO JOGO. Sempre estive. Sei como funciona. Mas diferente de você, eu nunca amaldiçoei ninguém.

“Merda!” Eu falei. “Se isso tudo é verdade, então como você continua...”

De repente, eu lembrei do cilício que Rottenbacher vestia em torno de sua perna que o fazia mancar em agonia, e o que Stephanie havia dito na hora do almoço.

Sempre que um item de proteção era descoberto, o que quer que fosse, causaria sofrimento.

“Seu item de proteção” Você tem um!”

Os olhos de Stephanie se iluminaram. Estava claro que ela imaginou a mesma coisa que eu. Rottenbacher sorriu afetadamento. “Está certo. Então sua namorada achou que teria tempo adicional por tentar me amaldiçoar. Eu já estava no jogo e já tinham feito isso.”

Stephanie olhou-o com medo nos olhos.

Dias se passaram e por mais que tentássemos, Stephanie e eu não pudemos encontrar nada que pudesse ser qualificado como um item protetor. Nós estávamos perto das duas semanas limite e ela estava parecendo mais e mais assustada a cada dia. Seu cabelo estava uma bagunça, sua usual personalidade alegre estava sombria e perturbada. Ela ficava olhando para o nada durante as aulas e rezava constantemente.

No fim do das duas semanas de prazo, nós dois estávamos aterrorizados. Ela veio até a escola e disse “Jack, quero que Você duma comigo essa noite. Fique comigo a noite toda. Não deixe que me peguem.”

Eu não poderia recusar. Apareci na casa dela tarde naquela noite e entrei pela janela. Nós dormimos juntos. Isso era agridoce.

Ela dormiu me abraçando, mas eu fiquei acordado quase a noite toda a observando e esperando até que finalmente caí no sono, por volta de 4h30 da manhã por pura exaustão.

No dia seguinte, quando acordei, tudo o que podia pensar era em Stephanie. Olhei a minha volta freneticamente. Ela não estava na cama perto de mim.

“Stephanie” Gritei enquanto saia da cama e começava a procurar por ela. Entrei na cozinha.

“Não fale tão alto” Era Stephanie. Me virei e a vi sentada na mesa da cozinha. Ela estava sorrindo e parecia mais vertiginosa do que nunca.

Suspirei em sinal de alivio.

“Meus pais já foram pro trabalho, mas não quero que os vizinhos suspeitem e digam alguma coisa.”

Lamentei aliviado. Tinha acabado e ela estava segura. Nada tinha vindo buscá-la. Corri pela cozina e a abracei, e a beijei toda.

Tudo estava perfeito.

Por duas semanas.
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S.T.A.L.K.E.R. Horror of Chernobyl

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Sei que pode parecer uma pergunta estranha, mas, existe algum jogo que você possa dizer sinceramente que mudou a sua vida? Se você me perguntasse, a resposta seria “Sim, existe.” Era o verão de 2007, não tenho muita certeza. Meu melhor amigo estava viajando, e eu estava bastante entediado.

Enquanto lia algumas revistas sobre games, encontrei uma matéria sobre um jogo chamado S.T.A.L.K.E.R.: Oblivion Lost. De acordo com a matéria, o jogo prometia gráficos realistas, IA sofisticada, intensos combates contra oponentes humanos e mutantes, e múltiplos finais – isso me atraiu imediatamente.

Pesquisei pela internet e descobri que o título do game havia sido alterado para S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl e já estava à venda. Sem perder tempo, baixei a versão pirata. Fiquei maravilhado com a atmosfera do jogo – nunca tinha me sentido tão imerso em um jogo. Gráficos e gameplay eram ótimos, porém, era a atmosfera que me prendia ao jogo.

O jogo é um FPS em mundo aberto, desenvolvido por um estúdio Ucraniano chamado GSC Game World. S.T.A.L.K.E.R. se passa na área ao redor da Usina Nuclear de Chernobyl.

Após uma fictícia segunda explosão na usina, a área ao redor – chamada The Zone – tornou-se repleta de mutantes perigosos e anomalias mortais que desafiavam as leis da física, e artefatos preciosos e misteriosos, que atraiam a atenção de caçadores de tesouros, chamados stalkers.

Fiquei tão impressionado com o jogo, que acabei comprando uma cópia original, mesmo utilizando versões piratas antes. Após o lançamento das continuações do jogo, Clear Sky e Call of Pripyat, corri para compra-los imediatamente. Logo, fiquei tão viciado no jogo, que comecei a aprender Russo, o idioma que utilizavam nos jogos, e agora já falo quase fluentemente. Cara, eu até participei de um tour por Chernobyl (e, se quer saber, estou perfeitamente saudável). Então, eu seria uma pessoa bem diferente se nunca tivesse jogado S.T.A.L.K.E.R.

Alguns meses atrás, eu estava vasculhando o fórum russo de mods para Shadow of Chernobyl. Encontrei um tópico chamado “Horror of Chernobyl”. O tópico tinha sido criado a pouco tempo e ninguém tinha respondido ainda. O tópico continha apenas um link para um arquivo torrente – sem descrição, sem screenshots.

“Mod misterioso?”, pensei, “Vamos ver quais os seus segredos!”

Baixei e instalei.

O jogo iniciou normalmente – introdução com um caminhão cheio de corpos, um raio atingindo o caminhão, um stalker carregando o único sobrevivente – o protagonista chamado Marked One – para o bunker do negociante e uma mensagem dizendo “Kill the Strelok” no PDA do protagonista. As primeiras missões pareciam inalteradas. Comecei a imaginar quais as mudanças que o mod trazia, já que não havia nenhum arquivo de informações. Gradualmente, comecei a notar algumas diferenças. As noites estavam mais escuras, e os mutantes surgiam com mais frequência, então, sair do acampamento à noite era uma experiência bem intensa.

Novas missões secundárias também foram adicionadas, a maioria girando em torno de lugares como X-Labs, Yantar Factory ou Bloodsuckers Village. Em uma das missões, por exemplo, o player deveria pegar um flash drive em um depósito no Wild Territory.

Porém, no local havia vários corpos. Ao encontrar o flash drive em uma mochila escondida, os corpos voltavam à vida como zumbis e atacavam o player. Fiquei bastante impressionado com a ideia do criador do mod – era mesmo assustador. Mas havia algo mais, bastante perturbador.

Eu já estava com várias horas de jogo, e fazendo o caminho por uma área aberta. Acho que era o Dark Valley, não tenho muita certeza. De qualquer forma, de repente vi uma coisa no canto do meu campo de visão. Era uma figura fantasmagórica, em pé no topo de uma pequena colina. Virei para a direção onde tinha visto a misteriosa figura, mas não havia nada. Segui para a colina e cuidadosamente analisei a área com o binóculos, sem resultados. Pensei que estivesse vendo coisas, então ignorei.

Algumas horas depois, a situação se repetiu – uma estranha forma no canto da tela, que desapareceu após um segundo. Decidi verificar o fórum onde tinha encontrado o mod, para saber se outros jogadores tiveram experiências similares. O link com o mod tinha sido excluído por um dos moderadores, e substituído por uma mensagem “Luke, leia as regras” com um link para o tópico “Como e onde postar mods”. Sem a ajuda de outros usuários do fórum, decidi resolver o mistério sozinho.

Continuei a jogar, pensando que haveria um explicação em algum lugar. Comecei a explorar todos os cantos do jogo e cumprir todas as missões, mas nada encontrei. Decidi continuar com a história principal. A missão era encontrar um personagem chamado Doctor em Agroprom Underground. Cheguei ao local e tudo parecia normal – uma explosão enquanto subia a escada e o monólogo de Doctor, explicando que Marked One na verdade era Strelok - o homem que o player procurava durante o jogo.

De repente, quando o discurso de Doctor acabou, Marked One/Strelok puxou uma granada, e removeu o pino, permanecendo parado com a granada na mão. Antes que a granada explodisse, a tela escureceu e o jogo travou.

Fiquei confuso com o que tinha acontecido, mas ao mesmo tempo, tive a impressão que estava no caminho certo. Decidi tentar outra vez – acreditei que o jogo tinha travado pois havia encontrado algum erro. Lidar com bugs e travamentos, principalmente após aplicar um mod, fazia parte de S.T.A.L.K.E.R. Quando cliquei em “Load game”, percebi um novo save no topo da lista. Não tinha nome e no lugar do nome do mapa, mostrava apenas “...”. Decidi carregar esse novo save. A tela de carregamento não mostrava uma imagem do mapa – no lugar, mostrava apenas um X.

Quando o mapa carregou, o personagem estava em pé em um corredor escuro. Parecia igual aos laboratórios subterrâneos do jogo. Eu estava sem armas, munição e outros equipamentos. Como não havia nenhum outro caminho, avancei pelo corredor. De repente, a uns vinte metros à frente, uma figura cruzou o corredor, atravessando a parede. Era o fantasma que eu tinha visto antes. Corri para o local onde o fantasma havia entrado e encontrei uma porta que levava para um quarto pequeno e bem iluminado. Ali, estavam vários documentos, descrevendo coisas muito estranhas.

“Me sinto doente. Disseram que era apenas um incêndio, mas eu não acredito. Deve ser algo mais. Vi meus colegas caírem, mortos. Pelo menos eles não teriam que passar por isso – febre alta, vômitos com sangue e diarreia. Disseram que eu me sentiria melhor, mas sei que morrerei logo.” 

“Lena estava tão feliz pois seria mãe em breve. Mas o que aconteceu com o bebê? Metade do rosto da criança estava coberto com uma coisa que parecia um tumor.” 

“Papai disse que uma coisa muito ruim aconteceu e teríamos que partir. Ele não disse quando voltaríamos. Vi outras crianças deixando a cidade. Espero voltar logo.” 


“Gone are the homes the gardens and the playgrounds. Gone are the souls who made their livings here.” 


Essa última eu conhecia – era parte de uma música sobre o desastre de Chernobyl chamada “Ghost Town”. Saí do quarto e acabei parando de repente em um grande local subterrâneo. Silhuetas fantasmagóricas de pessoas de várias idades e sexos andavam e falavam entre si sem produzir qualquer som. Parecia uma cidade tranquila, embora habitada por sombras.

De repente, um alarme soou. A maioria dos fantasmas começaram a correr, outros começaram a atacar inimigos invisíveis. Um dos vultos caiu no chão imóvel. Outro tentou correr, mas tropeçou e se ajoelhou, segurando o estomago – parecia que estava vomitando. Finalmente, o local ficou vazio – todos os fantasmas haviam ou fugido ou estavam caídos no chão. A tela escureceu e um texto surgiu:


“Obrigado por jogar, stalker. Sem o sofrimento dessas pessoas, esses jogos nunca existiriam.” 

As vítimas do desastre de Chernobyl 


Essa foi a última vez que joguei S.T.A.L.K.E.R. Não que eu tenha medo de ‘jogos amaldiçoados’ – não acredito nessas coisas paranormais e acredito que o ocorrido comigo foi apenas o trabalho de algum modder louco. Pensei várias vezes em voltar a jogar, mas ainda tenho um sentimento estranho...

É como se eu estivesse dançando sobre o caixão de alguém.


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São as pequenas coisas

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Assim que nossos vizinhos novos se mudaram, alguma coisa na nossa calma e suburbana vizinhança parecia fora do lugar. Mas não me entenda errado, não começou a sair sangue das minhas paredes nem nada disso – porém as coisas simplesmente mudaram.

No primeiro dia da mudança dos Smiths, minha mãe fez questão de tentar fazer os vizinhos estranhos se sentirem parte da nossa pequena vizinhança, e ela – que estava quase sempre fora de casa por causa do trabalho – gostava de conhecer todos os vizinhos novos quando tinha oportunidade, fazendo questão de arrastar a filha estranha de 17 anos junto com ela. Isso, eu.

Os Smiths pareciam tensos o tempo todo, os dois tinham olheiras visíveis e depois de receber eu e minha mãe com um cansado sorriso, eles disseram seus respectivos nomes e o nome do bebê – que agora não consigo lembrar qual é.

É óbvio que quando você tem uma pequena criatura que grita e chora o dia todo em casa, seu nível de stress aumenta, mas eles dois pareciam que haviam acabado de sair de várias guerras seguidas.

Durante o tempo que fiquei lá, várias coisas chamaram a minha atenção – o curativo em volta da mão do marido e a mulher, que simplesmente parecia apegada demais ao bebê – mas depois de entregar alguns biscoitos não muito bem-feitos, e de alguns minutos de conversa, eu e minha mãe estávamos voltando para nossa casa.

“Bom,” Minha mãe disse, “Eles parecem um casal legal.”

“Só espero que a gente não consiga escutar aquele bebê chorando tarde a noite,” Eu murmurei e recebi um beliscão, enquanto a minha mãe resmungava sobre como eu precisava ser mais amigável.

É fácil falar, afinal, ela quase nunca estava em casa e não teria que aturar nenhuma família nova que resolvesse se mudar para a nossa vizinhança.

Algumas semanas se passaram até que as coisas estranhas começaram a acontecer. Entre a escola, e a minha mãe indo pegar o próximo vôo, eu não tive muito tempo para perceber detalhes de nada. No começo, eram apenas pequenas coisas: lixo sendo derrubado, correspondência desaparecendo, chaves sendo colocadas em outros lugares, e até a minha escova de dentes que sempre ficava no armário começou a aparecer em cima de coisas que eu nunca imaginaria. Mas nada disso me fez pensar que havia algo maligno na minha casa...

Uma coisa que me fez começar a suspeitar, aconteceu quando eu estava sozinha em casa (o que era normal), e eu havia acabado de chegar da escola. Entrei na cozinha e fui até a pia, que, para o meu desgosto, ficava na parede da maior janela, que dava de cara com a casa dos Smiths. Estando em casa ou não, as cortinas deles sempre ficavam fechadas, mas, enquanto eu lavava as minhas mãos eu vi o que parecia ser alguém abrindo uma das cortinas e olhando pra mim – me senti estranha, mas rapidamente acenei e me afastei da pia.

Quer dizer... Os dois carros deles estavam na garagem, talvez um deles estivessem olhando para o quintal, procurando algo...

Eu não percebi que os olhos por trás da janela continuaram a me observar até eu sair da cozinha.

Enquanto eu estava na mesa, fazendo meu dever de matemática e comendo a comida chinesa que havia pedido, ouvi um barulho que quase me fez literalmente pular da cadeira – veio da garagem – e logo depois, meu cachorro começou a latir e rosnar feito um idiota.

“Kimbo!” Eu gritei, abrindo a porta da garagem soltando um olhar acusador ao meu cachorro e tentando entender o motivo de ele estar latindo, mas Kimbo ficou parado inocentemente no meio da casinha, encarando uma pilha de galhos. Acendi as luzes e notei que parecia que alguém havia mexido nos galhos – como se tentasse tirar o de baixo e derrubasse todos os de cima, no chão – eu suspirei preguiçosamente enquanto observava e não senti a mínima vontade de empilhá-los novamente. Quando toquei no primeiro e maior galho, vi algo se mexendo e andando por baixo dos outros, entrando mais ainda na garagem.

Eu soltei um gritinho patético enquanto pulava devido ao susto que tomei, quase tropeçando e caindo em outros galhos que estavam atrás de mim. Nós estávamos acostumadas com alguns ratos na garagem, mas nada se comparava ao tamanho daquilo. Seria possível que um rato ou até mesmo um gambá estivesse tentando se proteger do frio dentro da nossa garagem?

Não querendo me meter com nenhum tipo de animal, coloquei Kimbo para dentro de casa, mas deixei uma parte da garagem aberta, na esperança de que seja lá o que tenha entrado, fosse sair novamente.

Depois que terminei o resto de jantar, fui para a cama e não consegui esquecer o que havia visto na garagem. Eu não podia descartar o fato de que o que estava na pilha de galhos fosse outra coisa... É aquele tipo de pensamento te dizendo que tem algo errado, quando você não tem certeza de alguma coisa, e ele simplesmente não te deixa em paz.

Eu me mexi e acordei a noite toda – com o som do aquecedor ligando ou de Kimbo roncando – mas toda vez que eu estava quase dormindo, eu tinha a impressão de que havia algo perto da minha cama, bem próximo de mim, mas nunca próximo suficiente para eu ter certeza de que não era imaginação.

Depois de passar um dia cansativo na escola, eu nem tive tempo de pensar sobre os acontecimentos da noite anterior – até que eu cheguei em casa.

A primeira coisa que senti foi o cheiro de comida podre na cozinha, a lixeira estava derrubada e o lixo espalhado, isso não estava certo.  Olhei pela janela e vi Kimbo estirado na grama, brincando com seu osso e enquanto eu arrastava o saco de lixo para fora da cozinha, percebi que havia rasgões e arranhões, que me lembravam cortes de facas.

Fazendo o meu melhor para não derramar, levei até a garagem e coloquei em outro saco, mas enquanto eu fazia um nó, vi algo pelo canto dos meus olhos praticamente escorregar ao meu lado. Parecia uma aranha, se estivesse usando sapatos de salto alto.

Que porra era aquela?

Peguei um atiçador de fogo e comecei a ir em direção da cadeira que a coisa se aproximou, de jeito nenhum eu ia me arriscar perder aula e ter que tomar injeção por causa de um rato qualquer que decidiu fazer da minha garagem a casa dele. Cutuquei a cadeira, respirando fundo, e pronta para correr a qualquer momento.

Depois de um tempo comecei a arrastar a cadeira para o lado, até que ela virou e caiu, fazendo um barulho insuportável e alto.

O que estava sentado embaixo da cadeira, amuado e encurralado, parecia um gato sem pêlo a primeira vista, mas depois de vários segundos encarando, percebi que não era bem aquilo.  

Aquela, coisa... Tinha olhos pretos e intensos que pareciam não ter fim, não tinha pescoço para determinar onde começava o peito, e o rabo balançava calmamente – não tinha pelo lá também, e a ponta era enrolada e suja – ele era relativamente pequeno e por algum motivo o imaginei em um velocípede. Mas essa não era a pior parte, não. A parte que mais me assustou foi quando aquela coisa rosnou pra mim, com seus pontudos dentes amarelados.

Eu tive a impressão de que ele tinha dentes demais na boca – como um tubarão, que tem dentes de sobra – suas pernas estavam dobradas e seu abdômen estava a menos de um palmo do chão, no começo, achei que ele estava apenas mostrando os dentes pra mim, mas depois, percebi que estava sorrindo...

Sorrindo! Sua pele estava esticada enquanto ele me mostrava um sorriso com todos os dentes.

Foi naquele momento que eu soube.

Eu soube que não era apenas uma aberração da natureza, soube que não havia saído das florestas e procurava abrigo em garagens. Essa coisa sabia o que estava fazendo e sabia que eu estava com medo, ele pensava e entendia, e eu nunca havia visto nenhum animal – com medo ou com raiva – que tivesse aquele olhar maligno no rosto.

Eu não pude evitar o grito que escapou da minha garganta, andando para trás com um atiçador de fogo nas mãos, tentando me aproximar da porta, mas a criatura não pretendia me deixar ir.

Ele começou a se arrastar mais rápido, o que parecia ser fácil, com aquelas pernas enormes, mas eu o chutei com toda a força que consegui acumular e o vi voar para o outro lado da garagem. Sem olhar novamente, bati a porta da garagem atrás de mim e tranquei um momento depois, parando e ouvindo o som do outro lado, parecia que um esquilo estava caminhando no local, mas depois de um tempo, percebi que ele estava se jogando contra a porta, e apesar de não ter quase nenhum efeito, cada vez que ele se jogava meu coração batia mais rápido.

Eu não sei por quanto tempo fiquei contra a porta, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, e quando eu finalmente consegui parar de chorar, fui achar meu celular na sala.

Naquele momento eu não me importava em assustar minha mãe com meu histerismo, tentei explicar pra ela entre soluços e lágrimas, e quando terminei, ela disse que era a minha imaginação e que a minha mente estava tentando me enganar, um minuto depois, disse que seu vôo havia acabado de pousar e que ela levaria uma hora no máximo pra chegar em casa.

Quando ela finalmente chegou, eu já estava trancada no meu quarto com Kimbo, sentada no canto, abraçando meus joelhos. Ela hesitou ao perceber a quão assustada eu estava, sem falar que eu estava tão branca quanto um lençol.

Eu fui até a garagem com ela novamente – eu estava tão perto de sair correndo e ir para a casa de algum amigo – mas não falei isso pra ela, afinal, mesmo se eu quisesse não poderia deixá-la sozinha na casa com aquela coisa.

Ela começou a cutucar os galhos jogados e a pilha de atiçadores de fogo, e até levantou a cadeira que eu havia derrubado...

Não havia nada lá.

Não havia nem sequer uma pista da existência daquele ser na garagem, ele certamente não era um amiguinho da floresta, mas... Será que estava lá pra me matar?

Naquele momento minha mãe estava irritada e cansada, e me mandou dormir. Claro, dormir é a solução de tudo... Apenas durma e quando você acordar tudo vai estar bem, não é?

“Você não pode deixar essas pequenas coisas te afetarem, são sempre as pequenas coisas...” Ela disse, notando a quão estressada eu estava, e tentando me convencer de que era culpa das provas finais e da escola.

Eu não dormi nada naquela noite, não ia dar a chance de aquela coisa entrar no meu quarto e me atacar enquanto eu o fazia.

Mas na manhã seguinte minha mãe continuou falando que era tudo na minha mente, e eu sinceramente acreditei nela, era a saída mais fácil, e eu queria apenas ir para a escola a evitar qualquer conflito. Depois de me convencer disso, eu me foquei muito mais nos estudos e não tinha tempo para pensar naquilo, o que me ajudou bastante, pois eu precisava estudar e a minha mente não tinha espaço para outra coisa a não ser os assuntos... Isso funcionou até que a escola parou de funcionar e fui forçada a ficar em casa por causa do inverno rigoroso. Minha mãe me prometeu que estaria de volta no natal, e por mais que eu quisesse pedir pra ela ficar, eu apenas a deixei ir, não valia à pena discutir sobre isso, era o trabalho dela.

Eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei com medo, mas os primeiros dias de recesso passaram rápido. Eu tinha Kimbo do meu lado 24 horas por dia, assim como o atiçador de fogo, que não foi necessário, porque sério... Nada estranho aconteceu, era como se tudo tivesse voltado ao normal.

Eu finalmente senti como se pudesse relaxar, e no natal, eu decidi passar a tarde toda assistindo filmes ruins e comendo pipoca. Antes que eu percebesse o sol estava se pondo, eu fiquei perto da lareira com Kimbo do meu lado e minha mãe estaria em casa logo.

Então eu ouvi, e aquele barulho fez todo o pânico e medo simplesmente voltar pra mim. Aquele som da coisa se arrastando, e apenas ficava mais alto e mais perto a cada segundo.

Mas não estava vindo da garagem.

Estava vindo do corredor ao meu lado, próximo ao final do sofá.

Eu sabia que a luz da TV e da lareira eram suficientes para iluminar o corredor, e por um momento eu pedi á Deus que não fosse.

Aquela coisa estava vindo na minha direção e não tinha medo do escuro, mas da última vez que eu o vi, ele se mexia rápida e agressivamente – e dessa vez estava diferente, como se estivesse rápido e mantendo a calma ao mesmo tempo –  a coisa se mexia como se fosse controlada por alguém, suas pernas enormes e esquisitas se esgueirando no corredor, até chegar na sala, e não parou de sorrir, nem por um segundo, nem mesmo quando eu gritei o mais alto que pude, me jogando do sofá e tentando alcançar meu atiçador de fogo.

Antes que minhas mãos pudessem alcançar o atiçador, eu senti como se estivessem enfiando mil agulhas pontudas na minha pele, penetrando cada vez mais meus músculos. Eu choraminguei e olhei pra trás, percebendo que aquela coisa tinha fincado seus dentes na minha perna, e foi mais rápido do que eu pensei que seria... Senti-me paralisada, ainda tentando pegar o atiçador, mas sem sucesso. 

Eu não ouvi os rosnados da criatura enquanto Kimbo atacava o monstro, fincando seus dentes na carne despelada dele, que fez um barulho horrível, como um porco e um gato choramingando ao mesmo tempo enquanto meu cachorro continuava mordendo-o com toda a força. Mas eu não esperava que ele fosse desistir tão facilmente, e eu estava certa, pois um momento depois, sua unha pontuda atingiu Kimbo na lateral, fazendo com que o cachorro se afastasse e choramingasse, enquanto a criatura ia em direção ao porão.

Levantei o mais rápido que pude e peguei o atiçador, e palavras não descrevem a dor que sentia na minha perna naquele momento, eu nunca imaginei uma dor como essa, e sempre achei que a adrenalina servisse de morfina ou algo do tipo. Não era só isso, a mordida foi profunda e o sangue já estava atravessando o tecido da minha calça, mas eu não podia ficar me lamentando naquele momento.

Aquele monstro esperou até que eu abaixasse a guarda, ele assistiu e aguardou silenciosamente antes de me atacar. Mas ele não ia vencer, eu não ia deixar ele me machucar novamente, ou a minha mãe, ou Kimbo. Eu tinha que matá-lo.

Tentando não chorar enquanto caminhava me aproximei da dispensa e peguei o spray limpador de forno, e enquanto eu fiquei perto da escada soltei um suspiro pesado. Ele tinha que estar no porão, era o único lugar que tinha uma saída pra ele – eu acendi a luz e comecei a descer as escadas devagar, observando os degraus, caso ele estivesse abaixo de mim.

Que piada, uma adolescente descendo as escadas com um atiçador de fogo e um spray limpador de forno nas mãos, se eu não estivesse quase me mijando de medo eu provavelmente estaria rindo.

Quando finalmente alcancei o chão, olhei para todos os cantos do lugar. Sofás encostados na parede, a TV, e uma mesa de bilhar do outro lado, mas a coisa não estava lá. Eu virei para trás e observei o canto próximo ao sofá, ainda tremendo, e me lembrei que minha mãe chegaria logo e provavelmente iria me matar por causa do sangue no tapete.

Foi então que percebi que essa coisa não estava apenas brincando de esconde-esconde.

Queria me matar, me destruir e me deixar louca. Por isso me fez pensar que eu estava a salvo, tudo isso apenas fez ficar mais divertido pra ele – por isso ele fez questão de esperar eu abaixar a guarda.

Ouvi um barulho próximo á máquina de lavar, e, ÓBVIO! O único lugar que eu não havia checado! Eu havia acabado de me virar quando o vi voando na minha direção, gritando, e eu pude ver a raiva brilhando em seus olhos, tentando se vingar das marcas de dentes que ainda estavam nas costas dele.

Em um momento de reflexo rodei rapidamente e atingi a coisa com o atiçador na cintura, fazendo voar até a parede mais próxima, eu não podia ficar muito tempo lá ou ele conseguiria o que queria. 

Comecei a subir as escadas correndo, mas quase imediatamente caí e bati minha cara no chão quando minha perna falhou, podia ouvir o barulho dele se arrastando cada vez mais rápido enquanto eu derrubava o atiçador e tentava achar o spray de limpar forno, minhas mãos tremiam violentamente e eu quase derrubei tudo entre os degraus. Quando ele finalmente alcançou meus pés, eu virei e o atingi, fazendo de tudo para que não sobrasse nem sequer uma parte daqueles olhos malditos sem spray.

Se ele não estava com raiva antes, agora ficaria.

Eu aproveitei a oportunidade e comecei a subir as escadas novamente, ignorando a dor enquanto eu alcançava o final, me sentia tonta e cansada, mais provavelmente por causa da minha perna que ainda sangrava, encostei-me à parede e procurei outra arma, mas esse monstro não estava disposto a me dar nem sequer um segundo de descanso, se jogando no topo da escada, não tentando se apoiar em nenhum dos móveis, mas sim se apoiar em mim.

Quando eu finalmente achei as facas, tentei o atingir o mais rápido que pude, mas isso apenas deu a ele a oportunidade de alcançar outra parte do meu corpo e enfiar seus dentes novamente, só naquele momento senti o cheiro de ovo podre que emanava da sua boca.  Eu o empurrei enquanto ele continuava a me morder, e quanto mais eu balançava meu braço, mais ele me mordia. Eu não consigo me lembrar se chorei ou choraminguei, mas aquele foi provavelmente o grito mais alto que eu dei em toda a minha vida. Eu precisava parar, antes que eu perdesse algum pedaço do meu braço.

Arrastei-me na cozinha, sentindo a dor cada vez mais forte e tentando ignorá-la. Esse enviado do inferno não iria vencer, eu não iria morrer por causa de um bicho despelado, ridículo e fedorento.

Bati minha mão no balcão e ouvi alguns copos caírem no chão, e quando ele abriu a boca para me morder novamente, eu o atingi com tudo que pude na cabeça com um pedaço de vidro, e, soltando um grito de raiva e dor, o empurrei de cara nos vidros quebrados do chão, esmagando a cara horrorosa dele.  Ele mexia as pernas, e o rabo, tentava se levantar e me morder novamente, mas eu continuei pressionando e o atingindo na cabeça, até que a criatura diabólica ficou parada em minhas mãos.

A cabeça dele não estava mais conectada ao corpo e mesmo assim precisava ter certeza de que não se levantaria nunca mais, então, o atingi novamente com outro pedaço de vidro. Meu braço parecia doer ainda mais a cada momento que passava, e eu não sei quanto tempo fiquei no chão, mas minha mãe chegou e me achou lá, sem entender absolutamente nada do que havia acontecido, porque Kimbo estava deitado choramingando e porque eu estava no chão da cozinha coberta de sangue.

Ela me levou ao hospital e levou Kimbo ao veterinário, e a polícia veio falar comigo, achando meu sangue no sofá e no porão, mas mesmo depois de eu contar o que aconteceu, eles simplesmente não pareciam acreditar em mim.

Depois disso, minha mãe decidiu se mudar e a nossa cidade não ficava mais perto da floresta, os Smiths vieram se despedir e os dois pareciam menos cansados.  Mas quando Laura – acredito que esse seja o nome dela – viu os curativos em volta do meu braço e perna, ela parecia assustada. Ela me perguntou se eu estava bem e a minha mãe resolveu contar a versão dela da história – aquela que ela ignorava tudo que eu falei e apenas diz que foi um animal que me atacou – Laura parecia completamente histérica, ela praticamente correu até a casa dela e o marido ficou nos pedindo desculpa, e um momento depois, foi atrás da mulher.

Nós nos mudamos sem falar novamente com eles.

Anos depois quando fui para a faculdade e estava morando no dormitório, eu decidi parar de estudar por um momento e apenas passar um tempo online. Eu tentei deixar o que havia acontecido no passado, mas as cicatrizes sempre me lembrariam e sempre estariam lá, literalmente. Eu ainda lembrava dos Smiths, e decidi pesquisar sobre eles – mais precisamente, a mulher, já que era a única que eu consegui gravar o nome –

Mesmo com um nome tão comum, ainda consegui achar algo sobre eles.

Laura e James Smith tinham duas filhas gêmeas, e viviam a pelo menos 5 horas da minha vizinhança.  A notícia explicava que a Sra. Smith acordou no meio da noite quando ouviu as duas filhas chorando, e por ser um horário anormal, ela decidiu checar. Quando ela chegou ao quarto, ela ficou horrorizada ao encontrar alguém, ou alguma coisa, atacando uma das gêmeas.

O artigo não entrou em muitos detalhes, mas estava dizendo que Laura bateu na coisa com um abajur, mas mesmo assim, era tarde demais. Ela estava morta. A notícia também explica que os policiais foram chamados a cena do crime, mas não havia sinal de arrombamento e o caso foi fechado.

Se eu estou seguindo os fatos corretamente, os Smiths se mudaram para nossa vizinhança três meses depois do acontecido.

Senti um frio na espinha, era como se a última peça que estava faltando simplesmente se encaixasse.

Me vi entrando na cozinha anos antes e vendo alguém do outro lado, olhando pra mim da janela dos Smiths... Era o monstro. Seguiu os Smiths até a nova casa deles e provavelmente ia finalizar o que havia começado, até que me viu.

Ele achou uma coisa mais legal pra passar o tempo, e essa coisa era eu.

O que quer que tenha sido aquilo, um demônio do inferno – ou o diabo – queria me matar naquela noite, se eu não tivesse matado ele, ainda estaria atrás de mim, e julgando o quão longe chegou, ás vezes me pego acreditando que ele ia conseguir.


Apenas se lembre: ás vezes, algumas coisas estranhas começam a acontecer e pode ser apenas coincidência. Mas se não é, se continua ficando pior e você sente tua mente te avisando mesmo quando aparentemente não tem nada demais, saiba que são sempre essas coisas pequenas que te esperam no final.

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