Não importa o que você fizer, a polícia vai descobrir o seu crime

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Cheguei até o hospital e observei a porta branca com uma placa escrita: "Dr. Zachary Quinto. Psicologia em geral". Peguei do meu bolso, encostado na calça, e comecei a observar às anotações pessoais. De acordo com os registros, a última pessoa que Naomi Grossman visitou, antes do desaparecimento, foi o seu médico particular, o psiquiatra forense. Imaginei comigo mesmo que seria muito questionável, além da coincidência assustadora, para os olhos mais inocentes, envolvendo um sumiço de uma garota tão jovem.

"Maldito desgraçado, logo a polícia vai descobrir o que você fez!". - disse a detetive com um timbre agudo, parecendo cada vez mais irritada e furiosa. Bati algumas vezes na porta até ouvir uma voz do outro lado me pedindo para entrar. Denunciei que era um detetive e estava investigando o desaparecimento de uma garota. Seus olhos ficaram confusos e falou que precisava de um mandado ou horário marcado, mas eu ostentei o medalhão dourado, que estava preso no meu pescoço, e ele me pediu para entrar.

Aparentemente, estava desnorteado e não se sentou até que eu me aproximei mais um pouco e a detetive, nas minhas costas, foi chegando sem pressa como eu. Então fui direto ao ponto, quando disse que Naomi estava desaparecida. O psiquiatra logo começou a puxar a sua gravata do pescoço, como se estivesse o impedido de respirar, colocou os seus dois dedos ainda mais afrouxando o nó que, aparentemente, ele mesmo o fez na sua garganta e me pediu para sentar. Naquele instante, aconchegando-se na poltrona na minha presença.

"Você já deve ter uma noção do que eu estou falando e espero que esteja tudo bem". - Para analisar a situação, levei consideração os seus cabelos com gel caro, penteados para trás, lambidos como a língua de um boi, bem nojentos. A sua roupa que estava ficando cada vez mais transpirada pelas axilas e a maneira frenética que ficava puxando a gravata no seu pescoço. Este, tentou segurar a garrafa de café, suas mãos vibrantes não paravam de entregar ao seu nervosismo e a forma que a massa os copos descartáveis, era ainda mais gritante diante de uma situação dessa.

"O que aconteceu com a senhorita Naomi Grossman? É uma das minhas pacientes, e estou preocupado." - perguntou ele colocando suas mãos em cima da mesa, sentando-se na cadeira de uma forma mais firme. Curioso, mas assustado, ao mesmo tempo, com uma risada desformada no rosto, visivelmente forçada demais e exagerada, com uma pergunta confusa e preocupada em sua maneira de se comportar.

"- A garota desaparecida, até então, de acordo com os meus registros pessoais, visitou o seu escritório pela última vez, da mesma forma que fez isso nos últimos meses. É um pouquinho curioso, certo? O que você tem a dizer a respeito disso, Doutor Zachary Quinto!?." "Desaparecida? Eu estou tão confuso quanto a isso. É uma pessoa excepcional, uma das minhas pacientes mais queridas e eu quero saber o que aconteceu. O que você sabe a respeito?"

"- Ok, Zachary. Eu estou aqui porque sei o que você fez com ela. Não tente disfarçar com seu joguinho típico de um mentiroso qualquer! Certamente não passou na sua cabeça a quantidade de pessoas que eu conheci, semelhante a você. Hoje não, em nenhum momento, venha com suas desculpas e ensinação, jovem bonitão. É melhor manter esse momento para o mais verdadeiro possível. Logo em seguida, disse a detetive ao meu lado: acha mesmo que a polícia não vai descobrir o seu crime. As evidências estão apontadas ao seu desfavor, seu desgraçado!"

O psiquiatra levantou-se rapidamente. Um rapaz bem aventurado e alvoroçado, não conseguia segurar a inquietação, nervosismo em nenhum minuto desde que entrei aqui e nos momentos em que mencionei o nome de Naomi. Logo cuspiu ferozmente: "está tudo bem! É isso mesmo que você quer saber? Era apenas uma vadia, mulher promíscua, que saia com várias pessoas. Muito bonita e atraente. Qualquer um ficaria encantado com seu charme e a maneira de provocar. Tudo bem, eu estava me encontrando com a minha cliente, quase todos os dias; mas isso não me torna o responsável por seu desaparecimento, detetive, é isso mesmo que você queria ouvir!?

"Maldito desgraçado! Parei com os seus joguinhos, pois nenhum deles vai fazer escapar do seu crime. Não sente o cheiro da prisão, o sangue está sendo derramado no seu rosto e a culpa vai lhe abraçar em um infortúnio próprio. Você vai pagar por cada coisa que fez." -Sussurro a policial próxima do meu ouvido, bastante irritada e incomodada com tudo aquilo que estava vendo.

"Olha aqui, seu engomadinho! Acha mesmo que as coisas vão ficar assim? Pense bem o que vai acontecer a partir de agora! O principal suspeito é o psiquiatra da garota sumida, tendo caso com a sua vítima e depois assassinando ou escondendo o seu corpo friamente. Imagine a repercussão. Eu poderia muito bem divulgar isso nos jornais e fo**r sua vida completamente, seu babaca arrogante! Apenas responda as perguntas que eu vou fazer e fique de bico calado para qualquer tipo de irritação pessoal, de acordo? - Eu estava agarrando as suas roupas e puxando o seu peito para próximo de mim. Armei um soco bem no meio do seu nariz e percebi a merda que eu estava fazendo. Os braços do psiquiatra estavam levantado, como uma bandeira de paz, e o cagaço escapando entre cada movimento que fazia com seu corpo indefeso e entregue à mim pelo medo. Literalmente morrendo nas minhas mãos pelo estrume e a covardia.

"Quero que você me fale dos encontros, segundo o senhor mesmo, da Naomi Grossman. Exijo conhecer com quem ela estava saindo recentemente. Todas as informações de possíveis namorados obsessivos, agressões, ameaças, tudo aquilo que vocês conversaram pelas últimas reuniões." -Perguntei, sentando-me novamente, arrumando as minhas roupas e escrevendo no bloco de notas.

"Namorados? Sigilo de profissão. Eu não posso dizer nada, com todo respeito, detetive... você não falou seu nome. Eu tô no meu direito de..." - interrompi com um soco forte na mesa, que fez as canetas, guardadas em um recipiente, saltarem e alguns objetos caírem para o lado. Apontei o dedo furioso sobre ele mostrando que iria perder a profissão por estar dormindo com uma das suas pacientes, ainda mais, uma desaparecida, e que o tornaria um dos principais suspeitos, além de perder o seu trabalho. Não apenas isso, iria lidar com a sua esposa, pois observei a aliança entre os seus dedos.

"Não percebeu que tudo que você faz não irá ajudar!? As investigações logo irão encontrar o seu segredo e descobrir o você fez!" -Latiu a detetive, mais uma vez irritada e aborrecida, agora no canto da sala. Apenas mastigando e devorando todo aquele homem que estava diante dos seus olhos.

O cara chutou a mesa, de baixo para cima, ainda mais agressivo, quanto o meu soco que de aborrecido na sua tábua de escritório. Uivou, desesperadamente, as seguintes palavras. Já fodi** o suficiente pelas coisas que eu sabia, expulsou cada coisa que existia no seu cofre pessoal, dentro da sua alma, rastejando entre o seu peito e sua mente incriminada:

"Tratava-se de uma garota problemática, sempre aprontando e fazendo besteiras. Normalmente, estava desabafando sobre suas noites de luxúria com caras diferentes, todos os dias. Uma mulher bonita de fato, porém vergonhosamente não se respeitando. Já deu para perceber que eu dormi com ela algumas vezes, que homem não resistiria aquela beleza e o seu charme provocante!? Eu sou casado, você percebeu isso, e estou a um ponto de perder a mulher que eu amo por conta de uma noite com uma vadia promíscua. Não quero pagar por isso! O que você deseja de mim, policial, não é a confissão suficiente que procura aqui!?" - disse ele, desabafando com um tom imaturo, assumindo as coisas que fez e, aparentemente, não tinha nada a ver com um crime. Isso já seria suficiente para escapar de um sequestro ou assassinato.

"Aparentemente você não sabe de nada. Eu só queria saber o que aconteceu na última vez que ela apareceu no seu escritório, além dos amantes típicos. Não descobriu nada recentemente? Estou tentando ser legal, sendo assim, seja maduro o suficiente para dizer tudo que sabe, porque não vai querer que eu volte ou outro detetive apareça aqui. Nesse momento, estou tentando preservar sua profissão e o seu casamento, certo. Está tudo sendo gravado aqui pelo meu celular. Posso muito bem usar isso para arruinar com sua vida. Então, me diga se ela estava se encontrando com mais um cara, além dos gados de ultimamente!" - Dessa vez eu fui direto ao meu propósito. A expressão da detetive estava ainda mais ansiosa por uma resposta do psiquiatra, e ficamos nós dois observando ele, enquanto transparecia colocando lenços e massageando sua testa com a manga da sua roupa para formular um retorno na sua boca trêmula e patética.

"Na verdade, nos últimos dias, ela disse sobre está encontrando-se com um profissional do seu trabalho, um companheiro de muito tempo, mas eu não sei o nome e de quem se trata, não falou muito além disso, e não sei nada mais do que tencionava dizer e é tudo isso que posso contar. Algumas vezes, disse sobre comportamentos maníacos, ameaças, entre outras coisas, por causa de ciúmes. Entretanto, não faço a mínima ideia de quem seja, como já afirmei agora há pouco." - Finalmente, ele disse calmo, juntando alguns arquivos, que eu não faço a mínima ideia de quem sejam, em um monte e posicionando diante do seu estômago, em cima da mesa, e apontando para mim como se estivesse desabafado tudo aquilo que eu precisava saber.

"Você não pode escapar, seu miserável! As investigações estão no pé." - Eu interrompi as palavras da detetive com um "Ok". Já não é suficiente nós estarmos saindo daqui? - Expulsei como se fosse um soco irritante direto nos seus julgamento irritados.

Saí do escritório psiquiatra do Zachary Quinto, riscando mais um nome e o último deles. Depois de tudo, ninguém sabia mais ou usaria qualquer tipo de evidência para encontrar o assassino. Tudo parecia limpo, uma vez que ninguém, em nenhuma circunstância, imaginária quem seria o real algoz da detetive Naomi Grossman que, nesses instantes, encontra-se atormentando às minhas noites, o seu espírito imundo e julgando-me por cada segundo de ter matado e escondido o seu corpo nas tábuas da minha sala, devidamente ocultada por um tapete. O cheiro abafado por produtos químicos, ninguém conseguiria encontrar, e nenhum tipo de sangue, pois eu consegui e conhecia muito bem a perícia.

Antes de sair, eu falei para o alienista que mais ninguém necessitava saber da minha presença aqui para o seu próprio bem, já poderia utilizar aquela lixeira, que ele regurgitou agora há pouco, para destruir os arquivos na máquina em pedaços a respeito da policial problemática. Pessoalmente, tratando-se dos últimos encontro da Naomi, aquela parceira de trabalho que brinca com os meus sentimentos como qualquer outro, o doutor certamente vai obedecer sem dizer um ar as minhas ordens.

Agora ela está nos meus ouvidos, chamando-me de assassino, criminoso, manipulador e traiçoeiro, mas sabe que, de acordo com a nossa profissão, ninguém pode me incriminar, dado que eu consegui muito bem me livrar de qualquer tipo de testemunha e os vestígios do meu crime em sua morte.

Autor: Sinistro

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A garota no espelho

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O indivíduo é do sexo feminino. Cabelos longos e pretos, pele clara, olhos de cor castanho escuro, aproximadamente 1.70 de altura. À primeira vista passa uma feição inexpressiva.

— Senhorita Mary, certo? — pergunto.
— Isso — ela responde.
— Por onde a senhorita prefere começar?
— Eu não quero falar nada sobre absolutamente nada — seu olhar, antes inexpressivo, torna-se de seriedade.
— Senhorita Mary, o único motivo de eu estar aqui é porque quero ouvi-la. Está tudo bem. Quero que me encare como seu amigo, nada mais que isso. Se tem alguém que pode lhe ajudar agora, sou eu, mas para isso eu preciso saber da verdade — tento estabelecer uma aproximação.
— Hum... — Mary franze a testa como se estivesse processando o que falei.
— Acha que podemos fazer isso? — insisto.

Nesse momento, Mary analisa toda a sala, vasculhando cada mísero cantinho com seus olhos. Um leigo talvez achasse que ela está procurando algo, mas tenho certeza que ela está se certificando que algo ou alguém não está aqui. O que é bem estranho para a situação, dado que estamos sozinhos em uma sala fechada.

— Você tem algum espelho aí? — ela pergunta.
— Bem... Não.
— Tem certeza?
— Sim — afirmo enquanto esvazio meus bolsos.
— Então tudo bem. Eu vou te contar.

Foi bem mais fácil do que pensei que seria... e bem mais estranho também.

— Começou quando eu era bem pequena. Devia ter uns 10 anos. Minha mãe tinha acabado de sair só pra dar um oi na vizinha e eu tinha decidido escovar os dentes. Quando cheguei no banheiro e olhei no espelho, ela estava lá. A garota.
— Tinha uma garota no banheiro? — pergunto.
— Não, no espelho — responde ela com os olhos arregalados.
— Você quer dizer você, não é? Você quem estava aparecendo no espelho.
— Não, não — ela nega como se eu estivesse falando a maior bobagem da década. — Mas admito, ela parece bastante comigo, tipo, quase tudo mesmo. As pessoas sempre costumam achar que sou eu.
— E qual a diferença entre vocês?
— Ela parece... — olha para os dois lados como se estivesse prestes a me contar um grande segredo. — Errada. Ela parece errada! Como se algo estivesse fora do lugar. Como se de alguma forma, ela não devesse estar ali, entende?
— Entendo — na verdade, eu não entendo — E de que forma isso se relaciona com a nossa 'verdade'?
— Naquele dia, quando a vi, eu não consegui me mexer... Até que ela se mexeu. Meu corpo imitava tudo o que ela fazia, totalmente contra minha vontade. Mas às vezes eu errava.
— Como assim errava? — me vi mais imerso na história do que deveria.
— Ela se movia de um jeito, mas eu não fazia igual. Isso não acontecia sempre, era só às vezes mesmo — ela falava como se fosse algo natural. — O ponto é que... Sempre que tem um espelho ou até mesmo um reflexo, não sou eu quem toma as ações.
— Olha, senhorita Mary — respiro fundo. — Lhe parabenizo por ter me feito por um segundo dar um pouco de credibilidade a essa história. Mas de todas as explicações para um crime, essa foi a pior. Não sei se é pior você achar que isso realmente é verdade ou você ter inventado tudo isso só para fazer uma brincadeira comigo. Eu queria apenas lhe ajudar.

Levanto enfurecido, mas em dúvidas se era com a senhorita Mary pela história absurda ou se era comigo mesmo por estar cogitando que fosse verdade.

— Espere, doutor! — ela grita antes que eu saia da sala. — Eu nunca mataria meu marido, juro!

Fecho a porta e saio.

"Que absurdo! Matou o marido e diz que foi um fantasma no espelho!", é o que eu repito para mim mesmo. Não me entenda mal, não acho que foi uma grande história super bem contada, mas se você visse e ouvisse como ela contava, as expressões, o tom de voz... Um leigo acharia que foi atuação, mas eu tenho certeza que ela acreditava piamente em tudo que estava falando, e isso me perturba.

Em casa, todos os espelhos parecem meus inimigos. Sou um homem cético, mas algo na história daquela mulher me deixa inquieto, algo me faz querer investigar.
Nessa noite, praticamente não dormi. Estou ansioso para encontrar com Mary mais uma vez, ainda mais por saber que essa será a última.

Cheguei 1 hora antes do horário marcado para a sessão e esperei na sala, inquieto. Dentro do meu bolso, há um pequeno espelho. Eu vou mostrá-lo. EU PRECISO MOSTRÁ-LO. Tenho que saber como ela vai reagir. Eu não estou louco, só quero ver com meus próprios olhos que nada vai acontecer e acabar com essa paranoia. MERDA! Sou um psiquiatra com PhD, MERDA!

Finalmente, Mary chega. E no exato momento em que ela senta a minha frente, paralisa. Vidra seus olhos em mim. Sua cabeça treme levemente como se estivesse prestes a convulsionar.

Começo a suar.

Meu coração começa a acelerar.

Meu olho esquerdo começa a tremer.

Engulo a seco.

Será que é verdade? Será que ela pode sentir que eu estou com um espelho? Será que estou louco? Será que ela só é simplesmente louca?
O que pra mim parecem 10 horas ininterruptas de Mary me encarando de forma inumana são na verdade 15 segundos.
Repentinamente, Mary volta ao normal.

— Doutor, você está bem? — ela ri.

Repentinamente também, eu volto ao normal. Passa-se pela minha cabeça todos os psicopatas, sociopatas, esquizofrênicos e lunáticos que eu já tinha ouvido. Todas as histórias e declarações absurdas. Percebo que me deixei levar e afetar por uma semana ruim. Tudo que eu preciso é de uma folga.

— Mary... — respiro fundo. — Vamos começar?

Hoje, consegui ter uma consulta e conversa decente com Mary e a diagnostiquei. Esquizofrênica.
Para o azar de Mary, apenas esse laudo não a impede de ser condenada à pena de morte por injeção letal.

Decido visitar Mary na prisão na véspera de sua sentença ser cumprida. Acho que ninguém mais irá visitá-la. Como a última pessoa a ouvir seus sentimentos, decido tentar confortá-la de alguma forma e me desculpar pela nossa primeira sessão.

A visita é igualzinha aquela dos filmes mesmo, com uma divisória de vidro e cada um com um telefone.
Vou direto ao ponto.

— Oi Mary... Olha... Quero me desculpar, não fui profissional na nossa primeira sessão. E amanhã... Não quero que você se vá pensando que todos lhe acharam louca ou algo do tipo. Nesse último dia, valorize suas próprias verdades e encontre paz com você mesma.
— Está tudo bem, doutor — diz ela com calma. — Obrigado por tudo. Tudo mesmo. Você me fez encontrar a paz depois de muitos anos.
— Acho que falar sobre aquelas coisas te fez sentir melhor, não é? Talvez se tivesse tentado antes não tivesse sido tarde demais...
— Não, doutor, não estou falando disso. Estou falando de ter levado aquele espelho escondido com você naquele dia.

Estou gelando.

— O esp-pelho? M-as — travo.
— Ela sussurrou pra mim, doutor. Ela disse que eu não precisava mais me preocupar, que agora ela iria morar com o senhor. Se você reparar bem, já vai conseguir vê-la por lá, nos seus espelhos. Ou talvez ela já tenha se encontrado com sua esposa ou filhas, se o senhor tiver.

O guarda anuncia o fim do horário de visitas.
Continuo paralisado.

— Tá tudo bem, doutor — disse Mary. — Só não cubra os espelhos. Isso faz ela gritar muito.

Autor: Lucas Queiroz

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Surtos em um entardecer de Março

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A viatura apareceu pintando todas as paredes da rua de vermelho e amarelo, girando em todas as direções. Tudo parecia tão morto quanto a pandemia. Os dois homens desceram do veículo e encontraram a senhora no endereço indicado pela ligação de emergência, relatando sobre um assassinato. De acordo com a chamada, uma mulher havia matado seu bebê de seis meses, afogando-o dentro de uma panela. Aparentemente, arrependeu-se ou estava entregando-se pelo seu crime hediondo.

Os olhos deles foram diretamente ao seu objetivo. Claramente não existia nada além disso, observaram a senhora destruída e acabada, em cima do carpete de "boas-vindas". Seus cabelos longos cobriam seu rosto, e suas mãos estavam para frente. Uma camisola de dormir rosa ocultava o seu corpo branco. Máscaras cirúrgicas descartáveis era tudo o que os homens estavam ostentando no rosto para evitar a contaminação do COVID-19 que, desde o início, estava atormentando todos. Aproximaram-se da porta e pediram à mulher para entrar - com a autorização dela, é claro, já que não tinham o devido mandado.

Perguntou um dos policiais, com o nome de Benjamin, enquanto segurava um caderno de anotações próximo ao seu peito direito e desligava o rádio patrulha no seu ombro: "Senhora, o que aconteceu, pode me dizer com clareza? Recebemos uma denúncia de assassinato, uma confissão, na verdade." O outro policial continuou examinando em todas as direções, com o olhar preocupado e não saindo da sua posição, ao lado do seu companheiro.

"Eu não sei. Tudo parece um tormento e minha cabeça começa a doer quando tento lembrar. As memórias vagas desaparecem como um pesadelo, mas sei muito bem o que eu fiz... Ele ainda está lá dentro da panela de pressão, com seus pés acima da água, afogado e morto, mas eu sei que tem algo além disso! Lembranças como partes fragmentadas... Estão assistindo televisão, passando os canais, falando sobre a mesma contaminação viral e, num desses intervalos, eu vi algo misterioso..."

"Misterioso?" - murmurou o homem, que ainda continuava intrigado, olhando em todas as direções, e o outro não parava de rabiscar em um caderno pequeno as informações que estava ouvindo do ocorrido.

"Sim, senhor! Eu estava mexendo no controle remoto até que vi um anúncio, aquele tipo de comunicação urgente do Governo, falando sobre o Covid-19. As notícias não eram nada de inovadoras, diziam sobre: lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool gel, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca e manter os ambientes bem ventilados e, além disso, decretando, numa nova lei de acordo com o presidente atual do Brasil... falava que devíamos matar todas as crianças e velhos sem piedade alguma, dado que eram os principais devorados por tudo isso e que os seus corpos, com o passar do tempo, estavam sendo casulos para uma coisa ainda maior, que superaria qualquer tipo de obstáculo no combate contra o contágio.

É Isso que está matando todos, uma caracterização da mutação do coronavírus e ainda pior do que imaginamos, segundo as palavras do Presidente do Brasil. Só sei que repetiam dezenas de vezes, com imagens circulares e brilhosas, na televisão, tanto que fez minha cabeça formigar como dezenas de patas de besouros, logo controlando o meu corpo... Eu já não sabia mais se era eu ou outra coisa dominando os meus movimentos, e quando me dei conta, eu estava afogando a minha filha."

Com os olhos fundos em seu crânio, ela continuou.

"Era como uma enxaqueca, repetindo dezenas de vezes para, nesse momento, matar qualquer tipo de idosos ou crianças abaixo de quinze anos, pois o novo coronavírus, agora "Covid-20", acabou evoluindo para um novo estágio, ainda mais agressivo e brutal. A humanidade estava com medo das pessoas próximas, segundo eles, referindo-se a pessoas mais frágeis." - falou após um intervalo pensativo do seu próximo texto, tentando recordar a confusão. Infelizmente, suas palavras desconexas não revelavam nada além de uma moradora sob o uso de drogas. A senhora começou a repetir as coisas que estavam vindo da televisão, enquanto não podia sentir nada além do seu corpo manipulado afogando aquele corpo frágil e pequeno.

O policial militar parou o lápis nas suas mãos, parecia apenas ficar girando sua caneta nos papéis, em círculos infinitos. Deu para perceber na sua buchecha esquerda um corte com sangue há não muito tempo feito. Então, mantiveram seus olhos curiosos e perguntaram sobre um possível marido ou qualquer tipo de membro na família além da criança em estado de decomposição inicial dentro da panela. O outro sujeito, acompanhando os seus movimentos dos lábios, copiou o gesto do seu companheiro encarando a mulher, assombrosamente perdida e desgastada pelo seu crime, além da preocupação, tropeçando na sua própria mente.

Percebendo a descrença dos homens, ela tentou mais uma outra maneira de, no mínimo, explicar o que ocorreu há alguns minutos.

"Não há nada além de tudo isso que vocês estão vendo aqui. Há alguma coisa acontecendo e acabou de ser vista na televisão, precisamos comunicar às autoridades urgentemente!" - suas palavras foram interrompidas pelo choque absoluto de ver um dos policiais indo para a cozinha e pegando uma faca grande de cortar carne, perfurando a coxa esquerda do seu companheiro e cortando a sua outra bochecha; enquanto rasgava sua roupa e feria seu próprio corpo com mutilações similares as de uma agressão.

Benjamin guardou o seu bloco de notas, visivelmente com círculos estranhos no papel. Pegou a radiopatrulha e disse que a mulher surtada matou o seu próprio filho e tenta atacar o socorro, mas que, como estavam devidamente preparados, conseguiram neutralizar mais um surto nessa noite. "A contaminação do vírus realmente está extrapolando os seus limites e causando uma histeria em massa: pessoas tornando-se agressivas para com os seus familiares e outros próximos. Nessas circunstâncias, fomos obrigados a usar a força necessária para tal crime." - suas palavras deixaram a mulher ainda mais aflita no chão, perdida e observando como uma caricatura morta o comportamento inusitado dos dois guardas.

A senhora ficou ainda mais arrasada e percebendo tudo à sua frente. Repetiu mais uma vez que havia alguma coisa estranha acontecendo com os meios de comunicação e falou que o apresentador, com seus olhos e rosto apagados como uma borracha, mas mantendo as órbitas oculares com coisas triangulares e vermelhas, de alguma forma conseguiu controlar sua mente. Mesmo assim, o policial aponta uma arma logo em seguida, guardando os óculos escuros que estava usando mesmo à noite, próximo da manga da sua camisa, e mostrando que as íris viraram triângulos nos seus rostos, iguais ao do apresentador na televisão, segundo a moradora extasiada pelo medo. Em seguida, disparou a arma.

"Mais um caso de contaminação", - disse eles. Os dois sujeitos trocaram olhares com suas íris transformadas em algo medonho. No momento em que ligaram o rádio patrulha, uma outra chamada deixava o aparelho agitado.

Uma solicitação de vídeo simultânea, nos dois celulares, foi o que os seus rostos observaram. Tratava-se de um capitão não conhecido por eles, falando sobre um novo incidente em uma casa na qual entraram poucos minutos após o último ocorrido, encontrando um novo homicídio. As exigências eram: para matar qualquer tipo de agressor e, depois, os homens da lei seriam ditos como vítimas de um pandemônio da quarentena. Os policiais obedeceram devidamente e comunicaram que foi necessário neutralizar mais um agressor em legítima defesa.

Logo receberam mais uma denúncia sobre um esquartejamento em uma casa de classe nobre. Ligaram a viatura, continuando iluminando as casas com as luzes vermelhas e amarelas, enquanto iam para mais um local onde um assassinato aconteceu e mais uma retaliação seria devidamente feita por suas armas.

Não demorou para que evidências sobre uma suposta chamada de vídeo ou qualquer coisa do tipo desaparecessem nos celulares dos homens, para essa noite de 24 de Março de 2020. Tudo foi apagado e destruído como fragmentos de uma lembrança, e eles estavam apenas cumprindo seus deveres, obedecendo ao sistema....

Autor: Sinistro

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Esse ano, o coelho não vai compartilhar apenas chocolate e alegria

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Eu sabia que não deveria ter saído de casa, mas me senti obrigado a fazer isso porque, desde que a quarentena foi suspensa, por ordem do governo, após uma aglomeração da população querendo trabalhar e comer, além de pagar o seu aluguel para não ficar jogado nas ruas, eu não era diferente do que qualquer tipo de pessoa preocupada para preencher sua barriga e dá dinheiro pagando aquilo que parecia um ogro bruto batendo na minha porta todos os dias porque fez quase dois meses sem receber um centavo meu.

As coisas começaram ainda mais frenéticas do que antes, o Parque da Disney ficou um tempo sem funcionar, pois estavam todos presos dentro das suas casas e, quando foi aberto, após um anúncio, as famílias se transformaram em colmeias de abelha com centenas de crianças, velhos e adultos querendo tirar o estresse. Os funcionários estavam preparados, com suas roupas. Na Páscoa, semana temática, deveríamos estar ostentando personagens semelhantes a coelhos. Foi difícil para mim, ainda mais sofrendo aquele mal e a tosse com certeza era uma coisa que não devemos mostrar enquanto estávamos escondidos dentro de uma roupa.

Apesar das centenas de mortes, as pessoas não estavam seguindo as ordens obrigatórias e, os mais pobres, precisando receber para ser escravizado pelos ricos, estavam cumprindo os seus deveres dentro do vestiário com outros homens. O ambiente era consumido por barulhos de tosse, alguns reclamando de dores e dificuldade para respirar, mas deveríamos fazer vista grossa e se comportar como se nada estivesse acontecendo ou nos atormentando.

As minhas ordens eram que fosse o Coelho da Páscoa, recebendo dezenas de crianças o dia todo para fotografar e brincar com elas. Os seus rostos angelicais, o corpo pequeno e frágil, aquela alegria contagiante, tudo isso estava me deixando atormentado. No início foi difícil, da mesma forma que estava sendo para todos, mas a pressão do meu patrão, dizendo que bastava apenas uma gota para me despedir e aquele asqueroso querendo receber tudo, foi o que eu precisava para ser obrigado a fazer o que eu estou assumindo.

Mesmo com as mortes aumentando, crianças e idosos sendo consumidas pelo mal e devastando milhares de pessoas, não ligaram para isso. Para o próprio vírus não foi descoberto nenhum tipo de cura após meses, a população sofrendo com isso. O meu desconforto e culpa precisavam ser preenchidas por algo, como se existisse algo para isso. Antes de trabalhar, eu era alcoolizado por minha própria conta, bebendo ferozmente para tentar diminuir a mágoa de ver mais uma vítima minha, uma criança inocente sendo infestada pelo meu próprio demônio.

Não importou os últimos acontecimentos e tudo aquilo que não parava de se espalhar por todos os lugares... Eles acharam que as máscaras, álcool em gel e cuidados resolveriam isso mesmo!? Eram apenas uma forma retardada de serem vítimas. Eu, por exemplo, coloquei uma fantasia bem assustadora para fazer referência com o filme "Bunnyman". Apesar disso, as famílias não se importaram, porque era apenas um cara fantasiado e elas estavam contentes.

Mesmo dizendo que não estava bem, o seu olhar de despreocupação era tão assustador quanto qualquer tipo de história ou filme de horror, o responsável do parque queria ganhar mais. Sentei na minha poltrona, e mais uma criança se aproximou de mim. Então, ele murmurou que essa é a trigésima sétima criança nesse dia. Encolhi o meu corpo, baixei minha cabeça e o odor de álcool forte era transmitido pelo corpo da caricatura de um personagem de filme de horror. Eu estava sendo esmagado por dentro com tristeza e uma caricatura pequena sentou-se próximo da minha perna, com os olhos brilhantes e parecia animada.

Tentei segurar o máximo, contudo minha garganta já estava ferida suficiente para expulsar o ar saindo dos meus pulmões com milhares de bactérias, jorrando dentro da fantasia, aquecendo o meu rosto e sendo expulso pelos buracos de onde eu respiro. No mesmo momento, espalhando os cabelos daquele menino curioso e com os olhos assustados. Ele perguntou se eu estava bem, me chamando de "Sr. Coelho", e eu respondi que sim. Não queria alarmar mais um deles, então começou a dizer o que desejava nessa Páscoa. Tentei trazer euforia e, mais uma vez, colocando minha língua dentro da minha garganta para não tossir uma segunda vez. Apesar de saber que, mesmo com a sua máscara cirúrgica, as bactérias foram espalhadas pelo seu nariz e olhos.

O fotógrafo, na nossa frente, estava tão morto quanto eu, e ele disse que essa era apenas o início de mais uma família feliz... dezenas e dezenas estavam por vir porque nós apenas estamos no começo dessa Páscoa...

Autor: Sinistro

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Amigos e Família Não Se Misturam A Meia Noite (Parte 1)

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A festa agora pendia para o final. As garrafas de bebida jogadas secas ao chão traziam uma imagem puramente melancólica a Andrew, que sentado jogado como um boneco de ventríloquo em uma velha cadeira de praia, observava tudo girando ao seu redor. De fato, precisava de mais álcool. Seus amigos faziam alguma outra coisa dentro do casarão de madeira esbelto e cheio de classe da avó de Phill, deixado aos cuidados do jovem, que avisou logo no inicio da junção, com delicada acidez, que ao final todos ali ajudariam a organizar a bagunça, e não poderia haver qualquer indicio sequer da festança, pois a avó era estritamente religiosa e regrada à moda antiga. Andrew sempre evitou ao máximo o contato com a família do amigo, por mais que se conhecessem desde o primeiro ano do ensino médio, agora, no final das férias, prestes a iniciarem o terceiro ano, um pacto entre os dois fora selado, com a única demanda de aproveitarem cada mês até a tão esperada formatura. Mais precisamente, cada final de semana, simplesmente curtindo a amizade.

Era na casa dos parentes de Phill que rolava os encontros para beber e se divertir. Eles viajavam com estranha freqüência, quase sempre confiando a Phill os cuidados de suas devidas residências. E por incrível que pareça, havia uma certa responsabilidade de ambos os jovens nisso tudo. Entretanto, para a amargura das condutas reclusas de Andrew, hora ou outra o rapaz tinha de socializar com os parentes do amigo, em dados momentos infortúnios ao qual se via presente, sem chance de escapatória com alguma de suas desculpas para esgueirar-se longe dos tios e primos mais velhos –radicalmente mais velhos- de Phill, era obrigado a participar das convenções por pura educação e sentimento ao seu companheiro. Mas inegavelmente era coberto por um aperto de ansiedade nesses encontros de parentescos, pois Andrew sentia algo macabro e acima de tudo, ancestral, naquilo tudo. Como se um ou dois detalhes expressados em gestos ou falas, até mesmo olhares da parentela de Phill uns para os outros (e para Andrew) fizera diversas vezes ele sentir uma vontade viva e pulsante de sair correndo portão afora e gritando que ali tinha um bando de loucos, sádicos! Clamando por ajuda e implorando pelas autoridades locais, livrando-o por vez daquele pedaço de pesadelo irreconhecível e predatório.

Mas era uma besteira e tanto, afinal, naquele tempo, não se convencia de uma idéia realmente propícia do porquê sentia o que sentia em relação a família do amigo a ponto de mencionar isto a ele, seja em alguma conversa ou até mesmo da forma mais leve em tom de piada ao qual poderia satirizar, quem sabe. Sentia que tal assunto era inconcebível, e poderia mudar drasticamente o rumo da amizade deles caso surgisse em pauta, sendo visto como estranhos devaneios anti-sociais da cabeça do próprio Andrew, afastando o amigo para longe, para sempre.

Mas no fundo, bem lá no fundo, sentia que Phill de alguma forma entendia a excentricidade de sua linhagem. Aceitava-a, inevitavelmente, talvez por costume. Mas ainda assim, certas bizarrices que os dois já presenciaram juntos em festas da família de Phill e diálogos descontraídos na sala em frente a TV com a mãe, o pai e irmãos de Phill, eram de certa forma, incomuns, e somente os olhares deles podiam se comunicar um com o outro em situações como estas.

Certo fim de tarde, discutiam os pais de Phill sobre o encerramento do transporte de gado e cabras para a pequena fazenda do pai do jovem, que se encontrava logo atrás da casa, pois tamanho era os pedidos e as quantidades de encomendas dos animais requisitados para a fazenda, que os fornecedores não haviam como suprir todos os meses as exigências da família.

‘’Seus ataques de fúria também não ajudam em nada, papaizão.’’ Disse a Mãe de Phill. ‘’Da última vez você quase alcançou os pulmões do garoto com esses seus dedos sempre engraxados dentro da boca do coitado.’’ O tom não era nada acusador ou recriminante. Era neutro.

‘’Pois ninguém mandou ele ir trabalhar de bermuda em plena segunda-feira. Merda. Quem em sã consciência vai trabalhar de bermuda? Em plena segunda-feira! Ao menos faça um bom trabalho e me manda a porra dos infernos dos bichos.’’ E bateu com uma pisada firme com a sola da bota que calçava contra o assoalho.

Nisso Papaizão e a Mãe se encararam em um silêncio decisivo, como se esperassem alguma próxima resposta um do outro para aquele comentário. Nenhum dos dois disse nada, pelo contrário, depois de alguns segundos se encarando friamente, a mãe emitiu um chiado pela garganta, e Andrew notou que ela segurava uma risada. Totalmente fora de questão, os dois explodiram em uma gargalhada sincronizada, como se uma piada interna muitíssimo engraçada rolasse entre os dois naquele momento, e riram até não querer mais. Recentemente, descobri por mim mesmo que a história do garoto era séria, e o pai arrancara três dentes da boca de um jovem de dezessete anos com a força dos dedos, pois falhara em seu ataque de raiva, na sua missão de arrancar o pêndulo do fundo da garganta do garoto.

Nesta ocasião, os olhos de Phill encontraram o do jovem. Andrew apenas despejou um breve franzir de sobrancelhas, cerrando os olhos, com uma expressão interrogatória em meio a um sorriso descontraído. ‘’O que ta acontecendo aqui, cara?’’

Phill projetou um breve riso curto de canto de rosto. Ao mesmo tempo, seco.

Este foi apenas o começo.

‘Um dos atos realmente estranhos que ocorrera em uma das confraternizações da família de Phill, dessa vez na cozinha, em um jantar no dia de Ação de Graças, foi o que criou um manto de silêncio entre a amizade de Phill e Andrew por um bom tempo, tanto que os dois pararam de se falar por mais ou menos um mês, trocando apenas cumprimentos respeitosos no colégio, nada mais além disso. Phill, que mais tarde tomara a atitude de explicar, com um sorriso sem graça, o que aconteceu aquele dia no jantar. Jogou a culpa toda no autismo do pequeno irmão, que ao assistir um filme de terror entrou em um estado de... puro delírio dramático, -palavras de Phill-, causando todo aquele clima estranho.

Porém, Andrew sabe o que viu pela janela da cozinha naquela noite, por mais que sua alma estremeça e negue até a morte, em uma auto-enganação benéfica para preservar a sua mente inocente e a sanidade pacifica que carrega no peito aqueles que acreditam em céu, Deus, e nem sequer pensam se a passagem para o inferno será derradeira e impiedosa ou indiferente e escura.

Tal cena afeta os estados de espírito do jovem, e ele a relembra com relutância em certos momentos quando deita a cabeça sobre o travesseiro. Afinal, por mais que queiramos e lutemos com afinco (ao contrário do que dizem os livros), é difícil, beirando o impossível, ir contra a própria mente.

O jantar fora servido a todos, e a refeição estava esplêndida e saborosa sobre a mesa. Carne, alguns vegetais e muitos grãos e sucos traziam uma beleza cordial aos olhos de quem via, e estava presente. Risos e piadas e comentários descontraídos arrancavam sorrisos soltos de todos ao redor. Andrew se sentia confortável. Mas notará, como inquieto observador que era, a falta do irmão mais novo de Phill junto a mesa. Lá estava um dos primos encorpado e silencioso de Phill, seu pai, sua mãe, seu irmão mais velho –ao lado do primo- e os dois jovens. Porém, não havia sinal do irmão caçula desde que Andrew entrara pela porta hoje à tarde. Decidira não tocar no assunto.

Quando estava prestes a finalizar a comida do prato, restando apenas algumas garfadas para esparramar-se contra o encosto da cadeira e, em sua mais carismática cordialidade, lançar a abençoada puxa-saquice do convidado visitante de toda e qualquer mesa ‘’Ah... estou cheio, a comida estava ótima, porém não agüento mais. Estou prestes a explodir. Estava realmente deliciosa a refeição, senhor e senhora.’’ em um tom de quem acabou uma missão árdua e difícil, em completo deleite. Estava levando a última garfada à a boca, quando avistara o irmão mais novo de Phill saindo de repente do estreito corredor dos quartos escuros em direção a sala, que ficava sobre a reta da cozinha, a direita de Andrew, separando os dois cômodos apenas por uma discreta e bem cuidada estante de madeira com alguns objetos religiosos como velas em repouso e imagens de santos.

O garoto era graciosamente pequeno, usava um pijama que deixava um pedacinho do final de suas canelas a mostra, pela desproporcionalidade do tamanho das meias cinza de ursinhos que portava nos pés. Seu cabelo lembrava o de um indiozinho, e todos da mesa avistaram o menino antes dele avistar-nos primeiro. Andou até o meio do cômodo, iluminado pela luz da lua que invadia e iluminava o centro da grande sala rústica, transpassando por uma imensa janela de formato cilíndrico, repartida em medianos blocos de vidro, a lua azulada emitia seu brilho intenso exatamente onde o garoto estava fixo, que lembrou a Andrew um palco, onde o ator principal agora estava a postos. O menino deu uma checada inocente ao redor do grande espaço à procura de alguém para contatar, visto que ninguém encontrava-se lá, por um momento então, pareceu trabalhar a memória, e logo virou-se em direção à cozinha, viu a mesa cheia, e correu para onde estávamos sentados, após nosso termino de uma bela refeição.

A principio, pensei que ele ia abrir um berreiro ou algo do tipo por não ter participado da ceia conosco, ou que a mãe o convidaria decentemente para juntar-se a nós e comer no mínimo a sobremesa. Porém, o menino locomoveu-se até onde o pai se encontrava, no lugar de autoridade, à ponta da mesa, a criança olhava-o de baixo para cima, e, com uma postura incrivelmente madura e decidida disse com sua voz fina, trêmula e ansiosa a seguinte frase, que gelou-me a espinha.

‘’A Cria se soltou e fugiu! A Cria fugiu!’’ E continuou encarando o pai, agora em silêncio, esperando algum tipo de ordem.

O pai, educadamente, porém com movimentos visivelmente rápidos, levantou-se da mesa, largou-nos (o que eu jurei que de uma forma tão explicita e indireta fora apenas para mim) um comentário para nos acalmarmos, que um dos gados mais violentos do rebanho, a tal Cria, teria fugido, e que precisaria ir atrás antes que fosse para a cidade e causasse um caos desenfreado ou algum acidente. Que ficássemos ali e esperássemos à sua volta.

Todos concordaram simultaneamente. Algo me incomodava. Havia um tom teatral naquilo tudo, e eu vi o olhar que o irmão mais velho de Phill lançara a mim do outro lado da mesa. Um olhar julgador, de certa forma, porém fora demasiado rápido, e naquela época eu não havia tantos motivos para temer Phill ou sua família, logo não desconfiei tanto.

Com um instinto de solidariedade resolvi fazer alguma ação da minha parte. Já havia encenado tudo em minha cabeça enquanto o pai falava; iria virar o tronco para a longa janela horizontal atrás de mim, que encontrava-se acima da pia e dava para o campo onde a fazenda repousava quieta em sua penumbra, em seguida, me voltaria para o pai e iria voluntariar-me para sair em busca deste tal gado junto a ele.

E foi quase o que eu fiz.

Logo no momento em que o silêncio reinava perante a mesa, o pai esfregando as mãos uma nas outras com um semblante preocupado, a mãe com uma das mãos acariciando as costas do homem e Phill tamborilando os dedos sobre a madeira oca, foi que decidi dar minha jogada de coragem para a família de meu amigo. Virei o tronco sem muito esforço, despreocupado, em direção à janela atrás de mim, contudo, o que eu vi afetou minha mente e principalmente minha flora intestinal, a ponto de após eu virar-me novamente para a mesa de jantar, encontrar-me em um branco vivo cercando meu rosto, e nada sair da minha boca além de um barulho estranho seguido de um engasgo, uma tosse, e um pedido de desculpas e licenças para ir ao banheiro.

Pois ao me virar e dar de vista para a janela, vi claramente um ser completamente pálido e nu passar correndo do outro lado da vidraça. Uma figura magra, quase esquelética, em frenesi. Não havia pêlos no contraste esbranquiçado de seu corpo, e a estrutura óssea do seu crânio me lembrara vagamente o formato de arco que contém a cabeça de um martelo. Passara correndo entre pulos desengonçados, como se pisasse em brasa quente, ou andasse de pés descalços sobre um solo ruim. Passara de cabeça baixa, como se olhando para o chão. E sua cor não era de uma palidez firme e bem composta. Pelo contrário, parecia sugar a luz de fora para dentro, não chegava a ser cinza, estava mais para a cor de quem deveria estar morto, no escuro latente de um caixão, há muito tempo.

Sem mais delongas, apertei o passo para o banheiro, fechei-me lá dentro, lavei o rosto e senti vividamente em mim uma inquietação doida correndo solta. Precisava de respostas, e rápido, sobre o que era aquilo que passou a saltos apressados na parte rural de mato alto da família do meu amigo a noite! –a Cria fugiu! A cria se soltou e fugiu!- lembrei então do menino surgindo alarmado. Mas que merda de Cria! O que era aquela Cria, se não, o maldito gado? Tinha que ser o gado, certo?

Meu lado racional alertava-me que parasse de besteiras, poderia ser possivelmente um invasor, talvez precisasse avisar a família sobre. Mas no final das contas, por alguma razão que até então desconheço, não avisei. Apenas voltei à mesa, que estava sendo recolhida pelo primo (que notara não ter dado um pio se quer na mesa o jantar inteiro). Ofereci-me para ajudar, e ao ouvir a sua recusa, fui de encontro ao meu amigo. Agora já recomposto.

‘O jovem Phill estava na sala, caminhava em círculos ao lado da grande janela verticalizada que dava para seu pequeno pátio de fronte, com a grama bem aparada, estava inquieto, como um filosofo refletindo sobre a lua sarcástica que nos observa a vida toda, e ao notar o visitante chegando, foi logo a seu encontro dizendo para não se preocupar com aquilo tudo, que um dos gados realmente tinha fugido, mas não era motivo para tanto alarde do irmão e da família, nada dissera sobre o autismo do caçula naquele momento, porém, havia uma estranheza em sua postura, um certo alarme que pestanejava sobre o semblante de Phill, nada condizente ao que diziam suas palavras, como se a própria policia estivesse revistando o celeiro de sua família, e os quilos de haxixe do garoto estivessem não muito bem escondidos sobre o feno.

E sua fala, Andrew reparara em sua fala também. Phill parecia falar mais para acalmar a si mesmo do que ao rapaz, que agora despedia-se, alegando ter de voltar para a casa antes das 23h30 à pedidos dos pais. Phill concordou então, de levá-lo até o portão da frente, contudo, estranhamente acompanhara ainda mais o jovem até mais ou menos a esquina da casa do próprio, sempre olhando frenético para todos os cantos das charmosas ruelas de pedras e casebres antigos que os cercavam, e o seguiu caminho todo desmerecendo em seu tom forçado de despreocupação o pobre do gado, dizendo que logo ele seria capturado, trazido de volta, e em seguida abatido como um cão pulguento e servido em um grande banquete, como um dos gados que o pai abaterá e preparará hoje na refeição para eles. Mas este teria seu gosto especial, dizia. O gosto de um animal fujão. E riu com uma risada curta e convencida.

Andrew apenas concordava com a cabeça, em silêncio, as mãos no bolso, e friamente decidido, em uma perturbação filosófica das mais densas, a não mencionar ao amigo sobre o pedaço quebrado de uma estranha caneleira-algema medieval, grosseiramente enferrujada, que reparou próximo ao grande portão de madeira pouco antes de sair dos aposentos da família de Phill.

Autor: Guilherme Bueno

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Achei uma gravação horrorosa no sótão da minha casa

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Eu fui passar a minha folga na casa do meu pai, lá me lembrava minha infância, era tão bom, eu brincava com meu cachorro e meu amigo todos os dias.

Eu cheguei na casa, tinha dois andares, o térreo onde nós tomávamos café e ficávamos na sala de estar, a segunda era onde ficava os quartos e o banheiro, e também tinha o sótão.

quando criança eu tinha medo de um quadro que tinha ali no sótão, vendo agora eu não tenho mais medo, porém aquele quadro chega a me arrepiar, é meio perturbador, o quadro era de uma criança sentada chorando.

Depois de um dia longo pescando e jogando Rouba-Monte (um jogo de cartas) nós fomos assistir tv, estava passando futebol, meu pai gostava, já eu não, eu gostava mais de jogos eletrônicos, mas mesmo assim continuei assistindo, era a única coisa que tinha para fazer, não tinha WI-Fi

Meu pai estava olhando com toda a intensidade do mundo o jogo, porém a luz caiu, era um dia de chuva, logo, dunada começou a chover, então ele pediu para ir no sótão buscar alguma vela e algum disco para escutarmos.

Abri o sótão e subi as escadas, lá dentro tinha algumas caixas com algumas tralhas lá dentro, eu fui procurar onde estava as velas, mas só achava convites de festa de aniversário e... Bolsas da minha mãe... Minha mãe morreu em 1998, bateu o carro e voou para fora dele, meu pai ficou sozinho, eu não pudia fazer nada além de chorar, eu ainda era criança, foi uma época bem sombria aqui em casa.

Continuei procurando por ali até conseguir achar, a lanterna do meu celular estava quase acabando, quando eu achei algumas fitas perdidas, eu peguei uma e larguei longe, apareceram duas baratas ali, peguei a fita que eu tinha largado longe e assoprei, o que estava escrito nela era:

Abertura da ponte da cidade, era uma gravação da minha cidade da abertura de uma ponte.

Eu vi uma tv ali perto e coloquei a fita, a tv ligou, era uma tv antiga, até achei que não iria ligar, mas ligou, demorou um pouco para reconhecer a fita mas foi, logo mostrava uma pessoa falando coma câmera toda desfocada e tremida, mas deu para ver as pessoas se divertindo

Logo deu para ver o prefeito abrindo a ponte e as pessoas gritando, eu olhei para o lado e tinha outra fita, no mesmo dia, meu pai gravou pela televisão a abertura e gravou lá mesmo, então eu retirei essa primeira fita e coloquei a outra, e então a tv começou a reproduzir a fita, e mostrava o que parecia ser uma gravação ao vivo sobre aquela ponte, basicamente a continuação da outra fita, então eu comecei assistir, eu só conseguia ouvir gritos, não de horror, de felicidade, de festa, tinha pessoas comemorando e festejando, e então o som parou, a fita não emitia mais som

Eu fiquei tentando arrumar o som da tv pra ver se não volta, mas não voltou, a lâmpada daquele sotão começou a tremeluzir, enquanto pela janela o dia ficava cada vez mais escuro, e então, um trovão causa uma iluminação quase me cegando e fazendo um pano cair de um quadro, aquele quadro da criança chorando, então a tv desligou e a lâmpada quebrou, eu me afastei rapidamente, eu não cai porque a iluminação do dia refletia na janela, por mais que seja um dia de chuva, ainda era de dia, eu tentei abrir a portinha do sótão, tentando sair dali, eu sentia que eu não deveria ter ido ali, até que a tv ligou sozinha, eu fui correndo não cabo da tv, mas uma coisa que eu não havia percebido, era que, se essa tv tá no sótão... Ela deveria estar sempre desligada, pois naquele sótão não tinha tomadas, logo eu me estremeci, a tv emitindo um som muito estranho, parecido de vozes de crianças gritando, só que essas vozes eram distorcidas

Logo foi pra reportagem de novo, e ficava alternando entre imagens da reportagem, e com imagens estranhas, perturbadoras, e o som das crianças aumentava, e aumentava, cada vez mais, até que o silêncio tomou a sala, a tv parou num frame da reportagem

Esse frame, era um frame muito específico, eu tentava ver alguma coisa na imagem mas a única coisa que eu queria era sair do sótão, até que, um estralo foi a minha cabeça, eu vi minha mãe naquela reportagem, em um canto escondido, o mais estranho disso tudo, é que minha mãe morreu 1998, essa gravação... É de 2003.

Autor: Perchaotario

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O pior monstro de todos

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Eles começaram dentro do guarda-roupa, escondidos no meio das roupas e observando através das brechas. Mas acreditaram que seria mais legal ficar bisbilhotando no canto do quarto, na parte escura, onde o abajur não ilumina, quando a única fonte de luz dentro do imóvel é a das lâmpadas. Os dois ficaram confusos e decidiram ir para debaixo da cama, onde se esconderam... O escudo, entre os dois mundos, costuma causar um desconforto. Tentaram ficar o mais possível invisível e esperando uma brecha para aparecer.

— Ok, filho, essa é a última vez que nós estamos juntos. Espero que você consiga, não precisa se preocupar, dado que essa humana está sozinha, e você precisa apenas transformar o seu rosto em algo horripilante. Não vai ser um bicho de sete cabeças. Quando conseguir finalizar o nosso círculo de vulto para medo, vai saber como é ser um legítimo bicho-papão. — O monstro explicou para o seu filho receoso. Os seus olhos experientes estavam ansiosos, enquanto os pelos fedorentos, as unhas e dentes ameaçadores apareciam uniformes para algo que ele estava guardando para si mesmo... esperando uma surpresa do seu fruto inexperiente.

O garoto, aos poucos, foi se projetando debaixo da cama. A primeira coisa que observou foi o pé descalço da mulher e que seus dedos estavam se contraindo como se estivessem sentindo um frio abaixo de zero. Os braços da criatura nervosa foi aumentando, e ele queria criar uma aparência fantasmagórica ao transformar o seu torso em uma fumaça branca. Não demorou muito para sair debaixo da cama e observar a mulher com seu pijama, deitada sobre os cobertores. Examinou que estava abraçando o travesseiro, e com os seus membros juntados, como se estivesse tentando diminuir o possível frio que estava sentindo no verão. Contudo, era outra coisa que ela estava vivenciando... Não estava tentando evitar um ar glacial da fenestra, mas se preparando para algo maior, deixando o monstro baralhado.

— Pai, acho que tem alguma coisa estranha acontecendo. Não é igual assustar crianças... você me falou que seria bem diferente e amedrontador causar pavor a um adulto com a nossa aparência e explicou que eu precisava fazer isso, pelo menos uma vez, até que seja um autêntico bicho-papão. Eu sei de tudo, mas tem algo de errado acontecendo com esse humano, não sei explicar... porém, estou sentindo uma atmosfera devastadora no aposento.

Os olhos do garoto de ódio e sangue foram se transformando em algo confuso ao ver uma sombra sobre aquele corpo deitado na cama. Parecia que uma aura negra estava passeando em cima de toda a jirau. O monstro, com seu corpo transparente, mostrando os seus órgãos funcionando e causando um enjoo doentio para qualquer tipo de espécie humana que estivesse contemplando aquilo, não sabia o que fazer. Visivelmente, existia algo maior do que ele, estava esperando uma resposta, e uma oposição acima do que estava acontecendo no momento, em que tentava finalizar o seu dia ao assustar um adulto pela primeira vez.

— Bem, garoto, esse humano está com defeito. Cada vez está ficando mais comum pessoas com esse tipo de problema. Na verdade, está se espalhando como uma doença incontrolável... são vários diferentes, e eles estão tentando lutar com os seus próprios medos pessoais e coisas que eles podem evitar. Nós não podemos ser mais amedrontadores do que o medo real, e o pavor da atualidade humana, a fobia desenvolvida, mastigada e degustada no organismo da mente deles.

O garoto ficou ainda mais intrigado e, por alguns segundos, questionou as palavras do seu mentor, o bicho-papão experiente, porque foi ensinado que não existe coisa mais amedrontadora que sua espécie para os humanos, contudo estava vislumbrando algo que até para quem o criou parecia uma coisa repugnante. Então, ele viu uma sombra obscura, com proporções iguais uma pessoa, mas negrume nas suas formas, e os ângulos esticados ao abraçar aquela mulher deitada na cama.... parecia um ser como se fosse um parasita.

— P... pa... pai.... Que tipo de coisa é essa? — Gaguejou enquanto estava montando um quebra-cabeça nos seus lábios desorientados, sem conseguir desgrudar os olhos para sombra alimentando-se daquele humano deitado na cama.

— Ah, como eu já falei, é um humano com defeito. Esse tipo de coisa nem nós mesmos conseguimos entender e é algo que eles carregam dentro do seu próprio corpo, desenvolvem como se fosse um ninho socado pelas suas próprias mentes e vão alimentando isso aos poucos, por conta desse convívio atual. Os humanos estão muito dependentes da internet e sofrendo por amores platônicos, tudo se retrata em aparências e status, é algo tão carente quanto o amor, mas uma dependência patética pelo que eles dizem sentirem "medo". Nesse tipo de ocasião, nós não somos nada em comparação. Nesse tipo de situação, devemos sair o mais rápido possível para o que nem nós mesmos conseguimos compreender...

Os dois monstrengos saíram de dentro do quarto, desaparecendo nas trevas e deixarando aquela mulher na cama, sendo triturada pelas mãos frias da depressão. Ele estava com os olhos vibrantes, e o lábio excitante para a euforia do seu tormento ao esmagar cada centímetro do socorro e observar a situação insignificante de sofrimento.... Tudo se resume em fobias, e medos irracionais da espécie evoluída. A criatura negra, cada vez mais aumentando o corpo, e o quarto, desaparecendo nas trevas, deixando aquela mulher nos cobertores sendo esmagada pelas mãos frias da depressão.

Autor: Sinistro

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Eu só quero que isso acabe!

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O meu maior sonho foi ser arqueólogo, apesar de fazer parte de uma descendência de classe média alta, com posições importantes no trabalho e guiando nossa família para os status mais altos. Diferente dos meus irmãos, sempre quis ter algo simples na minha vida e, como o filho mais novo, consegui seguir os meus próprios passos. Estava feliz com pouco, saboreando meu próprio suor e sem receber apoio de ninguém. Ao longo dos anos, fiz descobertas importantes no deserto do Saara, vestígios de ruínas congeladas no Polo Norte e até peças indígenas pelo Brasil. O que nos encontramos, nessa última vez, seria um passo importante, nos traria fama e reconhecimento. Em mais um trabalho duro, descobrimos uma espécie de tumba ou cemitério Maia bem conservado e enterrado dos olhos curiosos.

Nas paredes, esqueletos mumificados pareciam segurar o local e proteger com seus rostos entortados. No centro, havia uma espécie de sepulcro com um esboço ainda mais velho e aparentando ser algum tipo de líder. Então, vimos algo nas suas mãos: seus dedos pareciam prender, como se aquele objeto desejasse escapar. Foi algo estranho para todos nós, porque aquela representação, de alguma entidade ou ídolo daquela época, nas suas costas, havia uma descrição em uma linguagem que parecia misturar outras. Estávamos felizes, pois éramos apenas uma equipe de 4 pessoas: a garota que trabalhava nas traduções, o cara que usava máquinas pesadas, eu reconhecendo a origem das coisas e o nosso companheiro, que financiava tudo e carregando o mesmo amor que nós estávamos tendo ali.

Infelizmente as coisas não estavam boas para mim há um bom tempo. Tentei não compartilhar a minha fraqueza, a falta de apetite, os vômitos constantes e aquela sensação mordaz no meu abdômen. O médico falou ser câncer de estômago. Eu estava tomando os remédios e lutando silenciosamente. Meus companheiros, arqueólogos, não sabiam, mas minha aparência cada vez ficando pior e era visível para todos. Tentei ocultar, o máximo que podia, o tormento que eu estava sentindo. Quando descobri o infortúnio, naquele mesmo período, não queria ficar fazendo tratamento e sofrendo com agulhas e luzes passando pelo meu corpo, porque sabia que a maioria das pessoas com um tumor maligno morrem. Apesar das consequências, tentei aguentar o máximo e sofrer aos poucos.

A nossa companheira levou a pequena estátua a sua biblioteca para tentar traduzir as palavras e parecia difícil, e nós estávamos aguardando. Não iríamos expor o que havíamos achado. Infelizmente recebemos uma notícia assustadora: ela havia sido morta pouco tempo depois que finalmente encontrou seus pais, o seu sonho de muito tempo. Disseram que eles eram criminosos e mataram a garota por acidente.

Naquele mesmo período, o objeto caiu nas mãos do cara que trabalhava com máquinas pesadas. Sei que ele foi pessoalmente a biblioteca da nossa amiga para recuperar o artefato arqueológico. Disse que deveríamos nos reunir em um local específico, mas, quando estava transportando, segundo informações dos seus parentes, havia surtado porque ficava dizendo que sua filha morta, há cinco anos atrás, havia voltado a vida e estava lhe atormentando.

Nós não estávamos no mesmo local, como eu já disse, éramos uma equipe pequena, saboreando os nossos sonhos. Nem tudo de bom vem de graça, uma vez que já havíamos perdido mais duas pessoas próximas e amigos de longo tempo. Nesse mesmo instante, sabia que não podia mais contar com o cara que pagava tudo, ele poderia simplesmente recuperar o objeto e ficar para si mesmo. Mal conseguia sair do lugar, estava desnutrido, porque a comida parecia cortar a minha garganta e entra no meu estômago como ácido. Quanto mais eu tentava me alimentar com líquidos, náuseas e dores me atormentavam. Supreendentemente, recebi uma ligação do meu companheiro dizendo que havia algo que deveríamos lidar. Tentou explicar que havia ganhado na loteria, apesar de ser rico, almejava ser mais abastado e ser melhor do que os seus parentescos. Foi uma surpresa para mim, a notícia foi anunciada nos jornais. Então, ele disse que deixaria comigo a descoberta para que eu trabalhasse enquanto saboreava o seu sucesso.

Mas as coisas não ficaram por aí, tudo de ruim tem a tendência de ficar pior. Ouvi notícias que se espalharam por todas as publicações, enquanto eu estava podre e desgastando em cima do sofá, o meu companheiro, o ganhador da mega-sena, havia sido sequestrado. Disseram que partes do seu corpo foram espalhadas para os membros da família, com a intenção de ganhar ou pegar toda a fortuna, mas ele nunca teve contato com os seus parentes. Imaginei que não abriria a boca. Não demorou muito para receber notícias do seu assassinato. O que sobrou do seu corpo foi encontrado em um lixo, porém, antes disso, em suas anotações, desejou que eu poderia ficar com o objeto. Recebi e levei para minha casa. A estátua, mesmo assustadora, parecia atraente porque não havia nada mais horripilante do que aquilo que estava alimentando-se do meu corpo, lentamente e causando muito sofrimento.

É claro que eu precisava de tradutores e uma equipe que ajudasse a lidar com isso. Há dois dias, o médico falou que eu não duraria um mês. Não existia nada além do fracasso, o fedor de podridão me consumindo, além da magreza e a fome. Deixei uma noite para examinar a representação de algum tipo de ídolo, coloquei os meus dedos em todas as partes e um tipo de dispositivo foi anunciado... A fumaça da poeira se juntou para mostrar uma figura, algum tipo de animal, ou algo do tipo, usando acessórios nos seus membros iguais a objetos decorativos. Ele anunciou que, por ter encontrado a estátua, receberia um prêmio e faltava apenas eu. Naturalmente, fiquei chocado e apavorado. A manifestação, ou seja lá o que for aquilo, disse que concederia qualquer desejo, mas as consequências seriam graves. Eu não tinha certeza se estava alucinando ou criando fantasias duvidosas na minha mente. Apesar de todas às circunstâncias, a tentação foi maior do que qualquer coisa.

Ele ficou ansioso e logo depois disse que eu precisava ser inteligente, porque tudo era uma faca de dois gumes. Um turbilhão de coisas passaram na minha mente cansada. Algo estava sendo formado, imaginei que não duraria muito e que eu deveria viver mais. Sou um rapaz jovem, bom, nunca fiz mal para ninguém. Sei que não posso simplesmente morrer em um mês. Suspirei para a figura diante de mim, que parecia brilhar como um arco-íris vivo. Continuou com a sua definição apavorante de um genuíno observador. Cuspi ferozmente que eu não queria morrer cedo, deveria continuar vivo. Então ele estalou os seus dedos, e um vapor quente e relaxante cobriu toda a sala, e eu abracei o véu acolhedor...

Tenho certeza que havia passado uma semana ou meses, senti as janelas escurecendo e amanhecendo. Havia decorrido muitos dias, e continuo vivo. As dores cada vez sendo mais sufocantes e parecendo o Inferno. Eles dizem que você se acostuma com a agonia com o passar dos segundos, contudo, nesse caso não, porque sempre é pior. A cama ficou fria e grossa, estava sentindo todo o tormento e a única coisa, depois de muito tempo que eu suspirava em todas às noites, era que eu morresse. Nessa angústia e tortura, não adiantava... Sei que minha família esteve ali por pena ou compaixão, observando e sussurrando que fariam de tudo para que eu acordasse. Os médicos expressaram que estavam surpresos porque o meu estado de câncer de estômago parecia muito avançado, mas sobrevivi, mesmo após o coma inexplicável. Só sei que permaneci respirando sobre máquinas. O problema é porque estava sentindo toda a degeneração e cada vez piorando, só quero morrer e as máquinas não deixam...

Autor: Sinistro

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BooBoo.mov

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É normal para uma criança se identificar com um personagem de desenho, como eu. Eu tenho 11 anos e meu nome é Erick. Como de costume, eu sempre peço para minha mãe um filme de terror ou algum jogo que simule esse mesmo sentimento: o medo. Eu tenho tanta afinidade por monstros sobrenaturais e que causam desconforto, que eu mesmo tentei criar um... O nome dele era BooBoo, e era baseado em um pesadelo que eu tive quando eu tinha 7 aninhos. Parece besteira, mas esse desenho é tão realista, que deveria ser de qualquer filme de terror com 3D estilo Del Toro. E eu me identificava como ele, pois eu sinto que ele é minha sombra... Ou até eu mesmo...

Era fácil me identificar com ele, mas eu tinha outros propósitos para eu negar isso, afinal de contas, era um simples desenho... Ou foi o que eu pensava...

Eu estava com minha mãe na locadora, procurando um filme bom para assistir... Parecia tudo normal, até o momento em que eu cheguei perto de uma caixa que ninguém se quer atreveu a dar uma olhada, além de estar na sessão de Terror, então era mais um bônus para mim... Foi quando eu vi... Um caixa de CD Branca... Perto de um bilhete escrito: Queime esse filme imediatamente!! Ok...? Parecia ser um filme de terror perturbador, tão perturbador que pediram para queimá-lo.... Estranho, e bastante curioso... Peguei a caixinha e vasculhei o CD, e quando eu vi um nome, senti algo pegar em meu ombro... O nome do CD era BooBoo.mov. Era estranho ter um arquivo com o nome do meu monstro, e guardado em uma versão .mov. E também a sensação de que alguém estava atrás de mim me incomodava, então eu me virei, e era ninguém...

Eu estava com medo no que isso iria dar, é sinceramente estranho...

Decidi testar esse filme, pra ver se aquilo é uma bobagem da minha cabeça ou tinha algo de errado com esse CD...

Voltando pra casa, eu ficava visualizando a sua capa vazia, dando um ar de mistério... O que tem nesse CD? Onde esse “e se...” vai me levar? Tantas perguntas para ver e crer.

Me acomodo em minha casa sentando no sofá. Pedi para minha mãe se eu podia ver esse tal filme, e ela deixou. Botei o disco no display e comecei a ver algo que me desconfia...

O filme começa com uma cena... Que era um pessoa andando cabisbaixa, triste, e sem expressão. Como eu. Mas tinha um som de sirene de fundo e gritos de fazer roer o osso. Logo após um minuto de tortura, eu dei pause em um frame certo, que me fez congelar a espinha. Era um homem de preto, olhando para tela. E aparecia mais uma coisa... Umas palavras chinesas... Eu não entedia nada daquilo, então anotei em um papel os símbolos e peguei um app no celular que traduz automaticamente a palavra. Tirei a foto, e a tradução era: “Você se lembra de mim?”. Como assim.... lembrar? De quem? Ou do que? DO DESENHO? Verifiquei o desenho e tinha uma mancha... Eu não sei se era sangue, pois minha mãe estava cortando tomate para o jantar. Continuei a ver, e a cena ficou preta por 2 minutos, e o fedelho de um jumpscare apareceu na tela. Era o BooBoo. Depois do jumpscare, apareceu uma pessoa sendo decomposta pela natureza, enquanto havia pessoas gritando e outras pedindo ajuda. QUE DIABO DE FILME ERA ESSE? Eu achava que era gozação, mas não... Era um filme realmente perturbador!

Queria parar, mas faltava 2 minutinhos para acabar... A curiosidade mata, e o coração sai pela boca de tanta tensão que estou sentido. É uma química que eu nunca havia sentido, era algo novo, era... Tenebroso.

Dei play no DVD, e a TV começou a chiar. O mesmo cara do começo para de caminhar, como se havia se esquecido de algo, e se virou para a visão do telespectador. Ficou assim por minutos, até de repente, ele vinha devagar... Perto para a tela... Como se uma quebra de quarta parede ia ocorrer. E quando ele para de olhar, ele dá um sorriso perturbante, e a TV congela.

A TV deu um curto no sistema... Saia fumaça dela...

O que eu tinha visto foi algo fora do comum... Parecia mentira, mas a TV levou junto o CD, ou seja, sem vídeo para rever...

Minha mãe chegou e ficou furiosa com o que havia feito. Eu expliquei tudo, e ela não acreditou. Fiquei de castigo no meu quarto.

Minha mãe estava socorrendo o problema, até que vejo um papel passar por debaixo da porta. Eu o pego. Tinha uma mensagem que parecia ser recente, e dizia: “Eu me identifico com você... Surpresa!”. Eu murmurei, enquanto uma garra preta segurava meu ombro.

- BooBoo...

Autor: dpx_Miguel

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Agonia

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Olho pela janela, silêncio mórbido, vejo um bando de cachorros comendo o que parece ser restos de um rato ou pombo, o som daquelas mordidas e o cheiro são terríveis. Mais a frente, do outro lado da rua, temos o hospício Ludwig circundado por um jardim lúgubre onde corvos depositam suas lembranças de um passado obscuro e violento do qual infelizmente fiz parte.No local para "loucos" (para mim essa denominação não deveria de jeito algum ser usada de modo pejorativo devido ao que vivenciei)não há nada mais que pobres almas atormentadas pela Grande Guerra e vítimas da loucura humana, da verdadeira loucura, e foi desse local que veio meu maior pesadelo.

Pego meu remédio, estrategicamente posicionado em cima do criado mudo e relembro meu pesadelo que não necessariamente é cheio de monstros e fantasmas, mas sim um sonho bom onde revejo meu irmão Julian e junto brincávamos de soldadinhos e ele sempre dizia "quando crescer serei fuzileiro e protegerei minha família se uma guerra aconteça novamente" e meu pai sempre o repreendia dizendo que preferiria abrir os braços em um campo aberto de batalha do que perder um de seus filhos e que aqueles tempos sombrios nunca voltariam a ocorrer(longo engano). No fim, o sonho sempre terminava com eu e meu irmão deitados na grama olhando para as estrelas e quando acordo vem a pior parte, aquela parte na qual me recordo de todo o sangue em seus olhos e da espuma, aquele amontoado de bolhas amareladas que pingavam e pingavam sem parar de sua boca entreaberta e seus olhos vibrantes saltavam da órbita ocular parecendo querer respirar. A dor causada pelo Hun Stoffe ou gás mostarda era tamanha e só sobrevivi graças ao cabo Gerald o médico do nosso batalhão que infelizmente foi incapaz de salvar meu irmão.

Com os olhos cheios de lágrimas começo a tomar o medicamento junto com a água e pelo fato de o remédio ser bem forte, me causa náuseas e uma forte rigidez muscular, como se meus músculos do braço estivessem em uma camisa de força e todo o esforço para sair da mesma fosse totalmente em vão. São 4h da manhã quando ouço um som alto, algo como um berro de dor excruciante vindo de Ludwig e todas as lâmpadas se apagaram de repente, escuto passos distantes que começam cada vez mais a se aproximarem e minha janela de trás, a qual ficava no cômodo mais afastado de meu quarto, se quebra em um barulho seco e alto e nesse momento tive certeza que algo ou alguém entrou em minha casa.

Com a mão trêmula, pego a M1 Garand de meu pai e abro devagar a porta, consigo ouvir o barulho da coisa se debatendo no chão e o seu grito doentio e vejo que embaixo da porta há sangue fresco e que derrama, se espalhando pela minha sala, logo imagino que o bicho ou sei lá o que seja isso se machucou devido ao fato de estar batendo a cabeça pelas paredes e quebrando coisas. Nem precisei me preocupar em abrir a porta, a coisa a abriu com uma força estrondosa, algo realmente sobre-humano e definitivamente me dei conta que meus pesadelos eram menos horríveis do que isso que estava em minha frente, não era um monstro de nome impronunciável, um drácula ou frankenstein mas sim um corpo humanoide com o rosto totalmente enfaixado e seus braços eram cobertos por uma camisa de força tão apertada que seus ossos finos como graveto eram extremamente visíveis e aterradores, sua boca era enorme e repleta de navalhas encravadas em sua gengiva podre com vermes esparramados pelo seu rosto e os buracos em sua carne faziam meu estômago se revirar e grunhir. Logo que me viu começou a gritar loucamente em sons desincronizados e estridentes vindo na minha direção, meu corpo congelou e só me lembro da dor terrível e depois a escuridão.

Acordei no dia seguinte e escutei algo que até hoje não entendi bem o que ela queria dizer

- O paciente tentou suicídio com duas facadas no rosto, disse a enfermeira

E logo a frente pela janela senti que as luzes do hospício Ludwig me chamavam, mesmo sem conseguir enxergar.

Autor: Matheus Howard

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Gostaria de ouvir uma história?

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Quando o garoto dobrou à esquina sabia que não podia ir muito longe, fugindo dos três caras que estavam-lhe perseguindo. Correu mais um pouco, viu um quintal cheio de móveis velhos espalhados por aquele gramado alto e se escondeu atrás de um guarda-roupa caído de lado. Levantou a cabeça um pouco, para observar, quando eles pararam bem próximos do local e começaram a cochichar que logo o pegariam e saíram caminhando. Aliviado, suspirou um pouco e ficou examinando a casa diante dos seus olhos, mas logo surgiu o proprietário, observando o garoto e os outros demais que estavam se afastando. Nesse momento, a criança colocou o seu dedo entre os lábios pedindo para o senhor ficar em silêncio.

- O velho assentiu com a cabeça e aguardou um tempo para começar a comentar. Perguntou, ao garoto, o que estava acontecendo e logo teve sua resposta sobre uma fuga para evitar uma surra no final do horário do colégio. Finalmente o garoto preparou-se para sair. Preocupado, o proprietário do local disse para ele ficar mais um pouco, porque eles poderiam estar próximos. Sem muitas escolhas, o garoto concordou sentando-se novamente, esticando suas pernas e colocando a mochila em cima das suas coxas. Curioso, perguntou porque existia tanto os móveis na frente da casa do senhor, e ele respondeu que são apenas coisas velhas que não consegue jogar fora ou queimar atrás do seu imóvel.

"Obrigado por não me expulsar ou falar que eu estou me escondendo aqui. O senhor mora sozinho nesse lugar? Nunca passei por essa parte da cidade, mas, como tava fugindo, não tinha muita escolha. - agradeceu e tentou se comunicar com o seu salvador, abrindo e fechando o zíper da sua mochila para aliviar o seu estresse.

"Não precisa se preocupar. Valentões, certo? Conheço muito bem eles na época do colégio, mas você não parece ser aquele tipo de nerd covarde, é um garoto até forte e alto." - Os seus lábios assobiaram enquanto ele repousava suas mãos em cima de uma mesa, com vidro quebrado, e observando às ruas.

"Eu não sou covarde, nem nada do tipo, só não quero machucar ninguém. Nunca serei esse tipo de cara que se sente especial no mundo mostrando que é o dono do pedaço, prefiro evitar do que usar a força; porque poderia muito bem acabar com aqueles otários!" - pareceu irritado tirando um livro de capa fina de dentro da mochila e abrindo-o na parte que estava marcada onde parou sua leitura.

"Ah, é claro, não queria ofender. E a propósito, esse é um livro de terror? Gosto de coisas desse estilo, sabe? Desde criança, contudo não é nem tudo que me assusta, com exceção de uma história que eu ouvi." - expulsou suas palavras com aquela mesma expressão sabendo que, quem estava ouvindo, desejaria saber mais por causa de um ar atraente de esmero.

"Do que é que está falando? Poderia dizer mais? Não vai custar nada!" - O seu rosto se contraiu visivelmente interessado, guardou o livro, que havia aberto em uma certa página, e fixou aquela figura pronta para abrir a sua boca.

"É um conto que envolve um garoto, como você. Faz muito tempo, e não lembrou com clareza todos os detalhes. No entanto, posso contar a história sobre uma coisa que não tem nome ou forma, essa gosta de roubar as partes das pessoas e usar para ela continuar consumidondo todos como se fosse uma corda sendo queimada por chamas. A coisa nunca para e precisa que mais alguém compartilhe a sua existência para ficar perseguindo todos... A história é muito tensa e, se você estiver a fim de conhecer, consequências ficam por sua própria conta. Pode ou não ser verdade." - O velho foi se aproximando do garoto aos poucos. Tudo o que dizia parecia apagado pelo vento, que estava desbotando sua roupa, e espalhando os cabelos do menino sentado no gramado.

"Isso aconteceu há muito tempo, em um entardecer, quando o sol já estava desaparecendo. Um certo menino encontrou alguns ciganos, essas pessoas que ficam vagando pela cidade e em todos os locais, até desaparecerem como se não existissem. Um deles chamou sua atenção, não muito velho e não jovem, e disse que tinha algo para contar ao garoto. Apesar dos demais ficarem incomodados com o que ele tinha para compartilhar. Como qualquer criança da sua idade, curiosa, chegou ainda mais perto para saber mais. O cigano disse sobre um cara, na verdade, não tinha como descrever aquilo. Falava que ele consumia todos. O único obstáculo que poderia afastar a coisa são barulhos e iluminação. Geralmente, aparece durante à noite, só basta saber que a coisa existe para começar a perseguir mais alguém. O garoto não ligou a princípio porque aparentavam serem mais um grupo de bêbados. Então, ele disse a história para os seus pais e o seu erro começou naquela ocasião..."

"Naquele final de dia, o seu pai ficou visivelmente irritado e foi atrás dos sujeitos, que haviam desaparecido no extremo da estrada que sai da cidade. A sua mãe deu de ombros, porque não era tão nervosa quanto o seu marido. A noite passou, e todos foram dormir, mas o garoto estava com um pressentimento ruim e acabou apagando logo após alguns minutos com a casa toda escura. Após algumas horas de sossego noturno, acordou com um sentimento sufocante de agonia e viu que tinha algo em comum no seu quarto... parecia o seu cachorro, porém era maior, os pelos estavam faltando, com exceção da parte de baixo da sua cabeça, mostrando um destaque bem maior do que o normal."

"O garoto chamou pelo nome do seu animal. No mesmo segundo que sua boca estava se fechando após completar as palavras, ele se moveu. Estranhamente, pareceu aguardar o motivo para se locomover. Em sua boca estava saindo fluido e ele foi caminhando de forma descomunal, cada vez mais próximo. Existe um limite entre a luz da janela e o local escuro e, cada vez, foi percebendo, enquanto aquilo se aproximava, que não era o seu animal. Logo ouviu, aos poucos, vozes pedindo socorro. Sorrateiramente, outras partes daquela criatura saíram do seu corpo, braços e pernas humanas se movendo asquerosamente como aranhas. Então, a coisa mostrou uma parte do seu rosto... imitava a cabeça de um homem, sua boca estava quebrada para o lado e sua língua jogada, cobrindo seu rosto. Sangue não parava de pintar o carpete do chão de caligem. Na tentativa de pedir socorro com suas mãos, o garoto acendeu o abajur próximo da sua cama, e aquela coisa gemeu quando seu corpo foi iluminado e logo desapareceu."

"Não demorou muito para a luz clara do seu quarto ser substituída com iluminações vermelhas, e a polícia arrombar a porta e encontrar o garoto assustado, suando e aflito. Os outros homens solicitaram socorro assustados com algo que eles viram naquela noite. Desde aquele dia, ele nunca soube com todos os detalhes o que havia acontecido ao certo com os seus pais. De acordo com os seus tios, sua família havia sido morta por algum invasor, que mutilou os seus corpos brutalmente como animais; mas ele poupou a criança por alguma razão. Até hoje, ele continua sabendo que aconteceu e não consegue ficar em lugares escuros, principalmente à noite, porque a coisa está aproximando-se e continua chegando mais próximo."

- Naquele instante, o garoto gaguejou para perguntar como a história acaba e o velho ficou em silêncio por alguns segundos, e disse que ela não havia terminado. O clima silencioso ficou por todo o lugar e o vento não parava de soprar entre os cômodos que se espalhavam naquele quintal. Sem explicação alguma, o velho mudou a fisionomia e pediu para ele sair, disse que talvez fosse apenas coisas na cabeça daquele garoto triste e com problemas sérios, também pediu desculpa se a história fosse verdade porque a coisa poderia agora ter mais um condenado para atormentar. O jovem não precisou ouvir mais palavras para saber que deveria retirar-se. Antes de se despedir, perguntou se o idoso ficaria bem e ele disse que sim; porque, de acordo com a história, essa noite o menino do conto enfrentaria os seus medos e deixaria todas ou qualquer iluminação da sua casa apagada e encararia aquilo que se transforma nas sombras dos seus móveis no crepúsculo.

- Por alguma razão, o garoto não desligou o abajur. Ficou com um sentimento preocupante de premonição para algo ruim dentro da sua casa, mas tentou adormecer e sentiu necessário de não dizer para os seus pais, e a sensação nauseante em sua mente não daria sossego tão cedo. No dia seguinte, captou sua mãe acordando e dizendo que estava atrasado para o colégio. Um suspiro aliviado fez os seus medos desaparecerem, porque, por alguma razão, havia acreditado nas palavras daquele velho. No início desta manhã nublada, apesar do atraso para chegar no colégio, passou naquela casa, bateu a porta e ninguém respondeu. Notou que a residência estava destrancada e entrou, caminhou pelos cômodos com cheiro forte de madeira podre, subiu as escadas, empurrou uma porta e encontrou o velho deitado na cama.

A janela estava com pregos ocultando qualquer iluminação com um monte de trapos. Estava escuro o suficiente, mas não tão obscuro para chegar o suficiente mais perto. Os seus olhos logo observaram, encostando naquele leito, que o velho estava com suas mãos abertas, os dedos atrofiados como se estivesse sido dobrados, uma das pernas esticadas até o final do colchão, ultrapassando o limite do jirau para o lado direito e a outra faltando e sem sangramento; o seu peitoral para frente e a boca terrivelmente aberta, os seus olhos se tornaram tão repugnantes que ele não conseguiu observar nada além daquilo. Mas, parecia que, antes de morrer, ele estava vendo algo no canto do quarto. Os seus olhos aterrorizantes acompanharam a forma que a cabeça daquele homem estava virada para encontrar o que ele viu antes da morte...

- Murmúrios logo ocuparam o quarto como uma multidão aplaudindo e roubando o silêncio que esteve ali, o barulho de goteira, o rangido das madeiras, o odor de decomposição de uma casa consumida pelo tempo e uma coisa se movimentando... antes parecia como qualquer outro móvel quebrado e esquecido, contudo, se moveu como um animal. Sem muita demora, se posicionou como um homem como qualquer outro: muito alto, os pelos, embaixo da sua cabeça era um nada além de couro cabeludo. A coisa abriu a boca e uma língua enorme saltou cobrindo o seu rosto. Os seus braços se abriram e logo outras pernas, rosto e mãos surgiram por todo seu corpo. Então, o garoto saltou para trás, caindo longe pelo pavor e se arrastou suficiente para escapar. Encontrou abrigo em uma parte mais iluminada e escapou.

- O mínimo que poderia fazer, era anunciar uma chamada de emergência em anônimo sobre um idoso precisando de auxílio. Aguardou, afastado o suficiente e escondido, a polícia entrando no local, e demorou algum tempo para uma ambulância chegar e guardar o seu corpo em plásticos de morte iguais às cenas de um crime. As coisas naquele dia ficaram ainda piores porque a vingança dos valentões não foram nada próximas que aquela sensação de perseguição que o garoto notava e tinha noção que algo lhe estava observando em todos os lugares que estava indo. Apesar das primeiras pancadas naquela manhã, no entardecer, eles desejavam mais: os nojentos esperaram prontos para expulsar suas frustrações pessoais contra alguém indefeso. Antes de receber os socos e ter o seu dinheiro roubado, o garoto disse que tinha algo para contar, uma história e eles ficaram curiosos. Enquanto estava tendo só a camisa dobrada contra a parede, em mais uma rua vazia, ele movimenta os seus lábios e começou a dizer sobre uma coisa...

Autor: Sinistro

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