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Kaphyotos

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Pretendo terminar essa carta antes que o veneno faça efeito no meu corpo. Custou a mim, tempo e dinheiro considerável, para que enfim eu finalmente conseguisse uma substância que me matasse sem dor, mas sem que eu precise causar náuseas para as enfermeiras que me acharem no meu quarto.

Na rua que nasci e passei minha infância, nos subúrbios de uma cidadezinha do Arkansas, havia um velho senhor que dizia ter lutado na primeira grande guerra, e dizia que nela perdeu tudo o que já amou; Sua mulher, seu futuro filho, e metade de sua perna. Por isso ele dizia odiar todos os alemães e seus "falsos deuses". Quando questionado sobre quem seriam os falsos deuses, ele dizia que eram os frutos do acasalamento entre morte e loucura, seus nomes já eram suficientes para levar o mais corajoso dos homens à insanidade.

Poucos anos mais tarde o velho morreu em sua cama, e alguns anos a mais fui forçado a abandonar meu lar e me sujeitar ao serviço militar. Não estávamos em tempos de guerra ou crise, porém após a derrota fascista, todos os salários subiram, e uma carreira no exército era simplesmente a mais fácil. Ou ao menos aparentava ser.

Nos primeiros meses, após uma discussão com um superior, que se certificou de infernizar a minha vida depois disso, eu fui me tornar limpa-convés no barco de uma companhia que, em troca de ter disponibilizado barcos durante a guerra, recebeu soldados como funcionários. Durante os primeiros dias, tudo ocorreu relativamente bem, senão fosse pelos enjoos e náuseas constantes de meia tripulação que nem sequer havia visto o mar, onde eu estava incluído.

Diferente do meu serviço em terra, no barco virei amigo do capitão. Ambos havíamos sidos desprezados pelo general que me colocou naquele barco, e eramos os únicos dois em todo o barco torciam para a mesma seleção futebolista, logo, nos tornamos bom companheiros. Até que após uma forte tempestade, que havia nos tirado algumas poucas milhas para longe da rota que seguíamos, avistamos um velho pesqueiro alemão, que parecia estar abandonado a pelo menos uma década.

O capitão de nossa embarcação, deduziu que pela localização do barco, assim como aparentava não ter ninguém a bordo, se tratava de um barco-espião, e que a tripulação já devia ter sido capturada ou morta a um bom tempo. Ele então pediu que metade dos guardas do barco fossem até o pesqueiro, posição que, coincidentemente, eu havia sido promovido alguns dias antes. Então eu e mais dois homens fomos até o barco alemão, armados com velhos fuzis militares.

Ao chegarmos na embarcação, a primeira coisa que notamos foi o forte cheiro de sangue e enxofre que parecia vir da sala de máquinas. Fora isso, o barco estava limpo de forma surreal. Se não fosse por termos reconhecido que era um modelo antigo, seria impossível dizer que o barco tinha mais que 10 anos, cada peça de metal brilhava como se tivesse sido feita da prata mais polida do mundo.

Tiramos na moeda para selecionar quem iria descer para descobrir a causa do mal cheiro. Obviamente, com o azar que tive durante minha vida toda, eu fui o escolhido pelo destino; Destravei a arma, e desci até a parte debaixo da embarcação, atento a cada som que eu escutasse. Naquele momento notei outra coisa, era impossível escutar o barulho de fora, ou sentir o balanço do mar; De certa forma, era como se eu estivesse parado no tempo. Ao finalmente chegar na sala de máquinas, tive uma visão que não posso descrever em palavras. Era como se todos os membros da população tivessem sido quebrados, retorcidos e esmagados, e enfim empilhados em um cubo de carne, sangue e ossos quase que perfeito.

No centro da sala, onde deveria estar um motor, havia somente uma placa de pedra coberta de algas e inscrições em letras que jamais tinha visto antes. Ao tentar ler os símbolos, uma sensação de náuseas e vertigem tomou conta de mim, como se meu cérebro estivesse sendo sugado por um canudo em minha testa. Alguns segundos depois retomei os sentidos, e tentei analisar a sala. Na parede, pintado com o que parecia ser sangue e fezes, estava uma palavra em letras normais, escrito de uma forma que as últimas letras pareciam ter sido feitas por alguém ou se contorcendo, ou em loucura.

"Kaphyotos"

Uma dor agoniante tomou conta de mim quando li. Ao me virar para a saída, vi um ser asqueroso, tinha o corpo de um lagarto, porém humanoide, e no lugar da cabeça, havia apenas uma massa negra, feita de olhos, tentáculos e bocas. O cheiro da criatura me atingiu em segundos, era uma mistura de enxofre e carniça tão forte, que me fez perder a consciência em poucos segundos. A última coisa que vi foi os tentáculos da criatura se moverem em minha direção.

Acordei, segundo o capitão, três dias depois na enfermaria do meu barco. Meus companheiros, segundo ele, impacientes com minha demora, foram para a sala de máquinas e me encontraram inconsciente em uma poça de fezes e sangue. Após verem o bolo de corpos, me tiraram de lá, e logo depois, afundaram a velha embarcação com algumas bananas de dinamite, como fora ordenado pelo exército americano.

Quando questionei sobre a placa e as inscrições na parede, eles afirmaram não ter visto nada. Acreditei de princípio, até que um dos que me resgataram tirou a própria vida colocando a cabeça em um moedor de carne. As memórias da palavra e da criatura que vi naquele dia continuaram me causar pesadelos durante toda minha vida. Sinto que aquela criatura pretende em algum momento vir me buscar, e confesso ter medo do que ela poderia fazer para mim.

Por isso eu peço que entendam minha decisão de tirar minha própria vida. Poucos segundos atrás escutei sons do lado de fora, e um forte cheiro de sangue e enxofre tomou o quarto por completo.

Sei que ele está aqui.

E nada vai o impedir.

Autor: M. Medeiros

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Eu sou terapeuta e o meu paciente vai ser o próximo atirador em uma escola (Paciente #107) - Final

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Algumas semanas depois, depois de terem removido os corpos e retomado as aulas, eu comecei a limpar minha mesa. 

Sim, eu fui demitido.

Eles sempre demitem o terapeuta quando coisas assim acontecem. "Devia ter percebido", eles dizem. "Todos os sinais estavam ali."

Jura?

Mas é o motivo que a escola deu para me demitir que ainda me perturba. "Comportamento imprudente resultou em uma tragédia desnecessária."

Quase parece que eles estavam me culpando por tudo que tinha acontecido.

Talvez eu tenha sido imprudente, sei lá. Claro, foi o oposto do que você deve fazer em uma situação como essa, mas pelo menos eu tentei.

Se você realmente quer saber o que aconteceu depois que o alarme tocou, aqui está a minha versão dos fatos. Mas, como você já deve imaginar, não tem um final feliz.

.

"Liga pra ele.", eu disse.

"O que?", Alex levantou as sobrancelhas.

"Se você realmente quer parar isso, pegue seu telefone e ligue pra ele."

Ele parecia hesitante, mas pegou seu telefone. "O que eu devo dizer?"

"Fala pra ele que você pegou a arma de um dos seguranças e que você quer que ele te espere... para você participar da diversão."

A última parte me fez quase vomitar quando eu disse, mas precisava parecer real.

"Isso é loucura..."

"AGORA, Alex."

Logo que ele colocou o telefone no ouvido, um dos seguranças entrou correndo na sala. Eu corri na direção dele e sussurrei "não é o Alex."

"O que?"

"Tem um segundo atirador," eu disse, enquanto Alex murmurava no telefone. "Você tem que ficar quieto e deixar ele terminar a ligação."

"Não, eu... eu não posso fazer isso." Ele deu um passo à frente, mas ele parecia aterrorizado. "Nós precisamos esperar a polícia."

Eu fui na direção dele. "Olha, a biblioteca é, no mínimo, sessenta segundos, correndo, daqui. Quantos estudantes um atirador consegue matar em um minuto?"

Ele olhou ao redor da sala, nervoso.

"Alex só tá ganhando tempo."eu disse. "Cada segundo conta. Você tem que confiar em mim. Eu conheço ele."

Ele deu uma respirada funda e balançou a cabeça, concordando comigo. Acho que ele ficou aliviado por eu ter tomado a responsabilidade pela situação, para que ele não tivesse nenhuma. Eu podia afirmar que ele estava dando tudo de si, cada pequena porção de coragem no seu corpo, para não sair correndo da escola.

Eu olhei para seu distintivo e disse "Dave, eu quero que você me escute, okay? Tudo vai dar certo."

Ele concordou de novo.

"Dave, onde está o outro segurança?"

"Eu não.." ele estremeceu. "Eu não sei."

"Jesus. Você ligou para o 911, certo?"

"Sim," ele disse. "Eles estão a três minutos de distância."

Eu balancei minha cabeça. "Isso é muito tempo."

Eu me virei para Alex e vi que ele já não falava mais ao telefone. Eu perdi toda a conversa.

"Ele acreditou em você?" Perguntei.

"Acho que sim," respondeu ele. "Ele disse que tem 20 alunos com ele na biblioteca."

Eu fechei meus olhos por um momento e me virei para o segurança. "Me dá sua arma."

"Que?" ele sacudiu a cabeça. "Claro que não. E se o outro garoto pegar ela?"

"Tire o pente e me dê a arma" eu repeti.

"N.. Não. Precisamos esperar pela polícia e pela negociação de reféns."

"Pelo amor de Deus! Isso não é um sequestro!" respondi, exasperado. "É um massacre, esperando pelo segundo jogador entrar no jogo. No segundo que ele achar que o Alex não vai, ele vai matar todo mundo."

"Mas..."

"Jesus, você quer ser o próximo segurança de Parkland, como o seu amigo que sumiu? O segurança que deixou dezenas de crianças morrerem?"

O rosto dele ficou branco.

Finalmente, ele pareceu ter entendido a situação. É difícil manipular alguém que você não conhece, mas parece que eu acertei em cheio com ele.

Ele sacudiu a cabeça, tirou o pente e me entregou arma.

"Obrigado" Eu disse.

Eu peguei a arma e entreguei para o Alex.

"Mas que merda?" Alex e o guarda falaram ao mesmo tempo.

"Nós vamos para a biblioteca." eu disse.

"Por que?"

"Alex, nesse momento, você é o único que tá mantendo os alunos vivos. Enquanto ele acreditar que você encontrará ele e que tá no time dele, ele não vai machucar ninguém. Pra isso, você tem que ter conseguido a arma. Ele precisa continuar acreditando."

Ele engoliu em seco e pegou a arma.

"Ótimo" eu disse. "Vamos."

Passamos correndo pelo segurança, que não se mexeu e não fez menção de nos seguir. Talvez fosse melhor. Um segurança só iria provocar esse cara. Seja lá quem ele fosse.

Enquanto corríamos para a biblioteca, eu disse pro Alex: "Aponte a arma para minha cabeça."

"O que? Você tá maluco."

"Faça!" eu disse. "Se ele estiver vendo pelas câmeras de segurança, isso tem que parecer real."

Ele fez como eu o instruí. Nós corremos pelos corredores enquanto o alarme repetia: "Atirador na escola... Isso não é um exercício... Se escondam..."

Agora, eu tinha apenas sessenta segundos para descobrir duas coisas:

1) Quem era a outra pessoa? E o que eu precisava saber para manipulá-lo?
2) O Alex realmente queria acabar com aquilo, ou ele só estava me manipulando? Ele, claramente, era capaz de me enganar, mas eu realmente achava que a sua realização há algum tempo tinha sido genuína. Ou talvez tenha sido parte da distração. Mas ele me disse da distração antes do alarme soar.

"Alex, eu preciso que você me diga tudo que sabe sobre essa outra pessoa." eu disse. "Quem é ele? Qual é o nome dele? Como você o conheceu?"

"Ah, é.. seu nome é Ian. A gente se conheceu em um fórum na internet mês passado."

"Você estava falando sobre a Emma?"

"Sim." Ele já estava sem fôlego. "E o Ian me entendeu. Ele passou pela mesma coisa."

"Ele estuda nessa escola?"

"Não" ele disse. "Ele é mais velho. Tem 24 anos, acho."

"E ele queria te ajudar com seu plano?"

"Na verdade, foi tudo ideia dele. Ele disse que isso consertaria tudo."

Isso explicava tudo. A rápida queda de Alex em direção à escuridão no mês passado. A calma súbita. A calculadora gráfica antiga, que os alunos de hoje não usam mais. Tenho que admitir, era um jeito inteligente de se comunicar sem deixar rastros.

"Alex, eu preciso que você me diga a verdade." eu tentava recuperar meu fôlego. "Você realmente quer acabar com isso ou você ainda está me enganando?"

Ele não respondeu imediatamente. "Eu acho que quero ajudar."

Isso não foi convincente.

Eu estava achando que nem o Alex sabia o que queria fazer ainda. E isso me assustava.

"Tudo que eu disse lá na sala é verdade. Você pode melhorar, eu prometo." Então eu complementei. "Você sabe que o Ian só está te usando, né? Ele está te usando para realizar as próprias fantasias."

Eu me sentia um advogado, tentando convencer o júri a ficar do meu lado.

Alex balançou a cabeça e foi isso. Nossos sessenta segundos tinham se esgotado.

Quando viramos o corredor, diminuímos a velocidade em frente à porta da biblioteca. Eu olhei pelo espelho e vi um grupo de estudantes agrupado perto do balcão de informações. Ian estava em pé na mesa, apontando a arma para eles.

"Me leva lá pra dentro, com a arma na minha cabeça," eu sussurrei. "Fala pra ele que quer que eu veja eles morrendo, para que eu saiba o fracasso que eu sou."

"Qual é o seu problema?" Alex sussurrou de volta.

"Só faça isso" eu sibilei. Então abri a porta e entrei na biblioteca.

Ian rapidamente virou a arma para a gente.

"Por que o terapeuta está aqui?"

"Para foder com nossa cabeça." disse o Alex, abaixando a arma. "Como eu disse no telefone, não escute uma palavra que essa víbora diz. Agora me dê algo carregado."

Mas que merda, Alex?

Alex e Ian trocaram sorrisos, então andaram na direção um do outro e se abraçaram.

"A Glock 19, né?"

"Isso."

Ian entregou a arma para o Alex e se voltou para o grupo de alunos. Eu dei uma olhada rápida no grupo e foi aí que vi a Emma.

Meu coração parou. O que ela estava fazendo aqui? Eu liguei para o pai dela para avisar, na noite passada. Quem deixaria sua filha vir para a escola depois disso? Ele, entre todas as pessoas, deveria saber disso.

Era fácil ver o porquê o Alex se apaixonou pela Emma. Era era linda, mas de um jeito inocente, como se ela não tentasse ser bonita. Ela estava encurralada, junto dos outros alunos, com lágrimas escorrendo pelas bochechas.

"Os policiais vão chegar a qualquer minuto." disse Alex. "Vamos logo acabar com isso."

Os estudantes choramingaram. Emma deixou escapar um soluço alto.

"Cala a boca, sua vaca." Ian gritou.

Ela começou a chorar de novo e afundou a cara entre as mãos.

Por um milésimo de segundo, Alex realmente pareceu sentido com a situação.

E foi aí que eu percebi que a Emma estar ali era, na verdade, uma coisa boa. Não era eu quem precisava manipular alguém.

"Alex, ela precisa de você." eu disse, gentilmente.

Ele girou e apontou a arma para meu rosto. "Cala a boca. Tô cansado de você. Você vai ver a gente matar cada um deles. Talvez isso finalmente calará a sua boca."

"Olha para ela." Eu continuei. "Ela está em perigo, e você é o único que pode salvá-la."

Ele chegou perto de mim e me deu uma coronhada.

"Cala. A Porra. Da boca."

Mas, mesmo no chão, eu insisti. "Você pode salvá-la, Alex. Pode ser seu herói."

Eu olhei para a Emma e ergui as sobrancelhas, tentando sugerir que ela devia seguir minha deixa.

Ela me deu um olhar pleno e depois fechou os olhos.

"Por favor, me salve, Alex."

ISSO!

Finalmente, eu consegui ver. O olhar de Alex se suavizando. Assim como na minha sala, pouco antes.

"Cara, só mata a vadia." Ian disse. "Não se lembra o que ela fez contigo?"

"Por favor, me salve, Alex." Emma repetia entre lágrimas. "Eu preciso de você."

"Você só pode estar de sacanagem comigo." Ian riu e apontou a arma para Emma. "Aqui, deixa que eu começo."

Emma gritou.

Então, um barulho de tiro.

E antes que eu conseguisse entender direito o que tinha acontecido, Ian estava caído no chão, ao meu lado, com uma poça de sangue se formando em volta de sua cabeça.

Eu olhei para cima e vi Alex parado sobre a gente, branco como um fantasma.

"Você conseguiu." Eu sussurrei. "Você conseguiu, Alex. Salvou todos nós."

Seus olhos estavam marejados de lágrimas, mas eu sabia que ele não ia chorar.

"Alex, você é o herói dela. Você salvou Emma."

Seu rosto estava suave. Ele estava justamente do jeito que precisávamos mantê-lo até a polícia chegar.

Eu sei que eu estaria com grandes problemas mas, ao meu ver, um assassino morto era melhor que doze crianças inocentes.

Chame de irresponsável, se quiser, mas as sirenes pararam de soar ao nosso redor. Eu sabia que conseguiria dormir bem nessa noite.

Se não fosse por um segundo tiro.

Antes que eu conseguisse reagir, Alex caiu em cima de mim, e eu senti algo quente se espalhando pelo meu peito.

"Mas que..."

Eu olhei para cima e vi Emma em pé sobre a gente.

"ELE NÃO É MEU SALVADOR!" ela gritou.

"Emma, eu preciso que você se acal..."

"Ele é um perseguidor e um psicopata!" Ela soluçava. "Ele me fez sentir medo de vir para a escola."

"Eu entendo." eu disse, ainda no chão, com Alex sangrando sobre mim. "Você pode abaixar a arma, por favor, para ninguém mais se machucar?"

"Eu não vou soltar a arma." ela sacudiu a cabeça. "Quando você ligou ontem à noite, meu pai me deu a arma dele e me disse para usá-la caso alguma coisa acontecesse. Você devia ter impedido isso. Você não devia ter me usado como um peão. Eu não confio em você. Não confio em ninguém."

O pai dela era militar. Ele deve ter levado a ameaça a sério, então.

"Você está salva agora, Emma." eu disse calmamente. "Eu prometo."

Ela secou os olhos. "Eu nem sei mais o que é estar segura mais."

"Eu só quero garantir que a polícia não a machuque quando eles verem uma arma na sua mão." eu disse. "Você pode jogar ela pro outro lado da biblioteca, por favor?"

Ela fungou e considerou por uns segundos. Ela então concordou e jogou a arma para longe.

Eu exalei profundamente quando os policiais entraram na biblioteca.

Teve muitos gritos e choro, mas eu não prestei muita atenção.

Invés disso, eu olhei para os olhos do Alex, que estavam a centímetros de meu rosto. Eu vi tristeza, mas também orgulho. Eu vi o rosto de um homem que sentia que tinha se redimido.

Eu passei as mãos pelo cabelo dele e sussurrei: "Me desculpe, Alex."

.

Então, como você pode ver, a verdade é complicada.

Irresponsável? Talvez. Mas eu tô convencido que aquela ligação salvou a vida de doze crianças, mesmo as custas da vida do meu paciente.

Talvez você ache que eu devia ter esperado e deixado acontece a negociação de reféns.

Talvez você ache que eu estava sendo manipulador e controlador, mas eu só faço esse tipo de coisa porque não acredito que as pessoas possam tomar as decisões certas.

Talvez você ache que isso me faria fugir de terapia para sempre, mas eu já vi de tudo: uma mulher que mantinha o ex aprisionado no porão como seu escravo sexual. Um paciente com PTSD (estresse pós traumático) que me fez ter pesadelos. Um casal que se acusavam de abuso, mas só um estava dizendo a verdade. Um pedófilo maníaco por conspiração que parecia realmente ter achado um segredo obscuro. Um paciente com TOC cuja família realmente se feria toda vez que ele errava o ritual. E quem poderia esquecer do menino que dizia estar sendo molestado, não por um padre, mas por Deus.

O problema é que meus pacientes têm o péssimo hábito de morrer. Alex não foi o primeiro e temo que não tenha sido o último. Às vezes me pergunto se sou o denominador comum. Ou talvez esse seja o custo de aceitar pacientes extremamente quebrados.

Eu peguei minhas coisas e dei uma última olhada na sala. Eu ia sentir falta do lugar e das pessoas, mas eu acharia outro lugar logo.

Eu nunca vou parar de tentar ajudar os outros.

Fim do arquivo do paciente #107

Nota: Como ele disse ali no final, são várias histórias diferentes. A maioria já está escrita. Vou postar as histórias gradualmente, sempre com a tag "Dr. Harper". A próxima história vai aparecer por aqui daqui a duas semanas. Vai ser a história do paciente com TOC, seguindo a ordem que o autor postou.

Fonte

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!






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Ontem eu cheguei rápido demais na faculdade

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Demora cerca de 12 até 14 minutos para eu chegar na aula. 

Eu cronometro meu tempo todos os dias. Sei que é estranho, mas é algo que eu faço. Presto bastante atenção no tempo, sempre prestei. Saio de casa as 08h40 em ponto, e chego na faculdade entre 08h52 e 08h54. Depende quanto tempo eu levo para atravessar duas ruas em específico e de quão rápido estou andando. Uma vez eu fiz o caminho em 11 minutos, mas é uma exceção.

Cheguei na minha sala e entrei, descobrindo que a turma de antes da minha ainda estava em aula. Pedi desculpas e sai. Deviam ter se atrasado um pouco. Chequei meu relógio. 

08h43.

Era impossível. Não podia ter chego tão rápido assim, e certamente não estava apressado naquela manhã. 

Devia ter saído mais cedo que o habitual, ter visto o horário errado. Isso fazia mais sentido.

Eu tive aula às 09h, depois um seminário às 10h que durou 2 horas. Fui até o centro estudantil para almoçar e decidi ler do lado de fora. Me sentei eram 12h15 com meu sanduíche e um livro. Li por um tempo, cerca de cem páginas. Chequei a hora. 

12h20.

Era impossível. Meu relógio devia estar morrendo. Eu iria no banheiro, depois passaria na livraria para pegar um novo relógio antes das minhas aulas da tarde.

Entrei no banheiro e fechei a porta do cubículo. De repente todas as luzes se desligaram. Não sei como o banheiro podia estar tão escuro, será que alguém tinha fechado as persianas das janelas? Andei as cegas até a porta e abri para descobrir um prédio escuro. 

Estava de noite. Chequei meu relógio.

19h30.

Andei até uma saída que graças a Deus se fechava por fora e comecei a andar até minha casa.

Minha casa era velha, antigamente uma tia esquisita minha era a proprietária. Quando faleceu, minha família decidiu que eu poderia morar lá por alguns anos enquanto frequentava a faculdade, conseguiria cuidar da casa sozinha e guardar o dinheiro que não gastaria no alojamento. Não fiquei muito feliz, a casa era grande demais para mim e meio assustadora. Preferia viver em um dormitório com meus amigos, mas minha família fez com que me sentisse culpada. E a casa tinha regras estranhas. Sem colegas de quarto, sem convidar amigos para visitar. Era um lugar estranho.

Observei atentamente o relógio em casa. Nenhum problema. O tempo estava passando como deveria. Será que eu estava doente? Realmente estava estressada sobre a prova que teria no dia seguinte. Quatro redações enormes para minha aula de literatura, e o professor era bem rígido. Devia ser o estresse.

Naquela noite dormi com figuras enegrecidas de pé ao lado da minha cama. Eu estava paralizada. "Ela destravou," um disse. "Não demorará muito."

Acordei sozinha, coberta de suor. 

Minha caminhada até a faculdade levou 13 minutos no dia seguinte. Tudo voltara a ser como antes.

A prova começou às 10h03 e comecei a escrever furiosamente. Meus argumentos eram fantásticos. Estava preparada para aquelas questões. Preenchi uma folha inteira de respostas e depois mais metade de uma segunda. Me senti muito bem quando fui a primeira aluna a levantar e entregar a prova. Sabia que receberia a nota máxima. 

A professora olhou as folhas com um olhar embabacado. "No futuro, se quiser trapacear em uma prova, não seja tão óbvia."

Fiquei chocada. "Eu não trapaceei."

Ela riu, "É impossível que você tenha escrito tudo isso em tão pouco tempo."

Chequei meu relógio. 

10h07.

Corri para fora da sala e não parei até chegar em casa. Nada fazia sentido. Entrei pela porta e chequei meu relógio. 10h16. 

Liguei meu computador; precisava descobrir o que estava acontecendo. 

Eu tinha 945 e-mails não lidos. Sou daquelas pessoas que sempre deixa a caixa de entrada vazia. Nunca vou dormir sem checar meus e-mails. Como era possível ter recebido aquela quantidade de mensagens desde a noite anterior? 

Chequei a data. Três semanas haviam se passado. 

Hiperventilei por alguns minutos. Algo de muito errado estava acontecendo comigo. Decidi que ia voltar para o campus e procurar a enfermaria, deviam ter acesso a uma ambulância e me levariam até um hospital. Tinha que ir logo.

Abri a porta e senti um frio absurdo. Não fazia sentido, era um dia quente de verão, eu tinha estado lá fora fazia pouco tempo. Subi as escadas para pegar uma jaqueta e olhar a previsão do tempo para entender como tinha ficado tão frio do nada. 

Não estou entendendo o que está acontecendo. Era para ser Outubro de 2014. As notícias não fazem sentido. Alguém está fazendo uma pegadinha comigo? Porque meu computador está dizendo que estamos em Janeiro de 2019? 

Acho que preciso ir para um hospital. Tem algo de muito errado comigo.

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Reunião Familiar

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Caiu finalmente a tempestade que tanto ameaçou a cidade naquelas horas plúmbeas precedente ao o ocaso.

A chuva era torrencial e com ela precipitavam-se os mais vorazes trovões e relâmpagos. Alguns dos últimos atingiam o solo assustando perversamente as testemunhas, para depois surdá-las com o ribombar do estrondo que os seguia.

Naquela noite ninguém dormiu direito. Quase toda a cidade passou em claro seu período de descanso. Uns simplesmente estavam horrorizados demais pela violência da tempestade, outros corriam freneticamente no interior de suas casas arrastando móveis e trocando bacias cheias pela água das goteiras.

Mariza fora uma das que não pregaram as pestanas por medo. Passara a noite em alerta sobressaltando-se a cada novo estalido ou trovão. Temia mortalmente as tempestades. Sobremaneira as noturnas.

Quando criança perdera ambos os pais e uma sua irmã para as águas revoltosas do rio que inundara sua casa devido ao aumento absurdo de seu volume promovido pelas águas da chuva.

A moça morava sozinha e sua casa era muito antiga. Sempre que a noite caía, ela pensava ouvir coisas ou mesmo perceber vultos furtivos com o canto dos olhos. As ripas do assoalho as vezes rangiam no escuro deixando os nervos da jovem em frangalhos.

Nesta noite em especial, Mariza havia acendido todas as lâmpadas da casa, pois temia o escuro pouco menos que as tempestades. Tinha aceso também algumas velas, como precaução para o caso de a energia faltar.

Como estivesse em claro por horas a fio e a tempestade fosse de uma força sobrenatural, mantinha-se num estado de excitação nervosa que se protraíra desde alguns minutos após o inicio da torrente chuvosa até aquela hora da madrugada em que a energia, como esperado, finalmente acabou.

Mariza levantou-se da cama imediatamente e correu em direção à vela que se desmanchava por sobre sua penteadeira. A luz fraca da chama refletia-se bruxuleante no espelho oval em que ela se maquiava antes de ir trabalhar.

Assim que alcançou a vela um raio parecido com uma ramificação vegetal atravessou o céu noturno iluminando o aposento silencioso violentamente.

Mariza estancou aterrorizada com a vela por entre os dedos: jurava ter visto refletida no espelho uma forma encarquilhada esgueirar-se pela fresta da porta entreaberta indo desaparecer num canto escuro do quarto.

Seu olho esquerdo piscou involuntariamente algumas vezes de nervoso.

A moça, mais que depressa, saltou agilmente sobre sua cama e direcionou a luz amarela da vela para o tal canto do aposento. E foi com grande surpresa e terror que viu sentada em sua cadeira de balanço uma velha senhora enrugada e macilenta de olhos cavos, profundos e cabeleira revoltosa surgida sabe-se lá de que pesadelo. A velha tamborilava seus dedos aduncos e descarnados nos braços da cadeira como se estivesse tão nervosa quanto a petrificada Mariza exibindo uma terrível careta de desaprovação para a tempestade lá fora.

Ante a visão aterradora da senhora surgida da escuridão, a vela titubeou por entre os dedos da jovem, indo cair macia nos lençóis amarrotados da cama. E nisso apagou-se no mesmo instante, deixando no lugar de sua claridade amarelada a escuridão uniforme.

Adjacente ao quarto em que se encontrava o par inusitado de mulheres havia um pequeno banheiro privativo do cômodo, ao qual se tinha acesso por meio de uma tímida porta na extremidade oposta a em que se encontrava a velha surgida das trevas da noite. Foi pra lá que a moça atirou-se desesperada de terror apertando-se portal adentro desajeitadamente.

O banheiro estava úmido por causa das goteiras e a chuva lançava-se furiosa contra o vitrô entreaberto do cubículo.

Mariza instantaneamente bateu a porta de ripas carcomidas abafando um grito com as mãos trêmulas. Não sabia o que fazer. De onde saíra o demônio que estava sentado em seu quarto?

Instintivamente a moça recuou assustada até encostar-se no canto de uma parede gelada de onde via o vitrô exíguo e a portinhola do banheiro. Um outro relâmpago ofuscante brilhou em meio à tempestade e ela divisou uma sombra negra que estivera em pé na frente da pequena janela pelo lado de dentro do cômodo.

Suas pernas fraquejaram e a pobre mulher soltou um grito de terror escorregando no chão molhado e caindo pesadamente no azulejo frio.

Tentou se levantar, mas o desespero e a umidade no chão impediram-na de lograr êxito.

A forma sombria pareceu caminhar em sua direção. Mariza debatia-se e gritava horrorizada. Seus pés escorregavam no piso molhado do banheiro. E a figura, que agora estava entre a mulher e a pequena porta, aproximava-se inexoravelmente, Outro relâmpago clareou o retângulo azulejado de modo a fazer com que a moça percebesse o corpanzil volumoso de um homem lívido com feições deformadas angulares e cavidades vazias onde deveriam estar seus olhos aproximando-se dela. A tempestade recrudesceu. A portinhola do banheiro soltou um rangido lúgubre e demorado digno dos mais medonhos pesadelos de horror e a velha adentrou o recinto com andar arrastado e rígido.Marisa, ofegante, não conseguia levantar-se e o som da tempestade abafava seus protestos de pavor. Um trovão ensurdecedor ecoou por entre as paredes apertadas do cubículo quando a tétrica mão do ser abissal atingiu a face gélida da mulher terrificada. Uma risada tenebrosamente familiar seguiu-se ao toque do ente macabro juntamente com a voz esganiçada da velha caliginosa.

Marisa, no paroxismo de seu desespero inexplicável, petrificou-se apavorada com o toque glacial do espectro. E nessa hora uma descarga elétrica partiu o céu, dessa vez imediatamente seguida do brado encolerizado da trovoada.

E foi assim que ela acordou encharcada do próprio suor e quase enforcada pela fronha que arrancara do travesseiro enquanto se debatia presa pelos horrores do mais hediondo pesadelo que jamais tivera.

Levantou-se bruscamente e com olhos arregalados de espanto perscrutou o quarto envolto na penumbra sem nada avistar de estranho. Passando alguns instantes presa nessa contemplação fatídica, a mulher finalmente deixou que sua cabeça pendesse abruptamente soltando um suspiro de alívio por perceber que tudo não passara de um sonho mal. Lá fora a chuva caía pesada sobre a cidade.

Contudo, enquanto ainda tentava se acalmar olhando pensativa para as mãos trêmulas notou uma pequena marca arredondada de bordas enegrecidas no forro da cama que lembrava muito bem uma queimadura no tecido. Lembrou-se então da vela que caíra no sonho apagando-se imediatamente. Curiosa, a moça futucou a queimadura com o indicador tremulante.

Ela ainda estava introvertida na averiguação do orifício queimado no lençol quando ouviu um som bastante peculiar e característico vindo de um canto do seu quarto. Aterrorizada com o pesadelo recente imediatamente olhou em direção à cadeira de balanço feita de vime na qual costumava repousar quando se perdia por entre os parágrafos de um livro qualquer.

A cadeira, que ficava exatamente no mesmo lugar em que estivera sentada a bruxa velha do pesadelo, movia-se lentamente fazendo o assoalho de madeira ranger, como se houvesse alguém a se embalar tranqüilo, apesar de estar completamente vazia.

A moça, de um salto, acendeu o abajur que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama e firmou o olhar embaçado: a cadeira continuava a mover-se lentamente.

Nesse instante, vindo do banheiro que tinha sua porta fechada, um chilro sussurrado de vozes misturadas invadiu o quarto, fazendo zunir a cabeça da jovem.

Possuída pelo horror, Marisa tateou o rosto no local onde fora tocada pelo monstro do pesadelo arrepiando-se ao sentir uma chaga indelével em sua face esquerda.

Com o sussurro sobrenatural intermitente, deslocou-se até a porta do banheiro e lentamente forçou-a para dentro, fazendo com que se abrisse num ranger pavoroso.

A cena era horrível!

Dentro do cômodo retangular jazia afogada na latrina com os membros rijos e azulados uma jovem nua de cabelos negros parecidíssima com a irmã que Mariza perdera tantos anos atrás na enchente que arrasara sua família. A anciã diabólica e o homem corpulento de pele lívida e feições deformadas estavam também caídos em decúbito dorsal com os olhos esbranquiçados vidrados no teto. De suas bocas escorria uma repugnante água amarronzada típica das correntes fluviais lamacentas. O líquido espalhava-se por toda a área do banheiro em que se prostravam os três defuntos.

Eram os cadáveres de seus parentes que voltaram do outro mundo trazidos pela inundação do temporal molesto em busca do aconchego familiar perdido para as águas da tempestade maldita que anos atrás assolara o recôndito de seu lar.

Autor: Rodrigo Bispo

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Eu sou terapeuta e o meu paciente vai ser o próximo atirador em uma escola (Paciente #107) - Parte 2

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Dia 17 de Dezembro

O que você faria se soubesse do 11 de setembro no dia pouco antes de acontecer? Ou Newtown? Ou Vegas?

Como você impediria de acontecer sem parecer um completo lunático?

Algumas pessoas me sugeriram falar com a mãe do Alex. Eu tentei, mas ela disse para eu me afastar ou pediria uma ordem de restrição.

Alguns disseram que eu era um péssimo terapeuta e que eu deveria mandar ele para outra pessoa. Eu não culpo essas pessoas. Esperem até ouvirem de meus outros pacientes.

Alguns sugeriram um 5150 (hospitalização involuntária). Provavelmente foi a melhor ideia, mas eu sou obcecado por ter o controle e acho que eu sei mais sobre o Alex do que qualquer um poderia aprender em 72 horas. Qualquer coisa involuntária só pioraria a condição dele. 

Alguns sugeriram que eu o matasse. Honestamente, passou pela minha cabeça. Não foi meu melhor momento.

Alguns disseram para eu ficar em casa hoje, mas eu não conseguiria fazer isso. Eu não conseguiria ser o próximo terapeuta ou vizinho ou amigo dando entrevista, remoendo sobre como todos os sinais estavam aparentes e como a tragédia poderia ter sido evitada, de algum jeito.

Não poderia fazer isso. Não quando a vida de crianças estavam em perigo.

Para dar algum crédito para a escola, eles contrataram dois seguranças armados, e ambos ficaram do lado de fora do meu escritório enquanto Alex e eu nos sentávamos para começar nossa sessão.

Dadas as circunstâncias, eu não conseguiria estar mais tranquilo do que eu estava. Os seguranças o revistaram todo e tomaram sua mochila. Além do mais, cada segundo que ele passava aqui significava um segundo a mais que ele não estava lá fora. 

"Alex," comecei. "Precisamos falar sobre o que aconteceu semana passada."

Ele estava de cabeça baixa e não falava nada.

"Você não cancelou nossa sessão." eu disse. "Sua mãe não queria você aqui, mas você veio mesmo assim. Posso assumir que você tem repensado?"

Alex levantou os olhos, mas não fez contato visual. "Não vou dizer nada sobre semana passada." ele disse. "Eu sei que você, provavelmente, colocou câmeras aqui."

Meu estômago revirou. Ele não estava errado.

"Okay." eu disse. "Que tal falarmos de outra coisa?"

"Tipo?"

Eu mordi meu lábio e resolvi ir de cabeça. "Seu pai."

Finalmente, seus olhos encontraram os meus. Eles estavam vermelhos, arregalados e exaustos.

"Que que tem ele?"

"Ele foi embora há muito tempo, Alex." eu disse. "Mas acho que você ainda sofre por isso."

"Eu não sofro por isso." ele disparou. "Estou feliz por aquele babaca ter ido embora."

"E Emma?" Perguntei. "Quando ela te rejeitou, deve ter causado algum tipo de sofrimento. Eu vi isso durante o mês passado. Você estava machucado, Alex."

"Eu não estou sofrendo!" ele segurou forte a cadeira. "Ela é só mais uma puta estúpida. Eu não dou uma foda para o que ela pensa."

"Raiva é uma reação completamente normal para dor." eu disse. "Especialmente quando é uma dor recorrente."

"Você quer calar essa boca sobre dor e sofrimento?" ele se levantou da cadeira. "Eu sou um milhão de vezes melhor que a Emma e meu pai.. e melhor que você também!"

Eu respirei fundo e continuei sentado. "E o vazio? O tédio? A solidão?"

"Que?" ele ainda estava de pé, mas agora parecia um animal preso. "Do que você está falando?"

"Todo dia você se sente vazio." eu disse. "Desconectado do mundo e das pessoas ao seu redor. Você sente como se nada tivesse sentido ou motivo. E se conseguíssemos mudar isso?"

Seu rosto ficou rosa e ele, finalmente, abaixou a voz um pouco. "Não podemos."

"Claro que podemos." eu disse. "Inúmeras pessoas antes de você sofreram dessas feridas e inúmeras pessoas se curaram delas."

"Besteira de psicólogo."

Eu mordi meus lábios de novo. Droga, por que eu fiz isso? Terapeutas não devem ter tiques.

"Mesmo que o mundo todo seja sem sentido e falso, como machucar os outros iria ajudar em alguma coisa?"

"Eles merecem. São bullies. Me tratam como se eu não fosse nada."

"Às vezes, quando temos traumas de abandono e rejeição, a gente continua achando isso em vários lugares, mesmo onde não tem." eu disse. "Mas Emma não é uma bully por não querer um relacionamento. Então o que você ganharia machucando ela e os amigos dela?"

Ele pensou nisso por um momento e respondeu. "Eu seria o Deus deles por um dia."

"Mas esse não é o jeito de conseguir fama e reconhecimento." eu repliquei. "Digo, ninguém lembra os nomes dos atiradores depois de Parkland. Nós ficamos anestesiados contra essa coisas agora."

Ele franziu as testas e moveu um pouco a boca. Eu notei que ele tentava replicar e provar que eu estava errado, mas não conseguia pensar num argumento.

"Tudo que peço é que você dê uma chance ao meu jeito" eu me inclinei em direção a ele. "Nós podemos transformar o vazio em um preenchimento de coisas boas. A desconexão em conexão. O que temos a perder?"

Ele andou pela sala sem falar pelo que pareceu uma eternidade.

Finalmente ele parou e o ouvi resmungando "Okay."

Meu coração se encheu de alívio. Eu tinha acabado de reduzir o tratamento de um ano dele em uma conversa de cinco minutos, mas, pelo menos, estávamos chegando em algum lugar.

Mas então, ele adicionou. "Mas..."

Sem mas, por favor. "Alex, eu estou totalmente comprometido a te ajudar para atingirmos o nosso objetivo." eu o interrompi antes que ele tivesse tempo de mudar de ideia. "Mas rápidas sessões como essa não o suficiente para resolver o problema para sempre. Talvez você esteja com esperança agora, mas isso pode mudar hoje à noite, ou amanhã, ou semana que vem."

"O que quer dizer?"

Eu o olhei diretamente nos olhos. "Eu quero você sob vigilância 24 horas. Sete dias na semana." eu disse, decidido. "Você concordaria com hospitalização voluntária? Eu vou tirar licença da escola para passar cada segundo contigo. Para te ajudar a se sentir bem de novo."

Ele olhou para o chão e depois para a porta. "Não fará nenhuma diferença."

"Claro que vai!" eu disse. "Nós vamos..."

"Não, eu quero dizer que eu não sou a pessoa que você tinha que enrolar mais."

Eu franzi a testa. "O que quer dizer?"

"Obviamente eu não conseguiria trazer armas para a escola. Não com os guardas me vigiando de perto. Então nós tivemos que mudar nossos planos depois que você encontrou a calculadora."

"Que?" eu balancei a cabeça. "Alex, que é 'nós'? Que plano?"

"Minha parte era te distrair e manter os guardas nessa parte do prédio."

"Distrair?" eu repeti, com o coração acelerado. "Distrair de que?"

"Até que ele alcançasse a biblioteca."

Antes dele terminar a frase, eu saltei e fui correndo para acionar o alarme de incêndio.

Mas o alarme já estava soando.

Paciente #107 - Arquivo 2 de 3.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!




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Desafiei Meu Melhor Amigo a Pôr um Fim na Minha Vida [PARTE 3]

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Parte 1


Olá a todos,

Como eu esperava, não tive tempo suficiente para escrever sobre o que aconteceu durante o dia antes de postar, então deixei o post como estava e o enviei naquela noite, como você viu no final da Parte 2.

Alguns de vocês apontaram que eu digo repetidamente que “comecei a escrever este post”. Escrevo-os quando tenho tempo, não todos de uma vez. É por isso que eu menciono isso repetidamente. Desculpe pela confusão.

Houve alguns outros erros gramaticais que foram apontados. Desculpe, o estresse está aumentando um pouco no momento. Na verdade, é extremamente alto. Não analise meus erros. Neste momento é muito fácil cometê-los.

Antes de falar sobre o que aconteceu desde o meu último post, vou contar meu hiato de um ano depois que Isaac foi morto. Pode ser desnecessário, mas sei que muitos de vocês estão esperando e querem ouvir sobre isso.


Quando cheguei ao apartamento depois que minha mãe veio e me libertou da prisão, Zander me disse que Isaac havia sido assassinado. Quando eu ouvi isso, eu quase surtei.

Na verdade, eu surtei. Vomitei na rua. Minha mãe, que estava lamentavelmente comigo, só podia assistir com horror. Ela estava chateada, para dizer o mínimo, que eu estava envolvido em um plano de assassinato. Demorou muito tempo para eu explicar a situação para ela. Ela simplesmente não podia acreditar.

Uma vez que eu estava calmo, Zander levou-me a alguns passos longe da minha mãe enquanto discutíamos nossas próximas opções.

"Você deveria sair da cidade por um tempo", sugeriu Zander. "Eu não quero que você seja o próximo alvo."

A ideia de que David tentasse me matar me atingiu novamente. Gente, eu sei que entrei como fodão no final do post de Zander, mas isso foi depois de meses superando esse momento. Quando você descobre que alguém realmente pode vir matá-lo, isso muda as coisas. Uma vez que você entende completamente a ideia, ela te horroriza. Eu tive pesadelos por algumas semanas.

"Você deveria ir e ficar com sua mãe. Vou ajudá-lo a encobrir sua localização." Ele ficou em silêncio quando um policial passou onde estávamos. Observou o policial com desconfiança até que ele se foi.

"Vamos fazer David ver isso enquanto você me abandona, e ele vai pensar que está ganhando."

"Ele não está aqui, no entanto. Não sabe por que eu parti. Ele vai ficar desconfiado", eu disse. Zander sacudiu a cabeça.

"Não se atreva a olhar, você entendeu?"

Eu balancei a cabeça, meus cabelos da nuca se arrepiando.

"O complexo de apartamentos do outro lado da rua. Terceiro andar, segunda janela do lado oeste. David está assistindo de lá."

Eu não pude evitar. As lágrimas voltaram imediatamente.

"Jesus Cristo", eu disse através das minhas lágrimas. "Ele está aqui?!"

"Quieto", Zander disse. "É perfeito. Você tem que fazer uma cena. Sua mãe tem que fazer uma cena. Você tem que sair com raiva."

Zander me contou como entrar em contato com ele mais tarde. Nesse momento, eu pulei para trás e comecei a gritar com ele. Foi uma atuação muito boa, modéstia a parte.

Corri para minha mãe e a expliquei sobre nosso plano através de um pretenso abraço de conforto. Ela confiou em mim, graças a deus. Ela também gritou com Zander e nós fomos embora, esperando que estivéssemos a salvo de David King.

Minha mãe entendeu e confiava na minha necessidade de sigilo. Papai se foi alguns anos atrás, então éramos apenas nós dois nos mantendo conscientes da segurança. Por recomendação da minha mãe, saímos apenas um mês depois. Formei uma corporação com o estado e essa corporação assinou nosso contrato. Eu tive meu primo atuando como agente registrado. Não era um disfarce perfeito, mas acrescentava alguns passos extras para localizar nossa casa.

Minha mãe é incrível. Ela entendeu que David era louco e que ele tinha uma fixação inabalável em Zander e, por padrão, em mim. Ela também fez sua própria pesquisa e fez sugestões para ajudar a melhorar nossa segurança.

Zander não se atreveu a falar comigo pessoalmente, o que foi o melhor. Nós nos comunicamos on-line por meio de mensagens criptografadas na noite em que ele estava no Walmart e enquanto ele estava em fuga. Ele tinha lentamente acumulado alguns telefones descartáveis comprados no shopping e nós os usávamos toda vez que precisávamos conversar. Ele me atualizava sobre os últimos movimentos de David, e eu atualizava minha pesquisa de acordo.

Quando Zander fugiu, insisti que ele viesse conosco, mas ele se recusou a nos colocar em perigo novamente. Enquanto ele estava fora, eu estava fazendo muitos dos meus próprios preparativos. Zander sabia que, eventualmente, teríamos que lutar diretamente contra David. Isso significava que nós dois tínhamos que nos preparar como ele.

Eu já estava bem musculoso, mas comecei a treinar ainda mais. Fiz algumas aulas de defesa pessoal além de malhar. Também encontrei dois novos empregos para me manter ocupado. Zander continuou me dizendo repetidas vezes para estudar também e aprender sobre fraudes de cartão de crédito e roubo de identidade, computadores e qualquer outra coisa para combater David. David usou o sistema contra nós, então tivemos que aprender como contornar isso.

Em um momento de honestidade brutal, vou lhe dizer que me esforcei para me importar com esses tópicos. Zander poderia absorvê-los em minutos e aproveitar o estudo. Eu odiava esse estudo. Eu tentei, de verdade, mas não tinha o mesmo fascínio que Zander. Eu compensava enviando dinheiro quando podia. Mas não podia lutar contra David em um nível intelectual.

Trabalhei duro durante esse tempo, no entanto. Ia a ambos os meus trabalhos, trabalhei e fiz o meu melhor para manter a minha privacidade e da minha mãe. Eu compartilharia meus métodos, mas com Zander ausente, não sei o que é seguro compartilhar. Só mencionei alugar um apartamento em nome de uma empresa porque nos mudamos desde então e mudamos de tática.

Um dia, Zander me ligou do nada e teve uma ideia. Uma ideia sobre como prender David King. Foi aí que chegaram seus últimos posts.

Eu era muito cético sobre isso. Havia muitas coisas que poderiam dar errado ou não funcionar. Zander foi insistente, no entanto. Ele disse que estava estudando David há tanto tempo que o conhecia bem. Ele alegou que David constantemente procurava na web por seu próprio nome como um maníaco egoísta. Se o nome dele aparecesse no Reddit, ele não seria capaz de resistir à leitura.

Mas para que ele encontrasse, precisava ser popular o suficiente.

Zander estudou esse plano. Quero dizer, ele REALMENTE estudou. Ele disse que olhou para outros meios de publicação e tentou encontrar os que funcionariam melhor. Eu não me importava muito em escolher o meio certo, eu estava apenas pronto para fazer minha parte.

Antes de Zander publicar a Parte 5, ele me contatou novamente. Nós nos encontramos com muito cuidado. No momento em que essa parte foi publicada, a popularidade de seus posts era suficiente. David acompanhou a história. Agora era a hora de começar os preparativos.

Zander já havia selecionado o antigo depósito antes mesmo de postar a série. Ele mostrou para mim, e eu concordei que seria um bom lugar para um confronto. Havia a sala de controle que poderia fornecer um encontro de perto, e o resto do armazém fornecia cobertura caso as coisas ficassem feias.

Ajudei-o a desmontar as outras escadas que levavam à sala de controle, trouxemos algumas caixotes de madeira extras que ele havia comprado para dar mais cobertura e autenticidade, e limpamos a sala. O gerente anterior havia deixado toneladas de fotos nas paredes, cadeiras e outros móveis. Nós removemos tudo, exceto pelas duas mesas pesadas, porque elas não cabiam na porta.

Zander passou óleo na porta do escritório e eu acorrentei todas as outras entradas. Ele instalou uma fechadura que não estava enferrujada na porta e, em seguida, bateu nela para que ela se misturasse.

Depois que terminamos, fizemos o que podíamos para cobrir nossas atividades. Zander trouxe um balde de terra e nós jogamos em torno de onde pisamos.

David King era um filho da puta esperto. Nós tivemos que cobrir nossos rastros como se o próprio diabo estivesse procurando por algo fora do lugar.

Quando Zander me ligou para o confronto alguns dias depois,nos preparamos. E u esperei nas passarelas que se espalhavam pelo armazém. Assisti em silêncio, tentando não respirar e esperando que David não olhasse para cima. Se o fizesse, eu seria um alvo fácil e nosso elemento surpresa seria perdido.

Quando ele atirou em seu parceiro, eu quase gritei. Zander disse em seus posts que aquele era o momento em que ele surtou um pouco e a realidade se infiltrou. Foi o mesmo momento que eu quase gritei. Eu lutei para assistir depois disso: estava convencido de que ele atiraria em Katie apenas para provocar Zander.

Quando eles entraram na sala de controle, eu silenciosamente rastejei em direção à entrada. Me movi devagar. Se David olhasse pela janela, ele ainda poderia me ver. Movimentos súbitos poderiam atrair sua atenção e arruinar a armadilha.

Uma vez que eu estava fora da vista da janela, peguei meu celular e liguei para o 911. Eu disse calmamente o endereço em que estávamos e disse que tiros tinham sido disparados. Deixei a ligação correndo no meu bolso e abri a porta atrás do filho da puta do David King.


O tiro foi, em uma palavra, doloroso. Eu nunca senti nada assim em toda a minha vida. Ela bateu no meu ombro esquerdo, aparentemente quase acertando uma das minhas artérias. Ele lascou um pedaço de osso na minha clavícula, no entanto. A bala parou no meio do meu ombro porque o osso diminuiu a velocidade, e eu tive que fazer uma cirurgia para removê-la e os fragmentos ósseos.

O médico diz que vai demorar de três a quatro meses para a pele cicatrizar completamente, seis meses para o osso parar de doer, e mais algumas semanas até que eu possa tirar essa tipóia estúpida. Mover meu braço demais poderia abrir a ferida de volta.

O melhor é que ela atingiu meu ombro esquerdo, então eu não estou preso usando minha mão não dominante para tudo. Obrigado, David King.

Falando de David King, nesses poucos minutos antes de a polícia entrar, observei seu corpo sem vida. Toda a frente dele estava pingando sangue e cheia de buracos. Sua cabeça se afundou em seu peito quase como se estivesse rezando. Foi o menos gracioso que eu já vi David King. Foi gratificante saber que ele estava morto.

Infelizmente, ele nem sempre está morto para mim. Às vezes eu o vejo quando estou fora de casa. Apenas vislumbres de seu rosto em uma multidão ou em torno de um canto. Me assusta. Eu acho que tenho algum transtorno pós traumático ou algo assim.

Quando a polícia chegou, eles invadiram o depósito como tropas de assalto. Eu chamei por ajuda e eles subiram correndo as escadas. Limparam a sala em segundos e conseguiram um paramédico para ajudar a remendar meu ombro. Eles deram uma olhada longa e dura em David King. Pelo menos um dos quatro policiais o reconheceu e ligaram para o chefe.

Fui escoltado para fora da sala muito rapidamente depois disso. Tentei dizer aos policiais que havia câmeras instaladas em todos os lugares para que pudessem ver o que havia acontecido. Eu devo ter me repetido muito, porque eles ficaram irritados comigo.

Os técnicos da cena do crime já estavam chegando quando os dois médicos guiaram meu corpo para fora do prédio em uma maca que fez até mesmo as escadas parecerem que eu estava flutuando em uma nuvem. Poderia ter sido o analgésico, no entanto.

Enquanto eu estava sendo levado para a ambulância, vi Katie sentada na beira de outra ambulância. Eu tentei olhar em seus olhos, mas ela estava sentada perfeitamente em linha reta e olhando para o médico que estava inclinado na frente dela, as mãos nos joelhos.

Esta próxima parte é algo que estou lembrando apenas agora. Eu notei, mas não tinha pensado nisso até agora.

Enquanto giravam minha maca para me colocar na ambulância de cabeça, vi dois homens que saíram de um veículo escuro caminhando em direção às portas do armazém. Eles usavam jaquetas "Coroner" e carregavam sacolas dobráveis. Um que eu não conhecia. O outro sim. Era Jackson, nosso antigo colega de quarto.


A polícia veio me interrogar no hospital depois da cirurgia. Zander foi, é claro, muito longe. Já fazia dois dias que os médicos deixavam que eles me interrogassem. Eu tive uma pequena infecção durante a cirurgia, então eles não deixariam a polícia falar comigo imediatamente.

A polícia me disse que eles encontraram todas as câmeras que eu estava falando no local e que estavam processando os dados. Eles queriam ouvir meu lado da história e me perguntaram onde Zander estava. Eu disse a eles que esperaria até ter um advogado. Fui informado de que nenhuma acusação estava sendo feita contra mim, então um advogado não seria necessário.

Felizmente para mim, não acreditei neles e insisti em um advogado. No dia seguinte, eles me acusaram de cúmplice de homicídio voluntário, possivelmente assassinato. Pelo menos eu não tinha dito nada incriminador.

Desde então, fui liberado para casa com uma tipóia e ataduras e disse para descansar. Eu dormi muito, conversando com Zander de vez em quando apenas para ouvir que ele estava bem. Eu li os comentários também, muitos dos quais me fizeram rir. Obrigado a todos.

Isso resume bem o meu hiato, então vou voltar a contar o que aconteceu nos últimos dois dias.

De manhã, chamei Katie para dizer que ia ver Hernandez. Ela insistiu em ir junto, então fomos juntos para a delegacia. Eu informei a minha mãe onde estaríamos antes de decolarmos. Levamos o HD de David e os três relatórios policiais conosco.

Devo acrescentar que quando minha mãe e eu nos mudamos, mudamos algumas cidades para longe de onde o cenário de David King caiu. Então, ver Hernandez seria uma viagem de um dia inteiro.

Durante o passeio de carro, perguntei se ela havia encontrado algo interessante nos computadores de Zander. Ela balançou a cabeça. O resto do passeio de carro foi praticamente em silêncio. Isso me deprimiu. Nós costumávamos ser bons amigos e agora não conseguíamos ter uma conversa decente.

Chegamos no meio da tarde e entramos na estação. A moça da recepção nos indicou a escrivaninha de Hernandez, e nos sentamos para esperá-lo, já que ele parecia estar fora para o almoço. Aproveitei a oportunidade para começar a escrever este post enquanto esperávamos. Katie ficou perfeitamente imóvel e olhou para a frente.

Enquanto esperávamos, o telefone de Zander tocou de novo.

M4N513THO: Onde está Zander?

Eu mostrei para Katie, que me disse para ignorá-lo novamente. Relutantemente obedeci.

Hernandez chegou meia hora depois carregando um almoço tardio.

"Clark", ele cumprimentou. "Katie", disse surpreso. Sentou.

"Oi, detetive", eu disse, afastando o telefone de Zander.

"Como está seu ombro?" Ele perguntou, apontando para minha tipóia.

"Bom o suficiente", respondi.

"E Katie, bom te ver", ele acrescentou cautelosamente.

"Igualmente", ela disse em um tom neutro.

"Estamos aqui pra falar sobre Zander", eu disse.

Seu rosto caiu.

"Ainda não há notícias dele?" Ele perguntou.

"Não muito", eu disse. "Encontramos o seu esconderijo mais recente, mas está cheio de mais perguntas do que respostas."

"O que você achou?" Ele disse, tirando um hambúrguer da bolsa. "Por favor, ajudem-se com algumas batatas fritas." Ele as empurrou para nós. Eu comi algumas, mas Katie balançou a cabeça.

"Três computadores, seu telefone, alguns relatórios policiais e o HD de David King", eu disse.

Hernandez abriu bem os olhos.

"O HD de David? Clark, se ele acabou de deixar o HD lá..." ele insinuou.

"Eu sei. Pode haver algo errado", eu disse. "Sem mencionar o fato de que algum maromba idiota me atacou lá."

"O que?" Perguntou Hernandez. Eu contei a ele sobre o ataque e sua mandíbula.

"O que há com vocês que sempre acabam sendo alvos?" Ele acusou.

"Estamos aqui por causa dos relatórios policiais", disse Katie, puxando-os do colo e abrindo-os na mesa de Hernandez. Hernandez se inclinou e olhou para eles.

"Zander tinha uma versão digital, mas eles estavam todos apagados", eu expliquei enquanto ele olhava. "Nós assumimos que eles vieram de um banco de dados da intranet da polícia."

"Não posso verificar se eles vieram da intranet ou não, se não estou designado para um caso relacionado", disse Hernandez. "Eu preciso de permissão, e duvido que consiga."

Ele examinou os relatórios.

"Você conhece algum deles?" Katie perguntou enquanto ele pegava outro relatório. "Havia mais algumas referências a outras pessoas nas anotações de Zander, mas ele tinha os relatórios policiais para essas".

Hernandez trancou o relatório policial de Jack. Ele pegou e leu-o completamente.

"Você conhece Jack Hemsey?" Eu disse casualmente.

Ele olhou para nós, seu rosto calculista. "Sim, eu sei", disse ele.

Nós dois nos inclinamos.

"Nem uma palavra sobre isso pode vazar", disse ele em um sussurro, dando uma olhada casual ao redor. "Entenderam?"

"Hernandez, claro", eu disse. "Você pode confiar em nós."

Ele sussurrou em voz muito baixa. "Jack Hemsey foi o parceiro que David King atirou no armazém."

"Filho da puta", eu sussurrei. "Eu aposto que os outros dois são mais alguns dos amigos de David."

"Não tire conclusões precipitadas sobre os outros nomes", disse Hernandez.

"Por que mais eles estariam aqui?" Eu disse.

"Eles poderiam ser vítimas", Hernandez explicou. "Por enquanto, guarde seu julgamento."

"Claro", eu disse de forma neutra. Eles ainda eram vilões para mim.

"O que você sabe sobre o bar em que todos tiveram uma briga?" Katie perguntou. "O bar fica aqui, nesta cidade."

Desculpe a todos. Não irei nomear o bar ou a cidade em que estávamos. Mas deve-se notar que o bar estava na mesma cidade onde Zander viveu quando David começou o desafio.

"O bar recebe chamados de vez em quando sobre brigas, assim como a maioria dos bares", comentou Hernandez. "Eu fui a alguns chamados várias vezes. Não há nada de especial lá. Também não é longe daqui, então é um bar comum".

O silêncio caiu sobre nós por um momento.

"Eu quero ir e ver o esconderijo de Zander", disse Hernandez.

"Nós tiramos tudo", disse Katie bruscamente. "Não sobrou nada."

"E isso é tudo o que você encontrou?", Perguntou Hernandez.

"Sim", eu disse. "O resto está na minha casa."

Katie de repente me beliscou. Eu vacilei e olhei para ela. Um oficial veio até a mesa de Hernandez naquele momento, colocando um arquivo em sua cesta.

"Tenho outro caso", disse ele antes de sair.

Hernandez suspirou. Ele ergueu o dedo para nós esperarmos enquanto abria a pasta e olhava através do conteúdo.

"Bem, merda", disse ele, resignado.

"O que?" Eu perguntei.

"Nós temos tido um problema com assaltos ultimamente. Homens de diferentes idades que estão sentados em seus carros ou de pé na rua de repente são atacados e espancados severamente. Todos os valores são roubados. Com base na parte da cidade em que estão, Nós suspeitamos que eles são cafetões da prostituição.

"Não podemos provar nada, é claro, mas é um pressentimento. Alguém está mirando neles e fazendo um trabalho muito cruel."

"Ok, e daí?" Katie disse impaciente.

"Significa apenas que tenho que ir", disse Hernandez, terminando sua bebida. "Eu tenho que ir fazer uma entrevista secundária com a vítima."


Ok, todo mundo. Os eventos estão agora no passado. Estou tentando te deixar atualizados, e lamento não ter conseguido fazer isso muito rapidamente. Entre toda a pesquisa que estou fazendo agora e digitando com um membro do T-Rex, está indo devagar. Eu vou chegar lá, no entanto. Eu prometo. Não importa o quanto seja difícil ficar motivado. As coisas não acabaram, mas chegaram ao ápice.

-Clark


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Meu filho pediu para eu checar se tinha um monstro no seu armário

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Recentemente passei por um divórcio bem pesado, mas consegui ficar com a única coisa que me importava: A guarda total do meu filho de quatro anos. 

Perdi quase todo o resto no processo, então tivemos que nos realocar para uma nova casa com quase nada de móveis ou pertences em nossas malas.

Um novo começo, no sentido mais real possível da expressão. 

Eu o ouvi me chamando na primeira noite em nossa nova casa. Era pouco depois da meia noite, acho. Fui checá-lo para ver o que tinha acontecido e me sentei ao lado de sua cama.

Ele estava totalmente desperto e pediu para que eu checasse se haviam monstros no seu armário, o que não era algo surpreendente dada tais circunstancias.

Ele era apenas uma criança pequena, e até sem levar em conta toda a merda que teve que passar por causa da bosta do meu casamento, se mudar para uma casa desconhecida, com quase nenhum móvel devia ser bastante coisa para alguém da sua idade absorver.

E sabe como dizem que seu cérebro sempre fica meio acordado quando você está dormindo em um local novo, certo?

Isso foi tudo o que passou pela minha cabeça num piscar de olhos assim que meu filho falou.

Não era grande coisa. Tudo estava normal, pensei.

Mas imediatamente alguma coisa fez um 'click' dentro do meu cérebro, antes mesmo que eu pudesse olhar para onde meu filho tinha apontado enquanto ele fazia seu pedido inocente.

Algo estava errado.

Virei a cabeça e olhei, e tive que me segurar em tudo que havia dentro do meu ser para não ceder ao medo e ao terror, tudo pelo do meu filho. 


Quando você gera uma criança, precisa proteger seus filhos, não importa o que aconteça, sempre se colocando em perigo, se isso for necessário, e poupá-los de todos e tudo que possa machucá-los.

É por isso que não surtei. Eu não podia, não quando mal tínhamos começado nossa nova vida. Tinha que protegê-lo e, naquele momento, quando me sentei em sua cama, eu só sabia de uma coisa:

Nós precisávamos sair do quarto.

Nós precisávamos sair da casa imediatamente.

"Tudo bem, carinha, é claro" Falei, fingindo coragem. 

Então fiz um pedido quando abaixei meu tom de voz e me aproximei dele:

“Ei, que tal você sair por um minuto? Se houver um monstro lá, vou ter que chutar a bunda dele daqui." 

Ele riu e disse "".

Fiz questão de colocar um pouco mais de ênfase na palavra "bunda", porque é algo que sempre o faz rir quando falo daquele jeito. Felizmente ele se prendei a essa palavra e não ao fato de que eu estava indiretamente admitindo a possibilidade de realmente haver um monstro lá.

Assim que ele saiu do quarto, minha mente começou a correr tentando montar a melhor e mais eficiente estrategia para tirá-lo da casa enquanto pegava as chaves do meu carro e o celular enquanto saíamos.

Quando ouvi as portas do armário se abrindo lentamente atrás de mim, percebi que era partir.

Pulei da cama, saí do quarto e peguei meu filho no colo. Nós estávamos do lado de fora e dentro do carro em movimento menos de um minuto depois.

Eu disse a ele que não conseguia dormir, então estávamos saindo para tomar um sorvete para comemorar. Ele ficou um pouco surpreso e perguntou "comemorar o que?", ao que eu respondi "De estarmos só nós dois juntos. Eu te amo, meu amor".

Não era de forma alguma uma mentira, mas eu só tinha que ter certeza de que ele estava bem e não pensaria em mais nada enquanto literalmente fugíamos da nossa nova casa.

Como mencionei anteriormente, a casa era um ambiente  novo para nós dois. Eu estive lá algumas vezes antes, limpei tudo sozinha e organizei os poucos móveis que tínhamos, então eu sabia o que ficava aonde.

E eu sei que no quarto dele não tinha um armário.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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O Veio de Prata

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– Hoje posso dizer que já nem me lembro muito bem do que se passou naquela tarde de travessia pelo maldito lago. Aquilo foi há muito tempo e os fiapos de memória custam a se entrelaçarem em minha mente.

– O fato é que foi tudo muito estranho, sobretudo triste. Quantas vidas perdidas!

“Passavam das dez horas da noite quando o estranho homem de cabelos dourados como a palha do celeiro chegou ao mosteiro. Era o jovem ajudante do comissário de polícia, Alfredo. O homem, visivelmente alterado, trazia notícias não muito animadoras. Seu cavalo espumava de cansaço.

Ao que tudo indicava, um fazendeiro havia afogado toda a sua família na correnteza do riacho que borbulhava farfalhante ao pé da pequena colina onde no cume jazia sua casa. Aparentemente o assassino teria perdido a sanidade durante uma caçada em que havia se afastado demais de casa. Voltara maluco da viagem e como estivesse possuído por entidades maléficas, num acesso de inexplicável ira violenta, afogou sua esposa e dois casais de filhos, tratando de esquivar-se do peso da tragédia por atravessar os próprios miolos com uma bala de sua carabina momentos após o ocorrido.

A essa época a imagem dos vilões – como eram conhecidos os aldeões de hoje em dia – não era lá muito boa por essas bandas da cidade. E sempre que eles se envolviam em acontecimentos bizarros como o narrado pelo esbaforido Alfredo, nós do Prelado de Santo Tito éramos convidados para que, por livre e espontânea pressão, fôssemos até o local bendizê-lo e afastar as ‘malignidades’ restadas dos atos de vilania.

A verdade era que a agência de polícia inteira simplesmente paralisava-se de medo ante a mais ínfima menção a todo e qualquer fato que fosse de sua competência e tivesse sido levado a cabo naquelas regiões longínquas dos campos.

Acalmei o tal Alfredo e lhe disse que sairíamos na manhã seguinte para que não se protelassem os desígnios da tão opulenta justiça local.

Assim que o homem foi embora mandei acordar todos no mosteiro. Teríamos um dia cansativo amanhã e não queria membro algum do séquito atrasando os demais quando começasse a jornada.

Tratei de arrumar tudo antes que a madrugada caísse serena sobre o teto de palha do templo.

No plúmbeo amanhecer seguinte lá estávamos nós: dois Anciãos, eu e mais um, quatro Meados – como são chamados os ajudantes eclesiásticos daqueles –, seis guardas monges e treze Pedantes.

As Pedantes eram mulheres ditas puras por terem devotado, senão toda, pelo menos a grande maioria de suas vidas aos mistérios do antigo Culto de Tito. Essas verdadeiras andarilhas podiam caminhar por horas a fio simplesmente recitando versos litúrgicos sagrados. O que, segundo os Ensinamentos Altos, afastava o mal de qualquer espécie. Os homens do séquito que se dirigiam para os locais a serem abençoados fazendo sua guarda iam sempre a cavalo, por razões óbvias, contudo, essas mulheres iluminadas, segundo os costumes de seu credo, somente se deslocavam quando em serviço sacro a pé. E daí o nome de sua Ordem: as Pedantes de Tito.

Bem, o que interessa é que essa chusma de vinte e cinco pessoas estava pronta e preparada para a longa e infausta viagem a tal fazenda da morte.

Partimos às seis da manhã seguinte à visita estrepitosa de Alfredo. Fazia um frio tremendo e tiritávamos enquanto atravessávamos as longas planícies que perfaziam a região.

O ramerrão das Pedantes era monótono e cadenciado, de modo que marchávamos naquele compasso rígido e lúgubre.

Ao nascer do segundo dia de caminhada nos encontramos com um exíguo veio de águas prateadas que corria apertado por entre suas margens escarpadas vindo de uma cadeia de montanhas a oeste. O pequeno córrego deslizava com agilidade e profusão através de seu leito. Imaginamos logo que aquele seria o início do tal riacho onde a família pretérita fora dizimada pela asfixia e nos felicitamos com a esperança de estarmos cada vez mais perto de nosso destino.

Resolvemos então seguir o curso do riacho e nos encontramos ao cair da tarde com uma densa mata de árvores revoltas e cheias de vida. A floresta estendia-se ao sul até onde nossas vistas avermelhadas de cansaço alcançavam.

Preferimos estancar a caminhada na entrada dessa mata e aproveitar a luz solene do ocaso de maneira a facilitar nosso começo de noite na orla do denso florestal.

Passamos uma noite rápida e mais quente que de costume devido à massa verde que guardava de maneira bastante eficaz o calor do astro rei para alimentar as vidas que a compunha.

Por volta das duas da tarde daquele fatídico dia o nosso guia aquoso havia se transformado num caudaloso riacho que se alargara quase instantaneamente tomando toda a extensão do terreno a frente.

Aquilo atrapalhava tudo.

Não havia sequer indício longínquo de que existisse por ali fazenda alguma. Logo, teríamos de dar a volta para alcançar a planície dourada pelas plantações de trigo do outro lado da agora gigantesca massa d’água.

Dei ordem para que prosseguissem e as Pedantes, mecanicamente, sem nem ao menos modificarem o tom de sua antífona, puseram-se a chapinhar nas terras inundadas em torno da lagoa. Aquelas mulheres eram mesmo disciplinadas.

Caminhamos sob o sol escaldante e o mormaço infestado de mosquitos daquele brejo. Nossas sandálias afundavam na lama ribeirinha e acabamos por nos cansar como se estivéssemos a caminhar nas areias do Saara e tanto mais depressa.

Instei a comitiva a parar para matar a sede nas águas cristalinas do riacho e banhar suas faces no líquido fresco de modo a reavivar as forças exauridas pela caminhada extenuante.

Os guardas, que estiveram todo o percurso a cavalo contentaram-se em apenas completarem suas botas d’água. As Pedantes por seu turno ajoelharam-se na terra fofa e alagada e levavam as mãos à água lavando os rostos vermelhos do sol e

matando sua sede. Bebemos todos e nos refizemos um pouco com a frescura da água boa do lago.

O problema é que não tardamos a nos arrepender do tal ato.

Por motivo a nós não revelado, parecia que aquelas águas tão belas e doces tinham-nos envenenado. Minutos após termos retomado a caminhada e enquanto ainda recitava suas preces infinitas uma das Pedantes simplesmente despencou por sobre suas companheiras que em sua frente seguiam.

Ao ver que uma delas havia tombado as outras preladas automaticamente interromperam sua ária sorumbática e voltaram-se todas no mesmo instante para a mulher togada que fremia e virava as vistas espojando na lama como que possuída por mil demônios.

As mulheres agiram tão rapidamente quanto os monges que nos faziam a guarda e num intervalo curtíssimo de tempo a moribunda estava sendo retirada da lama por um punhado de mãos caridosas que lhe dominavam o estertor doentio.

Colocamos a mulher, que agora desfalecera completamente, deitada sob a sombra de uma árvore a certa distância da margem do lago que acompanhávamos. Ocorre que segundos após termos aninhado a Pedante desacordada sob a umbrela do arvoredo, uma outra freira arremessou-se contra o chão coberto de palha vomitando e gemendo de forma terrível. Seus olhos viravam diabolicamente nas órbitas. A ela seguiu-se outra e mais outra, até que em instantes toda a nossa caravana rugia e embolava-se por entre as folhas como um bando de cachorros que rolassem na carniça. Só eu permanecia senhor de mim.

Imediatamente juntei as mãos crispadas tocando o nariz com a ponta dos dedos médios e submergi meu desespero em orações. No vale verdejante e vívido a luz oblíqua do sol poente esvaía-se em raios tépidos e rutilantes. Enquanto que nas sombras daquelas árvores éramos obliterados um a um por aquela força estranha.

De repente senti que me fora arrebatada a capacidade respiratória. Minhas veias incendiaram-se e meus nervos se retesaram completamente. Minha coluna hirta infeccionou-se de imediato e caí sob o arroubo da morte evidente que me convulsionava os movimentos de forma involuntária.

Sofri os rigores destes sintomas por alguns minutos e então finalmente libertei-me das garras da dor e estanquei retorcido e morto sob a sombra dos galhos que ocultavam o céu escarlate.

Até aí as coisas correram dentro de seus limites naturais. Fomos envenenados por alguma substancia oculta na água do lago maldito e em virtude disso falecemos todos. Temos uma situação triste e incomum, mas natural.

O estranho mesmo foi quando abri de repente os olhos sob o luar amarelado que se erguia refletido nas águas turvas e imóveis do lago.

Divaguei por uns momentos com a mente dormente e os pensamentos convulsionados. Um inseto que caminhava em meu rosto atravessou-me a face esquerda causando um formigamento estranho enquanto andava. A sensação me despertou imediatamente.

Joguei o animal pra longe com um gesto rápido e me levantei com dificuldade. Apoiei-me no tronco da árvore sob a qual jazi não sei por quanto tempo. Uma coruja piava.

Olhei em volta desnorteado e pensei divisar ao longe uma das Pedantes caminhando tropegamente a alguns metros de mim por entre a folhagem agreste.

Chamei-a mas minha voz não saiu. Então, como se imitasse a figura titubeante que caminhava tesa em minha frente, dirigi-me com dificuldade na direção dela. Porém, antes que alcançasse a silhueta trôpega, tropecei em algo e me projetei para frente com tal impulso que espatifei-me fragorosamente na camada seca de folhas que cobria o chão úmido.

Com o tombo percebi que estivera até então surdo, pois mina audição voltara. E com ela o alarido da estranha canção diabólica que ecoava por entre troncos sombrios e lembrava nitidamente as preces outrora entoadas pelas Pedantes durante a viagem.

Saltei de lado ao reconhecer o rosto deteriorado de uma Pedante que, caída meio apoiada numa árvore, me fitava com olhos vítreos de boneca. A pobre mulher

estava apoiada no tronco pela base do pescoço torcido em contato com a madeira escura. Sua boca, retesada num movimento obsceno, jazia escancarada e ressequida.

Reconhecendo com dificuldade a fisionomia da irmã deformada, chamei por seu nome e estendi a mão trêmula na tentativa de tocar-lhe as faces acinzentadas. Ao que o cadáver – se posso chamá-lo assim – rigidamente moveu o escalavrado maxilar que escorria a secreção dos vários ferimentos ostentados e num urro grotesco e abissal aparentemente respondeu com voz soturna ao chamado.

Recolhi imediatamente a mão estendida e me afastei daquela figura hedionda instintivamente. Foi quando senti meus dedos tocarem algo úmido e esponjoso. Recuei aterrorizado e percebi que tinha enfiado a mão na goela esfacelada de um dos Meados que seguira comigo desde aquela manhã gelada em que partimos do mosteiro. O homem estava caído de bruços com o pescoço retorcido, de modo que sua cabeça jazia virada ao contrário, tendo pela frente o que antes foram suas costas. Sua cabeça e garganta estavam dilaceradas e sangrentas, mas seus olhos moviam-se sem parar nas órbitas, como se procurassem incessantemente por algo perdido no ar.

Levantei transido de horror e disparei em direção às águas escuras do lago que refletiam serenamente o luar doentio sobre o vale infausto.

Corri noite adentro enlouquecido pelo terror das diabólicas cenas e perseguido pelo odioso hino mortuário que ressoava intermitente. Não sei de onde parti e nem onde havia chegado quando desmaiei de exaustão.

Sei contudo que acordei dias depois no quarto de uma ermida que ficava na encosta da montanha de onde descia o modesto córrego anteriormente citado. O abade disse que me havia encontrado dias antes meio-morto delirante e balbuciando frases desconexas caído por entre os arbusto que crescem nos arredores do poço que guarnece a abadia na encosta.

Contei a ele minha desfortuna. O homem riu-se da história e me deu um livro de orações e um rosário, além de me aconselhar repouso e reflexão. Acatei os conselhos do anacoreta e caminhava pelo pomar artificial que crescia na encosta durante o dia todo orando como uma Pedante. Fazia isso todos os dias. Mas naqueles

tempos estava completamente louco e achava que tinha mais de uma sombra quando saía à luz do sol ou mais de um reflexo quando me olhava no espelho.

Além disso, durante as noites em que a lua era cheia, ouvia a perversa ária distorcida das Pedantes ecoando nos corredores da ermida vinda das trevas externas ao meu quarto. Tinha suores noturnos e ouvia coisas. Algumas vezes cheguei mesmo a ver imagens trôpegas a caminhar no pátio da capela com seus movimentos rígidos dignos da monstruosidade que avistei naquele dia fatídico há meses passado.

Certa manhã porém, enquanto caminhava pelo pomar recitando minhas orações, divisei uma criatura furtiva que se movia por entre as árvores com movimentos mecanizados como os de um pássaro. Uma não, duas.

Meu coração disparou no peito e me escondi atrás de uma árvore próxima. O que significava aquilo? Será que uma daquelas bestas havia encontrado o baluarte da ermida e me seguira pelas veredas do pomar?

Esperei que as aberrações se aproximassem, e quando isso aconteceu, gadanhei um toco seco que estivera caído ao meu lado e avancei no momento em que passavam com seus movimentos demoníacos ao meu lado. Na fúria cega do horror desferi dezenas de golpes até que seus corpos inertes estivessem completamente destroçados. E ai, como ainda me reprovo por tal feito!

Quando dei por mim e larguei do porrete com que esmagara o crânio dos malditos demônios, percebi que eles não eram ninguém menos do que o abade da igrejinha e seu Meado que caminhavam tranquilamente por entre o arvoredo. Dominado pelo desespero e tomado de um arrependimento monstruoso pelo que havia feito, caminhei friamente em minha loucura até o poço onde outrora fui encontrado e sem cerimônias me atirei buraco abaixo.

Isto aconteceu um dia e meio antes da chegada dos agentes de polícia que vieram inspecionar os chamados recebidos em face das lamentações noturnas de que se queixavam moradores das fazendas próximas ao tal riacho onde houvera fenecido toda a minha comitiva.

Como o poço em que me jogara não continha água suficiente para que me afogasse, simplesmente dilacerei-me por completo, quebrei uma perna e um braço e

fiquei como morto naquela água gélida pela totalidade das horas que se seguiram até que a polícia chegasse.

Fui resgatado pelos homens do comissário que me trouxeram de volta para a cidade. E percebendo minha total ausência de razão, internaram-me naquele maldito hospício doentio, morbidamente perplexo e lânguido.

Demorei a me recuperar dos ferimentos que sofrera por causa da queda no poço. E minha mente jamais foi a mesma. Os demônios que se vestiram dos corpos de minha comitiva ainda me atormentam e posso ouvi-los rastejando no corredor entre as celas durante as noites soturnas que passo aninhado nesse cubículo nefasto a que me encontro preso. São criaturas infernais nascidas do pesadelo para assombrar a vivência dos homens. O cântico funesto que se repetia no interior do vale ainda molesta meus dias e noites.

Contudo, em que pese o grande intervalo de tempo, voltei a concatenar frases de modo lógico novamente e hoje consigo exprimir meus pensamentos de maneira compreensível. Por isso na semana passada esteve aqui um homem de cabelos cor-de-palha que dizia ser comissário de polícia querendo me fazer algumas perguntas. Seu nome era Alfredo. E por um breve momento pensei que também o conhecesse, mas me enganei.”

– Por isso estou aqui lhe dando este depoimento, senhor magistrado. E por tudo o que acabo de lhe contar, hoje chamam aquela passagem na floresta de cancela das lamentações.

Autor: Rodrigo Bispo

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