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Acompanhantes

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A porta deslizou. Esse maldito som. Todos sabiam o que acontecia após o som, era hora da chegada. Eles vinham, ligavam suas máquinas, faziam suas coisas inúteis e partiam. Até esse momento não podíamos fazer muita coisa, nossa presença não era desejada. Com isso, o tédio era dominante.

Pouco antes da partida, tínhamos um debate. Qual de nós iria acompanhar? Quem seria o acompanhado? Todos os dias, a mesma rotina. Como amávamos essa rotina. O prazer de acompanha-los era gigantesco, mas não era permitido que mais de um fosse acompanhado. Às vezes tínhamos êxito em burlar a regra, mas caso fossemos descobertos por nosso superior, éramos banidos. Ninguém queria sair dali, então o mais comum era seguir o procedimento. Um por vez.

Quando o acompanhado era recém-chegado, o processo era ainda mais prazeroso. Toda aquela inocência, a euforia de estar ali, de ter conseguido chegar ali. Pode não parecer, mas as pessoas ansiavam por serem inúteis. A concorrência era gigantesca, era comum ver os candidatos esperando nervosamente, entrando na sala proibida e saindo um pouco mais relaxados, como se a parte mais difícil tivesse passado.

Engraçado mencionar que havia uma sala proibida. Proibida logo para nós, quem teria esse poder, não é mesmo? Porém, segundo o superior não podíamos interferir naquela sala. Ela era parte essencial para que todo o projeto seguisse corretamente, para que não pudéssemos atrapalha ar a sequência natural da escolha dos acompanhados. Era decidido quem entrava e quem saía, tudo naquela sala gélida e sem graça.

Seria difícil escolher quem foi o meu melhor acompanhado se não fosse por ela, a acompanhada número 2506. Não era possível saber o nome de nenhum, apenas o código de registro. Era sua primeira vez, nunca havia visto tanta empolgação em um invólucro de carne. Meu trabalho foi difícil, tive que encontrar um novo meio para execução. Tive que plantar felicidade, os outros caçoaram de mim quando contei. Entretanto, eu sabia que o resultado seria positivo.

Todos nós acompanhávamos com um único objetivo, não só naquela localidade, mas em qualquer outra, o objetivo era o mesmo. Estávamos naquela há 22 anos e nenhum de nós havia sido capaz de conquistar nosso único propósito, era divertido sem a menor dúvida, mas a cobrança do superior estava nos deixando apreensivos. Era comum que muitos nunca conseguissem alcançar nosso objetivo com todos os acompanhados, mas em muitas outras localidades a taxa de sucesso era de 42%, enquanto a nossa era 0%.

Não teríamos resultado algum se não fosse por ela, ela nos forçou a melhorar. Nos primeiros acompanhamentos, muitos reclamavam dos frutos que não estavam sendo colhidos por nós sobre ela. Até que chegou minha vez. Fiz minha presença se tornar quase imperceptível, como se nada a acompanhasse. Fiz que ela tomasse decisões pensando que a faria feliz. Aos poucos ela foi afastando aquele sentimento do coração dela. Aquele que nós abominamos. Cresci sobre ela com a ambição de fazer o melhor para si. Seu relacionamento desmoronou, para o bem dela. Seus pais se afastaram, para o bem dela. Sua arrogância sucumbiu sua humildade.

Eu era alvo de piadas, me tornei o acompanhante exclusivo dela, por pura chacota. Era falado que ela estava se tornando cada vez mais um de nós e que iria me engolir. Não passava uma única sombra de preocupação sobre minha cabeça. Eles estavam esquecendo que estávamos lidando com humanos, humanos são frágeis e sentimentais.

Em menos de 3 meses, os resultados começaram a surgir. A saudade do seu verdadeiro amor, a percepção que sua família se fragmentara, a dificuldade financeira devido a separação dos pais, a arrogância refletindo em seu ambiente de trabalho.

Não vou dizer que ela foi fraca, não. Ela teve fibra, ficou 26 meses aguentando o inferno em sua vida. Foi abraçada pela Depressão, ela é a pior de nós, sabe? Não estávamos obtendo sucesso em fazê-la permanecer, mas com o meu novo processo ela perdurou, até o alcance de nosso único objetivo. Adicionamos mais uma alma ao nosso superior.

Ele era uma coleção maravilhosa de almas devastadas, que se perderam dentro de si mesmo. Desorientações caudadas por nós. O problema dos humanos é que eles sempre atribuem a culpa a própria espécie. Nós estamos em todo lugar, levamos às vezes anos para que nosso objetivo seja alcançado, mas não falhamos. Uma hora ou outra, um ser ou outro, chegam até ele.

Autor: Canton

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Meu vizinho está cortando a grama a 13 horas.

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PARTE 1

Eu não tinha certeza do que era mais bizarro e aterrorizante: meu vizinho cortando a grama pela décima terceira hora, ajudado por quatro policiais uniformizados que realizavam várias outras tarefas de paisagismo... ou a mulher com máscara de gás e poncho de plástico que saía do Toyota Camry dourado que tinha acabado de colidir com a macieira do Sr. Limsky.

"Porra, Kelly!" Ela gritou por de trás da máscara, claramente cambaleante em seus próprios pés após o acidente. “Sem mais direção para você! Para sempre!"

Me agachei na minha garagem, atrás do meu próprio carro, que eu acabara de carregar o porta-malas em preparação para ir embora com minha família para longe de qualquer loucura que estivesse acontecendo na casa ao lado. Observei a mulher que não estava impressionada com as habilidades de condução de Kelly puxando um bazuca debaixo de seu poncho. Essa é a melhor maneira que posso descrever. Não era uma simples arma; parecia a porra de uma bazuca.

A mulher apontou sua arma para o Sr. Limsky e puxou o gatilho. E esse foi o fim do Sr. Limsky. Ele explodiu em uma nojeira bizarra de sangue azul néon; Um tentáculo ainda se contorcendo voou pelo ar e esbofeteou-se contra o pára-brisa do Camry. Vi os limpa vidros se esforçando para lá e para cá para se livrar daquilo.

Me virei e vi minha esposa olhando pela janela da nossa casa em um espanto horrorizado. Ela estava tapando os olhos da nossa filha com as mãos. Keagan estava tirando um dos dedo de Vanessa para dar uma olhada na cena.

Eu? Eu já tinha visto o suficiente para um dia só. Não tinha ideia de quem era a mulher da bazuca, mas sabia que ela tinha explosivos, e lutei para achar um jeito de tirar minha família de lá sem chamar a atenção de ninguém.

A mulher virou sua arma para cada um dos quatro policiais e rapidamente os reduziu a quatro pilhas pegajosas de lodo azul néon.

Se eu pudesse voltar para dentro sem ela me notar, podíamos escapar pela parte de trás da casa e  vazar de Uber. Não importa para onde. Apenas para um lugar bem longe dali.

"Você!", A mulher gritou. Seu poncho estava absolutamente encharcado com o interior das coisas que ela havia acabado de explodir. “Escondido atrás do seu carro! Levante-se devagar."

Merda.

Eu levantei minhas mãos para cima. "Por favor, não me exploda", eu disse. "Eu não sou um deles. Eu juro."

"Isso nós vamos ver", disse. “Enquanto isso… seu vizinho, Sr. Limsky. Ele morava sozinho, certo?"

"Isso mesmo", respondi. “A esposa dele morreu no ano passado. Coitado. ”Olhei para a poça de sangue estranha que costumava ser o Sr. Limsky. Coitado, de fato.

"Vou te dizer o que vai acontecer. Vou entrar na casa do Sr. Limsky e me limpar. Você vai entrar na sua casa e esperar por nós. Se você tentar ser inteligente, prometo que vai acabar como seu vizinho. Não é uma paisagem bonita, concorda?"

Dei mais uma olhada, lutei contra o desejo de vomitar e balancei a cabeça em sincera concordância.

“O mesmo vale para sua família. Eu as vi pela janela. Entendeu? Agora, pra dentro. Agora."

Não precisei de mais encorajamento. Corri de volta para dentro da minha casa; de volta para Vanessa e Keagan.

"Quem é aquela?", Perguntou Vanessa. "O que está acontecendo?"

"Você acha que eu sei?" Rebati. Então suspirei. "Não sei. Mas acho que ela é dos bonzinhos? Quero dizer, pelo menos ela não gosta daquelas coisas lá."

"E se o Sr. Limsky fosse o bonzinho?", Perguntou Keagan.

"E se não houver bonzinhos?" Perguntou Vanessa.

"não sei", falei. "Eu não sei. Mas acho que temos que aproveitar essa chance. Se ela é um  dos malvados, então estamos fodi... então isso é ruim não importa o que fizermos, acho. Acho que só temos que pensar positivamente e esperar que ela seja um dos bonzinhos. ”

"Pensar... positivamente", disse Vanessa. "Pensar positivamente?! Que tal pensarmos em sobreviver?"

Cerrei meus dentes. "Isso é o que estou dizendo, querida. Acho que nossa melhor chance de sobrevivência é ficar quieto e conversar com a moça da máscara de gás."

"O que é 'sobreviver'?", Perguntou Keagan.

"É o que todos estamos tentando fazer, querida", expliquei, "assim, no dia a dia, e nenhum de nós conseguirá até o fim."

"O que?"

"Significa tentar não morrer", finalizei.

"Nós vamos morrer?"

“Um dia, sim, amor. Algum dia muito, muito distante de hoje." Eu não tinha certeza daquilo, é claro, mas o que mais eu poderia dizer? “Ei, você quer assistir desenho?"

"Siiim!" Gritou Keagan.

Abri um episódio e fui para a cozinha, onde Vanessa estava andando em círculos.

“Você tem certeza disso?” Perguntou. "Ficar esperando virem até nós?"

"Não tenho certeza de nada," eu disse.

"Tudo bem. Eu confio em você. E eu te amo."

"Eu também te amo", respondi.

Esperamos.

***


20 minutos depois, eu as vi se aproximando da minha casa. Eram duas mulheres e um homem, cada um usando uma máscara de gás. A mulher da frente ainda carregava sua bazuca, mas tinha limpado toda a substância azul, e estava vestindo algumas roupas do Sr. Limsky. Eu os encontrei na porta.

"Algum de vocês entrou em contato com algum deles?" Perguntou a mulher à sua frente.

"Não," eu disse. Era mentira. Eu tinha ido até o Sr. Limsky e encostado no ombro dele. Vanessa também se aproximou dele. "O que é aquilo?"

"Kelly", disse a mulher da bazuca para a mulher atrás dela. "Faça o teste nele."

Esta tal Kelly tirou uma grande seringa da mochila e deu um passo na minha direção.

"Pode parando um pouquinho aí", manifestei. "Você não vai enfiar essa agulha em mim até que me diga por que eu deveria deixar você fazer isso. O que diabos está acontecendo?"

"Você pode se submeter ao teste", disse a Sra. bazuca, "ou podemos presumir que você tem o vírus e acabar com você agora mesmo."

"Bem, então vou me submeter ao maldito teste", convi, arregaçando minha manga e oferecendo meu braço.

"Não aí", disse Kelly, um segundo antes de ela enfiar a seringa no lado da minha cabeça.

Puta que pariu, como doeu.

Kelly puxou a agulha para fora. Então procurou outra coisa dentro de sua mochila e tirou um tubo de ensaio cheio de um fluido verde. Desenroscou a tampa do tubo e atirou um pouco do meu suco cerebral nele. Depois colocou a tampa de novo, sacudiu-a e segurou contra a luz.

"Ele está limpo", disse Kelly.

"Agora, sua família", disse a Sra. Bazuca.

Assisti em um horror desamparado enquanto Kelly enfiava uma agulha gigante na cabeça da minha esposa e depois na cabeça da minha filha. Keagan não parava de chorar e a cena me deixou enjoado.

"Estão limpas também", disse Kelly.

"Estamos limpos", exclamei. “Agora você pode nos dizer o que diabos está acontecendo? Vamos quem são vocês."

"Eu sou Kelly Raymond", disse a da agulha. “Meu namorado se transformou em um zumbi. Como o Sr. Limsky. Mas... um pouco diferente. Eu tive que ficar cortando os dedos dele."

"Um ... zumbi", pensei. “E você teve que continuar cortando seus dedos. Claro."

"Você pode me chamar de Allie", disse a Sra. Bazuca, tirando a máscara de gás. Os outros também tiraram. “E sim, zumbis. Eles são reais e o vírus está ficando mais forte e imprevisível a cada dia ”.

"Tá bom," suspirei. "Zumbis". Eu olhei para o homem do grupo. "E você é?"

"Martin Henwood", disse o homem. "Eu era um ex-colega de seu vizinho, antes de se aposentar."

"Ah", exclamei. "Sr. Limsky era... legista, não é?"

"Agente funerário", disse Martin. “E era um verdadeiro artista. É por isso que eu tive que pedir ajuda dele em um último trabalho, mesmo aposentado.” Martin estava obviamente chateado e lutando contra as lágrimas, mas continuou. “Um corpo veio para a funerária. A mulher morta aparentemente assassinou o namorado de uma maneira particularmente brutal. Havia rumores de que o colar que ela ainda usava, mesmo depois da suposta autópsia, era amaldiçoado. Era um caso estranho, de fato, porque, para começar, não vi sinais de que uma autópsia de fato tinha sido realizada. Suspeitei que o médico legista tivesse ficado assustado com os rumores e decidido governar a morte como um suicídio sem realmente abrir o corpo. Então, quando a olhei, vi que o colar não tinha fecho. Não havia como tira-lo sem cortá-lo."

Eu estava com a pior dor de cabeça da minha vida, mas tentei manter o foco. "Deixa eu adivinhar. O colar fez ela virar um zumbi?


"Achamos que é esse o caso", disse Allie. "Diga o que aconteceu depois, Martin."

Martin pigarreou. “Bem, eu achei um absurdo todo aquele papo. Um colar amaldiçoado? Eu sou um homem da ciência, não da superstição. Ou pelo menos era. Quando comecei o processo de embalsamamento, foi quando comecei a pensar duas vezes. O que saiu do corpo não era qualquer tipo de sangue que eu já tinha visto em meus 25 anos de experiência. Era…."

Eu terminei a frase para ele: "Azul néon".

"Bem assim", lamuriou. "E foi quando liguei para Chuck Limsky. Ele nunca tinha me deparado com nada assim antes, e de fato não acreditou em mim. Queria ver por si próprio, então veio e eu mostrei a ele o corpo. Como eu, ficou fascinado e perplexo. Ele queria passar algum tempo com o corpo, então saí para pegar sanduíches. Quando voltei, Chuck estava em pé no necrotério, pingando de gosma azul, e o corpo havia sumido." 

"O que aconteceu?!", perguntei.

"Ele me falou que explodiu, falou assim: ‘O corpo simplesmente explodiu. Vou pra casa trocar de roupas e já volto para dar mais uma olhada.'


"E então saiu, e foi a última vez que o vi até..." Martin parou e começou a soluçar.

"Nós conhecemos Martin pouco depois", disse Allie. Tínhamos ouvido falar sobre o caso da garota do colar, e achamos que cheirava fortemente a zumbi. Martin nos contou o que havia acontecido e nos levou até a casa do Sr. Limsky, e agora aqui estamos nós, na sua sala de estar.

"E sobre o colar?" Perguntei, lutando contra os milhares de pensamentos sobrepondo-se na minha cabeça. "De onde veio? Como isso pode te transformar em um zumbi?"

"Essa é uma das coisas que vamos descobrir", disse Allie. “Estamos com ele e vamos fazer vários testes. Normalmente, o vírus é espalhado da maneira usual, como alguém tossindo em você... ou explodindo em você. O colar é algo novo. Muitas coisas nesses caso são novas. Nós temos lidado com o vírus básico zumbi já há algum tempo tivemos uma boa taxa de contimento, mas agora... Agora as coisas mudaram. Nosso objetivo final é encontrar uma vacina para esse novo surto , mas primeiro precisamos entender totalmente o que estamos enfrentando. ”

Olhei para o sofá do outro lado da sala, onde Keagan estava sentada no colo de Vanessa, ainda assistindo desenho. Vanessa estava ouvindo atentamente nossa conversa sussurrada, e eu pude ver o terror gravado em seu rosto. Tenho certeza de que foi o meu estava do mesmo jeito.

"Não é seguro para vocês ficarem aqui", disse Allie. “As pessoas com quem trabalho… costumavam trabalhar… sim, eles estão preocupados com os zumbis, mas também se preocupam com as pessoas que descobrem sobre os zumbis. São implacáveis ​​e estarão aqui em um ou dois dias. Além disso, precisamos de um novo veículo, já que Kelly destruiu nosso carro. Ela não será mais a motorista, nunca mais. Percebi que você tem um SUV bonita e espaçosa lá fora. Todos nós poderíamos caber lá. E vamos. Antes vamos descansar por algumas horas. E então vamos queimar a propriedade do Sr. Limsky. Então nós pegamos a estrada. Você decide. Venha conosco ou fique para trás para eles encontrarem você. ”

"Tudo bem", respondi. "Preciso conversar com minha esposa."

***


Estamos na estrada agora. Allie está dirigindo. Obviamente não vou dizer para onde estamos indo. Só queria que todos soubessem que o apocalipse zumbi está chegando se não chegarmos a tempo.

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Minhas esposas não se dão bem.

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Você já quis amar alguém, mas não conseguiu?

É assim que me sentia sobre Tammy. Nós nunca deveríamos ter ficado juntos em primeiro lugar, mas era o aniversário dela e eu não sabia no que estava me metendo. Ela convidou nós cinco do escritório e eu estava esperando que fosse apenas para tomar uma cerveja e ir para casa. Então fomos eu e ela para o bar e, meia hora depois, quando todos já deviam estar lá, e toda vez que seu telefone vibrava, eu sabia que era mais um deles cancelando no último minuto. Mas ela estava radiante mesmo decepcionada, e eu não tinha outro lugar para estar, e as horas podem voar tão rápido quando você encontra alguém para ser sozinho junto. 

Tammy se culpou pela forma como a festa acabou de uma maneira autodepreciativa que me senti obrigado a tranquilizá-la. E quanto mais dura era consigo mesma, mais gentil eu tinha que ser, até que, de alguma forma, sem querer, eu estava a chamando de linda, porque eu não podia suportar que pensasse diferente por mais um minuto. A maneira como o rosto dela se iluminou em resposta era a prova de que eu não estava mentindo, e o jeito que sorriu de volta me fez sentir como se fosse a primeira vez que ela realmente acreditasse naquelas palavras.

Tammy ficou bem perto de mim enquanto saíamos do bar juntos. Perto o suficiente para sentir sua respiração no meu pescoço. Então seus braços estavam em volta do meu braço e seu calor não era mais algo para ser imaginado. Só para para se equilibrar, ela disse, mas nenhuma quantidade de firmeza era o suficiente para ela deixar ir. Ela tinha bebendo, afinal, e precisava de alguém para levá-la para casa ...

Bem, realmente achei-a linda naquela noite, e quanto mais ela confiava em mim para se mostrar, mais bonita se tornava. Mas amor? Não era sua culpa ter começado a me amar, e não era minha culpa que eu não pudesse sentir o mesmo.

Um homem faminto não se importa com o que come, e o solitário se agarra a qualquer um que os faça esquecer o que é estar sozinho. Tammy e eu ficamos juntos, e a frase “talvez seja assim que o amor deva parecer” ficou na minha cabeça. Tammy me tratou com devoção e me sufocou com bondade, e quanto mais ficávamos juntos, mais difícil ficava imaginar minha vida sendo de outra maneira.

Tammy faria qualquer coisa para continuar comigo, e ela me lembrava disso todos os dias. Eu não conseguia pensar em nenhuma maneira melhor de agradecer a ela do que com tudo que tinha para dar. Ela não era nada além de alegria no dia em que a pedi em casamento, e aproveitando essa luz, falei a mim mesmo que sua felicidade seria o suficiente para nós dois em todos os anos que ainda viriam.

E então, minha outra esposa. A que tinha cabeça raspada. Aquele com os anéis no nariz, jaqueta de couro e a tatuagem de cobra se contorcendo de uma coxa a outra. Eu não sei se você consideraria Zara bonita - certamente não da mesma maneira que consideraria Tammy - mas poderia chamá-la de diversas outras coisas e qualquer uma delas a deixaria com tesão.

Conheci Zara em outra cidade onde a sede da minha empresa ficava. Eu tinha que ir lá uma vez por mês, todo mês, mas não demorou muito para que eu encontrasse uma desculpa para ir todo final de semana. Tammy estava grávida e eu não estava orgulhoso do que estava fazendo. Mas também não senti vergonha, porque qualquer culpa que eu deveria ter sentido era uma gota no oceano que era amor.

Zara era tudo que eu nunca soube que queria. Era selvagem, desenfreada, insaciável. Era uma bruxa que me colocou sob seu feitiço, um demônio que reivindicou minha alma. Estes são os tipos de desculpas que eu dizia a mim mesmo sempre que a culpa começava a subir pela minha espinha. Quando eu abraçava Tammy à noite, pensava comigo mesmo todas as coisas loucas que os homens da história já tinham feito por amor, e me colocava na lista. E quando adormecia, eu sonhava em estar de volta com a garota cujo toque era o fogo.

Um fim de semana nunca era o suficiente para passar com Zara, e toda vez era mais difícil era ir embora do que da vez anterior. Eu não podia deixar Tammy com a criança, e ansiedade de que isso teria que acabar começou a corroer em mim noite e dia. Mantive as duas em segredo uma da outra, indo e vindo, mal confiando em mim para chamar uma pelo nome sem que minha língua me traísse com a da outra. Quanto mais a pressão aumentava, mais inseguro e defensivo me tornava, até que um dia, de surpresa, Zara me disse que estava com ciúmes do meu tempo. Ela não queria que eu fosse embora de novo. Ela queria ser minha esposa, e tolo que eu era, eu disse a ela que queria o mesmo.

Não foi um casamento muito oficial - Zara não gostava desse tipo de coisa. Nossas mãos estavam entrelaçadas na floresta e nossos pés estavam no riacho quando coloquei um anel em seu dedo. Minha vida como eu conhecia tinha terminado para sempre, e eu não conseguia imaginar nada além da felicidade por vir.

Falei para mim mesmo então que faria uma última viagem para terminar as coisas com Tammy. Ela ficaria melhor sozinha - eu queria acreditar - do que com alguém que não precisava mais dela. Faria a minha parte e ajudaria com dinheiro para a criança, porque eu não precisaria de muito dinheiro, porque nada que eu pudesse comprar encheria meu coração do mesmo jeito que Zara enchia. Tammy choraria, mas eu não ia arregar, e daqui a cinco anos - daqui a dez anos - quando estiver velho e grisalho com mãos trêmulas - vou segurar Zara com mais força, sabendo que quase fui fraco demais para seguir meu coração.

E talvez tivesse sido assim se Zara não tivesse me seguido. Ela queria me surpreender fazendo a viagem para me ajudar com a mudança. Ela achou que estava sendo inteligente ligando para o meu trabalho, fingindo ser um cliente e organizando uma reunião na minha casa. Como ela poderia saber que Tammy estava em casa enquanto eu ia ao mercado pegar algumas coisas para nosso filho recém-nascido?

A polícia chegou em casa antes de mim. A jovem mãe chorosa e a garota punk gritando - não foi difícil para eles descobrirem o que aconteceu. As cortinas cortadas com faca e os pratos estilhaçados - deve ter havido uma briga revoltosa para que os vizinhos chamassem a polícia. O tapete manchado de sangue e os rastros de sangue até o quarto do bebê - não havia como esconder as evidências, ou confundir o que aconteceu com minha filha, que foi cortada em pedaços antes mesmo que pudesse aprender o próprio nome.

Zara e eu nunca mais nos falamos. Nem mesmo no julgamento em que fui chamado como testemunha. Eu não conseguia nem cruzar meu olhar com o dela quando contei ao júri sobre o caso, que eu a amava e que sabia que estava errado. Eu disse a eles que Zara estava com ciúmes, que ela havia matado a criança e que eu nunca mais queria vê-la novamente.

A única coisa que poderia ter sido mais difícil de suportar foi quando Tammy me perdoou. Disse que não foi minha culpa. Que cometi um erro. Que poderíamos aprender a ser felizes juntos novamente. E eu acreditei nela, porque sabia que não seria possível de suportar aquele peso sozinho.

Isso foi quase vinte anos atrás, e Tammy e eu passamos esses anos da melhor forma que pudemos. Nós tivemos mais dois filhos, ambos meninos. Fico feliz por isso, porque se tivéssemos uma menina, não acho que poderia ter olhado para ela sem pensar na criança que foi despedaçada. Se Tammy ainda podia me amar depois de tudo isso, então quem sou eu para dizer que não posso amá-la de volta? Apesar de tudo o que fiz para evitar ficar sozinho, sei que é apenas uma questão de tempo.

Tammy está doente e não vai melhorar. Tenho passado todos os dias ao lado de minha esposa, e nosso filho mais novo estará indo para a faculdade em outro estado em algumas semanas. Então, só vai ser eu e meus arrependimentos, pensando nas palavras que Tammy me disse ontem à noite.

"Eu disse que faria qualquer coisa para ficar com você, e assim fiz", me disse. “Tive que fazer você acreditar que Zara matou nossa filha, se não você não iria ficar comigo. Eu fiz por amor, entende? Nos fizemos um ao outro tão felizes ao longo dos anos. ”

Eu sempre soube que nunca a amei, mas demorei a vida inteira para descobrir o motivo. 

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Usei o FaceApp e me arrependo.

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"FaceApp" é um aplicativo que mostra como você vai ficar quando envelhecer. Na tarde de hoje, baixei-o, depois de ser praticamente coagida. 

"Vamos, poxa. Quero ver como você vai ficar," meu marido disse, sorrindo maliciosamente. 

É claro que queria. Ele continuava lindo, com os cabelos acinzentados e algumas linhas distintas no rosto. Eu? Provavelmente ia ficar parecendo um tapete de chão. 

O aplicativo baixou. Tirei uma foto e passei pelas opções. Cliquei em "Idade" e depois em "Velho". 

O ícone ficou rodando na tela, mostrando que carregava. Segurei a respiração. 

A imagem apareceu.

Congelei.

Não me mostrava de cabelos grisalhos, enrugada ou com os dentes amarelados. Não. Era algo muito pior.

Minha pele se esticava sobre as minhas bochechas, magras e finas, um tom de cinza doentio. Meus olhos estavam embranquecidos, as pupilas mal visíveis. Meu cabelo castanho escuro não tinha cinza - mas estava emaranhado e amarrado em volta do meu rosto. Eu não tinha metade dos dentes.

Eu não parecia velha.

Parecia morta. 

"O que? O que foi?" Alex perguntou. 

Rapidamente tirei meu celular de sua vista. "Não é nada. Só... não quero que você me veja assim."

Essa parte era verdade. 

"Tááá booom." Ele se afastou, rindo. "Acho que vou ter que esperar você ficar velha de verdade, então." 

Dei um sorriso constrangido de volta. 

"Acho melhor eu voltar para o trabalho," ele disse, andando em direção ao seu escritório. "Mas vamos sair para jantar hoje, está bem?" 

Assenti com a cabeça. 

Assim que saiu do cômodo, puxei meu celular de volta. Encarei a foto. 

Parecia piro do que eu me lembrava. Quando aproximei meu rosto da tela, notei um verme no meio do meu cabelo. Antes parecia camuflado por causa da coloração castanha. E minha pele estava salpicada não de manchas de idade, mas de buracos. 

Então percebi.

Eu não podia ser a única. 

Abri uma aba no navegador do celular e comecei a pesquisar. Depois de ver milhares de artigos e notícias sobre o aplicativo, encontrei um fórum com poucos usuários falando sobre.

Oi. Quando eu usei o treco de ficar velho do FaceApp, ao invés de me ver velho, me vi... tipo podre, morto, sei lá. Aconteceu com mais alguém?

Tinha alguns comentários. 

Siiim, eu parecia um zumbi, ahsuahuhas

Acho que é um bug. É um aplicativo novo e devem ainda estar atualizando tudo certinho. 

Acho que colocaram lá tipo pegadinha. 

Respirei fundo de alívio. Mas, quando estava começando a me acalmar, meus olhos cairam no quarto comentário. 

Acho que não é só isso. Eu não quero assustar vocês, mas...  aconteceu exatamente a mesma coisa com a minha irmã. Ela apareceu morta no app, tipo um zumbi. 

Ela tem câncer terminal no cérebro. 

Meu coração congelou. Me senti quente. Coçando. Tonta. Me levantei, passando as mãos no rosto, como se esperasse sentir os buracos. Os vermes. Tudo. 

Corri para o banheiro. Joguei água no rosto. A cara no espelho não era diferente da cara de ontem. Ou de anteontem. 

Mas aquelas palavras horríveis ficaram marcadas na minha mente. 

Não me mostrava velha...

Por que não vou chegar a envelhecer. 

ORIGINAL

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Masha é o orgulho delas

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Desde pequena, Masha sempre aprendeu a valorizar suas raízes e costumes originários da sua vila de origem, no frio e pacato leste europeu. O clima gélido não tornava sua vida algo fácil de se lidar, principalmente a considerar que ela e sua família passavam muitas dificuldades financeiras. Esta era composta por sua sábia e velha avó que quase nunca saia de sua casa e seus pais, um forte homem nativo da região e uma estrangeira que pouco dominava o idioma de sua família atual. Apesar dos anos de convivência, não entendia bem gírias e dialetos locais.

Os três mais novos da casa tinham de trabalhar durante quase todo o dia em serviços braçais e de remuneração razoável que fosse suficiente apenas para sustentar a família toda, apesar de casualmente passarem dificuldades como falta de higiene básica e fome por alguns dias, o que era um grave problema principalmente no inverno, quando os mais miseráveis e fracos, como bebês, idosos ou moradores de rua, não tinham chance de sobreviver, muitas vezes, virando apenas mais corpos a serem entregues para a terra. A avó de Masha, no entanto, sempre a ensinou a forma de viver ao menos de estômago cheio em um lugar como aquele.

Apesar das dificuldades, os pais da garota sempre tentavam guardar o mínimo de dinheiro no cofre escasso e deprimente da família, além de estimular que ela fizesse o mesmo com seu curto salário, para assim, conquistar um futuro melhor. Os três se dedicavam totalmente às suas obrigações.

Foi durante anos de trabalho duro em que Masha tornou-se fiel amiga de Bohuslav, um rapaz de sua idade, com um olhar de quem vivia em função do sustento da família, assim como a moça.

Com o passar dos anos, Masha e Bohuslav prometeram-se apaixonadamente um ao outro e juraram que conseguiram construir uma vida feliz e instável longe daquela vila aonde eram tão explorados por comerciantes que, apesar de não serem de uma alta elite, já encontravam-se em posição hierárquica superior a de seus trabalhadores, tornando-os assim, presos à vidas miseráveis enquanto se mantivessem ali.

Ambos juntaram suas economias de longa data e tiveram de se preparar para se despedir de suas respectivas famílias, já que estavam rumo à Rússia. Antes de partir, a jovem calorosamente abraçou sua avó e agradeceu por todos os bons momentos e ensinamentos que tivera. Disse que voltaria para ajudá-los e vê-los, caso conseguisse obter melhorias financeiras no novo país, mas prometeu que manteria consigo aquilo de mais importante que ganhou durante toda sua vida: suas raízes.

Passaram-se os meses e o casal teve que lidar com a dura realidade do fracasso. Ambos investiram dinheiro demais em toda sua mudança de vida, mas não possuíam empregos bem remunerados e de condições justas. O inverno foi chegando e Masha lembrou das dificuldades enfrentadas pelo seu pobre povo

do vilarejo, temendo acabar igual a eles, mas apenas em um endereço diferente, desta vez. Com saudades de casa, decidiu contatar sua família.

Cerca de alguns dias depois, a mãe da moça recebeu em casa uma pequena caixa, com um envelope grudado logo acima do papel branco que a recobria. Seu marido estava fora de casa e ela não pôde conter a ansiedade para ver o quê sua filha havia lhe mandado, portanto, logo chamou sua sogra para perto da lareira e abriu o envelope.

Havia uma carta de desabafo. Masha havia escrito sobre as dificuldades financeiras, mas não quis parecer abalada em suas palavras, apesar de demonstrar sensibilidade quando expressou a saudade que sentia. Falou sobre como seu casamento estava, apesar de qualquer dificuldade, ficando cada dia melhor e, por fim, deixou apenas uma frase, que fez com que ambas as senhoras que estavam lendo a carta, ficassem rubras.

“Bem... isso que está na caixa é pra mostrar que... há um baby no forno!”

Sua mãe ficou muito animada ao ler a frase, pois lembrou-se que, em seu país de origem, dizer que um bebê estava no forno era como ter um pãozinho crescendo, ficando lindo e formado. Se emocionou ao lembrar de como tentava usar essa analogia para explicar à sua filha sobre como os bebês cresciam na barriga e logo abandonou a carta.

A mãe de Masha agarrou a caixa, rasgou o embrulho e a abriu, vendo um par de sapatinhos de bebê. Seus olhos marejaram ao imaginar sua filha gestante. Ela nem mesmo reparou em como sua sogra estava quieta, com um singelo sorriso em seu rosto. A idosa também encarou os sapatinhos, com muito orgulho de sua neta, sem conseguir evitar que um pensamento viesse à sua mente.

“Eu me sinto muito orgulhosa, minha jovem Masha, por ter lhe ensinado a nossa cultura, tão bonita e tão útil... principalmente nos dias difíceis de inverno”.

Autor: NekoG

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Tem um homem narrando minha vida.

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Ele sempre esteve aqui. Embora, na verdade, eu não saiba se ele é um "ele", e embora eu não queira assumir seu gênero nem nada, a voz é definitivamente masculina. Nunca vi seu rosto; sempre suas costas. Usa um casaco preto longo com gola estampada, de modo que tudo que eu posso realmente ver é o topo de sua cabeça e parte de suas botas pretas.

Não posso me comunicar com ele, descobri isso há alguns anos atrás. Fica sempre a poucos metros de mim em todos os momentos, de costas para mim, narrando toda a minha vida. Ninguém mais pode vê-lo, eu percebi isso há alguns anos, nem podem ouvi-lo.

Meu dia geralmente começa sempre do mesmo jeito, eu sempre acordo com a mesma frase.

"Natália acorda e rola em sua cama."

Todo dia ele diz isso porque é o que eu faço. Tudo é muito mundano; minha vida não é tão interessante assim.

Meio que aprendi a viver com isso, e quase consigo ignorar sua voz as vezes. Nunca contei para ninguém sobre ele porque sei que ninguém acreditaria em mim. Então, realmente não tenho muita escolha, além de aprender a lidar com isso e desconectar meu cérebro disso quando preciso.

Cerca de uma semana atrás, eu estava cozinhando meu jantar; purê de batatas e tacos de feijão preto e ignorando-o como normal. No entanto, enquanto picava um pouco de coentro para meus tacos, ele disse algo que me chamou a atenção.

"Natália está inocentemente picando coentro, sem qualquer conhecimento de que está em grave perigo".

Congelei, a faca parada no ar em cima do meu coentro, e olhei para ele. Ele estava do outro lado da ilha da cozinha, de frente para a minha mesa de jantar.

"O quê?" Perguntei, sabendo que ele não iria responder.

A este ponto, acho que ficaria mais assustada se me respondesse do que qualquer outra coisa.

Ele não disse nada por alguns minutos, então eu terminei de picar as ervas, limpando os pedaços de coentro que ficaram presos na lâmina com o dedo e me cortando no processo.

"Porra!" Caminhei e liguei a torneira, enxaguando a faca e meu dedo.

"Natália se corta e o sangue escorre, agradando quem assiste."

Desliguei a torneira e me virei.

Ele não se mexeu, mas tenho certeza de que o ouvi corretamente.

Fui até a janela na parede à minha esquerda e puxei a cordinha, fechando as persianas enquanto me sentia paranoica.

Consegui comer meu jantar e lavar a louça sem nenhum outro comentário estranho e me preparei para dormir.

Quando fiquei mais sonolenta, estendi a mão e desliguei a lâmpada ao lado da minha cama, rolando para o lado esquerdo e fechando os olhos.

"Natália rola, fechando os olhos e deitada em paz na sua cama. No entanto, o que não sabe, é que em breve enfrentará um destino horrível que terminará em sua morte ”.

Abri os olhos, me sentando e olhando para a silhueta dele, ligeiramente iluminada pelo luar. Esperei alguns minutos, mas ele não disse mais nada então finalmente adormeci.

Acordei na manhã seguinte quando o alarme disparou.

"Natália acorda e rola na cama, um dia mais perto de sua inevitável morte."

Me levantei, entrei no banheiro e bati a porta, aborrecida e um pouco assustada.

Ele estava narrando toda a minha vida, e nunca disse nada assustador ou fora do comum antes, então o que estava acontecendo?

Abri a torneira e comecei a jogar água no meu rosto.

"Natália lava o rosto, mas ela não parece perceber que é muito mais fácil para alguém atacar quando seus olhos estão fechados."

Tirei o sabonete da área dos olhos e olhei para o meu reflexo no espelho e para o dele, de pé atrás de mim.

Terminei de enxaguar o rosto com os olhos abertos e consegui secá-lo sem cobrir completamente os olhos. O resto da minha semana foi bem parecido; narrações normais na maior parte, com algumas coisas assustadoras polvilhadas.

“Ele está vindo para ela muito em breve. Isso é inevitável. Natália precisa morrer."

Toda vez que dizia alguma coisa, eu olhava ao meu redor, paranoica. Passei a semana toda ansiosa e paranoica. Mal dormi, temendo que eu acordaria no meio da noite com alguém roubando meu órgãos. Coloquei uma faca na minha gaveta de cabeceira e spray de pimenta debaixo do meu travesseiro.

Ontem, falou frases mais assustadoras do que o normal.

"Os dias de Natália estão contados."

"Natália está se sentindo ansiosa; como deveria."

"Aquele que assiste está chegando em breve."

"Aquele que assiste está muito animado para matar Natália ."

“Não haverá escapatória; apenas morte."

Não sai de casa por medo de que, de alguma forma, o que quer que acontecesse, acontecesse mais cedo.

Ontem à noite, eu estava me preparando para dormir, escovando os dentes e olhando para o reflexo dele atrás de mim no espelho. Enquanto passava enxaguante bucal, ele falou de novo.

“Natália escova os dentes pela última vez. Amanhã ela morre."

Cuspi o enxaguante bucal, me engasgando um pouco no processo. Tossi e grunhi.

"Natália engasga com o enxaguante bucal, sentindo como se estivesse morrendo. Mas ainda não é sua hora. Sua hora será amanhã."

Consegui recuperar o fôlego e caminhei até a minha cama, deitando e deixando as lâmpadas acesas. A última coisa que eu precisava era ser acordado à meia-noite e ter que lutar contra um assassino no escuro.

Acordei hoje algumas horas antes do meu alarme e me levantei. Ainda estava viva e nada estava fora do lugar. Talvez eu não morresse hoje. Talvez tenha sido tudo uma espécie de casualidade.

Entrei no banheiro e peguei minha escova de dentes. Espremi um pouco de pasta de dentes para escovar os dentes e coloquei a escova de dentes na minha boca. Olhei para o espelho, para o meu reflexo, e então eu congelei.

Cuspi na pia e olhei ao redor no banheiro. Enfiei a cabeça pela porta no meu quarto e olhei ao redor também. Andei por todos os cômodos da minha casa, mas ele não estava em lugar algum para ser visto. Ele tinha ido embora.

Vinte e cinco anos me seguindo e narrando minha vida, e agora, de repente, na hora da minha morte, simplesmente some.

De alguma forma, isso me fez sentir pior, quando percebi que, mesmo que as coisas que dizia eram assustadoras, elas também estavam me ajudando, me avisando quanto tempo eu tinha ainda. Agora eu não tinha nenhum aviso e nenhuma escolha além de esperar e ver o que aconteceria.

Não consigo afastar a sensação de que definitivamente vou morrer. Mas como? E por quem? Quem era "aquele que assiste"? O que isso significa?

Passei o dia inteiro na cozinha; Acho que há mais saídas aqui, assim como coisas para me defender, e eu provavelmente estaria mais segura aqui do que em outro cômodo menor da casa.

Até agora nada aconteceu. Estou sentada em silêncio, o que é estranho porque eu nunca estive em completo silêncio antes.

Cerca de uma hora atrás, todas as luzes começaram a piscar na casa, mas isso durou apenas alguns segundos e voltou ao normal agora.

Ainda não sei o que esperar, mas acho que provavelmente estou mais segura na minha casa. Bem, pensei que estaria, até a campainha tocar.

Me levantei e entrei na sala de estar, caminhando até a porta e espiando pelo olho mágico. Era ele. Ele estava do lado de fora na minha varanda, de costas para mim, como de costume. Não me mexi; Nem sequer respirei enquanto apenas o observava parado ali.

Ele ainda está lá fora, mas não disse uma palavra. Ainda estou na minha cozinha, sem saber o que fazer. Pude ouvi-lo resmungando do lado de fora da porta alguns minutos atrás, e finalmente decidi me levantar e ouvir.

“Dois mil, um mil novecentos e noventa e nove, um mil novecentos e noventa e oito, um mil novecentos e noventa e sete...”

Ele ainda está em contagem regressiva e agora tenho cerca de vinte minutos. Posso ver que está ficando mais escuro e mais escuro lá fora enquanto ele faz a contagem regressiva, mesmo ainda sendo apenas três da tarde.

Toda vez que olho pela janela, algo desaparece; uma casa na minha rua, um carro, uma árvore. Sempre que algo desaparece, é substituído pela escuridão. E ele continua contando.

Esta pode ser minha última chance de comunicação. Eu vou morrer hoje.

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Meu vizinho está cortando a grama faz 12 horas.

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Começou as quatro e quarenta e três da manhã. O barulho me arrancou do sono. Parecia que um caminhão gigante estava esquentando seu motor bem do lado da minha janela. A fumaça do escapamento entrava pelo vidro aberto. Era um péssimo jeito de começar o dia.

"O que é isso?" Minha esposa gemeu. Nós dois dormimos mal naquela noite porque nossa filha tinha rastejado para nossa cama a uma da manhã e ficava nos chutando na cara até que nós dois ficássemos quase caindo da borda do colchão enquanto ela roncava sonoramente. 

"O começo do fim do mundo," grunhi. "Volte a dormir." 

"Sem chance de eu conseguir dormir de novo com essa barulheira," Vanessa disse. Rolou para fora da cama e fechou a janela. Isso ajudou um pouco, mas ainda soava como se houvesse uma guerra lá fora. Ela puxou as cortinas e olhou para fora. "É a porra do vizinho. Cortando a porra da grama. Antes da porra do sol nascer. Temos que ter uma conversinha com ele. Dizer que isso não é legal." 

Keagan, nossa filha, acordou chorando.

"Acho que é isso," resmunguei, saindo da cama. "Vou falar com ele depois que tomar um café." 

"Traz pra mim também," Vanessa disse.

"Papai, me traz M&Ms," Keagan disse.

"Não, nada de doces no café da manhã. Banana. Ou torrada. Mas nada de M&Ms." 

"Tá," bufou. "Torrada. Mas cortada bonita." 

Suspirei. Isso era a última coisa que eu queria estar fazendo as 04:45 de um sábado. Fazer café e cortar torrada em formatos de animais ao invés de estar babando no meu travesseiro e sonhando com um mundo melhor. 

Fui para a cozinha e comecei a preparar café e torradas e então olhei pela janela da sala. E lá estava. Sr. Limsky, cortando a merda da grama, vestindo nada mais nada menos que seu roupão de banho. Aí estava outra coisa que não estava afim de fazer: falar com ele sobre isso, na verdade, não gostaria de ter que falar com ele nunca, a não ser acenar de longe e dar bom dia uma vez na vida e outra na morte. 

Quando eu já estava acordado o suficiente para ter pensamentos coerentes, eram quase seis da manhã, e eu já consumira quatro xícaras de café. Sr. Limsky ainda estava lá, o que era estranho, porque seu jardim não era nada grande. Não deveria demorar mais que quarenta minutos para realizar essa tarefa. Mas lá estava ele, uma hora e quinze minutos depois, ainda cortando. 

Me semi vesti e tropecei para a rua. Atravessei meu próprio jardim, o qual, notei, estava precisando ter sua grama cortada. Talvez eu o sugerisse que, se ele cortasse a minha grama e não começasse tão cedo, eu deixaria essa passar. Mas é obvio que eu não iria fazer isso. Eu era um covarde.

Enquanto chegava mais perto, observei confusamente que o gramado dele já estava cortado. Estava passando o cortador uma segunda vez. Andei até o limite de nossa propriedade, denotada pelo contraste de grama cortada e não cortada, e comecei a sacudir meus braços no ar, tentando chamar a atenção do Sr. Limsky. 

Ele não olhou para mim nem sequer uma vez. Apenas olhava para frente, reto, e continuava a empurrar o cortador de grama. 

"EI!" Gritei. Mas não consegui nada. Eu mal conseguia me ouvir, e assim eu sabia que ele não me ouviria também por causa do barulho da máquina. 

Mas que bosta.

Andei pelo gramado até ficar bem atrás dele. "EI!" Gritei de novo. Nada. Toquei em seu ombro. Nada. Ele apenas continuava a empurrar o cortador para frente em cima da grama já aparada. Eu não sabia o que fazer. 

Vou tentar falar com ele quando terminar, acho. Deve estar muito concentrado. 

Dei de ombros e estava prestes a dar minhas costas e voltar para casa quando vi um rastro do que presumidamente era urina, escorrendo pela sua perna. 

Jesus Cristo. 

Voltei para casa e abri a porta. Vanessa estava lendo um livro para Keagan. Parou quando entrei e olhou para mim. "E aí?" 

"Eu, hm... ele não conseguiu me ouvir. Vou voltar lá quando ele terminar. Vai ter que parar em algum momento, né? E, hm... bem, na real estou um pouco preocupado. Eu vi, você sabe, ele se molhou." 

"Sr. Limsky fez xixi nas calças?" Keagan perguntou. Começou a rir. 

"Isso acontece as vezes, menininha," falei. "Você fazia isso antes, lembra. A gente faz isso bastante quando é criança e depois passa um tempão sem fazer e quando fica mais velho pode voltar a fazer." 

Isso a fez pensar um pouco. 

"Uh," Vanessa disse. 

"Tem mais," continuei. "Ele já cortou a grama. Esta passando o cortador em cima da grama já cortada." 

"Talvez esteja arrumando uns pedaços que ficaram com grama alta?"

"Não. Está perfeito. Nenhuma folha de grama acima das outras." 

"Hmm," Vanessa pensou. "Isso é estranho. Você acha que ele está bem? Deveríamos ligar para alguém?"

Encolhi os ombros. "Ligar pra quem? Pra polícia? Falar que nosso vizinho aposentado está cortando a grama duas vezes e se mij... fazendo xixi nas calças? Acha que vão fazer alguma coisa mesmo?" 


***

Pelas oito da manhã eu estava cozinhando bacon e Sr. Limsky ainda estava lá, cortando a grama pelo que parecia ser a quinta vez. Tentei não pensar a respeito, mas era difícil. 

"Depois do café da manhã a gente devia ir para algum lugar," falei. "Está um dia lindo. Não precisamos ficar enfurnados aqui dentro o dia todo."

"Por que o Sr. Limsky ainda está cortando a grama?" Keagan perguntou. 

"Eu não sei, bebê," resmunguei. "Não sei. Quer ir no parquinho ou algo do tipo?"

"Siiim!"

"Vou ficar em casa e tentar dormir mais um pouco, pode ser?" Vanessa disse. 

"Claro," falei. Eu também estava com vontade de voltar a dormir, mesmo depois de todo aquele café, mas o desejo de me afastar daquele barulho era muito maior. 

Comemos, então eu e Keagan fomos para o parquinho. 

Às 9h recebi uma mensagem de texto de Vanessa: "Não consigo dormir, ele ainda está cortando a grama." 

9h30: "Estou começando a ficar preocupada. Isso não é normal." 

10h00: "Fui lá e tentei falar com ele mas é como se estivesse em um transe. Por favor, volte pra casa." 

Suspirei, mas consenti. Chamei minha filha e voltamos para casa. Uma sensação desagradável começava a pairar sobre mim, e só piorava ao me aproximar de casa. 

Você está com medo de um velho cortando a grama? Debochei de mim mesmo. Mas não funcionou, porque minha resposta instintiva foi: Sim.

Entrei na minha rua rezando para que quando chegasse na frente de casa, Sr. Limsky teria parado de cortar a grama. Diria que era só uma pegadinha e todos nós riríamos juntos. Mas logo, vi que isso não aconteceria. Quando estacionei na minha garagem, vi que ele ainda estava lá. Achei ter visto um rastro marrom escuro escorrendo por sua perna, mas era difícil ter certeza por causa da sombra da macieira anciã de seu jardim.

Entrei dentro de casa e Vanessa estava na cozinha com olheiras enormes e uma taça de vinha na mão. "Por favor, faça parar," disse. 

"Eu não sei o que fazer," falei, de repente me sentindo muito cansado e também precisando de uma bebida.

"Ligue para a polícia," ela falou. 

"Por que você não liga?" perguntei.

"Certo," falou. "É só que eu já faço tudo nessa casa e achei que talvez você pudesse ajudar dessa vez."

Segurei minha língua. Eu fazia um monte de coisas em casa, mas sabia que esse não era o momento de falar sobre isso. "Tá," respondi. "Eu ligo para a polícia. Mas como será que não acabou ainda o combustível daquela bosta ainda?"

"Eu estava o observando," Vanessa disse. "Tem um garrafão de gasolina na garagem. Quando o cortador morre, ele vai lá e abastece enquanto ainda empurra o cortador. Muito bizarro. Por favor, chama a polícia."

"Tá bom, tá bom," eu disse. Diquei o número e acabei tendo a conversa por telefone mais constrangedora da minha vida. Foi dez minutos com a telefonista, depois mais dez minutos com um policial. Por fim, concordaram em vir dar uma olhada. 


***

Quinze minutos depois, assisti da minha janela os policiais estacionarem na frente da casa do Sr. Limsky. Umúnico policial saiu do carro e andou até ele. 

O policial estava sacudindo os braços e gritando, mas não obteve respostas. Então o policial agarrou o Sr. Limsky pelos ombros e o forçou a girar em sua direção. Isso fez com que o velho finalmente largasse o cortado de grama e, pela primeira vez no dia, o cortador parou de se mexer. Ainda estava ligado, porque ele havia enrolado com fita o botão de ligar e desligar. 

Segurei a respiração e esperei para ver o que aconteceria em seguida. 

A boca de Sr. Limsky se abriu e algo saiu lá de dentro. Parecia um tentáculo longo e fino. O tentáculo se enrolou no pescoço do policial e o levantou no ar. Então um segundo tentáculo emergiu da boca do homem e entrou na garganta do policial. 

Fechei as cortinas com violência e percebi que, assim como Sr. Limsky mais cedo, eu também tinha me mijado. 

"O que está acontecendo lá fora?" Vanessa perguntou da cozinha. "A polícia chegou?"

Eu não tinha uma resposta decente para dar, então não respondi. 

"Querido?" Vanessa disse, andando até mim. "Você está bem?"

Lá fora, ouvimos o som de outra máquina se juntando ao cortador de grama. Vanessa abriu a cortina, e lentamente me virei para olhar. 

O policial estava dando voltas na macieira com um cortador de ervas daninhas enquanto o Sr. Limsky voltava a empurrar seu cortador novamente. 

***

É cinco da tarde. Além do Sr. Limsky, tem mais quatro policiais em seu jardim fazendo várias atividades. Um ainda está com o cortador de ervas daninhas. Outro está nos arbustos com uma tesoura gigante picando as folhas a horas. Mas o que mais me preocupa é o que anda por aí pulverizando o chão de uma garrafa cheia de líquido azul neon que o Sr. Limsky em algum momento vomitou de sua boca.

Pessoalmente, estou pedindo para minha família arrumar suas coisas e colocar no carro para partirmos para a Flórida, onde mora a mãe de Vanessa. Eu não tenho ideia do que está acontecendo, mas não parece bom.

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