Meu Pai

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É estranho pensar em como os pais dizem que se importam tanto com os filhos e simplesmente deixam eles soltos por aí. Meu pai não fazia isso, era um homem exemplar em todos os quesitos. Todos os dias de manhã, saia para trabalhar e queria a casa impecável quando voltasse. Nunca o julguei, éramos só nós dois e isso era o mínimo que eu poderia fazer em troca de ele ser um pai tão bom, que me sustentava.

Nunca tivemos televisões porque ele defendia como um meio de alienação, assim como brinquedos eram desnecessários, apenas os livros usados para meus estudos feitos em casa todo fim de semana eram meus companheiros. Eu nunca fui para a escola também, meu pai dizia que as outras crianças eram maldosas e por mais que na época eu odiasse tudo isso, hoje em dia eu compreendo e o admiro ainda mais.

Os métodos de ensino do meu pai eram tão surpreendentes que nunca foram ensinados nos livros. Todos os dias de noite, ele me levava para o quarto e me dava educação sexual, porque ele dizia que isso seria útil um dia para mim como garota. No início eu discordava, mas mais uma vez, ele estava certo.

Sempre que ele chegava, se houvesse algum resquício de pó em qualquer canto da casa, meu pai me batia sem dó nem piedade para meu aprendizado sobre organização, e isso já me custou tanto alguns dentes quebrados como fraturas pelo corpo que foram consertados por ele também. Era um médico excepcional, fazia muito bem seu trabalho e tudo era completamente organizado.


Frequentemente, Papai trazia aqueles que eu chamava de "pacientes" para nossa casa. Ele sempre arrastava esses diferentes pacientes até o porão e depois disso eu ouvia os gritos dos "tratamentos" que eram feitos, mas na época eu estranhava eles nunca saírem do porão depois dos gritos acabarem durante a madrugada. Eu era muito inocente, mas me acostumei com essa rotina e depois limpar toda a bagunça.


Porém, não era sempre que o homem mais admirável por mim se dedicava aos seus pacientes. Quando eu era uma boa menina, ele me trazia presentes que eu amava. No meu aniversário de 15 anos, ganhei um homem! Papai me disse que eu saberia exatamente o que fazer com o novo hóspede que estava amarrado e desacordado. Aparentava ter uns 20 anos, um rapaz muito bonito e foi com ele meus primeiros estudos reais em medicina. Eu tinha lido em algum livro algo sobre anestesia e questionei meu pai, mas ele disse que não era necessário nesses casos. Enquanto eu tentava o operar, o homem se contorcia e gritava de dor e como uma iniciante, me comovi e comecei a chorar por achar aquilo errado. Papai me empurrou fazendo com que eu caísse no chão e ele mesmo serrou o homem ao meio com a motoserra. Litros de sangue jorravam e eu nunca apanhei tanto quanto naquele dia, meu pai me achava fraca, me causando fraturas no crânio que ele demorou para resolver operar e dias em que eu definhava de fome na jaula do castigo.

A jaula do castigo ficava no subsolo, lá eu era submetida à choques, afogamento e era proibida de dormir. Foi onde eu passei mais tempo quando era criança para que aprendesse as coisas corretas e acabei criando uma amiguinha imaginária para não me sentir solitária. Samantha Mary e eu éramos inseparáveis e ela era idêntica à mim. A única diferença era que eu tinha uma mancha de nascença que cobria meu olho esquerdo inteiro, e ela não. De alguma maneira talvez sobrenatural, Samantha conseguiu abrir a jaula e ficou lá, dizendo pra viver a vida por nós duas e que iria se sacrificar. Depois disso, ela nunca mais apareceu e só existe em minhas memórias de infância.

Bem, nos dias de hoje eu já sou uma mulher feita e pretendo seguir os passos do maior homem da minha vida. Vou finalmente poder ter minha própria casa já que papai sumiu há alguns dias, mas antes eu precisava continuar nossa missão de purificar todos como quando fizemos com aquele homem quando eu tinha 15 anos. Aliás, era esse o intuito de tudo, não era sobre operar, e sim purificar as outras pessoas. Como todos estão se tornando tão maldosos hoje em dia, nossa missão como seres superiores é tornar todos melhores. Mas para isso, é preciso encarar o sofrimento até a vida ser valorizada e depois a morte.

Nesse momento, já é noite e estou quase pegando um garotinho que está sentado na calçada... Sorte dele que os pais são descuidados e ele está prestes à ser purificado. Peguei o pano com clorofórmio no bolso e fiz com que ele apagasse. Pro meu azar, a mãe dele estava apenas fechando o carro na rua em frente e eu acabei não percebendo. Tentei correr mas fui acertada na cabeça e desmaiei em poucos segundos, meu pai ficaria decepcionado.

Ainda estou desacordada por causa da pancada mas consigo ouvir várias vozes ao meu redor, até uma delas me chamar a atenção.

— Essa é a Jennifer Elizabeth, eu tenho certeza, reconheço essa mancha no rosto! Vocês não lembram? Ela sumiu com a irmã gêmea Samantha Mary quando criança e até hoje os pais anunciam o rosto delas na televisão...

Autora: Lilith

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Você Conhece A Perfeição?

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09/12/2011

Bom, Olá, meu deus eu realmente não sei como escrever isso, mas muito bem. Meu terapeuta disse que seria bom que eu escrevesse minha história em um caderno então aqui estou eu. Fui chamado para uma festa entre amigos, uma coisa comum para pessoas com a minha idade, uma festa cheia de bebidas alcoólicas e garotas semi-nuas...

Eu em particular nunca gostei muito de festas ou de interagir com outras pessoas, mas me dispus a ir visto que meu melhor amigo havia me enchido o saco a semana toda.

Chegando na festa já era por volta da meia noite e já estava me sentindo entediado pois estava tocando uma música horrível com um volume absurdo.

Na festa acabei conhecendo uma garota legal que por coincidência também estava lá devido uma amiga que não queria ir sozinha. Começamos a conversar até que descobri que o nome dela era Letícia. E aos poucos ela foi se soltando até que decidimos ir para um lugar mais particular, então fomos para atrás da boate onde não havia ninguém lá e finalmente estávamos a sós.

Após uma meia hora neste lugar, ouvimos um barulho vindo da floresta que estava a alguns metros atrás de nós mas simplesmente ignorei achando que podia ter sido um animal porém, esse som começou a ficar mais intenso e comecei a desconfiar de que era o idiota do meu amigo que estava nos espiando, e antes que pudesse gritar seu nome o som simplismente parou...

Nessa hora, a Letícia começou a passar mal e então voltamos para a boate e ela foi ao banheiro.

Fui procurar meu amigo porém, nenhum sinal dele então decide voltar para ver como a Letícia estava.

Chegando perto do banheiro eu tive uma visão da qual me arrependeria para sempre, me deparei com uma horrível criatura grande e magra completamente sem pelos, ela tinha enormes chifres e os seus olhos, aquele malditos olhos negros sem vida...

Esfreguei os olhos achando que era coisa da minha cabeça, mas ele continuou lá, totalmente imóvel, e então a criatura levantou o braço apontando o dedo para mim, eu tentei correr mas minhas pernas não se moviam, estava completamente apavorado e aquela maldita coisa começou a se aproximar de mim no que parecia uma eternidade e foi quando eu senti o cheiro dele, era simplesmente horrível parecia cheiro de alguma coisa morta oque me fez com que quase vomitasse.

Então ele se aproximou de mim, ele ficou cara a cara comigo, podia sentir sua respiração, podia ver dentro de seus olhos negros sem vida e esperança. Eu tentei fechar meus olhos e olhei para outro lado e então pude ver que todas as pessoas da festa estavam mortos com seus corpos completamente decapitados.

Eu tentei gritar, correr e pedir por socorro mas nenhuma palavra saía da minha boca e minhas perna não me obedeciam.

E então aquela maldita coisa, aquela maldita criatura me tocou fazendo um longo corte no meu rosto e logo em seguida ele apertou meu pescoço me deixando sem ar.

Eu comecei a perder a visão e tudo se apagou e então, eu comecei a cair em um vazio escuro, não havia nada lá, era simplesmente o nada, eu achei que aquele seria o meu fim porém, milagrosamente escuto uma voz me chamando e então tudo começa a ficar claro quando começo e retomar a minha visão.

Letícia estava me chamando desesperadamente me dizendo que eu estava encarando o nada por bastante tempo, eu confuso olho em volta e vejo todos vivos e a música tocando.

Eu achei que tudo não passou de algo da minha imaginação e foi quando senti uma dor muito grande no meu rosto, e então encostei meus dedos na minha bochecha, estava sangrando e então eu começo a ver aquela maldita criatura nos cantos dos meus olhos, meu Deus aquilo foi real?

Decidi voltar para casa com meu amigo porém, ele estava desaparecido e uma garota começou a correr e gritar que havia encontrado um corpo, eu fiquei assustado e fui ver o corpo, ó céus era o corpo do meu amigo, por que logo ele? Sera que foi aquele monstro? O que eu faço agora?

Sem raciocinar direito eu comecei a correr desesperadamente e acabei batendo a cabeça e desmaiando.

Quando acordei estava no hospital.

Me deparo Policiais entrando na sala me dizendo que havia sido o único sobrevivente da festa.

Agora graças a esse evento trágico tenho que ir no meu terapeuta uma vez por semana

14/12/2011

Hoje fui ao meu terapeuta, ele parecia estar mais estranho do que da última vez, não sei parecia diferente, como se não fosse mais ele, acho que não vou tomar os remédios que ele me passou só por precaução.

21/12/2011

Acabei de chegar em casa da minha consulta com o terapeuta, hoje tive uma certeza de uma coisa que já suspeitava, não era mais ele que estava lá de alguma forma aquele monstro, demônio ou seja lá o que era aquilo, havia possuído ele, como já suspeitava disso peguei e retirei o canivete de meu bolso esfaqueando ele até que suas entranhas estivessem por toda a sala deixei a sala e voltei para casa isso foi a duas horas atrás.

Tem pessoas batendo na porta, acho que é a polícia parecem que já descobriram oque eu fiz, mas se eu explicar oque aconteceu acho que eles vão entender.

13/01/2013

Como é bom sentir o cheiro das folhas do meu caderno novamente, cheira quase como novo ainda, acho que fiquei meio viciado em escrever aqui, foi um inferno esse último ano sem meu caderno, mas depois de tanto pedir eles resolveram que me devolveriam o caderno e uma caneta.

Eu estou preso e sentenciado a pena de morte, mas já estou mais tranquilo visto que tenho meu caderno em mãos.

14/01/2013

Não, não, não.

Eles, eles querem tirar o meu caderno de mim, meu deus.

E eu só queria fazer o bem, aquele cara estava com o demônio dentro dele.

Não, não, não.

Eles não vão nos separar fique tranquilo, eu juro que vou matar qualquer um que tentar roubar você de mim.

17/04/2017

Hoje é o dia marcado para a minha morte, acho que como um ato de piedade eles permitiram que eu escreva no meu caderno.

Mas não vou permitir que eles me levem, afinal ele já está aqui, me chamando.

Pego a gilete escondida no meu colchão que consegui muito facilmente com alguns contatos aqui dentro.

E começo a fazer um corte profundo em meus pulsos, posso sentir o sangue quente correndo pelos meus braços, sujando toda a folha, posso ouvir os passos dos guardas lentamente chegando, e na minha cela parado na minha frente como da primeira vez, parado vejo ele, mas dessa vez com mais clareza que nunca, e então enquanto tudo começa a se apagar posso perceber, aquele que eu chamava de monstro é na verdade a...

Autor: Paulo

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Ataúde

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Era uma noite nublada, o vento respirava vagarosamente, impelindo a última brisa fresca de verão. Os poucos feixes de luar que timidamente atravessavam as nuvens, iluminavam relvas, alamedas e moradas desertas, produzindo outrora – naquele “inocente” cenário – uma morbidez surreal.

Enquanto isso, na pequena ermida fora da cidade. Estava um homem de aparência humilde e sedutoramente penoso. Acorrentado, preso pelos pulsos, tornozelos, pescoço e ombros em uma cadeira de ferro maciço cravada no centro do salão. Toda a pequena população daquela cidade, inclusive o sacerdote, estava sentada em bancos de frente a ele, observando, aguardando... até que começou a falar e estremeceram.

E dizia o seguinte: “ Vós que me convidaram e tão sem delonga me aprisionaram. Seres imundos e desleais, me culpam pelos seus próprios atos. Pois eu afirmo, não padece a mim culpa de nenhuma natureza, não são meus os erros de suas condutas, não são meus os pecados e por deles os resultados de seus julgamentos. Abram os olhos e vejam, sou o juiz, unicamente, dentre todas as nações e entre todos os povos, antes do início e até depois da finitude de todas as coisas, tenho autoridade para tal. ”

O silêncio pairava, nenhum barulho além do chacoalhar das árvores afora fazia presente. E soerguendo a voz continuou:

“Pois escutem, todos vocês, homens, mulheres e crianças, velhos e os que estão para nascer. Em meu nome condeno-lhes e com meu sangue assino, vós e seus descendentes não merecem perdão. Sou pai de todas as dores e delas deriva o meu poder, sou irmão de todas as doenças e com elas me sento a mesa, sou filho de toda maldade e precursor de toda aflição. ”

Olhou para todas as almas presentes e gargalhou, fazendo tremer o chão e as pilastras que sustentava.

“ E vós direi quem sou, e no término a condenação será originada. Porquanto sei o que pretendem fazer comigo; e assim façam, enforque-me distante da cidade, queimem meu corpo e enterrem as cinzas para que minha iniquidade não atinja suas casas e suas plantações. Mas saibam que em nada adiantará, pois são mortais e em mim tal regra não se assume. Jaz incontáveis invernos que não me apetece sentir ou desejar, a fome não me conquista e tanto no dia quanto a noite meus olhos permanecem abertos, a dor que por lamúria escapa das vozes dos que sofrem, a dor que apedreja os desesperados e calaste os pobres, impulsionam minhas pernas imóveis e com braços aberto recolho todas as almas que padecem, que caiem em agonia, e findam sua própria lembrança. Pois sou um ataúde. ”

Dizendo isso, as correntes liquefizeram, levantou-se e singelamente caminhou, tocando com suas mãos gélidas o alto da cabeça de todos os presentes, eles não mais se moviam, porém sentiam – sentiam a dor e o confisco de suas almas; o que estava por vir o que viera antes, o esvair de toda esperança, e pediam chorosamente em pensamento clemencia – mas para elas não teriam absolvição, a condenação jazia entregue. Seus corpos começaram a queimar feridas e vestes aglutinando-se, faces derretidas. O sangue borbulhava e os olhos saltavam das orbitas até que segundos depois eles e suas carcaças viraram cinzas.

Após se retirou e seguiu para a montanha mais alta. Observando, via que a própria ermida e a cidade embaixo queimavam, em totalidade nada restava, desmoronando em nuvens de poeira.

“Oh! Cidade de pecado, tens agora tua salvação, não há mais pecadores nem maldade, é livre, está limpa pelo mesmo fogo que a criaste um dia. As cinzas serão o adubo e serás preenchida de plantas e animais, e nascerá inocente perante ao mundo”

“Tudo que há começo tem um fim, do pó vieste e para o pó retornara. Pois sou um ataúde e todas as coisas me pertencem e delas faço parte. ”

Depois disso desapareceu, não deixando vestígios outrora que alguma alma humana pisara naquele local. E quanto o sol nasceu naquela manhã brilhava como em nenhum outro lugar, as aves cantavam e as plantas floresciam fortes e suntuosas – o adubo creio, fizera bem!

Autor: Antonie.Saguz

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Ele passou dos limites dessa vez, ao tentar castigar os meus pais por não deixar nós dois juntos

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Estava tão solitário e desejando uma companhia quando ele surgiu... Não sei o que viu na minha pessoa, mas pareceu gostar de mim. Ninguém mais se sentia à vontade próximo da minha figura, sentia que todos ficavam aborrecidos, e eu não conseguia fazer nenhum tipo de amigo. Então, um possível companheiro surgiu, bem diferente... isso não tem como deixar de lado, mas parecia ser legal. Sempre deixava um tempo para a gente brincar de alguma coisa que eu gostava, nos divertir e ficar até tarde da noite conversando sobre coisas que me interessavam.

Disse que nós poderíamos ficar juntos e seríamos mais do que amigos - em outras palavras, nós nos tornamos irmãos e teríamos os mesmos pais. No fundo, eu sabia que ele era maléfico, não tinha como não perceber, pois eu gostava de desenhar árvores e animais, e ele fazia o inverso disso, ao rabiscar homens enforcados com os corpos desmembrados, animais sofrendo e sendo torturados. Dava para perceber a excitação nos seus olhos quando ilustrava essas coisas e o quão assustador ficava as suas feições, dobrando os músculos do rosto em frenesi intensa... enquanto pressionava os lápis coloridos no papel com tanta força que, às vezes, chegava a rasgar.

Nós éramos tão diferentes... Como ele pode gostar de mim? Nós nos tornamos irmãos, mas os meus pais apenas notava um e, mesmo assim, eu sempre estava com ele nos meus pensamentos quando acordava, durante o dia e antes de dormir. Eu nunca tive um melhor amigo até o conhecer. Com ele, me sentia seguro e protegido. Tudo parecia que ficaria dessa forma, até que os meus progenitores perceberam a nossa amizade e começaram a interromper as coisas que nós fazíamos diariamente.

Percebia quando a mamãe chegava na porta do nosso quarto, enquanto nós estávamos conversando, e dizia para não falar com coisas que não existem. Permanecia em silêncio apenas observando a sua figura de adulta na porta com o rosto aborrecido, mas, o que realmente me incomodava, era o semblante do meu amigo: os seus olhos cheios de ódio e as suas mãos trincando no braço ao pressionar os seus dedos com tanta raiva... O silêncio gritante pairava no ar terrivelmente medonho quando a sua fisionomia transformava-se em um enigma de repulsa.

Nunca tive certeza se ele começou a ficar ainda mais cruel por conta da maneira dos nossos pais se comportarem ou, simplesmente, se se sentiu à vontade para tentar ser mais frio e manipulador do que já era há um tempo. Eu tentava ler histórias em quadrinhos, e ele dizia que tudo isso era mentira, que os homens são as piores coisas do mundo e que necessitava ser um monstro ainda pior do que eles. Quando pronunciava estas palavras, me causava um frio e um medo acima do que qualquer coisa que eu já experimentei; contudo, no seu rosto estava uma expressão gentil olhando para mim. Nesse momento, após expulsar barbaridades dos seus lábios, parecia amenizar o horror das suas palavras enquanto estava deitado ao meu lado.

A sua parte mais humana era quando estava dormindo. Eu sabia que, neste momento, ele não era um monstro, e eu ficava vislumbrando o seu corpo. Mesmo que eu não conseguisse dormir, por conta do gato que ficava todas as noites em cima de um muro fazendo barulhos. As coisas parecem que não ficaram por aí, pois, certa noite, ele acordou e perguntou por que eu sempre estava acordado, e eu disse sobre o felino... As minhas palavras se mostraram tão inocentes, que eu demorei para concluir que eu fiz a pior coisa do mundo. Apesar de não gostar daquele animal, eu não esperava que ele fosse vítima do meu irmão - o meu amigo.

Percebi que na noite seguinte o gato não estava fazendo barulhos estranhos próximo da janela. Quando perguntei sobre o felino, ele caçoou e disse que estava tudo bem. Eu fiquei preocupado com o animal e levantei durante a madrugada para encontrar, na casa vizinha, onde morava dois velhos, o animal crucificado. A imagem foi tão aterrorizante, que eu quase enlouqueci. Suas pequenas patas estavam presas e os seus pés juntos, com vários vermes comendo o animal. O bichano, com certeza, foi torturado até a morte. O seu corpo estava pintado com um líquido um pouco laranja-escuro e os seus pelos congelados. As larvas dançando naquela carnificina animal...

Eu não esperava que as coisas pudessem ficar piores, até que disse que não tinha graça desenhar coisas ruins, falar palavras assustadoras enquanto eu ficava apavorado, nem descrever coisas medonhas que tinha vontade de fazer. A sua diversão perversa foi de encontro com os nossos pais e ele fazia o máximo para causar brigas horrorosas na nossa família. Eu sempre observava quando estava dizendo mentiras nos ouvidos do meu pai sobre minha mãe com o vizinho e as várias coisas que dizia para ela que o papai fazia enquanto nos buscavam no colégio: a maneira que ele olhava para as mães dos meus amigos. Isso causava uma histeria doentia de confusões o dia todo.

Só precisou os meus genitores perceberem que as brigas eram por causa dele, da nossa amizade, e decidiram contratar um psicológico. O doutor sempre dizia coisas estranhas sobre nossa amizade e o quanto estava fazendo mal para os meus pais. Depois das consultas, eles passaram a controlar os nossos comportamentos, fazendo de tudo para nós não conversarmos como antes. Isso causou tanta fúria na sua pessoa, que eu estava esperando a sua resposta ser a mais terrível de todas, e foi o que aconteceu nessa noite: ele passou dos limites ao castigar os meus pais.

Percebi quando colocou um pouco de um líquido no café dos meus pais, e eles foram juntos dormir, por causa do cansaço. Durante esta madrugada, despertei com barulhos apavorantes vindos do quarto dos meus progenitores e entrei... Ao abrir a porta, vi quando ele estava esfaqueando os seus corpos presos por cordas. O sangue estava sendo arremessado para cima e para baixo, pintando os seus membros enquanto se contorciam por conta das cordas serrando as suas peles em carne viva, e o som era nauseante. O seu riso assustador, no seu rosto, enquanto pressionava aquele objeto nos seus membros destorcidos e ensanguentados, causava-me um arrepio gélido. Dava para ouvir o barulho da carne se dobrando em fatias com a frequência infinita que movimentava a sua mão.

"Agora, eles não vão mais nos incomodar, eu estou certo?". Eu senti o vento saindo da sua boca e cortando todo o meu corpo, em todos os centímetros que minha mente poderia imaginar do meu próprio físico. Ele tentou repetir mais uma vez, só que com um pouco mais de selvageria na sua boca. A sua violência foi interrompida com a porta atrás de mim, que foi arrombada: dois vizinhos entraram, por conta dos barulhos de agonia dos meus pais, e observaram a cena toda. Um deles estava segurando o celular enquanto começou a tremer, chicoteando o aparelho no seu ouvido. Certamente, estava ligando para polícia e correu na direção de nós dois, agarrando a besta enlouquecida. Eu fiquei observando tudo enquanto eles estavam espremendo o corpo dele com tanta força para imobilizar, que quase quebraram os seus ossos. A voz do homem alto gaguejou na chamada de socorro, dizendo que o filho matou os seus pais enquanto dormiam.

Eu observei quando a casa ficou repleta de agentes, pessoas curiosas do lado de fora e luzes piscando de maneira incansável surgindo das viaturas. Os vi levando o meu amigo sobre custódia, e eu me senti solitário mais uma vez por depositar minha confiança em um suposto companheiro. Os investigadores nunca souberam as coisas que eu presenciei e nunca conseguiram explicar para ninguém como a criança e filho único pôde matar os seus pais sem nenhum motivo. A história que eles dizem sobre o "bicho-papão", não é nada além do que a própria criatura horrorosa que existe dentro dos humanos. Eu sempre estou observando todos embaixo das camas, dentro dos armários que ficam entreabertos, ou nos corredores escuros das casas quando alguém se levanta para tomar água. Me sinto isolado, pois a minha aparência é uma coisa realmente apavorante para os humanos, em razão de os seus olhos inflamarem em seus rostos - é uma coisa que não dar para esquecer. Apesar de tudo, sei que existe algo pior do que isso, é uma coisa que eles nunca percebem, até ser tarde demais.

Autor: Sinistro

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Você acredita em Deus?

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Recebi uma proposta da empresa onde eu trabalhava há uns anos atrás para me tornar o responsável pela nova unidade em uma cidade de Minas Gerais (não pretendo dizer o nome dessa cidade), mas para isso eu precisaria me mudar para lá. Aceitei a proposta sem pensar duas vezes, ora! Afinal, não há muita coisa a se perder em São Paulo quando se tem 25 anos e nenhuma proximidade com a família.

A cidade era bem pacata, tanto que como nascido e criado paulista, me surpreendi em poder sair tranquilamente de madrugada sem medo de ser assaltado e voltar a ver as crianças brincando na rua. Minha nova casa era pequena porém aconchegante aos meus olhos, e todo aquele clima fazia sentir-me de volta aos anos 90. Resumindo, tudo corria perfeitamente bem.
Após um dia cansativo de trabalho, um dos funcionários estava fazendo aniversário e todos resolveram comemorar em um bar da localidade. Me convidaram, e vendo como uma forma de conhece-los melhor, resolvi ir junto.

Era um lugar bem frequentado apenas pelos homens da cidade, ao que parecia, e tinha um cheiro característico de vômito e cachaça. A iluminação era quase inexistente e amarelada, mas os posteres de mulheres nuas por todos os cantos eram quase impossíveis de passarem despercebidos. Tomamos uns goles de vários tipos de bebidas e começamos a conversar sobre assuntos aleatórios. Carlos, o mais falante e o aniversariante também, se mostrava o mais disposto a se enturmar comigo. Não sou o tipo de pessoa que julga pela aparência mas o cara era realmente estranho. Era um homem baixo, sua coluna era completamente curvada e seu biotipo esquelético conseguia ressaltar todos os seus ossos, tanto a barba quanto o cabelo enormes e parecia que seu último banho tinha sido há anos atrás. Porém, o que mais me assustava eram seus olhos... Eram como se toda a maldade do mundo estivesse naqueles olhos semelhantes ao de serpente. A minha sorte era o enorme chapéu de palha que ele usava e me livrava muitas vezes de contato visual.
Ouvi piadinhas sobre eu ser o chefe e o mais novo entre todos eles, ouvi histórias sobre as esposas... Esse tipo de coisa que parecia indispensável para a ocasião. Até que o assunto se levou para religião.

— Então, patrão... O senhor acredita em Deus? –Carlos me perguntou enquanto os outros mudavam de assunto e não prestavam a atenção em nós.

— Não, mas respeito todas as religiões. –Eu respondi querendo encerrar logo a conversa. Não era meu assunto favorito e queria os olhos de Carlos longe de mim.

— Pois deveria acreditar.

Ele deu uma risada mínima debochada, pegou uma faca que todos estavam utilizando para abrir castanhas e naquele momento eu congelei. Aqueles olhos doentios estavam completamente focados em mim e não havia o mínimo de brilho, mesmo que ele olhasse para a luz. Eu podia jurar que ele estava me ameaçando só com aquilo. Me levantei em praticamente um pulo, disse para todos que tinha assuntos para resolver em casa e fui embora o mais rápido que pude. Nessa pressa toda, apenas em casa percebi ter esquecido minha jaqueta no bar.

Mas na hora não fazia mais diferença, pelo menos eu tinha saído dali. Fui tomar um banho gelado e me convencia que o acontecido tinha sido coisa da minha cabeça, quando escutei baterem na porta do banheiro. Batidas fortes e estrondosas, que conseguiam estremecer toda a porta.

Me troquei o mais rápido que pude e abri a porta em seguida, com o pensamento de "se for pra eu morrer agora não tem muito o que fazer, vou me defender com o que contra alguém armado?", mas para minha surpresa não tinha ninguém ali. Peguei uma faca na cozinha e olhei nos cômodos se não tinha ninguém mesmo, mas nem algum rastro havia. A porta principal estava trancada e as janelas intactas.

Já estava começando a duvidar da minha sanidade então fui logo dormir, coloquei a culpa na bebida e deixei a faca embaixo do travesseiro caso realmente houvesse algo. Eu tinha o hábito de dormir de barriga pra baixo mas como o sono não aparecia de jeito nenhum, resolvi me virar e ficar de frente para o teto. A visão que eu vi nunca vai sair da minha cabeça.

Um ser completamente escuro e gigantesco estava agarrado no teto com suas unhas pontiagudas me observando, e quando percebeu que eu o notei, retorceu o pescoço para me olhar nos olhos e deu um sorriso que rasgou todo seu rosto. Parecia gostar e se satisfazer de me mostrar aquelas centenas de dentes pontiagudos como os de tubarões. 

Eu não conseguia mover um músculo mesmo que tentasse com todas as minhas forças, nunca senti tanto medo em minha vida. A criatura rangia os dentes e se contorcia pelo teto, enquanto os ossos de sua coluna rasgavam aquela pele obscura e fazia pingar um líquido negro que cheirava a enxofre de seu interior.

Quando aquilo se desprendeu do teto e veio rastejando rapidamente em minha direção, pude sentir meu coração disparar ainda mais. Ela me observava quando de repente vomitou um parasita no chão, que agonizava e se contorcia. A criatura pegou em sua mão o parasita, que se parecia com uma larva com uma cabeça que suportava apenas sua boca enorme cheia de milhares de pequenos dentes.
Eu já não prestava mais atenção em muita coisa além de tentar sair dali, mas era inútil. Aquele enorme ser abriu meu estômago com sua unha enquanto eu só pude escutar o som da minha pele se rasgando e ver meus órgãos ficarem expostos. Tudo doía como se aquilo nunca tivesse fim, eu só desejava a morte.

A criatura colocou o parasita dentro dos meus órgãos e naquele momento eu acordei. Não pude acreditar que tudo aquilo foi um sonho, estava suando frio e a vontade de vomitar me consumia. Já tinha amanhecido e o Sol iluminava manchas de um líquido negro no chão.

Passou-se um tempo desde o ocorrido e meu mal-estar era constante, sempre sentia dores no estômago. Eu observava Carlos pelos corredores da empresa e só conseguia ver a criatura toda vez que ele passava, se contorcendo e as costas com ossos expostos.
Resolvi ir no médico fazer exames de rotina por conta das dores e depois de algumas semanas fui chamado para conversar. Já pressenti que algo não estava bem, no mínimo os exames detectaram algum problema no cérebro de tantos delírios que tive. Estava frente a frente com o médico e ele parecia inquieto.

— Você acredita em Deus? – Ele perguntou com uma expressão que eu descreveria como pena.

— Não. –Dessa vez eu estava convicto de minhas palavras, e se existisse algo de superior, isso só poderia ser do mal.

— ... Bem, se apegue em outras coisas, então. Tenho más notícias –Ele disse passando os dedos pelos papeis.

Câncer de estômago avançado. Era isso que ele queria me notificar e foi a única coisa na qual prestei atenção. Enquanto ele falava em quanto tempo eu poderia durar e métodos para tentar tratar, eu só conseguia pensar no que era aquela criatura. Meu cérebro me alertando sobre a doença? Delírios? Alguma coisa realmente ruim e sobrenatural?

Bem, ninguém poderia me dar respostas, no mínimo me chamariam de louco. Logo depois da consulta fui até a empresa mandar e-mails ao meu superior em São Paulo sobre o ocorrido, avisar sobre minha demissão por conta da doença. No dia seguinte ele veio se lamentar e nomear o próximo responsável pelo meu cargo.

Carlos foi nomeado depois de muita enrolação e todos fizeram praticamente uma festa, o jogando pra cima. Naquele momento apenas consegui ver o líquido negro pingando e sentir o cheiro de enxofre se tornar forte.

Autora: Lilith

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Esquina

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O horário que você coloca suas crianças na cama é o mesmo horário que vou trabalhar. Os primeiros raios de Sol que aparecem no horizonte indicam o momento de voltar para casa. Trabalho onde os cidadãos de bem não ousariam colocar o pé, exceto se viessem às escondidas. Sou julgada por muitos pelo meu emprego, porém eu gosto dele, contanto que ninguém saiba o que eu realmente faça.

Meu ponto preferido é uma esquina, debaixo de uma ponte. Alguns mendigos dormem por perto, mas eles não me incomodam, são apenas pessoas excluídas. A roupa curta se tornou chamativa, contudo, o salto alto me importuna em alguns casos. O frio é suportável e o som do vento é relaxante. Do outro lado rua, existem outras como eu, apenas conversando e buscando dinheiro.

Espera! Um carro branco e grande se aproxima, o motorista parece charmoso. No primeiro contato visual, ele parece um homem buscando diversão que não tem medo das consequências, ou seja, meramente um jovem. Suas roupas me dizem que ele possui muito dinheiro em sua conta bancária, logo, aceitei esse meu cliente de bom grado.

Após voltar para o meu ponto, percebi que o garoto foi uma boa distração, mas ainda não é o homem que eu procuro. De pé, durante uma hora inteira, o cansaço dominou o meu corpo – eu não posso fazer um trabalho eficaz quando estou exausta – sentei em um banco, perto dos moradores de rua e das outras mulheres. Foi neste momento que ele apareceu, o homem que eu esperava ansiosamente.

O carro preto, com vidros cobertos de insufilm estacionou ao meu lado. Levantei e sorri. O homem parecia ter cerca de trinta anos, logo, maturidade. Ele fez um sinal para que entrasse no veículo, parecia ser convidativo. Aceitei e fomos para um motel barato bem perto.

Este motel por sua vez, parecia esquecido, tinha um total de sete quartos, um ao lado do outro, mas apenas um cômodo estava com a luz acesa. Fomos para o último quarto do corredor, que tinha uma vista para rua. O local era imundo e tinha um odor que poucas pessoas poderiam reconhecer.

- Interessante, o que é tudo isso? – perguntei ao meu parceiro.

No mesmo instante, senti uma pancada extremamente forte em minha cabeça e simplesmente apaguei.

Meus olhos abriram-se devagar, a dor era parecida como um martelo no meu cérebro. Quando fui me levantar, descobri que minhas mãos e meus pés estavam amarrados em uma cadeira, eu estava completamente imóvel. Ao olhar para frente, observei o homem, sentado, com um pé de cabra na mão e seus olhos transbordavam ódio.

Voltei minha atenção para o que eu tinha achado de interessante. Havia recortes de jornais por todos os lados, sobre notícias de desaparecimentos de mendigos, ciganos e prostitutas. Armas e objetos cortantes eram visíveis. Entretanto, em uma cômoda perto da janela, encontrava-se uma foto de uma mulher, com traços idênticos aos meus.

O homem levantou-se furioso, jogou o pé de cabra na direção da janela e pegou uma faca enorme. Ele transpirava, seu rosto estava vermelho e suas mãos tremiam. De repente parou na minha frente, disse:

- Vocês destruíram a minha vida! Vocês são nojentos, imundos e se tornaram um erro na sociedade. A cidade deve ser um lugar preservado e limpo, mas vocês conseguem estragar tudo isso! Eu como pessoa ativa na comunidade, tenho o compromisso de eliminar cada um de vocês.

Eu sabia que tinha escolhido o cara certo – nunca cometi um erro – enquanto ele cuspia aquelas palavras repulsivas, tirei o canivete que estava no lado direito do meu shorts – foi difícil já que as minhas mãos estavam amarradas – como estava perto da cintura, consegui levar ele até a minha mão direita. Comecei a cortar a corda desesperadamente. Ele falava de costas, admirando os recortes colados na parede, típico de um narcisista.

Ao virar novamente, ele se deparou comigo, cortando a última corda que prendia o meu pé. Como um leão faminto, ele pulou e tentou me agarrar, entretanto caí para o lado e consegui me soltar. Fui correndo até pegar o pé de cabra, que ao me virar, atingi a cabeça dele. Seguindo minha intuição, eu o agredi inúmeras vezes, até que caísse morto na minha frente.

Imediatamente fui em direção dos jornais e arranquei todos da parede. Mesmo que ninguém se lembrasse daquelas pessoas, sinto que é o meu dever levar as manchetes para a delegacia. Vocês poderiam se impressionar com tantos homens que desejam fazer a varredura, eliminado os mais pobres, entretanto, estou aqui para impedi-los. Meu trabalho é varrer da sociedade quem faz a varredura.

Ao sair do motel, cansada, coloquei os papéis em uma bolsa que encontrei no quarto. Em seguida, voltei para a esquina que fica debaixo da ponte e entreguei a bolsa para um dos mendigos que me ajudava. Recuperei-me e fiquei ali parada, apenas esperando a minha próxima vítima.

Autora: Marina Teixeira

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Battle City

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O ano exato eu não lembro, mas foi nos anos 90. Meu pai, o gamer da família, comprou um Famicom original (embora na minha memória o console fosse branco e dourado, não vermelho). Já tínhamos famiclones e cartuchos, mas não sabíamos que eram os mesmos jogos, então ele trouxe um novo original da loja. Lembro até hoje de desembalarmos o plástico bolha e plugarmos a fita amarela no console.

Battle City. Meu pai e eu sentávamos na beira do sofá, com a brisa úmida que entrava pela porta aberta em dias nublados, e jogávamos o jogo do tanquinho até a mão doer!

Eu jogava bem mais, pois tinha as tardes livres quando criança. Mas, assim como o Famicom era diferente em minhas memórias, o Battle City que me lembro quando jogava de um player era bem diferente das roms que encontro hoje na internet.

As primeiras fases ainda consigo lembrar de serem iguais, ainda mais porque meus pais quando as veem nos emuladores comentam coisas que viam nos gráficos, especialmente uma que parece um cara de gorro que chamam de Gorfo (sei lá quem é). Mas lembro vagamente de coisas além.

Havia um powerup que nunca encontrei nas roms, que era uma gotinha que permitia o tanque passar na água (mais ou menos como o barquinho que tem no Tank 1990). Também lembro de ser capaz de destruir as plantas verdes quando pegava mais de três estrelinhas (não consigo isso nas roms, mas vi que tem isso no Tank 1990, o que me faz pensar que essa versão foi feita por pessoas que também viram esses powerups daquele Battle City original).

Algo que não vi em nenhuma rom foi um supertiro, apenas um destruía tudo pelo caminho até bater na parede da arena. Esse é só um dos vários powerups que não encontrei.

Outro era uma asinha, como de avião, que permitia o tanque passar sobre tudo, inclusive tijolos e pedras. Esse era perigoso, pois se passasse sobre a fênix ela morria.

Falando na fênix, lembro que em algumas fases ela parecia piscar o pixel do olho quando haviam muitos tanques ao meu redor, e então mesmo sem acertar um dos que piscavam rosa, aparecia um powerup para pegar. A fênix era muito mais inteligente e amiga nas minhas memórias.

Nessas vezes que haviam muitos inimigos na tela, o jogo parecia bugar, pois meu tanque também piscava rosa, e se tomasse um tiro, dropava um powerup aleatório que até os inimigos podiam pegar. Esse era um dos desafios mais legais do jogo, por que não existe mais?

A cada fase o negócio dificultava. Lá pela 60 (isso de madrugada, meus olhos ardendo, meu pai dormindo) os tanques ficavam mais rápidos (ou eu estava cansado?), e alguns atiravam até para trás. Mais fases depois até para os lados atiravam, e haviam outros modelos de tanques. A tela pós-arena comportava mais de quatro tipos para dar o bônus, então devia ser normal.

Nessa tela de bônus após as fases que a águia me ajudava, aparecia um THANK YOU debaixo do total. Não sabia se era ela me agradecendo ou vice-versa. Só queria jogar mais.

Mas cheguei num nível tão difícil, passava do 130, que os tanques me fechavam de um jeito… parecia um bullet hell! Haviam linhas de pedras brancas abertas só pelos cantos e outros elementos espalhados entre elas. Não tinha muito para onde correr. A fênix piscava e jogava vários powerups, mas eu estava tão encurralado que mal chegava perto deles.

Enquanto alguns tanques pesadões me fechavam e tiravam algumas das dez vidas que conquistei no jogo até ali, outros iam pelo outro lado e chegavam perto da fênix. Mesmo com o tiro mais fraco consegui abrir um caminho para pegar o powerup que criava uma barreira temporária de pedras, mas eu tinha que chegar lá embaixo antes que ela sumisse e as peruinhas matassem a fênix. Os tanques me seguiam (pareciam mais inteligentes), e a fênix me deu alguns powerups no caminho. Apesar da arena pequena de 13x13, nessa fase pareceu uma viagem e tanto. Consegui o tiro médio, podendo soltar dois por vez. Chegava perto da concentração de peruinhas e tanques quando a fênix me deu o powerup da asinha, de passar por cima de tudo. Nessa jogatina que conheci esse powerup.

Já não haviam mais tanques para aparecer, nenhum ícone na lateral direita, mas continuavam surgindo tanques. A tela estava flickando, o coitado do Famicom não suportava tantos sprites. Os tanques novos iam pelo outro lado. Não daria tempo de dar a volta. Eu achava que a asa me faria voar, então depois de destruir os tanques desse lado, quebrei com cuidado a parede do lado da fênix e passei sobre ela para chegar ao outro lado, quebrar a parede também e matar os outros tanques. Mas ao passar sobre a águia, ela explodiu. Foi diferente de um game over comum, pois a tela toda piscou, o fundo preto em vermelho, e o som da explosão foi tão alto que pulei para trás e quase puxei o console junto!

Subiu o texto GAME OVER e, após a contagem de pontos, a tela ficou preta em vez de aparecer o mesmo texto escrito com tijolos. No lugar, veio o texto WHY? com pedras brancas, sobre a fênix morta, e mesmo morta ela piscou. Após um estridente grito agudo de 8 bits, voltou para a tela de início.

Talvez não seja uma coisa grande, mas aquela madrugada eu não esperava ver tudo isso. Depois daquilo preferi jogar Rockman e Super Mario Bros mesmo. Ficou tão marcado, pelo inesperado eu acho, que ainda caço roms pela internet em busca daquela versão que joguei, mas nunca mais consegui.

O Tank 1990 não tem nem metade de tudo que vi naquele Battle City original. Se alguém tiver essa rom, manda pra mim. Valeu.

Autor: Andrew S. Leist

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O final da Terceira Guerra Mundial deixou consequências graves

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A noite parecia que se tornava cada vez mais silenciosa. A casa estava escura, mas com iluminação necessária para que eu não tropeçasse em nenhum móvel, e o sofá era o que eu precisava para descansar os meus pés pesados, a programação continuava falando sobre a paz e o fim da guerra. Todos estavam felizes porque já havia acontecido muitas mortes, porém, as consequências das bombas atômicas - como seus efeitos, que até hoje estão deteriorando cada país que participou ou se envolveu, não diminuiu. A angústia nos olhos dos apresentadores tenta diminuir o pavor. Então, mais uma notícia apareceu, essas que costumam chegar a cada momento do dia, tanto no rádio quanto na televisão e até nas publicações de papel, falando sobre os efeitos dos explosivos atômicos, que cada vez parecem ficar mais mordaz.

"Últimas notícias e novidades sobre a nova doença sem controle: tenham cuidado com todos os membros da família, esses que apresentaram algum comportamento agressivo. De acordo com as informações, o último estágio é matar os seus filhos e depois os seus companheiros." - palavras do jornal semana passada, exibido durante o período da manhã.

"Os infectados costumam reclamar que estão vendo borboletas voando e, de acordo com os exames dos corpos das vítimas e agressores, os contaminados tiveram seu sangue transformado em uma pasta doce que atrai borboletas, como se fosse alimento. Elas sempre estarão acompanhando quem está sobre esse tormento." - notícia do início da semana em rádios frenéticas com as perdas que não param e ataques frequentes.

"Jornal Nacional das sete horas da noite. De acordo com as informações, os agressores estão sentindo uma fome feroz por carne; qualquer tipo de carne, tanto animal como humana. Esse é um comportamento bem típico de infectados. Nessas circunstâncias, em caso de algo semelhante, comuniquem às autoridades o mais rápido possível e se escondam com seus filhos. O mesmo serve para as crianças que estão assistindo, se observarem algo com seus progenitores. Canibalismo está aumentando antes das mortes e depois... Desejo boa sorte para todos e que Deus esteja com vocês!" - William Bonner tenta segurar as emoções, ao falar as notícias às oito horas da noite, antes que a programação ficasse em estática.

As crianças estão brincando no water-closet, dentro da banheira, e pediram para permanecer mais um pouco. Como uma boa mãe, deixei, pois não queria que ficassem mais tristes por causa do sumiço do seu pai, o meu marido. Desliguei a televisão, já que estava começando a falar mais uma vez sobre a trégua dos Estados Unidos e Irã. Hoje o dia foi muito calmo, e a única coisa que desejo é dormir, mas sempre fico até tarde das horas aguardando ele chegar. Minha preocupação maior sempre são as crianças, faço de tudo para que fiquem felizes e não saibam das coisas que estão acontecendo pelo mundo. Não é fácil você inventar uma desculpa cada hora do dia para os seus olhos inocentes e desejando o progenitor de volta.

Estava distraída, observando que eu precisava trocar o papel de parede de casa, e fiquei navegando na internet para vislumbrar preços baixos. A maioria das pessoas não cobrariam caro por, conta das mortes, e qualquer um trabalharia de graça para ter pelo menos o que comer. Fechei o navegador e desliguei o tablet, já fiquei tempo demais na sala e precisava ver como é que as crianças estavam no banheiro. Quando cheguei, observei que o meu filho, Rain, com seus oito anos, e a, Lee, com os seus onze, estavam dando tapas na água e brincando com patinho de borracha marrom. Eles ficaram tristonhos quando me viram, e eu disse que daria mais dez minutos antes que fossem dormir.

O tempo que eu dei para eles seria o necessário para lavar as louças e preparar as suas camas confortáveis e quentes para essa noite rotineira. Os meus passos foram ficando pesados e eu não estava me sentindo muito bem, com a sensação estranha de perigo. Pois, enquanto caminhava, estava ouvindo barulhos vindo da cozinha. Caminhei mais um pouco para perceber que a porta dos fundos foi aberta. Sei muito bem disso, sem precisar chegar até lá, dado que conheço o som e a sensação de arrepio nos meus joelhos quando a porta encontra-se arreganhada - dá, também, para ouvir a brisa sendo jogada dentro do imóvel e uivando como um lobo.

Cheguei até à cozinha para observar a carne espalhada por todas as partes, vindo da geladeira, e os seus pés, desequilibrados, pisando em cima dela. Ele estava espalhando todas as gavetas, derrubando as cadeiras e procurando algo. Eu vi o meu marido depois de quase dois dias sumido, este estava evitando falar comigo, mas era evidente que já tinha notado a minha presença, quando fiquei parada, apenas o observando e sem dizer nenhuma sentença. Várias coisas ficaram na minha cabeça e eu não sabia o que fazer diante da situação. Amarrada nesta circunstância, os meus lábios se tornaram tentadores para dizer algo simples:

- Amor, onde você esteve por tanto tempo? - em cada segundo que eu juntava as palavras na minha língua, ficavam pesadas e trêmulas, ao enxergar a atmosfera tenebrosa se envolvendo diante do seu comportamento incomum.

- Cadê a droga dos meus filhos!? Que merda de borboletas são essas invadindo a minha casa? Não quero perguntar por uma segunda vez, senão terei que lhe machucar! - o seu hábito ficou mais agressivo e ele começou a puxar as gavetas jogando-as nos seus pés e destruindo o assoalho. Eu fiquei mais nervosa e os meus membros começaram a tremer. Sei que a situação aparente diz uma coisa, mas minha cabeça quer acreditar em outra.

- Sua cachorra! O que você fez com as facas? Eu preciso de uma delas e irei ver os meus filhos! É melhor você não me esconder nada! Não aguento mais essas borboletas, estão deixando-me louco! - ele estava arrancando todas as gavetas do balcão multimóveis linea, abriu a geladeira onde estava todos os alimentos. Eu sabia que o seu único objetivo era vir na minha direção e dos nossos filhos inocentes no water-closet.

- Você não vai encostar em mim, nem nos meus filhos! É melhor sair o mais rápido possível, porque eu vou chamar a polícia e não vai desejar isso, nem eu quero. Por favor, nos deixa em paz... Você não é o meu marido e nem o pai das minhas crianças! - desde que nós nos casamos, eu nunca disse que guardava uma arma na caixa de sapatos, dentro dos presentes do meu pai falecido. Ele se aproximou, pronto para me atacar, e disparei três vezes no seu peito, fazendo-o cair no chão atormentando pela histeria.

As minhas mãos permaneceram apontadas na mesma direção que eu disparei quando ele estava em pé. Eu nunca havia matado ninguém e nem brigado com meu marido desde que nós nos casamos. Larguei o ferro no chão, e o seu cano estava fumaçando por conta da pólvora e a poeira seca. Respirou por alguns segundos até se entregar aos ferimentos no peito. Antes de mais nada, fiquei preocupada com os garotos e fui ao banheiro para encontrar os dois em paz. Me ajoelhei na banheira e acariciei os seus cabelos dizendo que tudo estava bem.

Eles disseram que queriam ficar um pouco mais dentro da água, mesmo que os seus dedos estivessem muito enrugados e os seus corpos inchandos por causa do fluído plácido. Eu estava sendo apenas uma mãe boa e fiquei a maior parte do tempo na sala, assistindo televisão, enquanto estava com fome, tanta fome que eu seria capaz de fazer qualquer coisa para preencher o vazio em mim. Continuei preocupada com os lábios inchados e roxos dos meninos e coloquei um pouco de batom hidratante, os seus olhos estavam muito abertos e brancos. Apesar da diversão com consequências, eles ficaram insistindo e deixei mais um pouco. Já estavam há quase dois dias na banheira e não paravam de insistir. Eu estou com frio, mas as borboletas aquecem o meu corpo e eu tento ser uma protetora e boa mãe...

Autor: Sinistro

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A Coisa

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Você está em sua casa e é uma noite bastante fria. Vai ao quarto e aproxima-se da velha cama. Antes de chegar à cama, nota que algo está vindo ao seu quarto... Você sabe que mora sozinho nessa casa faz muitos anos, muitíssimos anos... Mas algo está se aproximando de você, da cama! Se esconde, o cobertor é um escudo e a falta de luz é mais um obstáculo para que aquilo não lhe pegue, mas não adianta, porque você não tem plano de fugir. Fica apenas observando enquanto aquilo passeia dentro do quarto escuro. Não há eletricidade, possivelmente é falha por conta da chuva.

Não consegue controlar o seu corpo porque sabe que está com muito medo, sempre teve medo dessas coisas, mas nunca teve coragem de enfrentá-las. Sabia que mais cedo ou mais tarde uma das coisas irá lhe ver e, o que vai acontecer depois disso, ninguém sabe... A coisa fica caminhando dentro do quarto, mas não liga uma lanterna ou acende uma vela. Aproxima-se de uma mesa e pega algo. Você não consegue se mexer e não consegue falar, apenas fica observando aquilo.

Uma adrenalina de medo e tensão começam a deixar você trêmulo, sabe que precisa fazer algo antes que seja tarde demais. Aquilo é uma das coisas que você mais teve medo desde o início da sua existência, sabe que aquilo não deveria está dentro da sua velha casa que você herdou de gerações, tem que fazer algo! Não pode deixar ser dominado pelo medo. Então, você finalmente tem coragem e vai esperar aquilo se aproximar suficiente e ficar distraído para quê faça algo.

Você saiu debaixo da cama onde esteve sempre escondido por vários meses e começa a caminhar, no escuro, despercebido como sempre foi. A coisa não percebeu a sua aproximação. Então, você caminha devagar, lentamente. A casa está escura, quando você se prepara para correr, para que possa atacar aquilo antes que seja notado: a janela do quarto abre por causa da tempestade e ilumina todo lugar. Nesse momento, a coisa olha para você e você olha para ela.

O tempo parece parar, ficando você e ele um olhando para o outro. Os olhos arregalados e a adrenalina fluindo de uma forma tão intensa que você não consegue controlar a sua própria respiração.

O seu medo é substituído por uma sede de sangue, você se torna extremamente sedento por sangue. O seu corpo trêmulo, começa a endurecer e você trinca os dentes, fechado as mãos com vontade de esmagar aquilo. A coisa fica imóvel, sem conseguir correr e nem se mexer, mas ele também está preparado para lhe atacar. Então, você faz o primeiro movimento, indo em direção àquilo, pronto para matar e morrer. Você é mais ágil e forte. Ele dá socos em seu rosto, mas você é bem mais forte, joga-lo contra a parede e ele se levanta tentando correr. Você o agarra, novamente, apertando o seu pescoço enquanto a coisa começa a ficar fraca e vai perdendo as suas forças e arrefecendo em seus braços.

Você observa o corpo daquele homem sem vida ao chão, e sabe que ele não é o primeiro que virá morar em sua casa. Você sabe que a família é construída por 5 pessoas: dois adultos e três crianças. Sabe que na manhã seguinte, eles chegaram porque que estavam fora e terá que matar todos para que você tenha sua casa novamente para você. Então, esconde o corpo do homem dentro da própria casa e fica embaixo da cama, aguardando escurecer. Sabe que essa é a hora melhor para que possa matar os invasores.

Autor: Sinistro

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Exploração

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Vou contar o que aconteceu a mais ou menos 2 anos atrás comigo e meu amigo Andy.

Primeiramente, quero dizer que não estou aqui para ser julgado, acreditem, nesse tempo que passou e os traumas do que aconteceu, já são punição o suficiente.

Andy tinha 26 anos na época, sempre foi do tipo aventureiro, extrovertido, chamava a atenção por onde passava, eu, por outro lado sempre fui mais retraído e nem tão animado assim com aventuras. Talvez por isso dávamos tão certo.

Não sei dizer quando começou, mas meu amigo tinha descoberto uma nova paixão: Cavernas. E convenhamos que aqui no Arizona, isso não é problema. Basicamente o que Andy fazia era arrumar sua mochila e ir explorar cavernas, sejam elas conhecidas ou não.

Fui em algumas de suas explorações, mesmo confessando que não sou fã de lugares apertados. Já estiveram em alguma caverna antes? Por mais belas que sejam, a sensação de impotência por estar entre paredes de rochas maciça nunca me agradou muito, mas não para Andy, pelo contrário, adorava se esgueirar por buracos apertados e descobrir novas localidades.

Uma vez quando estava com ele, descobrimos uma enorme caverna, era gigantesca, eu nunca havia visto nada daquele tamanho, e por mais que não me sentisse confortável, eu conseguia entender o porquê de alguém gostar dessas explorações, na maioria das vezes a surpresa é de cair o queixo.

Na maioria das vezes.

Digo isso pois assim como lugares belos e magníficos, também encontramos lugares estranhos, paredes com pinturas mais antigas do que eu possa imaginar era um achado interessante, assim como já vimos algumas pilhas de ossos em interiores de cavernas. Normal se pensarmos que poderia ser algum predador ou algo do tipo, mas alguns lugares simplesmente não tem como predador algum chegar, então como aqueles ossos estavam lá eu não sei dizer, mas estavam.

Estou contando isso porque quero que entendam que eu era acostumado com essas descobertas e entrar em lugares não muito convidativos, principalmente quando se tinha Andy para te motivar, acreditem, ele era persuasivo, eu já não o questionava mais.

Certo dia ele veio até minha casa empolgado, estava com suas botas, shorts, uma camisa vermelha, trazia consigo sua mochila e o MP3 que sempre carregava, costumava ligá-lo ao máximo dentro das cavernas, o som amplificava de forma incrível, e eu já sabia o que Andy queria.

- John, se arruma, eu descobri um lugar e cara, você precisa ver

- Uh... Andy, são cinco da manhã

- E desde quando tem hora para ir ver algo incrível?

Não é difícil de supor que mesmo relutante, acabei topando. Subimos na minha velha pickup azul e fomos para onde seja lá que Andy queria me levar. Ele foi falando o caminho, após mais ou menos duas horas dirigindo para o que parecia ser o nada, chegamos em um local com algumas pedras, digamos que não havia nada demais nesse local, mas como já havia aprendido, a surpresa se encontra no subsolo; Chequei no meu GPS, estávamos a mais de sessenta quilômetros de qualquer civilização. Ótimo - pensei - era assim que queria passar meu sábado.

Conferi meu equipamento e entramos por um buraco de não mais um metro e meio de largura por sessenta centímetros de altura. Tivemos de rastejar, claro, não é muito agradável mas fazia parte da "diversão".

Ficamos nisso por mais ou menos quinze minutos, "vai valer a pena cara, confie em mim" dizia meu amigo, eu só pensava em que devia parar de ir em suas doidas aventuras. Após mais um tempo saímos em um local maior, pude enfim ficar de pé e esticar as costas. O local em qual saímos era uma câmara subterrânea fracamente iluminada, devia ter uns trinta metros de comprimento, vinte de largura e uns quatro metros de altura, não tinha nada de mais: rochas, estalactites e só.

- Não vejo nada aqui de tão empolgante, Andy

- Não se precipite, ainda não chegamos

No fim da câmara havia o que parecia duas entradas, uma a direita e outra à esquerda, não mediam muito mais do que o buraco pelo qual entramos, meu amigo foi na frente e entrou pelo da direita, perguntei se ele tinha ido pelo da esquerda e onde dava, ele falou que após uns oitocentos metros daria em uma câmara mais ou menos do tamanho desta em que acabamos de sair e havia uma única entrada que levava para saída, a uns quatro quilômetros de onde estava a minha pickup.

- Onde estamos indo tem saída? perguntei

- Não sei John, mas não se preocupe, nós voltamos por aqui e pegamos a outra entrada.

Seguimos mais alguns - ou muitos - metros pelo túnel até chegarmos em uma espécie de fenda. Algumas cavernas descem mais fundo do que se possa imaginar e descer com cordas setenta ou cem metros não é nenhuma surpresa, olhei para baixo daquele lugar e não conseguia ver o fim, era óbvio que era fundo. Descemos por mais ou menos oitenta metros, pegamos uma entrada, seguimos em frente alguns passos e chegamos.

Posso afirmar que nunca havia visto nada assim, era uma câmara oval, media aproximadamente cinquenta metros de comprimento por quarenta de largura, era muito alta, um único e fraco feixe de luz iluminava o lago subterrâneo de águas cristalinas, que refletia na parece rochosa, era um lugar único.

- É ou não é incrível?

- Devo admitir Andy, é surreal

- Eu te falei cara

Enquanto meu amigo foi dar um mergulho, aproveitei para olhar mais atentamente a caverna, antigas pinturas cobriam o lado posterior ao lago, elas retravam o que se vê nessas pinturas rupestres, homens caçando, famílias toscamente desenhadas, animais, lanças etc, eram pinturas bem rudimentares.

Mas algo não estava certo, algumas eram mais novas do que outras, como se tivessem sido pintadas a não muito tempo, andando mais para a lateral esquerda da câmara, notei uma abertura não muito maior que um metro de circunferência abaixo de uma rocha, não sei porque fiz isso, mas algo me dizia que eu devia entrar, eu entrei e com certeza não devia tê-lo feito.

Haviam ossos, pilhas e mais pilhas de ossos nesse lugar, isso me paralisou, não tem como esses ossos virem parar aqui, não tem como chegar aqui... e foi ai que percebi que seja lá o que for que tenha trazido esses ossos para cá, ainda estava por aqui, o que explicaria as pinturas recentes na parede.

Assustado, sai desse local gritando para meu amigo:

-Andy, vamos embora, AGORA

- O que foi cara?

- Vamos embora, não deveríamos estar aqui

- Qual é o seu problema, em?

- Não discute porra, vamos embora

Sem entender o porquê e relutante, ele aceitou e saímos, falei para ele se apressar, já não bastando tudo o que vi, ainda tinha uma sensação estranha que não deveria de modo algum estar ali.

Andy interrompeu meu pensamento.

- Que porra é essa cara? Qual seu problema?

- Andy, eu encontrei ossos nessa caverna, alguma coisa os trouxe e vive aqui, eu não estou afim de descobrir o que é

- E daí? Já vimos ossos antes e você não deu esse ataque

- De animais Andy, isso é diferente, não eram ossos de animais

- Você tem certeza?

- Eu não brincaria com isso, merda, vamos sair daqui logo

Saímos da caverna até chegar no local com a corda onde precisávamos escalar, fui na frente, Andy veio logo depois, subimos pouco menos da metade do caminho quando Andy escorregou e caiu, desci mais rápido que pude chamando seu nome, ele havia quebrado o braço, e era uma fratura exposta.

- Porra cara, o que aconteceu?

- Foi mal John, descuidei e caí

- E agora? Como vai subir essa merda?

- Não vou, você vai e pede ajuda

- Não, nem pensar, não vou deixar você aqui sozinho

- E vai fazer o que? Subir oitenta metros comigo nas suas costas?

- Não, Andy eu... Não posso deixar você aqui depois que que vi

- Ta tudo bem cara, não vai acontecer nada.

Falei para Andy se cuidar e subi o mais rápido que pude até chegar na câmara onde tinha o túnel da esquerda, como ele havia falado, ele deveria me levar a não muito longe da pickup, assim eu poderia chamar o resgate pelo rádio.

No entanto, ouvi um barulho logo atrás de mim, eram passos, fiquei surpreso achando que poderia ser mais alguém explorando a caverna e que pudesse nos ajudar, sendo assim gritei, mas não obtive resposta, decidi então começar a voltar do túnel, foi eu quando vi.

Era enorme, tinha fácil mais de dois metros de altura, andava agachado, seus braços eram anormalmente grandes, unhas sujas e amareladas saíam de seus dedos nodosos, ele parou e ficou em pé, pude ver suas costelas sob sua pele fina, sua coluna marcavam suas costas visivelmente, era sem dúvida muito magro, porém eu não duvidava que poderia me estraçalhar com um simples ataque. Ele veio em minha direção, agachou seu enorme e magro corpo, ficou olhando para mim a não mais que cinco metros de distância. Seja o que fosse, era cega, seus olhos eram de um branco enevoado, como se nunca havia visto nada mais que a fraca luz que entrava por entre as frestas da rochas, era uma criatura que vivia na escuridão, sem dúvidas. Sua cabeça era oval e não tinha nariz, era um único buraco que se movia lentamente sibilando com o som pesado de sua respiração, quatro dentes pontiagudos saiam por entre seus lábios, suas orelhas se moviam tentando captar algum som, parecia ser o único sentido daquela coisa.

Fiquei imóvel, não conseguia acreditar no que estava vendo, eu não sabia o que fazer, tranquei a respiração e só pude rezar, tudo estava silencioso, até que eu ouvi um toque muito baixo vindo de longe. Eu sabia o que era, Andy tinha ligado seu MP3. A criatura rapidamente se moveu para trás e foi em direção onde meu amigo estava.

Fiquei ali assustado com o que acabara de ver, acordei de meu transe e fui para fora dali o mais rápido que pude. Sai daquele inferno e corri para minha pickup, chamei quem quer que pudesse me ajudar pelo rádio. Três horas depois o resgate apareceu, contei o que havia acontecido, falei que meu amigo havia caído e quebrado o braço, falei o que vi, mas ninguém acreditou. Fizeram buscas no local, apesar de encontrarem os ossos na caverna e não saberem como explicar como estavam ali, preferiram dizer que se tratava de algum cemitério muito antigo.

Quanto a Andy, não acharam nenhum rastro, nenhuma pista, nada, chegaram a desconfiar que eu havia vindo mesmo com alguém.

Sei que muitos irão me chamar de covarde ou me julgar, mas a verdade e que eu não sabia o que fazer, eu devia ter de alguma forma tentado ajudar meu amigo, mas agora é tarde e todo dia fico remoendo o que aconteceu, me culpando por ter abandonado meu melhor amigo para ser devorado ou seja lá o que aquilo tenha feito com ele.

As pessoas envolvidas no resgate disseram que talvez eu tenha tido alguma crise de alucinação ou algo assim, mas eu sei o que vi, e vou carregar isso comigo para o resto da minha miserável vida.

Autor: C. E. Batista

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O Fim do Creepypasta Brasil?

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Olá, Creepers.

Bom, como todos vocês já devem saber, recentemente tivemos um baque imenso aqui no blog. Posso afirmar com toda certeza de que essa foi a maior perda do blog até então, pois a Divina que estava com a gente praticamente desde o inicio do site decidiu se retirar devido a problemas relacionados a tradução e postagem de histórias de terceiros não creditadas aqui no blog.

Isso pegou todo mundo de surpresa, inclusive eu. Como sempre deixamos claro, não monetizamos o blog e/ou ganhamos quaisquer centavo sequer com isso, sempre fizemos esse trabalho porque amamos. Porém, os criadores das histórias estavam dentro de seu direito de se sentirem incomodados com o fato das histórias de suas autorias estarem sendo postadas aqui sem os devidos créditos a eles. Isso não é discussão, é fato.

Levantei a possibilidade da Divina continuar com suas traduções aqui no blog, porém esse ocorrido a afetou de uma forma que ela decidiu tomar a decisão de se retirar de vez e priorizar outras coisas na sua vida, como sua família por exemplo. Todo meu apoio vai pra ela, independente de sua decisão. Ela sempre foi uma das minhas melhores amigas, minha irmã, e o que for melhor pra ela, eu vou apoiar sem pensar duas vezes.

Talvez posteriormente ela decida voltar, porém infelizmente não posso confirmar nada. Inclusive, gostaria de deixar bem claro tanto para ela quanto para todos que estão lendo que as portas SEMPRE estarão abertas para seu retorno, caso deseje. Esse é o nosso bebê aqui na internet que temos cuidado há quase 10 anos, e sempre continuará sendo.

Dito isso, muitos de vocês nos perguntaram o que aconteceria daqui pra frente. Afinal de contas, isso significa o fim do Creepypasta Brasil?

Negativo.

Continuarei a manter o blog vivo por conta própria com a ajuda de vocês. Estarei postando nas terças, quintas e sábados todas as creepypastas criadas por fãs, ou seja, sempre teremos algo diferente e inesperado aqui no blog, sem contar que todas as histórias sempre foram e continuarão sendo creditadas aos próprios criadores, o que por si só já evitará quaisquer problema relacionado a isso (inclusive, às vezes eu me deparo com algum email de algum autor cuja história foi postada há anos atrás pedindo com gentileza para que a mesma seja retirada do ar, e sempre acatamos a isso sempre problema nenhum).

Quem conhece minha rotina sabe que infelizmente não tenho mais tempo para traduzir histórias da internet, como tinha em meados de 2011, 2012. Além de meu emprego atual, administro diversos outros projetos, incluindo meus dois canais do Youtube, o que impossibilita que eu tenha quaisquer tempo para isso, infelizmente. Espero que entendam e continuem com a gente nessa jornada. Eu nunca permitirei que esse blog morra, independente do que aconteça.

Muito obrigado por tudo & Keep Creepying!

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