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Olhos Aberrantes

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Você já assistiu o filme "Uma Mente Brilhante"? Aquele que Russel Crowe imagina seu colega de quarto e a menininha? Eventualmente ele aprende a meio que... ignorá-los. 

É assustador o quanto isso é real. 

Ver aquele filme foi um momento de virada na minha vida. Percebi que eu poderia aprender a viver normalmente e, para uma criança de 11 anos que já visitara milhares de médicos, fora internado em hospitais psiquiátricos, e tentado todas as medicações possíveis que uma criança poderia tomar (e até umas que não poderia, valeu, pai), aquilo me trouxe mais esperanças do que qualquer outra coisa. 

Desde que nasci eu... via... coisas vagando por aí. Me lembro de vê-los antes mesmo de lembrar do rosto da minha mãe. Eles me ignoravam, e eu não podia tocá-los, mas, a maioria dos adultos são meio assim para as crianças, então porque eu acharia estranho? Essas memórias muito antigas são meio confusas. Ninguém se lembra de quando era um bebê. Mas eles meio que sempre estiveram lá. 

Quando eu tinha uns 3 anos foi que percebi que ninguém mais podia vê-los. Foi aí que meus pais me disseram que eu tinha amigos imaginários.

Eu falava sobre os bichos grandes que eu via, eles sorriam e achavam graça. 

Se esses animais tinham mais olhos e mais dentes do que o normal, bem, isso é coisa da imaginação infantil, certo? 

Não foi até eu ficar um pouco mais velho que começaram a se preocupar.  

Tinha passado a fase de "fofo", e começaram a se preocupar com o que eu desenhava. Eu estava obcecado em ilustrar todas as criaturas que via. E, para uma criança, acho que eram ótimos retratos. Esse era o problema. 

Eles realmente não gostavam do que estavam vendo nos desenhos. 

Me lembro vividamente, minha mãe pegando um desenho em particular que eu acabara de finalizar, e eu estava absurdamente feliz por ter feito igualzinho como era. 

Ela olhou para aquela bolha cinza-arroxeada, os apêndices que não combinavam com o corpo e um rosto que, para ela, parecia simplesmente errado. Eu entendo agora. 

Ela mostrou para mim, com raiva, com lágrimas escorrendo pelas bochechas, gritando que eu não podia desenhar algo como aquilo nunca mais, depois rasgou antes de me mandar para o quarto. 

Depois disso eu parei de mostrar meus desenhos à eles, embora eu tivesse uma grande coleção por volta dos 6.

Foi quando aí que me levaram na minha primeira psiquiatra. Conversamos por algumas horas, uma vez por semana durante um mês e meio.

Era tão emocionante, ter um adulto que me ouvia falar sobre as criaturas. Um que não se irritava com isso, ou que saia pela porta e fechava a mesma alguns minutos depois de eu abrir a boca. 

E então. fiquei arrasado no dia em que ela me perguntou se eu sabia que os animais não eram reais.

Parei de falar com ela depois disso.


Os próximos três médicos duraram ainda menos tempo.

Quando eu já tinha 7, encontramos a Dra. Thompson. Ela era incrível. Ela não parecia se importar se eram "reais" ou não, só queria que conseguisse viver uma vida sem me tornar instável por causa deles. Me consultei com ela por uns seis meses.

Meus pais estavam muito mais felizes, e achei que tudo ficaria bem.

Um dia, o Dra. Thompson perguntou se eu queria mostrar os meus desenhos.

Naquela noite eu fui para casa e tirei as caixas de desenhos de debaixo da minha cama e do meu armário. 

Na semana seguinte, passei minunciosamente por eles, escolhendo os melhores.

Eu estava tão animado de finalmente compartilhá-los com alguém que eu confiava e que não reagiria mal a eles.

Na terça-feira seguinte, tirei-os da minha mochila e entreguei para a doutora com um sorriso no rosto.

Ela ficou olhando-os por muito tempo, folheando lentamente a pilha.

Eventualmente, olhou para mim e sorriu, perguntando se poderia ficar com eles por um tempo.


Eu disse que sim, e conversamos sobre a escola pelo resto da sessão.

Enquanto eu ia embora, ela me pediu para esperar na sala de espera e  convidou meus pais para entrar em seu escritório. Eu tinha certeza de que estava dizendo que eu estava bem, e não havia nada de errado com meus desenhos.


Meus pais saíram alguns minutos depois, e eu sabia que algo estava errado. Meu pai parecia preocupado, e mamãe... Ela me pegou e me abraçou, dizendo que me amava.

Naquela noite, fizeram uma mala para mim, e meus pais me disseram que havia um lugar que a Dra. Thompson achou que seria bom eu visitar por um tempo.


Do jeito que descreveram, parecia um acampamento de verão, e eu sempre quis ir para um, então, quando entramos no carro, fiquei ansioso para chegar logo lá.

Mas eu acho que você sabe que não era um acampamento.

O hospital não era como nos filmes. As paredes não eram brancas iluminadas por lâmpadas florescentes. 

Havia cores primárias radiantes em todos os lugares, e pinturas de elefantes e cachorros de desenho animado, e a equipe usava uniformes com flores e palhaços estampados.

Fui deixado na sala de jogos sob os cuidados de uma enfermeira gentil, que conversou comigo enquanto desenhava.


Um gato roxo, naquele momento. Eu sabia muito bem o que devia ou não desenhar na frente de outras pessoas já naquela pouca idade. 

Depois de um tempo, talvez uma hora, acho, meus pais voltaram com um homem que vestia um casaco branco sobre uma camisa verdes e também usava óculos. Me lembro de pensar como o marrom de seu cabelo combinava com o marrom de sua gravata. 

Meus pais o apresentaram e disseram que ficaria ali com ele e outras crianças.

Fiquei silencioso e só perguntei  que, só se desse, por favor, irmos todos para casa ao invés disso.

Minha mãe começou a chorar um pouco e se virou. Papai se ajoelhou e disse bruscamente que isso era o melhor a se fazer, e que iriam me visitar o tempo todo.

Tentei não chorar enquanto me abraçavam e me beijavam, falando o tempo todo o quanto me amavam.


Então eles foram embora e eu não pude mais segurar.

A enfermeira, cujo nome descobri ser Tina, me segurou e me balançou de um lado para o outro até eu parar, depois me levou para um quarto com uma cama pequena e um armário igualmente pequeno para a minha mala.

Ela me deitou na cama e me perguntou se eu estava com fome.


Eu balancei a cabeça, dizendo que estava apenas cansado, e então sentou-se numa cadeira ao meu lado, enquanto eu continua deitado, ainda chorando um pouco, até que adormeci. 

Acordei com o som da porta sendo aberta, e Tina entrava com uma bandeja de comida nas mãos.

Ela disse que era hora de jantar e eu precisava comer.


Antes que eu começasse, ela me deu um copinho de café com algumas pequenas pílulas coloridas e me disse que eu tinha que tomá-las. 

Eu ainda estava cansado emocionalmente e fisicamente, e as tomei sem argumentar. Com calma, comi o jantar e voltei a dormir.

Em algum momento no meio da madrugada, acordei novamente e vi Tina cochilando na cadeira, um livro caído no colo.


Observei-a por um longo tempo, depois fui até a minha mala e comecei a desenhar a criatura que estava dormindo ao lado dela.

Depois de terminar eu deixei a folha sobre a cama e voltei para os meus sonhos.

No dia seguinte, me encontrei com o homem com do casaco e óculos.

Conversamos por um tempo em seu escritório, e agora já estava acostumado com as perguntas que os novos médicos faziam e sabia as respostas que queriam ouvir.

Uma semana depois meus pais foram me visitar.

Não falei com eles, eu estava muito bravo.

E então eles estavam indo embora e eu comecei a soluçar, implorando para me levarem para casa.

Tina teve que me afastar e me abraçar forte enquanto eu lutava contra ela, antes de partirem.

Eu odiava aquele lugar.


Foi um ano antes de eu sair do hospital.

Eles tentaram todos os remédios que podiam, mas nada impedia de eu ver as coisas e, eventualmente, aprendi a fingir que eu estava bem, bem quando tentaram uma combinação de pílulas que não me deixaram enjoado ou com sono.

Continuei com isso por muito tempo e finalmente me disseram que eu podia ir para casa.


Mamãe e papai ficaram felizes por me ter de volta, e que finalmente eu era "normal". Fiquei feliz por estar fora de lá.

Entretanto, os próximos anos foram turbulentos. Eventualmente, eles perceberam que estava fingindo. E começamos com os médicos novamente. Os remédios. Então eles encontraram os desenhos, e quando eu fiz 10 anos, fui para outro hospital. Esse não durou muito. O médico lá era bastante arrogante, e se convenceu que eu estava "curado" dentro de algumas semanas.

Meus pais eram mais céticos, e menos de um ano depois eu estava internado de novo, e dessa vez não era um hospital infantil. 

Foi lá que conheci Paul.

Paul era um funcionário que ficava cuidando de nós, mas provavelmente é a pessoa mais sensacional que já conheci, e a única razão pela qual eu ainda não estou em algum quartinho pequeno, jogado e drogado em um canto. 

Foi ele que trouxe o filme escondido e me explicou que, às vezes, você só precisa ignorar as coisas que ninguém mais pode ver.


Até hoje, não sei por que ele correu esse risco e me deu aquele conselho pouco profissional, mas sempre vou agradecê-lo por isso.

Foi aí que finalmente aprendi o que eu tinha que fazer para ficar longe para sempre de lugares como aquele.

Consegui ir a uma escola normal, e meu professor de arte me amava. Eu havia praticado muito, afinal de tudo. Nunca mostrei os desenhos que eu fazia nas horas livres. 


Passei por minha adolescência na escola desenhando, eventualmente pintando, fazendo amigos, namorando.

Quando Lauren entrou na minha vida, foi o mais perto que cheguei da tão falada 'felicidade'.  Ela adorava minha arte, e passávamos horas juntos, conversando sobre teoria das cores e formas. 

Minha primeira namorada. Meus pais ficaram obviamente emocionados. Consideraram isso um sinal de que eu ia ficar bem de verdade.

Nós terminamos o namoro alguns meses depois, quando ela descobriu uma ilustração minha, na qual eu trabalhava. Uma daquelas que eu não devia mostrar para ninguém.


Ela não gosta das coisas que se escondiam na minha cabeça, me falou.

Isso resume muito bem a minha vida na faculdade. Eu consegui uma bolsa de estudos em Artes, e encontrou um espaço onde podia eventualmente compartilhar algumas das ilustrações que antes eu escondia a sete chaves. 

A maioria das pessoas achavam perturbadoras, mas ainda assim, outras achavam que eram 'sensacionais'. Até consegui vender uma delas para uma banda de heavy metal; usaram como capa de seu primeiro álbum. 


Eu ainda pinto, faço algumas exibições em galerias. Mas a maioria do dinheiro que ganho é por encomendas (Obrigada, Reddit.) 

Eu ia deixar tudo isso para trás, até algo que aconteceu algumas semanas atrás. 

Eu não havia mencionado sobre Eles para ninguém faziam anos. Nunca mais tinha mostrado uma ilustração deles para ninguém desde a faculdade. 

Eu estava em um parque, pintando, curtindo um sol, fazendo alguns retratos rápidos para conseguir uma grana extra. 


Era legal.

Na hora do almoço eu peguei um sanduíche em uma máquina de lanches e uma garrafa d'água, e me sentei na sombra de uma árvore. 


Eu vi uma das criaturas bebendo água da fonte, e fiquei assistindo-o por um tempo. Se levantando, alongando-se, mas logo vi algo que me fez congelar por dentro e por fora. 

Havia um homem, apenas um cara velho vestindo um terno, olhando para ele.

Pelo menos parecia que estava olhando para a coisa.


Ele estava com um caderno sobre o colo e um lápis na mão.

Com um calor crescendo no meu peito, coração acelerado, andei até ele. Sentei em um banco perto dele e tentei ver o que ele rabiscava naquele caderno.

E era isso. Isso mesmo. Ele estava desenhando a coisa.  

Uma serenidade entorpecente tomou conta de mim, e trocamos um olhar. 

Ele levantou uma sobrancelha, com aquela expressão universal de "Que?"

Fiquei gaguejando por alguns segundos, tentando formar uma pergunta que nem tinha certeza qual seria. 

Finalmente, saiu algo como "Você sabe o que são essas criaturas?" 

Ele me encarou por um momento, me estudando com a testa franzida. 

Eventualmente, me deu um sorriso triste e deu de ombros. 

"Pelo que sei, eles estão só na minha cabeça..."


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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Uma dica para quando você tiver Sonhos Lúcidos

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Tive meu primeiro sonho lúcido aos nove anos. 

Eu estava em um bairro decrépito - varandas apodrecidas, pintura descascada, barba de velho pendurado nas janelas, e assim por diante. Névoa circulava em torno de meus tornozelos enquanto caminhava lentamente pelas ruas. Como em um jogo antigo, o horizonte era imutável e inalcançável.

Eu andava por lá, entrando e saindo das casas cobertas de teias de aranha. Embora as ruas estivessem vazias, era comum encontrar alguns fantasmas flutuando dentro das casas. Havia algumas crianças, mas a maioria eram velhos, em vários estágios de decadência. Nunca me feriram, nem falaram. Eles simplesmente flutuavam. Às vezes me seguiam, mas nunca me senti ameaçado.

Não pensei muito no sonho em si, até que o tive novamente algumas semanas depois. E de novo, algumas semanas depois disso. Nunca fazia muita coisa lá. Vagava pelas calçadas, dava uma olhada nas coisas dentro da casa procurando algo interessante, jogando pedras, quebrando garrafas, esses tipos de coisas.

Na quarta vez que o tive, havia outra pessoa vagando pelas ruas também.

O eu dos meus sonhos tinha acabado de correr por todo quarteirão, batendo com um graveto contra as cercas de todas as casas, quando ouvi meu nome sendo chamado de um beco sem saída. Me virei e vi meu irmão de seis anos, Chota, correndo em minha direção, um enorme sorriso em seu rosto. 

"Mota!" Falou, parando na minha frente. "Você está aqui agora também! Oi!"

"Agora?" Falei, tentando entender a presença dele ali. "Você já esteve aqui antes?"

Ele não parecia perturbado com aquela novidade, estava com aquela animação infantil. "Você já viu a moça que não tem metade do rosto? Geralmente ela está na casa de tijolo lá em baixo."

E fomos.

Na manhã seguinte, antes de falar qualquer coisa, Chota e eu compartilhamos olhares incertos no nosso quarto compartilhado, confirmando que não só sonhamos com lucidez, mas estávamos de alguma forma compartilhando um sonho. Em nossas mentes ingênuas, jamais pensamos em contar para alguém. Apesar do medo de sermos chamados de loucos, ainda estávamos amando a possibilidade da magia e de nosso segredo. 

Ao longo dos anos, Chota e eu esporadicamente sonhávamos sobre o bairro enevoado e seus habitantes fantasmagóricos. Às vezes, eu estava lá sozinho, e às vezes Chota estava comigo. Geralmente, ficávamos um pouco mais corajosos quando estávamos juntos, nos aventurando em sótãos e porões escuros para procurar os fantasmas mais assustadores. Os fantasmas pareciam ser sempre os mesmos. Com o passar dos tempos, chegávamos a reconhecê-los e dávamos apelidos. Havia a Meio-Rosto, a mulher em decomposição; um menino, pingando água, que chamávamos de Menino Afogado; O Velho dos Ossos, uma figura de esqueleto, que só sabíamos que era uma figura masculina porque vestia uma kurta e dhoti tradicional; E o Homem Manco, um fantasma que deslizava inclinado para o lado de sua perna destroçada.

Quanto mais velhos ficávamos (e, para ser sincero, quanto mais jogos de vídeo game jogávamos), começamos a ficar entediados do nosso sonho no bairro nebuloso. Começamos a caçar os fantasmas, experimentando como jeitos de dominá-los.

Isso se transformou em um jogo para nós - como uma boa partida de Xbox, só que enquanto dormíamos. Às vezes, fazíamos estratégias complicadas para encontrar armas, estabelecendo uma base de operações e eliminando os fantasmas de certas casas para que pudéssemos assumir o controle.

Às vezes, nós apenas andávamos por lá, destruindo quem passasse pelo nosso caminho. Os fantasmas começaram a vir para cima de nós, gritando e resmungando. Eles nunca duravam muito. Alguns golpes com um pé de cabra ou uma tábua de madeira, e eles se dissipariam na mesma névoa estranha que enchia nosso mundo dos sonhos.

O ponto de viragem foi quando Chota tentou cortar o pequeno fantasma do Menino Afogado. Não consegui explicar o motivo, mas eu tinha o ímpeto de proteger aquele pequeno ser. Talvez fosse uma coisa de irmão mais velho. Talvez fosse por parecer tão triste e pequeno.

Mas quando Chota ergueu a faca de pão, pronto para parti-lo em dois, eu pulei em seu caminho. O Menino Afogado flutuou e desapareceu na névoa. Chota ficou furioso, pensando que eu estava tentando sabotar seus pontos (eu estava com mais pontos que ele, ganhando por 2) e começamos a brigar ali mesmo, rolando pelo chão, se debatendo no chão e gritando um com o outro. 

Nós fizemos as pazes eventualmente, mas a briga azedou um passatempo que a tempos já estava perdendo eu encanto. 

E, embora eu nunca tenha dito isso para Chota e nunca contarei, na manhã seguinte, eu acordei com os hematomas nos meus braços e os arranhões nos meus joelhos.

Quando eu fui à faculdade em outro estado e Chota ficou em casa, ainda nos víamos na nossa cidade dos sonhos. Se conversávamos pelo telefone ou através do Facebook, um de nós sempre soltávamos um irônico "Viu algum fantasma recentemente?" 

Mas, quanto mais velhos ficávamos, menos frequentemente tínhamos o sonho. Lentamente, começou a sumiu das nossas memórias.

Então, uma semana depois do funeral do meu avô, tive meu primeiro sonho lúcido em tipo cinco anos.

Ainda não contei isso para Chota. Não sei conseguirei um dia. 

Fiquei tão surpreso por estar de volta ao bairro em decrépito que, no início, tudo que fiz foi passear pelos becos e ruas gritando coisas como "Olá!" e "Estou de volta!" 

Entretanto, fiquei duplamente surpreendido quando uma figura solitária surgiu da névoa e começou a se aproximar de mim. Quando o reconheci, mas consegui conter as palavras que saiam da minha boca.

"Dada!" Chorei, correndo em direção dele. Abri meus braços para abraçá-lo, até lembrar que aqui ele não seria sólido. "Dada, como você veio parar aqui?"

No silêncio que se seguiu, saltitei de pé a pé como uma criança animada, meu peito cheio de anseio. Tudo o que eu queria era abraçá-lo, mas sabia que não era possível.

Não respondeu minha pergunta, mas me observou com desconfiança e depois fez sua própria pergunta.

“Mota, bete, eles me falaram que alguém tem vindo aqui por anos e anos, praticando atos de violência e só trazendo problemas. Era você? ”

Sua reação foi tão inesperada por mim que meu queixo caiu. Deixei a cabeça baixa como se tivesse cinco anos de novo, sendo repreendido por não comer meu jantar. 

"Sim, dada, era eu. Eu e Chota. Mas a gente estava só brincando. É só um sonho, dada. Você é só um sonho. 

Meu avô vagarosamente balançou a cabeça negativamente. 

"Bete," me disse, sua voz transbordando de uma tristeza absurda, "Eu não sei quem foi que permitiu que vocês viessem para esse lugar, mas isso aqui não é um sonho, e esses espíritos não são imaginários. São todos seus parentes."
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


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Como o Espantalho morreu

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ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 


Josh era uma dessas crianças que nascem só para ser um valentão. Sua estrutura parecia muito mais com a de um gorila do que a de um adolescente, e tinha a atitude de um Rottweiler que alguém acabara de tentar castrar com uma tesoura enferrujada. 
Existem diversas formas de praticar bullying com alguém, e Josh era expert em todas elas. Roubava dinheiro do lanche, enfiava cabeças em privadas, espancava crianças e até beliscava a bunda das meninas nos corredores. Mas quem fez com que Josh se tornasse um valentão foi, na verdade, seu pai. 
O homem era uma versão ainda maior e mais feia que Josh, e basicamente era dono da cidadezinha em que vivia, e parecia achar que era dono das pessoas que moravam lá também. 
Se alguém comentava que o garoto não deveria estar nos corredores dando tapas na bunda das meninas, pode aposta que algumas ligações depois, essa pessoa estaria demitida por pedido do pai de Josh. 
Até hoje fico me perguntando se os terríveis eventos que para sempre mudariam a história da nossa cidade poderiam ter sido evitados se alguém tivesse o contido. Mas ninguém nunca o conteu, então acho que nunca saberei. 
Começou de uma forma simples: Josh criou um interesse especial em tornar miserável a vida de um garoto em particular. O pequeno Billy Williamson era um alvo fácil de mais; era magricelo, pálido, e todas as crianças o chamavam de "O Espantalho", por causa dos remendos em suas roupas. 
Claro, não era culpa de Billy que sua mãe era pobre e não tinha dinheiro de comprar roupas novas, mas você sabe como crianças podem ser cruéis quando alguém é diferente. 
Eu sempre o chamei só de Billy.
Todos os dias Josh gritava pelos corredores "Ei, Espantalho! Venha aqui para eu arrancar a palha de dentro de você na porrada!" Ele achava essa piada tão genial que a repetia todos os dias, e se Billy não risse, o pobre coitado acabava com a cabeça dentro de um vaso sanitário. 
As coisas seguiram assim por um tempo. 
Ninguém parecia se importar em ficar do lado de Billy, e suas roupas largas escondiam as cicatrizes que começaram a crescer como raízes de árvores pelos braços. Nunca entendi por que as pessoas que sofrem nesse mundo acabam se punindo ainda mais, mas acho que é assim que as coisas funcionam. 
Eventualmente, Billy se fechou por completo. 
Ele não falava mais, não olhava mais nos olhos de ninguém; o garoto tinha medo da própria sombra. Todos achamos que não tinha como ficar pior, mas creio que o destino não se importava muito com o que achávamos, pois naquela semana a mãe de Billy morreu e dois dias depois a cidade toda já sabia que ela tinha sido encontrada com uma seringa enfiada no braço. 
Se isso parecia um momento de pegar mais leve, Josh não ligava. Na verdade, fez o oposto; sua presa estava ferida, e agora era hora de devorá-lo. 
"Ouvi falar como sua mãe morreu," sussurrava entre os dentes quando não haviam professores por perto, "queria que eu tivesse a encontrado. Mesmo sendo uma drogada, ela era bem gostosa." 
"Você está morando com sua vó agora, né? Talvez eu faça uma visita hoje a noite, acho que ela não resistiria muito."
Ninguém pareceu notar quando os cortes nos braços de Billy começaram a se espalhar pelo seu peito e pernas, ou como seu rosto se contorcia todas as vezes que Josh o insultava pelas costas. 
Ninguém pareceu notar que ele escrevia em seu diário que adoraria roubar a arma de seu avô e acabar com aquilo tudo do seu jeito. 
Às vezes você vê nos noticiários reportagens sobre adolescentes como Billy e fica se perguntando como ninguém interferiu, como ninguém percebeu o que estava acontecendo. A resposta é bem simples: é muito mais fácil fingir que não vê.  
A verdade é que as pessoas não encaram os fatos pois teriam que se perguntar porque não fizeram nada por tanto tempo. 
O último dia antes de acontecer, Josh havia encurralado Billy depois da escola, espancando-o até sua vida ficar por um fio. Quando chegou em casa naquele dia, seu rosto parecia um pedaço de carne sangrento, e enquanto se olhava no espelho, decidiu que o dia seguinte seria o fim.
Entrou de fininho no quarto dos avós e pegou o velho revolver do avô, que ficava de baixo da cama. Não sabia onde haviam mais balas, mas sabia que a avó a mantinha carregada caso alguém invadisse a casa. 
Na manhã seguinte ele colocou o revólver no cós das calças e escondeu com uma camiseta larga. Ele não checou se realmente estava carregada; na real, nem queria saber. 
Mas ainda sim apertou a mandíbula com determinação e pegou o ônibus. Quando chegou à escola, notou que havia uma multidão no campo de futebol. Agradecido pelo atraso, abriu caminho entre os ombros e os cotovelos, e foi aí que viu Josh.
Seu ex-inimigo estava nu, estripado da cabeça aos pés e amarrado ao poste do campo, palha saindo dos buracos de onde havia sido costurado grosseiramente de novo. Seus olhos eram poços vazios, arrancados por pássaros antes do primeiro a encontrá-lo. E em cima de sua cabeça, alguém colocara um velho chapéu de espantalho.
Billy foi embora imediatamente e veio para casa. Mal olhou para mim quando entrou, sentada na minha cadeira de balanço e tricotando. Em vez disso, ele foi diretamente para seu quarto e se jogou na cama. Era a primeira vez que dormia em muito tempo. 
Em poucos dias a notícia se espalhou pela cidade de que o menino tinha sido assassinado e, quando a polícia foi notificar o pai, bem, eles também foi encontraram morto.
Até hoje ninguém sabe quem foi. 
A polícia suspeitou de Billy no começo, e devem ter me perguntado uma dúzia de vezes se eu havia visto meu neto sair da casa naquela noite, mas minha resposta sempre foi a mesma.
Naquela noite eu estava a madrugada toda acordada vendo TV e teria percebido se ele saísse de casa. Eu podia perceber que eles achavam que eu era senil, mas nenhum se atrevia a dizer na minha cara. 
Bem, estou bem velha agora e não acho que tenho mais muito tempo de vida, então acho que é a hora de falar a verdade: Eu não sei o que Billy fez naquela noite pois eu não estava em casa. 
Eu estava na casa de Josh. E fiz com que ninguém nunca mais chamasse meu neto de "Espantalho". 
E ninguém nunca mais se atreveu.  
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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O feio

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Minha família tem uma política restrita e obrigatória de três encontros anuais. Uma na ação de graças, uma no Natal e outra no meio do verão¹ para nossa reunião anual. Sempre foram boas, divertidas e também não muito longas para que não atingíssemos o limite de começar a socar uns aos outros. 

Cada um tinha sua vez de organizar esse terceiro evento, e finalmente tinha caído no meu colo (não de boa vontade) a tarefa de encontrar um lugar para abrigar os cinquentas e poucos membros da família Coleman para o nosso encontrão de julho. Não foi uma tarefa fácil. Todos tinham suas próprias ideias de o que funcionaria melhor, as quais compartilhavam a plenos pulmões e com bastante frequência, mesmo eu os lembrando o tempo todo que essa era minha responsabilidade, mas sempre conseguiam encontrar algum problema com a escolha dos outros. 

Eventualmente, desliguei meu celular, parei de olhar meus e-mails, e me isolei de todos que estavam "apenas tentando ajudar" e fiz as coisas do meu jeito. Tinha que encontrar algo que não fosse muito caro, porém daria espaço suficiente para todos esticarem as pernas e não ficarem cutucando uns aos outros. Iria ser uma estadia de apenas duas noites, mas isso podia muito bem iniciar uma guerra nuclear se não fosse feito da maneira certa. 

A solução parecia óbvia quando a encontrei. Cabanas à beira do lago que incluíam caminhadas, nadar, pescaria, e várias outras atividades ao ar livre que manteriam a família ocupada e não arrancando tufos de cabelo do mais próximo. Por ter começado a planejar sete meses antecipados, consegui reservar seis das doze cabanas por um final de semana e, depois de mandar o pedido de conformação e estar tudo certo, pude deixar as preocupações de lado. 

Julho foi se aproximando rapidamente e, antes que eu pudesse perceber, o final de semana estava dobrando a esquina. Meu marido e eu arrumamos nossas malas e enfiamos tudo no carro, ajeitamos nosso filho de seis anos, Jack, no banco de trás e olhamos para o horizonte. 

"Quantos confirmados mesmo?" Caleb perguntou. Ele estava mantendo os olhos na estrada, tentando ser sútil, mas pude notar um tom de resignação em sua voz. 

"Cinquenta e dois, incluindo a tia Betty," falei sorrindo. 

Caleb grunhiu, "Por favor, me diz que ela está na cabana mais distante da nossa."

"Bem. Do. Ladinho."

Ele gemeu de um jeito teatral, que fez Jack rir, e olhou para mim de canto de olho. "Você sabe que ela sempre fica com uma mão boba depois de tomar um cálice de vinho." 

"É, eu sei. Mas não posso culpá-la. Quero dizer, olhe para você."

Ele não conseguiu manter os olhos de cachorrinho triste enquanto eu tentava seduzi-lo arqueando as sobrancelhas e piscando, o que fez o rir deliciosamente. 

"Vai ficar tudo bem," falei. "São só dois dias." 

Era final de tarde quando estacionamos o carro perto das cabanas. Meus pais, minha irmã, o esposo dela e filhos já estavam lá. Nos abraçamos calorosamente e logo planejamos qual seria o nosso código para "Me Tire Pelo Amor De Deus Dessa Situação Embaraçosa". É sempre bom estar preparada.

Deixamos as crianças irem brincar na beira do lago enquanto os homens tiravam as malas dos carros e esperávamos os outros familiares chegarem. 

Aquela noite foi cheia de risadas enquanto fazíamos churrasco e ficávamos nostálgicos sobre antigos acontecimentos, e as crianças ficavam arrastando os pés por aí. Tive que salvar meu marido da tia Betty mais de uma vez, mas compensei quando a coloquei perto do primo-emprestado que a gente menos gostava. Uma primeira noite típica de uma reunião dos Coleman. 

Quando chegou a hora de recolher, Caleb pegou um Jack semiconsciente e fomos para nossa cabana de quatro quartos, que estávamos dividindo com meus pais e a família da minha irmã. Mamãe e papai desapareceram no quartinho que ficava extremidade da cabana, escolha deles, assim minha irmã e eu poderíamos ficar com os quartos maiores, e o quarto dos meninos ficava entre esses dois. Então fomos colocar os pequenos na cama. 

Caleb tinha dado apenas dois passos no que deveria ser o quarto dos meninos quando Jack começou a ficar agitado. 

"O que foi, campeão?" Ele beliscou gentilmente a bochecha de Jack. "Você precisa ir no banheiro antes de deitar?"

Ao invés de responder, Jack escondeu o rosto no ombro de Caleb e agarrou seu pescoço com força, soltando um gemido.

"Uh-oh, mamãe," Caleb disse para mim, "parece que alguém está com medo de dormir nessa casa nova." 

Me sentei na beira da minha cama e peguei Jack dos braços do meu marido, e ele se agarrou em mim tão forte quanto. Nem mesmo as minhas vozes engraçadas que geralmente fazia na hora de dormir foram suficientes para aliviar sua angustia, então troquei olhares confusa com Caleb enquanto acariciava as costas de Jack.

"Qual o problema, querido? Você não quer ir dormir com Sam e Ben?" 

Ele sacudiu a cabeça negativamente com a testa ainda colada ao lado do meu pescoço. 

"Por que não?" Eu estava genuinamente surpresa. Jack amava muito seus primos e implorava com frequência para dormir na casa deles. Claro, lá era um terreno conhecido, mas nunca antes tínhamos tido problemas como esse em nossas outras diversas viagens. Por tanto que tivesse perto de Ben e Sam, ele estava bem. 

"Eu não quero!" Jack choramingou, e achei que estava apenas muito cansado e rabugento. 

"É hora de dormir, Jack," falei firmemente. 

"Não!"

"Jack-"

Ele começou a resmungar e se remexer com todos os sinais de uma pré-crise de manhã. 

"Você tem que falar, campeão. Conta para mim o que houve," Caleb falou.

"Eu não quero que ele fique me olhando dormir!"

"Que?" Eu o desprendi do meu pescoço e coloquei sentando em meu colo para que pudéssemos olhar seu rosto. Estava vermelho e cheio de emoções conflitantes de uma criança que não conseguia fazer com que alguns adultos entendessem o que estava sentido. "Quem vai ficar te olhando dormir?" 

Sam e Ben estavam nos observando de suas camas compartilhadas no outro lado do quarto, seus olhos arregalados espiando por uma fresta das cobertas. 

"Aquilo!" Jack apontou um dedinho tremulo para um canto vazio do quarto perto do pé da cama de seus primos. "O feio. Dá muito medo!"

"Não tem nada ali, bebê," Falei calmamente, mas meus olhos estavam procurando nas sombras quaisquer sinais de uma aranha ou outro inseto que ele podia ter visto. Entretanto, não vi nada, apenas a parede e chão de madeira com marcas escuras em espiral.

Jack começou a chorar e balançar a cabeça e não houve santa alma que o convencesse que aquele canto estava vazio. Quando Caleb tentou provar isso para ele andando até lá, Jack começou a gritar muito, fazendo com que meus pais, minha irmã e meu cunhado viessem correndo. Pedimos desculpas e contamos que ele só estava nervoso por estar em um lugar novo e, esperando que isso trouxesse a paz de volta, deixamos que ficasse no nosso quarto naquela noite. 

Ele insistiu que trancássemos a porta e se aconchegou entre nós dois, sua mãozinha apertando meu braço até que caísse no sono. 

Na manhã seguinte, acordamos e encontramos Sam e Ben enrolados em suas cobertas no sofá da sala. Quando perguntamos o motivo, eles esquivaram das perguntas e deram os ombros pois, tendo oito e onze anos, já estavam velhos demais para ter medo do escuro. 

"Sinto muito se Jack assustou vocês ontem a noite," Falei durante o café-da-manhã e eles tentaram deixar isso de lado, "Mas juro que não tem anda de errado com aquele quarto."

Isso foi repetido em torno da mesa pelos adultos até que Sam, que fala muito pouco, falou para deixarmos aquilo para lá. 

"Ele estava lá," Jack sussurrou baixinho entre os dentes enquanto eu acariciava seus cabelos. 

Menininhos e suas grandes imaginações. 

Terminamos nossa refeição e Caleb, Gus e Ruby levaram os meninos para o lago enquanto mamãe, papai e eu ficamos na cabana para limpar tudo antes de irmos nos juntar com todo o resto do pessoal. 

Enquanto meus pais arrumavam a cozinha, fui para o quarto dos meninos fazer as camas e recolher algumas roupas sujas que estavam espalhadas pelo chão. Enquanto pegava uma camiseta de pijama das tartarugas ninjas, me peguei olhando para o canto do quarto, o rosto apavorado de Jack ainda vívido na minha mente, e fiquei imaginando o que exatamente ele havia visto. 

Então, notei algumas marcas escuras em espiral no chão de madeira diretamente no pé da cama de Sam e Ben. 

Estranho
, pensei, essas marcas parecem idênticas com as do canto do quarto. 

Mas fazendo um escaneamento breve do chão do quarto, vi que não haviam outras marcas como aquela. Fiquei confusa e percebi uma sensação estranha descendo pela minha nuca. Obviamente, eu devia ter visto aquelas marcas no pé da cama, mas como estava tão focada no canto do quarto, devo ter achado que era lá que as tinha visto. Bom, eu não tinha como culpar Jack de ter uma grande imaginação, pois aparentemente era de mim que havia puxado aquilo. 

As conversas quem vinham da rua iam ficando cada vez mais altas e agitadas, o que indicava que a maior parte da família já estava acordada, então terminei rapidamente o que tinha que fazer e fui para rua para desfrutar de suas companhias. 

Passei boa parte da manhã boiando em uma hidro com minhas primas enquanto Caleb conversava com outras pessoas. Jack estava um tanto mal-humorado desde que acordara e ficou pela beira do lago com seu avô, que tentava ensina-lo a pescar. 

Quando minha prima começou a abordar os perigosos tópicos políticos com sugestões de que aquela conversa iria de mal para pior, pedi licença e fui andando em direção do lago. 

"Não era muito grande," Jack falava enquanto eu me aproximava deles. Ele estava sentado no colo o avô e apontou para o peito dele. "Ele batia mais ou menos aqui em você. E era preto e gordo e tinha braços compridos e dedos compridos também, e não tinha pés, como se, como se tivesse derretido, tipo as velas da mamãe depois de acesas um tempo, e daí tinha que ficar se apoiado nas mãos e tinha uma cara feia e uma boca pequenininha, mas eu podia ver muitos e muitos dentes, e tinha tipo todos aqueles olhos. Você já viu olhos de aranha? Era bem parecido." 

"Parece muito assustador," meu pai falou quando Jack deu uma pausa para respirar. 

"Por favor, me diz que você não está encorajando isso, pai." Falei, surgindo de trás deles. 

"Só estou deixando ele me contar o que viu," me falou, sereno. 

"Mas você sabe que não era real, não é mesmo, Jack?"

Me ajoelhei perto deles e Jack me olhou de canto de olho, um olhar de uma irritação infantil dessensibilizada que ele havia aperfeiçoado com os anos.

"Eu vi sim, mamãe!" Ele insistiu amimadamente. 

Não havia nada que o fizesse mudar de ideia e sua história permaneceu inalterada, não importava quantas vezes contou para todos, o que na verdade era bastante impressionante para aquele garotinho de seis anos que sempre tivera dificuldade de manter suas histórias de mentirinha consistentes. Depois de ouvi-lo contando pela milésima vez, eu já estava começando a sentir aquela sensação estranha me descer pela nuca novamente. 

Naquela noite, não havia chance nenhuma de fazê-lo pisar no bendito quarto. Nem mesmo seus primos conseguiram convencê-lo que estava tudo bem (embora fosse difícil de acreditar, sendo que ambos optaram por dormir no sofá novamente).

Peguei sua mochila de rodinhas e quando entramos no nosso quarto expliquei que, quando voltássemos para casa, tudo voltaria como era antes. Ele não dormiria mais na cama do papai e da mamãe. Concordou prontamente, embora eu ache que ele concordaria com qualquer coisa naquele momento, desde que isso significasse que poderia dormir conosco. Durante toda a noite, até a hora de dormir, ficou colado a mim ou a seu pai e se recusou a fazer qualquer coisa sozinho, incluindo ir fazer cocô. 

Eu ficava basicamente aliviada quando as luzes se apagava e finalmente podíamos dormir. No dia seguinte nós arrumaríamos as coisas e voltaríamos para casa e tudo estaria certo de novo.

O grito de Sam nos acordou um pouco depois da meia noite.

Nós pretendíamos apenas ignorar, sendo que Ruby acudiria seu filho, que provavelmente tinha apenas tido um pesadelo por causa dos contos de Jack, então apenas rolamos para o outro lado e voltamos a dormir. 

O grito de Ruby logo a seguir nos tirou da cama em um pulo. 

Um cheiro parecido com o de cobre quente nos atingiu assim que abrimos a porta. Minha irmã estava encolhida ao lado do sofá, fazendo sons estranhos e profundos com a garganta, a mão junto do peito. Era difícil ver alguma coisa apenas com a luz fraca do abajur de mesa que alguém ligara. 

"O que aconteceu? Cadê ele? "Gus segurava Sam pelos ombros na outra extremidade do sofá e estava balançando o menino bruscamente. A cada palavra ouvíamos sua voz falhada, bruta e dolorosa.

Sam estava apenas o encarando, seu rosto branco como uma folha de papel, sem entender seu próprio estado de choque.

"O que está acontecendo?" Meus pais vieram do quarto e mamãe pressionou o interruptor para acender as luzes de teto.

Ruby estava ajoelhada em uma poça vermelha. Sua camisola tinha sido mergulhada e manchada até a altura das pernas, mas ela não parecia notar. Toda sua atenção estava voltada na camisa ensanguentada e rasgada em suas mãos. Eu podia ver o rosto sorridente de uma tartaruga de bandana que espreitava através de seus dedos.

"Ben?" Foi o que consegui perguntar. 

Ruby gritou de novo. 

"Ketie, pegue Jack," Caleb foi o primeiro a conseguir a sair do transe de horror que tinha parado todos nós no tempo. "Gus, solte o Sam." 

O mundo parecia se inclinar e girar loucamente ao meu redor enquanto eu pegava Jack nos braços. As pessoas estavam andando e gritando e tentando descobrir o que tinha acontecido, mas não conseguia entender aquilo, tudo era apenas barulho, confusão e um terror doentio. 

Eu nem havia reparado que Jack se contorcia nos meus braços e tentava chamar minha atenção. 

"Mamãe!" Finalmente gritou, puxando bruscamente a gola da minha camisola.

Eu olhei para ele com uma expressão tonta, quase incapaz de responder. 

"Hã?"

"Ele está aqui!"

"Que?"

"O feio!"

"Agora não, Jack," falei mais ríspida do que pretendia, mas isso não o intimidou. 

"Está lá no canto, mamãe," falou gesticulando para a sala, logo atrás de Gus e Sam. 

"Jack-"

"A cara dele está toda vermelha, mãe," Jack sussurrou temerosamente no meu ouvido, "ele está mastigando alguma coisa."

Segui o olhar do meu filho, passando meus pais, que estavam tentando segurar Ruby, além do meu marido, que estava tirando as mãos de Gus que apertavam o filho. 

Não havia nada ali, como achei que não teria.

Vazio, com exceto pelas familiares marcas escuras em espiral no chão de madeira que tenho certeza que estava no quarto dos meninos na noite anterior. Marcas que tenho certeza que agora não estão mais lá. 
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 ¹ Vale lembrar que o verão nos EUA é no inverno aqui no Brasil



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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