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As estranhas cartas para meu filho (PARTE 4)

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PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3

Carrie e eu nos conhecemos dezesseis anos atrás - no final de 2001, acho - em um piquenique na igreja. Eu era relativamente novo na cidade, então quando um colega de trabalho me convidou para ir com ele em um sábado a tarde, não vi motivos para não. Eu sempre ouvira dizer que igrejas e supermercados eram os melhores lugares para se conhecer mulheres decentes e solteiras, e parece que é verdade. Naquela tarde, conheci a garota mais linda que já vira. Ela estava atrás de uma travessa de frango frito, com seu avental engordurado que dizia Igreja Metodista Union Street, rindo enquanto colocava coxas e peitos e sobrecoxas no prato de todos. Lembro que seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto, que balançava para lá e para cá quando mexia a cabeça. Parecia uma líder de torcida ou algo do tipo. Fiquei apaixonado desde o primeiro momento em que coloquei meu olhos nela. 

Depois do almoço, comecei a conversar com ela e nos demos bem de primeira. Logo mais já estávamos namorando, e nos casamos em Outubro de 2002. Aquele foi o melhor dia da minha vida. O segundo foi o dia que Kyle nasceu. 

Ler aquela carta que o psicopata mandara para o jornal fez meu coração se partir em dois. Meu primeiro pensamento foi, não a MINHA Carrie. Mesmo que ela tenha negado a traição, não conseguia tirar da cabeça a imagem da minha esposa de quinze anos de união, em um carro com outro cara - fazendo AQUILO, não menos. Na hora que chegou em casa na noite de ontem, eu estava com raiva. Fervendo, na verdade. Assim que entrou pela porta, eu a confrontei, o jornal em minhas mãos. 

Eu: Porque você não está respondendo minhas mensagens?

Carrie: Desculpa, querido, fiquei ocupada. Você sabe como meu chefe é. Não posso ficar com meu celular durante o trabalho. 

Eu: Você sempre responde minhas mensagens. O que está acontecendo? 

A expressão em seu rosto me disse tudo. Ela não era boa em mentir, e pude perceber que havia algo. Por algum motivo, isso me deixou com menos raiva. Ela parecia chateada. 

Carrie: Nada, Dean (Ela não olhava para mim. Foi para a sala de estar onde Kyle estava vendo TV, e falou para que ele fosse para seu quarto. Começou a pegar coisas aleatórias do sofá e chão como se estivesse arrumando a casa).

Eu: Conheço esse olhar - você não sabe mentir. Amor, por favor, Andrew está desaparecido e esse psicopata está com ele. Se algo daquela carta é verdade, você tem que me dizer. Seja o que for, vamos superar (parecia uma mentira, quente em minha garganta, mas falei da mesma forma). 

Ela me olhou, olhos marejados, e então apenas desabou. Se encolheu no sofá e ficou lá sentada, rosto nas mãos, soluçando. Sentei ao seu lado e acariciei suas costas. 

Eu: Carrie, está tudo bem (meu coração estava descontrolado em meu peito. É uma sensação terrível saber que você pode estar a segundos de ouvir algo que nunca será retirado. E que pode mudar tudo). 

Carrie: (entre soluços) Eu não sabia que isso tinha algo com aquilo...

Eu: Que? Oque foi? Só me fale. 

Carrie: Eu juro, foi um erro... eu nunca quis que isso acontecesse. 

Eu: Só fale, Carrie. Por favor. 

Carrie: (limpou a maquiagem que escorria no rosto) Foi no final de semana que você estava fora da cidade com seus amigos. Acampando, eu acho. Foi a muito tempo. Oito ou nove anos atrás. 

Eu: Eu lembro. (Eu tinha me juntado com uma galera da faculdade, o que não acontecia muitas vezes. Só voltei no domingo de noite). 

Carrie: Eu e as meninas fomos para um bar na sexta de noite. Eu juro, eu não acho que bebi tanto. Tomei umas cervejas, acho, mas nada destilado. E tinha esse cara lá, e...

Eu: E O QUE, Carrie?

Carrie: (Finalmente me olhando) Não me faça falar. 

Eu: Então é VERDADE?!

Carrie: Meu Deus, eu sinto muito. Eu me lembro de me sentar no bar, do lado de Jenny e o cara chegando e falando com a gente. A próxima coisa que me lembro é de estar sentada no carro dele em um estacionamento perto do rio. Eu não sabia como tinha parado lá. Fiquei com tanta vergonha... Eu juro, a gente não transou... ele queria, mas eu disse que não... 

Eu: (Já estou lacrimejando nesse momento, segurando a raiva) Um cara qualquer? Em um estacionamento? Jesus Cristo, estou tentando entender, Carrie. 

Carrie: Eu sei que não faz sentido. Eu não sei o que aconteceu - nunca fiz nada desse tipo antes. E não, não um qualquer. Isso que é estranho sobre tudo isso. Eu o conheci na igreja. 

Eu: Na Igreja? NOSSA igreja? 

Carrie: Aquela sexta foi um dia de serviço. Estávamos indo para o Gentle Hills, naquela casa de repouso para visitar os velhinhos. O grupo jovem faz essa coisa chamada de "palhaçar", onde se vestem de palhaços e pintam os rostos e trazem balões para os residentes que não podem sair de lá. Eles amam isso. Levei essa ideia para o grupo adulto e queriam fazer também. Quando nos encontramos na igreja, esse cara estava lá. Eu nunca tinha o visto antes nas missas, mas achei que era amigo de alguém. Dean? 

Eu estava sem palavras, lágrimas escorrendo por minha bochechas. Devastado. Mas eu não precisava falar isso. Ela já saboa. 

Carrie: Eu sinto muito. 

Eu: Ele falou como se chamava? 

Carrie: Ray, eu acho (fungando). Se me falou o sobrenome, não lembro. Dean, eu sei o que você está pensando. Não pode ser o mesmo cara. Ele era um cara normal, Jean, camisa de botão. Cabelo curto. Parecia muito bêbado, mas normal. Acho que comentou que era um contador. Ele fez algumas piadas dizendo que faríamos filhos lindos, mas ignorei isso, achando que estava só me elogiando. Acho que até fiz piada dizendo que nunca queria ter filhos. Isso obviamente foi antes de nós termos Kyle. Talvez esse psicopata tenha nos visto naquele dia? Talvez ele estivesse lá perto do rio. Eu não sei. 

Eu: Você viu esse cara de novo depois? 

Ela parecia não querer responder.

Eu: Carrie? 

Carrie: Ele me ligou. No dia seguinte. Acredito que eu tenha dado meu número. Disse que queria me ver de novo, que estava apaixonado por mim. Eu fiquei tão envergonhada, não sabia o que dizer. Só desliguei o telefone na cara dele e bloqueei o número. Nunca mais o vi. Só queria esquecer daquilo tudo. 

Eu: Nunca mais?

Carrie: Nunca mais ou vi ou ouvi falar dele de novo. Juro por Deus (ela se virou para me olhar). Dean, eu sinto muito. Eu não tenho desculpar para o que aconteceu. Eu acho que bebi mais do que deveria, e cometi esse erro terrível. Eu sei que arruinei tudo. E agora tudo isso com as crianças... Por favor, querido... 

Me levantei e a deixei lá no sofá, chorando. Se eu tivesse dito algo, teria sido está tudo acabado entre nós, mas eu não conseguia. Eu amava Carrie. Mas sabia que tinha que sair de perto dela, por um tempo, pelo menos. A culpei por não ter me contado o que acontecera assim que recebemos a primeira carta, mesmo que não tivesse motivos para ela acreditar que as duas coisas estavam interligadas. 

Fui para o quarto de Kyle e sentei em sua cama. Ele estava no chão, brincando com uns bonequinhos. Quando me viu sentar, me olhou e perguntou se o homem mau estava vindo o buscar. Se era por isso que a mamãe estava chorando. Me sentei no chão e o abracei forte. Eu não havia contado ainda sobre Andrew. Não sabia se conseguiria. 

Não, eu não vou deixar isso acontecer. Nunca, tá bom? Sou seu pai, e é meu trabalho te proteger. E é isso que vou fazer. Eu juro. Eu acho - espero - que ele tenha acreditado em mim. Não falei com Carrie pelo resto da noite. A ignorar era uma sensação horrível, especialmente com tudo que ela estava tendo que lidar. Mas eu não sabia mais o que fazer. Não conseguia aguentar a ideia de ter que falar com ela. 

Tarde naquela noite, perto das dez, detetive Carr ligou. Saí do sofá e fui para a varanda dos fundos enquanto conversávamos. Carrie estava dormindo no quarto e não queria acordá-la. 

Ele tinha ido na casa do detetive aposentado e conversaram sobre o caso de Kerrington. O detetive se lembrava bem, disse - pessoas não desaparecem com frequência na nossa cidadezinha, aparentemente, e esse caso o perturbou profundamente. Garota jovem de uma família decente que desaparece do nada sem deixar vestígios e ele não conseguiu encontrá-la. Ainda o assombrava.

Ele confirmou as informações que Carr encontrara nos relatórios. Suzanne tinha sido vista pela última vez em uma academia. A amiga que a tinha visto - Emily, lembrava - disse que Suzanne estava empolgada para se encontrar com esse cara que conhecera na noite anterior. Ela queria treinar braço para que ficassem bonitos numa regata. Coisas estranhas desse tipo, acaba ficando na memória. Ela era uma moça decente para seus 21 anos de idade. Nunca frequentava bares da cidade e nunca arranjava encrencas. Seu maior círculo social era a igreja, disse. 

Meu coração pulou uma batida quando falou isso. Que igreja? 

Union Street, detetive Carr respondeu. Porque? 

Union Street. Nossa igreja. 

Eu sabia que tinha que contar para Carr sobre o que Carrie havia feito. Falar sobre aquilo com ele tornou tudo ainda mais real, e a ferida se abria cada vez mais enquanto eu falava todos os detalhes novamente.

Mesmo que Carrie não achasse que o cara com quem me traíra fosse o mesmo que sequestrou Andrew, detetive Carr achava que SIM. E a Union Street era a conexão. Carrie tinha conhecido "Ray" na igreja, talvez Suzanne também. Se isso estava correto, podiam ser o mesmo cara. No começo ele me perguntou como Carrie não reconhecera o nome de Suzanne da igreja, mas expliquei que Carrie tinha se mudado para ali por volta de 1999. Detetive Carr concordou: o caso de Suzanne já estava fora das notícias naquela época. Desligou o telefone rispidamente, dizendo que tinha algumas pistas pare seguir. Era óbvio que aquele cara não ia dormir tão cedo. 

Depois de desligar a ligação, fiquei sentado na varanda olhando para a escuridão do jardim, onde Kyle estava quando um estranho tinha entrado e deixado a carta aterrorizante que começara tudo isso. 

Porque a carta era Kyle? Porque isso agora, depois de dez anos? 

Eu sabia de uma coisa. Seja lá quem fosse esse nojento, ele gostava de vestir como um maldito palhaço. 

E usava a igreja como seu campo de caça. 

Voltei para o sofá, mas não consegui dormir bem. Eu sabia que teria uma equipe na casa 3 da Orange Circle pela manhã, quebrando o chão novo de concreto do porão, e fiquei imaginando a cova rasa que provavelmente encontrariam lá em baixo, com os ossos de Susie Kerrington lá dentro. Eu queria que Andrew não tivesse o mesmo destino. 

Hoje de manhã, não havia um novo artigo no jornal como eu esperava. Não tinha dado tempo do detetive Carr enviar informações para eles. Entretanto, eu estava ouvindo a rádio no café da manhã e durante o programa matutino, detetive Carr foi entrevistado. Instruiu aos moradores de ficarem dentro de casa depois do escurecer e manter janelas e portas bem trancadas. E então descreveu o individuo que era procurado. 

Quarenta e poucos anos (por volta da minha idade), provavelmente formado no ensino superior. Bem arrumado. Empregado, provavelmente contador. é provável que ele goste de passar essa imagem de adulto bem sucedido, mas sozinho é mais crianção. Talvez faça bicos em festas infantis fazendo animais de bexiga e pintura em rostos, ou como papai noel ou coelhinho da páscoa de shopping. Também pode frequentar jogos de basebol infantil, então seria bom que todos ficassem atentos para alguém que se encaixe nessas descrições que não seja parentes ou amigos próximos. Pode se chamar Ray. 

Carr continuou dizendo que ele era espero. E astuto. Ele quer a atenção que está recebendo. É o que o incentiva, o que provavelmente quer dizer que ele tem uma doença mental. Ele já matou uma vez e pode fazer de novo. NÃO CONFRONTE esse individuo se o ver. LIGUE PARA A POLÍCIA. 

Depois que largue Kyle na escola, passei pelo número 3 da Orange Circle. Haviam duas viaturas e um caminhão de construção na frente. Tinham colocado fita amarela de isolamento e pude ver alguém segurando dois baldes vindo da parte de trás da casa. Ele foi para a parte da frente do jardim e despejou o que parecia ser pedaços de concreto quebrado em uma enorme sacola verde de lixo. Provavelmente era a única forma de tirar aquilo do porão. Depois voltou para a parte de trás da casa.


DIA 07/03/2018: As estranhas cartas para o meu filho (PARTE 5)


FONTE

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Leite

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Quando eu era criança, eu era obcecado por leite.

Todos tivemos essa fase, certo? Onde havia uma comida um uma bebia que nunca enjoávamos e queríamos de manhã, tarde e noite. Esse era eu com leite. Eu podia beber direto da garrafa. Meus pais não se importavam, eles preferiam que eu quisesse algo saudável como aquilo para matar a sede do que refrigerante ou uma dessas bebidas concentradas cheias de açúcar que você tinha que adicionar água.

Eu poderia ficar doente às vezes, bebendo demais, muito rápido. Mas quem nunca? Até adultos podem ficar doentes por ter algo muito bom em excesso. Mas aquilo não era o suficiente para eu parar de tomar, nenhuma dor de barriga podia me separar do meu amado leite. Nada podia.

Ou foi o que pensei.

Veja, nossa cozinha era muito pequena, ou pelo menos muito pequena para caber a geladeira enorme (e freezer) que meus pais tinham. Então foi mantido no porão.

Certo verão, quando eu tinha por volta de 16 anos, meus pais decidiram que eu já tinha idade suficiente para ficar sozinho em casa enquanto eles saíam para uma segunda lua de mel ou algo assim. Eu não me importei, naquela idade preferiria ter ficado em casa com meus amigos do que ser uma terceira roda para meus pais enquanto eles tentavam reavivar o romance. Além disso, se eu precisasse de algo, meus avós moravam do outro lado da rua. Sim, minha família era do tipo que não se afastavam de suas raízes.

Foi bem tranquilo, como você pode esperar: Eu chamei alguns amigos e jogamos videogames, comia muito essas comidas de viagem e cuidava dos deveres de casa.

Até a terceira semana.

A casa era antiga, então estalos, gemidos e outros ruídos "inexplicáveis" eram algo que eu estava acostumado. Esta noite, no entanto, eu tinha acabado de sair do porão -a porta ficava na nossa cozinha- com um copo de leite, pronto para me arrastar pela escada e me acomodar na cama durante a noite, quando ouvi um barulho incomum vindo do cômodo de onde eu tinha acabado de sair.

Tentei presumir que era apenas as escadas antigas rangendo após eu subir, mas havia algo estranho naquilo. Em meus dezesseis anos morando naquela casa, eu nunca tinha ouvido nada parecido. Imaginei que fosse algum animal selvagem, talvez um guaxinim ou um gambá que de alguma forma tinha entrado durante o dia. Sendo um típico adolescente, isso não era algo que eu quisesse lidar tarde da noite, então eu simplesmente tranquei a porta do porão para evitar que ele subisse em casa e fosse até a cama.

A manhã veio e eu desci ao porão para verificar se havia algum sinal de animal selvagem, e além das poucas teias de aranhas, não havia nada, então decidi que realmente tinha sido um dos muitos ruídos da nossa casa antiga, peguei meu copo de leite habitual e subi de volta.

Naquela noite, o barulho voltou. Desta vez eu não tinha certeza se era simplesmente um rangido aleatório, porque começou exatamente na mesma hora antes de me dirigir para o quarto durante a noite. A única diferença era que eu não tinha ido ao porão ainda, então definitivamente não era o resultado de eu ter pisado em algumas tábuas velhas.

Sendo um adolescente nada valente, eu saí de casa correndo e fui para a casa dos meus avós. Felizmente eles ainda estavam acordados e meu avô era um cara grande que ninguém gostaria de mexer. Ele prosseguiu com sua espingarda para investigar, apenas para voltar meia hora depois afirmando que não conseguiu encontrar nada ou ninguém. Ele raciocinou, como eu, que talvez fosse um guaxinim e que escondido em algum lugar lá embaixo, e tinha trancado o lugar para não sair como eu havia feito na noite anterior.

Eu fiquei na casa dos meus avós a partir deste ponto, voltando para a casa durante o dia para cuidar de algumas tarefas e jogar em meu Nintendo por algumas horas. Eu não voltei para o porão, optando por comer e beber na casa dos meus avós também.

Cerca de uma semana antes dos meus pais voltarem houve uma tempestade de verão que causou uma queda de energia. Durou alguns dias, mas me deu mais motivos para passar o tempo restante em que meus pais estavam longe na casa dos meus avós.

Quando eu voltei de manhã para abrir as cortinas, notei um mau cheiro se espalhando por toda a casa. Sabendo que a energia tinha caído, eu presumi que o pesado odor pungente estava vindo da comida na geladeira e no congelador que havia começado a estragar. A ideia de lidar com isso era desagradável, mas não era algo que eu queria que meus pais fizessem quando chegassem. Meus avós estariam fora da cidade a noite visitando meu tio-avô e eu não estava muito a fim de limpar comida podre sozinho.

Então eu fiz o que qualquer adolescente faria e deixei pra lá. Usei um spray com cheiro de flores lidar com aquilo, preferindo comer cereais e beber água do que descer até o porão e ficar sobrecarregado pelo trabalho de limpar.

Aquela noite foi particularmente quente - mesmo para o verão - e então eu acabei ligando o ar condicionado. O ar fresco que se espalhava pela casa era um alívio, e assim eu dormi, mas logo me arrependeria daquela decisão.

Acordei por volta das 4 da manhã para encontrar o ar da casa quente e úmido, estava pior do que quando eu tinha ido para a cama. Pior ainda, o cheiro estava tão dorte que eu podia sentir o gosto na minha boca. Era doce e azedo ao mesmo tempo, misturado com o cheiro sulfúrico de ovos podres e algo que meu cérebro adolescente só conseguia descrever como alguém que não havia chegado no banheiro a tempo.

Pensei sobre uma época em que eu era mais novo, quando meu pai tinha acidentalmente tirado a geladeira da tomada e nenhum de nós percebeu até que o leite estragou. Eu podia lembrar do cheiro enquanto me engasgava e corria até o banheiro, me ajoelhando em frente a privada enquanto meu estômago ameaçava se esvaziar. Era doce e amargo como esse cheiro, com algo ácido que eu nunca soube como explicar, e eu podeia me lembrar da pasta grossa que o leite havia se tornado, nada disso me ajudou, pois o cheiro que enchia a casa parecia inundar cada poro do meu corpo. Eu podia sentir o cheiro na minha roupa, era tão forte que meus olhos lacrimejavam, e então, meu estômago se embrulhava e eu vomitava.

Como o cheiro ficou tão ruim em poucas horas?

Foi só quando eu estava me limpando na pia que eu notei que as aberturas de ar não estavam empurrando nenhum ar fresco. Sabendo que eu obviamente não tinha desligado, já que eu estava dormindo, presumi que o sistema ainda estava bagunçado após o blecaute. Eu não podia ficar naquela casa com aquele calor e cheiro ruim e então, usando apenas minha cueca, eu fui para a cas de meus avós, e mais uma vez, passei a noite lá.

Quando eles chegaram de manhã eu os expliquei a situação. Não ficaram felizes por eu não ter cuidado dos alimentos estragados no dia anterior, mas concordaram em ajudar antes que pudesse ficar pior.

"Pior" seria um eufemismo para o odor que nos golpeou assim que entramos. Minha avó não conseguiu nem entrar na casa, ela estava pálida e se reclinou na mesa da varanda, segurando o vômito. Até meu avô perdeu a compostura ao colocar o pé em casa, tendo que tirar um pano do bolso para cobrir o nariz e boca.

"Fique aqui", ele me disse, um comando claro mesmo com suas palavras abafadas. Eu, não o ouvi, é claro - porque pra mim não tinha sentido ele me fazer ficar do lado de fora enquanto ele limpa tudo sozinho - assim que ouvi a porta do porão se abrir eu corri para a cozinha.

Eu só posso descrever a caminhada naquela cozinha como tendo o seu rosto a milímetros de uma porta de forno quando é aberta e a onda de calor atinge seus pés. Era tipo isso, mas só o cheiro. Eu podia ouvir meu avô vomitar e tossir quando ele desceu as escadas, e eu em breve estaria fazendo o mesmo enquanto descia até a porta do porão com os olhos lacrimejando.

Meu avô era um cara durão, mas eu nunca tinha ouvido ele xingar até aquele momento. Era como se ele ele estivesse guardando tudo para aquele momento, com uma série de palavrões saindo da boca dele. E enquanto isso eu descia as escadas encurralado pelo cheiro que parecia queimar minhas narinas.

Gostaria de ter ouvido meu avô quando ele me disse para ficar com minha avó.

Ele gritava comigo para subir, mas já era tarde. Eu já havia visto.

Os sons que eu tinha ouvido do porão não eram da casa, e nem de um animal.

Era de um humano.

Um humano agora apodrecendo no calor do verão e pendurado na saída de ar. Agora eu sabia o motivo de ter parado de funcionar, e como o cheiro tinha empesteado a casa inteira tão rápido. E também explicava o porquê nem eu e nem meu avô tínhamos achado nada ao investigar o porão - estavam na saída de ar. O fato de uma pessoa de alguma forma ter entrado na minha casa já era bastante perturbador, sendo o primeiro corpo morto que eu havia visto era pior. A morte é uma parte da natureza, mas uma parte nojenta quando as formas formas humanas habituais de lidar com isso não estão em prática.

Um corpo apodrece rapidamente no calor, e seu cadáver estava pendurado de tal maneira que eu tenho certeza de que se tivesse ficado ali mais um dia ou dois o corpo teria rasgado pela metade. Os fluidos vazavam pela parede: sangue coagulado, um líquido marrom sujo que eu não queria nem pensa no que era, e o pior de tudo - algo espesso, branco e com uma característica de pus que me lembrou aquele leite amargo.

O cheiro de morte se agarra a tudo, e mesmo depois que o corpo foi removido, todos os móveis de lá foram jogados fora e o porão fumigado, embora tenha demorado um bom tempo. Joguei fora as roupas que eu usara naquele dia, não importava quantas vezes elas eram lavadas, o cheiro ainda estava lá. Não consegui ir até o porão, ainda me atingia como um caminhão cada vez que eu passava pela porta. Mesmo meus pais, que tiveram a sorte de não estarem lá durante o pior, não conseguiram lidar com isso. Nos mudamos para a rua de trás, e pelo que meus avós nos contaram, sempre que alguém se mudava pra lá reclamava do cheiro.

Nós nunca descobrimos como eles entraram, a polícia acreditava que deveria haver alguma janela aberta que eu deixei passar e eu estou inclinado a concordar. Eles eram sem-teto, procurando por comida e abrigo, não posso culpá-los. Na verdade eu me sinto culpado, de certa forma. Os ruídos que eles fizeram furtivamente pelo porão de noite me fizeram correr para a casa dos meus avós. Talvez se eu tivesse ficado, eu os teria ouvido chamar ajuda - se eles realmente pediram - quando ficaram presos no respiradouro. Talvez eles ainda estivessem vivos. Eu não sei.

O que eu sei é que daquele dia em diante, eu não consegui mais beber leite. Até o cheiro de leite fresco trazia o odor da morte de volta para mi, como se estivesse preso e esperando em algum lugar atrás do meu nariz. A visão me lembrava dos fluidos que escorriam pelas paredes do porão.

Quando eu era criança eu adorava leite, agora eu odeio.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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A Pior Pergunta de Todas

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Existem dois tipos de mundo: O visível e o invisível. 

Me chamo Normani e nasci com o dom de escutar aquilo que as pessoas normais não podem, mas tento usar essa coisa que as pessoas chamam de dom para ajudar quem precisa. 

Moro sozinha numa pequena cidade chamada ‘Cold Mountains’ e geralmente ajudo em investigações policiais; no começo me achavam louca, porém, aos poucos fui ganhando reconhecimento, mas sempre trabalhando ‘’secretamente’’ já que se todas as pessoas soubessem sobre mim, minha vida não seria nada calma. 

Era uma tarde fria de abril, tinha acabado de chover quando recebi uma ligação do delegado que comunicou sobre o desaparecimento de Melanie, minha melhor amiga. Aquela foi a pior noticia que eu poderia receber, Melanie era a única pessoa com quem eu podia confiar e contar meus medos. As pessoas pensam que quem possuí o dom da mediunidade está livre de ter qualquer tipo de medo por ver tantas coisas fora do comum, na verdade estão todos errados. Somos perseguidos diariamente por espíritos vagantes que se recusam a deixar o plano terrestre, alguns demônios também surgem no meio do caminho. 

Semanas se passaram e as investigações não tomavam nenhum rumo, nenhuma pista surgia e meus dons também não ajudavam, aquilo me deixava tão frustrada que num certo dia comecei a gritar na sala do delegado pedindo para que  qualquer espirito pudesse me ajudar a encontrar Melanie. Naquele mesmo dia ao chegar em casa comecei a ouvir sussurros, algum espirito estava tentando contato, mas não podia entender nada, eram muitas vozes ao mesmo tempo. 

Lembro-me de ter me trancado no quarto e ligado o rádio no volume máximo para tentar não prestar atenção naquela confusão toda, mas as vozes estavam na minha cabeça e não dava para ignorar nenhuma delas; então comecei a chorar e pedi para que elas me deixassem em paz, mas elas continuavam ali. Peguei a caixa de remédios no meu guarda-roupa e tomei algumas pílulas, aos poucos fui ficando mais calma. 

Hoje faz dois anos que nenhuma pista da Melanie foi encontrada; já não me ligam mais para ajudar, eles acreditam que perdi o dom. Mas ouço vozes a todo instante, muitas almas me procuram para que eu diga aos policiais onde estão seus corpos, almas que desejam que suas famílias se despeçam de forma digna, como deve ser, mas como eu havia dito antes os demônios também surgem às vezes e alguns são mais fortes do que outros, me sinto fraca por ter sido manipulada por um há algum tempo atrás. 

De todas as vozes que escuto diariamente, a mais perturbadora e que gela a minha alma é a voz de Melanie, me perguntando por que eu a matei. 

(Autor: Andrey D. Menezes.) 

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Mimetismo

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No começo, quando herdei Claudette, achei que ela ficaria solitária e depressiva. Eu sabia que papagaios eram criaturas sociáveis, mas eu mal dava conta de um, quanto mais comprar outro para lhe fazer companhia. Tia June, quem "generosamente" deu o pássaro para mim depois de descobrir o quão barulhenta e energética podia ser, me assegurou que Claudette era bastante independente e ficaria bem sozinha. 

Claudette e eu tivemos um começo turbulento. Eu ficava intimidada perto de seu bico e garras afiadas e ela demorava a confiar em mais uma pessoa nova. Aparentemente, tivera diversos lares em seus vinte e cinco anos, todos haviam se livrado dela pelos mesmos motivos de Tia June. Foi por isso que a adotei; sentia pena e queria que finalmente tivesse um lar fixo, mesmo que isso fosse dar um pouco de trabalho. 

Tivemos o que pareceu um longo período de ajuste, onde aprendi que ser bicada, apesar de doloroso, podia ser muito pior e logo começou a me reconhecer como a mão que a alimentava. Quando descobri que ficava mais feliz em minha varanda telada, coloquei seu poleiro para lá e dei o espaço livre para ser seu território, o que melhorou nossa relação.

Levou muito tempo, paciência, petiscos, mas, eventualmente, chegou ao ponto de ela voar até mim sempre que eu saia de perto e se empoleirava no meu braço enquanto comia tudo que eu dava. 

Se estava preocupada com ela se sentir sozinha quando eu não estava em casa, essa preocupação se dissipou rapidamente quando percebi que estava se tornando muito amiga dos Tordos-Imitadores que tinham feito ninho em uma árvore atrás do meu apartamento, que ficava no primeiro andar. Eles trocavam pios e assobios uns para os outros durante o dia, algo que irritou alguns dos meus vizinhos, mas nada que alguns biscoitos caseiros e cartões de desculpa não resolvessem. 

Nunca tinha considerado ter um papagaio antes, mas Claudette provou ser uma mocinha muito doce e inteligente, depois que você passa da fase inicial de teimosia, e aprendi que tinha um vasto vocabulário e era excelente em imitação. Também descobri que, no decorrer de alguns meses nas horas que eu estava trabalhando, aparentemente ensinou algumas coisas para os tordos. 

Eu estava sentada na varanda em uma noite, fazendo carinho em Claudet
te antes de ir fazer minha janta, quando ouvi uma voz doce mas muito distinta vindo de algum lugar de cima. 

"Merda!" falou. 

Dei um pulo, por não ter visto ninguém perto ou se aproximando, olhei em volta, mas os arredores do meu apartamento estava quieto e vazio. No eu colo, Claudette começou a balançar a cabeça, as penas se eriçando levemente. 

"Merda!" A voz falou de novo. 

"Merda!" Claudette respondeu. 

Ela e a voz se responderam mais algumas vezes, gritando entusiasticamente uma de suas palavras favoritas, até eu colocá-la para dentro de vergonha para prevenir que seja lá quem fosse que estivesse a incentivando, parasse. Foi só quando vi um dos tordos voando pela frente da varanda algumas vezes, obviamente procurando pro Claudette, que entendi que a voz que vinha ouvindo não era alguém encorajando sua boca-suja; era um dos tordos imitando-a. 

Claudette tinha ensinado os pássaros selvagens a falar palavrão. 

Iria me custar muito mais do que alguns biscoitos caseiros para que meus vizinhos me perdoassem dessa. 

Ao invés de predê-la dentro de casa, tentei encorajá-la a falar palavras mais neutras e assim ensinar para os tordos. 

"Olá!" Falei diversas vezes. 

"Olá!" Claudette falou. 

"Merda!" Os tordos responderam.

Realmente, merda. 

Eu nem sabia que tordos conseguiam "falar", muito menos que podiam aprender palavras novas, então vaguei pela internet e perguntei por aí, tentando conseguir uma solução. 

Eles apenas repetem o que ouvem com frequência, um entusiasta de pássaros falou para mim em u fórum. Vão aprender uma palavra nova logo! Um tordo sempre ficava chamando pelo nome do meu cachorro, até que aprendeu uma canção nova. Boa sorte!

Tudo bem, falei para mim mesma, eu podia esperar por isso. 

No meio tempo, comecei a trabalhar para que Claudette "limpasse" o seu próprio vocabulário e ficava com ela algumas horas por noite repetindo palavras para ela e dando petiscos como prêmio toda vez que acertava. Levou mais algumas semanas e meses, mas os palavrões entraram em declínio e não ouvi mais os tordos imitando-a, então considerei vitória para mim. 

Em uma manhã, quando fui alimentá-la antes de sair para o trabalho, ela balançava a cabeça e dava pulinhos para lá e para cá em seu poleiro, algo normal quando estava entusiasmada, quando percebi que fazia um som estranho, arranhado, como se não conseguisse respirar direito. 

Peguei-a em meu braço e acarinhei sua cabeça e costas. "Você está bem?" Perguntei. 

"Olá!" Falou, e a respiração estranha parou. 

Esperei um pouco, quase o suficiente para me atrasar, mas ela parecia estar bem, então corri para o trabalho. 

Entretanto, na manhã seguinte, aquele som rouco e ríspido estava de volta. Novamente ela veio até mim, abriu as asas e balançou a cabeça, tudo isso enquanto fazia o som de respiração ofegante. 

Lá fora, os tordos respondiam com um estrando som de clique. Não dei muita bola para isso, estava preocupada demais com minha pobre ave. 

Sem conseguir sair sabendo que a deixaria em um constante estado de estresse, liguei para minha chefe avisando que tivera uma emergência familiar e corri com Claudette para o veterinário. Falei quase chorando que estava certa que ela estava com alguma terrível doença e comentei que Claudette estava tendo problemas para respirar e me disseram para esperar na recepção que logo o veterinário iria nos atender. 

Quando entramos, novamente expliquei sobre os sons e ele examinou Claudette. Ela estava em sua gaiola de viagem, quieta, parecendo totalmente de boa que sua vida estava por um fio. 

"Eu juro, ela soava péssima ontem e hoje de manhã." Insisti. 

"As vezes essas coisas vão e vem," Dr. Graham disse gentilmente. "Pode me fazer um favor? Imite o som que ela fazia."

Rapidamente fiz o que e pediu, esperando que fosse parecido o suficiente para que ele entendesse a seriedade da situação, e imediatamente Claudette começou a me imitar. 

Dr. Graham escondeu um sorriso por de trás da mão antes de eu olhá-lo e ficar sério de novo. 

"Ela está bem, Stacey. Parece que, talvez, ela... uh... ouviu você fazendo esse barulho durante suas atividades noturnas. Só estava imitando."

"Que?"

"Acho que ela ouviu você e seu parceiro. Sabe... durante momentos íntimos."

Claudette enfatizou a afirmação dele dando um gemidinho. 

Com minha cara ardendo de vergonha, coloquei a papagaia na gaiola, pedi desculpas em um sussurro e agradeci, basicamente correndo para fora do consultório. 

"Você anda ouvindo os vizinhos," acusei Claudette enquanto ela assobiava disfarçadamente até em casa. "Ou alguém estava ouvindo TV alto demais? Como você aprendeu a fazer esses sons?" 

Certamente não tinha sido de mim, isso eu sabia. Seja lá o que fosse, estava acontecendo fazia tempo para chegar ao estado dela começar a imitar. Eu não podia ir de apartamento em apartamento perguntando para meus vizinhos se estavam fazendo safadezas com a janela aberta, então por enquanto, tinha que só ficar de olho a que tipos de som ela estava exposta. 

Quando a soltei na varanda, ela gritou alguns 'olás' para os tordos, que cantaram em resposta, e depois se ajeitou no poleiro para dar uma cochilada no sol. 

Fiquei sentada com ela na varanda por boa parte do dia, mas não ouvi nada particularmente acusável, e desisti quando o calor começou a ficar demais para mim. Ainda enfiava minha cabeça para fora de vez em quando, mas a única coisa fora do comum que ouvi foi o novo som de clique que os tordos tinham aprendido. Mesmo parecendo familiar, não conseguia lembrar onde tinha ouvido aquilo antes. 

O som de respirar ofegante de Claudette começou a se tornar algo frequente nas nossas manhãs, junto com um gemido ocasional, e as vezes cochichava para si mesma.
"Linda, linda, linda."

Pelo menos era melhor que 'merda'. 

Ela e os tordos continuavam a se comunicar e acabei me acostumando com o clique assim como me acostumara com os xingamentos. Era mais intenso principalmente pela manhã quando Claudette estava fazendo o que comecei a chamar de 'exercícios de respiração'.

-Respiração ofegante-

Click click

-Gemido-

Click click

E assim era até o meio-dia.

Eu só tinha que esperar até que eles ficassem obcecados com outro som e tentar não enlouquecer. 

Mas quanto mais eu ouvia, mais percebia que havia algo sobre os cliques, que ficava cada dia mais refinado e distinto, algo que me incomodava. Eu conhecia o som e, com um pouco mais de tempo, conseguiria definir de onde estavam imitando. 

"Como está Claudette?" Minha irmã perguntou enquanto tomávamos vinho e tínhamos nossa conversa semanal de quinta via telefone. 

Estava sentada na sala de estar de pijamas, que na verdade era mais para uma regatinha e um shorts que era curto demais para ser usado em público, com meu celular em uma mão e a taça de vinho na outra. Tinha deixado a porta de correr da varanda aberta, caso Claudette quisesse vir até a sala me fazer companhia. 

"Ela está bem, ainda fazendo o respirar bizarro."

"Você descobriu quem ensinou isso pra ela?"

"Acho que são os Johnsons; sempre achei que eram mesmo do tipo exibicionistas." 

"Mas eles não são um casal de velhinhos?" Raina perguntou enquanto ria. 

"Sim, mas também gostam de um amorzinho, não é mesmo?!"

Enquanto ríamos, ouvi uma série de cliques vindo da porta aberta. 

"Ei, ei!" Falei. "Os tordos estão fazendo o barulho que te falei. Talvez você consiga ouvir e me dizer que porra é essa!" 

Corri pela sala até a varanda, mas quando cheguei lá, os cliques pararam imediatamente. 

Ao meu lado, Claudette se balançava em sua gaiola, resmungando. 

"Linda, linda, linda." 

A folhagem do outro lado da tela se mexeu suavemente. 

A luz de dentro do apartamento refletia na tela de proteção, tornando difícil minha visão da rua, fiquei parada no mesmo lugar. 

"Não consigo ouvir nada." Raina falou no meu ouvido. "Stacey?"

Ouvi o barulho de folhas novamente.

Claudette começou a fazer o gemido abafado de novo. 

Das árvores, os tordos começaram a fazer os cliques.

Naquele momento eu reconheci o som, enquanto um arrepio descia pela minha espinha. 

"Raina", falei o mais calmamente que consegui. "Acho que tem alguém nos arbustos aqui do lado."

Assim que essas palavras saíram da minha boca, uma silhueta ficou de pé no escuro e começou a dar uma corrida frenética contornando o meu prédio. Aconteceu tão rápido que não vi nada direito, nenhum traço físico, nada significativo, apenas roupas escuras e talvez um chapéu, mas sumiu de vista. 

Raina gritava comigo em pânico se precisava ligar para a polícia enquanto eu estava atordoada demais para responder.

Eu precisei de meses para ensinar Claudette novas palavras, meses para ela decorar novos sons, meses para que ela imitasse perfeitamente. Sem dúvida tinha demorado a mesma quantidade de tempo para que decorasse a respiração pesada e ofegante de alguém para que copiasse os sons tão perfeitamente. 

Meu estomago ficou embrulhado, achei que ima vomitar.  

Ela não tinha aprendido aqueles sons de algum vizinho ou um programa de TV. Tinha aprendido por causa de alguém que se escondia fora do meu apartamento, gemendo como um cachorro enquanto me observava. 

Cambaleei de volta para dentro de casa. 

Por cima do ombro, um dos tordos gritou para a noite.

Click click

A imitação perfeita de uma câmera tirando fotos. 


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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Algo pálido e silencioso

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Mudei recentemente para um novo apartamento, e tendo pouco dinheiro, tive que procurar pelo único lugar habitável em uma fila de prédios quase abandonados. Meu prédio era o único que não estava inacessível, e comparado aos outros, ele tinha potencial. Não havia eletricidade quando me mudei, não havia cortinas, tapetes – mas pelo menos havia água. Era um momento particularmente duro da minha vida (o qual não entrarei em detalhes) e eu estava agradecido por um novo começo. Eu poderia dar um grande passo aqui, assim que eu arrumasse alguns móveis. 

A primeira noite: Decidi dormir aqui, mesmo sem um colchão e apenas algumas velas para iluminar meu caminho, embora eu pudesse encontrar o banheiro apenas pelo cheiro. Após armar acampamento no que achei que fosse a sala principal, iniciei minha refeição que consistia em feijão gelado e biscoitos frios. Prometi para mim mesmo que assim que o sol surgisse, as coisas pareceriam mais confortáveis e eu poderia começar a arrumação... 

Depois de explorar os armários e gavetas à procura de tesouros e encontrar apenas um punhado de pregas de cortina e uma caixa de sapatos cheia de cadernetas velhas (provavelmente deixadas pelo dono do local), decidi me enfiar num canto usar minha jaqueta como cama. Tentar dormir curvado, sem nada para olhar além de uma janela escura, não era fácil, e o pensamento sobre o que poderia estar espreitando lá fora manteve minha atenção firme naquela janela a noite inteira. Como já era esperado, não consegui dormir muito e decidi andar pelo local um pouco mais. 

Achei uma caixa de fotos velhas na lareira, cada uma mostrava seis pessoas numa mesma janela, com as bocas abertas, e uma forma pálida no reflexo que eu não conseguia distinguir. Decidi esquecer isso, já que essas fotos me arrepiavam. 

Na segunda noite, eu já começava a me sentir mais confortável, e embora a maioria das minhas coisas ainda estivessem em caixas, e o local ainda não estivesse mobiliado, a luz do dia me deu a possibilidade de explorar melhor e planejar como arrumaria o lugar. Até preguei um velho cobertor naquela janela para evitar que qualquer coisa pudesse me espiar, e dar um basta em minha imaginação louca. 

À luz das velas, me ocupei em ler a fraca caligrafia nas velhas cadernetas que havia encontrado. Era o único entretenimento disponível, mas o que achei era bem interessante. Datando de cinco anos atrás havia um total de seis cadernetas, uma para cada inquilino – e em cada um havia apenas uma entrada... aluguel pago por um mês... e nada mais além de páginas em branco. Algo não estava certo... todos os seis inquilinos anteriores ficaram por apenas um mês ou menos. 

Começando a ficar assustado, decidi ir ao banheiro antes que a minha última vela desaparecesse completamente, e fiz meu caminho pelo corredor em direção àquele terrível banheiro enquanto observava minha sombra à minha frente, dançando pela parede desbotada até que nos encontramos outra vez na porta do banheiro. O cheiro era tão forte que eu conseguia prova-lo, e eu estava desabotoando a calça quando a última vela se apagou. 

Não tenho certeza onde eu mijei, mas posso dizer que foi a mijada mais longa da minha vida; eu não estava apenas na completa escuridão, como também não conseguia prender minha respiração por muito tempo. Corri de lá o mais rápido que pude... mas para onde eu estava correndo? A realização de que não havia mais vela caiu sobre mim, e com isso, uma densa escuridão cobriu as paredes. 

Os estalos das tábuas do chão começaram a soar como sussurros, e a umidade em todas as superfícies parecia viva ao toque enquanto eu passava as mãos cegamente pelas paredes. Finalmente encontrando a porta, entrei na sala e segui cuidadosamente para a janela. Talvez alguma luz da rua ou dos carros pudesse iluminar a sala, era só remover o lançou que eu havia pregado... 

Aquela janela que me deixou tão desconfortável agora era a minha única esperança. Esticando minhas mãos através da escuridão para puxar o lençol, senti o vidro frio. O lençol foi retirado, e enquanto meus olhos se ajustavam, eu o vi; no outro lado da janela escura, algo pálido e silencioso me observava, com a boca aberta, esperando pelo meu próximo movimento.

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As estranhas cartas para meu filho (PARTE 3)

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PARTE 1
PARTE 2

Estou tão enjoado agora que nem sei como escrever isso, nem sei onde começar. 

Tá, depois de recebermos a segunda carta ontem, a merda foi jogada no ventilador. 

Imediatamente, Carrie ligou para a escola de Kyle e falou com o diretor sobre as cartas e sobre a ameça para os amigos de Kyle. Logo, o diretor mandou um e-mail para todos pais do colégio, deixando todos cientes que a escola era provavelmente o lugar mais seguro para se estar, mas poderiam ficar a vontade se preferissem buscar os filhos. As turmas são pequenas, então todos os professores foram instruídos a ligarem individualmente para os responsáveis de seus alunos e explicar a situação. Recebemos o e-mail quinze minutos depois, mas preferimos deixá-lo na escola porque, mesmo que as câmeras já estejam instaladas aqui em casa, lá parecia ser mais seguro. 

E também deixa Kyle ainda ter parte de sua rotina. Falei ontem com ele sobre o que acontecer e pareceu entender a seriedade da situação. A primeira coisa que me falou foi "Desculpa" e começou a chorar, como se fosse sua culpa. 

Sei bem como se sente, amigão. 

Kyle se sente culpado por ter nos dado a carta e nós nos sentimos culpados por provocarmos o psicopata. Mas acho que era exatamente isso que esse doente queria. Bem, ele conseguiu. Bem fodido.

Liguei para meu chefe e recebi o dia de ontem e hoje de folga. Testei o sistema de segurança e me assegurei que todas as portas e janelas estavam seguras. Também liguei para o maior número de vizinhos que consegui para que soubessem da situação. É bem estranho ter que ligar para sua vizinha do outro lado da rua, que beira os 90 anos, para dizer que existe um provável psicopata/pedófilo solto pelo bairro, para que mantenha as janelas e portas trancadas. Ela não conseguia me ouvir direito, mas espero que tenha entendido a mensagem principal. Mesma coisa para a mulher que mora a algumas casas da minha, que tem dois filhos no ensino fundamental. Falei com ela enquanto ela estava caminhando com seu cachorro e ela surtou ali naquele mesmo momento, pegando seu celular para ligar para o marido.

Depois recebi a ligação do detetive Carr. Conseguiram o mandado de busca e executaram-no na casa 3 do Orange Circle. Lembre, essa casa fica uma rua depois da minha, menos de 400 metros da nossa residência. Se eu tivesse subido no telhado, poderia ter visto eles entrando lá. Dei um longo suspiro de alívio quando ele me falou que não havia ninguém morando lá. Era bom saber que essa pessoa não estava no nosso bairro nos vigiando o tempo todo. 

O detetive disse que havia encontrado algumas provas, mas se recusou a dizer o que era. Disse que poderia comprometer o caso. Isso faz com que eu acredite que o Psico/Pedo usava a casa para algo. Talvez levava as vítimas para lá? Também havia um porão, com um chão fino de concreto que parecia mais novo do que deveria, disse. Acredita que, se Suzanne Kerrington está morta, deve estar enterrada naquele porão. Vão começar a cavar, começando amanhã ou no dia seguinte. 

Ah, Detetive Carr também encontrou os arquivos do desaparecimento de Suzanne. Não tem muito lá, mas o detetive que trabalhou no caso dela ainda mora por aqui. Está aposentado, mas está disposto a conversar. Carr quer descobrir se existe algo que ele possa ter visto ou ouvido lá em 1995 que ajude no nosso caso - algo que talvez não tenha incluído nos relatórios por achar que não seria relevante. Até agora, é a unica pista que temos. Acho que irão conversar hoje. 

Tá bom. Deixei isso por último, mas tenho que contar tudo. Minhas mãos estão tremulas enquanto digito. 

Hoje quando acordei fui imediatamente pegar o jornal, esperando que houvesse uma matéria em destaque alertando sobre esse psicopata. Pelo menos assim eu poderia descansar um pouco a cabeça, sabendo que toda a cidade estaria preparada. 

Ao invés disso, li o seguinte:


POLÍCIA ESTÁ A PROCURA DE SEQUESTRADOR DE CRIANÇA 

Meu deus. Tudo se tornou real. Acho que no fundo eu esperava que o Psico/Pedo fosse apenas um degenerado que não tornaria suas ameaças reais, mas quando li a manchete, tudo veio desmoronando. Procurei entre as palavras até achar o nome do menino. Não era um amigo próximo de Kyle, mas eu o conhecia. 

Ele está no time de basebol de Kyle. Eu conheço seus pais. 

Os pais o tiraram da escola logo depois que o e-mail foi mandado. Jesus, devem estar se sentido péssimos agora. Me dói demais por eles, e nem sei se consigo conversar com Carrie sobre isso. Ela está fora de si. Mesmo que não tenha sido o nosso filho a criança sequestrada, esse é o nosso pior pesadelo. Ninguém merece isso. 

E é claro, tinha mais uma carta, que foi enviada para o jornal dessa vez, assim toda a cidade poderia ler. (Fiquei sabendo que o chefe da polícia local está furioso que tenham exposto a carta, sento que é uma prova do caso. O editor do nosso jornal local jamais perderia essa oportunidade, mas talvez isso lhe custe seu emprego). 

Eles ocultaram os nomes, mas eu sabia que eram os nossos. E todos os outros também saberiam. Numa cidade pequena como essa, todos sempre sabem. 

XXXX e XXXXX,

Saudações,

Eu os vejo (vocês não podem me ver)

e agora os outros também vão saber.

O rosto de vocês que era escondido,

agora vai ficar bem conhecido

e a escuridão irá se apoderar. 

Que escuridão, você pergunta? 

(Ah, você sabe, XXXXX)

O passado é uma velha bruxa instável.

No silêncio ela ganha resistência,

e só quer saber de violência

e limpa sua faca na manga, que amável. 

Porque não seguiram minhas instruções? 

Vocês que fizeram eu fazer isso.

E para ficar de prova, 

é por sua culpa que eu cavo a cova

e todos os segredinhos não ficaram mais omissos.

Mas antes (ha ha ha!)

Tenho um novo brinquedinho. 

E coisas novas me deixam sorrindo. 

Sua vida será acabada

quando chegar a madrugada

E pode ter certeza que será lindo. 

A não ser

que não queira que eu fiquei contente

Posso considerar devolver

o pequeno Andrew, que ainda está a crescer

porque sei como você é exigente.

Mas antes, é a hora da VERDADE!

(XXXXX, já fazem dez anos?)

E acho que você já sabe o caminho que está tomando.

Lembra do vidro esfumaçado,

dentro do carro parado,

e o cara que você estava chupando?

Fiquei ali, em estado de choque. Ele não estava mais tentando só nos assustar, estava tentando arruinar nossas vidas. Liguei para Carrie imediatamente, tremendo, perguntei sobre o que diabos ele estava falando. Ela já tinha me traído? Ela negou tudo, claro. Carrie está no trabalho hoje, mas vou conversar com ela quando chegar em casa. Fico me perguntando se tem algo que ela não está me contando, ou se esse lunático está inventando coisas para nos machucar. Não consigo pensar mais nisso. 

Só quero encontrar Andrew. Espero que o detetive Carr consiga falar com o antigo detetive hoje. Ele pode ser a única esperança para Andrew. 


DIA 28/02/2018: As estranhas cartas para o meu filho (PARTE 4)

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O que aconteceu com Éden

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Sempre fui ateísta. Meus pais estritamente Luteranos fizeram que a Bíblia fosse meu projeto de leitura de verão quando eu tinha dez anos. Infelizmente para eles, eu era uma menina esperta, e rapidamente me afastei da religião quando dei de frente com as hipocrisias do Livro Sagrado. 

Meninas espertas, principalmente as de pele escura, não tinham muito a almejar no meio do século XX. 

Eu li todos os livros na seção permitida para pessoas de cor na biblioteca pública pelo menos uma dúzia de vezes. Quando isso não era mais suficiente para saciar minha sede de conhecimento, subornei com doces uma amigável colega branca para que retirasse livros em seu nome para mim. 

Você deve imaginar meu alívio quando acordei do meu coma e a lei Jim Crown tinha acabado. 

O acidente, felizmente, foi rápido. Raio. Não me lembro de sentir dor. Lembro de parar na rua para tirar uma pedra do meu sapato. Lembro de olhar para cima e ver luzes. Raios. Então, escuridão.

Quando minhas pálpebras se abriram momentos ou anos depois, o céu acima de mim era de um malva empoeirado, como se pétalas de rosas tivessem sido colocadas em uma banheira de leite. A luz suave era filtrada pelas folhas das árvores, mas não conseguia ver o sol. O ar estava parado. Tenso. Quieto.

Puxei um enorme e raquítica lufada de ar. Meus pulmões queimaram, gritando para que eu parasse de respirar aquele ar pervertido. Sufoquei por minutos agonizantes, arranhando minha própria garganta e arrancando o gramado em minha volta. Pontos pretos dançavam nos cantos da minha visão. 

Mãos fortes me levantaram. Fraca demais para lutar, tentei gritar, apenas para ter a boca e o nariz tapados. Minhas mãos voaram selvagemente até meu rosto, arranhando s dedos de quem me sequestrava. 

"Guarde sua respiração, irmã. Esse ar venenoso não é para você inalar." Sua voz era calmante e rítmica, como sinos de vento de madeira balançando na brisa suave. Sem ter outra opção, e percebendo que eu deveria estar na cama do hospital sonhando, obedeci. Deixei meu diafragma relaxar, e minhas mãos caíram moles no lado do corpo. Quando o ar saiu de meu corpo, a dor também se foi. "Muito bem," falou minha salvadora. "Agora irei te soltar. Pedirei para que não corra, pois existem criaturas muito piores do que eu nesse jardim." Como prometido, as mãos em volta de meu rosto afrouxaram. "Pode se levantar? Deixe-me ajudar." Gentilmente me pôs de pé e virou-se para mim. 

Tinha cerca de um metro e oitenta, com tranças cor de cobre caindo elegantemente como ondas atrás das costas. Seu rosto pálido e rosa era suave e redondo, a não ser por seus perfurantes olhos castanhos escuros e sobrancelhas anguladas. Um vestido simples branco de algodão abraçava suas curvas. Enroladas em cada bíceps estavam cobras verdes esmeralda, deslizando por seus braços sem nenhuma malícia aparente em relação à humana. 

Esfreguei os olhos. Belisquei o antebraço. Não, não estava sonhando. Isso era certo. Entretanto, isso também não era a realidade, não a que eu conhecia.

Abri a boca para falar, mas senti o gosto terrível do ar tóxico em minha língua. A mulher sorriu tristemente. "Sinto que não posso fazer nada para ajudá-la a falar, irmã. Apenas nós que moramos no jardim conseguimos tolerar esse ar, e acredite quando falo que você não gostaria de residir aqui," explicou.

Onde é aqui? Pensei, olhando para o outro lado. À minha esquerda havia um rio borbulhante fluindo com águas índigo. Além do rio havia um magnífico jardim, cheio de flores e arbustos de todos os tipos. Mesmo lindo, as folhas e pétalas estavam pausadas, não eram nada mais que sussurros das cores que um dia tinham sido. À minha direita estava a árvore onde eu acordara. Estiquei o braço e toquei o a casca da árvore. Estava morna, como se a árvore pulsasse com veias como as minhas. Espalmei a mão em seu tronco, aproveitando o calor.

"A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal," falou a mulher, respondendo a pergunta que estava presa em minha garganta. "Um presente para todos, mas escondido do mundo." Sorriu tristemente, observando as vermelhas maçãs maduras nos galhos. "Eu ofereceria a ti um fruto, mas se já não tivesse provado, não teria acordado em suas raízes, não é mesmo?" 

Árvore do Conhecimento? Olhei para a flora empoeirada, para o céu roseado. Se essa era a árvore do Conhecimento, então esse tinha que ser o Jardim do Éden, embora não era o paraíso tropical descrito em qualquer lugar que já tinha lido. O que aconteceu aqui? 

"Venha, irmã. Não temos muito tempo. Se sua alma continuar longe de seu corpo por muito tempo, temo que a conexão possa ser prejudicada para sempre," disse, esticando a mão em minha direção. Hesitei. Eu podia não ter acreditado na bíblia, mas uma coisa era comum na literatura: não confie em cobras. 

Como se lesse meus pensamentos, ofereceu a mão de novo. "Confie em mim. Que outra opção você tem?"

Com isso, escorreguei minha mão pegajosa na dela. Sorriu para mim. "Você é sábia, irmã. Obrigada por sua confiança. Nós nos vamos agora. Temos que ir para a Árvore da Vida, antes que seja tarde demais."

"Eu fui quem plantou estas Árvores," começou a mulher serpente. Seus pés descalços dançavam graciosamente pelas pedras lisas. "Cuidado com os peixes, eles mordiscam," avisou por cima do ombro. Observei cuidadosamente meus dedões enquanto atravessava o rio. 

"Meu marido era frio e cruel, e esse jardim era minha escapatória." Uma escapatória realmente era. Borboletas flutuavam preguiçosamente enquanto atravessávamos o jardim. A grama exuberante ficava confortável entre meus dedos. Tentei imaginar como as rosas costumavam se parecer, antes da cor ser varrida de suas pétalas. 

"A Árvore do Conhecimento foi a primeira. Sob a luz das estrelas eu regava a muda com minhas lágrimas. Eu cantava para ela meus segredos. Como eu amava e odiava, como eu adorava e temia meu marido. Dos meus sussurros de felicidade e tristezas a magnifica Árvore cresceu, e de seus galhos vieram os frutos."

De repente, a mulher serpente exitou em seu caminho. Se agachou e gesticulou para que eu fizesse o mesmo. "Fique parada, irmã. Talvez ele tenha sentido sua presença." Retirou uma faca dentada de uma tira em sua cintura. 

Minutos se passaram. Eu não aguentava o silêncio. "Quem?" Grunhi, estremecendo com o queimar de minha garganta. Minha companheira se virou e silvou de um jeito muito serpentino, então voltou para sua posição, os olhos de um lado para o outro, como um caçador em busca de sua presa. 

A resposta para minha pergunta veio com o vento; o primeiro desde que eu chegara. Carregava murmúrios de uma língua estrangeira, colando meus pés na terra e colocando terror em meu coração. Assisti apavorada quando o azul das violetas foi varrido com o vento, como um mosquito que bebe o sangue de sua vítima. 

Finalmente, o vento passou, a mulher serpente respondeu. "Esse, minha irmã, é Deus."

"Quando a Árvore do Conhecimento deu seu primeiro fruto, comi graciosamente e eu Soube. Fui capaz de ver o Mal em meu esposo, e em mim." Estávamos nos movimentando a passos rápidos agora, acompanhadas das cobras finas como fitas que estavam na grama. "O homem não é, como Deus pretendia, perfeito. Longe disso. Carregamos em nossos corações o potencial de uma grande luz e uma terrível escuridão, todos e cada um de nós," explicou. "Pecado," riu, "não é nada mais que uma distração, feita para culpar o homem pelos erros de Deus." Outro rio. Pulamos em pedras para ir ao próximo, apressadas para alcançar nosso destino. "Ele nos esculpiu a partir do barro, segurou-nos em Suas mãos cósmicas, e soltou em nós o ar da Vida. Fazendo tudo isso, Ele cometeu um erro fatal: Ele nos criou em de Sua imagem." 

"Deus, embora Ele faça você acreditar o contrário, não é o único de Seu tipo. Não, Ele é o mais velho de sete irmãos, e o mais arrogante de todos. Os outros seis criaram reinos calmos e pacíficos, para observar e apreciar sempre." Novamente os sussurros da brisa, mais fraco agora, ainda assim malevolente. "Deus, entretanto, queria reinar um reinado. Portanto, Ele encheu esse jardim com criaturas de todos os tipos. Quando nenhuma delas se curvava diante Dele, criou o homem. Se vangloriou diante de nós, dizendo ser o nosso Divino Criador. Não éramos mais do que crianças, e o que mais sabíamos?" 

"Deus designou Adão para me dominar. E ele dominou, com uma mão firme. Deus de séculos sofrendo, eu cultivei a árvore do Conhecimento, comi de seu fruto, e abandonei Adão, cuspindo em seu rosto covarde." Agora ela corria, e eu seguia junto, as solas de meus pés batendo contra a terra macia. "Fiz essa mesma jornada de atravessar o jardim todas aquelas vidas atrás, e cheguei e cheguei em uma clareira." 

"Arrasada e exausta, tentei acabar com minha vida. Meu sangue correu para a terra e a árvore da Vida brotou, e debaixo da mesma, fiz minha nova casa. Muitos anos fiquei deitada na clareira, me tornando amiga das cobras que viviam embaixo da terra. De noite, o vento uivava, mas eu estava segura em baixo da árvore." 

Abruptamente, a mulher cobra parou. "A Árvore é logo em frente, irmã. Está a vendo?" 

E eu vi. 

Fogo cercava a enorme Árvore, um salgueiro de verdes, azuis e outras cores vibrantes que nunca havia visto antes. "Serventes de Deus," disse sobre os querubins que portavam espadas flamejantes. "Temos que tomar cuidado agora. O tempo é essencial, mas não haverá uma alma a ser salva se não tivermos precaução. Vamos descansar um pouco aqui para que eu recupere minhas forças."

O céu malva empoeirado estava mudando para um brilhante e profundo tom de ametista. Estrelas brilhantes salpicavam o céu, alfinetadas no oceano roxo acima de mim. Galáxias apareciam em ondas de rosa e azul bebê. Se eu não estivesse correndo por um jardim desfalecido, entre minha vida e morte, poderia ter achado lindo. 

A mulher serpente e eu nos deitamos atrás de alguns arbustos de rosas. Uma minuscula cobra deslizou e deitou em sua barriga. Seus dedos longos acariciavam despretensiosamente a coluna do animal enquanto falava em um tom baixo.

"Eu comi os pêssegos que cresceram na Árvore, e passei diversas décadas felizes vigiando os arredores do jardim, livre de meu marido. Então eu a vi." 

"Ela dançava entre as flores, borboletas em seus cabelos negros e magia em seu sorriso. Fui me aproximar dela, para me juntar a sua dança." Ela sorriu suavemente. "Mas lá estava Adão, perverso como sempre. Gritando com a pobre garota para parar de ser tão boba. Sua esposa." 

Um coro de de grilos começou a cantar na distância, mas harmoniosamente que na terra. Uma sinfonia crescendo na noite.

"As serpentes e eu os seguimos, até o outro lado do jardim, até a árvore do Conhecimento. Encontrei-a lá, agachada debaixo da árvore, olhando sonhadoramente para os frutos."

"O resto, acho que você sabe, irmã. Furioso que eu dei o fruto do Conhecimento para Eva, fazendo-a ver Ele pelo que realmente era, Deus expulsou os dois do jardim, me deixando sozinha aqui. O jardim... não consegui cuidar-lo. Porque criar algo lindo, se afinal de contas não terei com quem compartilhar?" Lágrimas correram por suas lágrimas. Peguei sua mão, acariciando gentilmente com meu dedão, sem conseguir dizer que sentia muito. 

"Por ter comido da Árvore da Vida, corpo e alma, estou condenada a passar a eternidade em solidão. Eva morreu faz muito tempo. Só posso esperar que esteja dançando nos céus, se é que esse lugar existe. Talvez a alma de Eva dance em outros reinos, cuidado por um Deus melhor."

"Agora passo meus dias escondida. Uma cobra em seu ninho. As vezes eu jogo um fruto lá para baixo, para sua Terra. É por isso, minha irmã, que te encontrei debaixo da árvore do Conhecimento. Você deve ter encontrado um dos meus frutos." Sorriu vagamente. "Compartilho o Conhecimento do melhor jeito que posso. E guio almas perdidas desse lugar desencantado. Não vou deixar que Ele machuque mais nenhuma irmã minha."

Ficamos deitadas juntas por uma ou duas horas, até que a mulher serpente se sentou. "Vamos agora. Criarei uma abertura na guarda. Você correrá o mais rápido que puder até a Árvore. Assim que estiveres debaixo dos galhos, você estará a salvo dos anjos. Coma a fruta, e retornará para seu corpo." 

Os querubins não são bebês angelicais com asas como imaginamos na terra. Cada um tinha quatro rostos; um leão, uma coruja, um homem e uma águia. Seus rostos estremeciam e mudavam entre as quatro criaturas, e cada transformação parecia ser mais dolorosa do que a última. 

Assisti as terríveis criaturas por ente as folhas de um arbusto descolorido de mírtilos. Minha companheira ficou posicionada quase como uma cobra, esticada e pronta para o bote. Enrolou seus dedos no meu pulso. "Não tema," sussurrou. Seus olhos castanhos escuros estavam brilhando em luto. "Seja veloz, irmã. Não olhe para trás." Seu aperto ficou mais forte. "Independente do que acontecer comigo, não olhe para trás."

Fiquei vagamente ciente do gelado que percorria meus pés. Cobras. Elas avançavam em direção dos guardas, silenciosas na grama morta. 

"Agora." 

As solas de meu pé socavam forte contra a terra, pernas voando selvagemente atrás de mim enquanto eu corria em direção da árvore. As pequenas serpentes já tinham chego no cercado de querubins; um por um, começaram a correr loucamente, guinchando atormentados. Me foquei somente em frente, ignorando os chiados de minha irmã serpentina atrás de mim.

Meus músculos gritavam em protesto. Apertei a mandíbula com os dentes, sem me atrever a respirar o ar tóxico. Um flash de verde esmeralda chegou em minha visão periférica. Ela estava duelando com uma criatura meio coruja meio águia, unhas como garras eram usadas como arma.

O vento gelado acima quase me congelou na corrida. Me forcei a ri ainda mais rápido, bombeando meus braços e pernas com o pouco de força que me restava. Deus tinha nos encontrado, Ele sabia que eu havia escapado. Com um enorme e último pulo por cima do fogo, passei pela linha de guardas e caí debaixo do salgueiro com um baque surdo.

O vento cantante não podia me atingir debaixo dos galhos, nem passar pelo fogo, nem pelos gritos da minha salvadora. Com o rosto quente pelas lágrimas, estiquei a mão em direção de um dos pêssegos maduros. Dei uma última olhada por cima do ombro para a mulher serpente. 

Ela estava congelada no campo, um tornado esmeralda empoeirado a cercando. Gritei por ela, querendo correr de volta, para salvá-la, mas sabia que não podia. 

Seu olhar lacrimejado encontrou o meu. Sorriu suavemente, suas bochechas tremendo de dor. Minhas mãos vibravam enquanto levava a fruta até a boca. Obrigada, sibilei, então cravei os dentes na carne macia do doce fruto.

Eu tinha estado em coma por quase cinco semanas, presa a um respirador e minha vida estava por um fio. Os médicos haviam dito que eu jamais andaria de novo. Quando acordei, saúde perfeita, minha mãe chorou e levantou as mãos para o céu. "Bendito seja o Senhor!", falou. "Deus seja louvado!"

Não era só o meu corpo que estava em estado perfeito de saúde. Algo sobre a fruta... me fez mudar. Impressionei os médicos novamente quando fui atropelada por um Ford Mustang, e consegui me levantar e andar para fora do hospital como se nada tivesse ocorrido. Impressionei-os de novo dez anos depois quando eu e meu marido não conseguíamos ter filhos, apesar de ambos termos sistemas reprodutivos perfeitos. E mais uma vez com quarenta anos, mas não aparentava ter um ano a mais de vida do que vinte e cinco.

A fruta não só retornou minha alma para o meu corpo e salvou minha vida. Ela me imortalizou. Não envelheço desde que cheguei ao período fértil. De algum jeito revitalizou meu corpo destruído, e então me congelou, como uma estátua. Estou assistindo meu marido se encolher e morrer enquanto continuo com meu corpo perfeito. Terei que deixá-lo em breve. Mudar meu nome, ir para o outro lado do país. E de novo em dez anos. E de novo. E de novo...

A Bíblia, a qual estudei de novo muito mais atentamente, fala sobre o Arrebatamento. Quando Deus vir para a Terra e levar Seus crentes para o Paraíso. Estou certa que verei esse dia chegar. Não não estou certa de que será um dia glorioso como os Cristãos acreditam. 

Eu sempre fui ateísta. Agora, sei que Deus existe. Sei que é real. E sei que está bravo. E sei que Ele está esperando por mim. 

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