Leite

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Quando eu era criança, eu era obcecado por leite.

Todos tivemos essa fase, certo? Onde havia uma comida um uma bebia que nunca enjoávamos e queríamos de manhã, tarde e noite. Esse era eu com leite. Eu podia beber direto da garrafa. Meus pais não se importavam, eles preferiam que eu quisesse algo saudável como aquilo para matar a sede do que refrigerante ou uma dessas bebidas concentradas cheias de açúcar que você tinha que adicionar água.

Eu poderia ficar doente às vezes, bebendo demais, muito rápido. Mas quem nunca? Até adultos podem ficar doentes por ter algo muito bom em excesso. Mas aquilo não era o suficiente para eu parar de tomar, nenhuma dor de barriga podia me separar do meu amado leite. Nada podia.

Ou foi o que pensei.

Veja, nossa cozinha era muito pequena, ou pelo menos muito pequena para caber a geladeira enorme (e freezer) que meus pais tinham. Então foi mantido no porão.

Certo verão, quando eu tinha por volta de 16 anos, meus pais decidiram que eu já tinha idade suficiente para ficar sozinho em casa enquanto eles saíam para uma segunda lua de mel ou algo assim. Eu não me importei, naquela idade preferiria ter ficado em casa com meus amigos do que ser uma terceira roda para meus pais enquanto eles tentavam reavivar o romance. Além disso, se eu precisasse de algo, meus avós moravam do outro lado da rua. Sim, minha família era do tipo que não se afastavam de suas raízes.

Foi bem tranquilo, como você pode esperar: Eu chamei alguns amigos e jogamos videogames, comia muito essas comidas de viagem e cuidava dos deveres de casa.

Até a terceira semana.

A casa era antiga, então estalos, gemidos e outros ruídos "inexplicáveis" eram algo que eu estava acostumado. Esta noite, no entanto, eu tinha acabado de sair do porão -a porta ficava na nossa cozinha- com um copo de leite, pronto para me arrastar pela escada e me acomodar na cama durante a noite, quando ouvi um barulho incomum vindo do cômodo de onde eu tinha acabado de sair.

Tentei presumir que era apenas as escadas antigas rangendo após eu subir, mas havia algo estranho naquilo. Em meus dezesseis anos morando naquela casa, eu nunca tinha ouvido nada parecido. Imaginei que fosse algum animal selvagem, talvez um guaxinim ou um gambá que de alguma forma tinha entrado durante o dia. Sendo um típico adolescente, isso não era algo que eu quisesse lidar tarde da noite, então eu simplesmente tranquei a porta do porão para evitar que ele subisse em casa e fosse até a cama.

A manhã veio e eu desci ao porão para verificar se havia algum sinal de animal selvagem, e além das poucas teias de aranhas, não havia nada, então decidi que realmente tinha sido um dos muitos ruídos da nossa casa antiga, peguei meu copo de leite habitual e subi de volta.

Naquela noite, o barulho voltou. Desta vez eu não tinha certeza se era simplesmente um rangido aleatório, porque começou exatamente na mesma hora antes de me dirigir para o quarto durante a noite. A única diferença era que eu não tinha ido ao porão ainda, então definitivamente não era o resultado de eu ter pisado em algumas tábuas velhas.

Sendo um adolescente nada valente, eu saí de casa correndo e fui para a casa dos meus avós. Felizmente eles ainda estavam acordados e meu avô era um cara grande que ninguém gostaria de mexer. Ele prosseguiu com sua espingarda para investigar, apenas para voltar meia hora depois afirmando que não conseguiu encontrar nada ou ninguém. Ele raciocinou, como eu, que talvez fosse um guaxinim e que escondido em algum lugar lá embaixo, e tinha trancado o lugar para não sair como eu havia feito na noite anterior.

Eu fiquei na casa dos meus avós a partir deste ponto, voltando para a casa durante o dia para cuidar de algumas tarefas e jogar em meu Nintendo por algumas horas. Eu não voltei para o porão, optando por comer e beber na casa dos meus avós também.

Cerca de uma semana antes dos meus pais voltarem houve uma tempestade de verão que causou uma queda de energia. Durou alguns dias, mas me deu mais motivos para passar o tempo restante em que meus pais estavam longe na casa dos meus avós.

Quando eu voltei de manhã para abrir as cortinas, notei um mau cheiro se espalhando por toda a casa. Sabendo que a energia tinha caído, eu presumi que o pesado odor pungente estava vindo da comida na geladeira e no congelador que havia começado a estragar. A ideia de lidar com isso era desagradável, mas não era algo que eu queria que meus pais fizessem quando chegassem. Meus avós estariam fora da cidade a noite visitando meu tio-avô e eu não estava muito a fim de limpar comida podre sozinho.

Então eu fiz o que qualquer adolescente faria e deixei pra lá. Usei um spray com cheiro de flores lidar com aquilo, preferindo comer cereais e beber água do que descer até o porão e ficar sobrecarregado pelo trabalho de limpar.

Aquela noite foi particularmente quente - mesmo para o verão - e então eu acabei ligando o ar condicionado. O ar fresco que se espalhava pela casa era um alívio, e assim eu dormi, mas logo me arrependeria daquela decisão.

Acordei por volta das 4 da manhã para encontrar o ar da casa quente e úmido, estava pior do que quando eu tinha ido para a cama. Pior ainda, o cheiro estava tão dorte que eu podia sentir o gosto na minha boca. Era doce e azedo ao mesmo tempo, misturado com o cheiro sulfúrico de ovos podres e algo que meu cérebro adolescente só conseguia descrever como alguém que não havia chegado no banheiro a tempo.

Pensei sobre uma época em que eu era mais novo, quando meu pai tinha acidentalmente tirado a geladeira da tomada e nenhum de nós percebeu até que o leite estragou. Eu podia lembrar do cheiro enquanto me engasgava e corria até o banheiro, me ajoelhando em frente a privada enquanto meu estômago ameaçava se esvaziar. Era doce e amargo como esse cheiro, com algo ácido que eu nunca soube como explicar, e eu podeia me lembrar da pasta grossa que o leite havia se tornado, nada disso me ajudou, pois o cheiro que enchia a casa parecia inundar cada poro do meu corpo. Eu podia sentir o cheiro na minha roupa, era tão forte que meus olhos lacrimejavam, e então, meu estômago se embrulhava e eu vomitava.

Como o cheiro ficou tão ruim em poucas horas?

Foi só quando eu estava me limpando na pia que eu notei que as aberturas de ar não estavam empurrando nenhum ar fresco. Sabendo que eu obviamente não tinha desligado, já que eu estava dormindo, presumi que o sistema ainda estava bagunçado após o blecaute. Eu não podia ficar naquela casa com aquele calor e cheiro ruim e então, usando apenas minha cueca, eu fui para a cas de meus avós, e mais uma vez, passei a noite lá.

Quando eles chegaram de manhã eu os expliquei a situação. Não ficaram felizes por eu não ter cuidado dos alimentos estragados no dia anterior, mas concordaram em ajudar antes que pudesse ficar pior.

"Pior" seria um eufemismo para o odor que nos golpeou assim que entramos. Minha avó não conseguiu nem entrar na casa, ela estava pálida e se reclinou na mesa da varanda, segurando o vômito. Até meu avô perdeu a compostura ao colocar o pé em casa, tendo que tirar um pano do bolso para cobrir o nariz e boca.

"Fique aqui", ele me disse, um comando claro mesmo com suas palavras abafadas. Eu, não o ouvi, é claro - porque pra mim não tinha sentido ele me fazer ficar do lado de fora enquanto ele limpa tudo sozinho - assim que ouvi a porta do porão se abrir eu corri para a cozinha.

Eu só posso descrever a caminhada naquela cozinha como tendo o seu rosto a milímetros de uma porta de forno quando é aberta e a onda de calor atinge seus pés. Era tipo isso, mas só o cheiro. Eu podia ouvir meu avô vomitar e tossir quando ele desceu as escadas, e eu em breve estaria fazendo o mesmo enquanto descia até a porta do porão com os olhos lacrimejando.

Meu avô era um cara durão, mas eu nunca tinha ouvido ele xingar até aquele momento. Era como se ele ele estivesse guardando tudo para aquele momento, com uma série de palavrões saindo da boca dele. E enquanto isso eu descia as escadas encurralado pelo cheiro que parecia queimar minhas narinas.

Gostaria de ter ouvido meu avô quando ele me disse para ficar com minha avó.

Ele gritava comigo para subir, mas já era tarde. Eu já havia visto.

Os sons que eu tinha ouvido do porão não eram da casa, e nem de um animal.

Era de um humano.

Um humano agora apodrecendo no calor do verão e pendurado na saída de ar. Agora eu sabia o motivo de ter parado de funcionar, e como o cheiro tinha empesteado a casa inteira tão rápido. E também explicava o porquê nem eu e nem meu avô tínhamos achado nada ao investigar o porão - estavam na saída de ar. O fato de uma pessoa de alguma forma ter entrado na minha casa já era bastante perturbador, sendo o primeiro corpo morto que eu havia visto era pior. A morte é uma parte da natureza, mas uma parte nojenta quando as formas formas humanas habituais de lidar com isso não estão em prática.

Um corpo apodrece rapidamente no calor, e seu cadáver estava pendurado de tal maneira que eu tenho certeza de que se tivesse ficado ali mais um dia ou dois o corpo teria rasgado pela metade. Os fluidos vazavam pela parede: sangue coagulado, um líquido marrom sujo que eu não queria nem pensa no que era, e o pior de tudo - algo espesso, branco e com uma característica de pus que me lembrou aquele leite amargo.

O cheiro de morte se agarra a tudo, e mesmo depois que o corpo foi removido, todos os móveis de lá foram jogados fora e o porão fumigado, embora tenha demorado um bom tempo. Joguei fora as roupas que eu usara naquele dia, não importava quantas vezes elas eram lavadas, o cheiro ainda estava lá. Não consegui ir até o porão, ainda me atingia como um caminhão cada vez que eu passava pela porta. Mesmo meus pais, que tiveram a sorte de não estarem lá durante o pior, não conseguiram lidar com isso. Nos mudamos para a rua de trás, e pelo que meus avós nos contaram, sempre que alguém se mudava pra lá reclamava do cheiro.

Nós nunca descobrimos como eles entraram, a polícia acreditava que deveria haver alguma janela aberta que eu deixei passar e eu estou inclinado a concordar. Eles eram sem-teto, procurando por comida e abrigo, não posso culpá-los. Na verdade eu me sinto culpado, de certa forma. Os ruídos que eles fizeram furtivamente pelo porão de noite me fizeram correr para a casa dos meus avós. Talvez se eu tivesse ficado, eu os teria ouvido chamar ajuda - se eles realmente pediram - quando ficaram presos no respiradouro. Talvez eles ainda estivessem vivos. Eu não sei.

O que eu sei é que daquele dia em diante, eu não consegui mais beber leite. Até o cheiro de leite fresco trazia o odor da morte de volta para mi, como se estivesse preso e esperando em algum lugar atrás do meu nariz. A visão me lembrava dos fluidos que escorriam pelas paredes do porão.

Quando eu era criança eu adorava leite, agora eu odeio.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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A Pior Pergunta de Todas

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Existem dois tipos de mundo: O visível e o invisível. 

Me chamo Normani e nasci com o dom de escutar aquilo que as pessoas normais não podem, mas tento usar essa coisa que as pessoas chamam de dom para ajudar quem precisa. 

Moro sozinha numa pequena cidade chamada ‘Cold Mountains’ e geralmente ajudo em investigações policiais; no começo me achavam louca, porém, aos poucos fui ganhando reconhecimento, mas sempre trabalhando ‘’secretamente’’ já que se todas as pessoas soubessem sobre mim, minha vida não seria nada calma. 

Era uma tarde fria de abril, tinha acabado de chover quando recebi uma ligação do delegado que comunicou sobre o desaparecimento de Melanie, minha melhor amiga. Aquela foi a pior noticia que eu poderia receber, Melanie era a única pessoa com quem eu podia confiar e contar meus medos. As pessoas pensam que quem possuí o dom da mediunidade está livre de ter qualquer tipo de medo por ver tantas coisas fora do comum, na verdade estão todos errados. Somos perseguidos diariamente por espíritos vagantes que se recusam a deixar o plano terrestre, alguns demônios também surgem no meio do caminho. 

Semanas se passaram e as investigações não tomavam nenhum rumo, nenhuma pista surgia e meus dons também não ajudavam, aquilo me deixava tão frustrada que num certo dia comecei a gritar na sala do delegado pedindo para que  qualquer espirito pudesse me ajudar a encontrar Melanie. Naquele mesmo dia ao chegar em casa comecei a ouvir sussurros, algum espirito estava tentando contato, mas não podia entender nada, eram muitas vozes ao mesmo tempo. 

Lembro-me de ter me trancado no quarto e ligado o rádio no volume máximo para tentar não prestar atenção naquela confusão toda, mas as vozes estavam na minha cabeça e não dava para ignorar nenhuma delas; então comecei a chorar e pedi para que elas me deixassem em paz, mas elas continuavam ali. Peguei a caixa de remédios no meu guarda-roupa e tomei algumas pílulas, aos poucos fui ficando mais calma. 

Hoje faz dois anos que nenhuma pista da Melanie foi encontrada; já não me ligam mais para ajudar, eles acreditam que perdi o dom. Mas ouço vozes a todo instante, muitas almas me procuram para que eu diga aos policiais onde estão seus corpos, almas que desejam que suas famílias se despeçam de forma digna, como deve ser, mas como eu havia dito antes os demônios também surgem às vezes e alguns são mais fortes do que outros, me sinto fraca por ter sido manipulada por um há algum tempo atrás. 

De todas as vozes que escuto diariamente, a mais perturbadora e que gela a minha alma é a voz de Melanie, me perguntando por que eu a matei. 

(Autor: Andrey D. Menezes.) 

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Algo pálido e silencioso

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Mudei recentemente para um novo apartamento, e tendo pouco dinheiro, tive que procurar pelo único lugar habitável em uma fila de prédios quase abandonados. Meu prédio era o único que não estava inacessível, e comparado aos outros, ele tinha potencial. Não havia eletricidade quando me mudei, não havia cortinas, tapetes – mas pelo menos havia água. Era um momento particularmente duro da minha vida (o qual não entrarei em detalhes) e eu estava agradecido por um novo começo. Eu poderia dar um grande passo aqui, assim que eu arrumasse alguns móveis. 

A primeira noite: Decidi dormir aqui, mesmo sem um colchão e apenas algumas velas para iluminar meu caminho, embora eu pudesse encontrar o banheiro apenas pelo cheiro. Após armar acampamento no que achei que fosse a sala principal, iniciei minha refeição que consistia em feijão gelado e biscoitos frios. Prometi para mim mesmo que assim que o sol surgisse, as coisas pareceriam mais confortáveis e eu poderia começar a arrumação... 

Depois de explorar os armários e gavetas à procura de tesouros e encontrar apenas um punhado de pregas de cortina e uma caixa de sapatos cheia de cadernetas velhas (provavelmente deixadas pelo dono do local), decidi me enfiar num canto usar minha jaqueta como cama. Tentar dormir curvado, sem nada para olhar além de uma janela escura, não era fácil, e o pensamento sobre o que poderia estar espreitando lá fora manteve minha atenção firme naquela janela a noite inteira. Como já era esperado, não consegui dormir muito e decidi andar pelo local um pouco mais. 

Achei uma caixa de fotos velhas na lareira, cada uma mostrava seis pessoas numa mesma janela, com as bocas abertas, e uma forma pálida no reflexo que eu não conseguia distinguir. Decidi esquecer isso, já que essas fotos me arrepiavam. 

Na segunda noite, eu já começava a me sentir mais confortável, e embora a maioria das minhas coisas ainda estivessem em caixas, e o local ainda não estivesse mobiliado, a luz do dia me deu a possibilidade de explorar melhor e planejar como arrumaria o lugar. Até preguei um velho cobertor naquela janela para evitar que qualquer coisa pudesse me espiar, e dar um basta em minha imaginação louca. 

À luz das velas, me ocupei em ler a fraca caligrafia nas velhas cadernetas que havia encontrado. Era o único entretenimento disponível, mas o que achei era bem interessante. Datando de cinco anos atrás havia um total de seis cadernetas, uma para cada inquilino – e em cada um havia apenas uma entrada... aluguel pago por um mês... e nada mais além de páginas em branco. Algo não estava certo... todos os seis inquilinos anteriores ficaram por apenas um mês ou menos. 

Começando a ficar assustado, decidi ir ao banheiro antes que a minha última vela desaparecesse completamente, e fiz meu caminho pelo corredor em direção àquele terrível banheiro enquanto observava minha sombra à minha frente, dançando pela parede desbotada até que nos encontramos outra vez na porta do banheiro. O cheiro era tão forte que eu conseguia prova-lo, e eu estava desabotoando a calça quando a última vela se apagou. 

Não tenho certeza onde eu mijei, mas posso dizer que foi a mijada mais longa da minha vida; eu não estava apenas na completa escuridão, como também não conseguia prender minha respiração por muito tempo. Corri de lá o mais rápido que pude... mas para onde eu estava correndo? A realização de que não havia mais vela caiu sobre mim, e com isso, uma densa escuridão cobriu as paredes. 

Os estalos das tábuas do chão começaram a soar como sussurros, e a umidade em todas as superfícies parecia viva ao toque enquanto eu passava as mãos cegamente pelas paredes. Finalmente encontrando a porta, entrei na sala e segui cuidadosamente para a janela. Talvez alguma luz da rua ou dos carros pudesse iluminar a sala, era só remover o lançou que eu havia pregado... 

Aquela janela que me deixou tão desconfortável agora era a minha única esperança. Esticando minhas mãos através da escuridão para puxar o lençol, senti o vidro frio. O lençol foi retirado, e enquanto meus olhos se ajustavam, eu o vi; no outro lado da janela escura, algo pálido e silencioso me observava, com a boca aberta, esperando pelo meu próximo movimento.

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Trinitroxypropane

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O jovem Bob caminhava pelo quarteirão com os bolsos cheios de moedas para comprar chicletes na mercearia próxima ao posto de gasolina. O senhor David era dono do estabelecimento, mas dessa vez ao chegar lá Bob encontrou um homem de semblante fechado, seus olhos pareciam sem vida como se não houvesse alegria de viver. 

Bob perguntou onde estava David e ele apenas apontou para a porta dos fundos. O menino olhava encantando com tantas opções de doces, quando estava prestes a decidir foi interrompido pelo homem até então sério que lhe deu um sorriso amarelo e se apresentou: 

- Me desculpe, hoje não é um dia muito bom na América, você é apenas um menino e só quer mascar alguns chicletes certo? 
Bob. -Sim.. 
- Meu nome é Jamel, muito prazer. Gostaria de levar os chicletes multi-sabor? 
Bob. – Que legal! Eu não sabia que existia isso aqui, quero vários por favor. 
Jamel. – Chegaram hoje, é um novo sabor que logo será mania em várias partes do mundo se crianças felizes como você comprarem. 
Bob. – Vou voltar aqui e comprar muitos outros. 
Jamel. – Haha. O homem deu um sorriso ainda mais forçado que o primeiro.  

O menino esvaziou os bolsos e colocou todas as moedas sobre o balcão, seus bolsos agora estavam cheios de chicletes e sua cabeça não parava de pensar nos vários sabores que cada um poderia ter. Enquanto atravessava a rua em meio à multidão Bob retirava a embalagem fosca do chiclete que fazia sua boca salivar. O semáforo autorizou que os carros seguissem em frente, todo aquele barulho de trânsito era ensurdecedor, mas nada comparado ao som da explosão que veio em seguida.. 

(Autor: Andrey D. Menezes.)

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Vox e Rei Beau: Perguntas e Respostas (PARTE 10)

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Desculpem-me por demorar tanto pra escrever ultimamente. Estou tão cansada de tudo, mas eu sinto que tenho que continuar com isso. O mínimo que posso fazer é responder perguntas agora...

Anonimo: Eu tenho uma pergunta. Fora toda a situação com Beau, como você descreveria sua vida como um todo agora? Você está feliz? Estressada? Há algo lhe incomodando? Como estão as coisas na faculdade/no trabalho? Seus amigos e família?

Minha vida tem sido bem normal, na verdade. Tenho um bom emprego, um apartamento decente, e já superei meu ex. Minha família e amigos são legais e estáveis. É por isso que isso vem do nada. Eu sou tão comum e normal quanto alguém pode ser.

Anonimo: Vox, quais são as dimensões de Beau? Suas descrições de seu sonho evocam imagens de Michael Jackson com as mãos esqueléticas, pele pálida e vestes bregas. Ele é alto? Você pode descrever sua voz? Como é o rosto dele? Suas maçãs do rosto são pontudas? Como é o seu cabelo? Ele tem dentes como os de um crocodilo ou seria mais como os de um dinossauro?

É difícil descrevê-lo corretamente porque tudo sobre ele não é exatamente humano e eu sou péssima para desenhar. Sua pele parece a de um albino. Seus dentes parecem com os de um crocodilo. São pontudos mas de tamanhos diferentes e se encaixam corretamente. Ele é alto - eu diria que ele quase tocou meu teto. Seu pescoço é longo. Seu sorriso é muito largo. Ele tem maçãs do rosto pontudas e grandes olhos. Seu cabelo é branco e penteado para trás.

Anonimo: Por acaso Beau se parece com aquele cara de The Nightmare Before Christmas? Jack, eu acho?

Não, e também não se parece com David Bowie ou Johnny Depp, como vocês vem conversando entre si, mas pode crer que isso não foi por falta de vontade. Ele só não parece humano. Desculpem por ser tão ruim para descrevê-lo. Eu nunca vi nada com ele. Pessoalmente não consigo superar suas mãos, mas talvez só por eu tê-las “sentido” algumas vezes.

Anonimo: Estou curioso – como a voz de Beau soa? É uma combinação de todas as vozes que ele coletou ou é distinta por si só?

Haviam duas. Sua voz normal, que é a que eu venho ouvindo, parece com a de um homem mas meio que distorcida. Como se passasse por alguma interferência, eu acho? Os suspiros soam como se você pegasse vinte vozes diferentes e as fizesse emitir as mesmas notas em uníssono mas em volumes diferentes e em tons diferentes. Como um coral mas abrigado em uma única garganta.

Anonimo: Ele foi alguma vez um companheiro para alguém da maneira que ele era/é com você?

Não que eu me lembre agora. Ele amava a Lua, mas não podiam ficar juntos. Ele tolerava muitas criaturas. Nas histórias ele parecia mais preocupado com reciprocidade e pegar o que quer que ele quisesse. Eu não tenho certeza se ele era meu companheiro ou se eu era só outro prêmio. Eu sei que muitos de nossos jogos envolviam eu lhe pagando com músicas ou aventuras por não me devorar, e ele me contava histórias

Anonimo: Você lembra se a lua no céu tinha algum efeito em Beau?

Sim. Ele olhava para a lua, adorava o luar, etc.

Anon: Eu quero acreditar que você era mais que um prêmio para ele, mesmo que ele lhe considerasse “dele”. Parece que ele criou uma conexão muito próxima com você, ou ao menos tão próxima quanto alguém da natureza dele consegue. Acho que pode-se dizer que ele estava tentando te proteger de Fuzzy, e não apenas porque você fosse dele. O fato de que ele parecia passar tempo te contando sobre si mesmo e suas histórias poderia dizer muito, mas eu acho que pode ser interpretado de modo diferente. Podem haver um número de razões para o retorno dele. Eu não acho que você esteja louca porque há muito nesse mundo que nós não sabemos sobre e não podemos explicar, mas da maneira que as coisas estão acontecendo eu diria que a última coisa que Beau quer fazer é lhe machucar.

Anon: Eu acho que ela era só um prêmio para ele. Mas as outras histórias me fazem crer que ele não era maduro o bastante para vê-la como uma companheira. Parece muito com uma criança passando pela fase do “é meu!”

Talvez seja um meio termo. Ele parece uma criança possessiva, mas ele também passou anos me aturando. Ele poderia ter pego o que queria e ido embora.

Anonimo: Explicação racional (e chata): está tudo em sua cabeça.

Paranormal: Beau é um fantasma ou outro tipo de criatura paranormal. As histórias que ele lhe contou até agora são ficção. Digo, a escuridão roubou a lua mas ele a salvou e colocou de volta no céu? Você mesma disse que ele é vão. Esse fantasma/demônio provavelmente gosta de criar histórias em que ele é o herói para satisfazer seu próprio ego. Quando você o viu vomitar os vermes de alcatrão, você viu sua forma verdadeira. Se eu fosse você, tomaria cuidado de agora em diante.

Racional: Minha tomografia está marcada para a próxima quarta. Não se preocupe: não ignorei essa possibilidade.

Paranormal: É possível que ele esteja inventando tudo isso. No entanto, ele parecia sentir uma enorme dor quando começou a vomitar. Eu não sei se essa seria sua forma verdadeira quando ele passou anos sem fazer isso antes. Os besouros me lembraram daqueles da história da Lua. Talvez meu sonho tenha reciclado isso.

Digo, eu gostava de tê-lo por perto porque ele era meu amigo imaginário, mas quanto a ser uma de suas posses, isso não faz meu tipo. Eu não sei por que minha eu criança imbecil achou que uma relação abusiva com um rei demônio era uma amizade imaginária perfeita, mas isso não indica como minhas relações adultas têm sido.

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Vox e Rei Beau: Beau e os Apanhadores de Sonhos (PARTE 9)

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Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

Ultimamente o assunto tem sido sonhos, então é com isso que vou continuar. Eu lembro que Beau não me visitava sempre durante as horas em que eu brincava. Eu constantemente sonhava com ele durante a noite, me unindo a ele em suas aventuras ou continuando as nossas. Talvez por isso as memórias tenham ficado tão turvas. Algumas partes são incrivelmente vívidas, como se eu as pudesse ver com o olho da mente. Outras mal fazem sentido e eu mal consigo entender o que está acontecendo nelas. Enfim, a próxima história é Beau e os Apanhadores de Sonhos.

Beau observa Vox dormir, por aelur
Rei Beau gostava de me ver cair no sono. Ele apoiava seu queixo na minha cama e sorria com a boca levemente aberta, os dentes brilhando com a luz da lua. Eu falava com ele por algum tempo, mas nós tínhamos que cochichar porque se minha mãe nos ouvisse, ela entraria no quarto para reclamar.

Uma noite eu falei pra ele que esperava ter um bom sonho. Ele me garantiu que eu teria.

“Eu lhe trago sonhos”, ele disse. “Eu posso pegar qualquer sonho de que eu goste nos campos e trazer para você quando você dorme.” Eu perguntei como isso era possível, e essa foi a história que ele me contou.

Em suas caminhadas, Rei Beau não vinha apenas ao nosso mundo para roubar vozes. Haviam muitas coisas para ver por todo lugar e muitas coisas para roubar para si. Em uma jornada em particular ele se viu nos campos dos sonhos. Eles não eram campos como os que conhecemos, de grama e flores. Era um plano cheio de névoa que nunca se dissolvia. Por entre a névoa ele podia ver pequenos brilhos, como pequenos relâmpagos dentro das nuvens. Conforme ele se aproximou, os brilhos projetavam imagens na névoa, mas apenas por poucos segundos. As cenas eram clipes de pessoas voando ou animais ou lugares. Eram sonhos.

Beau não estava sozinho nos campos. Conforme ele passou pela névoa, ele encontrou estranhas criaturas. Elas sentavam nas pedras ou se deitavam no chão encarando a névoa. Elas tinham grandes canos que usavam para sugar os brilhos conforme apareciam. Eles caçavam os sonhos e os comiam.

Sonhos não são nada. Eles não tem valor ou substância. São apenas pensamentos perdidos e a sujeira da mente. Ao menos era assim que Beau os descrevia. Por isso, os corpos dos Apanhadores de Sonhos estavam sempre procurando por mais, mesmo que suas mentes precisassem apenas de sonhos doces. Eles tinham tentáculos saindo de cada um dos poros de sua pele, raízes sempre procurando mais para sustentá-los. Qualquer coisa que entrasse nos campos seria atacada por seus tentáculos famintos e perfurantes.

Beau, como sempre, não estava com medo de qualquer caçador ou sonho. Ele andou pelo campo porque não havia uma rota alternativa e ele definitivamente não ia voltar depois de chegar em um lugar tão interessante. Infelizmente as raízes dos Apanhadores começaram a notar sua presença, e logo até os Apanhadores não podiam resistir à ideia de agarrar suas vestes e tentar arrastá-lo para o chão para si. Os Apanhadores não tinham dentes porque tudo que eles faziam era sugar em canos. Seus olhos eram enormes, e seus narizes pareciam mais com bicos. Beau tentou lutar contra eles, mas, contrário às faces na caverna do Monstro do Closet, os Apanhadores não estavam presos ao chão. Eles o sobrecarregaram em número.

Beau roubou um dos canos e tentou mantê-los distantes, mas os tentáculos eram pequenos e entraram em sua pele. Quando as criaturas haviam quase que completamente arrastado-o para o campo, uma grande corneta tocou. Os Apanhadores pararam e então correram, como se Beau tivesse se tornado venenoso. Quando eles haviam saído de sua vista, ele notou um jovem guerreiro em um cavalo pálido.

“Você perturbou os Apanhadores”, o guerreiro disse.

“Eles me perturbaram primeiro”, disse Beau. “Eu estava só tentando passar.”

“Você precisa conquistar o direito de passagem por meu reino”, o guerreiro respondeu. “Eu vou lhe ajudar. Posso ver que você é um amigo da Lua.”

Beau caminhou com o guerreiro pelo campo. Contanto que um ficasse perto do outro, os Apanhadores os ignoravam e voltavam a sugar os sonhos. O guerreiro tinha feições jovens e uma aparência delicada. Ele parecia tão digno quanto o outro perto dele, mas Beau suspeitou que a névoa tinha algo a ver com isso. O guerreiro brilhava levemente, como se as nuvens o fizessem brilhar, e ele era feito de prata e azul pálido.

“A Lua é minha irmã”, o guerreiro disse. “Eu cuido dos sonhos. Meu povo os faz, e nós os mandamos para aqueles que dormem do outro lado.”

“Mas vocês deixam os Apanhadores comê-los?” Beau perguntou.

O guerreiro apenas deu de ombros. "É a natureza deles. Não posso pará-los."

Beau sorriu porque achou que aquilo era tolo. “Eu sou o Rei do Lugar Quieto. Ninguém pode tomar o que é meu. Eu comeria a voz e vestiria a pele de quem tentasse.”

“Então você pode me ajudar”, o Rei dos Sonhos disse.

O Rei dos Sonhos levou Beau a uma grande torre feita de pedra polida tão lisa quanto gelo. Eles escalaram a torre até a câmara do Rei, onde eles ficaram observando os vastos campos. A névoa se espalhava até onde a vista alcançava. Havia mais que apenas Apanhadores ali. Haviam rios profundos e estranhas criaturas em bandos. Mas ao Oeste a névoa se tornou escura. Os fragmentos de sonhos eram irritados e mais agitados. Os corpos de Apanhadores estavam caídos no chão e sendo dissecados por estranhos monstros, parecidos com pássaros. Esses abutres usavam garras para rasgar e devorar os cadáveres, procurando por qualquer último pedaço.

“Observe”, o Rei dos Sonhos disse e apontou para a extremidade da terra escura e em ruínas.

Um dos pássaros estava observando um Caçador e o Caçador apenas focava em consumir outro sonho. O monstro voou, circulando o Caçador, observando a situação até que mergulhou e atacou. O pássaro arrancou os olhos do Caçador com suas garras e usou sua boca estranha para arrancar uma bochecha. O Caçador tentou usar seus tentáculos, mas por algum motivo eles não conseguiam entrar no pássaro.

“São as penas”, o Rei explicou. “Elas são muito oleosas. Os tentáculos escorregam.”

Os gritos do Caçador atraíram mais monstros. Logo a criatura não fazia mais nada além de tremer e pular conforme dúzias de pássaros arrancavam pedaços de carne. Ao redor do Caçador a terra rachou e ficou manchada com a mesma infecção que atacava o outro lado da névoa. Os outros Apanhadores não fizeram nada para ajudar seu amigo morto ou salvar a si mesmos. Estavam muito ocupados com os sonhos.

“Meu irmão fez um pacto com a Escuridão. Ele quer infectar os sonhos e mandar a Escuridão para aqueles que dormem. Seus pesadelos vão destruir meus campos. Eu não tenho um exército meu. Não posso pará-lo enquanto ele controlar as minhocas.”

“Essas não são minhocas”, Beau respondeu.

“Não eles”, o Rei disse. “Eles se alimentam das minhocas.”

Quando ele entrou no campo dos sonhos, Beau achou que seria fácil de passar. O problema do Rei dos Sonhos não o importava, mesmo que a Escuridão jamais tivesse sido uma aliada do Lugar Quieto. No entanto, uma parte da Lua ainda estava em seu coração, e essa pequena parte nunca permitiria que Beau simplesmente deixasse aquele lugar para que a Escuridão a engolisse. Então ele concordou em ajudar o Rei.

Beau era muito espero, e sabia muito sobre minhocas. “Só há uma minhoca, mesmo que hajam muitas”, ele disse ao Rei. “Nós vamos matar a minhoca.”

Embora Beau não temesse nada, ele também não era tolo. Viajar pela névoa faria dele comida para os monstros alados que viajavam em bando procurando por comida. Sem falar que os Apanhadores certamente tentariam devorá-lo. Sendo esperto como ele era, ele decidiu duas coisas.

Primeiro, o Rei dos Sonhos iria com ele porque isso era tudo culpa dele. Segundo, eles viajariam atrás da Minhoca pelos túneis de minhoca. Fazia sentido. O Rei dos Sonhos não ficou nada feliz com essas duas idéias e fez um escândalo com a possibilidade de sujar suas roupas finas. Beau não se importou nem um pouco.

O Rei dos Sonhos levou-o para um grande buraco no chão onde as rachaduras da terra infectada se uniam. Ao redor do buraco haviam muitos esqueletos de Apanhadores e seus canos esquecidos, mas os pássaros haviam abandonado aquela área em busca de terras férteis para caçar. Com o arco do Rei e as facas, vozes, rapidez, força e muitas outras habilidades de Beau, eles se armaram e foram em frente.

A rede de túneis era confusa e frequentemente eles tinham que engatinhar por espaços apertados ou partes que haviam cedido. O Rei usou luz emprestada de sua irmã, a Lua, para guiar o caminho. Ela refletia nas paredes do túnel e queimavam quaisquer pequenas minhocas que poderiam causar problemas. Finalmente, eles chegaram em uma câmara cavernosa. Era iluminada com chamas escuras e coberta com a mesma pedra polida que a torre do Rei. Dentro dela estava um jovem guerreiro que parecia muito com o Rei dos Sonhos, mas suas características eram douradas e escuras. Enrolada e grossa com um rosto sem visão estava a Minhoca. Ela era gosmenta e pulsava, e conforme os dois observaram o guerreiro pegou uma faca e cortou dois pedaços dela. Os pedaços caíram no chão e pulsaram. Em sua vista, duas outras pequenas minhocas foram criadas.

“Você vê, Rei”, disse Beau. “Há apenas uma Minhoca.”

Tendo dito isso, ele atacou.

É claro que o Rei dos Pesadelos não ia deixar Beau simplesmente matar sua criatura preciosa. Ele berrou, e as duas minhocas pequenas foram direto para Beau. Em sua corrida, elas deixaram uma trilha de gosma venenosa que borbulhou e corroeu a pedra polida. Suas bocas abriram bastante e atacaram os dois Reis. O Rei dos Sonhos foi rápido e perfurou uma delas com uma flecha, prendendo-a e queimando sua pele com a fumaça. Beau desviou da outra e soltou uma de suas vozes mais penetrantes, que congelou a pequena minhoca no mesmo lugar e fez com que ela encolhesse em uma esfera que se dissolveu.

O Rei dos Sonhos preparou outra flecha e atacou a Grande Minhoca. O monstro se ergueu e tentou se enrolar ao redor do Rei, silvando conforme as flechas escavavam sua carne mas sem fazê-la perder a força para lutar. Enquanto o Rei estava concentrado em salvar seu reino, Beau prestou mais atenção no que importava, e o que importava para o Rei dos Pesadelos era proteger uma pedra pendurada em seu pescoço. Beau sabia disso porque ele era um grande caçador e Apanhadores podem ver com alguém protege um prêmio. Isso, Beau decidiu, era seu alvo. Enquanto o Rei dos Sonhos mantinha a Minhoca ocupada, Beau foi atrás do Rei dos Pesadelos.

“Não me importa por que você ajuda a Escuridão,” Beau disse conforme as facas brilhavam contra a espada do Rei dos Pesadelos. “Não me importa que você também é irmão da Lua. Essa pedra é minha. Eu a obterei.”

O Rei dos Pesadelos era um grande guerreiro, muito rápido, mesmo que fosse pequeno. Mas o desespero fez com que ele hesitasse e alterasse seus movimentos para poder proteger a pedra, e isso era algo que Beau sabia bem. Ele soltou duas vozes nos ouvidos do seu adversário, confundindo-o e prejudicando seu equilíbrio. Com essa oportunidade, Beau roubou a pedra.

A Grande Minhoca congelou, o que foi bom porque o Rei dos Sonhos já estava quase sem flechas. As armas de prata cobriam a pele da minhoca, queimando-a de maneira que deveria enlouquecê-la, mas Minhocas não são criaturas inteligentes e raramente se importam com a dor. Ela congelou e encarou Beau que percebeu que havia vencido.

“Eu posso fazer a Minhoca comer seu irmão”, Beau disse ao Rei dos Sonhos.

O Rei dos Pesadelos, percebendo que havia perdido, não conseguiria escapar e não tentou.

“Não”, suspirou o Rei dos Sonhos. “É a natureza dele.”,

Normalmente Beau teria feito isso de qualquer forma, mas, novamente, a parte da lua que ainda vivia em seu coração fez com que ele mandasse a Grande Minhoca para longe, de volta para sua terra natal, sem que nunca retornasse aos campos dos sonhos. Beau manteve o coração da Minhoca para si e o Rei dos Pesadelos retornou para sua torre, derrotado ao menos por algum tempo.

No entanto, Beau não havia terminado. O irritava que o Rei dos Sonhos e os Apanhadores não fizessem nada para se defender. Ele odiava o fato dos Apanhadores tomarem o que quisessem sem pagar suas dívidas. Então ele subiu no topo da torre do Rei dos Sonhos e rugiu em uma voz tão poderosa que até a névoa tremeu e os sonhos silenciaram por algum tempo.

“ESCUTEM-ME”, ele rosnou.

Os Apanhadores escutaram.

“VOCÊS NÃO PODEM APENAS PEGAR ESSES SONHOS. VOCÊS PRECISAM TER UM PROPÓSITO. OLHEM.”

Ele apontou para um dos monstros alados, circulando a névoa procurando por alguma minhoca que houvesse sobrado e observando os Apanhadores.

“LUTEM”, Beau ordenou.

E um dos Apanhadores arremessou seu cano para cima. Ele atravessou o coração do monstro pássaro e o que escorreu dele era tão doce quanto o sonho. Daquele dia em diante, o Rei dos Sonhos tinha um exército e Beau podia pegar quaisquer sonhos que quisesse como pagamento por sua ajuda.

E é por isso que eu tenho bons sonhos.

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Eu sou um cartunista

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Você caminha sentindo o ar fresco, ouvindo as folhas secas estalando sob seus pés enquanto caminha para escola. É apenas uma curta caminhada da sua rua até o seu destino, para onde você vai todos os dias para aprender, assim como as outras crianças. 

No outro lado da rua, você vê três dos seus colegas de classe conversando. Você ouve o garoto loiro falar algo sobre sexo gay. Você os ignora e continua a andar. Logo, você passa por outros dois colegas de classe: um garoto e uma garota. Você não consegue lembrar o nome do garoto, era um nome bobo, como se ele mesmo tivesse criado. Convenientemente, ele fala o próprio nome quando você passa por ele. 

“Oi! Meu nome é Tenko!” ele fala para ninguém. Você o ignora também, não é nada incomum. 

Você chega à escola e senta em sua cadeira. Então percebe algo. 

Quando foi que esse lugar ficou tão ferrado? Você pensa consigo mesmo. Correndo a mão sobre as bordas de sua carteira, parece áspera e irregular. Agora que percebeu isso, todas as bordas da sala parecem serrilhadas e imperfeitas. Como não havia percebido isso antes? Todas as superfícies da sala de aula eram planas e sem detalhes. Sem sombras ou iluminação. Todas as cores parecem sem graça, como se estivessem ali apenas para preencher espaço. 

Você foca sua atenção no professor que está na frente da classe. Você jura que o rosto dele parecia completamente diferente, minutos antes. E agora seu rosto... está deformado e incompleto. Você apenas consegue ver dois pontos pretos onde os olhos dele deveriam estar. Seus colegas... quando começaram a parecer tão semelhantes uns aos outros? Você começa a perceber mais e mais detalhes. Objetos desaparecem quando você não esta olhando, os olhos dos seus colegas giram por todas as direções por alguns segundos, e suas mãos se deformam e se contorcem sem que eles percebam. Nada mais parece real. Você está sentado no centro da sala com esses loucos com corpos que se deformam e rostos vazios. O que mudou? Ou as coisas sempre foram assim? 

A ansiedade cresce. Você percebe as inconsistências. Por que todos falam como se seguissem um roteiro muito pobre? 

…o que aconteceria se você saísse do roteiro? 

Em pânico, você se levanta e corre para a porta. Quando agarra a maçaneta, ela se desintegra em sua mão, como linhas, e passa por seus dedos, como grafite. As linhas se espalham como vírus. As bordas serrilhadas das paredes transformam-se em linhas, fazendo com que as cores sem graça escorram para o chão. Você olha para os outros estudantes. As cores escorrem de seus rostos como cera, deixando nada além de vestígios cinzentos e um cheiro de carvão molhado. A classe se torna uma pasta cinzenta, uma sobra deixada por uma borracha suja. Você cai no vazio branco. 

Depois de alguns segundos, você aterrissa. Tudo é branco, como um papel novo. E então ele aparece. 

É um homem baixo, careca e gorducho, usando um fedora marrom e uma camisa azul. 

“Q-quem é você?” você gagueja para ele. 

“Eu... sou um cartunista.” 

“O que?” você se arrepia, “O que quer dizer? O que eu sou? O que aconteceu com minha classe e... com meu mundo?” 

“Você é um dos meus personagens,” ele responde, “Tenho milhares deles, e todos eles tem mente própria! Há há!” 

Você hesita, “Você… é Deus?” 

Isso o agrada. “Bom, suponho que sim. Sou um profissional.” 

Você começa a se irritar com esse homem pomposo. “Você é um cartunista horrível!” você grita, 

“Tudo estava tão errado. Tudo se desmanchou, estava terrível! Se é esse o tipo de mundo que você cria, então você não é um artista, apenas um amador!” 

“Não pedi por uma crítica...” ele murmura. 

Você sente uma dor na perna. Você olha para baixo para vê-la quebrando-se em linhas, assim como todos os seus outros membros. A cor em suas mãos cai em pedaços. Seu rosto começa a queimar com o atrito de uma borracha, e antes que possa gritar, sua boca se foi. Logo, você não é nada além de restos. 

Ele olha para os seus restos. Pegando um lápis de trás da orelha, ele fala, “Vamos tentar de novo,” e começa a criar outro personagem.

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