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O Jogo Das Sombras

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Bom dia/ Boa tarde/ Boa noite, Voltei ao blog, e espero continuar ativo! Aproveitem a creepy!
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"Feliz Halloween... ou quase. Pronto pra festejar?"

Chuck me deu um tapinha no ombro quando fez a pergunta, passando por mim através da porta da frente sem esperar uma resposta. A pergunta pareceu bem intencionada, como era praticamente tudo que Chuck fazia ou dizia ao meu redor. Transmitia que ele se importava o bastante pra vir a essa festa, em que ele provavelmente não queria estar, e ainda fazer uma pergunta bem-humorada enquanto entrava. Mas eu podia perceber a cautela em cada palavra. Nós não éramos amigos, não na verdade. Foi somente graças ao nosso amor mútuo pela minha irmã Vanessa que nossas vidas se cruzaram.

Ela estava logo ao lado da porta, e me deu um abraço apertado enquanto tentava não derrubar a tigela de molho que estava equilibrando na mão direita. Ela sussurrou no meu ouvido, "Você tá bem? Tá tudo legal?" e eu apertei suas costas enquanto respondia, "Sim Ness. Estou bem. Tô legal."

Quando Billy apareceu vinte minutos mais tarde, foi menos estranho. Ele tem sido meu melhor amigo por quase vinte anos, e eu falei mais com ele sobre tudo do que com qualquer outra pessoa desde que Amber morreu. Quando abri a porta ele só me deu um abraço curto e começou a falar com a Vanessa e o Chuck enquanto eu terminava de arrumar as cadeiras na sala de estar.

Minha esposa, Amber, morreu há seis meses. Ela sempre foi uma pessoa consideravelmente saudável, mas um ano atrás começou a se sentir mal. Ela foi diagnosticada com Diabetes Tipo 2, o que na época pareceu uma notícia ruim, mas tolerável. Então, num fim de semana tive que viajar à negócios. Amber pediu para ir comigo, mas estava com medo dela ficar entediada, e a encorajei a ficar em casa e descansar. Ela concordou e disse que tentaria chamar Vanessa e Chuck pro jantar nessa noite de sábado.

Amber e Vanessa se tornaram grandes amigas nos seis anos do nosso casamento, e ela costumava falar mais com a minha irmã do que eu mesmo. Além de algumas visitas ocasionais e mensagens, eu quase não falava com minha irmã pelo celular. Assim, quando acordei uma da manhã com meu celular apitando a chamada da Vanessa, soube que havia algo errado.

O legista determinou ataque cardíaco, com a diabetes marcada como fator contribuinte. Era algo raro para alguém nos seus trinta e poucos, mas aparentemente acontecia às vezes. Vanessa me disse que os três caíram no sono assistindo um filme, e quando acordou, ela e Chuck tentaram acordar Amber pra avisar que eles estavam indo embora. Amber não acordava. Eles chamaram a emergência e ela foi declarada morta no local.

Desde então, tudo tem sido como um borrão vermelho de ira e tristeza. Eu não queria estar perto de ninguém. Senti dificuldade pra trabalhar ou interagir com as pessoas, e todos os dias eu corria pra solidão de casa assim que possível, porque estar próximo aos outros era sufocante. Sempre me sentia como um peixe se debatendo para tentar voltar pra água, desesperadamente lutando para voltar pra casa e pra longe de todo o resto.

No fundo da minha mente, imaginava que as coisas melhorariam com o tempo. Que a ordem e monotonia do dia-a-dia suavizariam minha dor e me deixariam com esse peso que nunca iria embora, mas que se tornaria mais fácil de carregar. Isso não aconteceu. Minhas memórias dela não desapareciam. Eu continuava me esquecendo que ela havia partido. Eu ouvia algo eu outra parte da casa e por um momento assumia que era ela, antes de lembrar. Eu entrava em um quarto e podia jurar que ainda sentia o perfume dela lá.

Não me entenda errado. Não pensei que ela estivesse me assombrando ou algo assim. Só imaginei que minha mente não conseguia lidar com a realidade de que ela estava morta - e em algum canto do meu coração, eu estava lentamente decidindo que não queria mais nenhum pedaço dessa realidade.

Foi quando eu recebi a ligação do corretor de imóveis. A tia da Amber havia morrido dois anos atrás, e por não ter nenhum filho, ela deixou tudo que tinha para Amber após a morte. Consistia majoritariamente de sua casa, um pouco de dinheiro no banco, e uma loja de penhores que ela manteve por quase quarenta anos. Praticamente todos os patrimônios haviam sido arrumados antes da morte da Amber - a casa foi comprada por um casal recém-casados, e os itens na loja foram todos leiloados ou vendidos para outros estabelecimentos. Só a propriedade em si não havia sido vendida ainda, e pela importância que Amber deu pra ver isso tudo acertado, foi uma das poucas coisas pras quais me dediquei desde sua morte.

Consegui encontrar um comprador, e a venda aconteceu poucos dias antes do corretor me ligar. Ele disse que o novo dono encontrou algo escondido por trás de uma parede falsa no armazém da loja. O agente me disse que eles poderiam ficar com o objeto eles mesmos, uma vez que a compra já havia sido feita, e que o item em questão era claramente velho e potencialmente muito valioso, mas a dupla que comprou a loja tinha sido honesta e não se sentia bem em manter algo que eu provavelmente nem tinha ideia da existência quando vendi a loja.

Me forcei a escutar o que o corretor estava me dizendo, mas quando acabou falei que ele podia ficar com o objeto. Eu não me importava. Minha lista de tarefas estava cada vez menor, e uma vez que ela estivesse completa, já não teria certeza sobre quanto tempo ainda estaria por aqui.

Mas ele me disse que a coisa já havia sido encaminhada. E, claro, chegou no dia seguinte. Eu abri a grande e pesada caixa, mais por mania do que por interesse, até que vi o seu interior.

Guardei o cartão que veio colado com fita no topo do objeto quando o abri. Vi, quando me aproximei de uma lâmpada para ler, que estava repleto de pequenos rabiscos de uma cursiva quase ilegível. Chuck e Vanessa já estavam se sentando nas cadeiras que coloquei ao redor da caixa, enquanto Billy ainda estava um pouco distante bebendo uma cerveja. Todos pareciam interessados mas um pouco aflitos pela organização e pela caixa suspeita. Entretanto, dei um sorriso reconfortante e disse que esse seria nosso "jogo de Halloween" pra noite, ignorando seus olhares preocupados e começando a ler o cartão em voz alta.

"Esse item é a Caixa das Sombras de Izu. Minha pesquisa mostrou que existem outras caixas, mas aparentemente elas são muito raras, e todas de tempos e locais diferentes. Essa caixa foi feita na antiga Província de Izu, onde atualmente é a porção leste da prefeitura de Shizuoka, no Japão. Mesmo não tendo certeza, é possível afirmar que esse item foi feito entre 1750 e 1800. Não sou capaz de determinar a natureza de todos os componentes da caixa, mas sua composição básica é madeira bastante envernizada e metal. Os componentes mecânicos na caixa nunca passaram por manutenção - sequer foram vistos - desde que possuo a caixa, mas sempre funcionaram perfeitamente e sem falhas durante meus testes."

Me aproximei da caixa. A coloquei em uma mesa baixa no centro do anel de quatro cadeiras. A caixa é um hexágono de sessenta centímetros de altura feito de madeira preta com um metal marrom-cinzento revestindo cada uma das arestas. Praticamente não tem qualquer adorno, sem escritos ou símbolos na sua superfície - mesmo que eu ocasionalmente tenha imaginado ver vestígios de algum tipo de marca profunda na madeira preta. Embora a caixa passe uma aparência simples, o topo dela não é.

A aresta mais alta de cada um dos seis lados era ocupada por um comprido retângulo de vidro côncavo montado no metal tempestuoso. Eram os locais para olhar.  O topo da caixa é inclinado em cada ponta, direcionando para uma tampa de metal em seu centro. A tampa me lembra a de um saleiro gigante, só que com menos buracos e com sulcos na extremidade para prover uma melhor pegada. Essa tampa estava parafusada em um tubo metálico que levava pro interior da caixa, fora de vista. Tocando esse eixo metálico central, continuei a ler.

"A caixa é usada como está escrito a seguir: Podem participar de uma a seis pessoas, mas todos que estiverem no mesmo ambiente devem participar, e não podem ser mais de seis. Para começar, é preciso destampar o tubo central. Se olhar dentro do tubo, será possível ver uma vela vermelha. Importante: só use essa vela, e não se preocupe com seu desgaste."

Olhei pra cima e vi que os três estavam olhando pra mim e pra caixa com mais interesse agora, mesmo que ainda estivessem um pouco preocupados. Voltando ao cartão, continuei.

"Puxe a ponta do tubo e você perceberá que essa parte sai com facilidade. Esse é o reservatório da vela. Lembre de encaixar essa peça adequadamente quando você devolver o tubo, já que ele precisa ser recolocado com seus sulcos alinhados para que a caixa funcione sem falhas. Depois de retirar o reservatório da vela, você verá que há um pequeno compartimento abaixo dela. É onde os objetos pessoais ficam durante o uso da caixa."

"Os objetos precisam ser bem pequenos, claro, mas praticamente qualquer item que a pessoa possua servirá. Botões e moedas são as escolhas mais comuns, mas até cabelo ou dentes podem ser usados. Os únicos critérios reais são que seja uma posse do usuário, apenas um item por pessoa, e que os itens sejam pequenos o bastante para que fiquem todos dentro do compartimento ao mesmo tempo. A quantia de objetos, obviamente, varia de acordo com o número de participantes."

"Depois que os itens forem colocados na câmara inferior do tubo, o reservatório da vela deve ser recolocado e a vela acesa. A tampa então deve ser parafusada apertado. Você está pronto para começar."

Me sentei em uma das cadeiras vazias e gesticulei para que Billy fizesse o mesmo. Ele franziu a testa e deu um passo à frente, mas hesitou. "Que isso, cara? Algum tipo de sessão espírita ou algo assim? Vou te ajudar no que você precisar, só não sei quão saudável..."

"Não é a porra de uma sessão, ok? Só..." fiz uma pausa e respirei. Precisava me manter calmo. "Só preciso que todos vocês mantenham a mente aberta. Não estou tentando contatar Amber ou qualquer coisa do tipo. Isso só é uma coisa estranha que pensei que seria legal compartilhar com meus amigos. Estava nervoso de testar isso sozinho."

Vanessa se aproximou e apertou meu braço. Billy corou um pouco antes de se jogar na cadeira perto de mim. "Merda, cara. Me desculpe. Vou fazer o que você precisar." Assentindo pra ele, eu olhei de volta pro cartão.

"O primeiro participante coloca seus olhos no seu visor e então segura a tampa do tubo metálico. Ele deve girar o tubo central em sentido anti-horário. Se feito corretamente, o participante verá algo singular, que varia bastante de cada indivíduo. Apenas uma rotação é necessária, e quando sua vista escurecer novamente, seu turno terá acabado. Isso deve ser repetido até que todos completem um turno. Um segundo turno pode ser feito, mas não é recomendado. Sob nenhuma circunstância se pode falar sobre o que foi visto até que todos tenham completado seus turnos."

Olhei pra cima e sorri. "É isso. Agora... Vocês estão prontos pra festejar?"

Todos os itens pessoais foram colocados na caixa e Billy foi o primeiro. Inicialmente ele parecia estar em dúvida do que colocar, mas então pegou uma pequena borracha de abóbora da carteira. Sorrindo envergonhado, ele encolheu os ombros. "Um paciente me deu. Ser um pediatra tem suas vantagens."

Quando ele girou o tubo central, vi ambos Vanessa e Chuck se afastarem levemente com o barulho que aquilo fez. Era um estranho e solitário ruído áspero, diferente de qualquer coisa que se costuma ouvir numa noite repleta de cigarras. Minha irmã me encarou franzindo as sobrancelhas e disse "O que é essa coisa?" enquanto Billy continuava a inclinar-se para seu visor, o som oco do tubo começando a diminuir. Eu só sorri e dei de ombros antes de voltar a assistir Billy.

Depois de mais de um minuto, Billy sentou-se e piscou como se estivesse saindo de uma caverna. Seus olhos estavam desfocados enquanto olhava pra mim. "Que porra foi essa, cara? Como isso é possível?"

Chuck, do outro lado do círculo, perguntou. "O que você viu?" Vanessa o cutucou.

"Não podemos falar do que vimos ainda, lembra?" Ela olhou para o Billy. "Mas você tá bem?"

Billy esfregou os olhos e balançou a cabeça. "Sim... Sim, eu só... Não se preocupem comigo. Vão em frente e testem."

Chuck foi o próximo, tendo colocado uma moeda que estava em seu bolso. Ele havia acabado de girar o tubo quando Billy levantou-se e sentou-se novamente aos tropeços. "Eu... Acho que fiquei enjoado ou algo assim. Não me sinto bem. Eu deveria ir embora."

Tirei os olhos de Chuck e sacudi a cabeça. "Vai passar, provavelmente. Além disso, se está tonto, a última coisa que precisa fazer é dirigir um carro. Por que você não vai se deitar por alguns minutos enquanto terminamos? Você já acabou.”

Billy me encarou por vários segundos como se estivesse mensurando algo, e eu estava quase repetindo quando ele acenou com a cabeça. "Sim, ok. Vou tentar isso por um minuto. Mas não prometo nada."

Olhei para trás e notei que Chuck já estava quase acabando, mas quando o tubo parou, ele não se inclinou para trás ou disse qualquer coisa. Vanessa olhou para mim com um ar de dúvida. "Algo está errado."

Eu franzi a testa. "Sim, não sei. Ei, Chuck?" Quando ele ainda assim não respondeu, Vanessa balançou seu ombro e, em seguida, deu-lhe um empurrão leve. Isso pareceu despertá-lo o suficiente para que ele sentasse e nos encarasse timidamente.

"Hum, Desculpem caras. Acho que dormi naquela coisa. Foi uma semana longa no trabalho."

Vanessa olhou para ele. "Você está me dizendo que você dormiu em três minutos mexendo nisso? Com seu rosto deitado contra essa caixa estranha?”

Ele encolheu. "Eu acho. Eu só... Olha, eu odeio ser o estraga-prazeres, mas podemos deixar isso pra lá e ir, querida?” Chuck olhou para mim. "Sinto muito, cara. Eu queria sair hoje à noite, mas meio que tô com o Billy nessa. Não me sinto tão bem agora.”

Eu me levantei. "Me desculpe, cara. Quer que eu veja se eu tenho alguma coisa para a sua cabeça ou enjoo ou algo assim?”

Ele balançou a cabeça quando começou a se levantar. "Não, eu acho que só preciso ir para casa na verdade. Podemos fazer isso outra noite."

Eu olhei para a minha irmã. "Ness, por favor, não vá. Desculpe que não está dando tudo certo, mas estou mesmo tentando. Demorou muito pra mim até mesmo conseguir convidá-los.”

Ela mordeu o lábio e olhou para Chuck, depois de volta para mim. "Eu sei. Eu sei." Ela olhou para a caixa e depois virou-se para o marido. "Olha, vamos ficar um pouco mais. Descanse e eu acabo de jogar o jogo. Se você não começar a se sentir melhor, nós vamos, eu prometo.” Chuck ia discutir, mas Vanessa já estava inclinada sobre a caixa.

Chuck me deu um olhar duro antes de ir para o sofá que eu tinha empurrado para trás contra uma parede distante da sala de estar. Eu podia sentir os olhos dele queimando um buraco nas minhas costas, mas tentei ignorá-lo. Não queria perder a reação da Vanessa. Não precisei esperar muito já que, depois de alguns segundos, ela começou a falar em voz alta, num quase grito.

"O inferno é uma floresta profunda e escura. Sua terra é fria, suas árvores são rígidas. Entre as sombras habita o rosto do caçador. Por favor, envie outro em meu lugar.”

Ela disse as palavras com pressa e depois ficou em silêncio, como um motor queimado em seu último suspiro. Ness deslizou para fora de sua cadeira e caiu no chão. Chuck já estava de pé, e quando ele a viu começar a se debater silenciosamente no chão, passou por mim para ajudá-la. Foi fácil enfiar a arma de choque em suas costelas e jogá-lo ao lado de sua esposa como um peixe morrendo.

Eu não tinha certeza do que estava acontecendo com Vanessa ou quanto tempo duraria, mas eu sabia que só tinha alguns segundos antes de Chuck voltar. Antes de meus convidados chegarem, eu tinha colado uma faca de açougueiro com fita adesiva sob a mesa em que estava a caixa. - uma das várias armas que eu havia escondido para diferentes cenários possíveis naquela noite. Eu o retirei de seu esconderijo enquanto ia pra cima do meu cunhado. Ele já estava recuperando os sentidos e tentou agarrar meu braço, mas ainda estava muito lento. Eu enfiei a faca no pomo de Adão dele e dei um forte giro.

"Isso é pela Amber, seu filho da puta."

Ele se contorceu por um punhado de batimentos cardíacos, mas quando soltei a faca e a empurrei garganta abaixo com todo o meu peso, suas mãos caíram no chão como pássaros mortos. Um olhar para seus olhos e eu sabia que ele havia partido. Boa.

Olhei para Vanessa, vi que ela tinha parado de convulsionar, mas seu único movimento era respirar pesadamente. Pelo menos ela ainda não estava morta. Lembro-me de ter pensado naquele momento que tudo estava indo tão bem porque estava fazendo o certo. O justo. Amber não era perfeita, mas ela não merecia o que eles fizeram com ela, e todos iriam pagar.

Levantando-me de Chuck, limpei a faca na perna da minha calça e fui para o quarto onde Billy deveria estar. Eu tinha que presumir que ele poderia estar ciente do que tinha acontecido na sala de estar, então eu estava tenso e pronto para um ataque quando abri a porta do quarto. Acendendo a luz com a mão segurando a arma de choque, procurei algum sinal dele, mas não havia nenhum.

Xingando sob a minha respiração, eu quase voltei para o corredor antes de notar que a porta do banheiro estava fechada e a luz estava acesa. Coloquei o ouvido na porta por um minuto, mas tudo estava quieto. Olhando atrás de mim para qualquer emboscada em potencial, chamei Billy como se estivesse checando, vendo se ele estava doente no banheiro. Nada.

Eu torci a maçaneta e ela não se mexeu. Trancada. Tudo bem. A porta era frágil e nada iria me impedir de terminar o que eu tinha começado. Dois chutes e a porta se abriu. Eu dei um passo para frente e olhei para dentro do banheiro, inicialmente confuso com o que estava vendo. Billy estava deitado na banheira vazia, morto. Ele usou o canivete que sempre carregava para cortar os pulsos na horizontal e na vertical e, a julgar pela quantidade de sangue acumulado sob ele, aconteceu quase imediatamente depois de nos deixar ou ele sangrou muito rapidamente. De qualquer forma, eu disse uma palavra silenciosa de agradecimento à caixa. Billy era maior e mais forte do que eu, então o maior problema que enfrentaria seria ele. Aparentemente, o que quer que tenha visto na caixa de sombras bastava para convencê-lo de que precisava fazer a coisa certa, afinal.

Voltando para a sala de estar, vi que Vanessa estava começando a recobrar consciência. Ela estava de quatro, tentando se levantar apoiada em uma cadeira, mas falhando miseravelmente. Não ajudou quando chutei sua caixa torácica, mandando-a rolando de costas. Quando ela olhou para mim, vi que ela tinha pequenos pontos de sangue nos cantos de seus olhos.

"Então, o que você viu?"

Ela apenas olhou para mim confusa como se ela não me reconhecesse ou não entendesse as palavras que estava dizendo. Eu me agachei e dei um tapa forte no rosto dela.

"Sai dessa. Quero que você entenda o que aconteceu antes de morrer.”

Sua respiração falhou com a pancada, e quando ela olhou de volta para mim, vi que me reconheceu. Ela olhou através de mim, para onde Chuck estava morto e a primeira emoção real voltou ao seu rosto. Seus olhos voltaram-se para os meus enquanto lágrimas cor de rosa começavam a escorrer por suas bochechas.

"Por quê? O que é que você fez?"


Eu bati nela novamente. "O que eu fiz? O que é que você fez. O que todos vocês fizeram.” Senti uma vontade quase avassaladora de ir em frente e apunhalá-la, então me levantei e andei a alguns metros de distância. “Eu vi o que você fez. A caixa me mostrou o que você fez.”

Vanessa ainda parecia confusa, e suas voz era levemente arrastada enquanto falava, mas franziu a testa e conseguiu falar: - “O que? Nós não fizemos nada.”

Eu soltei uma risada amarga. "Bem, eu acho que isso é verdade, não é?" Eu agarrei a faca com tanta força que podia sentir os ossos da minha mão gemendo em protesto. “A caixa me mostrou a noite em que Amber morreu. Como você, Chuck e Billy se aproximaram. Como você drogou Amber. Ela ficou bêbada. Fizeram coisas obscenas, pervertidas com ela, todos vocês. E então, quando ela desmoronou de tudo que você tinha dado a ela ... quando ela começou a morrer, todos vocês ficaram em pé e riram. Não chamaram ajuda pra ela. Não tentaram salvá-la. Você só assistiu ela morrer enquanto todos vocês só riram, caralho.”
Eu estava mais perto novamente, de pé sobre Vanessa e gritando com todas as forças, minhas próprias lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela estava falando de novo, tentando dizer que não era verdade. Que isso era insano e não fazia sentido. Mas eu sabia que ela estava mentindo. Eu sabia o que a caixa me mostrara. Eu sabia a verdade.

Então eu matei minha irmãzinha. Eu queria poder dizer que não me lembro disso, mas seria mentira. Eu lembro de cada golpe, cada grito que ela fez, cada momento de alegria e satisfação que senti em causar-lhe dor e vingar o que aconteceu com minha doce Amber. Tudo era tão claro e perfeito.

Mas quando acabou, essa clareza começou a desaparecer. Sentei-me no chão da minha sala de estar, coberta de sangue e sentindo a dúvida e o medo deslizando em minha barriga como a lâmina que eu deixara nos restos arruinados de Vanessa. Por que eu tinha tanta certeza de que podia confiar no que a caixa me mostrara? A autópsia de Amber não mostraria drogas e álcool em seu sistema se tivesse acontecido como eu vi? E por que algum deles gostaria de fazer algo disso em primeiro lugar?

Em poucos minutos, fui da excitação ao desespero. Eu ainda me sentia confuso, e até agora eu não posso dizer com certeza o que faz sentido e o que não faz, mas acho que fui enganado. Enquanto escrevo tudo isso, minha mente está mais clara. Acho que talvez tenha assassinado as únicas pessoas que me restaram, as únicas que se importavam comigo.

Até mesmo o começo dessa percepção me encheu de um desejo ardente de me matar. Eu provavelmente teria feito isso, mas algo inesperado me parou. Meu telefone tocou e, quando respondi, era você.

"Olá? É o Sr. Saltzmann?”

Eu assenti silenciosamente e então percebi que precisava falar. "Sim. Eu acho."

"Olá. Meu nome é Cora Westgate. Eu tenho tentado te rastrear. Ou pelo menos algo que eu acho que você tem.” Você parou para eu responder, mas fiquei em silêncio, então você continuou. “É uma caixa. É chamada de ... Caixa das Sombras de Izu, eu acho?”

Eu quase desliguei. Isso estava me impedindo de puxar a faca do cadáver da minha irmã e usá-la em mim mesmo. Mas algo me levou a perguntar, de qualquer forma.

"Por que você quer isso?"

Eu ouvi excitação em sua voz. “Então você está com ela. Impressionante. Olha, meu tio ... ele foi sequestrado. Por pessoas muito ruins. E acho que a caixa pode me ajudar a encontrá-lo. Eu sei que parece loucura, mas se …”

"Tudo bem." Fiquei surpreso ao ouvir a voz sair da minha boca e eu poderia dizer que você estava surpreso também.

“Oh, nossa. Ótimo! Olha, eu tenho o seu endereço e posso estar aí em duas horas, se estiver tudo bem. Terei todo o prazer em pagar-lhe bem, mas…”

"Não, eu não vou estar aqui quando você chegar aqui. Apenas pegue.” Novamente, eu não sabia por que eu ainda estava falando com você, muito menos porque eu estava encorajando você a pegar algo que eu estava cada vez mais certo de que era a causa de todo o horror ao meu redor.

Você estava tentando me agradecer, mas eu já estava desligando. Eu quase fui para a faca, mas uma parte de mim, o meu verdadeiro eu, hesitou. Eu sabia que queria morrer, mas queria avisá-la da melhor forma possível. Se eu não pudesse dizer para você, talvez escrever o que aconteceu funcionaria. Eu esperava não poder nem começar a contar, muito menos terminar. Eu pensei que a caixa não me deixaria te contar. Alertar você.

Mas agora que terminei, acho que entendi. A caixa quer ir com você e, embora saiba que você vai ler isso, também sabe que você não vai prestar atenção ao meu aviso. Só espero que eu esteja errado.

Por favor, não leve a caixa. Ou se você fizer isso, não use. Destrua se puder. Você vai me encontrar morto, encontrar todos nós mortos, e talvez você acredite que eu não quis fazer nada disso. Se você sabe sobre coisas como a caixa, você pode ser a única que pode entender. De qualquer maneira, está feito agora. Enganado ou não, estou condenado.

Cora, por favor, não use a caixa. Por favor, acredite que eu sinto muito pelo que fiz.

Eu te amo, Amber. Espero voltar para você algum dia.

Adeus.
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FONTE  AUTOR  SEUS LIVROS
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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NÃO leia um livro chamado "Boa Noite, Meu Amor" para seus filhos

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Meu filho de 2 anos simplesmente. Não. Dorme. 

Então quando vi um anuncio online do livro Boa Noite, Meu Amor: o único livro que tem GARANTIA de fazer seus filhos dormirem, cliquei. Primeiramente estava cética - mas havia um vídeo de demonstração no site. 

"Demonstrarei como funciona. Agora, estou com a criança já na cama." A câmera mostrou um menininho de 3 ou 4 anos deitado em uma cama, bem acordado. "Irei ler o livro pra ele. Observe o que acontece."

O vídeo cortava para ele finalizando a leitura do livro. "O sol se põe, e você descansa. Boa noite, meu amor, pequeno explorador."

Assim que fechou o livro, os olhos do menino olhavam para frente fixamente. Vazios. Imóveis. 

E então se fecharam. 

"Sem despertares no meio da noite, também. Uma vez adormecido com ajuda do livro... continuará dormindo," o homem disse, por cima dos roncos baixinhos do menino. 

Eu fiquei convencida. 

Fiz o pedido online. Em três dias, o livro já estava em minhas mãos. Era muito mais fino do que eu esperava - apenas algumas poucas páginas de papelão. Na capa havia um desenho de um menino dormindo em sua cama, enquanto uma senhora (sua avó?) o observava sentada em uma cadeira e balanço no canto do quarto.

Li para Jackson naquela mesma noite. "É hora de dormir, meu pequenino. Quando você acordar, ainda estarei contigo," li suavemente. A ilustração mostrava a senhora colocando as cobertas por cima da criança na cama. Ela não estava sorrindo. 

Olhei para Jackson. Ainda se remexendo e bem acordado. Mas parecia estar gostando, pelo menos 

"A noite caiu, as estrelas deixaram o céu tão rico. Vá dormir agora, não faça bico." Nessa imagem aparecia a mesma mulher, sentada na cadeira de balanço ao lado da criança sonolenta. 

"Você dormirá sem sentir dor, você dormirá solene. E assim que acabar, faremos novamente." As rimas são bem... ruins, pensei, olhando a imagem. A mulher se levantava de sua cadeira, andando até a cama de seu filho. 

"Vá dormir agora, meu pequeno. Seja paciente agora - tudo já está acontecendo." Nesse desenho, a mulher olhava para seu filho adormecido, parada ao lado da cama. Estava segurando um travesseiro. 

Virei a página, a última. 

Meu coração parou. 

A senhora estava pressionando o travesseiro no rosto da criança. Sorrindo, com aqueles sorrisos largos exagerados de desenho animado que vemos geralmente em livros infantis. 

Li, em uma voz baixa e cautelosa: "O sol se pôs, junto com seu temor. Boa noite, meu pequeno, meu precioso amor." 

Fechei o livro e olhei para Jackson. 

Estava dormindo pesadamente. 

Realmente funciona! Levei-o até sua cama e aproveitei um tão merecido tempo sozinha. Quem liga se o livro é um pouco bizarro? Funciona mesmo! 

Uma hora depois, adormeci. 

***

Acordei as 8h. 

Jackson não havia me acordado durante a noite. Uma mudança muito bem vinda. Observei seu corpinho ainda adormecido e paradinho, sorri. 

Mas as 11h ainda não havia acordado. 

Ele nunca dorme até tão tarde. 

Talvez esteja doente?

Liguei uma música leve, conversei com ele. Dei tapinhas em suas costas. Nenhuma resposta. "Jackson?", chamei. Peguei-o no colo, coloquei em meu colo. 

Sua cabeça bateu contra meu peito.

"Jackson? Você está bem?"

Nada. Apenas suas respirações suaves e adormecidas contra minha pele. 

"Jackson? Jackson, acorde!" 

Nada. 

Gritei em seu ouvido. Sacudi meu filho para cima e para baixo. Trouxe-o para rua, no sol. 

Nada o acordou. 

Agora já é três da manhã. Ele está dormindo faz 19 horas. Estou prestes a colocá-lo no carro e o levarei em uma emergência. Acho que tem algo de muito errado com ele. 

FONTE

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O Sr. Levi Lilkerd

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O Sr. Levi Lilkerd a Ame
Uma mágica iria mostrar.
Mas primeiro, um favor
Ela teria que realizar

Era muito simples,
Nada demais ou demorado
Ame só teria que trocar o remédio da mamãe
Por uma bala com nome engraçado

O Sr. Levi Lilkerd além de mágico
Era bom com piadas
Essa bala chamada cianeto
Faria mamãe dar muitas risadas

O Sr. Levi Lilkerd entregou as balas à Ame
Que as levou para casa
Colocou no lugar dos remédios,
Que ela jogou na privada

Depois que a mamãe descobrisse,
Iria rir até morrer.
Foi o que o Sr. Levi Lilkerd disse,
E depois a mágica ele iria fazer

Mamãe chegou em casa,
Com muita dor de cabeça.
Foi tomar seus remédios,
Que estavam em cima da mesa

Quando os colocou na boca,
Fez uma cara meio estranha.
Parecia bem amargo,
Até revirava as entranhas

Ela olhou para Ame,
Com os olhos arregalados.
Depois caiu no chão,
Deita lá, teve alguns espasmos

Ame ficou assustada,
Mas o Sr. Lilkerd disse que estava tudo bem.
A boca da mamãe fazia espuma,
E ela tremia igual a um trem

Depois de um tempo,
Ela parou de se mexer.
Mas nunca deu um sorriso,
Como o Sr. Levi disse que iria acontecer

Ame ficou com medo,
Foi correndo para fugir.
Mas o Sr. Levi Lilkerd
A agarrou, e então começou a sorrir

Era um sorriso estranho,
Que ia de orelha a orelha,
Seus dentes ficaram afiados,
Cresceu até a sobrancelha

Ame começou a chorar,
E por sua vida implorar.
Sr. Levi Lilkerd disse que logo tudo iria acabar
E começou a gargalhar.

"Eu ainda não te mostrei o meu truque",
Disse o monstro horrendo.
"Não posso te deixar ir embora,
Sem antes mostrar meu truque estupendo"

"Agora preste atenção, no que irá acontecer"
A boca do Sr. Levi Lilkerd ficou tão grande
Que poderia por tudo dentro,
Ata um elefante.

Ame chorou e gritou,
Mas ninguém a ouviria.
Sr. Levi Lilkerd disse que ainda não acabou,
A levantou e lhe deu uma mordida.

Arrancou seu braço inteiro,
Como se fosse de brinquedo.
Ame olhou aterrorizada,
Enquanto ele mastigava e lambia os dedos.

Ame chorou e gritou,
Estava cheia de dor e pavor.
Seu antebraço jorrava sangue,
E o Sr. Levi Lilkerd apreciou

"Vou acabar com seu sofrimento,
Porque você foi uma boa garota,
Fez tudo o que seu amigo imaginário mandou,
E não derramará mais uma gota"

O Sr. Levi Lilkerd a olhou,
Por uma última vez.
Ame o xingou de idiota e feio,
E foi a última coisa que fez

O Sr. Levi Lilkerd ficou satisfeito,
E deu um longo arroto.
Saiu da casa de Ame,
Para procurar por um garoto

Ele estava pensando como faria agora,
Para sua fome saciar.
Talvez iria atrás de Bryan,
Um garoto que amava brincar

Essa foi a história de hoje,
Espero que possam apreciar.
Se quiser saber o que aconteceu com Bryan, eu te conto,
Mas precisa um favor para mim realizar...

Autor: João Alves

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No outono de 1987,  uma estação de tv local chamada WSB-TV2, de Atlanta, Geórgia, tentava fechar a programação matinal de domingo, que tinha um horário em aberto.

Após algumas solicitações de donos de empresários locais, o canal decidiu permitir o Reverendo Marly Sachs usar a hora que estava vaga para fazer um programa religioso. O programa estreou no dia 18 de Outubro, com pouco alarde.

O show era um programa religioso comum e consistia no Reverendo sentado em uma cadeira simples, de frente para a câmera, lendo passagens da Bíblia e discutindo suas interpretações e significados para o mundo contemporâneo. O programa tinha um número consistente de espectadores e manteve-se no ar ainda no início de Dezembro. Foi aí que a estação começou a receber estranhas reclamações dos espectadores de "Palavras da Luz com o Reverendo Marly Sachs".

As ligações eram de mulheres (apenas de mulheres), que descreviam vagamente estranhas sensações que tinham em intervalos específicos durante o programa. Elas diziam sentir náuseas, dor nas costas, tonteira e visão embaçada. As reclamantes, sem razão aparente, estavam convencidas que o programa que estava causando esses sintomas nelas. Depois de três semanas de reclamações intensas, foi descoberto que essas "sensações" aconteciam, estritamente, em intervalos de 12 minutos durante a exibição do programa.

A equipe de manutenção do pequeno estúdio checou todos os equipamentos, tanto de áudio quanto de vídeo, e não acharam nada defeituoso. Quando o Reverendo foi notificado dos incidentes, ele apenas encolheu os ombros e disse, enigmaticamente: "Algumas pessoas não conseguem aguentar a voz de Deus..."O diretor do estúdio, falhando em conseguir explicar a causa das reclamações, resolveu manter o show no ar.

Por volta de Fevereiro, a audiência caiu drasticamente, então foi decidido cancelar o programa. A direção do estúdio decidiu que era mais prudente gastar mais tempo da programação cobrindo a notícia que os outros estúdios se dedicavam: a epidemia de abortos espontâneos. A epidemia tinha começado por volta de Novembro. O número de grávidas saudáveis que tiveram abortos espontâneos chegou a mais de trezentos. O Centro de Controle de Doenças não conseguia achar uma explicação para esse acontecimento bizarro.

O Reverendo tomou a notícia do cancelamento do show com o que só pode ser descrito como indiferença. Quando foi notificado, ele não protestou, apenas concordou com a cabeça, quase como se soubesse. Ele deixou o estúdio depois da filmagem do último episódio sem dizer nenhuma palavra e desapareceu da face da Terra. Ninguém ouviu falar dele de novo, nem mesmo membros da congregação da igreja. O estúdio seguiu em frente, preenchendo o vazio com comerciais e continuaram a se focar na notícia dos abortos espontâneos.

Um ano e meio depois, um estagiário da WSB descobriu as fitas de "Palavras da Luz" e começou a analisá-las, na esperança de achar algo para ajudar em uma reportagem que a estação estava fazendo sobre o impacto que a religião tinha na cidade. O Incidente de Atlanta (foi como a epidemia de abortos espontâneos ficou conhecido nos jornais médicos) foi diminuindo e acabou por volta de três meses depois do programa do Reverendo Sachs tinha sido cancelado e já começava a ser esquecido pela população. Analisando as fitas, o estagiário fez uma descoberta perturbadora nas fitas.

Enquanto tentava parar a exibição em 10 minutos e 14 segundos, ele sem querer emperrou o botão de avançar a fita. Enquanto a imagem passava na tv, ele conseguiu desemperrar o botão. Quando conseguiu parar a fita, a imagem congelou em 36 minutos e 1 segundo. O estagiário caiu da cadeira quando viu a imagem congelada na televisão: a imagem de uma cabeça decepada decomposta tomava toda a tela. Depois de se recompor, ele voltou a fita e passou para frente de novo, para ter certeza que a sua mente não estava lhe pregando peças. Ele começou a ver com mais atenção o resto do filme e reparou que a imagem aparecia em intervalos de 12 minutos, por apenas um segundo.

Achando que era uma brincadeira que estavam fazendo com o cara novo, ele levou a fita para outros técnicos, preparado para ser zoado. Entretanto, os técnicos estavam tão confusos quanto ele. Ninguém tinha encostado nas fitas depois do programa ter sido cancelado. Depois do estúdio fechar, à noite, ele convenceu a um dos técnicos para ajudá-lo a ver todas as fitas de "Palavras da Luz". Eles descobriram que em todos os episódios tinha a mesma anomalia bizarra.

Um dos frames preservados do programa
Eles também descobriram que, conforme o programa avançava, a imagem ficava mais repugnante, conforme os vermes comiam os pedaços de pele e os pedaços de cabelo e carne tinham caído da cabeça. O técnico deixou claro para o estagiário que isso era, de maneira técnica, impossível, já que o filme não tinha nenhum sinal de que havia sido cortado e editado. Ele mesmo tinha estado na filmagem de todos os programas e sabia que não tinha nenhum jeito dessas imagens terem sido colocadas no filme.





Tudo isso foi mostrado para o diretor do estúdio que, temendo uma retaliação por permitir que esse tipo de imagem tenha parado no ar, ordenou que todas as fitas fossem destruídas. Ele disse para o estagiário e para o técnico que não tinha nenhum interesse em saber quem tinha feito, só o que importava era "proteger os funcionários e a emissora". Ele ordenou que nada disso fosse dito para mais ninguém.

O técnico esqueceu de tudo rapidamente, tratando o incidente como apenas uma pegadinha escrota de alguém, mas o estagiário não conseguia deixar pra lá. Ele fez a maior quantidade de cópias que conseguiu, antes que os originais fossem destruídos, e levou para ver se conseguia encontrar algo que desse uma pista de quem fez isso e do porquê.

Uma semana depois, ele tentou convencer o técnico a ajudá-lo de novo, dizendo que ele tinha descoberto algo mais perturbador que as imagens em si: quando os frames das imagens eram colocados em sequência, a boca da cabeça parecia se mexer, como se tentasse formar palavras. O técnico, com medo de perder o trabalho, disse para ele se livrar das cópias e não falar mais naquilo.

Uma semana depois, a polícia respondeu um chamado de emergência feito por uma senhora que morava no subúrbio de Atlanta, já no fim da tarde. Ela tinha escutado sons horríveis vindo da casa do vizinho, onde morava um jovem casal. Ela disse para a atendente da linha de emergência que a mulher estava grávida e que ela estava com medo de que algo terrível tenha acontecido. Quando os policiais chegaram, vinte minutos depois da ligação, eles viram luzes pela janela e saindo da porta entreaberta. Eles entraram devagar e foram em direção à sala de estar.

Lá, eles encontraram uma jovem mulher morta, com o abdômen aberto. A ferida era irregular e dava início a uma trilha de sangue que levava até o sofá, do outro lado do cômodo. Ali, sentava-se o seu marido, o estagiário do estúdio, nu, com o cadáver de seu filho, ainda não totalmente formado, em seus pés, morrendo. Nas mãos ele tinha o pedaço de metal que ele tinha usado para estripar sua esposa grávida. A televisão estava ligada, passando em loop a filmagem silenciosa de uma cabeça decepada e decomposta que sibilava palavras inteligíveis.

A história na delegacia, no outro dia, era que o estagiário continuava dizendo, em voz baixa, enquanto o levavam embora: "A luz de Deus os chama..."

Fonte

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Desafiei Meu Melhor Amigo a Pôr um Fim na Minha Vida [PARTE 4]

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Parte 1

Parte 2

Parte 3

Olá a todos,

Mais uma vez, obrigado por todo seu amor e apoio. É difícil ficar motivado quanto mais eu aprendo aqui nos dias atuais. Estou tentando não fazer muitos comentários sobre o dia de hoje, porque quero que todos estejam prontos.

Ah sim, alguns de vocês perguntaram sobre os dois computadores. Eu tenho mexido neles e são parecidos, mas não idênticos. É como se você fosse mexer em dois computadores, um a cada dia. Eles são semelhantes nesse sentido.

Me desculpe por não ter falado muito com vocês nos comentários. Eu sei que Zander falava e todos adoravam. Estou muito deprimido e me sentindo sem esperança.

Vou continuar de onde parei agora.

Saímos da estação com Hernandez e voltamos para o meu carro. Já era final da tarde.

"Bem, ainda temos ligações", eu disse. "Nós descobrimos quem é Jack Hemsey, e aposto que poderíamos checar os outros através das redes sociais também."

"E o bar", acrescentou ela. "Nós vamos para lá em seguida."

Eu dirigi até lá. Não ficava longe da delegacia, apenas alguns quarteirões, mas o calor nos fez demorar com a direção.

Pode ter sido um pouco maior do que qualquer outro bar em que já estive, mas fora isso era normal. A música incoerente enchia o ar, e as conversas de zumbido e luz de zumbido preenchiam lacunas na música. O bar era bastante esparso já que não era tão tarde.

Parei por meio segundo quando pensei ter visto David King sentado em uma cabine, olhando para mim. Fechei meus olhos e respirei profundamente. Katie notou e esperou por mim. Ela me deu um olhar interrogativo, mas eu balancei a cabeça. Felizmente, ela não persistiu.

Nós nos sentamos no bar e pedimos uma cerveja para cada um de nós. Eu pretendia ignorar minha cerveja. Eu não sou um motorista bêbado. Nós só compramos para se misturar e esperançosamente fazer o barman mais cooperativo.

Antes de os drinques chegarem, o telefone de Zander tocou novamente. Mesma mensagem.

M4N513THO: Onde está Zander?

Eu ignorei.

Quando o barman nos trouxe nossas bebidas, Katie começou a jogar seu charme.

"Estou procurando por uma velha amiga minha que eu costumava me envolver", ela disse. "Jack Hemsey?"

"O nome não me lembra nada," o homem rude de seus quarenta anos respondeu.

"Talvez Kraig Munson?" Eu perguntei. Ele me deu um olhar peculiar.

"Não."

"E quanto a Sophie Atrikson?" Katie disse em seguida. O homem fez uma pausa.

"Sophie Atrikson," ele disse com um suspiro. Eu não sabia dizer se era um suspiro de exasperação ou desejo.

"Você a conhece então?" Katie cutucou.

"Sim, ela costumava vir aqui muito depois do trabalho", disse ele. "É sua amante também?" Ele disse, piscando para Katie.

"Sophie também é uma velha amiga", Katie sorriu sem se deter. "Eu costumava sair muito com a equipe e perdi contato há um tempo atrás."

"Odeio dizer isso, mas ela foi banida deste bar por brigar... ah, eu não sei... há um ano?"

"Com quem ela estava brigando?" Katie fingiu surpresa.

"Um cara que veio e bateu nela a noite toda. O bastardo não a deixava sozinha. Eventualmente ela deu um tapa nele, e ele pulou em cima dela."

"Ela foi banida porque um inseto bateu nela e depois atacou?" Eu perguntei ceticamente.

"Não", o homem riu. "Ele a derrubou por alguns segundos, mas depois ela voltou e bateu nele. Foi uma visão e tanto! Infelizmente, o proprietária a expulsou. Eu não tinha muito a dizer sobre o assunto."

"O cara não foi expulso?", Perguntei.

"Eu não me lembro... acho que ele foi autorizado a voltar mais algumas vezes, mas depois de um tempo ele nunca mais apareceu de novo."

"Ela estava chateada por ter sido banida?" Katie perguntou.

"Ela não bateu no dono, se é isso que quer dizer", o homem riu." Ela respeitou sua decisão e não a vejo desde então.

"Houveram outras brigas naquela mesma época?" Perguntei.

"Temos uma boa quantidade de brigas aqui, assim como qualquer bar", disse o homem bruscamente. "Eu não me lembro de todas elas."

"Sophie já veio com mais alguém?" Katie perguntou. "Amigos? Encontros?"

"Parece-me que você é uma ex-namorada de luto", o homem piscou de novo. Ele simplesmente não pararia com as insinuações, né?

Quando nenhum de nós respondeu, ele endireitou as costas. “Bem, provavelmente algumas vezes. Na verdade..." Ele disse distraidamente.

Ele se afastou para uma parede distante ao lado da entrada. Estava coberto de fotografias. Letras estampadas acima dele rotularam a área como "momentos favoritos". Ele tirou uma foto da parede e a trouxe de volta, colocando-a no balcão à nossa frente.

Era uma foto de cinco pessoas, todas juntas e sorrindo. Todos eles estavam abraçados e estavam posando em frente à parede do fundo do bar. O homem apontava para a garota no meio. Ela tinha o cabelo loiro sujo puxado para trás em um rabo de cavalo. Era mediana em altura em comparação com as outras pessoas na foto.

Além de Sophie, havia outra garota e três caras. As luzes ao nosso redor estavam fracas, de modo que não consegui enxergar muito bem seus rostos. Um dos rapazes era enorme e estava sobre todos eles, mãos espalmadas por todas as costas.

Meus olhos se arregalaram. Eu o reconheci imediatamente, era o cara que me atacou. Troquei um olhar furtivo com Katie. Ela entendeu minha mensagem.

"Esses bastardos bateram nosso antigo recorde de bebida uma noite. Sophie já tinha estado aqui algumas vezes antes, mas dessa vez ela trouxe alguns amigos com ela. Antes disso, ela passou muitas noites conversando comigo e chegando a conhecer o pessoal que trabalha aqui. Ela também poderia derrubá-los como ninguém", ele riu.

O fato de meu agressor estar na foto me fez querer uma cópia. Seria bom conhecer seus rostos. Peguei meu celular e segurei para tirar uma foto, mas o homem me deu um olhar suspeito.

"Tudo bem. Eu já fiz o suficiente. O que você quer?" Ele disse, puxando a foto de volta.

"Como eu disse", respondeu Katie. "Apenas procurando meus velhos amigos." Com isso, ela se levantou do banco do bar e eu fiz o mesmo. Nós deixamos o bar casualmente, mas deixamos nossas cervejas intocadas. Assim que estávamos fora de vista através das janelas do bar, Katie acelerou a cada passo.

"O que está acontecendo?" Perguntei, correndo para continuar.

"Você tinha que pegar o seu celular como um amador, não é?" Acusou Katie.

"Sinto muito!" Eu disse.

"Vamos voltar outra vez quando estiver mais cheio e tirar uma foto da parede", disse Katie. "Mas agora, é hora de sair."

"Por que você está com tanta pressa?" Eu perguntei.

"Porque um desses caras na foto estava no bar", disse ela. "Tenho a sensação de que estamos sendo seguidos".

Com certeza, um dos caras da foto saiu do bar atrás de nós quando chegamos à faixa de pedestres.

"Eu não gosto disso", eu disse enquanto esperávamos que a luz mudasse.

"Eu não gosto de ser seguida", disse Katie, observando discretamente o cara.

"Não, eu quero dizer o trabalho em equipe, temos Jack Hemsey, que está conectado à Sophie através do bar e os relatórios da polícia." Agora temos alguém da foto nos seguindo e outro que me atacou. Isso é um bom indicador de que eles estão trabalhando juntos. Deus sabe quantos outros existem."

"Sim", disse Katie quando a luz mudou.

Nós cruzamos rapidamente, e o cara lentamente seguiu, agindo indiferente.

Chegamos ao meu carro, mas não muito além disso. Katie de repente ficou tensa e olhou mais para a rua. Eu estava tirando minhas chaves para destrancar meu carro quando notei sua postura tensa. Seu rosto escureceu em uma fúria que eu nunca vi antes. Uma raiva que só poderia ser resolvida por assassinato.

De repente, ela desceu pela calçada, correndo mais furiosamente do que eu já tinha visto alguém correr antes.

"Katie! KATIE!" Eu gritei atrás dela. Porra, ela era rápida. Corri ao redor do carro e olhei para a estrada em busca do que a provocara.

Dois homens estavam brigando com uma jovem, tentando puxá-la para um beco a apenas meio quarteirão de distância. Em plena luz do dia.

Merda.

Eu corri atrás de Katie, correndo o mais rápido que pude sem tropeçar. Correr com o braço enfaixado era estranho. Olhei para a rua, esperando que alguém estivesse vindo para ajudar. Nenhum dos carros passando realmente podia ver o que estava acontecendo porque a calçada estava alinhada com carros estacionados.

Quando cheguei no meio do caminho, Katie fez contato. Ela correu para um dos homens por trás enquanto ele segurava a garota. Seus braços estavam estendidos, preparando-se para enfrentá-lo. O homem soltou no último segundo e girou o punho, batendo no queixo de Katie. Ele estava esperando por ela.

Ela foi pega completamente de surpresa e caiu instantaneamente.

O outro homem continuou a puxar a garota, sua mão sufocando sua boca para que ela não pudesse gritar.

Ele empurrou a garota para dentro do porta-malas de uma van preta que ficava mais para dentro do beco. Eu mal podia ver as portas abertas de onde eu estava. As pernas da garota chutaram, mas ele as empurrou e fechou as duas portas.

O homem que bateu em Katie estendeu a mão para agarrá-la. Ele começou a levantar os braços para levá-la embora quando eu comecei a gritar com ele enquanto me aproximava. Ele imediatamente a soltou e correu de volta para a van.

Ambos desapareceram no beco. Katie mal estava começando a se levantar do chão. Em uma decisão de segunda divisão, eu me virei e corri para o meu carro.

Foi quando notei o cara do bar correndo em minha direção. Eu me apressei, me preparando para lutar.

"Vamos!" Zombei, cheio de adrenalina.

Em vez de começar uma briga e arriscar a van se afastar, eu caí no chão e chutei as pernas dele. Ele foi pego completamente de surpresa e caiu, seu rosto colidindo com o concreto. Houve um estalo sólido quando ele bateu.

Eu me levantei e continuei correndo em direção ao meu carro.

As chaves se atrapalharam em minhas mãos enquanto eu lutava para destrancar a porta e girar a ignição. Meu carro engasgava para ligar, e eu saí pela rua, passando alguém.

Eu tinha ido apenas alguns metros quando a van preta virou para a rua, saindo do beco. Ele entrou em marcha e acelerou no trânsito. Atrás dela, Katie correu para a estrada, perseguindo-os. Eu tive que desviar para evitar bater nela. No espelho retrovisor, vi a velocidade de volta para onde meu carro estava. Ela não deve ter me visto desviar.

Eu me acomodei atrás da van, movendo-me para a mesma pista.

Então, era uma perseguição.

Meu telefone tocou e eu peguei, sabendo quem era.

"Onde você está?!" Katie gritou.

"Seguindo essa van", eu disse calmamente. "Não se preocupe, eu cuido disso."

"Aqueles FILHOS DA PUTA!" Ela gritou.

"Katie, acalme-se!" Eu gritei de volta. "Volte para a delegacia ou bar e fique lá. O cara do bar ainda está com você. Acho que todos estão trabalhando juntos. Cuidado! Estou ligando para a polícia agora para contar o que está acontecendo."

Antes que ela pudesse responder, desliguei e liguei para o 911. Coloquei-o no viva-voz e segurei-o em uma mão com o volante na outra.

"911, qual é a sua emergência?" O operador respondeu.

"Oi, eu estou seguindo uma van Dodge Ram 1500 preta. Dois homens sequestraram uma menina e estão indo embora com ela."

"Qual é a sua localização?" A operadora disse. Eu disse a ela a rua em que eu estava e o cruzamento que estávamos nos aproximando. Havia muito poucos carros na estrada de quatro pistas, então havia pouco risco de perdê-lo.

"Estou enviando veículos. Assim que eles chegarem, por favor pare e eu enviarei um oficial para vir falar com você", disse a operadora. "Fique na linha aqui comigo para que eu possa continuar recebendo a sua localização."

Ela me pediu para ler a placa e eu fiz. Congelei.

Era a mesmo.

O mesmo número de placa do carro fora do esconderijo de Zander. Carro diferente. Mesma placa.

Trabalho em equipe.

Naquele momento, um carro saiu do nada da minha direita. Estava indo na mesma direção, mas entrou na minha pista para me empurrar para o tráfego que se aproximava.

"Ah foda-se", eu disse, colocando o celular no meu colo e segurando o volante com as duas mãos. Meu celular voou para fora do meu colo enquanto o outro carro, um familiar Honda Accord verde escuro, bateu na lateral do meu carro um pouco mais forte.

No cenário final de má sorte, o celular saltou e bateu no meu braço. Meu braço bateu no botão 'Finalizar Chamada', e o celular deslizou para o lado do passageiro. Simplesmente perfeito.

Eu arrisquei um rápido olhar por cima do meu ombro. O mesmo homem gigantesco estava atrás do volante do Accord. Seu nariz estava machucado e roxo, o que me fez sorrir um pouco.

"Maravilhoso", eu disse sarcasticamente para mim mesmo. Então eu pisei no freio.

Os carros atrás de nós já haviam freado e aberto o caminho depois de perceber que meu carro estava sendo abalroado. O Accord arranhou meu carro enquanto passava. Parou a alguns passos, luzes de freio brilhando intensamente.

A van preta continuou em frente.

Eu cerrei meus dentes e atirei no acelerador. Entrei na pista mediana e passei pelo Accord. O furgão fez uma curva à esquerda e eu o segui, agradecido por a luz ter permanecido em uma flecha verde.

Meu retrovisor me disse que o Accord também estava alcançando.

Quem diabos tenta criar um acidente de carro enquanto no trânsito da cidade?

A van fez outra esquerda quando a luz ficou vermelha. Vários carros buzinaram enquanto eu voava pelo cruzamento. O Accord evitou um acidente por trás de mim.

Assim que eu estava me virando para assistir o Accord, vi a van virar à direita. Quando tentei seguir, vi outro carro vindo da minha esquerda e tive que pisar nos freios. Ele também, e gritou comigo silenciosamente pela janela. Eu desesperadamente fiz sinal para ele dirigir, mas ele continuou gritando. Eu pisei no acelerador e continuei em frente. O Accord estava chegando muito perto para o meu gosto.

Quando dei a volta na esquina, a van se foi.

Não havia tempo para desacelerar e olhar em volta. O Acordd estava se aproximando rapidamente. Ele deve ter passado o cara que quase bati.

Meu objetivo agora era perder o carro de vista.

Eu bati no pedal e desviei para a mediana. Nós filmamos o tráfego passado e chegamos a 50 mph. Um cruzamento de tráfego estava chegando, e eu tentei desesperadamente descobrir onde eu estava indo. A luz da esquerda virou verde, e minha decisão foi tomada. Eu pisei nos freios e deslizei pela curva à esquerda, ganhando velocidade assim que me endireitei.

O Accord ia rapidamente atrás de mim.

"Ok, ok, apenas fique vivo por tempo suficiente para os policiais alcançarem você", eu disse para mim mesmo. Então eu vi o quão perto o carro estava ficando.

Eu levei um forte à direita, grato que este cruzamento também tinha uma luz verde. Meu telefone começou a zumbir. Peguei com uma mão e cliquei em 'atender'.

"Clark, o que está acontecendo?" Era Katie. "Eu vi você ser atropelado por outro carro e -"

"Não há tempo!" Eu gritei. "Ligue para Hernandez! O idiota do esconderijo está tentando me matar com o carro dele!"

Como se para apoiar minha reivindicação, o carro me bateu por trás. Eu me apressei, colocando a chamada no viva-voz e jogando-a no banco do passageiro. Ele deslizou fora do alcance.

Foi uma má escolha, porque eu não conseguia ouvir a voz abafada de Katie sobre o rugido do meu velho motor.

"Eu não consigo te ouvir!" Eu gritei. "Deixei cair o meu celular!"

O cruzamento que eu estava me aproximando rapidamente tinha todas as luzes vermelhas. Merda. Merda. Merda.

Eu olhei para a esquerda. Então para a direita. Os carros devem estar longe o suficiente.

Devem.

Acelerei e tentei não fechar meus olhos. Meu carro pegou um pouco de ar quando eu atravesso a interseção a 70 mph.

"Oh Deus", eu exalei com um suspiro.

Houve um barulho repentino e alto atrás de mim. Verifiquei meu espelho retrovisor. O grande idiota tinha desossado o caminhão de alguém. O alívio foi instantâneo.

Infelizmente, a adrenalina começou a drenar de mim imediatamente.

Eu reduzi a velocidade para coincidir com o limite de velocidade e tomei várias curvas aleatórias para me mover diagonalmente para longe da cena. Peguei meu celular e vi que Katie tinha encerrado a ligação. Eu retornei e esperei que ela atendesse.

"Eu estou... bem", respirei. "Ele bateu." Eu sentei e senti toda a minha energia drenar enquanto Katie gritava no telefone.

"Clark! Onde você está?!"

"Eu estou... em algum lugar", eu disse, olhando em volta. "Na frente do banco da Key a alguns quarteirões de distância, eu acho."

"Eles a levaram para o banco da Key?"

"O que? Não, a van escapou - suspirei.

Ela gemeu com raiva. "Volte para o bar", disse ela.

"A polícia vai ficar em cima de mim", eu resisti.

"Não seja melodramático", disse ela. “Câmeras de trânsito vão pegar tudo.”

Lutando para mover meus membros letárgicos, estendi minha mão e dirigi.

Voltei para o bar, e os policiais que estavam no local nos levaram de volta à delegacia porque eu estava instável. Eles precisavam da minha declaração, mas Katie insistiu que eu descansasse por causa da adrenalina. Como resultado, fui visto por um paramédico na delegacia, enquanto lhes dizia o que podia. Eu não mencionei muita coisa. Eu só disse que eu tinha ficado no tráfico para perseguir a van quando o outro carro começou a bater no meu. Eles aceitaram a minha história que eu estava apenas passando e percebi o assalto.

Eu perguntei o que tinha acontecido com o cara que estava me perseguindo. Ele havia morrido instantaneamente no acidente de carro. Então foi o cara no caminhão que foi atingido. Eles estavam trabalhando para limpar a cena agora, mas nem sabiam quem era meu perseguidor. Foi uma bagunça absoluta.

O homem que eu encontrei deve ter fugido depois que Katie perseguiu a van na rua. Ela disse que não poderia encontrá-lo em nenhum lugar, uma vez que ela correu em direção ao meu carro. Fiquei chateado porque ele poderia ter fornecido algumas boas informações, desde que pudéssemos ter conversado.

Eu me deitei exausto em uma cama em um pequeno quarto da delegacia onde os policiais tiravam uma soneca. O paramédico tinha acabado de sair e Katie e eu ficamos sozinhos.

"Eles vão me prender por dirigir imprudentemente", eu disse nervosamente.

"Você ainda está preso no modo David King", ela respondeu. "Câmeras na rua terão registrado tudo. Agora, nós só precisamos tirar você da rua e levar a algum lugar seguro. Zander vai me matar se você se machucar novamente."

Eu estava prestes a perguntar quando ela falou com Zander sobre mim quando a porta se abriu.

"O que diabos ele estava pensando?" - gritou Hernandez, entrando na sala. O paramédico estava bem atrás dele.

"Detetive, você não pode simplesmente..." O paramédico estava dizendo.

"Por que diabos você achou que entrar em uma perseguição de carros era uma boa ideia?" Ele gritou, olhando para mim. Eu apertei meus olhos fechados. Minha frequência cardíaca disparou de volta.

"Hernandez, pare!" Katie gritou. Eu podia ouvi-la puxá-lo de volta.

"Primeiro Zander, e agora você! Quem diabos vocês dois pensam que são? Você acha que está acima da lei? O fulho da puta do David King fez você pensar que poderia fazer o que quisesse e as pessoas simpatizariam?"

"Zander?" Eu coaxei. Eu sentei, os olhos piscando.

"Sim", rosnou Hernandez. "Aparentemente ele está rastejando pela cidade e batendo em todos os cafetões que ele pode encontrar!"

"O quê?", Perguntou Katie.

“A 'vítima' que foi espancada hoje de manhã? Ela disse que o criminoso fez muitas perguntas sobre Sophie Atrikson. Quem mais sabemos que está procurando por Sophie Atrikson? ”, Acusou Hernandez.

Meus olhos se arregalaram. Zander

“Aparentemente, a vítima não sabe quem ele é, mas o criminoso não acreditou nela.Ela apanhou por um tempo, então o criminoso partiu, roubando suas chaves, telefone e carteira. A descrição corresponde a Zander - disse Hernandez bruscamente.

"Se é Zander, então ele não assumiria esses riscos sem uma boa razão", disse Katie com firmeza.

"Boas razões não tiram você da cadeia!" Hernandez gritou para ela.

"Certo." A enfermeira disse em voz alta e firme. "Detetive, você passou dos limites. Saia. Agora. Ou eu chamarei Chefe Gunderson."

Hernandez saiu do pequeno quarto e bateu a porta.

"Sinto muito", disse a enfermeira. "Você deveria descansar agora." Eu balancei minha cabeça.

"Não se preocupe com isso", eu disse, esfregando os olhos.

"Podemos conversar em particular?" Ela perguntou ao paramédico. Ele assentiu e saiu.

"Então, Zander está procurando por Sophie batendo em potenciais cafetões e esperando que eles a conheçam?" Eu disse, franzindo as sobrancelhas e olhando para baixo. "Isso não faz nenhum sentido."

Eu olhei de volta, encarando Katie nos olhos. "O que você quis dizer com Zander vai te matar se eu me machucar de novo?" Eu perguntei.

Ela respirou fundo.

"Eu estive mentindo para você um pouco", disse ela. "Tenho conversado com Zander online desde que você encontrou o esconderijo dele."

"O que?" Eu disse. "Por que você não me contou?"

"Porque ele me pediu para não fazer isso."

"Diga-me de qualquer maneira", eu insisti.

"Zander não quer que você se envolva nisso", admitiu Katie. "Ele me pediu para ficar de olho em você e o manter fora de ação se você perceber o que ele estava fazendo."

"Bem, claramente eu percebi", eu disse.

"Não completamente", disse ela. "Eu tenho conduzido você por uma trilha que Zander levou há um tempo atrás. Eu intencionalmente te atrasei."

"Só porque Zander lhe disse para me manter fora do seu caminho?"

"Não é assim", disse Katie calmamente.

"Então, como é?"

“Acessei o HD de David. E eu sei um pouco sobre o que Zander está fazendo. Eu sei porque ele está fazendo isso ".

Eu olhei para ela, meu queixo se pondo.

"Quando diabos você fez isso?"

"Ontem à noite enquanto você ainda dormia. Adivinhei a senha."

"E quando exatamente você ia me dizer que entrou?"

"Eu não sei", disse ela, como se estivéssemos em um jogo de pôquer.

"Então, eu encontro o esconderijo de Zander, te dou acesso ao que ele estava trabalhando, peço sua ajuda para encontrá-lo, e você começa a esconder informação?" Eu comecei a levantar minha voz. "Meu melhor amigo está fazendo coisas perigosas e você está escondendo coisas!"

"Eu estou dizendo a você agora." Ela respondeu de maneira neutra. "Estou lhe dizendo agora porque você quase morreu hoje, Clark. Você quase teve um acidente de carro por causa de algumas pessoas más. E eles querem machucá-lo por causa de Zander. Por causa de Zander e por minha causa."

Eu hesitei. Ela também. Seus olhos começaram a se enevoar, mas ela fechou os olhos e se endureceu. Seus olhos se abriram com a mesma escuridão que eu vi antes.

"Então ele não me quer envolvido, mas ele vai deixar você entrar nisso?" Eu rosnei.

"Eu já estou envolvida", disse ela em uma voz sombria. "Não posso ficar de fora, mas você pode."

Deus, Katie, pare de mentir para mim e me diga o que você sabe!"

"Não, você vai tentar se envolver", retrucou Katie.

"Eu já estou envolvido!" Eu gritei. “Eu quase morri hoje, de acordo com você! Isso não me envolve?

"Isso faz de você um alvo", disse Katie calmamente. “Um alvo que pode machucar Zander se eles te pegarem. É por isso que precisamos que você se esconda. Sabemos que eles estão especificamente atrás de você."

"Zander me recrutou para ajudar com David King, então por que diabos eu não posso ajudar agora?"

"Porque eles são piores do que o David. Muito piores"

"Oh, então agora você conhece quem estamos atrás?" Eu disse.

"Sim!" Katie gritou, de pé sobre mim. "ELES ME MANTIVERAM CATIVA POR UM ANO, CLARK, EU SEI QUEM SÃO!"

Recusei-me a recuar. “Então ele está fazendo isso como vingança por você? É isso?"

"Não", disse Katie, irritada.

“Quem são eles, Katie? As três pessoas na polícia relatam vítimas ou criminosos? ”

“Criminosos. Sophie é a rainha cadela - admitiu Katie. "Mas isso é tudo que você precisa saber."

"E você sabia disso o tempo todo", eu acusei. "Então não vai me dizer o que é isso tudo?"

"Não", ela respondeu.

"Bem, se você vai esperar até eu quase ser morto para me contar segredos, então eu não quero mais fazer parte disso", eu disse. Levantei-me e caminhei até a porta. Katie pulou e agarrou meu braço, me segurando.

"Você não pode sair até eu te levar a algum lugar seguro", ela disse, olhando-me nos olhos.

"Foda-se", eu disse, em seguida, puxei meu braço para fora de seu alcance. Eu atravessei a delegacia de polícia, ganhando velocidade conforme ia. Eu não queria mais estar perto disso.

Cheguei na rua e corri.




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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Disseram que eu era nada mais que uma cadela

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ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. GATILHOS DE VIOLÊNCIA EXTREMA, VIOLÊNCIA INFANTIL. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.

Meu pai me deu o nome de Laika porque quando nasci, meu avô disse para ele me tratar como um cadela malcriada. Para meu pai, Laika era sinônimo de cadela. Usou o nome para que eu sempre me lembrasse do meu lugar na hierarquia: Insignificante. Abaixo. Inferior.

Nada mais que uma cadela. 

Meu pai tinha intenção de meu humilhar e degradar com tal nome, mas ao invés disso, me honrou.

Veja bem, Laika era uma cadela de rua de Moscou. No dia 3 de Novembro de 1957, a União Soviética colocaram-na no Sputnik 2 e a lançaram para o espaço. Foi o primeiro animal a orbitar a Terra.

Os Soviéticos sabiam como colocar um foguete no espaço, mas não sabiam como fazê-lo retornar. Isso tornou a missão de Laika uma sentença de morte. Pouco depois de chegar na órbita, o interior do Sputnik 2 ficou absurdamente quente - muito mais quente do que mamíferos conseguem aguentar. Poucas horas depois do lançamento, Laika morreu uma morte agonizante. Pereceu do mesmo jeito que viveu: Insignificante, baixo, inferior. Abandonada. Não amada.



Nada mais que uma cadela.

Passei muitas horas imaginando o terror, dor e solidão que ela passou. Como seria, passar minhas últimas horas de vida sofrendo, atravessando a divina escuridão, dentro de um balde de metal?

Como deve ter sido não entender o que estava vendo, ou o motivo para que tudo tenha ficado tão quente e tão barulhento de repente?

Como deve ter sido não entender o porquê - depois de ter sido arrancada das ruas cruéis e apresentada a um mundo de bondade - de agora estar sozinha? Provavelmente pensaria que tinha sido uma cadela malcriada. Provavelmente pensaria que aquela era minha punição. 

Punição era minha língua materna. Eu sabia muito bem o que era ser punida por transgressões que não lembrava ou entendia, ser tão machucada que meus batimentos cardíacos triplicavam e minha mente voava pela janela até as estrelas, retraçando o voo amaldiçoado de Laika enquanto minha casca exterior se contorcia e gemia no chão sujo da casa, cem quilômetros abaixo. 

Mesmo assim, me adaptei a receber punições. Como já disse, eventualmente se tornou minha língua. Com um certo tempo, qualquer um pode aprender uma linguagem.

A única coisa que eu não conseguia me adaptar era ao medo. 

Quando criança, eu temia tudo. Veja bem, nas partes mais profundas e esquecidas do mundo, existem coisas que a maioria das pessoas não acreditam e muito menos entenderiam. Maneiras antigas, coisas antigas, verdades antigas. 

E monstros antigos.

Monstros como meu pai e meu avô. 

Como posso descrever de um jeito que você acreditaria? Talvez não consiga. Talvez nem devesse tentar. Então, ao invés disso, irei descrever meu avô.

Seu nome era Paval. Quando fiz nove anos, ele já havia passado por seis corpos. Por isso, quero dizer habitado seis corpos. Usando uma variante de magia de sangue aperfeiçoada pelos ancestrais durante muitos séculos, saltava de um corpo para outro corpo.

Não era um espírito; tinha um corpo físico próprio, uma coisa monstruosa e contorcida, coberta de cicatrizes e de uma pele dura e cintilante, um corpo que podia se encolher ao tamanho de uma cobra pequena ou se expandir e ficar do tamanho de uma casa.

Embora toda suas maravilhas, aquele corpo era fraco; a luz do sol queimava seus olhos e fazia bolhas em sua pele. Então entrava em outros corpos, como uma mão dentro de um fantoche, e os usava até apodrecer. Jamais esquecerei a visão dele - de tantos eles - em corpos diferentes enquanto sua pele se degenerava e caia em pedaços molhados e descoloridos pelo chão. Ou o jeito que seus olhos - olhos duros, redondos e amarelos - brilhavam profundamente dentro de suas órbitas oculares roubadas.

Vovô preferia o corpo de homens, mas as vezes escolhia mulheres ou crianças. Uma vez, até usou o corpo de minha mãe. Eu era muito nova na época - talvez três anos - e a visão de sua forma familiar em pé diante do fogo me transmitiu tanta alegria que eu berrei de puro êxtase.

Então ela se virou, e em suas órbitas arroxeadas vi os olhos de meu avô: Um amarelo monótono e cintilante. Como ouro apodrecido. 

Recuei, gritando. 

Meu pai, que estava acariciando um par de sapatinhos antigos de bebê, olhou para mim com um desprezo tão profundo que queimou meu coração. "Calada, cadela!"

Me encolhi. Aquilo fora um erro; seu desdém explodiu em desgosto. Saltou de sua cadeira e marchou na minha direção. Uma dor pesada e desconfortável irradiou no meu abdômen. Me afastei, choramingando e me escondi debaixo das escadas.

Fiquei lá deitada sozinha por muitas horas. Eventualmente minha mente fugiu de meu corpo e subiu aos céus, um mergulho reverso até o mar de estrelas. Vaguei para longe, sonhando de constelações de diamantes e com uma nébula azul e vermelha. Ao meu lado estava uma cachorrinha com o rosto listado. Minha xará. 

Laika.

Quando acordei, a senti: peluda e quente, o seu peito subindo e descendo abaixo da minha mão. Abri meus olhos. Por apenas um momento eu a vi nas sombras. Então foi sumindo, encolhendo-se em direção do chão. Tentei agarrá-la, mas o chão a engoliu. Meus dedos se fecharam nas tábuas frias e duras de madeira. 

Cobri meus olhos e chorei.

Muitos meses depois, Vovô-dentro-de-Mamãe deu a luz a um bebê. Um menino com olhos amarelos e com os cabelos cacheados e negros de meu pai. Poucos minutos após o parto, Papai pegou o bebê e o levou para fora. Retornou uma hora depois, de mãos vazias.

Induzida pelo horror, imediatamente saí correndo pela noite. O frio era brutal, revigorante e exaustante ao mesmo tempo. Procurei até encontrar o bebê, chorando fracamente ao lado de um monte de neve. Ele ainda estava coberto com o sangue de seu nascimento. 

Dei-lhe o nome de Alexander e o levei para casa. 

Quando entrei, Papai imediatamente me estapeou. Cambaleei para trás enquanto estrelas surgiam na minha visão. "Nunca," sibilou, desprezo pingando de cada sílaba, "nuca me desobedeça de novo. Me dê ele agora." Esticou os braços para pegar Alexander, mas Vovô o parou.

Olhei para cima, engolindo o choro. Vovô olhava de volta para mim com o rosto apodrecido de minha mãe. A boca - inchada e descolorida, com uma aparência deslocada - torceu-se em um sorriso. "Não. Deixe a cadela ficar com o filhote. Temos preocupações maiores."

Com certeza tinham; trabalhavam juntos, e trabalhavam constantemente. Papai abduzia vítimas, e Vovô as usava. Quando Papai trazia uma pessoa nova para a cabana, Vovô usava suas mãos - enormes e longas, marcadas de cicatrizes e cobertas daquela pele estranhamente cintilante - para arrancar a língua das vítimas e esmagar seus pés. 

Então aguardava até o cair da noite - porque, lembre-se, a luz do sol queimava seus olhos e fazia bolhas em sua pele - e os carregava até sua Capela.

Sua Capela era uma estrutura antiga de pedra na base de uma colina arborizada. Na capela haviam três janelas vermelhas e seis bancos apertados. Na ponta de cada banco estava um cadáver dissecado, encarando o altar como sentinelas.

Eu odiava a capela de meu avô; o próprio ar pesava em mim quando eu a adentrava, apertando meu coração e envenenado meus pulmões. A pior parte era o medo; elétrico e paralisante, inevitável. 

Por sorte, eu era apenas uma cadela, e cadelas não passam muito tempo dentro de capelas. Mas cadelas ouvem gritos de longe, ecoando pela floresta da montanha e adentro da noite escura. 

Vovô não saía com frequência de sua Capela, mas quando saia, era nas primeiras horas da manhã. Sei disso porque meu pai e eu éramos obrigados a fazer vigílias até que ele entrasse pela porta de casa. Quando meu avô voltava de sua Capela, parecia humano de novo: pele lisa, sorriso largo, boas proporções. As vezes se parecia um pouco com Papai. As vezes com suas vítimas.

Era tão incompreensível para mim quanto o espaço sideral deve ter sido para Laika.

O fluxo de vítimas de meu avô nunca terminava. Vagabundos, idosos, viajantes, órfãos fugindo da violência. Houveram tantos.


Muitos, muitos mesmo. 

Se não fosse por Alexander, eu teria definhado a nada. Era mais que um irmão para mim; para todos os efeitos, era meu filho. Nem Vovô nem Papai ligavam para ele. Nem sequer o alimentavam ou davam-lhe roupas; Eu mesma tinha que o vestir e o alimentar com o pouco que tinha.

Apesar de todos meus esforços, nunca aprendeu a falar. Mas isso não queria dizer que não conseguia se comunicar - conseguia, com gestos e expressões faciais e silabas aleatórias - porém a linguagem lhe escapou. Mas tudo bem. Cresceu para ser um menino doce e curioso com sardas, com mãos compridas e delicadas. Com o tempo, seus terríveis olhos amarelados clarearam para um verde brilhante. Ele era minha vida. Ele era meu coração.

Mas não era o suficiente.  

Uma noite, quando um grito de uma menininha vibrou para fora da Capela de Vovô por entre as árvores, finalmente fui até meu pai. 

Deitei-me humilhantemente a frente de seus pés, que foi como me ensinou a aproximar-me dele. O chão de madeira era duramente frio debaixo dos meus dedos. "Por que, Pai? Por que vocês fazem isso?"

Ele estava sentado em sua cadeira, observando o fogo. Em suas mãos segurava um par de sapatinhos brancos de bebê. "Porque seu Avô e eu precisamos viver, cadelinha." 

"Eu terei que fazer isso para viver?"

"Sim."

"Então não quero viver."

"Entendo," disse. Suas mãos se apertaram nos sapatinhos. "Mas você não tem escolha."

Engoli um choro próximo e esperei ser dispensada; eu não podia chegar até ele sem ser engatinhando, e não podia sair se não fosse mandada. 

Ao invés disso, disse, "Levante-se, Laika." 

Ouvir meu nome era como receber um balde de água fria na cabeça. Nunca usava-o; naquele ponto, na verdade, já tinha quase esquecido que tinha um nome. 

"Eu disse, levante-se, Laika."

Era difícil obedecer; o medo fazia meus ossos parecerem de borracha e meus músculos ficarem fracos. 

Papai segurava os sapatinhos de bebê. "O que você vê?"

"Sapatos." Minha voz tremia. "Sapatinhos velhos de bebê."

"Esses sapatos," Papai disse, "eram de minha irmã, Alexandra. Eu a amava mais do que qualquer outra coisa. Mais que a própria vida. Mais que a meus pais. Mais que a sua mãe. Mais que a você. Ela era o meu coração."

Eu o observava. A luz do fogo iluminava seu rosto, criando fendas nas rugas. Seus cabelos negros encaracolados se moviam como fumaça, e seu nariz comprido e afiado parecia estranho e monstruoso. A eletricidade paralítica invadiu minha pele, tão parecido com o que eu sentia na Capela que eu poderia ter chorado.

"No meu décimo segundo aniversário," disse, "seu Avô ferveu uma panela de óleo e chamou Alexandra. Nós dois iriamos colher flores silvestres mais tarde, então estava vestida em suas melhores roupas: um vestido azul e sapatos brancos. Esses sapatos." 

Papai não falou por um longo tempo.

"Ela era o meu coração," repetiu finalmente. "Quando meu coração quebrou, eu quebrei. Me tornei como seu Avô. Algum dia, serei exatamente como ele. Viverei para sempre. Você também viverá." 

Naquela noite, tive pesadelos de uma garotinha de olhos amarelos derretendo-se em bolhas enquanto o corpo apodrecido de minha mãe jogava óleo quente nela.

Acordei gritando.

A luz da lua raiava pela janela, banhando meu quarto com um prata celestial. Meu coração batia tão pesadamente que eu podia ver minha camisola se movendo no peito. Eu queria fugir. Queria fugir, também, porque se não o fizesse morreria, e quando morresse eu poderia viajar pelas estrelas junto com a outra Laika.

Mãos pequenas e quentes tocaram meu rosto. Me virei esperando Alexander. Ao invés disso, encontrei meu pesadelo. 

Bolhas enormes e inflamadas borbulhavam e explodiam, fazendo com que correntezas de pus escorressem por seu rosto pequeno e cru. A pele envolta de sua boca havia se queimado e deteriorado, deixando totalmente expostas duas fileiras certinhas de dentes de leite. Couro cabeludo queimado e um pedaço de osso do crânio brilhavam por entre seus cabelos negros encaracolados. O vestido azul estava grudado em seu corpo. Óleo pingava da bainha, encharcando minhas cobertas.

"Não chore," sussurrou. 

Alexander se mexeu entre nós duas. 

"Vá embora," sussurrei.

O queixo cheio de bolhas da menina tremeu. "Mas você me fez vir para lá. Por favor, me deixe dormir."

"Tudo bem," sussurrei, pois não sabia mais o que dizer. 

A menina se enfiou debaixo das cobertas. Assisti, apavorada, enquanto ela jogava um braço queimado e ossudo por cima de Alexander e caia no sono. 

Naquela noite, não vaguei pelas estrelas junto de Laika. Ao invés disso, permaneci acordada, assistindo a aparição com tanto entusiasmo quanto medo. 

Perto do raiar do dia, minha porta rangiu. Tentei cobrir a menina com meu corpo enquanto meu pai entrava no quarto. 

"O que é isso?" Perguntou rispidamente. 

"Por favor," choraminguei. "Por favor, não."

A menina se virou e - incrivelmente - começou a encolher. Seu corpo se afinou até virar nada, deixando seu vestido no chão. E o vestido também afundou, deixando o chão frio e vazio sozinho. 

"O que foi isso?" Papai gritou. 

"Eu vi aquilo no meu sonho -"

"Ela!" Papai rugiu, "Ela, não aquilo!"

"Eu a vi em meu sonho," gaguejei instintivamente. "Quando acordei, estava aqui."

Suor brilhava na pele de meu pai, parecendo estrelas. "Vista-se. Você precisa ir ver seu avô imediatamente."

Cai sobre minhas mãos e joelhos, engatinhando até ele. 

"Não," falou. "Levante-se. Traga o menino."

Alexander chorava agressivamente quando o peguei no colo. Eu o ignorei e segui Papai até a floresta escura. Toda a glória do início primaveril banhava a paisagem: pálidos feixes de luz atravessavam os dosséis, cortando as grossas sombras com o brilho de ouro. Vermes rastejavam pela vegetação rasteira e veados observaram à distância. A floresta estava sempre cheia de animais; Vovô não era um perigo para os pássaros ou  para os animais, afinal de contas.

Logo a Capela apareceu em minha visão: uma igreja antiga com um pináculo negro, janelas vermelhas e paredes de pedra encrustadas de gelo.

Papai nos apressou para dentro. No momento em que atravessei a porta, minha pele começou a se arrepiar. Pavor e medo varriam-me. Alexander explodiu em lágrimas. 

Papai me empurrou em direção do altar. Pelo canto do olho, vi os cadáveres sentinelas se remexendo. Peitos que subiam e desciam em um ritmo sem sentido. Um corpo em especial, alto e com cabelos cor de cobre, se virou quando passei. 

Cobri os olhos de Alexander e parei no altar. 

Sombras se espessaram e se contorceram contra a parede dos fundos. Nos bancos, ossos rangiam e juntas secas estalavam.

Algo piscou da escuridão atrás do altar: um enorme par de olhos que pareciam luas douradas, brilhando no breu congelante. 

Vovô.

"A cadela," Vovô entonou, "e seu filhote." Rosnou: um estrondo grave e de tremer os ossos, como de um tigre. Dentes reluzindo nas sombras, um arco de marfim brilhante mais largo que a cabeça inteira de Papai. 

"Paval," Papai disse urgentemente. "Ela teve um pesadelo. Quando acordou, o pesadelo a seguiu para fora de seu sonho. Vivo. Eu vi."

"Ah." Vovô murmurou. "Ah." 

"Nossa cadelinha tem algum talento, afinal," disse Papai. 

"Muito bem, muito bem mesmo," Vovô proferiu, "se ela amar seu filhotinho. Você ama seu filhote, cadela?" Reapareceu das sombras, contorcido e energético e totalmente inumano. "Você o ama? Ou você se sente obrigada a criá-lo?" 

Abri minha boca para responder. Mas ao invés de fazer isso, explodi em lágrimas.

Vovô riu, um rugido baixo que chacoalhou a poeira das vigas acima. "Uma cachorra fraca, com certeza. Nossa esperança está no menino, Mikhail. Sempre esteve no menino. Foi por isso que eu o fiz. Agora vá." Aqueles enormes olhos amarelos fitaram os bancos. "Não gosto de instigar os sentinelas. Não quando estão tão famintos como agora."

Medo e descrença apareceram no rosto rugoso de Papai. "Você entende o que acabei de lhe contar? Ela criou vida de seus pensamentos." 

"Uma substituição fraca para o que precisamos. Vá embora, Mikhail."

"Mas -" 

Vovô disparou das sombras, uma massa ondulante de pele brilhante e membros malformados, derrubando Papai nas pedras.


Os cadáveres sentinelas soltaram suspiros profundos e continuaram a se contorcer.

"Nunca," Vovô rugiu. A luz do sol banhava por entre as janelas de carmesim, impregnando-o seu estranho ser um um brilho vermelho. Ele olhou para o céu. Um pedaço estrelado do espaço sideral. "Nunca me desafie."

Esperei sem fôlego que os olhos de Vovô explodissem e que sua pele começasse a chiar - afinal de contas, estava exposto à luz do dia - mas isso não aconteceu.

Muitos momentos depois, Vovô golpeou Papai no rosto e voltou para a escuridão.

Nós saímos. Papai não falou de novo até vimos que nossa cabana. Então ele me pegou e me arrastou para fora do caminho.

"Ouça", rosnou. "Escute bem. Eu posso te proteger dele. E...” Ele olhou para Alexander, os olhos brilhando de desgosto. “Quando chegar a hora, posso protegê-lo também. Mas só se você me ajudar."

“Por que eu precisaria de proteção? Ele é pequeno e me ama como uma mãe”.


“Você se lembra da história de Alexandra?”, Meu pai perguntou.

Assenti.

“Sua história está chegando. Só que Alexander será eu e você será Alexandra."

Meu coração caiu na terra fria. Cuidadosamente pressionei a cabeça de Alexander no meu ombro, protegendo seu rosto.

“Ouça, cadela. Quando você sonhar com a minha irmã...” Sua voz falhou; Se afastou e passou os dedos pelos cabelos. Lágrimas brilhavam em seus olhos, que eram enormes e miseráveis acima de sua boca trêmula. "Quando ela vier de novo, traga-a para mim."

"Tudo bem, Pai." Nunca tinha visto ele chorar antes; a visão era assustadora e curiosamente emocionante. "Eu irei."


Papai assentiu com a cabeça, depois saiu. Eu quase o segui, mas pensei melhor. Em vez disso, fiquei na floresta com Alexander.

Quando a manhã se iluminou e o canto dos pássaros soou em uma sinfonia, coloquei Alexander no caminho estreito. Ele correu à frente, cantarolando uma melodia de composição própria. Sombras e luz do sol manchavam sua pele, transformando-o em um espírito da floresta. As árvores estavam em plena floração: pétalas caíam como a neve, cobrindo a terra de um branco reluzente.

Alexander ia muito na frnete. Depois de um tempo, não consegui  mais ouvi-lo ou vê-lo; se afastou, escorregando para as sombras profundas.

O pânico tomou conta de mim. “Alexander! Alexander!" Corri, fazendo uma careta contra a dor no meu peito. Meu coração batia descontroladamente, tão forte que eu podia ver minha camisa se mexer; queria fugir novamente. "Alexander!"


Ele disparou por entre as árvores. Eu parei, banhada com alívio tão poderoso que me tirou o fôlego. Pétalas cobriam a cabeça e os ombros. Enquanto eu o observava, uma desceu e pousou em seu nariz. Grandes olhos verdes brilhavam acima da pétala, brilhantes como a promessa da primavera.

Pela primeira vez na minha vida, meu coração estava tão cheio que chorei.

Naquela noite, Alexandra veio até mim novamente, com bolhas em carne viva escorrendo pelo rosto. Seus olhos haviam desaparecido, deixando massas inchadas de pele crua e em suas órbitas derretidas.

Lembrando minhas instruções, me sentei. "Pai", berrei. Alexandra me pegou cegamente, mãos ossudas se fechando em mim. "Pai!"

Papai irrompeu no meu quarto, ofegando. "Alexandra!" Ele se atirou para a frente, braços estendidos como se agarrá-la.

Ela se virou.

Papai congelou.

Alexandra cambaleou até ele. "Mikhail", choramingou. "Mikhail, meus olhos doem."

O pai desabou e cobriu os próprios olhos quando Alexandra se aproximou. Ela deixava para trás um rastro de pus e óleo, brilhando como um minúsculo rio ao luar.

"Mikhail, minhas mãos doem."


Papai ofegou miseravelmente.

"Mikhail, minha pele está em chamas e se fica se despedaçando." Ela parou diante dele e se agachou. Papai choramingava e choramingava como um cão abatido, afastando-se das mãos dela.

Ela colocou uma pequena mão nas bochechas dele. Papai guinchou e se contorceu, mas não conseguiu se afastar dela. "Mikhail", ela chorou. "Você se tornou igual a ele." Ela o empurrou e começou a encolher, afundar, desaparecendo no chão. No momento em que a mão dela sumiu, o Papai ficou de pé e correu.


Depois disso, nunca mais pediu para ver Alexandra. 

Isso é bom, porque não a vi mais em meus sonhos depois daquilo. Eu só via Laika. Passei a maior parte das noites flutuando entre as estrelas com aquela condenada e amável cadela ao meu lado. Imaginadas ou não, as visões eram gloriosas: formações estelares incompreensivelmente belas, planetas, grandes extensões multicoloridas de névoas celestes.

Às vezes eu acordava, inchada e incoerente, e sentia seu pelo contra a minha pele. Mas quando abria os olhos, não havia nada.

Certa manhã de inverno, acordei muito cedo. Meu estômago roncou imediatamente e não era surpresa; Papai não me alimentava faziam dias. Eu tinha alimentado Alexander com restos de comida e cascas de árvore.

Isso, decidi, mudaria naquele dia.


Me rastejei até a cozinha. Não havia muito; nunca houve. Mas eu juntei o pouco que pude e me virei.

Meu avô estava sentado à mesa, grandes olhos dourados cintilando em seu terrível rosto. “Cadelinha. O que você fez com seu pai? Ele não caça mais . Ele não come mais. Ele não obedece mais."

Senti como se estivesse de volta à sua capela: esmagada pela escuridão, pesada pelo medo, à beira do pânico.

“Sua habilidade”, disse Vovô, “não é vista nesta terra há mil anos ou mais”.

Claro que aquela habilidade não era da terra; Sem dúvidas eu a havia encontrado enquanto navegava pelo espaço e respirava poeira estelar. "São apenas pesadelos."


"Não. Você pega as coisas obscuras do mundo - o medo, o ódio, a dor - e as canaliza para a forma física. E isso é apenas o começo. Você será capaz de fazer qualquer coisa. Você fará corpos. Corpos permanentes e perfeitos só para mim... e para você."

O prazer em sua voz me deixou enjoada.

Ele disse: “Nossas mulheres sempre foram fracas e sem talento. Eu pensava o mesmo de você, cadelinha."

Lágrimas pinicavam meus olhos e meus ossos vibraram como se estivessem lutando para romper a carne e fugir. Mas não adiantava; o destino já florescia entre meu avô e eu, pesado e sujo com promessas de desespero.

Vovô sussurrou: “Escute atentamente, pois você só ouvirá isto uma vez: eu estava errado”.

Saiu. Corri para a janela e o observei atravessar as árvores enquanto o nascer do sol ameaçava aparecer. Volta a sua capela.


Eu esperei até o sol nascer. Então corri para o meu quarto, enrolei Alexander em todas as roupas que encontrei e saí.

Nós seguimos o caminho por muitos quilômetros. Nossa casa ficava a horas e horas da cidade mais próxima; não chegaríamos até o anoitecer. Minha esperança era que Vovô não notasse nossa ausência até o dia seguinte. Não era uma esperança improvável; Vovô passava a maior parte do tempo na capela.

No segundo que esse pensamento passou pela minha cabeça, uma forma escura brilhante saltou das árvores e derrubou Alexander de meus braços.

Vislumbrei um borrão de membros retorcidos e mãos feitas de pesadelo, grandes olhos amarelos como luas achatadas. Alexander gritou quando uma torrente de sangue espalhou-se pela neve. Encharcou rapidamente, derretendo cânions vermelhos através daquele branco imaculado.

Vovô olhou para mim, arfando. Então se inclinou e rasgou a garganta de Alexander.


Gritei. Pássaros voaram e mamíferos correram pela vegetação rasteira. A nota penetrante ecoou pelas montanhas. A dor dentro do berro deveria ter acabado com o mundo, mas não havia ninguém para ouvir e ninguém que se importaria. 

Vovô sorriu largamente. A carne e o sangue de Alexander por entre seus dentes. 

Desabei.

Eu senti; o peso esmagador da tristeza, a sensação quase física de meu espírito se partindo em mil pedaços e desmanchando-se com o meu interior.

Caí de joelhos e fiquei abraçada à cabeça de Alexander por horas. 

Meu pai finalmente nos encontrou no cair da noite. Tinha consigo um pedaço de pão e uma coxa de galinha oleosa. Colocou ambos em minhas mãos e partiu. 

Parti o pão em pedaços e coloquei, um por um, na boca de Alexander. Quando ele não acordou, desfiz-me em lágrimas e arremessei o pedaço de frango por entre as árvores.

A lua subiu ao céu escuro e cruel. Estrelas brilhavam por entre os galhos secos das árvores acima, criando um padrão fractal de tirar o folego.

Deitei-me abatidamente ao lado de Alexander, puxando-o para perto do meu corpo. Ele estava gelado. Gelado demais. Fiquei agarrada nele do mesmo jeito, mantendo meus olhos fixos nas estrelas. Minha mente se desprendeu com muita dificuldade, como se estivesse presa em uma areia movediça.

Finalmente, se soltou livre e navegou aos céus, desaparecendo por entre o espaço prateado no mar de estrelas, disparando cada vez mais alto até que eu vi a Terra girando lá embaixo.

O foguete de Laika passou por mim. Estiquei o braço e me agarrei a uma das barras de metal no nariz da nave. Eu podia sentir Laika lá dentro: seu pavor vibrava pela cabine e chegava na minha corrente sanguínea. 

"Está tudo bem," eu disse. "Está tudo bem, Laika. Estou aqui. Quando você aterrizar, te ajudarei a sair e vamos brincar juntas." 

O medo dela se diluiu, sua dor também. O mesmo aconteceu comigo. Juntas navegamos por entre as estrelas, olhando lá para baixo, para a Terra, admirando aquela beleza incompreensível ao nosso redor. 

Acordei com frio, dolorida e com muito mais dor do que jamais poderia descrever.

Me sentei. O corpo duro de Alexander se desprendeu de mim. Tateei por ele cegamente. Uma camada fina de gelo cobria seus olhos. A ferida em sua garganta era uma fenda de horrores, eu não conseguia sustentar o olhar por muito tempo.

Puxei meus joelhos até meu queixo e chorei. 

Depois de um tempo, algo quente tocou minha mão. Um nariz molhado tocou minha palma. Eu já sabia muito bem o que veria antes mesmo de abrir meus olhos. 

O rosto listado de de Laika e seu rabinho graciosamente curvado me fizeram sorrir, por entre as lágrimas. Estrelas brilhavam no seu pelo. gentilmente pulsando raios de luz. 

"O que é isso?" A voz de meu avô irradiou por entre as árvores. 

A raiva fluiu pelo meu sangue, esquisitamente corrosivo. Ódio, aprendi depois, pode ser prazeroso; é a fúria e é a base do poder.

Vovô surgiu da escuridão, sua pele escamosa brilhando como um lago debaixo da lua. "Você desperdiça o seu talento," debochou, "em uma vira-lata. Nem mesmo em seu próprio filhote! Não importa. Irei te corrigir."

Laika se levantou e pulou, o focinho furando um dos olhos de lua plana do Vovô. Ele gritou e balançou a cabeça para trás e para frente. Laika caiu na neve, se contorcendo mas rapidamente se endireitou. Então mordeu o pé dele. Seus dentes afundaram através daquela pele impenetrável e imortal como se fosse manteiga.

Laika não era grande o suficiente ou forte o suficiente para matá-lo, mas fez buracos nele da mesma forma quando um fósforo queima buracos em um papel. Logo Vovô estava de joelhos, a poucos metros do cadáver de Alexandre.

Laika veio até mim, ofegando e desabou no meu colo. Sangrava de mil feridas: algumas pequenas, outras indubitavelmente mortais.


"Boa menina." Minha voz falhou. A acariciei gentilmente, querendo que as feridas se fechassem. Eu era um monstro. Usei Laika como os outros tinham a usado; chamando-a em falsos pretextos, enchendo-a de esperança, antes de jogá-la no vazio. “Boa menina. Boa menina, boa menina." 

Olhei para cima quando o olho bom de vovô deslizou até meu irmão morto. Algo escuro floresceu lá: uma esperança perversa e corrompida. Se contorceu, retorcendo seu corpo, se encolhendo até ser nada mais que uma casca ressequida, e então deslizou pela garganta de Alexandre.

Gritei enquanto o corpo de Alexander se contorcia e tremia. Então ele se sentou, ossos rangendo e tendões congelados estalando.

Ele sorriu. Seus olhos brilhavam como ouro derretido em uma forja.

Laika atacou novamente. O rosto de Alexander se curvou em um grunhido quando ela mordeu e rasgou sua pele, exibindo uma energia em desacordo com suas terríveis feridas.


Assisti, impotente, desesperançosa e sofrendo, desejando que eu pudesse me soltar e voar para as estrelas mais uma vez. Exceto que não haveria mais nada lá agora; Eu chamei Laika das estrelas e a condenei.

A neve ressoou um som característico atrás de mim. Me virei. Papai estava ali, me observando com desprezo. Em suas mãos estava uma espingarda lustrosa e reluzente.

Alívio e horror me envolveram. Era o fim. Minha mente se separaria para sempre dessa vez. O medo finalmente acabaria.

Laika mordeu Vovô dentro de Alexander, que baia nela. Ela choramingou, mas voltou a segurá-lo rapidamente.

Pai passou por mim e engatilhou a arma.

"Não!" Gritei. "Não a machuque! Não a machuque!"

O pai apontou a arma para a cabeça de Alexander e disparou. Sangue e vísceras, carne escura e brilhantes explodiram na neve.

Papai disparou novamente, depois recarregou e disparou de novo e de novo. A cabeça de Alexander evaporou em uma névoa vermelha. Finalmente seu corpo se revirou e o Vovô - pequeno, sangrando, estranho - deslizou para fora de sua garganta.

Laika pegou-o e o segurou. Papai apertou o cano da arma contra o olho bom e puxou o gatilho quando o sol apareceu sobre as montanhas.

Papai recuou. Estendi a mão para ele, bêbado de esperança e gratidão, mas ele se afastou de mim. Em seu rosto envelhecido, vi desespero e raiva ...

E desprezo.

Ele manteve os olhos presos aos meus quando colocou a arma na boca.


"Não!" Gritei.

Puxou o gatilho. Metade de sua cabeça evaporou-se, deixando uma massa brilhante como uma pedra preciosa feita de carne humana. Seu corpo cambaleou para frente e depois caiu na neve.

Demorou muito tempo para o sol queimar Vovô até virar uma poça que se assemelhava a óleo sujo. Laika ficou o segurando até que o último pedaço derreteu. Então tropeçou até mim e desmoronou.

Eu a acariciei até que seu corpo se encolheu e afundou no chão, deixando nada além de uma dispersão de orbes minúsculos e escuros: as estrelas que eu via em seu pelo. Toquei em um. Estava agradavelmente quente. Eu os juntei e coloquei-os no meu bolso. Fui até o corpo de Alexander - destruído além do que posso descrever, despedaçado de formas que eu não o via como sendo inteiramente real - e sentei junto dele até o anoitecer. Então me levantei e fui embora.

E a vida continuou.

No início, eu os trouxe de volta de dentro dos meus pesadelos - Alexandre, meu pai, meu avô e até Alexandra, - mas rapidamente me ensinei desativar e eventualmente destruir essa habilidade. Não é um poder do bem; Nasce da raiva, do desespero, do egoísmo e do medo.

E eu não tolero o medo.

Além disso, os cães não têm poderes tão terríveis. É bom ser uma cadela, porque cadelas não são necromantes. Não são monstros. São nada mais nada menos do que as criaturas mais simples e mais amorosas do mundo.


É por isso que sempre serei a cadela Laika.

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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