NOVA SÉRIE: Compilação Sobrenatural (PARTE 1)

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TINHA DADO ERRO NO HTML! JÁ ARRUMEI! 

Olá Creepers! Vocês se lembram das séries de compilação de falhas no Matrix que eu fiz e as compilações de lendas urbanas que a Adriana fez? Então, estarei fazendo novas compilações de relatos sobrenaturais que estou coletando e traduzindo em fóruns estrangeiros (reddit). São histórias reais que aconteceram com pessoas reais. O post original tem mais de dez mil comentário (sim, você leu certo!), mas vou trazer aqui para o blog as mais interessantes que eu encontrar. Não sei quantas partes exatamente farei, provavelmente até vocês enjoarem, hahahah! Se algo sobrenatural já aconteceu com você, comente, assim sua história poderá aparecer na próxima compilação. Espero que gostem.
***

SOBRENATURAL
(adj.)




  1. Miraculoso; só conhecido pela experiência da fé.
  2. Sobre-humano; que não se consegue alcançar, atingir naturalmente: esforço sobrenatural às questões humanitárias.
  3. Extranatural; que vai além do natural, do comum: forças sobrenaturais.
  4. Fenômeno não comprovado cientificamente.
  5. Aquilo que se expressa ou ocorre extraordinária e maravilhosamente.

***
Em 2007 meu avô finalmente perdeu sua batalha de 20 anos contra a Leucemia. Minha vó não lidou bem com isso, ainda mais ficando sozinha na casa onde eles haviam morado juntos por 60 anos.
Nós transferimos a vovó para uma casa de repouso alguns meses depois, e por razões do seguro (propriedade desocupada), meus pais perguntaram para mim se eu poderia me mudar para a casa e cuidar de lá, assim também finalmente sairia da residência de meus pais. Concordei sem pensar duas vezes. 

Lembro que coisas estranhas começaram a acontecer já logo após seu falecimento. O retrato dele que tínhamos pendurado em um quadro na parede de nossa sala caiu do gancho. Porta-retratos com a foto dele caiam para frente durante a madrugada. Eu não ligava muito pois achava que minha vó que estava fazendo isso. 

Antes de me mudar, minha família conseguiu uma caçamba para podermos limpar algumas bagunças que haviam ficado para trás. Como passamos o dia inteiro faxinando e era verão, trouxemos nossa cadela para passar o dia com a gente. Meu avô amava esse cachorro com todas as forças. Mas desde o falecimento, a cadela não ia mais lá no porão, que era onde meu avô passava a maior parte de seu tempo, no escritório. Ela se recusava descer no porão de qualquer forma, e latia algumas vezes para as escadas. 

Isso era bem estranho, sendo que ela raramente latia. Foi aí que pensei pela primeira vez "ele está aqui". Me mudei para lá pouco depois. Enquanto morei lá, coisas sumiam o tempo todo. Eu havia comprado novas fechaduras para a porta dos fundos, e deixei-as em cima da mesa de café para resolver aquilo no final de semana. Alguns dias depois quando fui fazer a instalação das fechaduras, elas haviam sumido. Depois de procurar por uma semana, finalmente encontrei na traseira da caminhonete do meu tio que estava guardada na garagem (eu estava procurando no meu carro e achei por acidente). Meu avô sempre foi de fazer piadas e brincadeirinhas desse tipo, então eu já esperava esse tipo de coisa. 

Ele costumava acordar todos os dias as 05:30 para ouvir as notícias matinais no rádio da cozinha. Eu acordava alguns dias de manhã e o rádio estava ligado. Com frequência, eu ouvia barulho de digitação na máquina escrever lá no escritório do porão. Tudo isso se tornou bastante reconfortante. Comecei a falar em voz alta com ele. Ter conversas com ele. Eu sentia muita saudade. Depois de mais ou menos 6 meses, repentinamente os barulhos pararam. Nada mais sumia. O rádio não se ligava mais as 05:30. 

Deixei isso para lá por um tempo, mas comecei a ficar preocupado. Fui até a casa dos meus pais e peguei nossa cachorra para passar um dia lá comigo. Ela estava apreensiva no começo, mas entrou na casa. Mas havia um problema. Como dito antes, todas as vezes anteriores que ela viera aqui, se recusava a descer no porão. Mas desta vez ela desceu e foi direto para o escritório. Não havia nada diferente lá, mas ela não latia. Não caminhava para lá e para cá. Não fazia nada, na verdade. 


Foi aí que percebi que finalmente ele havia partido. Isso acabou comigo. Me senti incrivelmente sozinho. Mesmo que já fizessem mais de 8 meses do seu falecimento, foi a primeira vez que senti o peso de sua partida. 

(rcamp350)
***
Os momentos mais assustadores da minha vida aconteceram enquanto eu acampava com um amigo meu no leste do Canadá. Nós decidimos dormir neste acampamento abandonado que havíamos encontrado no meio de uma enorme floresta perto da cidade em que morávamos. Existia a tanto tempo que árvores pequenas já estavam começando a crescer por ali. Tínhamos nos deparado com aquilo enquanto explorávamos a área alguns meses antes e achamos que seria legal (e corajosíssimo de nossa parte) passar uma noite ali. Então naquele final de semana nós fomos. 

Chegamos lá depois do anoitecer pois tínhamos nos perdido enquanto tentávamos encontrar o acampamento. Nossas lanternas eram bem vagabundas, o que tornou o processo mais difícil. Quando finalmente encontramos, abrimos a porta enferrujada do alojamento e entramos. Os sons lá dentro ecoavam e ficavam bastante agudos. Haviam artigos típicos de acampamento espalhados como copos, latas vazias e livros apodrecidos. 

Já cansados, fomos para um canto do alojamento onde originalmente ficavam as camas, antes dos colchões apodrecerem até virarem nada. Um corredor se alongava até o outro lado, então podíamos ver todo o resto do lugar. 

Foi uma noite desgraçada. Haviam muitos ratos morando lá. Eu via os bichinhos nos observando das partes mastigadas do teto. Quando ventava lá fora, a estrutura balançava e gemia. Até achamos que havia um urso lá fora, circulando o local. Ainda assim, mantemos a pose e fingimos que estava sendo divertidíssimo. Mas estávamos no limite. 

Em algum momento da noite acordei do meu sono desconfortável. Me sentei para me ajeitar quando percebi uma movimentação pelo canto do meu olho. No outro lado do alojamento, onde havia uma pequena janela, vi a silhueta de um homem. Ele estava claramente olhando diretamente na minha direção. 

De primeira eu achei que poderia ser uma árvore com um formato estranho ou algo do tipo. Mas quando me movimentei para olhar melhor, a pessoa claramente percebeu e congelou no lugar. Meu coração estava disparado e acordei meu amigo imediatamente, sussurrando "tem alguém aqui" várias vezes, sem tirar meus olhos da janela. Ele acordou imediatamente e concordou enquanto olhava a janela. 
Meu amigo também o viu. Ficamos discutindo entre sussurros quem poderia ser e porque estava nos olhando. E nos dez minutos seguintes, sem brincadeira, ficamos olhando-o também. Quanto mais olhávamos, mais apavorados ficávamos. Ele se mexia ocasionalmente, mas sem tirar os olhos da gente. Em um momento eu até gritei "Hey!". Sem reação. 


Meu amigo foi mais corajoso que eu e apontou a lanterna em sua direção. Foi aí que percebemos nosso terrível equívoco. Não era uma janela que estava do outro lado do alojamento. Era um espelho. Estávamos olhando para nós mesmos desde o começo. Idiotas por completo. Ainda assim, foram os momentos mais aterrorizantes e engraçados da minha vida. Acho que foi o mais próximo que já cheguei do sobrenatural.
(hyperboledown)

***
Antes de tudo, serei o primeiro a dizer que isso tudo pode ter acontecido somente na minha cabeça... a mente humana é bizarra e pode fazer joguinhos loucos com você. Já peço desculpas por ser um relato tão longo.... Bem, quando eu ficava com medo quando era criança, meu pai costumava dizer que na vida você não devia ter medo dos mortos... são os vivos que podem te machucar de verdade. 

No final da adolescência eu ganhei uma quantia de dinheiro quando meu pai cometeu suicídio e recebi sua herança. Na época do falecimento, meu pai e minha mãe tinham uma cabana em Mount Bachelor, Oregon. A cabana foi colocada à venda, sendo que minha mãe não estava conseguindo lidar com os custos e os alugueis não eram suficientes para sustentá-la. A propriedade estava pronta para voltar ao mercado de vendas menos de um mês depois, então já estávamos fazendo os processos de papelada com advogados e com o corretor de imóvel. Então durante esse período ela não poderia ser alugada e ficaria vazia. Vi isso como uma chance de ficar sozinho por um tempo e clarear as ideias de tudo que estava acontecendo. Me demiti do meu emprego, arrumei as malas e equipamentos de snowboard, peguei meu cachorro, coloquei tudo no carro do meu pai (que agora era meu) e fui para a cabana. Esse local era da família, que meus pais alugavam durante o ano quando não estávamos usando. Eu tinha as chaves e senhas de acesso dos alarmes, então não achei que precisava passar no corretor para avisar minha estadia. Isso não tem relação alguma com a história que contarei, mas mesmo assim achei que deveria mencionar. 

Os primeiros dois dias foram normais e nada de estranho aconteceu. Passei os dias brincando com meu cachorro e surfando na neve e, durante a noite, eu ficava jogando vídeo games, ouvindo música, bebendo e fumando na varanda. Já tinha estocado comida, cigarros e licor, então eu estava bem preparado para me encostar e relaxar. Com meu cachorro como companhia e DVDs/PlayStation como entretenimento, estava bastante contente e minha cabeça começou a relaxar em relação ao drama que me preocupava.

 A cabana tinha dois andares; no debaixo ficava a sala, um quarto de hospedes e uma cozinha pequena. No de cima, haviam mais dois quartos, e uma grande varanda que ficava acoplada ao quarto suíte. Eu passava a maior parte do tempo na sala, cozinha ou na suíte. Em nenhum momento eu entrei nos outros quartos, e mantinha as portas bem fechadas (portas abertas para quartos escuros sempre foi algo amedrontador para mim). De qualquer forma, no terceiro dia comecei minha rotina normalmente brincando com meu cachorro (o nome dele era Meia-Noite, mas também já faleceu), jogando e assistindo filmes. Estava nevando fortemente naquele dia então não quis me aventurar nas montanhas. Foi aí que a bizarrice começou. Naquela área, só haviam mais duas cabanas por perto (mais ou menos uma quadra de distância cada uma). Todas cabanas além dessas ficavam a pelo menos um quilometro de distância da nossa. Em volta havia uma floresta com pinheiros muito altos (MUITO altos, lembre-se disso). Ambas cabanas estavam vazias e eu sabia que ninguém viria para ali naquela época. 

Já descrevi bastante vários detalhes, então vou pular para as coisas estranhas.... Por volta do meio dia enquanto estava do lado de fora com meu cachorro, notei algumas pegadas na neve em volta da casa. Ainda nevava, então as pegadas eram relativamente frescas como se alguém tivesse passado por ali nos últimos 20-30 minutos. Achei que talvez alguém estivesse nas cabanas adjacentes e eu não percebera... talvez estivesse lá para passar um tempo sozinho, como eu... tá bem... bem, as pegadas iam para longe da cabana e desapareciam na parte mais densa da floresta... deixando isso para lá, entrei de volta na casa.  

A noite chegou e decidi ir para a cama. Meia-Noite estava deitado na cama comigo quando notei suas orelhas levantando. Isso foi seguido por ele pulando rapidamente para fora da cama e correndo para a sala no andar debaixo. Fiquei deitado na cama e fiquei em silêncio (estava morrendo de medo) e pude ouvi-lo andando lá embaixo por todos os lados. Depois de uns cinco minutos ele subiu de novo e começou a fazer um tipo de dancinha que significava que queria fazer xixi ou ir lá na rua. Merda... tá, tudo bem. Não consigo dizer não para ele, então nós descemos. Mas ele não queria fazer xixi. 

Quando já estávamos lá na rua, ele começou a puxar a coleira me arrastando para onde queria ir. Ficava olhando constantemente para a parte mais densa da floresta, o lugar onde as pegadas de mais cedo iam. Mas ele também ficava farejando a lateral da casa e olhando em direção do telhado. Quando percebeu que eu não ia ir para lá, se sentou na neve e só ficou olhando fixamente para a escuridão... algo incomum nele, mas tudo bem, provavelmente era só algum animal que ele queria perseguir.  Mas foda-se, eu não queria mais dar chance para o asar, então arrastei Meia-Noite para dentro e subimos para o segundo andar. 

Mais ou menos uma hora e meia depois eu estava quase dormindo quando ouvi algo que pareciam cascos batendo no meu telhado. Foi apenas uma série de mais ou menos 6 passos, então coloquei na cabeça que devia ter sido apelas uma pinha que havia se desprendido dos pinheiros altos ou algum animal passeando por ali. Mas aqui está o problema, os passos pareciam ser espaçados como os de um humano. Fiquei apavorado. Meia-Noite também ouviu, então correu para a porta da varanda esperando que eu liberasse a passagem para ele. Tudo bem, quer saber? Sou um cara durão e na época eu achava que era forte o suficiente para me defender. Então peguei meu casaco e sapatos junto do maço de cigarro e uma lanterna e fui para a varanda. Foda-se, certo? Quando fui para rua, acendi o cigarro imediatamente e comecei a apontar minha lanterna para o telhado.... Não havia nada lá e a neve não parecia estar remexida. Estranho, será que era coisa da minha cabeça? Talvez eu estivesse alimentando demais minha paranoia. Comecei a me acalmar e relaxar novamente (aproposito... estou me tremendo agora e meu coração está na garganta enquanto estou prestes a escrever a próxima parte). 


Meus olhos começaram a se ajustar a escuridão e continuei a fumar enquanto observava as estrelas e as árvores perto da cabana. Foi aí que eu vi. Em uma árvore que era só um pouco mais alta que a nossa e que ficava a uns seis metros da cabana, eu vi um homem agachado entre os galhos. Estava agachado em um galho e se segurando em outro logo acima de sua cabeça. Puta que pariu... que porra era aquela? Eu não tinha certeza se realmente estava vendo aquilo e fiquei parado observado. Notei que Meia-Noite estava passeando atrás de mim e latindo baixinho as vezes. A coisa não se moveu. Apaguei meu cigarro e estava tendo um debate interno se devia ou não direcionar minha lanterna para a coisa, mas minha mente gritava loucamente que isso era uma má ideia. Então fui dando ré lentamente para dentro do quarto e puxei Meia-Noite pela coleira. Quando entrei e tranquei a porta de vidro, daí sim eu apontei minha lanterna naquela direção. Mas não havia nada lá. Fechei as cortinas e me enfiei na cama. Mais tarde na mesma noite, ouvi batidas na porta de da varanda, como se alguém estivesse gentilmente batendo com os nós dos dedos no vidro. Era um som consistente e não parou por horas. Meia-Noite ficava olhando fixamente para a porta, mas não ousou se aproximar. A parte mais estranha era a sensação que eu tinha, como se alguém estivesse me convidando para abrir a porta. Mas ao mesmo tempo eu continuava a ouvir a voz do meu pai em minha cabeça dizendo para eu continuar na cama e não abrir. Eu o ouvi e continuei onde estava. Peguei no sono eventualmente e quando acordei de manhã tudo estava normal. O resto da semana que passei lá foi bem normal e nada aconteceu. Admito que pode ter sido coisa da minha cabeça. Muitas coisas estavam acontecendo na época, mas o medo foi real. 

(primesrfr)
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Gostaram? Isso é só um gostinho dos relatos que tenho guardado aqui! Não esqueçam de comentar suas próprias experiencias sobrenaturais para talvez aparecer no próximo post. 
***
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!

TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA

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Viagem ao Obscuro - Creepypastas!

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Boa tarde, Creepers! Tudo certo? Aqui quem fala é o Gabriel, e estou aqui para dar um comunicado: Há alguns dias atrás, tive o prazer de ser convidado pela galera do "Viagem ao Obscuro" para participar do segundo programa deles, cujo tema se trata de Creepypastas. Batemos um papo bem bacana sobre o tema e também sobre algumas curiosidades! Deem uma olhada aê e espero que gostem \o/

https://soundcloud.com/viagemaoobscuro/segundaedicao

Aproveitem e visitam a pagina deles pra conhecer mais sobre o trabalho dessa galera! Queria agradecer muito pra cada um deles, fiquei super feliz pelo convite e tive muito prazer em ter participado! Espero que tenhamos outra oportunidade para gravar novamente em breve :D

https://www.facebook.com/viagemaoobscuro/

Grande abraço, tudo de bom & Keep Creepying \o/

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Monstros Em Meus Ombros - Capítulo 6

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Capítulo 6 - O Único Poste de Luz

- Chegamos! – Cass anunciou, segurando a minha mão e me puxando para dentro dos grandes portões que estavam abertos a nossa frente.

No interior do local, passamos por um curto corredor escuro, cujo fim iluminado revelou um enorme tapete vermelho que levava em direção a um enorme palco. Havia uma pequena escultura de Jesus Cristo pendurada no centro do lugar, um monte de instrumentos musicais se encontravam espalhados em cima do palco e algumas pessoas também. Tinha um cara afinando uma guitarra, uma garota na bateria e outra garota que supus ser a tal “Fry” no microfone, sussurrando o que parecia a letra da musica que tocariam. As paredes do lugar tinham uma cor de marfim, perfuradas por duas janelas enormes na direita e outras duas na esquerda. Ao meu redor, duas fileiras de bancos largos de madeira, uma de cada lado, transformavam o chão coberto pelo glamoroso tapete vermelho em um corredor.

- Nunca pensei que esse lugar fosse uma igreja... – Comentei – O lado de fora é bem sútil.

- É porque retiraram o outdoor – Cass gargalhou. – Mas fica tranquilo, em breve vai ficar claro que aqui é uma igreja!

- Tá legal – Sorri. – Mas, sério! É a primeira vez que vejo uma igreja que não é um puta castelo do lado de fora!

- Você não vai muito a igrejas, não é? – Cass perguntou, franzindo a testa.

- Acho que não! – Gargalhei.

- Então tá explicado! – Ela sorriu.

- Aleluia, miss pontualidade! – A garota da bateria gritou, vindo em direção a Cass e eu. Acho que ela é a tal “Fry” no fim das contas.

Seus cabelos eram loiros e cacheados, seus olhos castanhos escuros e sua pele clara. Ela tinha uma expressão bem “Eu sou fodona” em seu rosto. Constelações de espinhas espalhadas pela testa e em suas apertáveis bochechas. Gih diria com certeza que ela é “lésbica modinha” daquelas que “gosta de ficar coçando saco imaginário” por conta de sua forma desleixada de se vestir, falar e andar. Usava uma regata preta do System Of a Down, cujas laterais deixavam a mostra um top preto e um pouco do seu torso nu. Calça jeans azul escuro com três rasgos na área do joelho e uma bota de couro preta. Dave gostaria dela...

- Permita-me dar uma rápida olhadinha aqui no meu relógio! – Cass fingiu estar olhando um relógio em seu pulso, logo em seguida forçou uma cara de tristeza, como quem fosse chorar. – Mas que absurdo! Como eu pude chegar tão tarde em algo tão importante?! É tudo culpa do meu gato, Fry! Ele comeu o meu reloginho! Perdoe-me! Perdoe-me, “Fryzinha!”.

- Você não existe! – Fry e Cass gargalharam e então se abraçaram. – Quem é esse ai?

- Esse é o Matt! – Cass me apresentou, empolgada. Acenei pra garota.

- Ah, sim! – Ela fez uma cara de surpresa, como se já tivesse ouvido falar sobre mim e direcionou um sorriso malicioso a Cass. – O cara da festa!

- Então né... Já que estou aqui, significa que é hora de tocar, não acha? – Disse Cass, imediatamente mudando a direção do assunto. Fry não tirou o sorrisinho do rosto nem por um momento enquanto movia os olhos alternando entre Cass e eu. Confesso que gostaria de saber mais sobre o que foi dito a respeito do “cara da festa”.

- É, pois é... – Fry finalmente assentiu, ainda com o sorrisinho no rosto. – Hora de tocar, pessoal! – Anunciou, retirando-se de volta para o palco.

- E essa é a famosa “Fry”! – Comentou Cass, sorrindo como se dizer “Fry” tivesse se tornado algo ridículo.

- Simpática! – Eu disse, de forma irônica.

- Ah, para! – Cass gargalhou. – Ela fica melhor com o tempo!

- Aposto que sim! – Gargalhei. – “O cara da festa”, é? Alguém andou falando sobre o Matt para as amiguinhas?

- Sabe, eu estava aqui me perguntando... – Cass direcionou um olhar malicioso a mim. – Como é que a sua tia sabe o meu nome?... Eu acho, só acho... Que alguém acabou falando sobre mim!

- Touché! – Um sorriso inconsciente brotou em meu rosto. Eu até diria que estava me perguntando a mesma coisa, já que não falei nada sobre Cass com nenhum dos meus tios, mas não quis estragar o momento. – Estamos quites!

- Parece que sim! – Cass sorriu docemente.

- Vamos logo, garota! – Fry gritou para Cass. – Deixa o garoto respirar um pouco!

- Tenho que ir agora... – Cass continuava com o doce sorriso no rosto. – Você pode sentar no banco e assistir se quiser!

- Perfeito! – Sorri para ela.

Cass subiu no palco, acenou para o pessoal que estava lá e pegou o contrabaixo. Sentei em um dos largos bancos e então meus olhos automaticamente se prenderam nela.

- Um... Dois... Três... – Começou a vocalista da banda. – Agora!

Um suave solo de guitarra começou e gradativamente todos os outros instrumentos começaram a ser tocados. A melodia era agradável e bem familiar. Essa é a primeira vez que vejo uma banda tocar ao vivo, a sensação é bem diferente de assistir shows pela internet.

“Loving can hurt…”

“Amar pode machucar…”




Quando a garota finalmente começou a cantar, descobri porque a melodia, embora diferente, era familiar. Tratava-se de um cover da música Photograph do Ed Sheeran.




“…Loving can hurt sometimes…”

“… Amar pode machucar às vezes…”.



E de repente era como se eu estivesse no romance mais clichê do universo. Meus olhos se cruzaram com os de Cass e inconscientes sorrisos brotaram em nossos rostos.




“…We keep this love in a photograph…”

“... Nós guardamos esse amor em fotografias...”.




A forma como a garota cantava, como a música era tocada, como Cassandra sorria enquanto me olhava, Cara... A soma de tudo causou em mim uma sensação indescritível que nunca havia sentido antes. Era simplesmente mágico. Minha mente parecia estar vazia, como se tudo ao meu redor tivesse desaparecido. Restava apenas eu, Cassandra e a música ao longe.




“…We made these memories for ourselves…”

“... Nós criamos essas memórias para nós mesmos...”.



Cara... Ela é tão linda... Eu poderia ficar aqui para sempre...




“…Where our eyes are never closing…”

“…Onde nossos olhos nunca se fecham…”




Uma onda arrepiante de nostalgia caiu sob mim, fazendo com que minha mente entrasse em um estado de retrospectiva, revivendo cada momento, cada palavra dita, cada uma das pequenas coisas, cada sorriso que vi Cassandra dar.




“…Hearts were never broken…”

“... Nosso corações nunca se partem…”.




“Ela me abraçou forte, muito forte e ficou lá com a cabeça encostada no meu peito. Não foi como um abraço convencional que dura menos de cinco segundos, foi o abraço mais longo da minha vida. Não fazia nem cinco minutos que nos conhecíamos e já parecia que ela era minha esposa e eu havia acabado de chegar do Vietnã.”




“… And time's forever frozen still…”.

“... E o tempo estará para sempre congelado...”.




“Após me soltar, virou-se e deu cinco passos em direção à saída. Faltavam mais cinco passos para finalmente chegar à porta quando ela parou por dois segundos, deu meia volta e veio correndo em minha direção. Quando chegou perto o bastante, entregou-me um beijo no rosto.”.

- Tchau, Matt! – Disse ela, sorridente, e então se virou novamente em direção à porta.

- T-Tchau, Cass... – Respondi, sorrindo de orelha a orelha com as mãos na bochecha em que ela beijara. Minha voz quase não saiu.

“…So you can keep me inside the pocket…”

“... Então você pode me guardar no bolso...”.




- Acaba com ele, Matt! – Cassandra se levantou num pulo, caindo rapidamente de volta no sofá e cruzando as pernas. Os olhos cintilavam, grudados no jogo enquanto sussurrava para si. – Vai, vai, vai!...




“... Of your ripped jeans...”.

“... Do seu jeans rasgado...”.




- Vocês se conhecem faz quanto tempo? – Perguntou Dave, fingindo estar curioso...

- Cinco minutos! – Eu e Cassandra respondemos ao mesmo tempo. Olhei para ela e ela olhou para mim. Rimos um para o outro...




“…Holding me close until our eyes meet…”

“... Abraçando-me perto o bastante para que nossos olhos se encontrem...”.




- É... Meu caro, Matt... O que transparecemos ser não importa! – Ela sorriu. – Não importa se você é a garota feliz e meiga, a barraqueira que todos odeiam ou a garota popular que todos querem ser, no fim de tudo... Só nós mesmos conhecemos os monstros que carregamos em nossos ombros.




“...You won't ever be alone…”

“... Você nunca estará sozinha…”.




- Essa sua camisa do Baymax é tão linda! – Disse ela me apertando cada vez mais forte.

- “Eu sou o Baymax, seu agente pessoal de saúde” – Eu disse, em uma tentativa falha de imitar o Baymax.

- Que fofinho! – Ela olhou para mim enquanto continuava a me apertar. Sorri para ela. – “Peeeludinho”…




“…Wait for me to come home…”

“… Não vá para casa sem mim…”.




E foi ali, no refrão daquela música, naquela igreja de faixada sutil, naquela noite de terça-feira que eu soube com absoluta e total certeza que estava completamente apaixonado por Cassandra.




[...]

- É isso ai, pessoal! Por hoje é só! – Anunciou a vocalista, com um sorriso grande sorriso de satisfação enquanto aplaudia a todos. – Ficou ótimo! Foi tudo ótimo! Parabéns para todos vocês!

Um coro de aplausos surgiu e então todos largaram seus instrumentos. Cassandra desceu do palco e veio imediatamente em minha direção.

- E então?... – Perguntou ela, seu rosto vermelho e seu sorriso carregado de expectativa e ansiedade. – O que achou?... Vamos, vamos!... Diz logo!... O que achou?

- Foi... Hm... – Comecei a formular uma resposta, pensativo, como quem fosse fazer uma grande crítica. Pude perceber a decepção substituindo toda a empolgação que havia em seu rosto. – Foi mágico! – Finalmente respondi, com um inconsciente sorriso se abrindo em meu rosto.

- Ah... – Ela saltou em mim de braços abertos, me apertando mais forte do que nunca. – Obrigado por ter vindo! – Sussurrou.

- Obrigado por ter me convidado! – Sussurrei. Senti-a sorrir pressionando o rosto em meu peito.

- Pelo amor de Deus, gente! – Ouvi a voz de Fry dizer ironicamente. – Sem agarramento na casa do senhor!

- Cala a boca, Fry! – Disse Cass, saindo do meu abraço e lançando a Fry uma revirada de olhos.

- Dona Cassandra... Dona Cassandra!... – Fry deu um sorriso malicioso. – Depois que se despedir do “cara da festa” me encontra na barraquinha de cachorro quente... E trate de não demorar! Amo você!

- Tá bom, mãe... – Respondeu Cass, revirando os olhos e dando um meigo e constrangido sorriso. – Também amo você!

- Eai, Cass! – O cara da guitarra se aproximou e a abraçou. Senti uma pontada de ciúmes. Quem é esse cara?! – Como é que você tá? Tudo bom?

- Carlos! – Ela respondeu, toda simpática. Carlos? Sério? Precisava mesmo ter esse nome de ator de novela mexicana? “Ai, Carlinhos!” Nossa! – Tudo ótimo e com você?!

Carlos tinha a mesma altura que eu. Seus cabelos eram negros, lisos e bagunçados. Pele branca e pálida, não parecia ser o tipo de cara que saía de casa com muita frequência. Ele é absurdamente magro, talvez até mais do que Jon. Você olha para ele e consegue facilmente imaginar um cara que corta os pulsos ao som de Black Veil Brides. Ele usava uma camisa dos Guardiões da Galáxia, calça jeans escura e um all-star preto.

- Tô legal! – Carlos sorriu para Cass. – Eai cara, beleza? – Disse, estendendo uma das mãos para mim.

- Tô bem, irmão! Super bem! – Forcei um sorriso de relações públicas para o Sr. Novela Mexicana e apertei a mão dele.

- Que bom, cara! – Ele devolveu o sorriso e foi se retirando. – Nos vemos por ai, pessoal!

- Se cuida, irmão! – Eu disse, acenando. Cassandra também acenou em despedida.

- Cassandra, meu amor! – A vocalista abraçou Cass e acenou para mim. – Mandou super bem hoje!

- Oiiiii, Jay! – Cass sorriu. – Ah, que nada! A verdade é que a galera mandou tão bem que disfarçou a minha falta de talento!

- Para de graça! – Jay gargalhou e então se direcionou a mim. – E você, moço? O que achou? Qual seu nome?

- Ah, meu nome é Matt! – Sorri. – E você é a Jay, certo?

- Isso mesmo! – Ela sorriu. – Prazer, Matt!

- Prazer, Jay! – Também sorri. – Você canta super bem!

- Muito obrigada! – Um enorme sorriso se abriu em seu rosto. – Bom, vejo vocês na semana que vem! – Jay disse, de forma simpática. – Agora, preciso trancar a igreja!

- Estamos partindo! – Cass anunciou. – Até semana que vem, Jay!

- Até! – Jay acenou.

- Tchau! – Eu disse, tentando parecer simpático.

- Tchau, Matt – Jay respondeu.

Uma a uma, as luzes da igreja foram se apagando. Cass segurou minha mão e então corremos feito dois idiotas em direção à saída, como se fossemos ser mortos caso as luzes que se apagavam atrás de nós nos alcançasse.

- E então...? – Perguntei para Cass, do lado de fora da igreja. – O que acontece agora?

- Acho que nos despedimos... – Respondeu, dando um triste sorriso.

- Não... Ainda tá super cedo! – Falei – Você vai encontrar com a Fry na barraquinha de cachorro quente, não é?

Sim! – Respondeu. – Por quê?

- Eu posso te fazer companhia até lá, que tal? – Perguntei.

- Parece um bom plano! – Ela sorriu docemente.

- Ótimo! – Sorri.

- Então... Vamos nessa! – Cass anunciou.

- Vamos! – Assenti.

- Me conte mais sobre a sua história... – Cass pediu enquanto caminhávamos. – Sobre a sua família!

- Como assim? – Perguntei, confuso. – Adotiva ou biológica?

- Biológica! É que... Você falou sobre o seu pai e toda aquela história... – Cass disse. – Mas não falou nada sobre a sua mãe...

- Ah, é que eu não a conheci... – Respondi. Senti um inconsciente e triste sorriso nascer em meu rosto. – Então... Acho que não tenho nada pra dizer sobre ela...

- Entendo... – Cass pareceu ter se arrependido de tocar no assunto. – Eu sinto muito...

- Relaxa, tá tudo bem! – Forcei um sorriso. – Pode fazer todas as perguntas que quiser fazer...

- Tá bom... – Ela forçou um sorriso. – Seu pai nunca falou sobre ela?

- Não que eu me lembre, mas tenho quase certeza que não... – Respondi.

- Já viu alguma foto dela? – Cass perguntou.

- Meu pai tinha uma foto de uma mulher na carteira dele... – Respondi. – Às vezes, de madrugada, eu podia ouvi-lo conversar com alguém no quarto dele. Espiei pela fechadura da porta uma vez e o vi deitado na cama com a foto em mãos, era com ela que ele estava conversando. Meu pai parecia gostar bastante daquela foto, talvez aquela mulher fosse a minha mãe...

- Nossa... – Cass parecia ter se arrepiado. – O que ele dizia?

- Eu não sei ao certo, nunca consegui ouvir claramente... – Respondi. – Mas eram coisas sobre sentir muita falta e o quanto a vida estava difícil, coisas assim... Basicamente, ele desabafava com a foto, entende?

- Eu entendo... – Cass respondeu. – Acha que existe alguma chance dela estar viva?

- Eu não sei... – Respondi. – Acho que não...

- As vozes já falaram sobre ela? – Cass perguntou.

-Ah... – Senti uma pontada em meu peito. – Sim... – Respondi. Dizer aquilo em voz alta me causou certo desconforto, senti-me estranhamente triste.

- O que elas disseram, Matt? – Cassandra arregalou os olhos.

- E-Elas... – Meus olhos começaram a arder. – Elas disseram que...

- Não precisa dizer se não quiser, Matt... – Cass me interrompeu.

- Tá... – Respondi, forçando um sorriso. – Vamos pular essa por enquanto...

- Tudo bem... Me sinto lisonjeada por confiar em mim e contar toda a sua história! – Cass disse, tentando mudar todo aquele clima tenso.

- Ainda não é toda, mas um dia a gente chega lá! – Sorri.

- Sim! – Ela sorriu. – Nada mais justo que contar a minha também, né?

- Concordo! – Respondi. – Podemos começar de onde paramos?

- Onde paramos? – Cass perguntou, franzindo a testa.

- Tentativa de suicídio! – Falei.

- Ah... – Cass deixou escapar um triste sorriso. – Tudo bem... O que quer saber?

- Por quê? – Perguntei imediatamente.

- Quer a versão resumida ou estendida da história? – Cass perguntou. Dejavú

- Distraia minha mente, senhorita Cassandra! – Sorri, revirando os olhos. Ela também sorriu.

- Bom, vamos lá! – Começou. – Meus pais se divorciaram quando eu tinha quatro anos de idade. Era muito nova para entender tudo o que estava acontecendo na época, mas entendi que meu pai havia ido embora e que nunca mais voltaria. A partir dali, éramos só eu, minha mãe e o meu irmão mais velho. Minha mãe detestava quando perguntávamos sobre o meu pai. Vivia dizendo que éramos idiotas por achar que ele era alguém bom ou que ele voltaria. Minha mãe o odiava. Mas de fato, na época, meu pai não parecia se importar com a gente. Um simples “Não volte aqui nunca mais” da minha mãe foi o suficiente para que ele nunca mais nos procurasse... – Cass parecia ter entrado em um estado de silêncio reflexivo.

- Ei, tá tudo bem? – Perguntei, preocupado.

- Tá... Tudo sim!... – Cass sorriu, respirou fundo e continuou. – Saber que o meu pai não ligava pra mim me matava por dentro. Feriados como o “Dias dos Pais”, por exemplo, eram simplesmente terríveis. Principalmente nas festinhas da escola. Era sempre a minha mãe que estava na plateia, isso quando ela raramente podia ir me assistir. Eu era a única garota que não tinha um pai na minha classe. Assistir os pais abraçando suas filhas no final das apresentações era muito difícil. Eu tentava me imaginar em momentos como aqueles e não conseguia, nem se quer me lembrava mais de como era o rosto do meu pai. Ele mandava bonecas e cartões nos meus aniversários, mas aquilo não era o bastante para mim. Eu queria o meu pai, não aquele monte de coisas artificiais e sem valor... – Cass fez uma rápida pausa, respirou fundo e então continuou a falar. – Minha mãe sempre foi uma mulher ocupada, não passava muito tempo em casa. Ela tinha vários empregos, então eu e o meu irmão tivemos que aprender a nos cuidar sozinhos muito cedo. Mas, bom... Às vezes... Ela agia como uma mãe normal e nos buscava na escola. Quando isso acontecia, nunca íamos direto pra casa, nós íamos para a lanchonete onde ela trabalhava como garçonete e ficávamos lá até a hora dela ir embora... Foi em um dia assim que conhecemos o Mark...

- Quem é Mark? – Perguntei, tenso.

- Mark... – Cass sorriu de um jeito estranho, meio psicótico. Era como se fosse chorar, mas não derramou uma lágrima. – Mark era um namorado da minha mãe. Ela nunca falou sobre ele até aquele dia. Ele entrou na lanchonete, falou com a minha mãe e se juntou ao meu irmão e eu na mesinha em que estávamos sentados. Ele era um cara legal, pagou um sorvete pra mim e o meu irmão e ficou nos perguntando se gostaríamos que ele fosse o nosso pai. Meu irmão adorou a ideia. Eu? Nem tanto...

Uma semana depois daquele dia, Mark se mudou pra nossa casa. Um mês depois parecia que havia oficialmente se tornado o nosso “pai”. Um ano e meio e ele estava batendo na minha mãe e chamando meu irmão de veadinho e todos os sinônimos dessa palavra. Dois anos e ele estava levantando da cama de madrugada para tocar em mim. Três anos depois, meu irmão foi encontrado morto no quarto dele. Sim, ele se matou... Depois disso contei para minha mãe o que Mark fazia comigo, mas tudo o que ela foi capaz de fazer foi dar um belo tapa na minha cara e me chamar de puta oferecida, acredita nisso?

- Acredito... – Aquilo foi extremamente chocante pra mim. Eu não sei mesmo o que dizer ou como lidar.

- O cara me molesta e tudo o que a minha MÃE é capaz de fazer é me culpar, pedir que eu pare de “inventar” coisas e que não abrisse a boca pra falar sobre o assunto com mais ninguém, pois isso “destruiria” ainda mais a nossa “família”. – Cass fechou os olhos. Um silêncio se iniciou por alguns segundos. – Depois do enterro do meu irmão, o meu pai apareceu. Ele era advogado, então... Foi fácil pra ele pegar a minha guarda. Lindo, não? – Cass deu um sorriso falso. – Eu finalmente tinha o meu pai, mas não tinha mais a minha mãe...

Os primeiros dias na casa do meu pai foram ótimos, éramos só eu e ele. Ele não era nada daquilo que minha mãe havia dito, ele era melhor do que eu já tinha imaginado. Mas as coisas boas duraram pouco tempo. Depois que a esposa dele e os filhos dela chegaram da viagem que estavam fazendo, tudo havia se tornado um inferno. Aquela mulher havia deixado claro, desde que chegou do aeroporto e colocou os pés naquela casa que a minha presença era um incomodo pra ela. Os filhos dela tornavam tudo ainda mais difícil. Não perdiam uma oportunidade para dizer o quanto eu era feia, horrorosa e tudo o que havia de ruim no mundo. Eles até quebravam meus brinquedos propositalmente durante o tempo em que eu estava na escola! A porra dos meus brinquedos, cara!...

Aquele inferno durou mais de um ano e só acabou depois do que eu fiz... ou tentei fazer... Sei lá...Você entendeu!

Durante o tempo em que fiquei apagada no hospital, o meu pai pediu o divórcio. Quando recebi alta, nós nos mudamos pra uma nova casa e tudo foi gradativamente voltando pros trilhos. Uns meses depois, ele conheceu a Martha, que é a atual esposa dele e tudo tem ido bem desde então... – Cass forçou um sorriso. – É isso... Essa é a minha história de “suicídio”...

- Nossa... – Eu estava mesmo chocado. Era difícil imagina-la passando por tanta coisa. Nós tínhamos mais em comum do que eu podia imaginar.

- Agora você conhece toda a minha história trágica! – Cass sorriu.

Tudo o que fui capaz de fazer foi olhar para ela. Tentei formular o que dizer na minha mente, mas falhei miseravelmente. Olhei em volta e percebi que havíamos parado de andar, mas ainda não havíamos chego à barraquinha de cachorro quente.

- Que foi?... – Ela sorriu sem graça. – Para de me olhar desse jeito... Fala algum...

Sendo bem sincero, eu não sei o que aconteceu. Nem mesmo sei o que deu na minha cabeça. Sempre pensei demais antes de fazer qualquer coisa ou de tomar alguma atitude. Sempre tentei calcular tudo o que poderia dar errado, sempre tentei prever todas as possibilidades. Talvez esse fosse o meu maior defeito? Ou quem sabe minha maior qualidade? Eu não sei... A real é que eu nunca quis me arriscar em nada, nunca fui otimista o bastante para isso, mas não dessa vez... Dessa vez, por alguma razão, foi tudo diferente.

Essa foi a primeira vez na minha vida em que não pensei em nada, apenas agi. Não vou dizer que segui o meu coração ou qualquer baboseira do gênero, só simplesmente aconteceu. Foi como se eu não estivesse mais no controle do meu corpo, como se inconscientemente uma espécie de piloto automático que faria por mim tudo aquilo que a insegurança me impediria de fazer tivesse sido ligado. Era improvável, mas foi como em Photograph. O sentimento era indescritível, a sensação? Tão mágica quanto o momento em que a música tocou na igreja. Eu não tenho certeza sobre muita coisa quando o assunto sou eu, mas tenho quando digo que nunca vou me esquecer do dia em que beijei Cassandra de baixo do único poste de luz da Rua Três.

- A-Alguma coisa... – Cass gaguejou ao completar e a frase se tornou um sussurro.

Olhei para ela e não acreditei que aquilo tinha mesmo acontecido. Seus olhos se abriram lentamente e ficaram grudados aos meus. Ela carregava uma expressão de surpresa e certo espanto em seu rosto. Pude sentir seu corpo estremecer. Nenhuma palavra foi dita. Isso só pode ser um sonho. Aproximei-me lentamente de seu rosto, levando minha mãos a sua nuca e nossos lábios se juntaram novamente. Isso tá acontecendo mesmo?! Afastei-me e olhei para ela mais uma vez. Ela ainda estava lá, ela não havia saído correndo ou me dado um tapa no rosto. Meu deus do céu, eu beijei a Cassandra! Aquilo não era um sonho...E foi ai que a ficha caiu.

- Me desculpa! – Disse, desesperadamente enquanto me afastava dela. – E-Eu... Ai meu deus...

- Tá tudo bem... – Ela disse, com a mesma expressão de surpresa e espanto. – Olha, eu preciso ir...

- Cass... – O jeito com que ela havia dito aquilo fez com que eu sentisse uma puta vontade de chorar. Estraguei tudo. – Me perdoa, de verdade...

- Tá, Matt... – Ela disse ao vento, tão baixo que pareceu um sussurro. Ela parecia mesmo abalada. – Agora, eu preciso ir...

- Tudo bem... – Eu disse, processando a imensa onda de arrependimento que havia caído sob mim.

- Boa noite... – Ela disse, afastando-se e indo embora.

- Boa noite, Cass... – Respondi, mas acho que ela já estava longe demais pra ouvir. Recostei-me no poste e fiquei lá a observando partir. Quando ela desapareceu totalmente do meu campo de visão, senti um sufocante vazio, como se aquela fosse ser a última vez que Cass falaria comigo.

[...]

Devo ter ficado parado lá por uns cinco minutos ou mais, processando tudo o que havia acabado de acontecer antes de me conformar e seguir meu caminho até a casa do Dave. Perguntei-me infinitas vezes durante o percurso o que havia acontecido com Cass, o que havia acontecido comigo. Talvez aquele não tivesse sido o momento certo? Talvez fosse um momento inconveniente? Talvez ela não goste de mim como gosto dela? Eu não sei, não sei mesmo... Eu trocaria um rim agora mesmo pela habilidade de poder saber o que de fato se passou na cabeça dela naquele momento. Droga... Tudo o que queria mesmo era poder pedir desculpas até que ela voltasse a sorrir como antes.

De frente para o portão de Dave, toquei a campainha. Não demorou muito até ele me atender.

- Eai, cachorrão! – Dave disse, empolgado. Ele tinha uma lata de cerveja em mãos. – Demorou, hein?...

- Oi, Dave... – Respondi, triste. – A noite foi longa...

- É, tô imaginando que sim... – Dave me analisou. – Agora... Entra caralho! Tá tarde! Já pensou se invadem a minha casa ou roubam minha cerveja?! Deixa pra contar tudo lá dentro!

Entrei rastejante como um zumbi na casa de Dave. Sentei-me no sofá e acenei para Paul que estava sentado no sofá da frente mexendo em seu celular. Ele acenou de volta.

- Toma! – Disse Dave, jogando uma lata de cerveja em minha direção e sentando ao lado de Paul.

- Cara, você sabe que eu não bebo... – Falei, ainda triste.

- Vai beber hoje! – Respondeu. – Álcool sempre ajuda... E se não ajudar, pelo menos cê vai dormir um pouco!

- Tá, que se foda! – Abri a lata e entornei metade para dentro no primeiro gole.

- É isso ai... – Dave sorriu. – Desembucha, garotão!

- Tá, mas antes... Cadê a Gih e o Jon? – Perguntei, indiferente.

- Ih, mano... Eles estão no meu quarto fazendo não sei o que... – Respondeu Dave. – Devem tá vendo TV, sei lá... Até diria que estão se pegando, mas... Cê sabe...

- Sei... – Sorri. – Começo pela parte boa ou pela parte ruim? – Perguntei e então dei mais um gole na cerveja. A lata agora estava vazia. – Me arruma outra dessa?

- Parte boa, com certeza! – Dave disse, levantando do sofá e indo em direção à geladeira. – Segura!

- Beijei a Cassandra... – Disse, agarrando a lata de cerveja no ar e abrindo-a.

- Eita, cuzão! – Dave abriu um sorrisão. – Aleluia, hein?

- Daqui a pouco tá chamando de “mozão” – Paul disse. – Até pensei que vocês já estavam juntos! Deu pra perceber que ela estava amarradinha na tua!

- Há – Um inconsciente sorriso surgiu em meu rosto, meio feliz e meio triste. – A parte ruim é que parece que ela não gostou nada do que aconteceu e nunca mais vai falar comigo...

- Ué!... – Dave ficou confuso. – Descreva esse beijo, meu rapaz! Entendi foi porra nenhuma agora!

- Meu cérebro acabou de dar tela azul com essa declaração. – Disse Paul, franzindo a testa.

- Foi inconsciente, lento e mágico... – Respondi, ficando ainda mais triste.

- Então... Ela correspondeu? – Dave perguntou. Paul ainda parecia estar processando toda a história.

- Sim... – Respondi.

- E o que ela fez depois? – Dave franziu a testa.

- Ela ficou trêmula e disse que precisava ir... – Respondi.

- Hmm... Dado a todas as informações que temos, só tenho uma coisa a dizer... – Dave disse, pensativo. – Ela te ama, meu irmão! – Um grande e confiante sorriso se abriu em seu rosto.

- Hã? – Perguntei, confuso. – Isso não faz sentido...

- Claro que faz... – Paul disse, como quem finalmente tinha entendido alguma coisa.

- É, mano! – Dave completou. – Faz sentido pra caralho!

- Tá... Me explique então... – Pedi.

- Eu aposto a última cerveja do universo que ela deu uns sorrisos inconscientes ding, ding enquanto ia se afastando de você! – Dave disse, como quem tem muita certeza do que está falando. “Ding, ding” é como um som de marcação de pontos. – Ela só não esperava que você fosse tascar um beijo nela ali porra, naquele momento! Ela meio que precisa de um tempo pra processar tudo o que rolou, tá me entendendo?... Então... Fica suave e relaxa, meu irmão!

- Espero que esteja certo! – Sorri.

- Tô sempre certo! – Dave soltou um sorriso convencido.

Um silêncio se iniciou, mas logo foi quebrado pelo toque de notificação de um celular.

- É o meu... – Avisei a Dave e Paul que tateavam os bolsos e reviravam o sofá.




@Cassandra T.

Oi, Matt...

Sou eu, Cass... Demorei um pouco para te encontrar no Facebook, mas cá estou hahaha

Queria me desculpar por hoje :c

Espero que esteja bem!




Olhei para Dave e Paul com um “sorriso inconsciente, ding, ding...” enquanto digitava uma resposta e eles logo entenderam do que se tratava.

@Matthew R.

Oi, Cass! Tá tudo bem... Sem problemas!




Cassandra está digitando...

@Cassandra T.

Podemos recomeçar e tentar tudo de novo amanhã, se quiser...

- Meu deus! Não tô acreditando! – As palavras fugiram pela minha boca quando levantei do sofá em um salto e levantei os braços em comemoração. – Isso, isso, isso!

- E ai, mano? – Dave perguntou, ansioso.

- Ela disse que podemos tentar de novo amanhã! – Respondi. Ding, Ding!

- Boa! – Paul disse, parecia feliz por mim.

- Eu vos declaro, cachorrão e pitanguinha! – Dave disse, em uma tentativa de imitar um padre. – Viu só? Eu disse... Senhoras e senhores, Dave, o sábio, ataca novamente!

- Meu deus, caras! O que eu respondo agora? – Perguntei, nervoso.

- Aja naturalmente! – Disse Paul.

- É isso ai... – Dave assentiu.

@Matthew R.

Ah, isso seria ótimo! ><

Cassandra está digitando...

@Cassandra T.

Nos vemos amanhã então, senhor Matt!

Tenha ótimos sonhos e um dia incrível amanhã ❤




@Matthew R.

Certo, senhorita Cassandra

Desejo o mesmo a ti! ❤

- É... Parece que você estava mesmo certo, ó Dave, o sábio. – Disse, caçoando de Dave.

- E você ainda duvida das minhas habilidades? – Perguntou Dave, todo convencido. Sorri para ele

Recostei minha cabeça no sofá e o branco teto acima de mim me trouxe vislumbres de tudo o que poderia acontecer daqui para frente...

- Hora de ir pra casa, vadias! – Ouvi a voz de Gih dizer.

- Pois é, já está tarde! – Jon concordou.

- Tá... Tá bom... – Disse, como quem está com muita preguiça enquanto me levantava do sofá.

- Até amanhã então, cachorras... – Disse Dave, nos acompanhando até a saída. – Menos a Gih, Gih é uma tigresa, rawr!

- Me chupa, Dave... – Respondeu Gih, com uma revirada de olhos e um sorriso malicioso.

- Cuidado com o que pede para o grande e sábio, Dave! – Disse Dave, gargalhando.

- Anda, gente! – Jon resmungou. – Vou acabar sendo roubado aqui...

- Tá, estamos indo... – Disse Gih. – Chato pra caralho...

Com o pé no asfalto, caminhamos até a minha casa...

[...]

Ao chegarmos à porta da minha casa, Gih e Jon se despediram de mim e tomaram o rumo de suas casas.

Peguei minhas chaves que estavam em um de meus bolsos e abri a porta. Tia Cassie e tio Lincoln estavam sentados à mesa da sala.

- Matt, vem aqui... – Disse a tia Cassie, não consegui identificar se era um tom amigável ou o tom de quem vai dar um esporro. Nem está tão tarde assim...

- Oi... – Disse, um pouco nervoso, em uma tentativa de deixar o clima mais agradável, enquanto puxava uma e sentava em uma cadeira que me deixava de frente para os dois.

- Precisamos conversar... – Disse o tio Lincoln, esfregando as mãos entrelaçadas em cima da mesa.

- Tudo bem... – Eu disse, senti um aperto em meu peito. – Vamos conversar...

Tio Lincoln olhou para tia Cassie que também olhou para ele.

- Já tem um tempo que estamos querendo falar sobre isso com você... – Tio Lincoln começou a dizer.

- Mas, concordamos que esse era o momento certo! – Completou tia Cassie, pude notar um sorrisinho rapidamente surgir e desaparecer enquanto ela falava. Estou bem confuso.

- Eu e sua tia... – Disse o tio Lincoln, olhando para tia Cassie. Os olhos dela começaram a brilhar.

- Nós vamos ter um bebê! – Disse finalmente a tia Cassie, nervosa e empolgada, como quem já não aguentava mais o suspense do tio Lincoln.

- Você vai ter uma irmãzinha! – Tio Lincoln sorriu.

Eu não soube bem como reagir, apenas desatei a abrir um grande sorriso. Eu estava feliz por eles, de verdade, mas o que mais me surpreendeu foi o fato deles ainda não serem velhos o bastante para ter um filho. Acho que vou perguntar a idade deles algum dia desses.

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