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Sábado
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Domingo
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Maria Sangrenta é real, e também é extreamente perigosa.

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Eu tinha 14 anos quando meu melhor amigo se foi.

David me falou enquanto eu estava dormindo em sua casa durante um final de semana. "Então..." começou enrolando. "Minha mãe conseguiu um novo emprego. E é... É na Califórnia." Não me olhou nos olhos. "São 3078 quilômetros daqui. Eu vi no Google."

Fiquei em silêncio por bastante tempo depois disso. "Ouvi dizer que a Califórnia é bem legal," falei sorrindo. "Não neva lá."

Sorriu de volta para mim.

Era muito importante que não me visse chorando.

***

"Temos que fazer o meu último dia ser legendário," David falou, me dando um sorriso conspirador. Ele não tinha contado para mais ninguém sobre sua mudança. Estava indo embora no meio de fevereiro, então todo mundo notaria que tinha ido. "E se todo mundo achar que a Maria Sangrenta me pegou?"

O plano era brilhante. Depois da escola, nós dois falaríamos que invocaríamos o fantasma do espelho, e ele pularia pela janela, era do segundo andar, mas nada que já não tínhamos feito antes. Depois ele iria pular o muro do colégio e andar de volta para sua casa. Eu sairia, anunciaria que a Maria Sangrenta tinha capturado ele e levado para o Outro Mundo, e ninguém nunca mais o veria.

Todos temos de ir embora um dia. Uma vez que aceitamos isso, podemos controlar como.

***

Pelo menos duas dúzias de pessoas se reuniram em volta do banheiro naquela tarde de sexta-feira. Ninguém mais tinha tentado invocar aquele espirito desde que Jimmy Fischer tentara na quinta-série, depois teve que ir para cara porque mijou nas calças.

Jimmy ainda se senta sozinho na hora do recreio.

David e eu mal conseguíamos conter nossos sorrisos enquanto entrávamos sozinhos no banheiro.

"Sabe, a gente devia pelo menos tentar," expliquei. "Assim, não estaremos mentindo quando contar que tentamos trazer a vida o fantasma." Falei dando um ar de drama nas últimas palavras.

Ele se empalidecei um pouco. "Hm - tá bom, acho."

Fiquei de pé na fente do espelho corajosamente. David ficou ao meu lado.

"Maria Sanguenta, Maria Sangrenta, Maria Sangrenta - eu matei seu filho." Sua voz ecoou com a minha, embora mais exitante.

Encaramos nossos reflexos. Piscamos. O reflexo também.

Nada aconteceu.

Nós dois suspiramos de alívio.

"É melhor eu vazar daqui," David falou. "Ta na hora."

Um nó na garganta de tristeza me atingiu. "É," foi tudo que consegui dizer.

Ele colocou uma perna na pia e outra na janela aberta, antes de me dar um último adeus. "Te vejo por aí," falou sorrindo.

Ele olhou para baixo e trocou o peso de perna para se posicionar para fugir. Estava quase todo para fora quando decidi que eu não podia resistir mais.

"Boo!" Eu gritei enquanto pulava na direção dele.

Seus olhos se arregalaram naquele instante de traição e terror.

Honestamente, não era minha intenção fazê-lo escorregar.

David caiu da janela e sumiu da minha visão antes que eu pudesse reagir.

Ótimo, pensei, agora vamos ter que lidar com um tornozelo torcido. Isso vai arruinar toda a pegadinha.

Fui até a janela e espiei lá para baixo.

A cabeça de David estava empalada, de lado, em uma uma viga de metal que um dia tinha feito parte de uma cerca de corrente. Ele deve ter caído quatro metros. Atravessou de têmpora a têmpora. A ponta da viga estava coberta de sangue, com alguns pedaços de cérebro. Suas pernas se mexiam como se estivesse correndo, mas a viga seguia firme. Balançava enquanto as pernas dançavam.

Seus olhos encaravam vigorosamente para cima enquanto seu maxilar pendia aberto, mas ele já estava morto.

***

Acho que a Maria Sangrenta realmente nos pegou no final das contas.

Pelo menos, foi isso que contei para todos. Falei que David tinha ficado com medo depois da invocação e tentou pular a janela.

E hoje em dia eu vejo o assassino de David toda vez que olho para o espelho.

FONTE


NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA, COMEÇAREI UMA NOVA SÉRIE! FIQUEM ATENTOS!


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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Achados e Perdidos

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Começou como uma piada. Minha esposa e eu damos muitas festas, e se você alguma vez já fez uma limpeza após uma festa, você sabe que as pessoas deixam coisas para trás. Chapéus e casacos com maior frequência, cachecóis, bolsas, seja o que for. Uma vez eu encontrei um par de óculos de grau, entre as almofadas do sofá. Tinham lentes grossas, tipo as da Velma. Eu não sei como o dono conseguiu chegar até a saída sem eles, e muito menos como eles voltaram pra casa.

Muitas vezes recebíamos uma ligação no dia seguinte ou na semana seguinte, alguém dizendo "Hey, então, não consigo achar minha jaqueta. Será que eu deixei em algum lugar aí na sua casa?" Mas às vezes ninguém fala nada. E Jenny e eu - Jenny é a minha esposa - não perdemos nosso tempo ligando para cada um que estava na festa perguntando se a pessoa tinha perdido o que quer que tenhamos encontrado. Então nós apenas colocamos em um baú de madeira que temos no armário de deixamos lá até que alguém venha procurar.

Recentemene nós demos uma festa de inverno, e alguém deixou suas calças aqui. E não era esse tipo de festa, entçao eu fiquei bastante surpreso em encontrar um par de calças caídas no chão. Eram calças de neve, do tipo que você veste por cima das outras roupas para mantê-las quentes e secas, e elas foram dobradas e guardadas num canto. Eu imaginei que, provavelmente, alguém havia chegado aqui as vestindo, por causa do frio, e então as tiraram quando entraram. Entre o calor da casa e o calor do álcool, eles devem ter esquecido de colocar de volta quando foram embora no fim da noite.

Jenny olhou as fotos da noite anterior, mas não havia nenhuma imagem de alguém usando aquelas calças, então elas foram para o baú. Enquanto Jenny as guardava, ela comentou, "Aposto que podemos vestir uma pessoa por completo com o que está aqui dentro."

Nós rimos, mas então eu comecei a pensar que ela provavelmente tinha razão. Então, mais tarde, vaculhei o baú e como pensávamos, além das calças nós tínhamos uma camisa com botões, vários casacos, inúmeros chapéus, um par de luvas, alguns cachecóis e dois pares de sapatos. Enquanto Jenny estava fora naquela noite, eu coloquei a camisa num cabide, pendurei o casaco por cima, prendi as luvas nas mangas e a calça embaixo, e enrolei um cachecol ao redor. Então pendurei aquilo no corredor, coloquei um chapéu no topo e os sapatos embaixo das calças. As calças pendiam até o chão, então, à primeira vista, parecia que alguém espreitava pelo corredor, especialmente com as luzes apagadas.

Ouvi a porta bater quando Jenny chegou em casa. Ela chegou dizendo em voz alta que havia chegado, mas abruptamente se transformou em um grito. Entrei no corredor, rindo, e encontrei Jenny  de pé com uma mão em seu peito, olhando para mim. O manequim caiu silenciosamente para o lado.

"Muito engraçado!" disse ela. "Você quase me fez ter um ataque cardíaco."

"Sinto muito", respondi, mas eu estava rindo demais para que ela acreditasse em mim.

"Sim, você sentirá", disse ela, fazendo cara de séria, mas ela também estava rindo, agora que tinha passado o choque inicial.

De qualquer forma, achei aquilo extremamente engraçado, até eu me levantar no meio da noite para ir ao banheiro. Entrei no banheiro, acendi as luzes e gritei, porque Jenny tinha movido o manequim para lá, o colocando sentado na privada.

Do quarto, pude ouvir uma risada sonolenta.

"Você sabe o que acontece quando você assusta alguém que está indo ao banheiro?", perguntei.

"Tem alguns panos embaixo da pia. Você pode usá-los para se limpar", ela respondeu.

"Um bundão teria que limpar. Eu tenho um autocontrole de ferro"

"É por isso que você gritou alto o suficiente para me acordar?" provocou Jenny.

Decidi não dar uma resposta à altura. Além disso, não tinha uma.

Então isso se tornou um joguinho. Jenny e eu mexíamos o manequim pela casa, e depois de um tempo já nem nos assustávamos mais. Demos a ele o nome de Albert, ele se tornou apenas uma decoração da casa após algumas semanas. Nós o colocávamos na cozinha, na sala de jantar, em qualquer lugar. Há alguns dias cheguei em casa e o encontrei em minha cadeira em frente a TV, com uma das minhas cervejas em sua luva. Apenas peguei outra cerveja e sentei no sofá.

Jenny veio depois e disse, "Você não vai movê-lo?"

"Ele chegou primeiro", encolhi os ombros.

"Você é ridículo", disse Jenny, e pegou a cerveja de Albert.

"Ele não vai gostar disso", comentei.

Jenny riu. "O que ele vai fazer a respeito?"

Isso foi há alguns dias, como eu disse. Ontem, cheguei em casa e encontei Alberto pendurado na janela na parte de trás da casa. Suas roupas estavam salpicadas de algo vermelho, e havia uma faca suja também de vermelho em uma de suas luvas. Era uma visão horrível, aplaudi a engenhosidade de Jenny.

"Ele te pegou, querida?" Chamei. Sem resposta, obviamente. Ela não iria desistir da piada facilmente.

"Hey, essa coisa vermelha está pingando no chão", eu disse alto o suficiente para que ela me ouvisse, de onde quer que estivesse se escondendo. "Acho que está manchando o tapete."

Ainda nada, então peguei um papel toalha e enxuguei o "sangue", então tirei a faca da luva de Albert. O que quer que Jenny tenha usado realmente parecia com sangue, e eu estava começando a ficar desconfortável.

"Amor? Ok, você me pegou. A brincadeira já acabou." Ainda sem resposta, então comecei a procurá-la. Procurei pela casa inteira, mas não consegui achá-la em nenhum lugar. Seu carro estava na frente, mas Jenny havia desaparecido. Liguei para seu celular, mas caiu direto na caixa postal.

Quando deu meia-noite e ela ainda não tinha aparecido, comecei a entrar em pânico. Liguei para alguns amigos, mas ninguém sabia dela. Decidi dormir um pouco e então pensar no que fazer pela manhã. Deitei, apaguei as luzes e estava quase caindo no sono quando ouvi um leve barulho no corredor.

Abri meus olhos para ver Jenny na porta. "Onde você est--" comecei dizendo, acendendo as luzes, mas minha voz travou. Não era Jenny. Era Albert, pendurado no corredor do meu quarto, balançando ligeiramente para frente e para trás. A faca estava de volta em sua mão.

Meu coração estava disparado. Isso era obviamente Jenny levando uma brincadeira longe demais, mas quando chamei por ela novamente e ela não respondeu, meu medo aumentou. Tirei as roupas do cabide, as levei até lá embaixo e, embora eu soubesse que isso era totalmente ilógico, as queimei na lareira.

Esperava que Jenny aparecesse e começasse a rir quando coloquei fogo nas roupas, ou pelo menos brigasse comigo por fazer a casa cheirar a queimado - eu não sei com o que eles fazem calças de neve, mas o cheiro fica horrível quando você queima - mas o fogo queimou até virarem cinzas e eu ainda estava sozinho.

Dormi um pouco, e quando saí para trabalhar esta manhã, não havia nenhum sinal de Jenny e ela ainda não respondia minhas mensagens e nem ligações. Liguei para a polícia para reportar seu desaparecimento, eles devem mandar alguém para dar uma olhada e me revistar, eu acho.

Eu espero que eles cheguem logo. Porque eu acabei de ouvir um barulho vindo lá de cima, e quando subi para olhar, a porta do nosso armário estava aberta. Penduradas nas barras, alinhadas em fileiras arrumadas, havia uma dúzia de roupas de Jenny. Camisas nos cabides, calças penduradas, sapatos alinhados abaixo.

A porta do quarto fecha apenas pelo lado de dentro, mas fechei e usei minha gravata para amarrar a maçaneta ao corrimão do corredor. Eu estava prestes a sair de casa, mas havia um cabideiro na porta, e eu realmente não me lembro de ter alinhado meus sapatos daquela forma quando cheguei em casa.

Espero que a polícia chegue logo.




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Um Erro ‘’Necessário’’

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Me chamo Regina Alcântara e morava em São Paulo no ano de 1995, na época eu tinha 16 anos e morava com meus pais num casarão antigo deixado pelo meu avó. Nós éramos uma família de classe média e nada faltava para mim, mas depois que meu pai perdeu o emprego de carteiro começamos a passar por bastantes dificuldades, era a pior época que já tínhamos passado e as costuras da minha mãe já não eram suficientes para suprir todas as despesas. 

Eu era uma moça bonita de pele negra, cabelos ondulados e um sorriso extremamente bem cuidado; até tentei ir numa agência de modelos tentar algum trabalho, mas não passei nem da entrada, a recepcionista me olhou dos pés a cabeça naquele dia e me senti um lixo. Todos os dias eu saía de casa na esperança de encontrar algum trabalho para ajudar meus pais, mas nunca encontrava nada, nem mesmo trabalho de domestica. 

Aos poucos meu pai começou a vender alguns móveis, mas não era para comprar comida ou pagar contas e sim para tomar bebidas; com o tempo ele até criou uma alta dívida no bar que ficava no centro.

Minha mãe começou a ter depressão e eu já não tinha mais como ajudá-la, pois meu psicológico também estava abalado. Era insuportável ver meu pai chegar bêbado em casa todas as noites e escutar os gritos de fúria misturados com os choros da minha mãe, não tinha como deixar de ouvir mesmo que eu abafasse os ouvidos com o travesseiro. 

Era uma tarde de sábado quando saí novamente para procurar um emprego e mais uma vez não encontrei nada; chegando em casa percebi que tínhamos visita, havia um chapéu no cabide que ficava na sala. Quando entrei vi meus pais sentados no sofá conversando com um homem bem alinhado, com roupas de boa qualidade e um cabelo bem cortado, parecia ser um homem da alta sociedade e realmente era. Meu pai me chamou para se juntar a eles, mas eu disse que estava cansada então o cumprimentei e subi para o meu quarto. 

Fiquei me perguntando aquele dia o que meus pais tanto conversavam com aquele homem. Durante um tempo cheguei a desconfiar que talvez ele quisesse comprar a casa, mas depois ele não voltou mais lá e também não quis perguntar nada sobre aquilo, minha cabeça já tinha problemas demais. 

Dias depois uma mulher veio até a nossa casa, ela estava acompanhada de duas crianças, eu apenas observei do que se tratava a conversa e ela falou sobre uma grande quantia de dinheiro. 

Subi para o quarto com um sorriso cheio de emoção, finalmente as coisas começariam a dar certo novamente e meu pai quitaria sua divida. As dificuldades já eram tão insuportáveis que certo dia encontrei minha mãe pedindo dinheiro a vizinha, logo minha mãe que era um poço de orgulho. 

Mais um dia se passou e minha mãe me pediu para que eu me arrumasse, pois teríamos um grande evento de comemoração, jantar seria dado para comemorar o sucesso dos negócios do papai que logo teria um bom dinheiro em mãos. Chegada a hora do jantar os convidados se sentaram a mesa; o homem elegante, a mulher acompanhada de duas crianças e um senhor que parecia meio bêbado. Meu pai cochichou para minha mãe que o senhor era o tal dono do bar. 

Meu pai se levantou e deu boa noite aos convidados, minha mãe pediu para que eles ficassem a vontade e se servissem. Depois do jantar meu pai disse que estava na hora da negociação começar. As propostas eram muito boas, mas eu não entendia qual interesse eles poderiam ter numa casa tão antiga. Meus pais ficaram um bom tempo falando de valores e fazendo negociações e era muito difícil para mim imaginar que a casa onde passei a infância seria vendida, ela me trazia tantas recordações boas. Meu pai me perguntou porque eu estava chorando e eu disse que não era para ele vender a nossa casa e que daria um jeito de arranjar um emprego para ajudar nas despesas. 

‘’-Você já está ajudando eles.’’ Disse o homem enquanto entregava um cheque para o meu pai que agradecia com um sorriso generoso. 

Foi nesse dia que descobri que eu estava sendo leiloada como um objeto pelos meus próprios pais.  Acabei me casando com aquele homem, mas pouco tempo depois ele faleceu me deixando uma boa herança, mas nada que me faça esquecer a crueldade humana.  

Autor: Andrey D. Menezes.  

(Hoje trago pra vocês uma proposta um pouco diferente, não sei se vocês vão gostar, mas espero que sim. Estou construindo aos poucos uma creepy que ia postar hoje, mas lembrei do conselho de vocês sobre ir mais devagar rs.) 

(Ps:Obrigado pelos conselhos e quando forem ''brigar'' comigo tudo bem, já acostumei um pouco, mas sejam mais gentis com algumas pessoas nos comentários. Um menino postou uma creepy nos comentários e quase foi linchado rs, não estou aqui pra dar lição de moral, mas lembrem-se que sempre erramos e sempre estamos aprendendo na vida.)  

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A prisão é um Inferno

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Eu odeio aqui.

Mas admito, mereço.

No momento estou aprisionado entre quatro paredes de concreto e uma porta sólida de metal em uma prisão de segurança máxima. Fui preso já faz uma vida, parece. Mereci, com certeza. Cada segundo em que apodreço aqui é justo, mas não muda o fato de como odeio esse lugar. 

É frio aqui. Tenho apenas uma cama de concreto e um vaso sanitário de metal. Minhas roupas coça e são finas demais para impedir que eu fique tendo arrepios o tempo todo. As paredes são cinzas com um leve tom de verde enjoativo por conta do reflexo pálido dos azulejos cor-de-pântano que brilham por causa da luz florescente que paira sobre mim. A porta é grossa e imóvel, pintada com o mesmo verde vômito do chão. Acredito que a repetição de cores seja para cortar gastos (talvez se eu lambê-la o suficiente, posso perder bastantes neurônios e esquecer que estou aqui). Não tenho colegas de cela, pois muitos são considerados "de risco extremo". Pelo menos ainda tenho privilégios de banho de sol e chuveiro sem ser totalmente supervisionado. Isso é muito mais do que a maioria recebe. 

Minhas únicas comodidades são meu vaso sanitário e meu diário. Ganhei esse diário com muito trabalho e bom comportamento. O meu lápis é normal, sem borracha; do tipo que jogadores de golf usam para anotar seus pontos. Tenho permissão de ficar com ele quatro horas por dia: entre o café da manha e o almoço. Eu recebo o caderno e o lápis com a minha refeição e depois o devolvo na próxima. Se o lápis está danificado de qualquer maneira ou se o caderno tem alguma folha rasgada, eu perco esse privilégio por alguns dias. Então me comporto. Me comporto para poder o mínimo de conforto dentro dessa gaiola de concreto onde morrerei lentamente. 

De novo, definitivamente fiz por merecer, mas isso não muda o fato de que a prisão é um inferno. 

Mereci meu lugar aqui porque matei pessoas. 

Matei muitas pessoas. 

Vinte pessoas, para ser exato. 

Essa é a primeira vez que escrevo isso, na verdade. 

Superei o numero do Canibal, o que me fez de certa forma ficar com uma sensação de dever cumprido. Entretanto, o que mais me deu prazer foi a uniformidade do número. Vinte. 

Dois, ZERO. 

20

20

2 0

2-0

2....0

20

Uniforme e suave. 

Minha Compulsão fez ser assim. 21 teria feito o fato de ser preso um total inferno. 15 teria sido ok, mas 20 é muito mais limpo. Incrementos de cinco. Sempre incrementos de cinco. As vezes, quando estava fazendo compras, pegava alguns chicletes só para ter certeza de estar comprando 20 ou 10 ou 30 itens. Mas, no caso dos assassinatos, é muito mais intenso. 

O problema era o comichão que eu sentia entre eles. Era uma dor torturante entre o 1-4 e 6-9. O comichão não era tão ruim durante os 5, mas 10 era pior. Entretanto, esse número uma hora ou outra atraí atenção. Esse número foi parcialmente o que fez eu ser pego, mas sabe quando você é obrigado a coçar uma parte do corpo que está coçando? Foi tipo isso. Me fez simpatizar muito mais com os vampiros das histórias antigas, com aquela fome absurda que não consegue ser saciada. É de dar pesadelos. 

Foi o mesmo para minha idade: 40. Parei com 40, o que me deixou bem contente. Eu odiava não ter uma idade uniforme. Eu conseguia suprimir os sentimentos ruins quando minha idade terminava com 5 ou números iguais, mas os piores anos da minha vida era quando terminava em 1, 3, 7 e 9. 

Estou divagando. Entendo que é um comportamento anormal, mas é uma compulsão. Conseguia controlá-la o suficiente para que ninguém notasse-a nas rotinas do meu dia-a-dia. 

Tenho que relembrar nestas páginas, pois não posso voltar atrás. Começou muitos anos atrás, e a necessidade só foi crescendo.

A primeira vez que matei foi interessante. Devia ter sentido a necessidade de matar mais imediatamente depois, como aconteceu nos anos seguintes, mas não. Dizem que doenças mentais pioram com os anos. Acho que foi isso que me manteve de fazer aquilo de novo tão breve, não sei.

A primeira vez que matei foi bem confuso. Eu estava voltando da escola para casa por um bosque, onde só as crianças mais corajosas atravessavam. Enquanto caminhava, me deparei com um homem. Estava claramente ferido e, mesmo com 12 anos, sabia que lhe restava pouco tempo. Estava sentado, segurando as costelas, com a respiração curta e rápida. Não tinha me visto ainda. Da onde eu estava, pude ver um osso branco e longo saindo de um lado de sua perna, o que me dizia que a dor que vinha de suas costelas era pior do que a perna quebrada. Isso, ou estava apenas em choque.

Mais acima dessa parte da floresta tinha uma estrada, e pelo o que eu podia ver, um veículo tinha atravessado as barras de proteção. Destruída, uma caminhonete Chevrolet C20 de 1966, estava caída uns 12 metros abaixo da rodovia em meio de arbustos e pedras. Lembro bem desse modelo porque acabei comprando um para mim muitos e muitos anos depois em um tipo de nostalgia secreta. De qualquer forma, o motorista tinha conseguido sair dos escombros e se rastejou em agonia uns 15 metros até a árvore mais próxima, onde suas forças estavam começando a falhar. 

Lembro de ver uma lasca grande de metal que tinha se desprendido da caminhonete e de pegá-la. Andei lentamente em direção do homem que esticou as mãos na minha direção pedindo ajuda, digno de pena. Devagar, enfiei a ponta afiada do metal na garganta dele e assisti o sangue começar a jorrar do corte e de sua boca. Ele começou a se afogar em seu sangue rapidamente e, depois de um tempo, parou de se mexer. Para sempre. 

Foi um impeto que não consigo explicar. A excitação de acabar com uma vida humana não se aproxima de mais nada. Fiquei contente por um efêmero momento. Fiquei olhando por um tempo antes de arrancar um pedaço de pano ensanguentado de suas calças que ficara preso em um arbusto. Só queria ter uma lembrança. 

Esse foi eu primeiro assassinato. Nunca fui pego, nem suspeito. Crescer nas montanhas do sul te da muita privacidade, e faz com que você se livre da culpa de assassinatos. Enquanto o tempo passava, o sentimento de poder e dever cumprido crescia. Me sentia como Deus.

Ninguém nunca soube que eu era do jeito que era. Eu nunca seria um suspeito, pois sabia como me esconder. 

Me escondia bem, pois sabia como me esconder. Desde menino sabia como me enturmar. As vezes era difícil por causa da minha aparência, mas aprendi uma habilidade simples: como me esconder sendo visto. 

Eu era capaz de trabalhar duro no plano de fundo. Tirava boas notas e tinha poucos amigos próximos na escola, assim ninguém nunca descobriria nada. Entretanto, fazia questão que todos tivessem algo bom para falar sobre mim, carregando comprar, ajudando colegas a estudar, sempre sendo educado. Me formei como melhor da classe e logo fui para uma faculdade local. Depois de me formar em administração, trabalhei duro como podia e consegui dinheiro suficiente para comprar meu próprio caminhão. Trabalhava dirigindo nas auto-estradas como caminhoneiro por anos e, eventualmente comprei mais dois caminhões. Com 35 anos, já era um empresário de despacho respeitável na minha antiga cidade com alguns motoristas trabalhando para mim. Obviamente eu ainda dirigia, mesmo sendo o dono, pois me deixava mais próximo do meu único amor verdadeiro.

Me escondia bem sendo visto porque pessoas brancas ama pretos. Em uma cidade onde 90% era branco e os outros 10% eram "outros", aprendi a me misturar mesmo sendo uma minoria. Aprenda a falar como ele, a andar como eles e assim conseguirá manipulá-los do jeito que quiser. 

Eu os odeio. Não pessoas brancas; todas as pessoas.

Minha mãe faleceu pouco depois de eu me formar no colegial devido um ataque cardíaco, me senti livre, pois sua opinião era importante para mim. Suas opiniões me mantinha na linha e respeitoso. Quando faleceu, fiquei livre para seguir meus próprios interesses. Meu pai, mesmo sendo um bom homem em seus próprios termos, nunca teve muita influencia nas minhas ações, então andei pelo caminho que escolhi sem me importar com o que ele sentiria à respeito.

De qualquer forma, fiquei muito tempo parado depois do primeiro assassinato. A vontade crescia aos poucos. No ensino médio já ficava de olhos atentos para uma nova oportunidade de tomar uma vida. Finalmente, esse dia chegou. 

A segunda vez que vez que matei foi igualmente sem inspiração. Me encontrava em uma festa de formatura e todos os formandos bebiam muito. Todos tirando eu. Estávamos na casa de uma colega rica que sempre teve um registro impecável por todo o tempo de escola e queria sair de lá com estilo, de um jeito que seria lembrada.

Aprendi duas coisas naquela noite. A primeira foi que, um garota bem comportada e com boa educação não era diferente de mais ninguém em sentido de ter um lado obscuro. Queria ser lembrada por uma festa. Não por suas boas notas, não por seus feitos generosos, não por seu jeito modesto de se vestir, mas por uma festa. Todos tem um lado obscuro de certa forma. Essa foi a primeira coisa que aprendi. A segunda foi que se todo mundo está bêbado e dançando em um terraço, você pode esbarrar discretamente em uma certa mocinha, mandando-a diretamente para o concreto três andares abaixo e fazer parecer um acidente. Ela pousou com um baque que só pode ser replicado em meus sonhos. Essa foi a primeira vez que fiquei excitado sexualmente por matar. Não sei porquê. Ela estava de biquíni (tenho certeza que seis pais não sabiam sobre isso) e sua pele era pálida e lisa. Seus cabelo castanho passava dos ombros e o olhar confuso e aterrorizado em seu rosto inocente foi impagável. O sangue de sua cabeça fez uma poça e derramou na piscina próxima. Eu gostava dela, pode-se dizer assim, mas só porque representava algo que não existe. Inocência humana. Quando seu crânio rachou contra o chão, fiquei automaticamente excitado. Tive que sair de fininho para lidar com aquilo, e roubar uma lembrança do quarto da garota. Enquanto isso o restante dos festeiros tentavam concertar uma situação que estava além do reparo. O caos que causei naquela noite só reacendeu a chama de dever cumprido que só me vinha com a morte. 

Essa foi a segunda vez que matei. 18 anos. No final da puberdade eu já estava com 1,90 e 110 kg. Sempre gostara de levantar peso e cuidar da minha saúde geral. Um predador gordo é um mal predador. Mantive esse nível de boa condição física por maior parte da minha vida adulta. Tinha que ser assim para conseguir seguir com a minha paixão. 

Claro, as coisas dariam um jeito de me pegar. Estava encarcerado com uma montanha de evidências. Não vou dizer que encobri cada pedacinho com perfeição para evitar ser pego, mas sentia como se fizesse o suficiente. Em retrospectiva, creio que não. 

Lembro do dia em que fui preso. Tinha feito 40 anos no mês anterior e estava na estrada entregando uma encomenda de madeira compensada. Estava atrás do volante do meu caminhão no interior do Alabama. Fui por uma estrada alternativa porque a vista era mais bonita, e quando você é seu próprio chefe, pode fazer suas próprias escalas. Nessa altura do campeonato, já havia matado 19 pessoas e o comichão estava presente. Passava a mão na nuca toda vez que pensava nisso. Tinha que coçar. Tinha que lidar com aquilo. 

Foi quando a vi. 

Quilômetros de distância de qualquer construção ou alma viva, estava um Fusca azul bebê, morto na beira da estrada. As luzes de emergência estavam piscando e uma mulher olhava para dentro do capô. A altura do meu caminhão deixou-me analisar tanto seu carro quando a área que nos cercava. Era de uma grama selvagem alta e árvores, coberta por um céu negro da noite. Não havia ninguém por milhas e milhas. Podíamos ficar sozinhos juntos. Estacionei atrás do carro dela, com as luzes baixas acesas, para não assustá-la.

Quando desci do caminhão, falei com ela.

"Com licença, madame," falei calmamente. Sei como desarmar. Venho trabalhando no meu tom de voz fazem anos para conseguir surrupiar a confiança dos outros em minhas mãos, "Tudo certo por aqui?" Ela saiu de trás do capô e pude vê-la melhor. 

Era uma jovem mulher hispânica. Suas roupas eram esfarrapadas, mas creio que era intencional. Tinha cabelos sedosos e negros até os ombros e grandes óculos de bibliotecária. Era bonita, o que era um bônus para mim. Considere como um jantar. Você fará sua refeição, mas inclui sobremesa, o que a torna muito melhor. Também sabia que ela completaria esse ciclo. Seria minha vigésima vítima e eu poderia descansar. Melhor ainda, era pequenininha, então seria uma briga fácil. 

"Acho que o motor engasgou," Falou de um jeito desesperado que só um local escuro e cheio de mato pode proporcionar. Ela só queria sair da zona de perigo... mal desconfiava. 

"Posso te dar uma carona, sou dono dessa empresa então não tem problema se atrasar a encomenda," não queria soar presunçoso, mas sabia que me colocar como empresário tiraria a visão de 'caminhoneiro estranho'.

"Não sei..."

"Prometo," falei, com minha melhor voz de bom moço, "te levarei direto para a cidade e acharemos um telefone. Minha esposa me mataria se eu deixasse uma jovem sozinha no meio do nada." 

Eu não era casado, mas era outra coisa que ajudava a desarmar. Uma esposa sempre fazia um homem parecer menos ameaçador, ou melhor, assim ela achava. 

"Tá bom," disse, com seu medo vencendo seu ceticismo, "Obrigada." 

"Vou abrir a porta pra você." 

Enquanto andava em direção do banco do passageiro, eu segurava a porta para ela. Quando estava subindo o primeiro degrau, agarrei seu tornozelo e puxei para baixo com o máximo de força que consegui.

Seu maxilar bateu com toda força contra o degrau de metal. Eu soube que alguns dentes tinham se quebrado pelo barulho que resoou de seu crânio. Ela caiu mole na estrada de terra e coloquei-a em meu ombro. Ela não resistiu tempo suficiente para eu ter que pegar minha soqueira do porta-luvas. Pude sentir o sangue quente de sua boca escorrendo pelo meu ombro. 

Levei-a até a grama alta, fora de vista. Fizemos amor lá. Já tinha feito amor com algumas, mas essa foi especial. Era a vigésima. Ela completava o ciclo. Na metade, acordou e começou a resistir. Dali eu tive que agir. Peguei a soqueira e comecei a bater nela. Mal conseguia gritar por causa do maxilar destroçado. Eu bati em seu rosto de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo.

Quando terminei tudo que tinha pra fazer, peguei a carteira do bolso da sua calça jeans que estava jogada ao nosso lado. Hannah, acho que era esse o nome. Peguei seus óculos que haviam caído quando bateu de rosto no degrau. Tinha seu nome gravado na parte de dentro da haste. 

Dirigi. Deixando a cena do crime para trás. Tinha entrado novamente a auto-estrada fazia um tempo e vi luzes azuis e vermelhas no meu retrovisor. Já havia sido parado outras vezes. Até com um corpo no porta-malas, então não me preocupei. 

O policial encostou a viatura e me chamou. "Você é Williams (meu sobrenome)?" Perguntou em um tom indecifrável. 

"Sim, senhor." Respondi de boa, segurando minha identidade e as papeladas do carro e entregas. 

Então depois ele falou em seu rádio. 

"Sim, encontramos ele."

"Senhor, qual é o prob-" fui cortado rapidamente. 

"Senhor, por favor vire-se e coloque as mãos nas costas."

"Por quê?" Quis saber, eu não estava afim de ser algemado sem um bom motivo. 

Então ele me virou violentamente na direção no caminhão e colocou as algemas nos meus pulsos. Depois me sentou no meio-fio e pediu reforços.

Quando os outros policiais chegaram, um finalmente notou o sangue nas minhas costas. Depois encontraram os óculos. Também encontraram a soqueira que tinha sido limpa mal. Pouco depois receberam a notificação de um espancamento brutal algumas cidades atrás.

Tinha me parado inicialmente porque um dos meus motoristas tinha sido pego com um tijolo de maconha e estavam parando todos os caminhões da minha empresa para investigação. Seria engraçado se não fosse de dar ódio. Fui pego por uma questão técnica. 

Minha corrida durou dos 12 aos 40. Fiquei despercebido todo esse tempo. Mudei meu método. Matava só estranho. Tomava todo o cuidado. Uma questão técnica era a única coisa que podia ter feito isso.

Meu lar simples foi revirado até encontrarem minha caixa de tesouros (uma caixa de sapatos com lembrancinhas e recortes de jornal). Com isso foi fácil me colocar em todos os assassinatos possíveis. Todo  sem-teto morto nas cidades. Toda prostituta que aparecia sem cabeça. Toda criança que sumia em multidões. Fui conectado a todos esses. 

Agora, alguém pode pergunta, "Por quê você foi tão idiota de ficar com as lembranças?" 

Para isso posso responder que era preciso. Era minha paixão e a única coisa que fazia sentido para mim. Tinha que manter algo por perto. Eram as únicas memórias que eu tinha daqueles momentos. 

Como falei lá no começo, mereço estar preso, mas não me arrependo nem um pouco do que fiz.

O julgamento foi irritante e cansativo. Sendo que matei por todo país ouve discussões sobre onde deveria ser julgado, mas virou um problema federal, o que significava mais burocracia. Meu advogado me explicou que muitos dos assassinatos seriam dados como circunstanciais na melhor das hipóteses, mas como muitos teriam agora meu DNA na cena do crime, seria quase impossível negar. Decidi jogar a toalha. A mídia queria sangue, o público queria sangue e o júri queria sangue. Eu já tinha comido meu pedaço, agora era o momento de distribuir o resto do bolo. Não havia nenhuma maneira de evitar prisão perpétua  , então era hora de jogar limpo e recitar os contos das minha façanhas para uma sala de júris aterrorizados e membros de família queimando de ódio. 

Mesmo com dificuldade de encontrar provas para os assassinatos, ainda assim fui declarado culpado de 18 dos 20. Entretanto fui punido por todos indiferentemente. 

No dia da declaração de sentença, eu estava imóvel e estoico na frente do júri. Sentia o olhar de todos os presentes tentando me queimar vivo, mas falhando miseravelmente.

O juiz me olhou de cima e balbuciou sobre minhas crueldades e seus ressentimentos pela humanidade. Pelo tempo todo em que zumbia, eu me mantinha de pé com o pensamento que pena de morte era ilegal naquele estado. Era satisfatório saber que, mesmo que toda aquela platéia aclamava silenciosamente pela minha cabeça, a lei não permitiria. Sai de meus pensamentos quando ele declarou a sentença. 

"Sendo que a pena de morte é ilegal nesse estado, posso apenas fazer o máximo sem transpor essa barreira. Te condiciono a mil anos de sentença e uma prisão perpétua."

Ele estava sendo melodramático. Em nenhum momento da história já existira uma sentença tão absurda. E o pior, o número era desigual. Sendo que pelo resto da minha vida eu teria que falar mil anos e UM quando discutindo minha sentença. Ele sabia disso. 

Ficando um tanto abalado, perguntei ao Juiz, "Por que 1000 e um?" 

O tribunal estava em silêncio. As famílias, amigos e júri me olhavam com desprezo, mas isso não me importava, muito menos naquele momento. 

O Juiz se debruçou por cima de seu pódio. Sorriu de um jeito que ainda faz meu sangue ferver e respondeu calmamente. 

"... Para te atormentar."

Foi assim que cheguei onde estou agora. Não interajo com outros presos nem com guardas. Só cuido dos meus problemas do melhor jeito possível. Não gosto de pensar na minha sentença porque faz eu sentir o comichão. Parecida com aquele de quando você não pagou uma certa conta, mas não tem o dinheiro. É um desconforto mental. 

Escrevo o resto disso como um testemunho do que aconteceu ontem, na esperança que chegue até alguém aí fora. Meu dia começou normal. Um alarme alto tocou e eu me levantei. Daí, minha porta se abriu e andei até o local do banho. Tentei me colocar no final da fila, assim podendo ficar o máximo de tempo possível fora da minha cela. Além do mais, gosto de ter privacidade. Os detentos aqui são insuportáveis. São criminosos mal-educados que não teriam vida fora dessas paredes. Meus camaradas negros fizeram um inferno comigo por ser "louco", sendo que serial killers afro-americanos são considerados uma anormalidade. As outras raças tendem a ficarem na deles, a não ser os membros de uma irmandade Ariana que ficam jogando palavrões e insultos na minha direção. Entrei no chuveiro como sempre, mas senti um medo que não consigo descrever. Uma sensação... desagradável. Como se estivesse sendo observado e sozinho ao mesmo tempo. Me sentia sem esperanças e próximo ao desespero. Terminei meu banho rapidamente e saí de lá. Os corredores estavam vazios e o guarda não estava no seu posto de sempre na frente da minha cela. Eu estava sozinho naquele corredor. 

De repente, senti uma mão grande pegar meu ombro e uma voz mandou que eu seguisse em frente. A próxima coisa que percebi é que estava sendo escoltado até o escritório do Diretor. Estava meio atordoado, mas obedeci.

Andei pelos corredores apertados e claustrofóbicos até chegar na última sala à direita. Lá dentro era totalmente escuro, iluminado apenas por um abajur fraco em uma escrivaninha. A mão me empurrou lá para dentro e depois bateu a porta atrás de mim. 

Vi a silhueta do Diretor, que me pediu pra sentar. Sentei do outro lado de sua mesa ficando em um silêncio desconfortável. Ele não se mexia, nem eu. Eu o forçaria a fazer o primeiro movimento. 

Depois do que pareceu uma eternidade, falou. 

"Vamos ver sua ficha." Sua voz soou, salpicada de um leve sotaque do sul. 

Não respondi. Não pereci uma pergunta e ele não parecia procurar por uma resposta. 

Daqui, vou parafrasear o que foi dito, sendo que minha memória não é perfeita para recriar a conversa perfeitamente.

"Número 1. Confessado. Não condenado. Homem caí de um penhasco e você o ajuda a morrer. Tinha apenas 12 anos então não foi incluído em seu arquivo final, mas vale mencionar. 

Número 2. Confessado. Condenado. Você confessou empurrar uma jovem do terraço e depois roubar de sua casa como um troféu. Você tinha 18 anos. 

Número 3. Confessado. Condenado. Morador de rua perto de sua faculdade, você o esfaqueou e arrancou um dente. Você tinha 20 anos.

Número 4. Confessado. Não condenado. Você diz ter atirado em uma prostituta no Texas. A lembrança que pegou não pode conectar você ao crime e ela não tinha família. Tinha 24 anos. Não condenado, mas você sabe o que fez. 

Número 5 ao 9. Confessado. Condenado de todas. Você matou cinco prostitutas de beira de estrada antes de mudar seu método. Isso foi inteligente. Todas foram estranguladas e você guardou consigo uma mecha de cabelo. Deixou-as na estrada. 

Número 10. Confessado. Condenado. Você sequestrou um menino perdido de 12 anos e o afogou. Ficou com o aparelho dental móvel dele. Você já estava bem de vida nessa época, mas ainda precisava matar. Não é mesmo? 

Número 11. Confessado. Condenado. Essa foi especial, não foi? Aquela funcionária do posto de gasolina que você perseguiu por um tempo? Seguiu-a até em casa e invadiu. Demorou o tempo que achava necessário e fez certinho. Ela quebrou seu período de paz e você a fez pagar, não é? Ficou com seu colar como lembrança. 

Número 12. Confessado. Condenado. Você pegou um rapaz de uma boate local no Missouri. Estrangulou-o no momento em que a porta se fechou. Cortou-o em pedaços e ficou com um dente. 

Número 13 ao 17. Confessado. Condenado de todas. A fase do mochileiro. Aqui parece que você só queria fechar o ciclo. Foi descuidado. Deixou muitas evidências para trás. Acho que achou que por serem vagabundos, não importaria muito. 

Número 18. Confessado. Condenado. Você matou uma dona de casa na Flórida. Estava de férias na época. Você a viu e simplesmente precisava fazer algo. Esperou até que o marido saísse para ter um tempo. Mais um estupro seguido de estrangulamento. Você levou o colar de ouro.

Número 19. Confessado. Condenado. Você viu um corredor em um dia pela manhã e começou a segui-lo todos os dias com seu caminhão. Depois que já sabia sua rotina, se escondeu em um arbusto e o atacou. Matou-o com um martelo e ficou com um pé de tênis.

Número 20. Confessado. Condenado. O que fez você cair. Não conseguiu resisti-la. Foi descuidado demais. Excitado demais. Agora está aqui. Você pegou óculos e esmagou seu crânio e a estuprou." 

Ele suspirou e vi sua silhueta recostar na cadeira. 

"Você sabe como te chamam?" Me perguntou, incrédulo. 

Fiquei lívido. Ele havia degradado todo meu trabalho. Eu tinha feito tanto e ele varreu tudo como uma coluna de obituário. Encarei-o entre o breu antes de responder, "O Assassino Caça ao Tesouro?" 

Eu odiava esse nome. Me trajaram como o Assassino Caça ao Tesouro pois meus assassinatos foram tão longe um do outro e eu coletava itens estranhos e desconexos. De novo, meu trabalho e esforços foram reduzidos a uma piada. Ainda me deixa enojado. Então o Diretor falou de novo.

"Você está arrependido?"

Fiquei apenas parado um tempo antes de responder, "Isso importa?"

Ele riu com uma risada gutural. "Não, creio que não." falou se ajeitando na cadeira. "Não entendo, na verdade. Você é um homem muito inteligente, saudável, de boa fala. Por que diabos você jogaria isso tudo fora?"

Fiquei em um silêncio raivoso. Eu me recusava dar a satisfação de resposta para aquele homem. 

"Você acredita em Deus?" O Diretor perguntou, seu tom de voz mudando. 

Mastiguei a língua antes de responder, "Não."

"Que dó," respondeu sem parecer se importar, como se minha resposta fosse nada. "Isso tornaria muito melhor o que vou falar a seguir." 

Esperei que prosseguisse. 

"Sua pena está sendo reduzida."

Levantei uma sobrancelha em descrença, "É mesmo?"

"Sim," Falou, ainda sentado e engolido pelas sombras, mas eu sentia que estava sorrindo.

"O que Deus tem com isso?" 

Sei que eu tinha outras perguntas mais importantes para fazer naquele momento, mas fiquei curioso. Presumi que achasse que eu tinha que estar grato. 

"Bem," explicou com sua voz arrastada, "Isso faria a próxima parte ser mais fácil. Você morreu hoje de manhã, filho." Antes que eu pudesse responder, jogou algumas fotos na mesa em minha direção. 

Era eu. Estava coberto de sangue no chão do banheiro da prisão. Parecia que eu havia sido esfaqueado. 

"Pois é," O Direitor, ou quem eu pensava que fosse o diretor adicionou, "Um membro da irmandade Ariana queria provar seu poder esfaqueando um serial killer até a morte no chuveiro. Não funcionou, sendo que foi pego e ficará na solitária até ficar totalmente louco; se é que isso te traz algum conforto."

Fiquei fitando-o. Olhei as fotografias. 

Eu não podia aceitar aquilo. 

"Isso é um absurdo," me sentia insultado. 

"Sei que parece estranho, mas ouça só," Sentou-se reto, pronto para dar sua cartada final, "Você sabe o que são os Universalistas?" 

"Não."

"Bem, basicamente dizem que todos irão para o céu. Mesmo se você não merecer."

"Isso aqui é o céu?" Estava pronto para rir. Só podia ser uma piada. 

"Não, e essa é a notícia ruim. Católicos, Muçulmanos, alguns Budistas, todos acreditam em um plano temporal e estão meio que certos. Entenda, todo mundo eventualmente segue em frente, mas antes que possam seguir, precisam resolver suas obrigações terrestres... e julgamentos." 

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele recuperou seu folego e prosseguiu. 

"Você morreu essa manhã. Você cumpriu UM de dos 1001 anos da sua sentença. Bem vindo ao ano 2." 

Me levantei, "Isso não tem graça, vou embora." 

Não conseguia me mover. Estava congelado no mesmo lugar. Não podia mexer meu corpo. Meus olhos eram forçados em direção da cadeira. 

"Por favor," ouvi o Diretor, sendo que agora sua voz era muito mais pesada, ressoando em minhas entranhas. "sente-se." Voltei ao meu lugar, sentindo uma emoção que era nova para mim: medo. 

"Agora," continuou, sua voz voltando ao normal. "Você não está morto. Só começou uma nova sentença. Tudo voltará ao normal quando voltar para lá. Quando eu te dispensar aqui, você sairá e voltara para sua cela, me entendeu bem?"

Assenti. Ainda estava atordoado pelo o que eu sabia ser a verdade. Aquela voz. A sensação estranha naquela manhã. 

Sai naquele dia da sala do Diretor, me sentindo sem esperanças de um jeito que era desconhecido para mim. A prisão era a mesma, mas não era. Era mais solitária. Mais escura. 

Isso parece que foi a eternidades atrás. Aprendi bastante desde então. 

Primeiro, "prisão perpétua (N.T: Em inglês, prisão perpétua é "lifetime", que significa "tempo de vida" em tradução literal)" não significa da idade que você é preso. Eu esperava uma sentença de 40 anos de "vida". Mas depois de conversar com outros detentos servindo perpétua como eu, aprendi que esse tempo varia entre 80 até 120 anos. Pode variar, mas o mínimo sempre é 80 anos. 

Acho que os guardas não te percebem mais depois de um certo ponto. Além disso, suponho que não façam mais registros sobre você. Inexplicável, mas isso é o que está acontecendo.

Segundo, cada um cuida da sua própria vida. Os detentos não te percebem. Os outros como você falam pouco. Os guardas parecem sempre estar fora de vista, mesmo quando deviam estar interagindo com você. São como meras sombras. 

Estou perdendo a sanidade. Entro no banheiro e vejo alguém se barbeando, as vezes até converso um pouco. Entretanto, quando viro uma esquina ou fecho a porta do cubículo do banheiro, quando volto, essa pessoa já não está mais lá. 

Depois, aprendi que suicídio não funciona. Aprendi da mesma forma que cada detento aqui aprendeu. Cortei os pulsos e apenas ficaram doendo por uma semana. Bebi alvejante e fiquei com uma dor de estomago miserável, mas nada de morrer. Me enforquei e fiquei sem ar e balançando, totalmente consciente, por oito horas seguidas até um guarda me encontrar enquanto trazia café da manhã no amanhecer seguinte. 

Aprendi que ser assassinado diminui a pena, mas assassinar aumenta, então ninguém aqui tenta fazer isso. 

Finalmente, fugir não é uma opção. Temos uns fugitivos as vezes. Aqueles que acabaram seu primeiro ano de sentença. O cara que enlouqueceu. Acho que conseguiu cumprir 60 anos antes de morrer enquanto dormia. Ficou em pânico depois de conversar com o Diretor e correu. Os snipers nem se importaram. Ele agarrou a cerca e caiu no chão. Lá ficou se contorcendo violentamente. Acho que morreu imediatamente de um ataque cardíaco. 

Eu o vi uma semana depois. Três sentenças perpétuas. Sem uma perna. Acho que esse é o punimento por tentar fugir. Não sei se é permanente. Estava destruído depois que voltou. Me lembrou dos gatos no meu bairro quando era criança. A primeira fez que você o machuca, o animal se contorce e fica neurótico, mas depois de um certo tempo, aceita seu destino. O homem agora passa a eternidade olhando para qualquer fonte de luz que puder encontrar com seus olhos mortos. 

Para alguns isso é o limbo. Onde permanecemos presos nessa penitenciária aonde estamos condenados até que nossos corpos e alma estejam quites com a sentença. Para outros aqui é tipo um purgatório. Onde somos preparados para uma eternidade no paraíso. De qualquer forma, somos forçados a permanecer, forçados a viver até que paguemos nossas dívidas. Nunca morrendo de verdade. 

Eu nem sei se o tempo é o mesmo agora, mas se está lendo isso, é porque consegui mandar essas páginas para fora com sucesso. 

Tenho muitos planos, os quais não me recordo. 

Estou deixando esse diário para qualquer criminoso ou alguém que pretenda cometer algum crime. Tenho por volta de 80.000 até 100.000 anos ainda. Não sinto remorso, mas gostaria de ter noção disso antes. Isso é simplesmente um aviso. 

100.000 anos em um cubículo de concreto. Uma superfície dura e sem perdão. 

100.000 anos com só uma hora por dia de uma paisagem de uma terra moribunda da qual mal reconheço. 

100.000 de chão verde-vômito e portas de metal frio que se movem para nada. 

100.000 de esfregar chãos e limpar vasos sanitários. 

100.000 anos sendo monitorado por seres que não consigo entender inteiramente pois seus terrores queimam fervorosamente no fundo da minha mente. 

1001 prisões perpétuas. 

1000 a serem cumpridas. 

Apenas uma pequena coisa me da conforto. 

1000 prisões perpétuas pelo menso ainda é um número bom e limpo.

Espero não morrer tão cedo e arruinar essa vida quando ainda é boa.


... porque quando for 999, será um inferno. 


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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