28/06/2017

A ajuda do Ceifador

Gente, vou entrar de férias agora sexta-feira, então provavelmente estarei postando menos nas próximas duas semanas. Mas vou tentar manter aqui atualizado com pelo menos uma por semana, ok?
***
Não há medo mais potente do que o medo do desconhecido. Nenhum rosto monstruoso descoberto ainda foi tão aterrorizante quanto o potencial infinito de horror que existe antes que a máscara seja removida.
É por isso que nós humanos, em nossa ingênua concepção sobre a ordem do universo, somos tão apegados ao medo da morte. Nós pensamos nela como a fronteira final - o maior desconhecido imaginável dos quais quem vai, não volta mais. E então nos apegamos desesperadamente até na vida mais angustiante e triste, sofrendo por qualquer mal conhecido até nossa libertação para o além.
Mas a morte não deve ser temida, porque a morte é muito bem conhecida. Nós a testemunhamos, causamos, medimos e gravamos isso até o último espasmo moribundo de cintilações neuronais. Mesmo quando eu estava deita, morrendo, parecia bobo que eu tivesse medo do vazio que me era tão prometido.
Enquanto estava vivo, eu não experimentei a morte, então não havia motivo para ter medo agora. Quando eu estava morto, eu não seria capaz de experimentar nada, então ainda não havia razão para o medo. Esse pensamento me trouxe grande conforto ao sentir a última luta errática do meu coração contra a conclusão inevitável que se aproximava. Foi só quando eu estava finalmente caindo no sono que uma última dúvida borbulhou no meu cérebro:
E se não for a morte que temo que temer? E se é o que está além?
E, tão perturbado, deslizei além do entendimento mortal, entrando em um mundo tão abandonado pela razão como já era em vida. Eu ainda estava no quarto do hospital, mas a agitação das enfermeiras e as máquinas de apitar perderam sua opacidade como se estivesse caindo em um entardecer atormentador. Parecia que cada som era apenas um eco do que um dia fora; toda visão um mero reflexo. Com cada momento que passa, o mundo estava se tornando menos real...
Mas todas aquelas visões e sons - tudo aquilo - não estavam simplesmente desaparecendo. Estavam se transformando em uma figura ao meu lado. Quanto menos real meu quarto se tornava, mais real era a figura era, até que existisse em uma realidade tão afiada que nada ao lado dele parecia real.
Sua capa era preta. Não na cor preta, mas em sua essência. Era como ver um tigre de verdade pela primeira vez depois de ter passado anos vendo uma ilustração de um tigre em um livro infantil pensando que aquilo era o animal real. A realidade fluía em torno da sua foice como as ondas em um mar colorido, e eu podia ver cada partícula elementar e o tempo em si espalhando-se em sua lâmina.
Claro, pensei. É por isso que nos ensinam a ter medo da morte mesmo sem precisar explicar o motivo. Eu me agarrei no cobertor da minha cama de hospital para diminuir a intensidade da presença do Ceifador, mas o algodão, uma vez suave, agora fluía como a névoa translúcida através das minhas mãos.
Eu sabia naquele momento que nada poderia me esconder do alcance do espectro, pois ele era a única coisa real neste mundo.
Você está atrasado.
Não eram palavras. A minha cabeça doeu com esse conhecimento, enquanto meu atraso ia queimado em minha consciência, transmitido como uma lei inevitável da física como a inequívoca gravidade.
Não temos tempo para o diálogo costumeiro. Apresse-se. 
Senti-me voando com o vento ao redor dele como detritos em um furacão. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, estávamos fora do hospital, nos movendo a um ritmo tão frenético que o mundo à minha volta estava turvo em um túnel estonteante de luzes intermitentes.
Se tiver sorte, ELE terá se entediado de ficar te esperando.
Eu tinha muitas perguntas, todas lutando por sua devida atenção dentro do meu cérebro sem conseguir fazer uma se quer. 
Você está quieto. Admiro isso. Geralmente as pessoas perguntam demais. 
"Qual o objetivo?" Perguntei. Minha voz parecia sem graça e morta comparada a sua presença estonteante. "Como posso tentar compreender algo tão além do meu conhecimento?"
Você não pode. Mas ainda é da natureza humana perguntar.
Não estávamos desacelerando. Na verdade, nossos passos ficavam mais rápidos. Eu não estava correndo, nem voando, ou nada dessa natureza. Era mais como se o resto mundo a nossa volta se movia enquanto ficávamos completamente parados. Uma vaga escuridão e um cheiro pesado e úmido me fizeram supor que tínhamos ido para o subsolo, mas não tinha como saber de certeza. 
"Uma pergunta, então," Pedi. "O que mais tem aqui além de você?"
Essa é a razão para perguntas serem sem sentido. A morte não é um lugar ou uma pessoa. É tudo que existe.
Um pensamento perturbador, mas feito mais pelo crescente uivo que começava a ecoar nas rochas à minha volta. Ainda parecíamos descer pela Terra, e o ar estava cada vez mais quente e denso. O som continuava a aumentar como se o próprio mundo estivesse sofrendo.
"Então, o que é ELE?" 
É de quem tenho que te proteger.
As rochas se separaram com um movimento rápido de sua foice, e o chão se abriu ainda mais em uma caverna dominada por um lago subterrâneo.
"Mas achei que tinha dito que você era tudo que existia."
Não. Eu disse que a morte é tudo que existe. 
Não estávamos mais em movimento. Luz brilhava da foice de uma fonte invisível e transmitia-se para o lago fluentemente. Uma vez dentro, a luz não refletia ou se dissipava, mas rodava e dançava como óleo luminescente.
"Achei que você era a morte."
A morte não é uma pessoa.
A luz estava ganhando vida própria dentro da água. A superfície parada começou a se agitar com a enigmática energia. Levou muito tempo para minha mente dispersa perceber que eu era a energia que fluía no lago. Eu ainda me sentia enredado com a figura, mas agora existimos como um feixe de luz que fervia na água.
Eu sabia que não entenderia, mas isso não me impediu de me sentir frustrado. Se a Morte é tudo o que há, então o que é ELE? Quem esperava por mim? A água fez pressão em torno de mim e não consegui falar, embora ainda pudesse respirar de alguma forma.
ELE está aqui.
Algo estava na água ao meu redor. Mãos me agarraram pelas pernas e começaram a me puxar para baixo. Fiquei impressionado ao descobrir que eu tinha membros novamente. Era tão estranho senti-los, como se aquele corpo não fosse o meu. A luz brilhou na foice - depois de novo. As mãos soltaram, e pude ouvir os uivos mais uma vez. O Ceifador estava lutando contra alguma coisa, embora eu não conseguisse entender o conceito da batalha, exceto pelo debater insano dentro d'água. 
O uivo da Terra atingiu seu crescendo, e os gritos fizeram que a água que me rodeava se convulsionasse e se contraísse como algo vivo. O Ceifador havia o cortado? Eu estava seguro? Comecei a explorar meu novo corpo na água, mas, quando pensei que estava começando a ganhar controle, as mãos me agarraram mais uma vez. Fui para baixo, lutando em vão contra seu aperto implacável.
"Quem está aqui?" Tentei gritar contra o líquido sufocante "O que está acontecendo?"
Mas eu não conseguia mais sentir a presença do Ceifador. O calor era insuportável, mas as mãos congelantes que estavam me arrastando para o fundo era ainda pior. Fiquei ciente de uma luz abaladora no fundo do lago, e apesar de ter lutado, as mãos me arrastaram inexoravelmente para lá.
Me perdoe. Não consegui vencer ELE. Parecia vir de tão, tão longe agora. Tentaremos na próxima vez. 
A pressão - o calor - o barulho - as mãos me arrastando para a luz ofuscante. Fechei os olhos e gritei. Eu estava livre da água agora, mas continuava gritando. Eu não podia suportar olhar para a ELE - aquele que me roubara. Seja lá o que a morte era, ou não era - seja lá o que o Ceifador não conseguira derrotar. 
Então as palavras foram ditas. Palavras reais e humanas de uma boca humana real. Meus sentidos estavam tão perturbados que não faziam completo sentido para mim, mas acho algo assim:
"Parabéns! É um menino saudável!" 
A maioria das pessoas não consegue lembrar do dia de sua morte, ou o dia em que nasceram. Me lembro dos dois, e sei que são os mesmos.
 Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


26/06/2017

Depois que meu melhor amigo morreu, comecei a ter crises convulsivas

Cresci com Terrance, passando longos dias pescando com ele no lago atrás da casa do seu pai nas horas que devíamos estar na escola, fumando cigarros no celeiro enquanto conversávamos sobre a nova gostosa do colégio e, eventualmente, planejando nossa vida pós escola. Além da faculdade, na verdade. A vida militar. 
Terrance veio de uma família muito mais estável que a minha. Me ajudou a passar por momentos difíceis durante a infância, quando meu pai me batia por ter tomado mais de seis das latas de cerveja que guardava em sua geladeira mofada. Sempre consegui bloquear essas memórias, mal me lembro de quando era espancado - nem lembro da minha mãe gritando que não queria que eu tivesse nascido, ou da vez que meu tio Nate me fez participar de brincadeiras que eu não queria, lá no celeiro. Essas coisas parecem ter se apagado. Mas deixaram um impacto emocional, e Terrance - bem, Terrance me ajudou a tirá-las da cabeça do melhor jeito que pode.
Não se preocupe," sempre me dizia, "Prometo que vai melhorar."
E eu acreditei.
Então fomos para o exército juntos, Terrance e eu. Acho que aprendi mais no exército do que em todo o resto da minha vida - aprendi a como respeitar os outros e a mim mesmo. Aprendi a navegar, como transmitir mensagens codificadas e como sobreviver. 
Ficamos no exterior por um bom tempo, mais do que aqui. E um dia, dirigindo por uma estrada arenosa e colorida, com nossos pneus espalhando areia no vento, algo aconteceu. 
Uma bomba caseira. 
Todo o lado direito do nosso veículo pegou fogo. E eu me lembro claramente daquele momento, a surpresa nos olhos de Terrance enquanto um pedaço de metal atravessava seu peito vindo das costas. Com meus ouvidos zunindo, lembro de me aproximar dele, gritando que que não podia me deixar. Que ele era tudo que eu tinha. 
"Não se preocupe, cara." Me falou, a vida se esvaindo de seus olhos enquanto o sangue se espalhava ao seu redor, "Eu nunca vou te deixar. E te prometo, vai melhorar." 
E então simplesmente se foi. Assim que minha jornada acabou, voltei para casa. Mas nunca mais fui o mesmo. 
Creio que consegui bloquear sua morte, mas nunca consegui bloquear o trauma. E paguei com a saúde.
Eu não conseguia mais ver um filme. Quando havia uma cena onde a tela da televisão piscava, eu me encontrava caído em posição fetal, minha boca aberta, as memórias dos últimos minutos inexistentes. Uma vez, durante uma queda de energia, minhas luzes piscaram. Eu apaguei também, rendido pela minha terrível condição. 
Remédios não funcionavam. E com o passar do tempo, minhas crises de epilepsia se tornaram piores e mais frequentes. 
Chegou ao ponto de eu ter que ligar para um outro amigo meu do exército, Jeff, e ver se ele podia morar comigo enquanto eu me recuperava. Jeff concordou, e veio. Na primeira noite eu tive uma convulsão depois que uma lâmpada começou a piscar ao meu lado, depois explodiu. Mas Jeff cuidou de mim.
Na noite seguinte, a TV oscilou quando perdeu conexão com o satélite. Mais uma vez Jeff cuidou de mim, mas quando voltei a mim, seu rosto estava franzido, me olhando. E uma parte de mim sabia que ele tinha algo para me dizer. 
A terceira vez foi quando o farol de um carro piscou durante o trafego, Jeff estacionou no acostamento e me assistiu enquanto eu me recuperava. 
"Olha, cara," falou, com a mão no meu ombro, "Eu não sei quem está fazendo isso, ou como, mas alguém está te zoando."
"Como assim?" Resmunguei, tenso, já sabendo da resposta antes que falasse. 
"Porque, toda vez que as luzes piscam, é em código Morse. E diz: Não vai melhorar."
E eu soube que naquele momento que eu não tinha epilepsia. Ao invés disso, eu estava bloqueando algo. 
Terrance. 
Terrance e sua mensagem do além. 
Não vai melhorar. 

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24/06/2017

Charles Robert Olevsky

Se você colocar "Charles Robert Olevsky" no google, não vai achar nada. Quer dizer, provavelmente agora vai encontrar coisas relacionadas a esse texto que está lendo, mas além disso, meu nome nunca esteve antes na internet. Tenho uma vida bem monótona. Vivo a noite pelo dia. Classe-média alta. Sem família, poucos amigos. Para ser honesto, sou bem caseiro. A vida é mais fácil assim. 

Ontem à noite, em um impulso provocado pelo tédio, procurei meu nome completo no Google. Esperava encontrar o de sempre: nada. Mas não foi bem assim. Haviam milhares e milhares de novos resultados: novos artigos, páginas no Wikipédia, menções em redes sociais - até fotos. Mas não eram fotos que eu me lembrava de ter tirado. E eu parecia bem mais velho; pelo menos 20 anos. Estava cercado de homens uniformizados que carregavam armas. Em um misto de frenesi confusão e pavor, cliquei no primeiro artigo. Meu corpo gelou. 

"Charles Robert Olevsky, fundador e líder da Milicia Novo Amanhecer Branco (New White Dawn Militia, em inglês), anunciou hoje a conclusão bem-sucedida de sua campanha para eliminar a "ameaça imigrante" do sul dos Estados Unidos. Essa foi a maior campanha feita pela MNAB (NWDM, em inglês), resultando na morte de 250,000 imigrantes ou supostos imigrantes. Com o sucesso arrebatador das novas ações da MNAB e a falta de intervenções vindas do governo americano, acredita-se que Charles Robert Olevsky continuará indo do Sul até o México."

Com mãos tremulas, dei zoom em mim na foto. No meu pulso estava o relógio que sempre uso. O que meu pai me deu. Minutos se passavam enquanto eu lia mais e mais sobre as atrocidades que era acusado de cometer. Assassinatos em massa. Estupros sistemáticos como táticas de colocar terror. Tortura. Todas as vítimas eram inocentes. 

Haviam vídeos meus da época em que a MNAB começara. Vídeo propagandas. Alguém gravava enquanto eu caminhava pela rua com um rifle nas costas, intimidando e espancando qualquer um que não parecesse que pertencesse àquela área em particular. Cada vídeo me retratava praticando um tipo de violência diferente. Performava aqueles atos com uma calma absurda e falava com as vítimas como um patriarca fala com seus filhos quando está explicando o motivo de estarem apanhando. Ao passar dos vídeos, comecei a matar pessoas. Quando os familiares corriam para o corpo de seus entes queridos mortos, eu atirava neles também. 

Antes de conseguir terminar o último vídeo, minha internet caiu. Me sentia enjoado do estomago e tonto. Culpado, também. Aquele homem não podia ser eu. Quando a conexão voltou, tentei continuar o vídeo. Não funcionava. Fechei o navegador e tentei de novo. Quando digitei "Charles Robert Olevsky", não apareceu nenhum resultado. Tudo que o Google me mostrava eram pessoas que tinham ou "Charles" ou "Robert" ou "Olevsky" em seus nomes. Nada me mencionando. 


Abri o meu histórico de navegação e comecei a abrir os links que havia acessado meia hora atrás. Todos davam o famoso Error 404. Não existia nada lá. Comecei a achar que estava enlouquecendo. Mas então me lembrei as fotos de mim vestido do mesmo jeito que me visto a 30 anos. Entretanto, os vídeos foram o que me deixaram mais abalado. Nada em minhas ações ali eram quem eu sou enquanto pessoa. Olhei de relance para onde minha impressora ficava. O pacote do software que eu comprara para aprender espanhol está em cima dela. Pensei nas cenas horríveis que vira nos vídeos. Comecei a chorar. Toda vez que eu falava com alguém que eu violentava - toda vez que eu zombava enquanto sangravam na sarjeta, eu falava em perfeito espanhol. 
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23/06/2017

Creepypasta dos Fãs: O prédio

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com!]

Moro no segundo andar em um sobrado e todos os dias eu olho pela janela do meu quarto. Não é uma vista tão bonita, mas daqui de cima consigo ver parte da cidade. Se olhar à esquerda se vê casas ao longe, prédios, uma antiga igreja, veículos seguindo seus caminhos... Eu gosto mesmo é de olhar o movimento da minha rua, principalmente quando está chovendo onde as pessoas se molham mesmo usando guarda-chuva, e observo a chuva caindo e correndo pelo chão, as árvores se hidratando, os pássaros se acolhendo...

No quarteirão onde moro não há muitas casas. Do outro lado da rua há uma empresa que está fechada no momento, e, se eu olhar mais para baixo, há outra firma que faz pães, por isso há sempre um cheiro agradável quando se passa por lá. Mais em cima há algumas casas que não fazem diferença a esta história, porque olhando diretamente para frente, provavelmente há uns cinco ou mais quarteirões, me dando a vista de um prédio. Ele é um prédio antigo que tem três cores diferentes – cinza na maior parte, marrom no centro e algumas partes em vermelho.

O prédio, que eu o chamo carinhosamente de o prédio maldito, é a primeira coisa que eu olho quando vou à janela. Fico hipnotizada não pela sua beleza, pois ele não é nem de longe bonito, e nem pelas suas características. Eu fico hipnotizada pela estranha sensação e arrepios que ele me causa. Ele me observa como um predador observa sua presa, parado, quieto, a espreita, olhando cada movimento meu, mesmo quando eu não o estou vendo.

Em uma noite de lua cheia, resolvi apreciá-la na sua fase mais resplandecente. Assim que abri a janela, já de madrugada, me deparei com o prédio maldito em chamas. Ele estava completamente tomado por chamas amarelas e alaranjadas. Minha primeira reação foi de susto: meu coração acelerou, meu cérebro travou e minhas pernas bambearam. Mas essa emoção não durou muito para dar lugar à segunda reação. A reação de dúvidas e incerteza, pois reparei que não havia fumaça. Nenhum sinal de fumaça. Me questionei se havia fogo mesmo, mas as labaredas estavam ali. Como poderia não haver fumaça? Onde há fumaça, há fogo, mas quando não há fumaça existe fogo? O encarei por longos minutos para observar o movimento. Não havia movimento algum, na verdade. Eu nunca, em todos esses anos, consegui ver alguém no prédio maldito. Talvez seja porque ele está longe o suficiente para não conseguir enxergar, mas me questiono se é possível ver nenhum movimento por tanto tempo.

Ele está bem cuidado demais – apesar de aparentar ser bem antigo– para não haver moradores. Depois de perder a noção do tempo ao observar o prédio maldito, constatei que não havia fogo. No dia seguinte, assim que acordei, a primeira coisa que fiz foi me certificar que o prédio ainda estaria lá inteiro e sem evidências de que um dia já pegara fogo.  E estava. Seria uma peça pregada pela minha própria mente ou o prédio maldito querendo me enganar?

Os dias se passaram e eu continuava a minha rotina de observar o prédio. Em um dia particular, avistei o que parecia ser uma pessoa na janela. Essa pessoa me olhava fixamente e eu tinha a impressão de que ela conseguia, ao contrário de mim, infelizmente, olhar dentro dos meus olhos, apreciando a cor amarronzada deles. O prédio estava desprovido de luz, menos naquela janela específica.

Em um piscar de olhos, eu testemunhei o que eu jamais esqueceria pelo resto dos meus dias: testemunhei aquela pessoa pulando do último andar do prédio. Fixei meus olhos àquela janela que agora já estava sem iluminação. Notei que não havia ambulância, não havia ninguém para socorrer o corpo provavelmente desfalecido e estraçalhado pela força da gravidade contra o chão. Imediatamente liguei para emergência e contei o que havia presenciado. Não demorou muito para eu escutar a sirene da ambulância passando pela minha rua e indo em direção ao prédio maldito. Desci as escadas de casa, abri o portão e corri o mais rápido que pude. Eu não queria ver o corpo, mas tinha curiosidade em saber se poderia ter sobrevivido. Cheguei alguns minutos depois do SAMU e, assim como eles, estava confusa.  Não havia nenhum corpo coberto por um lençol, não havia socorristas correndo para salvar aquela pessoa e não havia pessoa. Não havia ninguém além de mim e os paramédicos. Sem saber o que estava acontecendo, olhei o prédio de perto pela primeira vez. Ele parecia mais assustador do que antes. O ar gelado acompanhava o clima sombrio daquele lugar.

E ele me chamava.

Ouvi a voz dele dentro da minha cabeça gritando meu nome. Em transe, passei pelo portão, evitei o elevador e subi as escadas, fui até o último andar. O apartamento onde havia visto um corpo caindo da janela estava com a porta aberta, a luz acessa e a janela do quarto escancarada. Não pensei em nada naquele momento, pois meu corpo foi conduzido por aquela voz e pulei do último andar do prédio maldito. 

Autor: Tayna Stampini

Revisão: Gabriela Prado





22/06/2017

A Coisa Embaixo da Paulista | Parte 4

Parte1
Parte2
Parte3

Não sei o que diabos aconteceu, mas eu estou deitado sobre a Avenida Paulista e os carros estão buzinando para que eu levante e libere o caminho. Como vim parar aqui?

Meu cérebro não consegue raciocinar direito. É como se nada fizesse sentido, nada mesmo. Talvez minha sanidade tenha finalmente acabado junto com todas as poucas esperanças que ainda tenho de ser feliz em algum lugar.

Corri para a calçada e agora posso observar o transito caótico. O que me espanta não são os carros lotando a avenida e sim quem está dirigindo os carros: ratos vestidos com ternos... Alguns até conversam no celular. Depois de tudo o que passei não posso simplesmente duvidar da minha sanidade, estou em um pesadelo real, é tudo real. Todos esses chiados ao mesmo tempo sufocam o meu cérebro, é o som mais irritante que já ouvi na vida.

Estão saindo do carro e vindo em minha direção e aos poucos uma roda está se formando ao meu redor. Me olham como se eu fosse um extraterrestre, até aqui me olham de forma estranha. Não posso aceitar que eu seja mais bizarro do que uma cidade paralela habitada por ratos. Aos poucos estão voltando para dentro dos carros e estou na calçada agora, observando tudo isso e me perguntando que lugar é esse.  Talvez aqui seja um bom lugar para recomeçar tudo, posso conseguir um emprego como entregador de queijo. É, acabei de fazer uma piada horrível tentando tirar um pouco desse foco surreal e não deu certo, ainda não tenho como saber se tudo isso é real.

Aquele barulho está voltando, dessa vez muito mais alto, e os carros estão acelerando como se estivessem fugindo e cientes da situação. Estão descontrolados e batendo seus carros uns nos outros. O caos surgiu de forma instantânea e não sei para onde correr. Esse barulho está cercando e vindo de todos os lados, mas agora tenho certeza de que não era só eu quem escutava, eles também escutam.  Tem uma coisa saindo das nuvens.

 É  gigantesca! Uma enorme bola preta está pairando sobre as nuvens, o céu escureceu e tudo o que posso ouvir é essa coisa gritar enquanto o raios surgem, mas isso não é uma nave...   (Continua)

Autor: Andrey D. Menezes. 
Revisão: Gabriela Prado. 


(Desculpem por ficar tanto tempo sem postar e ainda postar uma parte curta, mas realmente estou sem tempo, perdão.) 




21/06/2017

Eu herdei a conta do Facebook da minha irmã.

Quando minha irmã morreu, eu tomei conta da página do Facebook dela.

Isso soa meio estranho, agora que escrevi. Para falar a verdade, não acho que sou a pessoa mais adequada para acessar a conta dela. Logicamente, a honra devia ter sido de seu marido, Ted, se é que alguém devia ter acesso a ela. 
O problema é que ninguém sabe que eu consegui acessá-la. 

Ela me deu sua senha há... Jesus Cristo, mais de seis anos atrás. Tinha pedido para eu logar e ver uma coisa pelo meu PC. Não me lembro o que era, agora. São uma daquelas lembranças que pareciam tão indiferentes antigamente, mas agora são as coisas que eu mais sinto falta. Milhões de mini interações, palavras e sorrisos entre nós, e eu não lembrarei da maioria dessas coisas. 

Estou divagando. 

De qualquer forma, a senha. Cerca de uma semana depois de morrer, tentei a senha por bobagem. Achei que ela tinha trocado em algum momento desses seis anos, mas para minha surpresa consegui entrar. Sério mesmo, Annalise? Ela nunca foi muito boa com segurança digital. 
Sei que eu não devia ter entrado na conta dela. Entendo isso, juro. Mesmo que estivesse morta, é uma invasão de privacidade. Não só com ela, mas com todos os outros. Porém, eu acabara de perder uma das pessoas mais importantes da minha vida e estava de luto. Parecia certo na época. Parecia justificável. Além do mais, não é como se alguém tivesse que ficar sabendo - deixei o status do messenger como "offline", assim ninguém saberia que eu havia entrado. 

Passei muitas noites sem dormir olhando seu Facebook. Os grupos que ela participava, páginas que havia curtido, fotos que postara. Rapidamente se tornou um vício nada saudável. Não que eu ligasse para isso. Meu desespero era reencontrar uma conexão com ela - qualquer coisa. E havia tanta coisa de sua vida catalogada naquela rede social. Era o veneno perfeito. 

Para minha total vergonha, eventualmente comecei a olhar as mensagens. 

Se isso melhora um pouco as coisas (sei que não melhora), não havia nada absurdo ou terrível nas mensagens. Annalise preferia conversar pessoalmente do que online. A maioria eram coisas bem simplórias. Compartilhar fotos do seu cachorrinho com nosso primo, Sam. Compartilhar detalhes de alguma festa em um grupo de amigos. Planejando uma viagem de última hora para ver sua melhor amiga, Freida. 

Essa última me doeu um pouco. Estavam planejando se ver alguns dias depois da morte de Annalise. As mensagens que trocaram eram curtas e tentas, como se tivessem tido uma briga. Freida parecia bastante perturbada no funeral, chorando e falando que Annalise jamais a perdoaria. Deve ter sido muito difícil para ela, sua melhor amiga morrer e não conseguir se acertar por causa de uma discussão idiota. Imagina ficar com essa culpa para sempre. 

É engraçado como sempre achamos que temos tempo. No dia do acidente, eu estava na farmácia comprando sulfato ferroso para minha irmã. Sua anemia tinha voltado com tudo e seus braços estavam ficando com hematomas por qualquer coisa. Estava também meio triste naquela época, então fui nas prateleiras de doce, pensando em levar algum chocolatinho para animá-la - chocolate era sua coisa preferida, e eu sempre dava uma cesta cheia de vários tipos na páscoa - mas foi aí que recebi a ligação. 

Minha irmã. Minha bobona, desajeitada, amada irmã. Não era a primeira vez que ela caía das escadas - acontecia com frequência quando era criança. Mas dessa vez foi a última, não teve sorte. 

Dessa vez, quebrou o pescoço durante a queda. Morreu na hora. 

A memória daquele momento terrível - estar de pé na farmácia, minha boca aberta em um grito que havia morrido em algum lugar dentro do meu peito - essas lembranças passavam vividamente na minha mente enquanto eu estava ali senta, lendo a mensagem de Freida de novo e de novo e de novo.

Não era justo. Não era justo!

Eu ainda estava chorando, de frente para o computador em posição fetal quando Annalise recebeu uma nova mensagem. 

Não era algo incomum Annalise receber novas mensagens no Facebook. A maioria eram de pessoas de luto - desejando que ela não tivesse ido; desejando que tivessem tido mais tempo com ela. Não li nenhuma dessas mensagens. Para falar a verdade, parecia ser invasão demais. Além do mais, só me lembrava que ela não voltaria para casa em breve. 

Mas havia algo diferente nessa. 

Era de Ted. Antes de fechar a janela, meus olhos bateram na primeira frase. 

"Por que as coisas tinham que ser assim?"

As imagens de Ted no funeral passaram pela minha mente. Estava totalmente pálido, tremulo. Como se estivesse morrendo pelo luto. Como se não tivesse ninguém para compartilhar sua dor, mesmo que tentássemos nos aproximar. 

Ignorando a voz da minha consciência, continuei lendo. 

"Por que as coisas tinham que ser assim? 

Não tinha que acontecer dessa forma. Você não pode culpar ninguém além de você mesma, e estou com tanta, tanta raiva de você! Nós podíamos ter resolvido tudo. Podíamos ter feito funcionar. Eu te amo. Mesmo nos nossos piores momentos, você sabia disso - como não poderia? Fiz tudo por ti, DEI TUDO para você. Você foi tão ingrata.

Você sabe que eu não fiz de propósito. Só estava com tanta raiva. Faz aquilo comigo, você sabe - me deixa com raiva. E me magoou também, fazer aquilo. Você não tem ideia de como me senti péssimo nos dias seguintes. Além do mais, aquela briga quase quebrou minha mão. Você não é a única que se machucou. 

Queria que você tivesse me ouvido. Queria que não tivesse corrido. Você achou que eu não descobriria dos seus planos com Freida? Achou que estaria segura com ela? Que piada. Você SABIA que ficaria mais segura comigo. Eu só perco a cabeça as vezes - quem não perde? Você devia me amar e isso significa amar TUDO sobre mim. Ou aqueles votos de casamento eram mentira? 

É sua culpa. Sua culpa de ter deixado o celular desbloqueado para que eu lesse aquelas mensagens. Sua culpa por me magoar quando sabia que eu já estava sofrendo. Sua culpa por me deixar com tanta raiva que fiz algo para te machucar de novo. 

Você não entende? É sua culpa. E você foi punida por isso."
Enquanto eu lia as mensagens, comecei a me sentir muito mal. Vagarosamente, as coisas foram se encaixando na minha cabeça, uma imagem que fez meu queixo cair de novo. 

Não. NÃO. 

Antes que eu tivesse tempo de reagir de novo, outra mensagem entrou. 

"Que porra é essa... quem está lendo?!"

Merda. Tinha esquecido que havia clicado na mensagem, e assim ele receber uma mensagem de "lido". Em pânico, desliguei meu notebook e o afastei como se fosse tóxico. 

Demorou algumas horas para conseguir processar aquilo que li. Entender. Mas quando consegui - quando percebi o que Ted tinha feito com minha irmã - soube exatamente o que tinha que fazer. 

Tirei um print da conversa e fui até a delegacia. Era por volta das três da manhã e ficaram surpresos em me ver, claro - mas ficaram muito interessados em ver o que eu tinha em mãos. 

Começaram a procura por Ted imediatamente. Obviamente, não estava em casa. Já tinha se sumido, junto com sua carteira e documentação. Foram falar com Freida também, que contou toda a história - como estavam planejando para fugir daquele homem abusivo, escondê-la até que conseguisse finalizar o divórcio. Freida queria conversar comigo, mas me recusei. Não tinha nada para falar com ela por não ter revelado isso antes. 

A polícia acha que as chances de o encontrar são grandes - é quase certo que acabe usando seus cartões de crédito no caminho, algo que facilitará encontrá-lo. 

Mas eu, eu prefiro que não o encontrem. 

Porque, se encontrarem, ele estará sob proteção da lei. E eu decidi que a lei não é justa o suficiente, ainda mais nesses casos. Se Ted for declarado culpado - e esse é um grade SE FOR - pode no máximo receber perpétua. E uma vida toda na prisão é boa demais para aquele verme. 

A polícia começou sua procura. Eu comecei a minha. E não vou parar até encontrá-lo e fazer justiça por Annalise, pela minha família. 

Não vou parar até vê-lo sufocando em seu próprio sangue.

FONTE: Sleepyhollow_101

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


19/06/2017

Sou jurado de um caso muito estranho (FINAL)

Gente, por causa do feriado (fico sem PC pra traduzir), acho que trago a última parte sábado ou no mais tardar segunda-feira! Prometo! <3 


PARTE 1 - PARTE 2 - PARTE 3

A noite de ontem, antes da deliberação do júri, trouxe apenas uma coisa. Um pesadelo terrível. 
Estávamos todos sentados ao redor de uma mesa, discutindo os aspectos sobre o caso, as inconsistências da defesa principalmente. Parecia ser uma derrota relativa. Os jurados afetados pareciam estar bem, e não entramos na questão das estranhezas que nos assolavam. Então, algo vindo do teto caiu em nós. Olhamos todos para cima enquanto pó preto caia na mesa. Alguém bate na porta. A maçaneta é aberta por fora, e Anthony Mineo entra na sala, o amante da falecida Jessica Willis.

Ele dá uma volta envolta da mesa enquanto permanecemos sentados em silêncio. Logo cai de joelhos no chão e canta algo que não consigo lembrar o que era. Todo o teto sobre a mesa desaba, parecendo ser culpa da quantidade absurda de pó preto que estava em cima dele. Do pó surge a forma da entidade que vem nos assombrando na última semana. Fica maior do que jamais poderia imaginar, e fica em um lado da mesa, onde estão jurados afetados e não, e os envolve com sua capa. Quando recolhe seu braço, a revelação é grotesca. Todos que haviam sido cobertos pela capa são agora basicamente pilhas de pele e órgãos, seus ossos parecem ter sumido.

A entidade pula por cima da mesa e agarra a pessoa que está tentando correr em direção da porta, mas não teve a sorte de conseguir abri-la a tempo. Então amassa a mulher como se fosse uma bolinha de papel, sangue espirrando para todos os lados, e a joga para o lado como se não fosse nada. De repente o resto dos jurados, exceto eu, entram em combustão espontânea. Correm por todos os lados gritando, mas não há fumaça saindo de seus corpos. Seus restos mortais viram nada mais do que pó preto. A coisa novamente pula para cima da mesa e engatinha em minha direção (estou sentado na ponta da mesa, em choque). Vem se aproximando de mim e finalmente vejo seu rosto. É exatamente como Lisandra havia descrito. O mais puro mal. Ódio. Raiva. Todas as emoções negativas emaranhadas em um rosto retorcido. 

Ele se atira em minha direção; eu acordo. 

Foi sem dúvida nenhuma o pesadelo mais vívido que já tive. Liguei para Lisandra, que coincidentemente também tinha tido o mesmo sonho (logo depois descobrimos que todos os afetados o tiveram). Tudo isso tinha a ver com Anthony Mineo. Pouco depois, eu e os outros afetados nos encontramos em um restaurante 24h perto do tribunal (era por volta das quatro da manhã), e ficamos conversando até dar o horário do julgamento. Trinette tinha aparentemente perdido sua sanidade e perguntou para os outros jurados não afetados se em suas casas haviam sótão, a maioria disse que sim, então não fazemos ideia porque nós tínhamos sido os escolhidos. 
Era hora do julgamento, e entramos na sala de tribunal, nós seis fatigados com o que poderia potencialmente acontecer. Ambos os lados fizeram suas argumentações finais; a defesa basicamente já tinha desistido de tudo e só imploraram para que nós não o declarássemos culpado. John estava todo desgrenhado, tenho certeza que alguém naquele tribunal já tinha perguntado para ele se estava de ressaca. Tinha olheiras, e notei manchas pretas nas pontas dos dedos e nas palmas da mão. Estava pior que nós todos.  

Era finalmente o momento de nossa deliberação. Nenhum dos jurados afetados sentou nas cadeiras da ponta da mesa. Obviamente, nós seis declaramos John inocente, os outros seis declararam culpado. Então começamos com a longa explicação de tudo que havia acontecido conosco, e o motivo para aquela moça doida ter feito a pergunta se em suas casas tinha sótão. Olharam para nós como se fossemos loucos, e com direito. Ficamos sentados naquela sala por horas, tentando convencê-los que tinha algo a mais acontecendo, e para olharem além das armadilhas óbvias da defesa. Comentamos também que, seja lá o que isso fosse, também estava afetando o advogado da defesa. 

Então veio o momento de irmos até o juiz para falar que não tínhamos chegado a um acordo. Todos saímos da sala, e vimos o advogado da defesa abrindo sua pasta. Quando demos a notícia de que não tínhamos chegado a um veredito, o advogado de defesa pegou um revólver de dentro da pasta e alcançou para John Willis, que o colocou na boca e apertou o gatilho. Logo depois o advogado fez o mesmo. Um grito desumano tomou conta do tribunal. Mal tivemos tempo de reagir antes de sermos arrancados da corte e colocados de novo da sala de deliberação. 

Ficamos lá dentro pelo que pareceram horas, mas na verdade foram poucos minutos. Foi retirado de nós o poder de júri daquele caso, e nos informaram que a polícia chegaria em breve para recolher nossos depoimentos, e assim foi. Falamos o que vimos e fomos liberados. Voltei para o meu quarto de hotel, achando que aquela prova de fogo tinha chegado ao fim. Deus, como eu estava enganado. 

Abri a porta do meu quarto e estava coberto, e quero dizer absolutamente coberto, do chão ao teto, de uma parede a outra, em pó preto. Naturalmente, entrei para investigar... brincadeirinha. Eu corri de lá como se tivesse roubado alguma coisa. Fiz o que já devia ter feito no momento de saída do tribunal, reuni o grupo com ajuda de Marcus, outro jurado afetado, e decidi que tínhamos que ver qual era o lance com Anthony Mineo, sendo que ele aparecera nos nossos sonhos. 

Ele morava na divisa da cidade em uma pequena fazenda, e assim que chegamos lá, não nos sentimos bem-vindos. Haviam coisas estranhas pendurada nas árvores, gravetos em formas estranhas, fardos de feno em padrões que não consigo nem explicar. Fomos até a porta da residência e batemos. Ele abriu a porta, revelando-se vestido com uma túnica negra com capuz, com vários símbolos e formas pintados em seu rosto com maquiagem preta. Antes mesmo de podermos falar alguma coisa, ele falou. 

"Ele vive em cima, e toma conta de baixo." 

Bem, olá para você também, Sr. Mineo. Fizemos várias perguntas para ele, sobre o que estava acontecendo conosco, sobre o que aconteceu com a família de John, e porque John e seu advogado tinham se matado. Surpreendentemente, respondeu nossas perguntas relativamente sem problema algum.

O que aconteceu com a família Willis

Anthony começou a ficar farto depois de dois anos como amante da esposa de John Willis. Anos antes, ele havia morado em Nova Orleans e se tornou um praticante de 
Hoodoo. Decidiu de livrar de John usando um feitiço para invocar uma entidade que o mataria. Mas o plano foi um tiro no próprio pé. A entidade se apaixonou por John e não queria nada mais do que o consumir e fazê-lo só seu. Aparentemente, John recusou os encantos da entidade, e como punição, matou sua esposa e sua irmã. 


Por que só nós seis fomos afetados entre os jurados?
De acordo com Anthony, essa entidade se alimenta de crenças. É bem simples, na verdade. Quanto mais a pessoa acredita e teme a entidade (que na verdade tem um nome, mas nem em mil anos eu conseguiria pronunciar corretamente, muito menos escrever), mais poderosa ela fica. Aumenta as fraquezas da pessoa afetada, deixa-as basicamente loucas, e depois leva a alma e a sanidade do afetado para o inferno de onde veio, aparentemente é lá que vive com seus eternos escravos. O motivo para termos sido afetados, é que nos víamos como vítimas. Os outros jurados não foram afetados basicamente por não acreditarem no paranormal. 

Eu achava que não acreditava nessas coisas, mas aparentemente acredito. E pelo visto, acredito ao ponto de estar dando poder para essa coisa. Ele pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, e sempre se abriga em lugares onde possa estar sobre a pessoa que quer afetar. Se a pessoa não tem sótão, ficaria no forro do telhado da casa. Se você mora em um prédio, se abrigaria no apartamento do andar de cima, não deixando vestígios da sua presenta, a não ser pelo pó preto. 

Resumidamente, quanto mais você se envolve, mais poderoso ele fica. 
 

Por que John e seu advogado cometeram suicídio?

A resposta de Anthony para essa foi bem direta. Se mataram porque perceberam que essa assombração continuaria pelo resto de suas vidas, e solucionaram o problema da única forma que conheciam. Faz bastante sentido, se você me perguntar. 
O que podemos fazer?

Claro, perguntamos para Anthony como podíamos acabar com esse feitiço. Ele nos deu uma lista de instruções, diversos temperos, sais, plantas e direções de como usá-los. Gentilmente, nos forneceu o suficiente para distribuir para os outros jurados, enquanto se desculpava profundamente, dizendo que nunca teve a intenção que tantas pessoas assim fossem feridas e afetadas. Disse que temos que seguir suas instruções à risca, ou perderíamos a batalha e seriamos arrastados para o inferno logo, logo. Sem pressão. 

Saímos de Anthony, distribuímos os ingredientes e instruções entre todos e cada um foi para o seu lado. 

Se livrando da entidade de uma vez por todas

Segui as instruções de Anthony da forma mais precisa que pude. Primeiro, eu tinha que voltar para casa e colocar sal e os temperos perto de todas as entradas/saídas da minha casa (portas, janelas, etc.). Não manter a entidade fora, mas dentro, pois é onde já estava. Aparentemente ele gosta de ficar te caçando quando você está cansado e, de acordo com Anthony, ele só pode arrastar alguém para o inferno precisamente às 22:28 (não me pergunte o motivo disso, eu não sou o maior entusiasta sobre magia e entidades aqui). 

Depois, peguei as várias ervas que Anthony me dera e esmaguei-as o melhor que pude. Coloquei-as dentro de um círculo no meio da minha sala de estar. Daí, peguei um monte do pó preto, que Anthony me dera em uma sacolinha, e coloquei em cima das ervas para disfarçá-las do melhor jeito possível. A razão para isso é que, quando volte para o inferno, faça isso através de um portal feito com seu pó. Eu concordaria em ir com ele, e quando ele entrasse no "portal", ele ficaria preso no círculo de ervas, o qual não consegue sair de dentro de novo (Anthony explicou que a entidade pode atravessar para entrar, mas não para sair). 

Esperei até às 22:20. Nesse momento, comecei a chamar pela entidade, dizendo que tinha desistido, que queria ir para o inferno com ele. Foi só as 22:24 que ouvi as escadas do sótão caindo, e logo ouvi o barulho característico da coisa deslizando pelo corredor. Entrou na sala e ficou de frente para mim e, não vou mentir, mijei um pouco nas calças. Eu nunca tinha olhado de frente para ele. 

O corpo por debaixo da capa era duro e miúdo, sua pele escamosa de uma coloração verde escura. Já descrevi seu rosto antes. Tinha mais de dois metros de altura, tendo que se abaixar por de baixo do batente da porta para entrar no cômodo. 

Novamente falei que tinha desistido e queria me juntar a ele no inferno, se me guiasse o caminho. Andou em minha direção, e fiquei parado onde estava. Pairou sobre mim, sendo mais intimidador do que já era, soltando sua respiração quente e pútrida em mim. Quase vomitei quando senti o cheiro. Pó preto caia de seus ombros em mim. 

Contei que havia construído um portal para isso e, mais uma vez, disse que queria ir para o inferno para toda a eternidade, ele só precisava me mostrar o caminho. Ficou me encarando por alguns segundos e depois se virou para o círculo que eu havia feito. Apreensivamente foi em direção do portal, inspecionando-o, olhando para mim a cada poucos segundos para ver o que eu estava fazendo. Eventualmente, ficou do lado de fora do círculo e me convidou para entrar, gesticulando com o braço. 

Pensando rápido, respondo "Sou seu servo, jamais andarei na sua frente." A coisa ficou parada por um momento, dando uma risada debochada, e entrou no círculo. Rapidamente subi em cima do sofá, pegando as folhas que Anthony tinha me dado e eu havia escondido atrás de uma almofada. Eu precisava recitar algumas palavras para banir aquela criatura para sempre da minha casa. Então, dei o meu melhor para recitar o que lia: 

”. Ti o ba ti ẹmí deruba mi ni ibi yi, Ja Omi nipa Omi ati Ina nipa ina, banish ọkàn wọn sinu nothingness ki o si yọ wọn agbara titi ti o kẹhin kakiri Jẹ ki awọn wọnyi buburu eeyan sá Nipasẹ akoko ati aaye kun. ”
De repente, ouço o mesmo grito desumano que havia ouvido no tribunal, e o círculo no chão foi tomado por chamas. A entidade então ficou me olhando sem ter olhos, e lentamente foi caindo nas labaredas. Quando ficou totalmente tapado pelo fogo, ele se apagou, e tudo que sobrou foi uma pilha de pó preto. 

Não preciso nem dizer que não conseguia acreditar em meus próprios olhos. Anthony falou que, se um dia eu me mudar, preciso realizar o mesmo feitiço na nova casa para ter certeza que ele não voltaria. Só para ter certeza, eu não vou me mudar. Nunca. Bem simples. 

Liguei para os outros, mas só tive resposta de dois (até agora). Marcus e Lisandra disseram que o feitiço ocorrera da exata mesma forma que o meu, e os dois já se sentiam seguros. Não sei bem o que aconteceu com os outros jurados afetados, mas espero que estejam bem. Irei fazer uma atualização quando souber mais deles. 

Não sei se esse era o fim que vocês estavam aguardando, ou esperando, mas isso é o fim de todas as coisas que aconteceram comigo. Não sei se já me sinto seguro, acho que o tempo dirá. Obrigado por todo o apoio e conselhos. 

Nick

ATUALIZAÇÃO:

Recebi uma ligação alguns dias depois. Os outros três jurados que não consegui contato após o ritual estão de fato mortos. Não sei os detalhes, mas ouvi por outras pessoas que faleceram. Tem toda uma investigação acontecendo por coisas estranhas que foram encontradas nas casas dos falecidos, os sais, temperos, ervas e claro, o pó preto. Alguém falou que estão achando ser suicídio ritualístico. Nós sabemos que esse não é o caso. Me sinto péssimo por saber que várias pessoas tiveram que morrer por causa de um caso amoroso. Fiquem todos bem. Fiquem seguros. 


 ***
FIM

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

FONTE: NICKBOTIC