21/10/2017

INFESTATIO

PARTE - I
PARTE - II
PARTE - III
PARTE IV & V
PARTE - VI
PARTE - VII

FINAL - VOL.I




Sara juntamente com outros membros da Contritio traçaram duas diferentes estratégias de investida, a primeira envolvia um ataque a própria Infestatio, após estudarem as plantas da fábrica e como proceder uma vez que atingissem o perímetro, as rotas das quais utilizariam para chegar e sair. Esse era o trabalho do Time Alpha que contava com o Capitão Lahey(Carinhosamente chamado de Capitão Ressaca ),Chumbo, Frank, o piloto Cruz e Ramirez.

 Também analisaram o mapa detalhado dos esgotos, levantaram novamente a questão em relação a uma área específica que parecia ser uma câmara, ninho ou algo parecido, sentiam que aquilo seria parte essencial para derrubar a ascensão de Kaba. Trabalho dedicado ao Time Bravo liderado pela Capitã Marreta, Marta, Veronica, Cristie e Alan.

Antes de saírem, tomaram uma injeção da qual não souberam muitos detalhes, que causou efeito imediato, sentiram-se mais fortes e algo do qual haviam a muito esquecido a GULA.

Realizaram um banquete invejável, naquele dia comeram mais do que nas últimas três semanas, estavam revigorados, satisfeitos, cheios de energia e sentindo-se capazes de qualquer coisa.
O sol raiava impiedosamente, 37 graus centígrados com uma "agradável" sensação de 40, era um tremendo castigo para eles que faziam uso de trajes protetivos  e revestidos por mais e mais camadas.

Cruz estacionou o caminhão e aguardava pelos passageiros, usaram um caminhão "disfarçado" em ambas laterais contava com um gigantesco anúncio em roxo claro " AQUA CURE- FUJA RUMO AO ÊXTASE - JÁ NAS LOJAS" Não que fizesse alguma diferença, não haveria quem os fiscalizasse, não haveria nada... O transporte poderia ser transparente que nada mudaria.

Cruz dirigiu quase que até o limite de municípios para deixar os membros do time Bravo, utilizariam o trajeto menos elaborado e "esquecido" de toda a rede de esgotos, que desembocaria próximo do local do qual gostariam de atingir. Fora um local que não apresentou nenhum tipo de manutenção nos últimos 7 anos, julgaram que era provavelmente a melhor opção.

- Hey meninas, sei que é dispensável dizer porque vocês são fodonas, mas... Se cuidem! Fiquem bem, acredito em vocês.- Disse em tom de despedida.

- Você também Cruz, vocês todos! Esteja aqui para nos buscar mais tarde e poder cozinhar algo legal para comemorarmos. - Respondeu Veronica.

- O que vocês quiserem, da maneira que desejarem, é uma promessa. - Deixando o local vagarosamente.

Marta cochichou: - Mal posso esperar, já estou com fome outra vez, ele é um ótimo cozinheiro! Vou pensar em algo bem trabalhoso pra ele preparar hahaha.

Acenou para elas através do retrovisor, com um largo sorriso e nunca mais voltaram a se ver.

- Ok pessoal, mantenham sempre a formação, todos são indispensáveis e necessários para a missão, MANTENHAM a formação, ela é essencial para o nosso sucesso, organização e prontidão. - Disse Marreta em um tom firme e severo.

A pequena Cristie completou: - Um único momento de hesitação, uma titubeada, uma leve distração pode levar seu companheiro a morte, mantenham isso em mente.

Para dar uma aliviada nas palavras Alan também se pronunciou: - O que Cristie quis dizer é que nenhum de nós aqui é egoísta, já que estamos arriscando nossas vidas para o bem de todos, é claro que em nenhum de nós impera o individualismo, se aqui nos encontramos é porque nos importamos com toda a humanidade, não será difícil tomar as decisões necessárias em prol do grupo.

Em certo ponto as duas novatas se sentiram seguras e seguiram em fila indiana pelo grande túnel de entrada em direção ao subsolo da cidade.

O odor era forte como esperado, demorou um bom tempo para chegarem perto de um sinônimo para: "nos acostumamos com o cheiro de diarreia líquida brutal e mijo concentrado". Em relação a temperatura, impossível que se ambientassem, vertia suor em bicas de todos eles, o ar era quente e pesado, atrapalhava o raciocínio, locomoção e até mesmo a própria respiração que se tornou muito pesada.

O caminho era tranquilo, criando demasiadas suspeitas e expectativas no grupo.

Desceram por uma escada de ferro, eram simplesmente diversas vigas enferrujadas e tortas, fixadas no concreto poroso. Quando o caminho começou a ficar estreito se depararam com uma porta de ferro alaranjada que bloqueava o caminho. Marreta levantou o dedo indicador e o do meio unidos, sinalizando que era para pararem e ao mesmo tempo ficarem quietos.

Puderam ouvir um certo farfalhar atrás dela.

Marreta utilizou a mão que não segurava a Luger destravada para empurrar abaixo a maçaneta, rangendo de maneira estridente e insuportável a fresta da porta passou a se revelar, parou o movimento para se focar no som que cessara surpreendentemente. Virou o rosto com ar de dúvida para seus companheiros e antes de indicar que iria abrir de uma única vez fora puxada de maneira violenta para frente, escancarando a entrada e revelando o horror.

Com uma pata ainda na porta, a Aranha gigantesca arrastou a mulher bem debaixo dela, devia ter facilmente 1 metro e 40, 1 metro e 50. Seus oito olhos tinham o tamanho de uma bola de tênis cada um, suas quelíceras pareciam foices afiadas. Ela estava furiosa, as outras sete batiam no solo tentando perfurar o corpo da sua vítima. Baratas do tamanho de águias voavam em torno e estavam prestes a atacar.

A perplexidade quase tomou conta dos soldados, se não fosse por Veronica romper o inicio do iminente transe do qual se entregariam. Última do grupo, postada de joelhos e com o Rifle Enfield devidamente empunhado começou a abater os insetos gigantes que explodiam a cada tiro disparado, jorrando líquidos viscosos por todos os lados que exalavam cheiro nauseante. Marreta debaixo do pesadelo aracnídeo rolava de um lado para o outro fazendo acrobacias no chão sujo desviando dos ataques mortais da criatura, preocupava-se em se manter inteira, ignorando a Luger caída entre seus joelhos.

Alan berrou: - VERONICA, ACERTA A ARANHA, A ARANHA! - Sua .12, Pump Taurus focava então nas gigantescas baratas causando dando em uma área considerável, atirando no coração do enxame para diminuir sua força e abrangência.

Antes de recarregar Veronica acertou em cheio a cabeça da aranha duas vezes fazendo com que ela recuasse um pouco e rugisse assustadoramente. Cristie disparava a esmo sua HK G3, feriu a criatura maior e a si mesma no tornozelo esquerdo com um dos projéteis que ricocheteou no túnel cilíndrico.

Marreta teve tempo de reaver sua arma e disparar a queima roupa contra o abdômen do monstro, apertou o gatilho por volta de nove vezes antes de entender que já havia esvaziado o pente. Uma das inteligentes baratas conseguiu se esquivar das rajadas e investiu contra quem causava mais dano.

Ela "abraçou" Alan e arrancou grande parte do seu bíceps esquerdo tornando o braço musculoso do guerrilheiro em um volume inútil. Caiu no chão aos berros devido a dor excruciante, quanto mais se debatia, mais sentia os dentes afundarem em si,com a mão direita agarrou a pata dianteira da barata que devia pesar uns 19 kilos ao todo trazendo a cabeça dela mais perto de seu rosto.

 A fúria era incontrolável, não por si própria mas sim devido ao instinto de sobrevivência que havia se apoderado dele.

- POOOOORRA! AAAAH! Desferiu dentadas e mais dentadas na cabeça do predador sentindo uma pasta quente de gosto químico escorrer em sua boca, engolindo parte daquilo, ela conseguiu se soltar de seu agarre e chiou em direção ao teto. Aproveitou o momento em que foi obrigada a abaixar a guarda para quebrar e arrancar a pata afiada da criatura, com uma estocada atravessou seu crânio.

Cristie fora socorrer o colega ferido.

Marreta estava empurrando o corpo inerte que jazia em cima dela para sair debaixo da criatura quando sentiu o solo tremer... Algo vinha de longe.

Se pôs de pé e avisou, com fogo nos olhos : - ALGO ESTÁ VINDO AÍ, SE PREPAREM.

Marta colocou a mão em uma das paredes do túnel e sentiu a vibração ameaçadora e reforçou o aviso de sua Capitã - TODO MUNDO DE PÉ, VAI, VAI, VAI.

Segundo o mapa que possuíam, em trezentos, quatrocentos metros deveriam tomar o lado esquerdo de uma bifurcação, se tivessem tempo o suficiente, seja lá o que estivesse vindo de encontro a eles estaria bem atrás para persegui-los na tomada do caminho, isso se conseguissem chegar antes e não deparassem com o empecilho justamente na entrada.

Cristie mancava devido ao ferimento no tornozelo, Alan lutava para seguir consciente após perder uma quantidade considerável de sangue.

Corriam e corriam sem parar, sem se entregar. Marreta gritava para incentivar sua pequena tropa, de certa maneira surtia efeito, nenhum deles ali queria decepcionar uns aos outros.

Ofegante e sem diminuir o ritmo virou para amiga: - Desculpe Veronica, eu travei, não fiz absolutamente nada.- Pesarosamente lamentou Marta.

- Eu sei, mas entendo! Você vai compensar, precisamos de você, fique firme, estou feliz de que esteja bem.- Respondeu com um sorriso.

Enquanto avançavam pela tubulação escura, iluminada somente pelos neons que traziam junto ao corpo podiam sentir a estrutura que ocupavam balançar cada vez mais. Não tinham ideia do que iriam enfrentar, pareciam ter ultrapassado o que quer que seja, não estavam mais indo de encontro mas sim os tinham quase em seu encalço, talvez 1 minuto ou 2 a frente daquilo. Cristie achava que o túnel estava se enchendo de água e que morreriam afogados, mas não compartilhou o pensamento. 

Veronica achava que um enorme crocodilo surgiria a qualquer instante para os engolir vivos.

Quando Alan começou a ficar para trás, Marta juntou-se a ele ajudando nas passadas, não deixando que o companheiro desistisse, ele passou o braço bom em sua cintura e tentou acompanhar o ritmo. O tremor crescia, crescia e crescia, perderam campo e foram finalmente alcançados...

Marta olhou para trás e gritou: AÍ VEM!

Centenas de pontos vermelhos estavam aglomerados e pararam de repente, juntamente com o grupo de resistentes.

Ratos robustos e nervosos ocupavam todo o túnel, possuíam uma malícia que só podia ser encontrada nos seres humanos, apenas um estava mais a frente dos demais e os encarava com um ar sábio, todo cheio de si. O fim deles era eminente, poderiam ser devorados, pisoteados, esmagados, asfixiados... Havia inúmeras possibilidades de serem vencidos, mas nenhuma de vencer.

Ao perceber o movimento brusco, Caput avançou em direção a eles e desviou das balas provindas da Glock de Marta sumindo na escuridão, enquanto toda aquela massa se preparava para atacar.

De maneira firme e corajosa, Alan desfez a torniquete deixando o sangue fluir, molhou os dedos da mão direita até encharcá-los e como um maestro, regeu toda uma orquestra faminta espalhando seu sangue no ar.

SHHHHWEEEEE. Respondeu o grupo inquieto. Que só não havia avançado por falta de ordens do líder.

- Venham seus filhos de uma puta, venham me comer. Com o ombro do braço ruim empurrou Marta, mostrando a ela que possuía em sua outra mão uma granada sem o pino.

Ela não foi rápida o suficiente para perceber que fora surrupiada, mas fora rápida o bastante para saber que não havia como argumentar ou fazer com que o mesmo mudasse de ideia, sua expressão desesperada serviu de alerta para os demais que correram se afastando o máximo que podiam. O estrondo da explosão os ensurdeceu, juntamente com o barulho dos detritos que indicavam o desmoronamento de parte do túnel.

Um companheiro havia se sacrificado para que pudessem avançar, já que uma vez  com a saída obstruída não tinham a opção de voltar...







19/10/2017

Snatchers

Tenho certeza que todos já perderam algum objeto que nunca pensaram que perderiam. De coisas pequenas como meias ou outra peça de roupa, à algo mais importante como o controle da TV, celulares ou carteiras. 

Você pode procurar de cima a baixo por essas coisas e nunca encontra-las. Não se irrite, isso é uma coisa boa, elas foram pegas por criaturas que sempre as conheci como Snatchers. 

Os Snatchers são pequenas criaturas invisíveis que se escondem nas sombras para observar. O que eles observam? O futuro. 

Essas criaturinhas possuem uma habilidade única de ver o futuro mais próximo de qualquer ser vivo. 

Pode ser o de um cão, um gato ou mesmo um rato. Porém, o seres que eles mais gostam de observar, são os humanos. 

Snatchers sempre foram intrigados pelos objetos humanos. De celulares a meias, eles nos observam usar esses itens e desejam para si. No entanto, eles possuem um código de ética mais forte que o nosso. Eles se recusam a pegar nossos objetos sem nos entregar algo em troca... 

Nossas vidas. 

Como os Snatchers podem ver o futuro, determinaram que se nos salvarem dos perigos que somente eles podem ver, poderiam por direito pegar um dos nossos objetos como pagamento. 

Então na próxima vez que você perder uma meia, sua camisa favorita, ou mesmo o seu celular, não se preocupe, você apenas foi salvo. 

Mas, um dia você reencontrar suas coisas... 

Já pode se preocupar.


18/10/2017

Eu te disse para sorrir

Era 3 de janeiro, 2:04 da manhã. Eu acordei com uma batida na porta. Uma batida a cada 3 secundos. Coloquei os chinelos e desci as escadas. Enquanto eu caminhava, a batida na porta ficava mais rápida, quase como um batimento cardíaco. Quando eu cheguei na porta, a batida parou, eu olhei lá fora e não tinha ninguém.

Voltei para o meu quarto e fui para a cama, pensando ser apenas algumas crianças pregando uma peça. às 4:21 da manhã eu acordei com a porta da frente fechando. Pulei, aterrorizado. Olhei para a janela e encontrei "sorria" escrito por todo o vidro. Peguei meu celular ao meu lado, pronto para ligar para o 190, apenas para encontrar uma mensagem dizendo "eu te disse para sorrir". Chorei e corri pela minha vida, para fora de casa.

Assim que cheguei lá fora, bati na casa da vizinha em frente à estrada. Eles responderam e me seguraram enquanto eu soluçava, em prantos. Eles telefonaram para a polícia. Às 5:42 exatamente, a polícia veio à casa dos meus vizinhos após uma busca extensa na minha casa. Eles disseram não haver nenhuma evidência de ninguém na minha casa além de mim. As mensagens na janela haviam desaparecido, o mesmo com meu celular. Eles me disseram para dormir e me aconselharam a ver o doutor sobre estresse e problemas de ansiedade. Que se foda. Eu sabia que o que havia acontecido comigo era real.

Na noite seguinte, após passar o dia na casa dos meu vizinhos, eu fui para casa. Subi ao meu quarto e montei uma câmera. Estava apontada para a porta do meu quarto e minha cama. Iniciei a gravação e fui dormir. Felizmente dormi a noite inteira. No entanto, quando assisti a filmagem, não consegui acreditar no que vi.

Às 3 da manhã, algo rastejou para fora da minha cama. Era um homem anoréxico, completamente nu. Ele se levantou e me olhou na cama. Fez isso por mais uma hora, completamente imóvel. Então ele se moveu. Ele caminhou para a câmera até que seu rosto tomasse todo o quadro. Estava extremamente pálido e tinha veias sobressalentes em toda a cabeça. Seus olhos eram completamente negros, com um enorme sorriso no rosto. Ele olhou para a câmera por mais duas horas, sem piscar, apenas ligeiramente tremendo a cabeça de vez em quando.

Depois de duas horas olhando, ele caminhou de volta para minha cama e rastejou para baixo. Eu pulei o vídeo até ele me mostrar levantando e caminhando até a câmera. O vídeo terminou. Fiquei congelada de medo. O vídeo mostrou ele entrando, mas não saindo. O que quer que seja, ainda estava lá.




FONTE




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


17/10/2017

Meu estudante entregou a "História Viva" mais bizarra que já li


Uma das partes que mais detesto sobre ser uma professora de história de ensino médio, é a merda do trabalho "História Viva" que damos no final de todo ano escolar. As crianças têm que se sentar com seus avós e filmar, gravar ou transcrever as memórias mais antigas para transmitir posteriormente para suas futuras gerações.

Já faço isso à dezessete anos, e quando recolhi os projetos esse ano, achei que seriam tão supérfluos quanto os de todos os outros. Não era uma turma particularmente brilhante.

Então fui para casa, enchi uma taça de vinho, e me preparei para uma longa moite de "eu só tinha um par de sapatos quando tinha sua idade" e "meu irmão apanho com um jornal enrolado por jogar uma bola no quintal do vizinho". E claro, esses projetos eram salpicados com comentários inocentes de idosos, mas eram tão carregados de racismo e machismo que eu só podia rir.

Bem, tenho uma aluna nessa turma que chamarei de Olivia. Ela era gordinha, quieta e uma aluna nota 8. Esperava que seu projeto fosse tão irrelevante quanto ela mesma, e deve ser por isso que fiquei completamente perturbada com o que testemunhei naquela noite.

Olivia tinha me entregado dois CDs, então comecei com o que estava nomeado como 'entrevista'. Minha tela piscou duas vezes antes de uma imagem granulada de uma sala de estar aparecesse. O lugar era um inferno de acumulador. Olivia estava encolhida em uma poltrona agarrada em seu notebook, parecendo tão assustada quanto um bichinho indefeso. No lado oposto, havia um homem fumando um cigarro com um semblante sombrio, olhando para ela ansiosamente.

"Vá em frente," a voz de uma mulher soou por de trás da câmera. Os olhos de coruja de Olivia apontaram em direção da tela, depois de volta para o homem.

"Estou aqui com meu tio-avô Stephen," começou a falar, quase inaudível. "Ele vai contar para nós sobre suas memórias mais antigas de quando estava no exército".

Tio-avô Stephen parecia que gostaria mais estar em uma maldita trincheira do que ali naquela hora, mas esperou pacientemente pelas perguntas.

Não foi surpresa para mim que Olivia leu roboticamente as sugestões de perguntas que eu dera em aula. Ele respondia-as bruscamente. Uma ou duas vezes ouvi sua mãe sussurrar "Fale mais alto, Olivia" por trás da câmera. Uma chatice típica.

Então fiquei intrigada quando Olivia fechou se notebook e perguntou, "Você gostou de estar no exército?"

Isso era algo totalmente fora do script. Tio-avô Stephen soltou uma coluna de fumaça. "Não. Entretanto, fiquei feliz em sair da minha cidade."

"Para onde você foi?"

"Bálcãs."

"Unhum," ela falou. Duvidei que Olivia soubesse onde Bálcãs ficava, e minhas suspeitas se confirmaram quando perguntou "Bálcãs era muito diferente daqui?"

"Sim."

A mãe limpou a garganta por de trás da câmera, talvez tentando ser um pouco encorajadora para que tio-avô Stephen fosse mais específico.

Mas Olivia parecia genuinamente interessada. "Tio Stephen," falou, "qual é sua pior memória do exército?"

O velho amassou sua bituca de cigarro no cinzeiro e então lentamente se levantou da cadeira, "Já volto," resmungou. A câmera desligou.

Quando a imagem voltou, tudo era o mesmo, exceto que Tio Stephen tinha varias folhas de papel dentro de fichas plásticas em cima de sua mesinha de café. Uma, segurava em mãos.

"Eu era uma criança quando fui alistado," falou, olhando para Olivia. "Da idade do seu irmão," comentou com ela. Olivia assentiu. "Eu nunca entrei em combate. Servi em duas cidades do Leste Europeu que tinham sido destruídas por guerras civis, me sentia como um zelador, porr-"

"COF-COF!" A mãe fingiu uma tosse para censurar o palavrão.

Tio Stephen suspirou e olhou para o papel que tinha em mãos. "Minha unidade foi designada a arrumar uma escola que havia sido destruída por violência. Janelas quebradas, salas destruídas - e por alguma razão, o que mais me deixou ressentido é que estava daquele jeito faziam anos. Ninguém levantou um dedo pra arrumá-la. Eu via crianças o tempo todo por lá implorando por dinheiro ou qualquer merda-"

A câmera apontou para o chão e consegui ouvir a mãe sussurrando algo secamente para Stephen. Não consegui entender as palavras, mas não era difícil de imaginar.

"Você quer que eu conte a maldita história ou não?" Eu ouvi-o latir em resposta. "Então é melhor deixar eu contar do meu jeito."

"Mãe," Olivia chiou. "Para de interromper."

"Você vai apresentar isso para sua classe?"

"Não, mãe, só vou entregar para a professora."

"Tenho certeza que ele já deve ter ouvido a palavra merda e porra na vida," Tio Stephen contribuiu para o assunto. Eu não era um 'ele', mas de resto estava certo.

A câmera foi levantada de novo e depois alguns ajustes no foco, a cena era a mesma.

"Ah, de qualquer forma, estou falando demais," ele resmungou. Aproximou o pedaço de papel do rosto. "No porão, encontrei essa carta. não sabia o que dizia nela, mas pedi para um colega meu traduzir. Então vou ler agora. E depois vou contar o que vi no porão."

Um arrepio correu pela minha espinha. A mãe deu um zoom no rosto de Stephen e em sua carta. Suas mãos pálidas tremiam enquanto seguravam a folha. Começou a ler:

"Caro Senhor,

Eu nunca amei meu país.

Muitos desses conflitos nascem do patriotismo, uma luta de poder por lascas de um até-então império, mas eu não ligo para o nome que minha casa tem em um mapa. Essa briga é sem sentido e fico mais longe que posso dela.

Não foram estes ataques e violência desorganizada que tiraram as vidas da minha esposa e de minha criança. Foi a doença. Pela glória Divina, para o bebê foi rápido. Nadja sofreu mais. Assisti em horror, sabendo que não podia fazer nada por eles. Meu único consolo é que eu estava lá até o fim. Simplesmente parei de ir trabalhar um dia, ninguém veio à minha procura. Duvido que tenham percebido o meu sumiço. Meu trabalho ficava perto de casa, apenas atravessava um campo, inclusive até visível da minha janela. Seria fácil ir e vir para cuidar deles de hora em hora. Mas qual era o sentido disso? Tudo que eu fazia era limpar chão. Era tão inútil para o mundo quanto era para minha família.

Tentei levar Nadja para o Hospital, mas a jornada seria muito longa e cara. Trouxe-a para casa e ela morreu naquela noite.

Depois que Nadja e o bebê se foram... bem, não lembro muito. Mal saia de meu casebre, mal comia ou dormia, pensava demais em tirar minha própria vida. Mesmos sendo tentador, me sentia paralisado por minha própria insignificância.

A coisa que me mantinha são era meu rádio. Eu nunca o desligava. Mesmo não ouvindo as palavras que eram ditas - na verdade, a estação que estava sintonizado era em Inglês (acho), mas eu não conheço nenhuma palavra na língua. Mas as vozes, as músicas, e o saber que a vida ainda existia além daquela cidade violenta me sustentavam.

Não faço ideia quanto tempo havia passado até ver a luz do dia de novo. Estava tonto de fome, então encontrar comida era minha prioridade. Meu rádio veio comigo, é claro. Ele ia comigo a todos os lugares. Fala comigo quando eu durmo e quando eu acordo. Não sei o que está dizendo, mas sei que morrerá comigo.

Assim que consegui um pouco de comida e água, percebi que a única coisa a se fazer era voltar a trabalhar. Então eu o fiz. Na manhã seguinte, simplesmente voltei para a escola onde trabalhava como zelador e comecei a trabalhar de novo.

Ninguém deu muita bola. Como eu disse, Nadja estava doente fazia muito tempo, e aqueles que trabalhavam na escola sabiam disso. Fiquei grato que ninguém me apressou para voltar a trabalhar nos dias mais difíceis da minha vida. Os professores nunca conversavam muito comigo, mas trocávamos sorrisos nos corredores e esse respeito mutuo foi provavelmente o motivo para eu voltar.

O lugar estava uma muvuca sem mim, então simplesmente peguei minha vassoura e panos em meu armário e comecei a limpar. Sei que todos estavam gratos de me ter de volta. E a melhor parte é que ninguém se importava com meu rádio. Levo-o comigo para todos os lugares que vou e mantenho o volume baixo o suficiente para não atrapalhar os alunos. Nunca ninguém reclamou. Na verdade, acho que até gostam.

O prédio da escola não é muito grande, mas requer muita manutenção. O chão está sempre grudento e manchado, então passo maior parte do tempo passando pano. Crianças são bagunceiras - acredito que deve ser por isso que ainda tenho um emprego. Às vezes tenho que deslocar coisas de lugar para ter certeza que tudo está lindo e limpo, e me orgulho disso.

E os reparos! A escola sempre precisa de ajustes aqui e ali, e fico feliz em ajudar. Alguns dias estou consertando uma mesa quebrada enquanto assovio junto do rádio, outras vezes lido com coisas mais sérias, problemas de estrutura. Dias que tenho mais trabalho como esses, me sinto como uma ferramenta, uma engrenagem em uma grande máquina. Como essa escola sobreviveria sem mim? Demorou bastante, mas novamente sentia que tinha um propósito na minha vida.

Atrás da escola, tem uma despensa cheia de comidas em conserva. Ao invés de pagamento, tenho permissão de pegar toda a comida que eu precisar. Esse acordo é bom - de qualquer forma, o que eu faria com dinheiro? Antigamente costumava a levar a comida até minha casinha, mas ninguém pareceu notar quando comecei a dormir no porão. Essa escola é importante para mim e não posso deixá-la sem vigia.

Quando sou atormentado com as lembranças de minha esposa e bebê, aumento o volume do rádio para afogar tais pensamentos. Funciona todas às vezes.

Exceto hoje de manhã.

Porque, hoje de manhã, acordei com um silêncio mortal.

Freneticamente examinei o rádio para ver o que tinha acontecido. Honestamente não sei dizer exatamente a quantidade de dias que estava usando-o sem parar. Será que parou de funcionar naturalmente? Passei o dia inteiro tentando consertá-lo. Na maior parte desse tempo, estive chorando. Estou enlouquecendo sem ele.

Dei um ultimato para mim mesmo: o por-do-sol. Se não conseguir arrumá-lo até lá, irei me matar. Estou escrevendo isso, pois a luz do sol está lentamente morrendo e sei qual será meu destino.

Pensei em dar uma última caminhada pelos corredores da escola, dando tchau para alunos e professores. Sei que sentirão minha falta. Mas não consigo sair desse cômodo. Não consigo ir para lugar algum sabendo que meu rádio está aqui, morto.

Não existem mais lágrimas em mim. Parece que não consigo mais respirar. Vomitei o pouco de comida que tinha no estômago e me sinto tonto de novo, como me sentia quando Nadja morreu. Não sirvo mais para esse mundo.

Mas antes de tirar minha vida, fechei a porta desse quartinho e coloque uma cadeira em baixo da maçaneta. É o único cômodo que existe aqui nesse porão e por debaixo da porta entra um pouco de luz, o suficiente para saber o que estou fazendo. Se alguém for amável o suficiente para me procurar e ver o que aconteceu, não precisarão ter essa visão terrível. Talvez vejam que a porta está trancada, sintam o cheiro do meu corpo em decomposição e simplesmente deixem para lá.

Mas deixarei meu rádio e essa carta no lado de fora da porta. Caro senhor, se está lendo isso, tenho apenas um humilde pedido: conserte-o. Salve meu rádio. Ele não merece morrer em seu sono e estou envergonhado de não conseguir revivê-lo.

Agora estou pronto para me juntar de Nadja e da pequena Ludmila. Espero que essa escola possa encontrar outro zelador que ame e se importe, assim como eu.

A hora é agora. Não esqueça do meu rádio.

Stanislav"

Quando a mão diminuiu o zoom, Olivia tinha lágrimas nos olhos. "Obrigada por compartilhar, tio Stephen," a mãe disse, sua voz engasgada. "Acho que é o suficiente".

"Espera!" Olivia gemeu. "Ele disse que tinha mais. O que você viu?"

Antes de Tio-avô Stephen abrir a boca, a imagem foi cortada. Fiquei de boca-aberta. Era isso? O que Tio Stephen tinha visto?

Prontamente, lembrei que havia um segundo CD. Esse não tinha nada escrito, mas esperei que lá estivesse a segunda parte da entrevista.

Não havia vídeo, apenas áudio. A voz que ouvi de início era de Olivia.

"Oi, senhorita Gerrity. Peço desculpas sobre minha mãe, mas ela não deixou que eu gravasse o resto do que meu tio falou. Mas pedi que ele continuasse e gravei escondido a história pelo meu celular. Lembrei que você falou no começo do ano, que a história da guerra sempre é escrita pelo lado vencedor." Ela respirou fundo e começou a chorar. "Mas a história de todo mundo é importante, mesmo se for de pessoas tristes e patéticas e mesmo que nunca tenham ganhado nada em suas vidas. Não consegui dormir uma noite inteira desde que comecei esse projeto, mas você precisa ouvir o que meu tio me contou."

Eu também estava com lágrimas nos olhos. A sinceridade nas palavras dela era linda. Também fiquei lisonjeada que Olivia havia lembrado de uma frase que eu disparei no meio de uma aula, pois eu havia ouvido isso também a muitos anos atrás do meu professor de história de ensino médio.

Antes que eu pudesse ficar toda sentimental, o áudio começou novamente.

"Tá bom," a voz frustrada da mãe soou. "Se você quer ouvir o final da história, tudo bem, mas isso não é apropriado para um projeto escolar."

"Me deixe terminar," grunhiu Stephen. "Se é demais para você, pode ir fazer um lanche na cozinha, mas Olivia quer saber o que aconteceu."

Ouvi a mãe resmungando algo e saindo da sala. Olivia e seu tio estavam sozinhos. Imaginei-a olhando para ele cheia de expectativas.

"Então, você encontrou o rádio? Ou ele estragou quando a escolha explodiu?"

Ele grunhiu e ouvi o som reconhecível de um isqueiro sendo aceso. "Aquela carta," começou a falar lentamente, "tinha uma data nela."

"Que data?" Ela falou rapidamente, faminta pela história.

"Tinha a data de duas semanas antes de começarmos a arrumar a escola."

"Mas você não tinha dito que a escola tinha sido detonada faziam pelo menos uns dois anos?"

"Sim," respondeu tio Stephen. "Faziam dois anos."

Houve um silêncio prolongado e senti meus braços arrepiando. A imagem que veio em minha mente era demais para pode expressá-la, mas tio-avô Stephen colocou-as em palavras sem nenhum esforço. Claramente passara a vida inteira pensando naquilo.

"Esse homem, esse Stanislav, entrou em uma escola vandalizada, caindo aos pedaços para limpar sangue e tripas como se fosse pó e refrigerante derramado. Ele sorria para cadáveres nos corredores e acreditava que estavam sorrindo de volta para ele por causa de seu rádio. Ele arrastava corpos para limpar em volta. O telhado havia caído, então quando chovia devia ficar todo encharcado, mas acho que não sentia mais nada." Eu conseguia ouvir Olivia chorando bastante. "Encontrei a despensa que ele comentou sobre. Eram comidas em conserva que provavelmente tinha gosto de merda. A maior parte dos potes estavam mofados."

"Você- você viu o cadáver dele?"

"Sim. Enforcado, mas ainda parecia tão... cheio de vida. Ele não estava apodrecendo. Isso não havia acontecido faziam anos."

"Ele parecia em paz?" ela perguntou, um tom de desespero em sua voz.

"Não sei dizer. O cheiro era terrível, seu rosto estava azul e os olhos esbugalhados, tipo assim." Imaginei tio-avô Stephen demonstrando.

"E o rádio?" Olivia gemeu.

Ouvi Stephen dar uma longa tragada em seu cigarro. "É, o rádio estava lá. E ainda estava ligado."


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


16/10/2017

Foi a pior coisa que ele já viu

ATENÇÃO: ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.


Quando meu velho amigo da escola, Eric, ligou para casa, eu fiquei mais do que chocado. E pensar que ele lembrava o número. Havia trocado meu celular várias vezes desde a última vez que havia falado com ele.



"Quanto tempo, Keener", ele disse para mim.

"Você ainda se lembra do apelido também", respondi, sorrindo para o nada.

"Nunca esqueço", ele disse, rindo, "Então, vou estar na cidade esse final de semana, só no sábado, você está livre?"

"Sim cara, vai ser ótimo ver você."

"Digo o mesmo. Darren e Gazz ainda estão por aí?"

"Não, eles foram para a universidade e eu meio que perdi o contato."

"Você é bom nisso", ele disse, se referindo ao fato de não termos conversado por um longo tempo.

"Ei, é uma via de mão dupla."

"Brincadeira, nos vemos no Charlie's às sete?"

"Sim, é um dos únicos lugares que ainda tem aqui. Quando o mundo acabar, a última coisa a sumir provavelmente vai ser aquela placa."

Nós dois rimos.

"Estou ansioso para te ver."

E foi isso. Uma conversa rápida, como se não houvéssemos nos separado nem por um dia, imagina quatro anos.

É incrível como sua cidade natal muda conforme o tempo. Quando você mora nela, as mudanças são pequenas e infrequentes, é como se nunca mudasse realmente. Mas para o Eric, ia parecer tão diferente. A biblioteca do cruzamento era agora uma pilha de entulho. O posto policial era meu vizinho, vindo da extremidade da cidade. E os semáforos, eles não estavam lá antes. Mas agora eles brilhavam em fases como luzes natalinas.

Cheguei ao Charlie's. A placa de neon desafiava os anos enquanto iluminava o céu noturno. Ela zumbia e piscava, chamando a atenção dos clientes, persuadindo-os a entrar. Sabendo que dentro seria aconchegante, e teria cerveja no balcão.

Uma fumaça fedorenta me cumprimentou assim que abri a porta. A jukebox retrô dava seu máximo em tocar a música country que lhe empurraram; como um velho recitando canções que há muito esquecera. E lá estava ele, sentado em um banco de frente com o bar.

"Ei, Eric, já podemos te chamar de Doutor?"

Ele corou, "Ainda não, Mike, tem mais alguns anos até poderem."

"Bom te ver, cara", ele disse, me dando tapinhas nas costas.

Ele exalava álcool.

"Igualmente. A quanto tempo está aqui bebendo? Seu hálito parece vodka pura!"

"Eu cheguei um pouquinho mais cedo, e temos que viver o presente."

O encarei, preocupado em ter ofendido meu velho amigo. Pelo que pareceram minutos, nós permanecemos olhando um nos olhos do outro, até que Eric se rendeu, um sorriso apareceu em seu rosto.

"Tô zoando! Só porque fui para a faculdade de medicina, não significa que não tenho senso de humor."

Aliviado, eu sorri de volta.

"Deveríamos pegar uma mesa?" Eu perguntei.

"Tudo no seu tempo; deixe eu te pagar uma bebida, qual você quer?"

"Uma cerveja?"

"Bom, pelo menos seu gosto não mudou. Ei Mike, você se lembra de quando Darren bebeu todo o Miller Light do seu pai? Nós o encontramos numa piscina de vômito no porão."

"Sabe, meu pai ainda menciona isso quando descemos lá. A marca do vômito ainda aparece no concreto", eu disse rindo.

Era como se ele nunca tivesse me deixado.

Peguei minha cerveja e nos dirigimos para uma mesa.

"Então, como a Universidade te tratou?" perguntei.

"Foi bom, bom. Trabalho pesado, mas vale a pena."

"Por que você não voltou antes?"

"Uh," ele gaguejou.

"Tudo bem, você não queria se misturar com a gente, caipiras, é muito baixo para o seu nível." Respondi.

"Ah, cara, não é bem assim."

"Estou brincando, você está muito nervoso."

"Desculpa, me sinto mal sobre isso. Você sabe como é, em período letivo eu não podia, e nos feriados eu estava trabalhando."

"Trabalhando no quê?"

Eric tomou um grande gole de cerveja antes de admitir, "Estive trabalhando no necrotério da Universidade, sabe, ajudando."

"Puta merda, sério?"

"Sim, eles pagam muito bem."

"O que você fazia?"

"Tinha que lavar os corpos para a preparação dos funerais."

"Porra, não tem dinheiro que pague isso. Quanto você ganhava?"

"$50 por hora."

"$50 por hora? Ok, talvez isso pague o serviço."

"Não é fácil como você está pensando."

"Que? Pegue uma esponja, esfregue em algum velho e leve para casa um puta dinheiro?"

"Essa parte é fácil. É quando o corpo não está em perfeitas condições que você realmente começa a batalhar pelo dinheiro."

"Como assim?"

"Bom, corpos baleados são mais difíceis de limpar. Você tem que tomar cuidado para não desmanchar tudo."

"Desmanchar?"

"Sim, se alguém foi baleado no rosto, você tem que tomar cuidado em não mexer muito na cabeça. Os técnicos do necrotério fazem o melhor para reconstruir as coisas, mas não é como se colocassem chapas de metal."

"Por exemplo, se alguém morre numa batida de carro, os ossos não vão se curar. Manter o cadáver parecendo um humano é um trabalho difícil. E quando você pega um resmungão... Isso vai te assustar pra caralho."

"Um resmungão?" perguntei, tomando outro gole da minha bebida.

"Imagina, você está trabalhando até tarde. É um dia ruim; algumas vezes, eu tive seis corpos para lavar. Eles estão deitados em suas respectivas macas de ferro. Você tenta ser o mais respeitoso possível. Mas cada corpo tem a mesma incisão em formato de Y da autópsia. Algumas são piores, devido à quantidade de teste forenses e seus abusos. Você se torna distraído, já que normalmente trabalha sozinho, e de repente houve um gemido."

"Você olha ao redor para ver se tem mais alguém ali. Mas você está sozinho, a única companhia sendo a morte. O gemido se torna mais alto antes de você ver um dos corpos se sentar. Você derruba o quer que esteja em suas mãos e corre igual um desgraçado!"

"Porra cara! Eles estavam vivos?"

Eric ri com escárnio, "Não. Quando você atinge o topo das escadas e vê um zelador encerando o chão, as luzes fluorescentes do hospital te acordam. Você desce as escadas, um pouco envergonhado, e volta ao necrotério."

"Você vê o corpo que agora estende no chão, por ter caído de sua maca. Você se repreende por ter de assustando tanto. A coisa mais vergonhosa é quando você precisa procurar por ajuda para colocar o cadáver de volta no lugar."

"Uma vez, tentei mover um sozinho, e devo ter rompido os pontos, porque os intestinos se espalharam pelo chão como cobras."

"Mas então o que causa isso?", perguntei.

"Dilatação de gás. Acontece com mais frequência do que você poderia imaginar. O cheiro que deixa é horrível. Eu uso Vick Vaporub como se fosse licor de malte."

"Mudei de ideia; $50 por hora não é suficiente!" eu falei envergonhado, "Acho que precisamos de mais bebida."

Eu sinalizei para a garçonete, que se aproximou e anotou nossos pedidos.

"Minha vez", falei, estendendo minha carteira para Eric. Ele tirou uma nota vinte. "Pegue algo legal pra você, linda", ele disse para a garçonete, antes de bater na bunda dela. Ela riu. Não soube se ela estava sendo educada ou tinha curtido.

"Jesus, cara, você tem mais algumas histórias?", perguntei intrigado.

"Sim, isso aconteceu algumas vezes, mas a primeira delas foi assustadora pra porra. Quando você está lavando os corpos, usa luvas e ensaboa as coisas. Tem que levantar os braços e ter certeza de que limpou tudo. De vez em quando, a mão do cadáver vai agarrar a sua com força. Nunca fica mais fácil, sempre assusta. Você encara o corpo, procurando por algum sinal de movimento, e quando não há, você solta os dedos dele um por vez."
"Às vezes você ouve um estalo quando a pressão sobe. Os novatos sempre entram em pânico e não há nada que se possa fazer além de rir. Você tem que encontrar humor nesse trabalho, entende?"

"Puta merda, cara", falei, "você sai por alguns anos e volta um filho da puta mórbido. Então, você cheira a formaldeído o tempo todo e essas bostas?"

"Bom, os banhos são mais longos e tenho que limpar minhas narinas profundamente. Senão, o cheiro da morte dura por dias."

"Isso é loucura cara. Por que você faz?”

Ele esfregou os dedos, simbolizando dinheiro, "$50 por hora, amigo."

Terminei minha primeira bebida e comecei a nova.

"Então, o que você tem feito?" Eric perguntou.

"Nada demais, trabalhando com construções."

"Como é isso?"

"Nem metade do seu trabalho. Fico muito tempo ao ar livre. Não é ruim, pra falar a verdade. Poderia ser pior, tipo lavar o saco de algum cadáver. Mas isso é mais a sua cara."

Ele sorriu. Eu estava feliz em estar com meu amigo, com quem eu tinha passado tanto tempo da minha vida. É incrível como amigos verdadeiros podem fazer você voltar no tempo. Foi esse sentimento que me fez sentir culpa.

"Sinto muito por não ter mantido contato", falei.

"Parece que a cerveja foi direto pra sua cabeça."

"Não é isso, é que eu deveria ter mantido."

"Ei, eu também não mantive. Mas estamos aqui agora. Aproveite isso."

"Qual foi a pior coisa que já aconteceu?"

"O que, no meu trabalho?" Eric perguntou, confuso.

"Qualquer lugar, quero ficar traumatizado."

Ele ergueu sua cabeça e encarou um ponto distante. Um sorriso brincou no canto da sua boca, seus olhos foram de um lado para o outro, como se ele lembrasse de alguma coisa. Pegou sua bebida com uma mão e a levou até a boca.

"Se eu te contar, você promete nunca falar pra ninguém? Tipo, sério."

"Bom, eu não sei o que é ainda."

Ele abaixou a cerveja.

Seu tom se tornou mais baixo e sombrio, "Posso confiar em você, não posso, Mike?"

"Claro", falei, me inclinando intrigado.

"Lembre-se que eu sei onde você mora."

Me sentei ereto novamente.

"Isso é meio sinistro."

Ele riu, "Não estou brincando."

"Prometo."

Ele assentiu, como se juntando a coragem para contar esta história. Seus olhos se voltaram para mim de novo e ele começou.

"Era verão, eu tinha 16 anos. Você estava fora visitando parentes. Me lembro de como estava sozinho, então meu pai me levou para seu trabalho no posto. Como você sabe, ele era policial. Já tinha ido trabalhar com ele antes. Mas quando eu era menor, ele me colocava sentado com a secretária, e me pegava na hora de ir pra casa. Aquele dia foi diferente.

Ele me disse que eu era um homem jovem agora, e que se eu quisesse, podia ir com ele. Ele estava programando a busca por uma garota perdida da nossa escola.

"Eita porra, eu lembro disso", falei.

Eric ficou irritado com minha interrupção, "Você quer que eu conte a história ou não?"

"Foi mal, cara. Continue."

"Nós dirigimos em silêncio por algumas quadras, antes de virar uma rua para o bosque Mayberry. Enquanto nos aproximávamos do estacionamento de cascalho, puder ver vários carros estacionados. Reconheci alguma das pessoas, familiares e vizinhos. Meu pai estava feliz, disse que era uma boa ajuda. Quanto mais gente, melhor. Que cada minuto contava enquanto procurávamos por alguém vivo."

"Saímos do carro e ele começou a reunir todas as pessoas. Lhes deu instruções. Deveriam se dividir em grupos e andar em linhas retas dentro do bosque. Para cobrir a maior área possível."

"Eu fiquei no meio do aglomerado, fascinado como o jeito que todos ouviam e obedeciam meu pai. Alguém nos entregou apitos. Meu pai explicou para os usarmos quando encontrássemos algo interessante. Assim que ele terminou, todos estavam se dividindo e cuidando de seus trabalhos. Sendo um adolescente, fiquei para trás, chutando pedras, minhas mãos enfiadas nos meus bolsos. Depois de mais ou menos quinze minutos, fiquei entediado."

"Não notei quão longe eu tinha ficado do grupo. Gritei e não ouvi nada. Comecei a ficar nervoso. Eu estive naquele bosque muitas vezes antes, mas agora eu estava sozinho. Em todas as direções, haviam apenas árvores, a desorientação veio sem que eu percebesse, e não tinha nem ideia de onde eu havia vindo."

"Apressei o passo, primeiro em uma direção, depois parando e indo em outra. Me lembro de estar me sentindo doente enquanto corria e meu coração esmurrava meu peito. Passei debaixo de galhos e pulei por raízes. Antes de perceber, estava com a cara no chão. Não tinha ideia do que acontecera. Olhei para cima e as árvores giravam enquanto eu tentava meu melhor para retomar o controle. Pequenos pontos brancos dançavam na minha visão."

"Quando me virei para levantar, paralisei. Lá, olhando para trás de mim de dentro dos arbustos tinha um rosto. Um rosto pálido, quase como um fantasma. Tropecei em pânico e fiquei sobre meus joelhos. Pude ver tudo dela. Folhas cobriam a maior parte de seu corpo nu e ela estava deitada imóvel."

"Eu queria gritar, dizer que havia a encontrado. Mas não conseguia. Tudo que pode fazer foi encarar. Seus olhos brilhavam na luz do sol, como se ainda houvesse vida por trás deles. Eu nunca havia visto um cadáver antes, foi inacreditável. Ela parecia tão em paz. Me lembro de ter sorrido, pensando em como
a morte não era tão ruim. Especialmente se você pudesse ficar tão bem nela."

"Meu encanto foi quebrado quando ouvi o eco de um apito pela floresta. Não sei quanto tempo se passou até alguém me encontrar e não sei o que fiz nesse tempo. Disseram que era hora de ir, que eles a haviam encontrado."

"Porra, que pesado."

Eric não disse uma palavra, só abaixou sua bebida.

"Outra?" perguntei, chacoalhando o copo vazio em sua frente.

Ele assentiu. Chamei a garçonete de novo e decidi pedir alguns shots pra tomarmos com a cerveja.

"Não consigo acreditar que nunca me contou isso."

"Eu não terminei", ele disse, num tom sério. "Quando chegamos em casa, meu pai contou à minha mãe o quão bem eu tinha ido. Mais tarde, nos sentamos em frente a TV para assistir o jornal. Meu pai ficou radiante ao ver sua entrevista. Uma foto da garota desaparecida tomou conta da tela e o medo me dominou. Era a cor de sua pele — um marrom pálido. Eu não entendia como a pele podia perder sua cor na morte, e isso me assustou."

"Meu pai me parabenizou de novo pelo bom trabalho. Disse que eu estava pálido e perguntou se me sentia bem. Assenti e tentei esquecer a imagem do corpo branco de porcelana que tinha visto mais cedo aquele dia."

"Foi ela quem você viu?" perguntei.

"Dois dias depois, meu pai chegou em casa chateado, murmurando algo sobre negligência e suspensão para minha mãe. Eu vi na TV depois, um segundo corpo. Ela havia se arrastado pela floresta nua e colapsou na extremidades do caminho. Um guarda florestal a encontrou, mas ela morreu antes da ambulância chegar. Eu a vi, a garota pálida daquele dia no bosque. Ela estava viva e eu poderia ter ajudado. Mas não o fiz, tive medo."

"Você não sabia."

"Eu não contei isso pra ninguém antes. É como tirar um peso dos meus ombros. Obrigada. Me sinto melhor."

"Você acha que esse é o motivo de ter optado pela medicina?"

"Sabe, nunca pensei por esse lado", falou, balançando a cabeça. "Ei, você sabe o nome da garçonete?"

"Não, as mudanças aqui são frequentes. Nunca a vi antes de hoje."

"Vou pedir mais algumas cervejas, ver se consigo o número dela."

"Preciso mijar. Vou pular essa rodada.", falei, me levantando de minha cadeira.

Cambaleei um pouco, o álcool e a revelação que ouvi me deixando tonto. Fiquei na frente da urinária e pensei no meu amigo. Como ele havia carregado aquilo em segredo por tantos anos. Me fez perceber o quão pouco eu o conhecia. Mas o fato de ele ter desabafado, me fez sentir mais próximo a ele do que nunca.

Voltei para nossa mesa, para encontrar assentos vazios. Uma pequena nota de papel estava debaixo da minha cerveja. A peguei, o círculo molhado da latinha atrapalhando a leitura.

"Mike, a garçonete é corajosa. Desculpa te deixar na mão. Lembre-se, eu sei onde você mora ;)"

Havia uma nota de vinte dólares na mesa. Me afundei na cadeira para terminar minha cerveja. Eu não o conhecia, depois de tudo. Paguei nossa conta no bar e terminei a cerveja nos bancos de lá.

Algumas horas depois, caminhei até minha casa. Meus pais já dormiam. Peguei uma cerveja da geladeira e me prometi que aquela seria a última. Deitei no sofá e liguei a TV. Dormi enquanto algum comercial de ginástica passava.

Despertei cedo no outro dia. A claridade da TV machucou meus olhos e eu os desviei. Me arrestei até a cozinha e tirei uma garrafa de OJ da geladeira. Bebi o máximo que pude, tossindo em busca de ar quando terminei. A secretária eletrônica apitou. Cliquei no botão como um zumbi.

"Ei Mike, obrigada pela noite passada. Desculpe por ter saído com pressa. Bem, merda, eu fiquei com a sua carteira. Vou mandar pelo correio ou algo assim, não se preocupe, sei onde você mora. Legal te ver."

Levei as mãos aos bolsos. Porra, ela não estava lá. Procurei pela minha carteira no sofá, olhando cada fresta entre as almofadas. Ouvi o boletim policial na TV.

"Nas primeiras horas da manhã, o corpo de Daniela Smith..."

Me virei para assistir. Uma foto apareceu na tela. Eu a reconheci, mas não sabia de onde.

"Funcionária do Charlie's Bar e Grill, situado no 158. A polícia está atrás deste homem, cuja carteira de motorista foi encontrada junto ao corpo."

Me senti fraco e caí no chão. Era eu. Uma imagem da minha carteira de motorista apareceu no monitor. Eu sabia que era questão de tempo até eles virem atrás de mim. E eu sei que vai ser o pai do Eric que baterá na minha porta. Eu liguei para a Universidade hoje, e eles não ouviram de Eric. Me colocaram para falar com do necrotério. A pessoa com quem falei reconheceu minha descrição. Disseram que ele havia sido demitido por má conduta com os corpos anos atrás. Pedi por detalhes, me foram negados.

E agora eu espero. Está anoitecendo em uma pequena cidade. A polícia estará aqui logo e não acreditarão em mim.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!