Vizinhos

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Esta semana eu me mudei para uma casa nova. A casa em si é adorável, com dois andares, três quartos, dois banheiros, um quintal cercado e uma cozinha grande. A árvore no jardim da frente é alta e forte e faz um bom trabalho bloqueando as janelas da sala para a rua, a pressão da água é fabulosa, os armários são grandes, e os pisos laminados são novos. O único problema que eu tive até agora é que os meus vizinhos são bem barulhentos. Nossas casas são conectadas de um lado, então nós dividimos as paredes da sala de estar, do quarto e da cozinha. Durante todo o dia, eu posso ouvi-los mexendo em sua cozinha, assistindo filmes no último volume, falando e seu filho pequeno chorando. É um pequeno esforço, mas nada com que eu não possa conviver, suponho.

Agora, para chegar diretamente à coisa que realmente me preocupa, tudo começou quando eu estava no chuveiro esta manhã. Eu normalmente gosto de ouvir música enquanto tomo banho, mas hoje eu decidi que eu preferia apenas desfrutar do silêncio. A atividade foi bastante tranquila, até que, enquanto eu estava no meio da lavagem do meu cabelo, eu ouvi meus vizinhos falando do outro lado da parede. Eu não conseguia entender o que eles estavam dizendo, mas pareceu estranho para mim. Parecia que eles estavam murmurando algo, sussurrando e, ocasionalmente, rindo baixinho, mas eu não conseguia entender como eu podia ouvi-los se eles estavam, evidentemente, falando em voz baixa. Eu pensei que eles deveriam estar de pé absurdamente perto do lado deles da parede, para ser tão audível no meio do meu banho.

Eu não pensei muito neste incidente até que eu estava saindo para o trabalho uma hora mais tarde. Enquanto eu começava abrir a porta do carro, eu me virei de volta para casa, sentindo como se eu tivesse esquecido alguma coisa. Quando olhei para cima, na direção da janela do meu quarto, eu percebi que a casa do vizinho compartilha uma parede do lado oposto do banheiro. Do outro lado da parede do banheiro fica o meu closet.

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Traduzido daqui.

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Não Deixem Suas Beliches Perto Dos Espelhos

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Parece que aconteceu na noite passada. Talvez realmente tenha acontecido. Ou talvez isso nunca aconteceu e está tudo na minha cabeça, mas na duvida, posso perguntar ao meu padrasto e já sei o que ele irá dizer: “Aconteceu, realmente aconteceu”. Só parece... Inacreditável. Não me interpretem mal, não é algo extremamente assustador, por isso não espere muito.

Só é estranho, um pouco assustador. Tipo, aquele nível de assustador que faz com que eu me arrepie quando conto pra alguém.

Bem, eu costumava dividir um quarto com minha irmã. Ela é mais nova do que eu, diferença de 2 anos. E, pensando bem agora, me pergunto como conseguimos dividir um quarto por tanto tempo. Quer dizer, eu sei que é normal dois irmãos brigarem de vez em quando, isso não chega a ser chocante. Mas quando nós brigávamos, era de tirar sangue uma da outra.

Eu culpo minha mãe pela maioria, se não por todas as nossas brigas. A rivalidade era muito forte com a gente. Eu era a espertinha da família. Amo ler livros. Já ela, era mais ligada em qualquer outro tipo de coisa. Mas isso não impedia que nossa mãe ficasse nos comparando, tipo, constantemente.

"Shay, por que não pode ser mais parecida com sua irmã?" "Lee, por que não pode ser mais parecida como sua irmã?". Shay era muito mais organizada do que eu, que era uma pateta nesse sentido. Mas eu juro que ela só limpava tanto assim, pra que nossa mãe começasse a reclamar de mim, destacando meus defeitos.

Mas então encontramos o sentido de “irmãs” quando nossa mãe nos apresentou ao nosso novo padrasto. Ele era meio intrusivo, e parecia se forçar dentro de nossas vidas. De repente, as coisas em casa começaram a mudar.

Por exemplo, nossa mãe normalmente fazia a maioria das tarefas de casa. Ser uma mãe solteira com duas meninas de personalidades fortes não deve ter sido nada fácil para ela. Então deixar que alguém entrasse e mudasse o rumo das coisas era provavelmente uma intrusão muito bem-vinda para ela.

A coisa assustadora que aconteceu, foi quando me mudei pra fora do quarto de Shay. Nós só dormíamos juntas pra tentar parar a briga entre nós. Nossa mãe parecia pensar que nos obrigaria a conviver juntas nos colocando naquele quarto minúsculo. Então, quando as brigas finalmente começaram a parar (embora eu achava que era por causa do novo Xbox, graças ao nosso novo padrasto), ela me deixou voltar pro outro quarto de nossa casa.

Fiquei emocionada quando finalmente arrastei minha cama pra fora da beliche que nós compartilhamos. Era totalmente branca e com placas de madeira, bem simples. O pouco espaço que compartilhávamos era absolutamente dominado por ela. Não cabia mais nada, como um sofá ou coisa do tipo. Gostávamos de empurrá-lo pra mais perto do armário, para que pudéssemos sentar-nos na cama e assistir TV. Na verdade, era a nossa mãe que sugeria essa “mudança”. Reclamava que estávamos sentados muito perto da TV, que nossa visão iria sofrer por isso, etc. Então nós a empurrávamos pra mais longe, pra que mamãe parasse de encher o saco.

Agora, o armário era uma daqueles onde as portas eram cobertas por espelhos. Mamãe sempre costumava dizer-nos para não empurrar a cama muito perto deles.

Na noite que isso aconteceu, ficamos acordados jogando “Simpsons: Hit and Run” até cerca de 01:00. Então me mandaram ir pra minha cama. Pela primeira vez, eu sai do quarto, deixando minha irmã dormir sozinha lá.

Não ouvi nada sobre isso até a manhã seguinte. Eu sou uma pessoa movida a café da manhã, o que significa que eu preciso dele, ou simplesmente não funciono pelo resto do dia. Igualzinha minha irmã. Era a influência de nossa mãe novamente... Ambos estávamos comendo nossos cereais, quando meu padrasto entra na cozinha. Minha mãe estava preparando um café da manhã que estávamos famintas demais pra esperar, e por isso, estávamos devorando o cereal.

Meu padrasto deu uma olhada estranha para a minha irmã, e se juntou a mamãe na cozinha. Nós duas notamos. Eu levantei minhas sobrancelhas pra ela, e ela revirou os olhos.

"Você se lembra o que você fez na noite passada, Shay?". Parei imediatamente com minha colher na boca. Shay virou a cabeça.

"... Não". Meu padrasto sorri pra minha mãe que estava sacudindo a cabeça. Coloquei minha colher pote, confusa. O que... O que aconteceu... Por que eles estão... Não poderia adivinhar nem mesmo se ficasse pensando durante 1 semana.

"Eu me levantei para ir ao banheiro. E ouvi vozes, sussurros. Pensei que eram vocês duas conversando. Então fui até seu quarto para lhes dizer que já havia passado da hora de dormir. Mas quando abri a porta, Lee não estava lá. Tudo o que eu vi era você, Shay, deitada de barriga pra baixo na cama de baixo. Você estava apoiando a cabeça com suas mãos... Estava falando com o espelho ."

Deixei escapar uma risada e olhei para Shay. Seus olhos estavam arregalados, mas ela tinha um pequeno sorriso em seu rosto, como se ela estivesse confusa...

Meu padrasto balançou a cabeça, ainda sorrindo: "Não, estou falando sério! Foi estranho. Você estava falando com o espelho. Sussurrando. Mas eu não conseguia entender o que diabos estava dizendo. Era como uma mistura doida de línguas. Eu parei e disse: ‘Shay, o que você está fazendo?’ Porque você estava muito bem acordada. Seus olhos estavam bem abertos. Você não se lembra de nada disso?". Minha irmã apenas balançou a cabeça, olhando para mim. Meu padrasto deu uma risada e continuou.

"Você simplesmente parou e, sem se mover, virou a cabeça na minha direção e olhou direto pra mim. Eu não sabia o que dizer. Fiquei arrepiado. Então só recuei um pouco e comecei a fechar a porta novamente. Fiquei aterrorizado! E sabe o que mais você fez?".

Nesse ponto, senti que meu sorriso havia congelado no meu rosto. Tenho uma imaginação muito fértil, e eu estava vendo a coisa toda se desenrolar na minha mente. Por alguma razão, eu não conseguia olhar para a minha irmã. Ficava olhando pra minha mãe, e ela estava com um sorriso no rosto também.

"Você se virou de volta pro espelho e começou a falar de novo. Fiquei olhando pela pequena abertura que deixei com a porta. Você estava sorrindo também."

Nossa mãe interrompeu: "Viram só? Eu disse pra vocês não deixarem a cama muito perto dos espelhos. É exatamente por isso". Curiosa, perguntei: “Por quê?". Mamãe apenas se virou e voltou pra cozinha. Meu padrasto ficou olhando para a minha irmã.

"Você realmente não se lembra de nada disso?". Minha irmã apenas balançava a cabeça, mas de repente, ela parou no meio e disse: "Só me lembro de ter tido um sonho estranho na noite passada. Havia uma garotinha sentada na minha cama, mas isso é tudo o que me lembro".

Estou muito feliz por não estar mais dormindo naquele maldito quarto.

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A Luz no Céu

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Minha família tem vivido por todo o sul da Califórnia, de San Diego a Los Angeles e vice-versa. Durante alguns anos, nós vivemos fora de Los Angeles, em um vale ao norte da cidade, uma área chamada Valencia. As pessoas eram especialmente amigáveis aqui. Era uma vizinhança de classe média alta conhecida por suas escolas e valores familiares excepcionais. Esse era o tipo de lugar no qual você poderia andar de bicicleta à noite e ninguém se preocupava que nada de ruim acontecesse.
Também era um lugar conhecido por suas colinas e cânions. Havia tantas trilhas de bicicleta quanto ruas na cidade. Meus amigos e eu costumávamos explorar os cânions à noite em nossas bicicletas, apenas para ver o céu noturno e sentir a brisa fresca contra os nossos rostos.

Andávamos de bicicleta fora das estradas de nossas casas e explorávamos as grandes e intermináveis trilhas que se expandiam até os cânions e o vazio do deserto. Uma noite, meus amigos e eu fomos por uma trilha conhecida, que estava menos gasta do que as que costumávamos ir. Era tarde, por volta de onze horas, mas era verão, então nós não tínhamos horário para voltar. Como eu disse, era um lugar seguro para se viver.

Andamos fora da cidade, passando por suas luzes brilhantes até a densa escuridão. Não conseguíamos ver muita coisa, apenas a lua e o brilho fraco da cidade abaixo de nós. Fomos mais fundo no cânion, até que nos deparamos com uma luz branca imensa que atingia o céu.
Nem preciso dizer que ficamos intrigados. Parecia que alguém estava tentando chegar no espaço, como se a lanterna de um telescópio gigante estivesse indo daqui até Júpiter. Obviamente, decidimos explorar a luz misteriosa.

Fomos até a luz como se estivéssemos sendo atraídos por ela. Havia um grande espaço vazio e aberto no cânion de onde a luz saía. Meu coração batia violentamente em meu peito. Respirei fundo e olhei para a escuridão.

Assim que nos aproximamos de uma floresta cheia de pequenas árvores e arbustos, percebemos que no meio dela havia uma grande fogueira que brilhava e subia em direção ao céu, e ao lado estava a luz que brilhava rumo ao céu noturno. Nos aproximamos mais um pouco, abandonando nossas bicicletas na trilha e caminhando vagarosamente até o fogo. E foi então que ouvimos os cânticos. Era um cântico baixo e gutural que vinha do fogo. Conforme nos aproximamos, vimos que não estávamos sozinhos.

Pessoas trajando capas pretas cercavam o fogo por todos os lados. Elas cantavam em algum idioma que eu não reconhecia. Havia mais ou menos cinquenta delas. Nós estávamos perto o suficiente para ver que as capas eram mantos compridos com capuzes cobrindo seus rostos. O manto de todos era preto, com exceção de uma pessoa cujo manto era vermelho carmesim. E então vimos a garota.

Havia um grande poste no chão com uma jovem amarrada a ele. Podíamos ver a expressão de seu rosto. Ela estava morta de medo. O homem de capa vermelha segurava um grande livro de couro encadernado. Ele rondou o fogo e colocou o livro sobre um pedestal, e então pegou uma faca comprida. Ele andou em direção à garota, a faca brilhando sob a luz do fogo.

Neste momento, meu amigo deu um passo à frente, colocando todo o seu peso sobre um galho seco da árvore. Ele se quebrou como uma fina taça de vidro. Imediatamente, as figuras encapuzadas se viraram em nossa direção. Sem hesitar, eles começaram a correr. Não esperamos para ver o que aconteceria. Pegamos nossas bicicletas e corremos sem olhar para trás. O cântico aumentou em nossos ouvidos - eles estavam se aproximando.

Pulamos em nossas bicicletas e voltamos correndo pelo mesmo caminho que havíamos ido. Olhei para trás para dar uma última olhada,  e tudo o que vi foi uma multidão de figuras encapuzadas em pé à beira da floresta. Eles nos observaram ir embora.

Meu pai arranjou outro emprego alguns meses depois e nos mudamos do vale. Entretanto, o que vi naquela noite nunca ficou para trás. Porque eles estavam lá? Porque havia uma garota amarrada em frente ao fogo? Havia milhares de perguntas não respondidas, do tipo que te faz ficar acordado à noite.

A coisa mais perturbadora, contudo, aconteceu cerca de um mês depois de nos mudarmos. Um dia, em nossa nova casa, eu acidentalmente encontrei uma caixa em nosso sótão. Eu estava procurando por alguns de meus livros que desapareceram na mudança quando bati minha cabeça em uma viga. Uma enorme caixa comprida caiu em cima de mim.

Sentei-me, abri a caixa e tirei alguns itens peculiares, coisas que nunca havia visto. Havia um colar de pentagrama e um pequeno jornal preto com a parte da frente repleta de anotações. Havia também uma foto minha e de meus amigos de nossa antiga vizinhança em nossas bicicletas.

Peguei os itens e coloquei-os no chão perto de mim. E então, eu vi. Na parte inferior da caixa estava uma grande mala de roupas, como as que você pega na Laundromat¹.

Abri a mala. Dentro dela havia uma longa e preta capa com capuz. As iniciais de meu pai estavam gravadas bem na frente.

Crédito: Stephen Pate


¹. Lavanderia conhecida nos Estados Unidos cuja franquia é internacional

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Túneis

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Antes que eu comece, existem duas informações que você deve considerar:

Você já percebeu que assim que um espelho reflete em outro espelho, depois daquela imagem se repetir várias e várias vezes, tudo começa a se tornar uma grande e infinita escuridão? O espelho pode até estar quebrado, não importa.  A luz vai sempre desaparecer e apenas um eterno túnel escuro irá ficar ali. Não é uma boa ideia criar esses túneis, mas pra quem é curioso – e eu sei que você é – eles podem ser interessantes.

Outra coisa, sim, a sua sósia vive do outro lado do espelho. A parte boa é que eles são inofensivos e não fazem a menor ideia que você existe. Por que eles questionariam suas intenções quando eles não têm nenhuma? Eles vivem com a mesma quantidade de paz que você se permite ter.

Não importa a hora, o dia e o lugar, mas quanto mais escuro for, melhor. É bom também verificar a hora exata que você começar por razões que explicarei depois; você deve ter dois espelhos, um de frente para o outro com pelo menos um metro de distância entre eles. Pare no meio e não faça um som sequer. Na verdade, se for possível, ao conseguir a localização, evite lugares com barulhos externos, esse é um detalhe muito importante, pois eles se assustam facilmente... Especialmente no começo.

Você deve observar seu próprio reflexo no espelho que você escolher.

Conte quantos reflexos você puder até que você possa ver a escuridão aparecendo, dependendo da quantidade de luz em que você está localizado, esse passo não levará mais de 20 minutos. Sinta-se a vontade para contar na velocidade que quiser.

Assim que você começa a enxergar a escuridão, seus olhos vão capturar uma forma pálida emergindo nos túneis e depois fugindo do seu campo de visão. Isso pode ser apenas sua mente tentando te enganar no começo, mas logo você realmente poderá vê-los mais e mais nitidamente. Quando eles começarem a aparecer em intervalos menores você poderá sentir uma alteração da sua própria imagem no seu reflexo, mesmo que ao toque seu rosto ainda seja o mesmo.

Se alcançar esse ponto, saia de perto dos espelhos imediatamente, deixe o quarto – ou qualquer local que você escolheu – e feche a porta atrás de você. Eles acordaram.

Se no segundo dia você sentir a curiosidade que sentiu no primeiro, pode repetir o mesmo processo descrito acima. Deve começar no mesmo horário do dia anterior, esse é o motivo pelo qual você deveria ter gravado a hora exata. Aquelas coisas que você viu por apenas alguns momentos podem aparecer mais rapidamente caso tenham confiado em você, seu reflexo pode aparecer um pouco tremulo, mas é apenas um truque da mente, nada que você deva se preocupar.

Assim que você terminar de contar o máximo de reflexos que conseguir, pisque apenas uma vez para recuperar o foco e não feche os olhos novamente – não é como se você pudesse mesmo se quisesse –.

Você vai notar que eles começam a aparecer não só nos reflexos mais distantes como nos mais próximos também, mas você não sabe dizer se eles tem rosto ou feições que lembram humanos.

Não deixe sua curiosidade te cegar, procurar por semelhanças humanas em algum deles é inútil, mesmo sabendo que você vai continuar tentando entendê-los.


Se eles aparecerem com menos de seis reflexos distantes do seu, eles se tornaram finalmente confortáveis com sua presença e você, com a deles. Eles se tornaram bonitos demais para serem ignorados; você ficou concentrado demais para notar seu próprio reflexo te avisando, apontando e te mostrando a coisa que tentava desesperadamente te alcançar no espelho atrás de você. 

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Finalmente Acordado - Parte 2

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Perdeu a primeira parte? Clique aqui

O médico aproveitava sua xícara de café na sala quando a enfermeira cutucou-o e pediu que fosse ajudá-la na emergência imediatamente. O homem podia ver o pânico nos olhos daquela mulher, então decidiu que não devia perguntar nada, apenas segui-la. Sete anos na ala de traumas do hospital o ensinaram que haviam horas em que podia-se fazer perguntas e outras onde só se escutava e corria. Deixou o café no balcão, perto do jornal do dia, e foi como uma bala atrás da enfermeira.

Quando chegou na emergência, os paramédicos chegavam com a maca no hospital. Deram uma rápida descrição da situação do paciente e tudo o que haviam feito para mantê-lo vivo. Não disseram o que acontecera com ele. Parecia que ele tinha entrado numa briga com uma máquina de moer carne e saído com vida milagrosamente. Dois plantonistas foram e ajudaram a guiar a maca em direção à Sala de Emergência 1 enquanto a enfermeira checava o que os paramédicos haviam lhe feito.

O médico começou a an
alisar a condição do paciente. A primeira coisa que percebeu foi seu olho direito. Caído. Só continuava preso ao corpo dele por algumas veias. No lugar do mesmo, havia carne viva. Ele estava todo coberto em sangue. Sua garganta, rasgada, apesar de a traqueia estar bem, só com uma fina camada de pele em cima. Ainda que estivesse vivo, o médico mal lhe podia chamar de sortudo. O resto de seu corpo estava coberto por cortes profundos e haviam, ainda, pedaços de carne e músculo pendurados. Enquanto examinava seu paciente, o médico viu algum tipo de fluido que saía do nariz do homem. Checou as orelhas e viu que tal fluido saía de lá também, portanto constatou que ocorrera algum tipo de lesão cerebral. Soube na hora que aquele homem não sobreviveria mais uma hora, e muito menos a noite toda.

Ele abriu seu olho esquerdo. "Ele ainda está consciente! Tomara que possamos estabilizá-lo até, pelo menos, acharmos seus parentes.", o médico pensou. Sabia que não podia mantê-lo vivo por muito mais, mas talvez pudesse trazer sua família, para que o semi-morto conseguisse passar um tempo perto de seus amados. É muito mais difícil relatar a morte de alguém que se ama quando não há um último contato. Sabe, dizer um "eu te amo", ou "tudo ficará bem" ou, até mesmo, "desculpa ter ficado bravo daquele jeito quando você saiu". As veias dele saltaram em seu pescoço e um pouco de sangue saiu do corte que havia lá, manchando a roupa do médico...

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Em breve parte 3.

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Fitas sobre minha amnésia

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Meus pais sempre me contaram histórias sobre a minha infância que, por algum motivo, eu nunca me lembrava. Histórias sobre como eu costumava ter um amigo imaginário chamado Bill, que supostamente vivia dentro das paredes com a sua cobra de estimação chamada Axel. De onde diabos eu inventava essas coisas eu não fazia ideia, mas aparentemente eu passava muito tempo com Bill e Axel, pois meus pais sempre falam sobre isso quando vou visita-los.

Decidi que sairia em uma pequena viagem na semana do natal de 2009. Trabalhando em Manhattan na área de negócios, conquistando muito dinheiro e subindo para a classe média alta nos últimos anos, decidi fazer uma pausa de tudo isso e passar um tempo na casa onde cresci na Pennsylvania. Lá pelo dia vinte e dois de dezembro, cheguei à casa dos meus pais onde eles imediatamente me levaram para o meu antigo quarto.

No momento em que entrei no quarto um arrepio percorreu o meu corpo, não que fosse por um sentimento estranho, sobrenatural, ou desagradável, mas um arrepio pela simples nostalgia, o que era estranho considerando que eu não me lembrava do meu quarto. Eu mal lembrava de qualquer coisa dos meus anos de infância. Apenas me lembro da minha adolescência, na época em que fui mandado para viver com a minha tia por causa do meu transtorno bipolar, o que meus pais não aguentavam mais, porém, agora que já tenho tudo sob controle, não há mais com o que se preocupar.

Tia Janice estava chegando para jantar na casa dos meus pais, então eu iria revê-la depois de quase quatro anos. Não vou mentir, eu me senti um pouco emocional, pensando sobre como mal vi meus velhos e adoráveis parentes desde que consegui o emprego em Manhattan, mas a minha vida pessoal estava indo bem, apesar da minha ‘não tão interessante’ vida amorosa. No momento eu estava me encontrando com uma garota chamada Amanda, mas já não nos víamos há algumas semanas devido a sua viagem para o funeral de um tio na Califórnia.

O jantar era um assado, feito especialmente pela minha mãe. Outra pequena coisa que de alguma forma me lembro da minha infância: a minha mãe cozinhando e dando o verdadeiro significado para o ditado “Assim como a mamãe costumava fazer”. Desejei que Amanda pudesse cozinhar assim. No jantar, a Tia Janice me contou algumas histórias hilárias sobre a minha infância e outros eventos na casa, muitos de momentos festivos e outras reuniões familiares. Infelizmente, não pude me lembrar de nada desses eventos, mas eram divertidos de se ouvir.

Depois doo jantar, Tia Janice teve que ir embora, então eu a beijei na bochecha e ela se foi. Ela ainda preservava a sua boa aparência, apesar de já estar em seus 70 anos. Eu sorri ao observa-la partindo, pois me lembrei dos meus agradáveis momentos da adolescência enquanto morava na casa dela em Pittsburgh. Agora ela morava perto dos meus pais, desde que o marido dela, meu tio George, morreu há alguns anos.

Lá pelas 23:00, meus pais foram dormir e me falaram que eu poderia ficar acordado ate quando quisesse, desde que não fizesse muito barulho. Decidi ficar no meu antigo quarto e assistir um pouco de televisão até ficar cansado, então eu fiz isso, passando pelos canais até não encontrar praticamente nada de interessante. Acabei desligando a Tv e ficando apenas a observar o meu velho quarto.

Abri o meu armário e encontrei os típicos objetos que se encontraria no armário de um garoto: bonecos, Legos, quadrinhos. O que chamou a minha atenção foi uma caixa marrom no fundo do armário, obscurecida por uma pilha de roupas infantis. Afastei algumas roupas peguei a caixa enferrujada, abrindo-a para encontrar seis fitas cassete, todas marcadas com números feitos de crayon na letra de uma criança pequena.

No fundo da caixa encontrei um pedaço de papel dobrado, retirado de um caderno. Peguei o papel e o desdobrei para encontrar, escrito também com crayon, “As Aventuras de Bill e Axel”. Reconheci o nome do meu amigo imaginário e a sua cobra de estimação. Achei aquilo muito interessante e poderia até me ajudar a lembrar de algumas coisas da minha infância. Com sorte, havia um VCR no meu quarto.

Vasculhando a caixa, peguei uma fita intitulada “#1”, e a pus no VCR. O VCR cuspiu a fita algumas vezes, mas na terceira ou quarta vez a fita finalmente entrou e começou a transmitir. Havia apenas estática por uns trinta segundos até que finalmente apareceu: um eu muito jovem no meio do mesmo quarto onde eu estava agora. O quarto estava exatamente igual. Eu estava sentado no meio do quarto, com minha cabeça apoiada em minhas mãos, encarando a parede e murmurando coisas incompreensíveis.

Pensei que eu estivesse brincando de esconde-esconde ou algo assim, então não havia estranhado de primeira. Depois de uns dois minutos comecei a me preocupar, já que a minha versão mais jovem havia começado a murmurar mais alto, porém, de maneira ainda incompreensível, quase como num idioma desconhecido. O som foi cortado completamente, a imagem começou a tremer, as cores começaram a distorcer, e eu pude ouvir um fraco sussurro vindo do vídeo.

Aumentei um pouco o volume para poder distinguir melhor o sussurro, mas de repente um chiado de fazer os ouvidos tremerem saiu do vídeo e uma forte estática tomou conta da tela. Com um salto, corri para o VCR e ejetei a fita, mas é claro que o VCR havia mastigado a fita, destruindo ela completamente. Vasculhei a caixa mais uma vez para pegar uma segunda fita, e a encontrei convenientemente bem no topo da pilha de fitas, com um “#2” escrito com crayon vermelho.

Essa fita começou como a primeira. Quando finalmente surgiu a imagem, não havia som. Parecia uma continuação da primeira, mas agora o jovem eu encarava a câmera, e a minha cabeça não estava mais apoiada em minhas mãos. Meus olhos possuíam profundos círculos negros ao seu redor, e eu parecia extremamente exausto e assustado. Os sussurros surgiram outra vez, porém mais alto e claro que antes. Pude ouvir, para meu horror, um nome ser dito no meio dos sussurros: “Patrick”. Meu nome.

A fita foi rapidamente ejetada do VCR, sozinha, largando por trás um bolo de fitas magnéticas emboladas. Não vou negar que naquele momento eu já estava quase molhando as calças. Eu já sentia que aquela casa possuía algo de anormal. Que aquelas paredes literalmente pudessem falar, e que eu havia bloqueado as minhas lembranças da infância por alguma razão. Isso também teria sido a causa da minha desordem bipolar na adolescência?

Peguei a caixa de fitas e corri para o meu carro, sem nem mesmo me despedir dos meus pais, que estavam dormindo, e dirigi para longe daquele lugar. Eu estava cansado, mas eu tinha que sair daquela casa. Dirigi para a casa da Tia Janice e contei tudo para ela, mostrando a caixa de fitas. Seu rosto sorridente logo se tornou pálido, parecendo quase assustado, e nervoso. Ela me pediu que sentasse e relaxasse. Ela se sentou ao meu lado, segurando a minha mão, e me contou a verdade por trás de tudo: as fitas eram de um teste psiquiátrico para as minhas atitudes devido a uma possessão demoníaca que ocorreu em minha infância. Um exorcismo foi efetuado, e quase resultou em minha morte, e quando o demônio deixou o meu corpo, acabei sofrendo amnesia, e foi por este motivo que fui mandado para morar com a Tia Janice.

Acabei retornando para Manhattan, e no outono seguinte me casei com a Amanda. Não convidei e nem contei para nenhum membro da minha família sobre o casamento, e não vejo meus pais ou a Tia Janice desde aquela noite de 2 de dezembro de 2009. Ainda tenho algumas fitas comigo, mas continuo muito assustado para assisti-las. Tudo o que sei é que o demônio continua espreitando pelas paredes daquela casa.

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Finalmente Acordado - Parte 1

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Dor. Aquela foi a primeira coisa que ele sentiu. Não em apenas um lugar, mas em todo o seu corpo. Tudo doía. Uma dor aguda, perfurante. Ele tentou soltar um grito, mesmo que abafado, mas tudo o que sentiu foi um vazio no lugar de suas cordas vocais. E por quê ele não conseguia abrir os olhos? Ele ouvia um milhão de vozes e um rangido metálico repetitivo. Ele se sentiu úmido, como se ele estivesse suando muito. Por quanto tempo ele estivera inconsciente? O que acontecera?

Ele conseguiu abrir o olho por alguns segundos, com muito esforço. Então percebeu: tinha mais alguém com ele no carro enquanto ele passava pela estrada que conectava o lugar onde ele nascera com a cidade. Era uma figura escura que vestia algum tipo de túnica. Ele não se lembrava do rosto daquilo. Só lembrava dos dedos pretos - não, garras! Garras longas, pontudas e pretas que tinham uma certa curvatura pra baixo, que ele via por causa da fraca luz da lua, como se elas tivessem sido polidas. E o som horrível daquilo respirando (se é que posso dizer "respirando"). Parecia que haviam milhares de besouros andando pela garganta daquela criatura enquanto o ar entrava e saía. E então, o quê mais? Escuridão. Ele não se lembrava.

Ele se esforçou o máximo que pôde, e conseguiu abrir um olho, seu olho esquerdo. Não era nem seu olho bom. Ele conseguiu olhar a sua volta, mesmo que sem muita clareza, e viu que estava cercado por rostos. Uma mulher, que aparentava não ter mais de 30 anos, com seus cabelos marrons amarrados atrás de sua cabeça olhou pra ele, em choque.

-O que aconteceu com esse homem? - Perguntou um homem que estava do lado oposto da mulher. Ele podia ver mechas cinzas no meio de seu cabelo preto. Usava óculos escuros, como os de aviador. Havia uma máscara azul em seu pescoço. Ele podia ver mais dois homens um pouco mais a frente, mas esses iam em outra direção.

Ele o ouviu aquele rangido de novo. Percebeu que estava numa cama de hospital. Olhou para o homem de óculos escuros.

-Tudo vai ficar bem. - disse. Seus olhos, entretanto, diziam o contrário.

Ele imaginou o que poderia ter acontecido com ele. "Por quê não consigo abrir meu outro olho?" Ele pensava e fazia tanta força para poder falar que sentiu as veias de seu pescoço saltarem. Ele sentiu outra dor intensa em seu olho direito. Decidiu que era melhor só ter um olho só para ver o que estava acontecendo do que piorar a dor que ele já sentia.

Ele começou a se sentir fraco...








P.S.: essa foi só a parte 1, tem mais 2 pela frente! estou fazendo isso por vocês e seus pedidos do Facebook <3
P.S.2: a próxima parte deve sair logo, assim que eu arranjar tempo. espero que entendam

bjs

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Crianças Estranhas - Final

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Leia o começo da história aqui: Parte I


Minha mente adolescente estava cheia mais uma vez com imagens do pesadelo, mas eu fiz o meu melhor para ficar focado na realidade. Ela era a última pessoa que teria ido para o outro lado do riacho, e se as crianças estranhas já tivessem se aventurado para fora da floresta, certamente as pessoas da cidade falariam sobre eles, certo?

Armado com estas racionalizações eu decidi ir a nossa clareira favorita e esperar por ela. Ela não estava lá quando eu cheguei - parte de mim esperava que ela estivesse esperando na grama, pronta para rir na minha cara quando soubesse como eu tinha andado para cima e para baixo o caminho mais de duas vezes antes de pensar em verificar o nosso local - e com uma hora passada lentamente, comecei a me perguntar se algo de ruim realmente tinha acontecido com ela. Mas, se alguma coisa tinha acontecido, o que eu ia fazer sobre isso? Eu não tinha ideia de onde ela morava, e ela era a única criança que eu conhecia na área.

Quase inconscientemente, comecei a ir à direção do riacho. Eu só tinha prometido que não iria atravessá-lo, depois de tudo, e se ela estava tão preocupada com o meu paradeiro ela deveria ter me deixado saber onde ela estava. Além disso, se ela tinha sido capaz de superar as crianças estranhas quando elas estavam ao lado dela, eu seria capaz de fugir muito antes que elas chegassem perto.

Minhas pernas estavam cheias de uma energia nervosa e vertiginosa enquanto eu continuava andando, às vezes em um ritmo rápido e outras apenas pondo um pé na frente do outro. Assim que o próprio riacho estava à vista, comecei a passar de uma árvore para outra, usando-as como uma capa contra o que quer que pudesse se esconder do outro lado do riacho. Aproximei-me mais, cauteloso para não perturbar nem mesmo um único galho na minha abordagem.

Finalmente eu tinha apenas alguns metros até a margem do riacho. Eu me agachei e silenciosamente coloquei minhas mãos nos joelhos, me aproximando do último trecho e mantendo um estreito contato visual com as árvores à minha frente. Eu falei o nome de Jessie em voz baixa, forçando meus ouvidos para a floresta para pegar qualquer coisa de interessante, mas nada aconteceu. Era apenas mais um dia comum e eu era apenas um garotinho estranho sussurrando na floresta.

Eu estava prestes a me virar quando um lampejo de movimento chamou minha atenção. Eu não tinha notado isso antes porque eu estava examinando o chão, mas virando os olhos para cima, vi uma silhueta de algo que eu não conseguia entender. Ele balançou suavemente na brisa como se estivesse suspenso a partir dos ramos. As folhas romperam a forma distante, que deveria estar a vários metros de distância, e eu imediatamente esqueci minha promessa à Jessie; eu tinha que saber o que essa coisa era. Assim como eu estava prestes a balançar as pernas para baixo da margem do riacho, uma voz sobressaltou aos meus pés em um instante.

"O que você está fazendo?" Jessie estava de pé atrás de mim, se agarrando em uma árvore como se ela pudesse cair sem o seu apoio. Embora seu tom fosse de raiva, seu rosto estava branco-fantasma. Ela fez um sinal, claramente não disposta a ir mais perto do riacho do que ela estava. Virei meu corpo, levantando o braço para apontar para a coisa que eu tinha visto na copa das árvores, mas eu não consegui relocalizar.

“Eu... eu vi alguma coisa.” Eu disse, procurando nas folhas pela forma balançante.

“E com alguma sorte aquilo não viu você.” Ela sussurrou, batendo o pé no chão. Eu balancei minha cabeça, minha curiosidade de menino superando seu medo óbvio.

“Não seja um gatinho assustado”, eu disse, me agachando para ver se eu conseguia localizar a figura nos ramos. Em resumo, eu imaginava se tinha se movido, mas parecia impossível. O que quer que fosse, não era animado. “Eu vou atravessar.”

"Não!" Jessie gritou, se lançando para mim. Eu já estava assustado com seu grito, e ela colidiu em mim com força total, fazendo com que nós dois caíssemos da borda para o riacho. Nós gritávamos e nos debatíamos enquanto caíamos, nós dois aterrissando nas minhas costas. A água barrenta balbuciava sobre nós e eu me afastei, me puxando para a margem do riacho. Jessie me seguiu, mais por um desejo de sair da água do que qualquer coisa.

"Muito bem", eu disse sarcasticamente. A água estava realmente refrescante no calor do verão, mas nós sabíamos que em pouco tempo nós estaríamos nos afogando em umidade, nossas roupas molhadas sufocando nossos corpos. Eu me arrastei para cima do lado oposto do riacho, levantando mais uma vez os meus olhos para os galhos para encontrar o que eu tinha visto.

"Por favor, por favor, podemos ir?" Jessie estava ao meu lado, segurando meu braço, apesar do fato de que eu era bem uns quinze centímetros mais baixo que ela. "Nós realmente precisamos ir, por favor!"

"Vai, apenas um pouco mais!" Maravilha e emoção tinham ultrapassado todas as outras emoções em minha mente. Antes, quando o riacho era apenas uma memória, era fácil imaginar um mundo de monstros à espreita do outro lado do caminho. Agora que eu estava aqui, à luz do dia, senti-me fortalecido. Eu podia ver que não eram monstros, então, obviamente, eu estava seguro.

Tenho sorte de estar vivo.

Puxando Jessie para frente, eu caminhei para o ponto onde eu tinha visto a coisa pendurada nas árvores, mas agora ela estava longe de ser encontrada. De onde eu estava eu ainda podia ver o riacho, e eu tentei me imaginar agachando do outro lado, olhando para os galhos. O vento soprou preguiçosamente através das folhas, balançando-as, mas não havia nada anormal pendurado do dossel.

"Eu vi alguma coisa aqui", eu disse em voz alta, justificando a minha persistência para Jessie. Eu me sentia mal por arrastá-la a um lugar em que obviamente ela não queria estar, e eu pensei que se eu tivesse algo para mostrar para ela, talvez ela teria entendido. Em vez disso, lá estava eu, olhando para as árvores como um idiota com uma garota apavorada agarrando-se a meu lado. Seus olhos corriam para trás e para frente através da linha das árvores, como se à espera de alguma coisa para aparecer e nos atacar de repente.

Recusando-me a sair de mãos vazias, eu nos movi lentamente para frente. À medida que prosseguíamos, as árvores a nossa volta pareciam ficar mais quietas, como se estivéssemos entrando em uma espécie de zona morta na floresta, um lugar onde até mesmo os pássaros e bichos se recusavam a ir. As unhas de Jessie cavavam em meu braço, mas ela ficou ao meu lado, sem fazer qualquer barulho, exceto um pequeno gemido com cada exalação.

Depois de mais cinco ou dez minutos de caminhada, nos deparamos com um afloramento rochoso que se projetava para fora da terra, e um pequeno buraco que levava para baixo. Intrigado como eu estava com a promessa de mais aventura, algo mais chamou nossa atenção: uma estranha boneca encostada na boca da caverna, de frente para nós. Sua testa alongada pendia um pouco sobre o seu rosto, fazendo o lado superior direito da sua cabeça côncava. Seus olhos eram pequenos, pretos e lustrosos, brilhando ao sol do meio-dia, e tufos de cabelo tinham sido colocados em seu couro cabeludo de forma desorganizada. Ela estava vestida apenas com um pequeno macacão de sarja que cobria a suja pele de pano. Antes que eu pudesse respirar para comentar sobre isso, Jessie foi ferozmente me puxando para longe.

"É isso aí! É um deles" Ela estava praticamente gritando, um terror cru vindo através de sua voz, mas sua reação foi me assustar mais do que o próprio objeto – aquilo era uma criança estranha? Uma boneca de grandes dimensões?

"Acalme-se!", Eu disse, puxando-a de volta. "Não pode ser! Olhe para ela, ela não está respirando! É apenas uma boneca!" Puxando meu braço para fora de seu aperto, Jessie caiu de cara no chão, mas estava de pé um segundo depois. Ouvi-a começando a correr e virei para dizer a ela que ela não precisava chegar mais perto se ela estava com medo, que eu iria examiná-lo sozinho.

Assim que eu olhei em sua direção, no entanto, minha voz ficou presa na minha garganta. Onde Jessie e eu estávamos a menos de vinte segundos atrás estava outra boneca, só que desta vez foi diferente. Ele estava limpa e mais benfeita, como se quem tivesse feito a da caverna tivesse aprendido com seus erros. Esta boneca estava de pé ao lado de uma árvore, observando-nos com aqueles mesmos olhos negros, cabelo castanho curto emaranhado com sujeira e aglutinado na cabeça a esmo. Um vestido vermelho esfarrapado agarrado desesperadamente em seu ombro direito, e abaixo dela a pele de pano parecia muito mais limpa do que a outra, muito mais... real.

Antes que eu pudesse dizer uma palavra, Jessie quebrou o silêncio. Eu esperava que ela gritasse, mas em vez disso o que saiu de sua boca era quase um sussurro.

"Emma?"

A boneca deu um passo adiante, e meus níveis de terror foram até seus limites. Olhei para trás para ver que a outra boneca estava puxando-se aos seus pés, sem jeito cambaleando para nós. Qualquer dúvida que eu tinha sobre a história de Jessie evaporou-se em um instante. As crianças estranhas eram reais, e estavam bem na minha frente. Sem nenhum momento de hesitação, agarrei o pulso de Jessie, de repente, me tornando a pessoa desesperada para nos tirar de lá.

"Vamos! Vamos, anda logo!", Eu gritei para ela, mas ela nem sequer parecia me ouvir. Ela, em vez disso, começou a caminhar em direção a boneca, em direção a... Emma, eu imaginei, embora eu não pudesse ver como é que poderia ter sido a amiga de Jessie. Eu ficava puxando-a pelo braço até quando a coisa atrás dela se aproximou. Jessie estava focada exclusivamente na a outra menina, bloqueando todo o resto do mundo. A boneca estendeu a mão para Jessie, e ela ergueu a própria mão também.

"Jes-!" Comecei a dizer, mas fui interrompido por um objeto pesado caindo diretamente sobre minha melhor amiga, enchendo-a de sujeira. Em cima dela estava uma pequena figura semelhante à humana, com a cabeça e as mãos proporcionalmente muito menores do que deveria ser. Finalmente observando um de perto, percebi que sua pele não era apenas pano sujo; era podre, carne manchada.

Eu me mexi para trás enquanto a pequena criatura agarrava Jessie pelos cabelos, puxando sua cabeça para cima dolorosamente. Jessie gritou e arranhou o chão, tentando empurrar a coisa fora dela, mas a criatura que ela tinha chamado de Emma caiu de joelhos, fechou a mão sobre sua boca e em seguida virou a cabeça para olhar para mim.

Uma energia subiu para minhas pernas e disparei. Eu estava em pânico completo, operando em um instinto primitivo de fugir, mas apenas quando eu comecei a correr, eu colidi com uma força sólida que me bateu de volta para o chão. Outra daquelas coisas estava diante de mim, com a cabeça debatendo desajeitadamente à esquerda assim como Jessie tinha demonstrado. O que eu tinha visto na caverna entrou em meu campo de visão, segurando uma pedra grande em suas mãos. Antes que eu pudesse rolar para fora do caminho o peso caiu sobre a minha cabeça, enviando uma dor através do meu crânio. Minha visão ficou branca e um zumbido ensurdecedor encheu meus ouvidos, mas eu fiquei completamente consciente.

Eu podia sentir as coisas levemente me arrastando, me puxando pelo chão enquanto eu lutava apenas para recuperar meus sentidos. O branco ofuscante lentamente deu lugar a um negro impenetrável, e o zumbido entorpecido a um baralhar sem forma e gorjeios esquisitos das crianças estranhas ecoando nas paredes da caverna. Eu fiz o meu melhor para ficar mole enquanto era arrastado pelas pedras brutas, rasgando minha camisa e cortando minha carne. Tenho certeza de que gemia de dor, mas as crianças estranhas não reagiam, me puxando mais para o seu covil.

Finalmente, o movimento chegou ao fim. Eu estava apoiado contra uma parede de pedra bruta, e até mesmo na escuridão eu poderia dizer que um deles estava bem na frente do meu rosto, calmamente resmungando para si mesmo naqueles estranhos ruídos arrítmicos. Seus dedos grossos seguraram minhas mãos e começaram a esticar um tecido forte e fino em torno de meus pulsos, juntando-os. Me enrolou pelo que pareceram anos, até que finalmente pareceu satisfeito que minhas mãos não iriam a lugar nenhum, em seguida, mudou para os meus tornozelos para fazer o mesmo.

Assim que estava feita a amarração, o ruído de seus movimentos foi ficando gradualmente mais fraco, antes de desaparecer completamente. Significava poder respirar um suspiro de alívio, eu em vez disso deixei escapar um soluço engasgado, finalmente deixando-me expressar o terror que eu senti por todo o calvário. Eu não tenho vergonha de admitir que eu estava sentado naquela caverna e chorando, certo de que nunca mais veria meus pais ou avós novamente.

Só quando ouvi mais movimento vindo em minha direção eu fiz qualquer esforço para me acalmar. Eu fiz o meu melhor para controlar minha respiração, aspirando em sopros através de suspiros trêmulos e expirando lentamente pelo nariz. Tentei imaginar o que os ruídos eram; lentamente, eu presumi que alguém estava sendo arrastado para baixo pelo mesmo caminho áspero eu tinha sido.

Eles estavam trazendo Jessie também.

Por um curto momento eu senti esperança. Tão egoísta quanto é de admitir, ao menos eu senti conforto em saber que eu não teria que sofrer sozinho. Parte de mim até se divertia com a noção de que talvez em conjunto Jessie e eu pudéssemos escapar desta caverna e nunca, nunca voltar a esta floresta terrível novamente.

Claro, a realidade deste plano tinha muitos obstáculos. A gruta estava totalmente escura, algo que não parecia afetar as crianças estranhas nem um pouco. Tudo que eu sabia era que havia alguém sentado na sala comigo, em silêncio, observando e esperando que eu fizesse um movimento para que ele pudesse me atacar novamente e terminar o trabalho. Além disso, eles facilmente nos colocavam em desvantagem numérica. As probabilidades estavam contra nós em todos os sentidos possíveis.

Jessie entrou ruidosamente na sala em que eu era mantido, e seus gritos abafados me deram uma sensação das dimensões da sala. Ele parecia menor do que eu esperava, provavelmente só um pouco maior do que o meu próprio quarto. Ainda assim, era muito grande para armazenar os dois de nós.

Bem quando eu estava me perguntando se eles iriam deixar Jessie e eu sozinhos juntos, a sala foi preenchuda com uma luminescência azul suave. Uma das crianças estranhas - Eu não poderia dizer qual com as costas viradas para mim - estava esfregando os dedos contra um estranho tipo de musgo na parede oposta, e a agitação provocou uma reação em cadeia em toda a planta. Filamentos de luz azul formaram um arco por cima do muro em um padrão brilhante, a iluminação ramificando-se como um floco de neve antes de finalmente preencher, cobrindo a parede da caverna na tela mais linda que eu já tinha visto.

E ali, na frente do musgo brilhante, estava Jessie. Ela havia sido colocada em uma plataforma de terra, obviamente, feita a mão, e seus esforços acalmados enquanto lufadas de esporos do musgo brilhante caiam sobre ela. A criança estranha estava sobre ela, observando por um momento, antes de dobrar para a frente sobre ela.

Na minha vida eu nunca tinha ouvido o som de carne rasgar, mas pela primeira vez era inconfundível. Eu empurrei com o barulho, como se tivesse sido a minha própria pele, e meu coração batia tão rápido que eu temia que ele fosse me matar. Eu mantinha meus olhos fechados e só ouvia como a criança estranha fazia Deus-sabe-o-que com minha amiga desamparada a apenas alguns metros do meu rosto. Reunindo a coragem que eu podia, eu comecei a passar os laços em torno de meus pulsos contra uma rocha irregular, esfregando apenas lento o suficiente para não fazer muito barulho.

O barulho de algo rasgando logo deu lugar à gorgolejos e esguichos molhados, mas eu não me permitia imaginar. Em vez disso eu pensei sobre meus avós, sobre ver seus sorrisos mais uma vez. Eu pensei sobre o avião que me levaria para fora do Mississippi, e eu pensei em todas as desculpas que eu usaria pelo o resto da minha vida para não pegar outro avião de volta. Eu tinha que sobreviver a isso. Eu precisava.

Enfim, as cordas se soltaram com bastante esforço. Uma vez que elas estavam fracas o suficiente, consegui separá-las com a força bruta, as fibras rasgando longe uma da outra com um som suave, algo que foi quase agradável contrastou contra os ruídos perturbadores vindos de toda a sala.

Eu tateei no quase-escuro, meus dedos se movendo de pedra em pedra até que eu encontrei algo solto o suficiente - e grande o suficiente - que me senti confortável com ele. Eu agora olhei diretamente para a criança estranha, suas costas ainda viradas enquanto ele realizava o seu ritual macabro em minha amiga. Serrando a pedra através das cordas em torno de meus tornozelos, eu me preparava psicologicamente para o que eu ia ter que fazer a seguir. Armado com uma pedra, eu estava indo atacar a criança estranha, derrubando-a com um bom golpe. É justo, eu pensei comigo mesmo. Em seguida eu iria pegar Jessie e jogar por cima do meu ombro - ela era mais alta que eu, com certeza, mas eu não era um garoto fraco. Depois disso, nós fugiríamos da caverna de alguma forma, em seguida, correríamos de volta para a casa dos meus avós e estaríamos seguros.

As cordas em torno de meus tornozelos caíram, e eu lentamente estiquei as pernas para fora. A criança estranha ainda estava alheia a mim, e parte de mim odiava isso. Lá estava eu, prestes a bater em seu crânio com uma pedra, e ele nem sequer me considerava uma ameaça suficiente para virar e me verificar.

"Hey," eu sussurrei, a rocha apertada no meu punho enquanto eu a estendia para o lado por trás da minha cabeça. A criança estranha finalmente girou e eu olhei nos seus olhos negros sem alma uma última vez antes de o atravessar com minha arma.

A sensação não era como eu esperava. Em vez de um golpe sólido e um “crack” ressoante, minha mão atravessou sua pele suja com pouca resistência. Fiquei ali, atordoado e olhando para o seu olho restante enquanto seu rosto pendia frouxamente em torno de meu pulso. Arranhões suaves fizeram o seu caminho em toda a minha mão e eu empurrei-o de volta, a força do meu punho puxando para fora de sua cabeça rasgando outro pedaço da pele-que-não-era-pele.

Olhando para o meu lado, eu vi a coisa mais horrível que eu já vi na minha vida. Em vez de cérebros, sangue e coágulos cobrindo minha mão, havia insetos. Centopeias, aranhas, formigas e mais, muito números para contar, invadiram minha pele. O saco de carne diante de mim caiu de joelhos afundando, os seus ocupantes saindo do buraco em seu pescoço.

Eu perdi. Eu gritei no topo dos meus pulmões e bati meu braço contra a parede da caverna, esparramando os vermes nas folhas. Em meio ao caos eu chamei o nome de Jessie, esquecendo-me no momento que eu já esperava que ela estivesse inconsciente na melhor das hipóteses. Com a cabeça inclinada para o lado ela se ergueu sobre os cotovelos, olhando para mim. Meu coração se encheu, pensando por um momento que pelo menos nós sairíamos dessa vivos.

Quando o brilho azul do musgo refletiu os olhos muito pretos de Jessie, eu corri.

Através da escuridão eu corria, sem me importar com o ranger de dentes frenético que ecoava na caverna a minha volta. Corri por cada curva e entrei naqueles túneis apertados, ainda lutando para raspar todos os insetos do meu braço. A cada momento que passava eu esperava sentir as mãos das crianças estranhas se enrolando em torno de minhas pernas, me arrastando de volta àquela sala, e fazendo comigo o que eles tinham feito a Jessie. Me transformar em um deles.

Finalmente eu vi um feixe fino de luz no fim da escuridão. Eu me arrastei para fora da caverna e para a floresta aberta, a lua cheia me dando muita iluminação para encontrar meu caminho. Através de toda a corrida eu rasgava a carne do meu braço com minhas unhas, raspando os restos da criança estranha enquanto eles se contorciam e se arrastavam em mim.

A corrida inteira é na maior parte um borrão agora. Eu não parei nem uma vez, nem sequer espreitei atrás de mim por medo de ver as coisas mais uma vez. Quando eu cheguei na casa de meus avós, os dois estavam acordados, sentados na sala de estar esperando por mim. Devo ter dito um conto com um único olhar, porque suas expressões severas derreteram ao ver meus olhos e eles ficaram comigo o resto da noite. Sentado no sofá e enrolado em um cobertor, eu só olhava pela janela para a estrada poeirenta que levava à casa, rezando para que eu não visse Jessie andando ali.

No dia seguinte, depois que eu tinha dormido e comido, meus avós tentaram persuadir-me a contar o que aconteceu. Eu não sabia o que dizer a eles. Finalmente, eu lhes disse que acabei dormindo na floresta e tive um pesadelo, me assustei e corri para casa chorando. Eles me abraçaram e riram suavemente, e meu avô disse que eu deveria avisar da próxima vez para não deixá-los preocupados. Eu sorri e o rosto de Jessie apareceu em minha mente.

Eu não me deixei ficar sozinho pelo resto das férias. Isso significava ficar dentro de casa a maior parte do tempo, algo que estava mais do que bom pra mim. Quando disseram que Jessie não estava em casa há alguns dias e as pessoas começaram a procurar, meus avós me perguntaram se eu sabia alguma coisa sobre isso. Eu queria dizer-lhes sobre as crianças estranhas - Eu deveria ter dito alguma coisa, eu sei disso agora. Mas, como a criança medrosa que eu era, eu apenas disse que não e eles deixaram por isso mesmo. Três semanas depois, eu peguei um avião e fui para casa, e, pela primeira vez desde a caverna eu senti que eu poderia respirar novamente. Eu não tinha mais a ameaça das crianças estranhas pairando sobre mim, aguardando pelo lapso de um momento em prontidão para que eles pudessem atacar.

Eu gostaria de dizer que eu não sei o que aconteceu com Jessie, que seu destino permanece um mistério, mas isso seria um caminho covarde. Jessie morreu por minha causa. Por causa da minha arrogância, minha curiosidade e minha estúpida sede por aventura Jessie perdeu a vida. Isso é algo que eu penso todos os dias, até mesmo uns trinta anos depois, e isso dói tanto quanto a primeira vez que eu pensei.

Milhares de quilômetros e algumas décadas estavam entre mim e o pior verão de minha vida, mas não é essa perspectiva que me levou a finalmente escrever o meu conto. Minha filha Maggie foi ficando animada sobre colecionar insetos, e por mais desconfortável que isso possa me deixar, eu não sou do tipo que irá detê-la. O que realmente me perturba sobre isso é como seus insetos agem; cada vez que ela me traz um dos seus pequenos frascos, os insetos de dentro... me olham . Eu sei como isso soa louco, eu sei que insetos não "olham" como você e eu, mas... é como se eles quisessem me fazer saber que eles sabem que eu estou lá.

Eu entrei no quarto de minha filha alguns dias atrás, quando ela estava na escola, e peguei sua fazenda de formigas para ver o que iria acontecer. Eu esperava que elas congelassem, para virar e olhar para mim, mas em vez disso elas entraram em um frenesi. Até a última formiga invadiu o lado do recipiente, rastejando umas sobre as outras e escalando contra o plástico que os separava da minha mão direita. A mão em que os insetos estiveram por alguns minutos enquanto eu tropeçava cegamente através daquela caverna, freneticamente sacudindo-os para fora. Eu assisti, horrorizado, como as formigas literalmente rasgavam umas as outras para ser a mais próxima de minha mão.

O que as crianças estranhas fizeram comigo?

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Vazio

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O silêncio não é quieto, é barulhento. É um rugido ensurdecedor.

Eu já experimentei o sossego antes; eu sempre inicio o meu trabalho às 04h00minhrs, e eu costumava achar que o “silêncio” é o barulho que sai dos postes de eletricidade enquanto eu caminho, alguns pássaros cantando, cachorros – ou raposas – uivando longe dali, o vento quente e delicado e mais um milhão de coisas que você não consegue notar. Silêncio não é nenhuma dessas coisas, silêncio é a falta até mesmo dos barulhos mais minimizados, e o silêncio precisa ser notado.

Eu estava indo até meu escritório quando o senti. Era uma manhã fresca então eu decidi não usar casaco, logo pude sentir o frio envolvendo meu tronco calmamente. Abracei meus próprios braços enquanto eu caminhava, eu não estava atrasado ou distante demais de casa; eu poderia facilmente ter retornado para pegar o meu casaco, ou uma jaqueta, mas eu sentia como se não devesse. Não sabia o motivo disso, mas continuei apenas caminhando e encarando a rua, um pé na frente do outro.

Estava escuro, mas não certo. Sem barulho vindo dos postes de energia ou qualquer janela e carros não passavam perto de mim, nada além do lento e assustador brilho da manhã.

Depois de quinze minutos caminhando, me encontrei no final da rua. Eu podia ver o prédio em que eu trabalhava – meu destino naquela manhã – mas o lobby estava vazio e escuro, pensei que talvez pudesse ter sido uma queda de energia e voltei a caminhar na direção dele rapidamente. Enquanto eu andava, meus passos pareciam ficar cada vez mais altos, ecoando de forma irritante, deixando um rastro de barulho atrás de mim. Senti meu coração bater mais forte, como se acompanhasse o som dos meus pés, o ar ficando cada vez mais frio, e antes que eu pudesse notar, estava correndo.

Alcancei as portas de vidro, mas elas não se abriram automaticamente, fazendo com que eu tivesse que procurar pelo meu cartão e assim que o senti pressionado contra a minha perna, em um dos meus bolsos, o tirei de lá. Passei o objeto pelo mecanismo, mas nada além de um simples “click” aconteceu.

Decidi correr o cartão novamente pelo mecanismo e frustrado pela falta resposta, acabei repetindo o movimento mais vezes do que eu poderia contar.

Claro que não vai funcionar... E eu não queria ficar lá parado sozinho, o horário não me era favorável. Apoiei-me no vidro e tentei enxergar através dele, correndo meus olhos por toda a extensão do local, mas não havia ninguém lá, nem mesmo um zelador ou um guarda; demorei em me convencer de que o prédio estava vazio e encarei o lobby escuro por mais alguns segundos, mas não havia nada. Nenhum som.

Sentei-me ao chão observando enquanto o sol ficava cada vez mais forte, o dia me trouxe um alívio instantâneo; era mais quente, pelo menos, e o fato de que eu conseguia enxergar a estrada quase toda de onde eu me localizava fez-me sentir um pouco melhor. Mas as sombras rígidas se moviam no chão de forma assustadora e os prédios ainda pareciam vazios demais.

O céu estava completamente azul, e durante todo o tempo que eu fiquei sentado ali – provavelmente por uma hora – só pude ver uma única aeronave, que de longe parecia apenas uma nuvem solitária. Não havia carros nas ruas... Os prédios estavam vazios.

Depois de mais algum tempo me coloquei de pé e decidi voltar para casa, exposta a luz do sol, a cidade parecia mais deserta do que antes, as estradas pareciam se esticar infinitamente, os prédios pareciam apenas borrões gigantes.

Eu nunca havia feito esse trajeto durante o dia... Sempre chegando tão cedo e indo embora tão tarde.

Tudo estava estranho, tudo era cinza, eu nunca havia notado antes, mas o mundo todo é cinza.

O silêncio sempre esteve atrás de mim.

A jornada levou mais tempo do que o normal, ou talvez o silêncio e a calma pairando em todo o caminho fez o trajeto parecer maior; estremeci quando alcancei meu prédio, abri a porta e caminhei preguiçosamente pelos degraus, os mesmos degraus que eu uso todos os dias, mas até isso parecia diferente.

O barulho das luzes quase estragadas do corredor, barulho de TV ecoando pelas paredes, vozes abafadas de parentes discutindo em outros apartamentos – eu sentia falta daquilo.

Alcancei minha porta e me apoiei nela, no intuito de procurar pelas minhas chaves, mas ela se abriu rapidamente e eu senti meu coração parar.

Entrei no apartamento devagar e lá dentro eu parecia sentir mais frio do que fora; olhei para todos os lados, mas nada estava fora do lugar, então eu caminhei até alcançar a sala. Minha TV, meu PS3 e meu notebook ainda estavam ali e eu respirei aliviado, dando a volta e indo até o meu quarto.

A porta estava quase fechada, mas assim que eu a empurrei, a luz do dia invadiu o cômodo e a coisa que lá estava, se moveu. Magro e com os olhos brancos, se virou para onde a luz entrava.

Parecia assustado por um momento e eu decidi correr em direção dele, medo sendo subitamente substituído por raiva, mas por mais rápido que eu tenha tentado alcançá-lo, a única coisa que pude ver foi um vulto vermelho passando pela minha janela.

Aproximei-me da janela e encarei a rua, conseguindo ver o que parecia um homem nu e sujo entrando em um dos becos próximos dali. Pisquei, tentando focar no meu próprio quarto, novamente, nada ali parecia fora do lugar e por até mesmo uma fração de segundo eu tentei me convencer de que não precisava me preocupar.

Foi aí que eu vi as pegadas.

Sangue, desde a janela e no chão do quarto até a janela novamente. Pegadas grosseiras, vermelhas e feias pairavam ali; meu estômago embrulhou de vez e a única coisa que eu pude fazer naquele momento foi sair de lá.

Voltei para a sala fechando todas as portas atrás de mim e não retornei para o meu quarto. Entrei no meu closet, peguei um taco de baseball que eu não usava desde os doze anos de idade e sentei-me em uma cadeira.

Eu podia sentir o suor escorrendo pela minha testa, e minha cabeça coçava de forma irritante; cada vez que eu coçava, ficava pior, mas minha respiração e meu batimento cardíaco pelo menos haviam voltado ao normal enquanto eu caminhava pela casa.

Senti fome, mas como sempre minha cozinha estava vazia, eu sempre faço minhas refeições no trabalho ou no restaurante mais próximo, mas naquele dia isso estaria fora de cogitação, e a fome ainda prevalecia, então, eu decidi sair.

A escadaria estava vazia, mas o clima parecia pior e mais frio. Eu andava como se estivesse me escondendo de alguém e não podia evitar o impulso de procurar por pessoas a cada degrau que eu descia.

Quando finalmente alcancei a rua, senti meus braços coçando novamente, mas ignorei aquilo e fui em direção ao mercado mais próximo dali, até alcançar o beco que o invasor havia usado para fugir... Havia algumas pegadas ali, mas nada comparado com as que repousavam no meu quarto.

Continuei caminhando e observando o chão, mas assim que tirei meus olhos do asfalto, eu o vi; ele estava parado na estrada ao final do beco, a apenas alguns metros de distância de mim, meus dedos se fecharam fortemente ao redor do bastão.

Pensei ter visto algo no canto dos olhos, atrás de mim dessa vez. Havia mais de um ali, o que me fez desistir de persegui-lo. Eles não viriam atrás de mim.

Corri até parar em frente ao mercado, estava fechado, claro, mas eu bati o bastão contra o vidro da porta sem pensar duas vezes e entrei ali, indo em direção a comida. Eu sentia tanta fome que não podia esperar mais, abri um saco de Doritos e dentro dele se localizava uma poeira branca e fina. Joguei o saco fora e abri outro, a mesma coisa estava dentro. Fui em direção a chocolates, bolos e biscoitos, mas todos estavam iguais. Nada além de poeira.

Meu estômago parecia ter vida própria de tanta fome e eu deitei no chão, rolando de um lado para o outro enquanto uma tosse doentia tomava conta dos meus pulmões.

Tudo parecia girar. Que merda estava acontecendo? Onde estava todo mundo?

Tossi e tossi até sentir o gosto de sangue na minha boca, minha pele coçava freneticamente e nem se eu tentasse ignorar aquilo adiantaria; tentei me controlar, sentando-me no chão e encarando o nada enquanto minha respiração se normalizava mais uma vez, até eu ouvir nada além do silêncio.

O silêncio, e então, um arranhão.

Eu parei incrédulo, aquele era o primeiro som que eu escutava no dia – quero dizer, que não havia sido feito por mim –. Arrastei-me até o barulho, estava vindo do outro lado da loja, mas eu tentei ser o mais silencioso possível.

Aproximando-me de uma das prateleiras tentei ver quem – ou o que – estava ali, e pegadas vermelhas ocuparam a minha visão. 

De repente o barulho parou e eu olhei para cima, acompanhando o som de respiração que pairava ali, levantando-me rapidamente e apontando meu bastão para qualquer direção.

Um deles correu pela porta e eu corri atrás dele, consegui vê-lo quase que perfeitamente enquanto ele caminhava até o outro lado da rua.

Eles não eram humanos... O corpo era o mesmo, mas não havia pele. Apenas músculo e sangue, sangue em todo lugar; escorrendo pelos dedos, melando o chão. A figura havia parado ali, do outro lado e continuava a me encarar. Eu podia ver os olhos, redondos demais devido a falta de pele, não havia cílios, ou pálpebras... Dei um passo à frente e a coisa deu um passo para trás, balançando sua cabeça.

Dei outro passo e a coisa virou e saiu correndo rapidamente, corri até onde o havia visto, mas ele não estava mais ali.

Eu sentei no chão.

O Sol estava bem acima de mim.

Não sei por quanto tempo sentei ali, mas nada se moveu. O sol continuava vivido no céu e as sombras corriam harmoniosamente no asfalto.

Continuei coçando meus braços, nem pude notar quando eles começaram a sangrar. Enquanto isso o dia passava e o clima só piorava, mas eu não queria me mover. Estremeci por causa do frio e encarei a rua ao meu lado... Lá, as figuras estavam paradas e pareciam me encarar por muito tempo.

Meu coração se desgovernou novamente e eu tentei me sentar de forma mais ameaçadora, ainda me coçando – meu pulso dessa vez – eles não se moviam, nada se movia, estava frio, mas eu suava muito, meu corpo inteiro coçava, e partes das minhas roupas estavam vermelhas por causa do sangue.

Quando eu olhei para o lado novamente, percebi que apesar de todos estarem ali, apenas um deles caminhavam até minha direção. Enquanto ele se aproximava, eu podia vê-lo melhor, era idêntico ao outro, apenas músculo e sangue, como se fosse uma ilustração tirada de um livro de Biologia.

Parou bruscamente e me encarou, assim como o outro havia me encarado anteriormente.

Eu estava assustado demais para me mover, eu estava com frio e me coçando mais do que nunca. Eu nem notei que já estava quase que completamente nu, apenas continuei me coçando.

Quando a coceira parasse... Talvez eu pudesse me mover novamente. Talvez eles me deixassem em paz.

Eu praticamente arrancava pedaços de mim mesmo naquele momento, mas a dor era boa.


Fez com que eu me sentisse livre. 

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O Segredo do Viajante

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Nas profundezas da floresta, uma figura encapuzada andava vagarosamente pelo antigo carvalho. Ele viajava silenciosamente pela floresta à procura de algo. O pôr do sol lançava longas sombras sobre as árvores, depositando então sua face na escuridão. A única característica deixada pelo sol poente era uma fraca luz laranja emanando das dobras do seu capuz. Embora ninguém conhecesse a origem dessa luz, parecia emitir uma sensação de pura magia e alegria para aqueles que pudessem obtê-la. Parando rapidamente para observar as faces cristalinas na lagoa e ouvir as vozes suplicantes do vento que sussurrava, a figura se arrastou em direção ao crepúsculo, tentando chegar a algum fim.

Uma coruja piou um aviso à vila mais próxima conforme a figura deslizava pela floresta. A maioria dos aldeões sabia evitar esse espírito viajante da floresta, mas alguns dos mais jovens ansiavam por vislumbrar o ser encapuzado. Um grupo de adolescentes permaneceu perto do limite da floresta, a fim de medir a coragem de cada um. Um garoto chamado Cedric decidiu sair para procurar o espírito. Ele havia ouvido uma antiga história dos anciãos da aldeia. Dizia-se que o espírito era um dos antigos druidas, a quem fora confiada a guarda do objeto escondido em seu capuz. Nem mesmo o mais sábio dos anciãos sabia a identidade do objeto. Comentava-se que o objeto seria tudo do coração da magia da floresta, a fonte de todo o conhecimento, a imortalidade. Os aldeões não chegavam perto da floresta devido ao medo dos fantasmas daqueles que tentaram roubar o objeto e falharam. Cedric estava determinado a roubar o objeto, pois ele tinha um plano antes mesmo dos adolescentes se amontoarem no limite da floresta.

— Eu roubarei a magia do fantasma, e eu tenho um plano. — gabou-se para o público.

— Bem, e o seu plano envolve se tornar um fantasma da floresta? — gritou James conforme seu amigo Nicholas riu.

Conforme a multidão começou a zombar, Cedric gritou sobre suas cabeças:            
                                                                                                           
— Eu posso atacar o fantasma com uma espada que meu pai me deu (verdade seja dita, Cedric roubou-a enquanto seu pai estava fora).. Ela é poderosa o bastante para controlar o morto. —  A multidão parou de rir assim que Cedric puxou uma antiga espada de ferro. — Uma bruxa enfeitiçou-a para que pudesse amedrontar qualquer fantasma.

 A multidão assistiu horrorizada quando Cedric entrou na floresta com a espada enfeitiçada no alto. Ele pretendia enganar o espírito e reivindicar o seu prêmio. Cedric não se importava com conhecimento, esperava que o espírito viajante tivesse ouro. Ele marchou, sua ganância fazendo-o seguir em frente. Ao passar debaixo das árvores, percebeu que elas pareciam gemer e resmungar como ossos velhos chacoalhando no vento. O modo como as árvores pareciam olhar o fazia imaginar almas humanas perdidas presas em seus galhos. Cedric sabia que estava imaginando isso enquanto caminhava, ignorando os suspiros que o vento dava em aviso. Chegou perto de uma lagoa e alegrou-se com a possibilidade de saciar sua sede. Ajoelhou-se para beber quando levou um grande susto: a face translúcida de um garoto da vila olhou para ele. O garoto era mais velho do que Cedric e havia desaparecido da vila há um ano. Cedric tentou desesperadamente tirá-lo da água, até que percebeu a presença de um fantasma olhando para ele. Os olhos apáticos do fantasma pareciam avisa-lo para voltar. Era tarde demais para voltar.

 O viajante imortal esgueirou-se atrás do garoto na lagoa e esperou. Quando Cedric percebeu que o fantasma estava atrás dele, se levantou e brandiu sua espada. — Eu não tenho medo de você, fantasma! — ele gritou — Esta espada pode machucar os mortos! Agora me dê o seu ouro, ou —

— É isso que você quer? — rosnou o som oco da morte.

Surpreendido, Cedric disse:                                                                                                                                                                                                    
— Eu quero aquele objeto valioso que você está escondendo, ou —     

— Pegue-o. — arfou o antigo e exausto druida.

Cedric pegou o objeto assim que o velho homem ressecado saiu em direção ao pôr do sol. O druida uma vez imortal seguiu a oeste até que encontrou o fim de sua peregrinação. Cedric agora tinha, entretanto, que guardar o objeto. Ele começou a vagar pelo caminho sem fim da floresta em busca do próximo tolo ganancioso que surgiria. Cedric logo aprendeu com as almas aprisionadas da floresta que a maioria daqueles que encontraram o espírito escolheram a morte ao objeto, pois sabiam que teriam de carregar o fardo do andarilho se soubessem do segredo. Ao contrário de todos, apenas o espírito viajante sabe que o objeto é a imortalidade adquirida através da ganância, pois Cedric ainda vaga pela floresta até hoje.

Crédito: Treehugger14


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