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*** ISSO NÃO É UM TESTE *** Registro 3 [Parte 1]

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Olá de novo, já faz um tempo desde a última vez que escrevi para vocês. Nós temos muitas coisas para pôr em dia, algumas das quais eu gostaria que não fosse verdade, mas sinto a necessidade de explicar tudo o que aconteceu, tudo importante, pelo menos. Estou aqui há 7 semanas. Atualmente estou sentado no meu porão com as luzes apagadas, a tela iluminando meu rosto e a área ao redor. Eu decidi dividir este Registro em duas partes. Tanta cosia aconteceu que eu não posso dizer tudo de uma vez sem te dar um trabalho de tese de faculdade. Mas vamos lá.

Vocês lembram do cara que mora na casa à minha esquerda? Ele não foi a lugar nenhum. Cheguei à conclusão que ele está sendo monitorado assim como eu, mas seu experimento pode ser um pouco diferentes do meu. Não posso saber com certeza, mas sua presença aqui pode ser algum tipo de teste para mim, mas não para ele. Até onde ele sabe, eu sou só um homem em uma casa. Teve um dia que eu decidi tentar contatá-lo. Não há telefones aqui, mesmo se tivesse, eu não saberia pra qual número ligar, mas vasculhei pela casa e encontrei um pequeno quadro negro e seus utilitáros no armário de vassouras do andar de cima. Eu sei, eu também questionei o aparecimento disso. Para um lugar feito para me manter isolado, não foi muito difícil conseguir algo. Esperei na janela por algumas horas, esperando ele aparecer. Quando apareceu, levantei meu quadro negro pela janela, estava escrito: Você consegue se comunicar? Bem simples, né? Após eu ter mandado minha mensagem, ele saiu da janela por um tempo, talvez uma hora ou duas. Eu pensei que o tivesse assustado. Logo ele voltou, com as mãos vazias. Eu olhei para ele atentamente enquanto ele balançava a cabeça, uma tentativa óbvia de me dizer "Não". Ele deu de ombros depois, acho que foi um gesto do tipo "Sinto muito". Toda chance que eu tive de contatá-lo, eu o fiz. Ele só consegue responder com "sim" ou "não", então não há muitos detalhes sobre quem é ou porque ele está aqui, mas isso é tudo que eu tenho:

Ele também não pode sair da casa. Ele tem comida, água, livros e filmes, assim como eu. O estranho é que, ele não tem uma câmera de vídeo ou um microfone, então ele não tem que fazer os Registros de vídeo. Também não tem um notebook. Eu perguntei se ele recebia uma lista de afazeres a cada 2 semanas... ele não parecia saber do que eu estava falando. Isso é tudo que tenho sobre ele.

A semana seguinte passou bem devagar. Eu tinha feito tudo da última lista nos primeiros dois dias, e aprendi tudo que podia do homem na casa ao lado. Eu me senti me tornando apenas mais uma engrenagem na máquina, uma única peça em um quebra-cabeça esmagadoramente grande. Eu precisava saber mais, eu ansiava pelo mistério. As coisas mudaram no final da semana 4.

Eu acordei uma manhã com um som de choro do lado de fora da minha porta. Pensei comigo mesmo que não podia ter ninguém na casa, e se tivesse, por quê estariam chorando? Eles estão machucados? Abri a porta e subi as escadas para encontrar um pequeno golden retriever amarrado ao corrimão da escada. Um cachorro? Tem um cachorro no experimento agora? Esses foram exatamente meus pensamentos. Eu levei o cachorro para baixo onde eu encontrei mais alguns suprimentos e uma nova lista. Peguei a lista e vi algo grudado na parte de trás... uma chave. A lista tinha 5 tarefas. Um: Pare de falar com Peter. Então o homem da casa ao lado se chama Peter. Eles me deram a informação para que eu pudesse parar de tentar descobrir. Interessante. Dois: Cuide do cachorro. Parece que não tenho escolha, de qualquer forma. Três: Assista "Edward, Sessão 2". Quatro: Pule os Registros de vídeo até que seja instruído. Cinco: Abra o baú no final da semana. Isso explica a chave.

A primeira coisa que fiz foi assistir a próxima sessão do Isaías. Ele disse bastante coisa interessante. Eu assisti novamente antes de escrever isso, o que estou prestes a dizer é palavra por palavra.

Da Entrevista com Dr. Isaías Philips --

"O Sr. Hogan tem sido um dos sujeitos mais interessantes de se observar. Ele está confiante, e bastante complacente, nunca questionando as coisas que pedimos a ele. Quando apresentamos o Sr. Dodd ao experimento, o Sr. Hogan tentou sem esforço fazer e manter contato com nosso segundo sujeito. Pedimos para que ele parasse, a fim de obter os resultados que estamos esperando. Presumo que ele tenha muitas perguntas sobre o que estamos tentando realizar, mas tudo será respondido cedo ou tarde."

Isso não foi tudo o que ele disse, mas foi uma das partes mais importantes. O vídeo tinha uma hora e meia de duração, então colocar todas as palavras aqui faria isso ficar longo e chato. Me pergunto por que eles me pediram para parar com os Registros de vídeo, talvez eles estão procurando por resultados melhores em períodos maiores de tempo. Estou há 7 semanas aqui e eles ainda não me pediram para começar de novo, então não comecei.

O cachorro que eles me deixaram foi uma bênção. Era bom ter companhia, tenho certeza de que era a única coisa que me mantinha são. Eu o chamei de Bumper, você deve estar se perguntando o por quê, então irei lhe dizer. Ele constantemente, e eu quero dizer CONSTANTEMENTE andava entre as paredes e partes dos móveis. Era fofo. Uma semana se passou e eu decidi ir até o porão e checar o baú, como instruído. Abri a fechadura imediatamente, mas não consegui abrir o baú, era um cenário de "O Gato de Schrodinger". Bumper estava do meu lado quando eu finalmente o abri, o que eu gostaria de não ter feito. Quando abri o baú, fiquei chocado com o que havia dentro. Uma arma, e um papel. Peguei o bilhete e li algo que nunca pensei que seria pedido para fazer... Mate o cachorro.



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Irmãzinha

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É uma sexta feira à noite, e o costume é meu pai chegar mais tarde pelo maior congestionamento da estrada, mas já passa das nove e eu começo a me preocupar. 

Tento me manter tranquila convencendo-me de que por ser o dia anterior ao começo das férias de inverno, ainda mais tão chuvoso, era normal ele demorar mais. 

Bem, a tempestade também explicaria seu telefone fora de área, está tudo bem sim. 

Se estiver tudo bem, tenho o direito de voltar a ficar mal humorada por estar presa em casa cuidando de Isabela - minha irmã de treze anos -, não preciso sentir culpa por isso, não é mesmo? 

Como meu pai ainda não chegou, providencio a janta para nós duas, porém a louça suja eu deixo na pia como forma de protesto. 

Está tão frio e eu só quero descansar um pouco, então deixo Isabela ver um filme em seu quarto. 

E quanto a mim, coloco um pijama e vou até a sala onde faço o meu ninho de almofadas e cobertores, ligo a televisão e me deixo relaxar. 

Vou adormecendo num sono tão leve que qualquer barulhinho me acordaria, viro de costas para a televisão e enfio minha cabeça no encosto do sofá a fim de driblar a luz e o barulho. 

Meu descanso é interrompido pelo som da porta de correr deslizando com dificuldade no trilho, mas eu estou tão cansada e não quero ser incomodada pela Isabela, então resolvo fingir que não acordei. 

Sinto-a sentar do outro lado do sofá e puxar as cobertas para si, o que me incomoda um pouco porque me destapa, mas mesmo assim permaneço imóvel. 

Poucos minutos se passaram, mas eu já estou totalmente sonolenta quando escuto a porta se abrindo novamente, mas não a escuto fechar. Quando me viro a vejo aberta e grito para a minha irmã fecha-la, mas como sempre ela não acata meu pedido. 

Está muito frio, se deixar a porta aberta o ar quente da estufa vai sair. 

Mal humorada pelo sono interrompido me enrolo no cobertor e vou repreendê-la por essa mania de portas abertas. 

Mas quando chego no seu quarto ela está deitada parecendo muito compenetrada nos desenhos no notebook, para chamar a atenção dou duas batidas no batente da porta, minha irmã nem se vira, só me dirige um "o que tu quer?". Minha raiva boba já se dissipou, mas ainda estou um pouco incomodada com essa mania recorrente, então só digo que tive que levantar para fechar uma porta que Isabela poderia ter fechado quando passou por ela e pedi que da próxima vez isso não se repetisse. 

E ela me responde com "Que isso? Ta enlouquecendo? Eu tava aqui o tempo todo! Achei que teríamos mais tempo antes de tu ter Alzheimer também." Nossa, que surpreendente, sempre muito engraçadinha. Rebato afirmando que sei muito bem o que ouvi, a porta abrindo, e o que senti, os cobertores sendo puxados. 

Ela começou a rir dizendo "quer saber, eu sei muito bem o que tu ta fazendo, tu quer me deixar com medo, mas não vai funcionar. Eu não sou mais tão idiota e tu não me assusta mais." 

Muito a contragosto volto para a sala sabendo que aquela conversa não teria fim. Penso que deve estar pregando uma peça em mim, mas até mereço. Quando era pequena gostava de assusta-la, contar histórias de terror ou chegar de fininho e gritar. Uma vez até consegui convencer uma amiga dela que eu era uma bruxa e poderia amaldiçoa-la. 

Já na sala desligo a luz e deixo o barulho da televisão o mais baixo possível. Num estalo lembro que meu pai ainda não chegou e confiro o relógio, quase onze horas. Meu coração aperta, mas não quero me deixar levar por pensamentos ruins. "Está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem" fico repetindo na minha cabeça como um mantra. 

Aninho-me novamente no sofá e vou adormecendo, torcendo para que esteja tudo bem mesmo. 

Logo o barulho a porta me desperta de novo, e mais uma vez resolvo continuar quieta para não começar uma conversa, eu só quero dormir. "Pelo menos ela fechou a porta" penso. 

Senta-se no mesmo lugar da ultima vez e igualmente puxa os cobertores para se tapar. 

A tempestade está muito pior agora, começo a pensar se não seria mais prudente tirar os aparelhos eletrônicos da tomada, mas a preguiça me vence. 

E então um estrondo muito forte me deixa atordoada ao mesmo tempo em que a televisão fica muda e a luz que escapava por baixo da porta se apaga. "Merda" penso um pouco antes de minha irmã gritar de seu quarto pedindo que vá acudi-la, "Bem, acho que ela ainda tem medo do escuro." 

Chego até a dar um sorrisinho, até perceber: se ela está lá em cima, quem está aqui comigo?


Autora: Luisa Moreira

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Alguém já ouviu falar do jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 6)

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PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4
PARTE 5



Desculpa a demora para atualizar. Estive ocupado seguindo algumas pistas sobre pessoas desaparecidas nos Estados Unidos. 

Bem, não tenho muito mais o que falar. Se tiverem alguma informação, me mandem. 

Obrigada pela ajuda, gente. Significa muito para mim.

***

O Jogo da Esquerda/Direita [RASCUNHO 1] 12/02/2017

O silêncio costumava ser pleno.

Isso é algo que faz falta para mim.

De volta ao mundo real, seria evidente que, um grupo de pessoas que não fala absolutamente nada, por definição, não poderia estar falando menos. Talvez as coisas sejam diferentes na estrada, talvez seja algo com que eu nunca tinha me deparado antes, mas ficou claro para mim agora que existem níveis além do silêncio. Um reino penetrante de um silêncio ensurdecedor que, depois de perdermos Eve e Apollo, nosso grupo abraçou sem contestar. Construído fora do nosso trauma coletivo, cimentado com uma mistura cruel de luto, culpa e uma insegurança angustiante, rapidamente fica aparente que esse silêncio é mais forte do que todos nós. O desafio de quebrá-lo permaneceu não atendido pelo resto da jornada.

Passamos as próximas horas nos esgueirando por um corredor dentro de um milharal sem muito o que se ver. As espigas se elevam bem além da altura do Wrangler, deixando apenas uma fina faixa de céu claro visível, como o teto uma igreja renascentista bem pintado. Me vejo olhando intermitentemente para o transmissor, meio esperando, meio que desejando, que a voz de Apollo fale pelo alto-falante, trazendo palavras de conforto, ou uma tentativa muito necessária de tranquilizar todos. 

Depois de me pegar olhando para o transmissor pela quinta vez, decido que a melhor coisa é trabalhar. Coloquei meus fones de ouvido no notebook, revisando os arquivos de áudio que gravei até agora, e comecei a recortar grossamente as gravações do nosso primeiro dia na estrada.

APOLLO (VOZ): Todo mundo conhece Rob, Rob é o deus! [risos]

Ouvi a primeira entrevista de Apollo, fazendo anotações sobre o paragrafo de fechamento que serei forçada a fazer sobre ele. Quando tinha tudo que precisava, ouvi a entrevista de novo, e depois mais uma vez. Eu sei que só queria ouvir a sua voz, me perder naquele eco digital prazeroso, bem distantes dos gritos frenéticos que se seguiram enquanto era engolido pelo asfalto.

Em seguida, ouvi a entrevista de Eve. Se eriça de tão animada enquanto fala sobre a viagem que faria para Roswell, tentando me recrutar para o passeio. Ela não tinha ideia de onde estava se metendo quando estacionou na frente da casa de Rob. Mas nenhum de nós sabíamos. 

O céu já estava em entonações alaranjadas quando comecei a ver nosso material sobre o caroneiro. É arrepiante ouvir a voz dele depois do fato, revisitar as amabilidades coniventes e veladas que empregou contra nós. Eu me encolho quando ouço Rob agarrar meu braço, envergonhada de quase me deixar cair na armadilha do caroneiro.

ROB (VOZ): Você foi bem, sinto muito por ter te segurado. Eu só não queria que você fizesse algo que fosse se arrepender. 

AS (VOZ): Não, tá tudo bem. Você sabe o que acontece se falarmos com ele? 

ROB (VOZ): Não tenho certeza. Cheguei perto uma vez, alguns anos atrás. O jeito que ele olha para você quando acha que conseguiu? Não sei se quero saber o que acontece.

AS (VOZ): Rob, eu-

Pausei o áudio, voltando dez segundos antes de apertar para tocar novamente. 

AS (VOZ): Não, tá tudo bem. Você sabe o que acontece se falarmos com ele? 

ROB (VOZ): Não tenho certeza. Cheguei perto uma vez, alguns anos atrás. O jeito que ele olha para você quando acha que-

Certamente não notei isso naquele momento. Estava tão abalada pelo meu encontro com o caroneiro, e tão curiosa por causa do carro abandonada que estava completamente cega e surda para outras coisas. Talvez Rob tinha se expressado errado, talvez quisesse ter dito dias ou semanas. Mas se não falou errado, foi um grande descuido, e Rob teria que se explicar.

O Jogo da Esquerda/Direita foi postado na internet em Junho de 2016, menos de um ano atrás.

Olhei para em direção dele, uma parede de milho correndo na janela enquanto nos aproximávamos da parada de descanso. Durante a viagem, todas as emoções que Rob demonstrara pareciam genuínas. A tristeza, a raiva, a preocupação. Contavam a história de um homem que se importava profundamente com o bem estar do próximo. Mesmo assim, ao mesmo tempo, estava claro que escondia algo de mim.

Com as novas peças desse quebra cabeça, o carro, a mensagem de texto, a criatura sem rosto com o celular tocando, fiquei deixada com o dilema de quando confrontaria Rob com o que eu sabia. Acho que já juntei coisas suficientes para falar, suficientes para demandar uma explicação, mas não há maneiras para eu confirmar suas respostas. Tenho uma coleção de noções estranhas e desconcertantes, faltando no tópico comum que poderia me levar a qualquer conclusão viável. Se vou confrontar Rob, preciso descobrir esse tópico. Assim como os maiores jornalistas do nosso tempo, preciso já saber as respostas antes de fazer as perguntas.

O jipe estacionou em uma grande área verde. Olhando fixamente para a frente, fico intrigada com a maneira como o chão parece parar, como se o horizonte estivesse a apenas vinte metros de distância do carro. Assim que o motor desliga, solto o cinto de segurança, desço e caminho em direção ao gramado. O resto do comboio pára atrás de mim enquanto vou.

Parei a poucos passos da borda, percebendo que tínhamos parado no topo de um penhasco. Uma vertigem súbita tomou conta de mim, me forçando a dar alguns passos para trás. Durante a viagem, não parecia que estávamos subindo um morro, a estrada parecia ter estado nivelada desde Júbilo, mas de alguma forma eu estava de pé na beira de um rochedo de 130 metros, que descia em uma parede reta, na distância uma terra tomada por milharais.

Porém, nem era isso a coisa mais estranha sobre aquele precipício monolítico. De todos os lados, o milharal ia até a beira do penhasco e, em sua base, a colheita continuava até se estender além do horizonte escurecido, em todas direções. Parecia que eu estava nos penhascos brancos de Dover, olhando por cima de um oceano dourado, suas ondas governadas pela brisa da noite. Por um momento, me pergunto aonde termina, considerando o novo mundo onde agora me encontro, começo a questionar se realmente termina.

Um grito alarmante me arrancou da apreciação da paisagem. A origem do som não pode ser vista pro estar bloqueada pelo Wrangler e, a primeira coisa que vejo quando vasculho ao redor com os olhos, são as expressões chocadas de Bonnie e Clyde. Assim que passo pelo Wrangler, meu rosto imita os deles. 

Lilith tinha prendido Bluejay ao lado do jipe, usando o antebraço para pressionar o torso da outra contra a porta. Seu outro braço tinha sido segurado pelas mãos do Bluejay, parado desesperadamente no ar antes que pudesse atingi-la no rosto. As duas gritam com os dentes cerrados enquanto Lilith luta furiosamente, tentando infligir qualquer tipo de golpes nela.

BLUEJAY: Sai de perto de mim, sua puta! ME SOLTA!

Dou alguns passos rápidos em direção das duas, enquanto Bluejay tentava chutar Lilith para longe. 

AS: Lilith, nó não podemos fazer isso... Jen...

Lilith nem se quer registrou minha presença enquanto continuava a atacá-la, ensurdecida pela sua respiração ofegante e gutural. 

AS: Jen! Não podemos fazer isso! Não depois que-

Antes de eu entender o que estava acontecendo, já estava olhando para o céu, minha cabeça nocauteada para trás pela forte cotovelada de Lilith em meu rosto. Uma dor quente e crua emerge em meu lábio inferir enquanto cambaleio para trás, levando as mãos até a boca. 

Antes de Lilith conseguir voltar a bater em Bluejay, Rob abre sua porta e dá dois passos largos em sua direção. Coloca apenas um braço envolta da cintura da garota e a tira do chão, carregando-a em segurança, porém com firmeza, até o Ford de Bonnie e Clyde, e então colocando-a de volta no chão. 

Eu pareço sempre esquecer o quão forte ele é. 

ROB: Caramba, não é hora pra isso!

LILITH: Retire o que disse!

Bluejay perde seu comportamento malicioso de sempre, mas ainda irradia uma aura de deboche. Em resposta a exigência de Lilith, Bluejay andou até o próprio carro e se sentou no capô. Pegou sua carteira de Malboro do bolso junto do isqueiro, acendendo um cigarro. Imagino que as brasas ardentes e as cinzas são as únicas companhias que desejava naquele momento.

Quando olho novamente para o grupo, Lilith já havia se afastado enraivecida. 

AS: O que ela disse?

BONNIE: Eu não ouvi nada. 

AS: Bonnie, o que foi que ela disse?

BONNIE: Ouvi algo sobre... disse que Lilith era... que nós eramos cúmplices. 

ROB: Caramba... Bristol, você pode...?

Observei Lilith, sentada na grama olhando além do precipício. Tinha começado a chorar, mas eu tinha noção que era algo que não devia ser interrompido. Parecia algo entre ela e Eve, um ato final de lamento que deveria ficar somente entre elas. 

AS: Sim... não se preocupe. Lidarei com isso. 

ROB: Ok. Eu vou cozinhar alguma coisa.

Uma hora se passou. Vagarosamente, Lilith fica mais calma, saindo da gritaria caótica para uma melancolia silenciosa.Terminando meu jantar, fui até ela. 

AS: É uma paisagem estranha.

Lilith olhou para mim. Sua expressão fica mais triste.

LILITH: Eu te machuquei... sinto muito.

AS: Tudo bem. Você deveria ver a outra garota como ficou.

LILITH: [risos tristes] sim, aposto que ela ficou em pedaços.

Me sento no frescor do chão ao lado de Lilith, olhando para baixo.

LILITH: Bluejay acha que sou cúmplice... pelo o que aconteceu com Eve.

AS: Eu ouvi.


LILITH: Ela achava que éramos idiotas, agora acha que estamos envolvidas na fraude... não faz sentido.

AS: Acho que precisa acreditar que esse lugar é uma mentira. Precisa que isso faça um sentido, e está ficando cada vez mais difícil para ela, então... De qualquer forma, Bluejay não devia ter falado isso. Só que ela é meio... acho que a palavra certa seria "perturbada". 

LILITH: Ela é uma puta safada.

AS: Hmm..é... tá. 

LILITH: Mas ela está certa... Eu a matei... e também matei Apollo. 

Olhei para Lilith, preocupada, sem saber o que ela queria dizer com isso. Seus olhos ainda estava trancados no horizonte. 

LILITH: A Sarah... ela não foi feita pra isso, ela sabia disso. Ela queria voltar hoje de manhã, mas eu quis continuar. 

AS: Não foi uma decisão só sua. 

LILITH: Foi sim. Ela... ela seguiu minha liderança. Sempre foi assim. Em tudo. E eu sei porque fazia isso. Eu sabia. Mas deixei continuar, porque era conveniente, porque era fácil... porque lá no fundo eu gostava de ter alguém por perto que... que pularia no fogo por mim. Cara... isso não está certo.

Lilith colocou as mãos no rosto. 

LILITH: Ela era fraca. Era ansiosa e tímida e... mas isso devia ser de boa, não é? A gente pode ser fraco, isso... mas eu fiz com que ela viesse comigo. Eu arrastei alguém que não podia mergulhar tão fundo quanto eu. E a última coisa que eu fiz foi mentir para ela e ela sabia disso.

Lilith respirou profundamente algumas vezes. 

AS: Como assim? 

LILITH: Eu não... hm, eu não... Eu a amava, mas você sabe.. como amiga. Sempre foi essa via de uma mão e... acho que ela não se importava, mas... de repente ela estava desaparecendo diante da porra dos meus olhos e falou o que falou... quero dizer, como diabos eu responderia aquilo? Eu tinha que dizer que a amava de volta, né?

Lilith mantinha a compostura enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas.

AS: Eu não sei o que eu faria nessa situação. 

LILITH: Eu pude ver nos olhos dela que não acreditava no que eu disse. Porra... Fico me perguntando quantas pessoas já morreram enquanto ouviam... mentiras reconfortantes. Quantos deles sabiam, porra? 

AS: Acho que você fez o melhor que pode. Acho que você fez melhor do que muitos fariam. 

LILITH: Você não precisa falar isso... está cansada? Quer ir dormir logo? 

AS: Não, tô de boa. 

LILITH: Tem algumas cervejas na... mala do Apollo. Isso é... roubar? Ou será que podemos? 

AS: Acho que ele ia querer que pegássemos, contanto que receba um brinde em seu nome. 

Lilith ri brevemente e finalmente sorri. Caminhou até o carro de Bonnie e Clyde, voltando pouco depois com fardinho.

Passamos a próxima hora bebendo lentamente. Lilith não conseguiu pensar nas palavras certas para um brinde, então apenas agradecemos a Apollo, levantando latas para os céus. Nós falamos sobre seu humor incansável, suas tentativas de nos manter acordados durante nossa primeira noite na estrada, com falava sobre todos com carinho, mesmo à beira da morte.

Também falamos sobre Eve, sobre as desventuras das duas, estranhas festas universitárias e o futuro do Paranormicon. Lilith sorriu e disse que sempre vai haver um lugar para mim lá, caso a rádio morra.


Depois de tudo o que aconteceu na estrada, aquela noite tinha um gosto agridoce. Mas pela primeira vez, em um penhasco solitário no meio do nada, era mais doce do que amargo. Isso pode não ser muito, mas no final de um dia horrível é mais do que qualquer um de nós poderia ter esperado.

A manhã seguinte passou rápida. É incrível como um grupo de pessoas pode ser eficiente quando nenhum deles tem vontade de conversar. Não só isso, mas o café da manhã se tornou uma tarefa ágil. Consigo comer metade de um saquinho de granola antes de me sentir desconfortavelmente cheia. Rob havia me dito de que a estrada deixava as pessoas mais saciadas, e lembrei disso enquanto olhava o grupo. Todos haviam comido pela metade. Lilith nem sequer comera. 


Depois disso, começamos nosso protocolo de lançamento. Apesar das nossas preocupações, e as brigas turbulentas que se instalavam entre nós, os carros se alinhavam enquanto se emergiam na estrada. Na verdade, o humor do grupo parecia estranhamente procedimental. Todos contatos de rádio começava com a indicação de um indicativo de chamada, seguido pela informação do destinatário. Os carros mantinham uma distância ainda mais cautelosa entre um e outro. Vimos com muita clareza o que acontece quando as regras são negligenciadas e ninguém mais queria arriscar.

AS: Falta quanto?

ROB: Falta quanto pra que?

AS: Você nunca chegou no fim desta estrada, certo? Quero dizer... você ainda está mapeando?

ROB: Isso mesmo.

AS: Bem, quanto tempo até chegarmos a… você sabe… em um território desconhecido?

ROB: Para ser honesto, falta pouco.

AS: O que vai acontecer quando chegarmos nesse ponto?

ROB: Vamos continuar dirigindo.


AS: Até o fim?

ROB: Esse é o plano. Você sabe que não vou te julgar se você quiser voltar. Tenho certeza que conseguiria convencer alguém.

AS: Eu poderia te convencer?

Rob sorri.

ROB: Não tenha medo. Esta viagem não é como as outras. A estrada está revidando como nunca vi antes. Acho que estou no caminho certo dessa vez.

AS:… Que lugar é esse, Rob?

Rob suspirou enquanto lentamente virava na próxima esquerda em um tranquilo entroncamento rural.

ROB: Acho que aqui é a linha... a linha que não entra no buraco da agulha. 

O rádio chia.


BONNIE: Rob, você pegou a rua errada. 

Um pânico instantâneo tomou conta do meu peito. Encarei Rob, e ele me encarou de volta. Eu sabia que estava sentindo a mesma coisa que eu, embora fosse melhor em manter a compostura.

Ficou pensando cuidadosamente por alguns segundos.

ROB: Não ... não. Eu já estive nessa estrada antes. Nós pegamos a direita da última vez.

AS: Uhhh ... sim. Sim. Viramos na direita a última vez, eu lembro.

ROB: Ferryman para todos os carros. Obrigado Bonnie por nos dar o susto de nossas vidas. Estamos no caminho certo ... estamos no caminho certo.

BONNIE: Não, não, isso não pode ser… está errado… Martin, fale para eles…

CLYDE: Erro nosso, Rob. Vamos continuar. 


LILITH: Bristol... 

Havia um tom de preocupação na voz de Lilith. Me inclinei para trás, tentando avaliar a atmosfera no carro atrás de nós. Havia claramente alguma comoção entre Bonnie e Clyde, com ele tentando remover gentilmente o walkie-talkie das mãos de sua irmã.


Mas havia outra coisa. Atrás de Bonnie & Clyde. Atrás de Bluejay. Uma placa antiga feita de madeira judiada pelo tempo está ao lado da estrada. Não consigo ler tudo enquanto as letras ficam cada vez menores, mas consigo juntar o que consegui visualizar. 

"Wintery Bay - 8 Km"

BONNIE: Nós vamos voltar, certo?

AS: Uhh, um segundo, Bonnie, vou verificar o mapa.

Prontamente desligo o rádio.

AS: Não vamos passar por Wintery Bay?

Rob se vira para mim, um olhar intrigado em seus olhos.


ROB: Passar por onde?

Com aquelas três palavras inocentes e inquisitivas, minha mente volta para a manhã de nosso terceiro dia na estrada. Assistindo Bonnie e Clyde passearem até Rob para confessar que falaram com o caroneiro, a conversa silenciosa que se passou entre os três, a resposta aparentemente reconfortante de Rob. Se fosse eu, teria ficado muito chateada. Poucos minutos antes eu havia mentido para Clyde... No entanto, nunca  parei para pensar que ele podia fazer a mesma coisa. 

AS: É seguro parar aqui?

ROB: O que? Por quê?

AS: É seguro, Rob?

ROB: Uh, sim, é pra ser.


AS: Então encoste o carro.

Liguei o rádio novamente e peguei o transmissor. Enquanto eu ligo para o carro de Bonnie e Clyde, fica claro que um argumento está sendo formando. Lilith está me chamando, uma passageira indefesa, presa no meio de algo que ela não entendia.

AS: Bristol para todos os carros. Estamos parando logo a frente.


Rob pareceu ciente de que aquilo não era uma brincadeira. Assim que paramos, abri a porta e pulei na estrada empoeirada, caminhando até o resto do comboio, que estavam começando a sair de seus carros. Cada passo que dou é movido por uma raiva consciente.

AS: Vocês não contaram para ele.

CLYDE: Bristol, eu...

ROB: O que está acontecendo, Bristol?

Rob caminhava atrás de mim, um pouco mais inquieto do que o comum, querendo entender meus motivos.

AS: Clyde?

Clyde olhou em volta para seus expectadores. Quando fala, não consegue olhar para ninguém.

CLYDE: Bonnie... Bonnie falou com o caroneiro.

A expressão de Rob muda, sua confusão se torna rapidamente em uma expressão de entendimento solene. 

ROB: Deus ... ah, puta que pariu. Você sabia disso, Bristol?

AS: Falei que eles deviam contar para você, isso no terceiro dia. Eu os vi indo falar com você, achei que tinham contado.

CLYDE: Bonnie... ela tinha medo que você fosse mandar que voltássemos. 

ROB: Bem, ela estava mais do que certa. Vocês viram o que acontece quando as regras são quebradas! Você deveria ter me dito o mais breve possível e ter voltado para casa!

CLYDE: Isso foi antes de Ace... antes de tudo. Eu não sabia que esse lugar era-

ROB: Regras são regras, Clyde! Tem alguma coisa errada com a Bonnie? Você disse que ela fica confusa as vezes... isso também era mentira?


Clyde não respondeu, evitando o olhar de Rob. Enquanto processo o que Rob acabava de dizer, tenho que expressar que estava surpresa com a desonestidade dos irmãos.

Quando pensei que estavam contando sobre o caroneiro para Rob, na verdade tinham falado que Bonnie era, em uma certa porcentagem, senil. Era uma mentira simples, mas que explicava adequadamente seu comportamento estranho, atraia a simpatia de Rob e, de maneira engenhosa, evitava que ele me contasse sobre a conversa. Uma verdade enterrada sob uma mentira desagradável, seu assunto sendo desconfortável o suficiente para impedir qualquer chance de discussão.

Ainda assim, deixava um gosto ruim na minha boca.

CLYDE: Podemos ir para casa se você quiser.

BONNIE: Não.

O grupo se vira para Bonnie. Ela fala em um tom mais decisivo do que eu pensava que era capaz.

BONNIE: Ele... o caroneiro... falou sobre um... sobre um lugar por qual acabamos de passar. Eu estava ansiosa para conhecer o lugar, só isso. Eu estou bem, mesmo.

AS: Você tem falado muito sobre esse lugar, Bonnie.

BONNIE: Parecia ser um lugar lindo, e eu estava triste por ter passado direto. Me desculpe por preocupar todos. Por favor, não nos faça voltar, Rob.

Rob olhou para os dois. Sua posição estava clara. 

ROB: Vamos parar um pouco cedo hoje. Vocês vão vir conosco até o ponto de parada, para descansar... então, amanhã você vão para casa. Vocês deviam estar se sentindo sortudos por estarem vivos e terem a oportunidade de voltar.

Rob voltou para o Wrangler, sinalizando que a discussão tinha acabado.


ROB: Lilith, você vai com a gente. 

Lilith nem sequer tentou esconder seu alívio enquanto se afastava de Bonnie e Clyde e sobia na parte de trás do jipe. Eu fiquei feliz de ver que Rob ainda estava cuidando dela, mesmo estando bravo. 

Além de sua força surpreendente, também tenho a tendência de esquecer o quão perceptivo pode ser.

Bonnie, Clyde e Bluejay voltam para seus respectivos veículos. Eu e Bonnie trocamos olhares, em um momento antes dela voltar para o Ford. Ela parecia realmente desapontada, mas por outro lado resignou-se a continuar, satisfeita em deixar Wintery Bay sumir ao longe. Era reconfortante saber que estava disposta a deixar aquilo para trás.

E era uma pena  que dessa vez eu não acreditava em uma sequer palavra que saiu de sua boca.


LILITH: Foi estranho pra caralho, Bristol.

Lilith parecia feliz por estar no Wrangler, aproveitando a sensação de segurança que o modesto gigante oferecia, e também muito aliviada por estar longe de Bonnie e Clyde. Ela passou os cinco minutos seguintes detalhando a discussão de trinta segundos que rolou no Ford, mapeando suas nuances perturbadoras, assim como sua conclusão sinistra.


LILITH: ...mas eu juro que ela estava basicamente chorando tipo... ela não entendia que não estávamos indo para o lugar errado. Mas então, assim que você parou o comboio, ela simplesmente parou. Não sei explicar, só... parou.

AS: Deve ter sido desconcertante.

LILITH: Você não tem ideia... Então, Rob, quando esses milharais terminam?

ROB: Em breve. Vamos parar para dormir daqui algumas viradas. Então, amanhã não vai demorar até entrarmos em uma trilha na floresta. 

LILITH: Na porra de uma floresta? Você está de brincadeira? Estamos falando algo tipo... arvores malignas que nem aquelas que pegam a branca de neve?

ROB: [risos] Queria poder te responder isso.

LILITH: Espera aí, o que você quer dizer?

ROB: Nunca cheguei tão longe. É um novo território. 

LILITH: Ah... maravilha. Talvez os milharais não sejam tão...

Lilith ficou quieta, paralisada por algo no espelho retrovisor, antes de se virar rapidamente para olhar melhor pelo para-brisa.


O carro atrás de nós estava fora de controle.

Bonnie estava lutando para arrancar o volante das mãos de seu irmão. O Ford deslizava loucamente atrás de nós, enlouquecido pela luta de poder que acontece lá dentro. Rob acelerou rapidamente para sair do caminho quando o carro de atrás vai para lá e para cá antes de derrapar e parar bruscamente. Rob pisa no freio com força, e no momento em que eu virei em sua direção, já estava batendo a porta do Wrangler, atravessando a pista em direção de Bonnie e Clyde.

ROB: Desligue o motor!

O motor do Ford ficou em silêncio e, na ausência de seu rugido estrondoso, novos sons surgiram. Barulhos de briga e de gritos desesperados e selvagens.

Saindo do carro pela segunda vez, pulei para a estrada e andéi até lá.

Rob estava tentando puxar Bonnie, que guinchava, para fora carro. Mesmo com sua força impressionante, parecia ser um desafio. Bonnie agarrava as paredes, tentando pegar no volante com todas suas forças.


BONNIE: Por favor! POR FAVOR! Me solta! Me solta!

Rob puxou Bonnie para fora do carro e tentou segurá-la em meio a uma enxurrada de mãos e cotovelos agitados. Ela se contorcia e chutava para todos os lados enquanto ele prende seus braços.

AS: Bonnie! Bonnie, se calme, tá bom? Vamos conversar.

BONNIE: Ele falou que era no caminho! Falou que íamos passar por lá!

ROB: Ele mentiu, Bonnie.

BONNIE: Não... não, estamos indo pelo caminho errado. Estamos indo pelo caminho errado!

Bonnie atacava novamente, atingindo as pernas de Rob com chutes. Rob a segurava com firmeza, seus dentes cerrados em cada impacto que recebia. 

Estava claro que Bonnie não ia desistir. Corri de volta para o Wrangler e abri o porta-malas. Depois de alguns instantes de remexendo na bolsa, encontro o estojo de primeiros socorros e tiro um pacote fechado de lacres de plástico. 


AS: Clyde, abra a porta.

Rob me viu ali com os lacres. Mesmo no meio da luta infinita com Bonnie, ele me olhou com um ar quase questionador, como se estivesse se perguntando como chegamos nesse ponto. Como se estivesse perguntando se iriamos realmente fazer o que eu estava sugerindo, mesmo sem palavras.

Bonnie respondeu essa pergunta para ele. Nos poucos segundos de distração, ela jogou a cabeça contra o rosto dele, provocando um baque repugnantemente alto e um grunhido de dor vindo de Rob. Atordoado e confuso, seu nariz começando a jorrar sangue imediatamente, mas Rob conseguiu manter os braços em volta dela. Mas estava claro que não ia conseguir ficar assim por muito mais tempo.


Clyde abriu a porta, recuando e nos olhando parecendo uma criança assustada enquanto levávamos Bonnie até o banco de trás do Ford. Eu se inclinei sob o banco, ajustando o encosto de cabeça do banco do carona até que estivesse pressionado contra o teto, garantindo que não pudesse ser abaixado ou removido. Em seguida, enrolei um lacre em volta de cada lado dos dois suportes e os prendi.

BLUEJAY: O que diabos está acontecendo?

Bluejay tinha saído do seu carro, vindo em nossa direção. Percebi que, para alguém que lutava para não acreditar em nada disso, a cena a seguir iria parecer, na melhor das hipóteses, como uma farsa melodramática e, na pior das hipóteses, como a tentativa de prisão de uma mulher inocente e angustiada.

Infelizmente, eu não tinha tempo para responder suas perguntas. Entrei no carro nos bancos de trás. Bonnie lutava contra nós enquanto Rob a enfiava depois de mim, sua mão na cabeça dela para evitar que batesse contra o topo do batente da porta.


Uma vez lá dentro, fiz uma segunda amarra com o lacre ao redor da que já havia prendido no suporte direito, forçando sua mão direita par dentro. Puxo a aba plástica sobre a manga do suéter dela.

Esperei que não estivesse muito apertado, mas no mínimo seguro o suficiente para mantê-la no lugar. Bonnie continua a puxar as amarras, mas estava claro que suas forças já estavam esgotando por tanto ter lutado contra Rob.


Sem conseguir olhá-la nos olhos, empurro uma pilha de malas para o lado e escalo e saio pelo outro lado. Rob e eu ficamos um tempo recuperando o fôlego, ele mexendo o nariz, acostumando-se com a sua nova dor. 

BLUEJAY: Ei, mas que porra... vocês não vão deixá-la assim, né?

AS: Volte para o seu carro, Bluejay.

Volto para o Wrangler, dando as costas para os protestos grosseiros de Denise. Rob foi até o porta-malas ainda aberto do jipe e pegou uma pilha de cobertores e travesseiros. No retrovisor, vejo-o colocando-os no colo de Bonnie, dando-lhe um lugar para descansar os braços. 


Ela encosta a testa na parte de trás do encosto de cabeça. Mesmo com o rosto tapado, pude ver que estava chorando.

Chegamos no ponto de descanso cerca de vinte minutos depois, o contorno vago de uma floresta verde-escura desabrochava no horizonte. Era mais cedo do que nosso horário de parada de costume. Rob disse que quer o dia inteiro amanhã para mapear a floresta, assim como o bom tempo de folga para sair de lá, caso houvesse necessidade. Não estou reclamando, mas estou feliz pela chance de descansar depois dos eventos de hoje.


Durante o resto do dia, nós nos revezamos para ficar de olho em Bonnie, certificando de que ela tivesse tudo que precisasse. Quando o Ford parou ao nosso lado, Lilith, Rob e eu esperávamos ver uma cena absurda, tipo elase debatendo e puxando incessantemente suas amarras. Ficamos todos surpresos e mais do que um pouco perturbados ao encontrá-la sorrindo. Quando chegou meu momento de vigília, o sol já está mergulhando na escuridão. Rob preparou um pequeno pote de sopa de missô para o caso de alguém conseguir comer. Terminei minha tigela, muito consciente de quão desnecessária cada refeição agora se parecia, e vou até Bonnie.

Eu a encontro de bom humor.

BONNIE: Como você está, Alice?

AS: Estou bem. Como você está, Linda?

BONNIE: Estou bem. Desculpe por ter surtado mais cedo. Estou me sentindo mal por isso. 

AS: Tudo bem, sério. Sinto muito sobre... sobre tudo isso.


Gesticulei para as restrições de lacre em seus pulsos. Rob tinha recolocado-os, colocando bandagens em baixo das tiras de plástico para ficar mais confortável. Ainda assim, a cena parecia ser uma barbaridade a qual nenhum gesto de gentileza poderia compensar. 

BONNIE: Tudo bem. Eu não era eu mesma.

AS: Eu te trouxe sopa. Eu sei que talvez não esteja com fome, mas...

BONNIE: Não, não, eu adoraria, obrigada. Todo mundo está sendo muito bom comigo. 

AS: Só queremos ter certeza de que você está bem.

Submergi a colher, peguei um pouco do caldo e levei até perto de seu rosto.

BONNIE: Ah não, não precisa ... eu posso me alimentar...

Gesticulou para as mãos atadas, a implicação clara pairando no ar.


AS: Não, realmente não me importo. Acho que é-

Bonnie jogou seu peso para o lado, seu cotovelo batendo na tigela e a jogando para longe das minhas mãos. Minha jaqueta ficou toda molhada de sopa, muito, muito quente, e encharcou o tecido. A expressão de Bonnie piscou como uma lâmpada defeituosa, de uma tranquila bondade para um desdém surpreendente. Essa expressão desapareceu de seu rosto tão rapidamente quanto tinha aparecido, antes que todo mundo olhasse para nós.

BLUEJAY: O que você está fazendo com ela?!

Bluejay passou tempestuosamente em frente ao carro, furiosamente fumando um de seus Marlboros e soltando a fumaça draconicamente no ar.

AS: Eu não fiz nada. Foi um acidente. 

BONNIE: Tudo bem, Bluejay, foi minha culpa.

BLUEJAY: Ela derrubou em você?

Bluejay se inclinou e colocou sua mão confortavelmente na de Bonnie, antes de virar para mim e me olhar como se eu fosse uma assassina. É quase impressionante como, mesmo quando cuidando de alguém, Bluejay ainda consegue ser simultaneamente venenosa com o resto do grupo.

BONNIE: Não, não, tudo bem, foi minha culpa. Está tudo bem. Desculpe por ser um problema.

Bluejay riu do pedido de desculpas submisso de Bonnie, incapaz de acreditar no que ela estava pensando. Seus olhos permanecem fixos em mim.


BLUEJAY: Você é uma covarde. Olha o que ele está fazendo você fazer. Olhe!

Meus olhos seguem para onde estava gesticulando. Tenho que admitir que a imagem desamparada de Bonnie, contida no banco de trás do Ford, é de uma inumanidade absurda, e ser forçada a encarar essas minhas escolhas me fazem sentir macabra. 


As escolhas que fizera pareciam absurdas para Bluejay, mas isso não significava que as dela não eram. Apesar de suas pretensões de racionalidade, não posso deixar de sentir que as ações de Bluejay estavam sendo simplesmente governadas por um tipo diferente de loucura. Uma insanidade nascida da necessidade desesperada de explicar o inexplicável, que se transformou em um coquetel de paranoia, auto-grandeza e antagonismo fervoroso.

Bluejay observou minha expressão silenciosa, provavelmente tomando como uma vitória pessoal. Sem falar mais nada, voltou para o carro e se fechou lá dentro, sufocando-se silenciosamente e solitariamente.

BONNIE: Você quer saber a melhor parte, Alice?

Bonnie se inclinou para mim, abaixando a voz para que ninguém mais pudesse ouvir.

BONNIE: Ele me disse que existe uma casa... esperando por mim. Minha casa à beira mar.

AS: Desculpa, Bonnie. Mas não acho que isso é verdade.

BONNIE: Vai ser um lugar tão lindo. Um lugar tão lindo.

Bonnie me deu  um largo sorriso.


BONNIE: Foi lindo conhecer você, Alice.

Bonnie se virou para o outro lado, colocando a testa de volta no encosto de cabeça. Seu sorriso não desaparece quando me afasto. Andei de volta para o Wrangler, avaliando se trocava minhas roupas por algumas limpas ou colocava meus pijamas termais. 

Depois de tirar minha jaqueta e me deitar por um momento, acabei dormindo nas roupas que estava usando.

Quando eu acordei, o Wrangler já estava em movimento.

O colchão de ar se remexia e meu corpo balançava enquanto fazemos uma volta em U. Sento rapidamente, Lilith acordando ao meu lado, com os olhos igualmente turvos e confusos.


Rob estava ao volante. A alavanca de câmbio tremia enquanto nos transporta pela estrada em uma velocidade incrível.

AS: Rob, o que está acontecendo?

ROB: Bonnie se soltou. Ela está voltando.

Me arrastei até o banco do passageiro, me sentindo tontamente desperta. 

LILITH: Quê? Como ela se soltou?

AS: Ela está com Clyde?

ROB: Ela bateu na cabeça dele, arrastou para fora do carro. Eu não podia esperar por ele, mas ele está vindo.

Lilith e eu nos viramos. O carro do Bluejay estava se aproximando de nós, um par distante luzes que banhavam a janela traseira com uma luz constante.

LILITH: Por que o Bluejay está ajudando?

AS: Provavelmente para ficar de olho em nós. Rob, você acha que vamos conseguir alcançá-la? 


ROB: Estou tentando.

O Wrangler continuava a disparar através da escuridão. Mantemos os olhos fixos na frente, examinando o horizonte, procurando qualquer sinal de Bonnie. 

Quando Bluejay se aproxima, dou uma olhada nos dois. Bluejay é um poço de determinação, dedicando-se a alcançar Bonnie antes de nós. Clyde parece mortificado, abalado pelas ações da irmã, uma pequena contusão em sua cabeça marcava a absurda traição.


Os freios do Jipe guincham quando chegamos no cruzamento. Os faróis do Bluejay já estavam iluminando o caminho que ia para Wintery Bay, e a plataforma de iluminação de Rob cobre toda a área em um crepúsculo artificial. No meio de tudo isso, vemos Bonnie, ao lado de seu carro, sorrindo.

Ela já tinha passado dos limites da rua. 

CLYDE: Linda! Linda, por favor... volte, agora, tá bom?

BONNIE: Vocês podem vir comigo. Há um lugar para todos nós. Ele me disse. Existe um lugar para todos.

CLYDE: Por favor, Linda. Você tem que voltar.

Um estranho rastro de poeira negra se espalha pela pele de Bonnie, subindo no ar e dançando com brisa. Depois de um momento, fica claro que a carne de Bonnie está se deteriorando, convertendo-se silenciosamente em cinzas escuras e flutuando pela atmosfera.

BONNIE: Eu te amo muito, Martin. Você é sempre será bem-vindo.


CLYDE: Não, por favor... por favor.

Bonnie entrou novamente no carro. Sem olhar para trás, se afastava pela estrada em direção de Wintery Bay. Um rastro de partículas pretas subia por cima Ford enquanto ia, cada vez mais, enquanto todo o carro começou a sumir diante de nossos olhos. Menos de um minuto depois, o Ford, com Bonnie dentro, gradualmente virou apenas pó e se dispersou pelos ventos.


Clyde não falava. Seu ser era quietude. Lilith imediatamente correu de volta para o Wrangler. Rob esperou um pouco, olhando a nuvem de poeira dançante, antes de colocar o braço em torno de Clyde e gentilmente escoltá-lo até o jipe.

Quando me afasto da estrada de Wintery Bay, percebo a reação de Bluejay. Parecia estar absolutamente petrificada, nunca tinha a visto daquela forma. Impulsivamente tirou o pacote de Marlboro do bolso e os segurou nas mãos, depois devolveu ao bolso, sem fumar.

A noite passou lentamente depois que voltamos para a parada de descanso. Todos nós estamos exaustos e mais do que dispostos a nos entregar ao escapismo do sono. Rob descansa no banco do motorista, abrindo espaço no colchão de ar para Clyde. Todo mundo cai rápido em um sono tranquilo, fico então acordada, sozinha com meus pensamentos. Me encontro pensando em Bluejay, em como tentaria racionalizar o que acontecera com Bonnie e seu carro.


Me pergunto como eu me sentiria se mais tarde o jogo Esquerda/Direita fosse um inigualável truque de mágica. Me sentiria burra? Não, acho que não. Impressionada, talvez. Aliviada? Definitivamente. Na verdade, quanto mais penso nisso, mais sinto falta dos inocentes dias em que acreditava que o jogo era uma farsa. Acho que entendo por que Bluejay é tão inflexível em acreditar nesse lugar; Um truque de mágica, por mais elaborado que seja, é quase sempre uma alternativa preferível ao terror da verdade. 

A porta do jipe é aberta e fechada.

Parte de mim tenta ignorar, queria não fazer mais parte de tudo que envolvia aquela noite absurda. No entanto, como havia sido expulsa do reino do sono, lentamente me sento, colocando minhas botas em silêncio.

Saio para o frio da noite, observando a figura diante de mim.


AS: Onde você está indo, Clyde?

Clyde se virou em minha direção, inicialmente interpreto seu olhar como conformação, mas esse palavra não se encaixa. A renúncia é uma derrota, o mundo exige que você cumpra seus próprios desejos. Mas o homem diante de mim estava tão calmo quanto o ar da noite em volta de nós. Seus desejos são seus. Não há derrota em seus olhos, mas algo completamente diferente... paz, talvez.

CLYDE: Você sabe para onde estou indo, Alice.

Clyde falava baixinho, uma convicção silenciosa por trás de cada palavra que diz. Olho brevemente para o Wrangler, imaginando se estou realmente preparada para lidar com isso sozinha.

CLYDE: Não o chame. Cometi o erro de voltar para cá. Eu não deveria ter voltado... por favor. Apenas me deixe ir.

AS: Clyde, espere até amanhã, pode ser? Ele vai entender. A gente volta e te leva para casa.

CLYDE: Minha casa já não sera mais um lar.


O olhar gentil de Clyde me deixa em silêncio.

CLYDE: Linda já foi casada. Ele era um bom homem. Morreu jovem. Ela nunca mais conseguiu procurar outra pessoa e eu... nunca encontrei quem estava procurando. Nós moramos juntos há sessenta anos. Sessenta anos. Tenho que ser honesto, mesmo depois de tudo que passamos, tudo que você e eu vimos, eu nunca havia sentido que realmente estava em outro mundo, até agora. 

AS: Não posso deixar você fazer isso, Clyde.

CLYDE: Me desculpe, Alice, mas não é uma escolha sua.

Clyde respira profundamente o ar frio da noite, exalando através de seu nariz.

CLYDE: Eu gritei para ela voltar, quando correu para roubar o caminhão de sorvete. Continuei chamando e chamando. Gastei muita energia tentando fazê-la voltar para mim. Depois de um tempo percebi que não voltaria... que eu teria que segui-la. Eu deveria ter percebido isso antes. É tudo que posso fazer... segui-la para onde quer que for.

Clyde olhou para mim, quase se desculpando.

CLYDE: Adeus, Alice.

Ele se afastou do comboio e voltando pela estrada.

AS: Clyde.

Ele se vira uma última vez.


AS: Você quer companhia?

Demoramos cerca de uma hora para voltarmos até cruzamento. Nesse tempo, sou agraciada com as histórias de Bonnie e Clyde. Os fragmentos mais calorosos de suas vidas juntos, tudo que construíram, as ondas que os abalaram e os lugares que chamaram de lar durante a vida. Acho que nunca poderei concordar com o que Clyde estava fazendo, mas quanto mais falava, mais eu o entendia.


Suas histórias abrangiam mais de meio século, apoiadas por um elenco transitório de conhecidos e amigos, mas no centro de cada história haviam dois irmãos que eram o mundo um do outro. O par existia como duas almas relativas, quantificáveis apenas em relação uma à outra. Na ausência de um, o remanescente não era nada. Um ponto flutuante, sem âncora no espaço.

As histórias terminam assim que alcançamos a junção.

AS: Espero que ela esteja lá.

CLYDE: Espero que sim. Obrigado por vir comigo, sei que é tarde.


AS: Não precisa agradecer... sempre é bom acompanhar um amigo.

Clyde sorri para mim uma última vez antes de se virar para a estrada. Ele pisou no limite, passando pela velha placa de madeira. No silêncio da noite, não ouvi nada a não ser seus passos suaves e a brisa silenciosa, que depois de alguns minutos leva o último de seu ser ao céu aberto.

Foi uma longa caminhada voltando para o comboio. Minha mente estava entorpecida pelo medo enquanto fazia meu caminho através da escuridão, o milho sussurrando ao vento em minha volta.

Já se passaram quatro dias desde que cheguei na casa de Rob Guthard, sentei com ele e o ouvi falar sobre o novo mundo que havia descoberto. Nesse meio tempo, vi coisas que não compreendo, imagens que existem apenas além do espectro de nossa realidade. Coisas que eu jamais teria considerado possíveis.

Pelo que sei, existe um lugarzinho chamado Wintery Bay e Bonnie já deve ter chego em sua casa à beira-mar, parada na soleira, esperando com a certeza de que logo seu irmão irá chegar. 


É provável que eu nunca venha a saber. Mas espero que se encontrem, onde quer que estejam.

FONTE

PRÓXIMA QUARTA-FEIRA (05/09/2018), Alguém já ouviu falar do Jogo da Esquerda/Direita? (PARTE 7) ESTARÁ DISPONÍVEL A PARTIR DAS 08H00! 

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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