Irmãzinha

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É uma sexta feira à noite, e o costume é meu pai chegar mais tarde pelo maior congestionamento da estrada, mas já passa das nove e eu começo a me preocupar. 

Tento me manter tranquila convencendo-me de que por ser o dia anterior ao começo das férias de inverno, ainda mais tão chuvoso, era normal ele demorar mais. 

Bem, a tempestade também explicaria seu telefone fora de área, está tudo bem sim. 

Se estiver tudo bem, tenho o direito de voltar a ficar mal humorada por estar presa em casa cuidando de Isabela - minha irmã de treze anos -, não preciso sentir culpa por isso, não é mesmo? 

Como meu pai ainda não chegou, providencio a janta para nós duas, porém a louça suja eu deixo na pia como forma de protesto. 

Está tão frio e eu só quero descansar um pouco, então deixo Isabela ver um filme em seu quarto. 

E quanto a mim, coloco um pijama e vou até a sala onde faço o meu ninho de almofadas e cobertores, ligo a televisão e me deixo relaxar. 

Vou adormecendo num sono tão leve que qualquer barulhinho me acordaria, viro de costas para a televisão e enfio minha cabeça no encosto do sofá a fim de driblar a luz e o barulho. 

Meu descanso é interrompido pelo som da porta de correr deslizando com dificuldade no trilho, mas eu estou tão cansada e não quero ser incomodada pela Isabela, então resolvo fingir que não acordei. 

Sinto-a sentar do outro lado do sofá e puxar as cobertas para si, o que me incomoda um pouco porque me destapa, mas mesmo assim permaneço imóvel. 

Poucos minutos se passaram, mas eu já estou totalmente sonolenta quando escuto a porta se abrindo novamente, mas não a escuto fechar. Quando me viro a vejo aberta e grito para a minha irmã fecha-la, mas como sempre ela não acata meu pedido. 

Está muito frio, se deixar a porta aberta o ar quente da estufa vai sair. 

Mal humorada pelo sono interrompido me enrolo no cobertor e vou repreendê-la por essa mania de portas abertas. 

Mas quando chego no seu quarto ela está deitada parecendo muito compenetrada nos desenhos no notebook, para chamar a atenção dou duas batidas no batente da porta, minha irmã nem se vira, só me dirige um "o que tu quer?". Minha raiva boba já se dissipou, mas ainda estou um pouco incomodada com essa mania recorrente, então só digo que tive que levantar para fechar uma porta que Isabela poderia ter fechado quando passou por ela e pedi que da próxima vez isso não se repetisse. 

E ela me responde com "Que isso? Ta enlouquecendo? Eu tava aqui o tempo todo! Achei que teríamos mais tempo antes de tu ter Alzheimer também." Nossa, que surpreendente, sempre muito engraçadinha. Rebato afirmando que sei muito bem o que ouvi, a porta abrindo, e o que senti, os cobertores sendo puxados. 

Ela começou a rir dizendo "quer saber, eu sei muito bem o que tu ta fazendo, tu quer me deixar com medo, mas não vai funcionar. Eu não sou mais tão idiota e tu não me assusta mais." 

Muito a contragosto volto para a sala sabendo que aquela conversa não teria fim. Penso que deve estar pregando uma peça em mim, mas até mereço. Quando era pequena gostava de assusta-la, contar histórias de terror ou chegar de fininho e gritar. Uma vez até consegui convencer uma amiga dela que eu era uma bruxa e poderia amaldiçoa-la. 

Já na sala desligo a luz e deixo o barulho da televisão o mais baixo possível. Num estalo lembro que meu pai ainda não chegou e confiro o relógio, quase onze horas. Meu coração aperta, mas não quero me deixar levar por pensamentos ruins. "Está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem" fico repetindo na minha cabeça como um mantra. 

Aninho-me novamente no sofá e vou adormecendo, torcendo para que esteja tudo bem mesmo. 

Logo o barulho a porta me desperta de novo, e mais uma vez resolvo continuar quieta para não começar uma conversa, eu só quero dormir. "Pelo menos ela fechou a porta" penso. 

Senta-se no mesmo lugar da ultima vez e igualmente puxa os cobertores para se tapar. 

A tempestade está muito pior agora, começo a pensar se não seria mais prudente tirar os aparelhos eletrônicos da tomada, mas a preguiça me vence. 

E então um estrondo muito forte me deixa atordoada ao mesmo tempo em que a televisão fica muda e a luz que escapava por baixo da porta se apaga. "Merda" penso um pouco antes de minha irmã gritar de seu quarto pedindo que vá acudi-la, "Bem, acho que ela ainda tem medo do escuro." 

Chego até a dar um sorrisinho, até perceber: se ela está lá em cima, quem está aqui comigo?


Autora: Luisa Moreira

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Padrão - Capítulo 4

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Minhas mãos estavam frias e minha pulsação batia a mil por segundo. Eu agarrei o saco de café sobre a bancada e o deixei cair no chão, esvaziando-o por completo no meu piso de madeira recém encerado. Confusão, a palavra que definia minha mente no momento. Eu tinha acabado de voltar da cena do crime, o garoto com a cabeça mutilada.

Dessa vez, encontrara o saco ao lado de uma xícara cheia pela metade de café.

Ainda trêmulo, agarrei a ponta do saco e o joguei no lixo, limpando o chão com uma vassoura após isso. A paranoia estava começando a me consumir, o sentimento verdadeiro de que algo está errado, de que você está perdendo sua sanidade aos poucos, era isto que eu estava sentindo.

Sentei em frente ao meu computador e passei horas procurando algum tipo de terapeuta ou psicólogo. Eu precisava descarregar um pouco.

As memórias invadiram minha mente e eu não pude fazer nada a não ser chorar. Lá estava eu, há muitos anos atrás. Um frágil garoto esquelético, sentado no banco do trás do Chevette verde do meu pai. Uma das poucas vezes em que me levara para sair. Estava perto do natal, o frio inundava a região e meu nariz escorria.

- Venha Adam. Preciso dar uma olhada em seu tio-avô. Sabe, esse velho já está no fim de seus anos, então por favor, seja legal com ele. - Meu pai disse do banco da frente, me olhando pelo espelho retrovisor.

Eu assenti e em seguida ele estacionou o carro em meio a uma leve neblina gélida, no meio de uma estradinha deserta. Dormi a viagem inteiro, então não fazia ideia de onde estávamos.

Pisamos sobre a grama fresca e úmida e meu pai me guiou por uma pequena trilha de terra, nos levando a um terreno enorme, um sítio.

- Droga! Entrou uma farpa no meu dedo. Coisa velha idiota. - Ele exclamou depois de abrir o portãozinho de madeira.

Adentrei na grama alta e mal cortada e caminhamos lentamente até a minúscula casa de cimento e madeira. Fora construída pelo meu tio-avô décadas antes.

- Eu vou só dar uma olhada nele, pode dar um volta por aí. - Meu pai avisou e entrou pela porta barulhenta.

Meu tio-avô tinha várias plantações e uma pequena quantidade de gado. Ele costumava vender suas frutas, verduras e grãos para restaurantes, mercadinhos e essas coisas. O terreno era enorme, comprado por ele na época em que fazendas davam um bom lucro. Na minua cidade pelo menos, ainda dá para se manter bem, nós valorizamos muito a agricultura por aqui.

Eu podia ouvir mugidos distinguíveis de vacas, perto demais. Não pareciam estar dentro do celeiro. Como eu era apenas uma criança comum, ignorei o fato e continuei andando pela plantação de grãos. Depois de passar por uma extensa floresta de milho, com algumas espigas pisoteadas (fato que estranhei na época até entender o que havia acontecido), cheguei nos grãos de café.

A plantação estava um caos, com folhas pisoteadas por toda parte e terra socada. Eu fiz uma careta e continuei andando pelo campo, ignorando por instantes o fato das vacas estarem caminhando livremente, o que respondeu minhas dúvidas sobre o que acontecera. Meu tio-avô ficaria furioso. A agitação tomava conta de todas, então fui obrigado a me aproximar pela típica curiosidade infantil.

Elas mugiram e se empurraram enquanto eu chegava perto. Lá estava meu tio, em uma curta distância de seus cascos, totalmente pisoteado e ensanguentado. Não havia possibilidade dele estar vivo. Suas pernas estavam dobradas de uma forma que humanos normais não conseguiriam reproduzir. Seus olhos não estavam mais lá e o rosto estava extremamente desfigurado. Grãos de café cobriam seu corpo, alguns pisoteados se misturando ao sangue e à carne. Gritei e corri de volta para o meu pai, chorando copiosamente como qualquer outro ser humano normal.

Com este evento, eu abandonei totalmente a vontade que eu algum dia teria de tomar café.

Lembranças agora foram substituídas por números. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas isso não impediu que eu revisasse anotações e pastas.

18, 3, 7, 5, 1.

Minhas deduções foram interrompidas por uma notificação na tela do meu computador. A foto de um homem apareceu. Era um psicólogo aqui na região. Comemorei em silêncio e peguei meu telefone, discando o número que aparecia na tela.

Depois de breves minutos, eu finalmente consegui marcar uma consulta para três dias depois.

Enquanto lia os números, pensei na possibilidade de um código. Poderia ser um código numérico, provavelmente dando algum tipo de pista.

Eu anotei a dedução em uma folha do meu bloco de notas e comecei a conversão dos números.

18 - R
3 - C
7 - G
5 - E
1 - A

Eu não fazia ideia de como havia chegado tão rápido àquela dedução, e alguma coisa dentro de mim me dizia que aquelas letras poderiam significar algo, mesmo embaralhadas. Eu sentia isso tão nitidamente quanto qualquer outro sentimento.

Escrevi as letras que conseguira no meu bloco de anotações e acabei caindo no sono em seguida. Talvez eu tenha feito algo antes disso, mas não consigo me lembrar.

Autora: Sofia NAQ

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Minha Filha

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Há dois anos eu perdi tudo. 

Em uma de minhas raras, e última, noitada com os amigos um sádico invadiu minha casa onde estavam minha mulher e filha. 

Sempre irei me culpar. 

Eu deveria estar lá, deveria protegê-las. Mas fui comemorar o resultado de um jogo ridículo. Fui tão estúpido. 

Mas como eu poderia imaginar que algo assim aconteceria conosco? Algo tão brutal, tão distante da nossa realidade. 

Achava que coisas assim somente aconteciam em filmes de terror. 

Não foi um simples assalto. Ele tirou muito mais do que bens materiais da minha família. 

Pois depois dos horrores daquela noite, minha esposa não conseguiu resistir e sucumbiu. Ela ainda vive, mas não está mais lá, não é mais ela. 

Tornou-se só mais um corpo na ala psiquiátrica de um hospital qualquer. 

Eu quero ajudá-la, quero tê-la de volta. Entretanto, preciso admitir que a minha sanidade também não se manteve por completo. 

Porém, diferente dela, não quero me entregar, não posso, mesmo sendo tão difícil viver com isso. 

Ainda mais depois do que a minha filha sofreu. 

Estava revivendo em minha mente aquela noite, a notícia, o desespero...; quando escuto passos leves no corredor. 

Uma pequena mão empurra a porta deixando um pouco da luz entrar. 

- Papai, está acordado? - Ouço a voz de minha filha, parecia assustada. 

- Tudo bem, meu amor? - Pergunto sentando-me na cama. 

- Acho que tem mais alguém na casa. - Seus grandes olhos infantis deixam claro o medo. 

Não posso deixar algo acontecer novamente com ela. Já falhei uma vez em protegê-la, não posso permitir que se repita. 

Salto da cama abrindo a gaveta em busca de minha arma. 

Nossa casa é pequena, então não demora muito para assegurar-me de que tudo estava bem. 

De volta ao quarto, onde Helena me esperava encolhida na cama, expliquei a ela que não havia mais ninguém na casa. Mesmo assim continuava apreensiva, algo totalmente esperado depois de tudo o que aconteceu. 

Ela pede para dormir comigo, fico feliz por pelo menos ainda fazê-la sentir mais segura em minha presença. Sou seu pai afinal, é o meu dever cuidar dela e evitar o seu mal. 

Tarefa na qual falhei miseravelmente. 

Adormeço com minha filha em meus braços, contudo acordo segurando somente sua boneca preferida suja de terra, a boneca com a qual foi enterrada.


Autora: Luisa Moreira

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Padrão - Capítulo 3

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Eu levantei meio grogue às exatas 5:05 da manhã. Virei para minha cômoda e coloquei meus óculos, soltando uma fraca tosse e me levantando da cama bagunçada.

Não conseguia me lembrar do que houve na noite anterior, nem como cheguei ali.

Fitei a foto no porta retrato ao lado da minha cama. Uma fotografia minha abraçado com minha ex-esposa. Eu deveria tirar aquilo dali.

Ela me deixou faz alguns meses (ou dias, não me lembro bem). O fato é que eu era extremamente apaixonado por ela, quase obcecado, mas em sua mente, meu amor era o equivalente a um fósforo usado. Depois de mais de 1 ano e meio casados, ela simplesmente foi embora, alegando que "seu amor havia acabado" e "queria viver sua vida em paz". Quando minha ex-mulher terminou de ajeitar suas malas em uma tarde de sábado, eu a agarrei. Segurei seu braço com tanta força, as lágrimas grossas e quentes escorrendo pelas minhas bochechas, caindo sobre meus lábios agora secos e rachados.

Meu olhar se dirigiu à ela, como se estivesse penetrando até sua alma. Mas estava irreversível. Ela soltou seu braço com força e em seguida mergulhou em sua nova vida de solteira.

Minha amada Grace, me deixou friamente, sem remorso algum. Me cobriu com um véu gélido de angústia e solidão. Mas eu não podia fazer nada. Queria, mas não podia obrigá-la a ficar.

Caminhei a passos lentos e bambos até a cozinha, preparando meu chá e tomando um gole do líquido quente em seguida. Ele desceu pela minha garganta e senti o gosto amargo. Era café. Eu não tinha checado o interior da xícara antes de despejar meu chá nela.

Rapidamente cuspi na pia e tive ânsia de vômito. Café com chá, a pior combinação possível.

Enchi as mãos com água corrente e gargarejei, cuspindo na pia em seguida.

Aquela foi uma experiência no mínimo estranha, porque eu não tomo café. Não há maquinas, filtros ou sacos de pó em nenhum lugar do meu pequeno e velho apartamento.

Nervosamente vasculhei todos os armários da cozinha a procura de algum saco de café (em minha mente, eu desejava não encontrá-lo).

Nada havia sido achado, até que eu abri o último armário. A parte inutilizada da minha cozinha, eu não morao sozinho e não tenho muitos amigos, então não há muitas coisas a se guardar.

A portinha de madeira abriu com um incômodo rangido, revelando um tapete de poeira e teias de aranha. Bem no fundo, era possível ver um pequeno saco vermelho de café preto. Meu coração começou a pular no meu peito, como se quisesse correr e subir pela minha garganta. Minhas mãos escorregaram no puxador e eu comecei a suar frio, mesmo sendo uma manhã gélida de inverno.

Trêmulo, tirei o pequeno saco de lá. Mas antes que eu pudesse jogá-lo no lixo, o som do telefone ecoou por todo o meu apartamento.

- Alô?

- Oi, Adam! Sou eu, delegado Joseph. Ontem a noite aconteceu outro assassinato, e eu suspeito que o culpado seja o serial killer que estamos procurando. Venha para a delegacia agora mesmo.

-Ah, ok. - Disse, quase deixando o telefone escorregar por minhas mãos suadas.

Eu ignorei por instantes o fato do café e dei preferência ao caso policial. Corri até meu quarto, vesti um suéter e uma calça jeans e em seguida dirigi meu Palio pela pequena cidade fria. O céu começava a soltar seus primeiros raios de sol por brechas no pálido. Uma típica manhã de inverno.

- Que roupa é essa que você está usando, garoto? - O delegado proferiu em tom de deboche assim que entrei em sua sala. - Quem custurou esse suéter pra você, sua tia?

- Er... eu comprei em um bazar de garagem. - Respondi soltando um sorriso envergonhado.

- Eu estou brincando com você, Adam. - Joseph falou, soltando uma gargalhada alta. - Vamos nos concentrar no que temos aqui. Devemos visitar a cena do crime.

Eu assenti e em seguida nos dirigimos a um carro policial. O local ficava a alguns minutos dali. Logo que chegamos, fomos recebidos por uma quantidade grande de jornalistas, fotógrafos e policias, que tentavam sem sucesso afastá-los da cena.

O delegado finalmente se pôs disposto a responder questionamentos de repórteres, uma tentativa de acalmar a pequena multidão que se formava ao nosso redor.

Eu dei as costas para ele e comecei a averiguar a situação. Como era recente, a vítima estava apenas caída sobre o chão de concreto úmido. Ela se encontrava ao lado de uma floresta densa, se árvores altas, escuras e amedrontadoras.

Era uma estradinha deserta, então raramente carros passavam por ali, o que descartava a possibilidade de pelo menos uma testemunha ocular.

Desta vez, um homem fora morto por traumatismo craniano. Sua cabeça se chocou contra uma árvore dura e robusta, repetidas vezes. Nós sabíamos que ele havia sido vítima de assassinato, pois em sua testa estava grotescamente escrito o número "5".

Seu nome, Peter Albert, coincidentemente nascido no dia 05/05/1995. Tinha acabado de começar a faculdade de direito. Nós sabíamos disso pois sua mãe estava entre a pequena multidão, chorando e perguntando ao céu o porquê de seu filho ter sido arrancado de seu peito.

Minha única convicção no momento era de que o assassino era no mínimo esperto, pois a parte de trás da coxa de Peter estava em carne viva, indicando que ele havia sido arrastado de uma longa distância, até chegar no ponto em que foi morto.

Sua boca estava aberta de forma dolorosa. Era impossível um ser humano conseguir fazer aquilo, abrir a boca e torcer os lábios da forma como estava.

A parte da frente de sua cabeça estava completamente dilacerada, atrás também.

Este com certeza foi o caso mais singular e sangrento dentre todos os outros, o que era um motivo para entrar na minha lista de anormalidades que um ser humano pode causar.

Agora eu já tinha 5 números: 18, 3, 7, 5.

Pelas minhas deduções, pude chegar também ao número 1 depois do prato no caso da mulher degolada e a espiga de milho de outro caso mais antigo, o que me deixava então com 5 números.

Mas o fato era: o que eles significavam?

Autora: Sofia NAQ

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Tereza

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Tereza Duval era uma mulher forte e poderosa no auge de seus 40 anos. Muitos a viam como fria e rígida, características que não se aplicavam a seu marido, José Martins, o qual sempre recebeu o seu melhor lado. 

Era de uma família muito rica e tradicional, com longa história na política, marcada pelos diversos confrontos com aqueles da família Albuquerque. 

Ela não foi agraciada com a benção de ser mãe e manter sua descendência, uma vez que não era capaz de gerar filhos. O casal tinha somente um ao outro. 

Apesar da dor corroê-la por dentro, sua postura era inabalável. 

Entretanto tudo começou a mudar quando às vésperas da eleição presidencial, a qual acabou perdendo, veio a público que seu marido a traia com Clara Albuquerque, filha do homem com quem Tereza disputava em pé de igualdade até o momento. 

Acreditava-se que seria a última gota d'Água para uma mulher que perdoou todos os erros do cônjuge, contudo, mais uma vez ela fez vista grossa, e parecia culpar a si própria pela traição. 

Poucas semanas depois do escândalo irromper, Clara e José desapareceram. "Fugiram" era o pensamento comum. 

Porém Tereza não mostrava acreditar nessa versão. Pela primeira vez mostrou-se tão abalada, nas primeiras 72 horas após perceber o sumiço ligou desesperadamente para todos os conhecidos questionando se haviam visto seu marido. Nos dias que se sucederam manteve frequente contato com os investigadores. 

Mas semanas depois não parecia haver esperanças, nem uma única pista mostrou-se válida. 

Tereza, antes uma figura imponente, agora despertava pena. Perdera aquele que tanto amava, a única família que ainda lhe restara. 

Mesmo desacreditada não demonstrava que suas buscas tinham cessado. E como um último suspiro de esperança ligou mais uma vez para a delegacia. 

- Senhor, por favor, diga-me que tem alguma notícia de meu marido. - sua voz transparecia dor. 

- Desculpe senhora,... - houve breve silêncio - não temos nenhum avanço, lamento. 

Fez-se silêncio novamente, seguido do choro de Tereza que logo se recompôs. 

- Obrigada pela atenção. - disse voltando ao seu tom seco habitual. 

- Disponha, qualquer pista comunicaremos imediatamente. 

- Assim espero. 

Desligou o telefone, secou as lágrimas e pegou a foto de José que encontrava-se sobre a mesa de cabeceira. Apertou contra o peito, um sorriso escapou de seus lábios ao viajar nas lembranças. Passou o dedo delicadamente no vidro que protegia a fotografia como se tentasse acaricia-lo e disse: 

- Querido, acho que escondi bem o seu corpo.


Autora: Luisa Moreira

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Padrão - Capítulo 2

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Seus dedos se moveram como grossos galhos no papel branco e com algumas gotas de chá. Eu havia derramado alguns pingos de Mate nele, mas nada muito grave.

O delegado me fitou com um certo tom de acusação no olhar, em seguida dando um sorriso de canto.

- É, não havíamos percebido esse detalhe. - Declarou e em seguida fechou a ficha, jogando-a sobre o meu colo.

Eu me econtrava sentado na cadeira de seu minúsculo escritório abafado, em frente a sua mesa de madeira enegrecida. Minhas mãos suavam e eu as esfregava repetidamente na minha calça.

- Já mesmo? - Perguntei. - Quero dizer, não sabem o padrão dos números, certo?

- É, isso não sabemos. Há algum significado específico por trás, mas eu não faço a menor ideia de qual é, por isso precisamos da sua ajuda. - Disse, em seguida passou a mão em sua cabeça careca, como sempre gostava de fazer quando estava começando a ficar confuso.

- Bom, também acho que há um significado por trás de outras coisas. Por exemplo, em um caso uma mulher foi assassinada com exatamente 7 facadas na barriga, mas dá pra perceber que em outras vítimas ele dá apenas 4, ou até menos, sem número algum em específico. Este pode ser um número relevante, certo? O número 7 pode significar algo.

O delegado tomou um de seu café em sua xícara, não tirando os olhos do teto, pensativo.

- Talvez. Investigue isso, garoto.

- Eu posso dar uma olhada na cena do crime? O caso mais recente, número 15.

- Tudo bem, vou orientar meus homens. Precisa de carona?

- Não, eu posso ir com meu carro mesmo.

Eu me levantei nervosamente da cadeira. O detetive me lançou um olhar de estranheza, mas logo voltou para papeladas sobre sua mesa.

Meu pequeno carro me levou até uma casinha humilde próxima ao centro da cidade. De cor verde, com uma cerca branca no limite do quintal, a única sensação que ela passava era a de paz e tranquilidade.

Alguns policias saíam e entravam pela porta da frente, que ficava sempre aberta. Eles acenavam para mim, em seguida tiravam seus rádios do bolso e diziam coisas que eu não conseguia entender.

Eu escorreguei pelo parapeito da porta, abrindo passagem para outros saírem. Logo de início, o clima passou a ficar pesado, com um cheiro pútrido. Haviam encontrado o corpo ontem, mas os legistas revelaram que estava morta há dias.

A cozinha me recebeu com um odor forte e penetrante. Plaquinhas amarelas com poucos números estavam postas sobre o balcão e o chão. Pelo que li, a vítima recebeu um golpe certeiro de machado, morrendo instantaneamente em 1 segundo. Um único prato fora colocado em cima do chão de ladrilhos brancos e pretos. Não estava quebrado ou arranhado, os outros pratos estavam arrumados cuidadosamente dentro de seus devidos armários. Era como se alguém tivesse feio aquilo de propósito.

Eu passei os dedos pelo bolso, agarrei meu celular a comecei a tirar algumas fotografias das partes mais relevantes da cena, apertando o nariz com força para não inalar mais aquele odor pútrido, que corroía minhas vias respiratórias.

- Vocês têm algum suspeito? - Questionei o delegado assim que entrei no centro policial.

- Nenhum. - Ele respondeu sem tirar os olhos de uma ficha amarela, possivelmente alguma descrição de um criminoso simples. - Bom, tem esse sujeito aqui. - Delegado Joseph me entregou o papel, revelando um homem barbudo e grande.

Eu olhei cada detalhe seu, averiguando uma possível ideia. Era um homem robusto, com uma barba comprida e olhos ameaçadores. Havia passagem na polícia por assaltos, mas nenhum assassinato (fato não comprovado por falta de provas). Era suspeito no assassinato de seu próprio irmão, nas não foi preso.

As descrições conseguiam bater perfeitamente com algumas vítimas. O homem não foi avistado nos dias dos assassinatos. Talvez ele fosse realmente um assassino, ou apenas estivesse no lugar errado, na hora errada.

Eu não queria tirar conclusões precipitadas, então apenas solicitei que ele passasse por um detector de mentiras.

- Já fizemos. - O delegado afirmou, em seguida tomou um gole da xícara de chá em sua mão. Ele puxou a ficha de meus dedos e examinou o rosto feroz do homem, que devia ter por volta de uns 40 anos. - O problema é que estamos correndo em círculos, não há nenhuma pista e o número de suspeitos é equivalente ao tamanho desta cidade. - Falou com certo desespero e bateu firme a xícara já vazia na mesa. - Você é jovem, Adam. Começou ano passado. Lembre-se que eu conheci seus pais, eu sei o quanto você é capaz, desde criança. - Seu tom agora ficou mais alto.

Por instantes, me lembrei de minha infância solitária e melancólica. Eu não tinha nenhum amigo, a minha capacidade de socialização sempre foi infinitamente inferior ao meu poder de dedução. Eu costumava frequentar alguns psicólogos quando pequeno, mas nenhum era bom o suficiente. Não há muitos aqui nesta pequena cidade, somente uns dois ou três.

Lembro-me nitidamente de estar em meu quarto, rodeado de animais de pelúcia, trocando ideias com cada um deles. Meus pais trabalhavam muito na época, então suas paradas em casa eram apenas durante momentos da noite, me largando com babás durante o dia. Meus dragões e cãezinhos de pelúcia eram as únicas amizades que conquistei, além de um único garoto do meu bairro. Algumas vezes eu recebia cuidados de uma vizinha próxima, e ela costumava levar seu filho para brincar comigo. Ele era um pouco esquisito, mas eu não podia desprezar o único amigo que eu recebera.

Em um dia fatídico das férias de verão, meus pais chegaram com uma gigantesca caixa esburacada. Recordo-me como se fosse recente, um pequeno filhote pulou de dentro dela. Eu devia ter uns 12 anos na época, então eles acharam que eu estava apto para ter minha própria companhia animal.

Pobre Ricky, seu rim foi atacado por um tumor, subitamente o retirando de sua existência com 13 anos de vida, mais de 1 ano atrás.

O delegado me arrancou de meu turbilhão de memórias reprimidas, estalando os dedos em frente aos meus olhos.

- Ei, garoto. - Chamou enquanto me encarava com a confusão estampada em sua expressão facial.

- Ah, me desculpe.

- Você precisa parar com esses devaneios. Espero que tenha bolado alguma teoria nesse tempo.

- Não, mas eu visitei a cena do crime e tirei algumas fotos. Eu vou pra casa avaliar o material que tenho em mãos. - Avisei e saí correndo de seu lado, indo até meu velho Palio e mergulhando a chave na entrada.

Eu verifiquei as plantas da minha janela antes de sentar à mesa para analisar. A terra já estava úmida, mesmo que eu não tivesse tido tempo para molhá-las hoje de manhã. Não me preocupei muito com isso, afinal, eu costumo ser um cara um pouco esquecido.

Abri a galeria do meu celular e passei as imagens para o meu antigo computador. As examinei com cuidado enquanto bebia uma xícara de chá morno. Como eu havia dito, realmente não gosto de café.

Eu quase caí no sono após horas. Por uma fração de segundo, pude ver um homem encapuzado em uma foto da cena do crime completa, mas este desapareceu após um piscar de olhos sonolentos. Eu realmente estava com muito sono, chá não me ajudava em absolutamente nada.

Levantei com as pernas bambas e caí sobre o sofá, sendo intempestivamente arrebatado pela sonolência.

Autora: Sofia NAQ

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Eu encontrei uma carta do meu eu de sete anos [Parte 3 - Final]

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Peguei o celular para ligar para minha mãe esta manhã, mas guardei antes de apertar o botão para ligar. Eu queria ligar e dizer a ela que sabia sobre o que aconteceu comigo - pelo menos a part médica - mas algo dentro de mim estava me segurando. Era um incômodo nos limites da minha mente que desaparecia no momento em que eu tentasse me concentrar nele, como aglomerados de vítreo flutuando em minha visão, e no momento em que parei de pensa rnisso, lá estava de novo, nos periféricos do meu subconsciente, fora do alcance.

Como sempre, quando uma coisa dá errado, tudo dá. Eu poderia ficar numa boa, se não fosse a paranóia adicional causada pela invasão na noite passada, especialmente depois de ter lido os relatórios médicos. Já andei pela casa provavelmente uma dúzia de vezes esta manhã à procura de possíveis pistas que me orientem em relação a quem esteve na minha casa na noite passada, mas até agora não consegui nada e isso está me comendo vivo.

Não sou nenhum chaveiro, mas sei um pouco sobre fechaduras e como elas funcionam, e também sei que arrombar uma fechadura não é tão fácil como é retratado em inúmeros jogos e filmes. Leva tempo, até mesmo para fechaduras simples, e especialmente para fechaduras que são usadas em portas de entrada e traseiras, pode levar bem mais tempo. Havia três cenários que eu poderia imaginar acontecendo noite passada, e embora eu odeie ficar obcecado com isso, eu sei que não posso evitar.

Primeiro, é possível que eu tenha deixado a porta destrancada. Eu sou um habitual trancador de portas, então eu honestamente não vejo isso como estando dentro do reino das possibilidades, mas ainda é possível. Segundo, o que é mais assustador, é que alguém passou algum tempo arrombando a fechadura de uma das minhas portas para entrar na minha casa. Isso significaria que alguém veio à minha casa, preparado, e teve tempo para arrombar minha fechadura. Novamente, eu não acho isso provável, mas eu prefiro isso do que o último cenário possível, que é o que me deixa tão assustado. Em terceiro lugar, e o mais provável em minha mente, assim como o mais assustador, alguém estava na minha casa ANTES de eu entrar no chuveiro, provavelmente horas antes.

Esta terceira possibilidade é o que me levou a comprar algumas câmeras na loja de eletrônicos, assim como novas fechaduras. As câmeras eram baratas, e eu só tinha três delas no pacote, mas eu podia conectá-las ao meu celular e eu gostava da ideia de poder verificá-las onde quer que eu estivesse, contanto que eu tivesse meu celular comigo, que era quase sempre.

Passei o resto da tarde trocando as fechaduras das minhas portas e instalando as câmeras de segurança. Fiquei um ponto desapontado com a qualidade da imagem - é um pouco granulada, e o rastreamento de movimentos não é tudo isso - mas pelo que pagui, acho que elas não são tão ruins assim.

Por mais que eu quisesse me manter ocupado com esses projetos, minha mente não parava de dar voltar em torno de tudo que havia descoberto ontem. - o papel, a música estranha, os registros médicos - e tudo continuava lebvando à minha mãe. Ela sabia de algo, obviamente, e eu precisava descobrir o que ela sabia que eu não.

Depois que tudo estava pronto, resolvi ligar para ela e tentar tirar uma resposta dela. Ela atendeu rapidamente.

"Mãe, eu sei que algo aconteceu comigo quando eu era criança. O que foi?" Eu fui direto demais, acho, mas obtive a resposta que eu esperava.

Sua resposta foi um pouco confusa, mas parecia de alguma forma praticada. Ela suspirou alto e disse: "Você ficou muito doente por um longo tempo quando era pequeno - quase morreu algumas vezes. Os médicos nunca conseguiram descobrir o que estava acontecendo, mas suas febres eram tão altas que você começava a alucinar. Quando começou a melhorar e as febres começaram a diminuir, nós percebemos que você não se lembrava de nada sobre estar doente. Os médicos disseram que era provável por causa das febres e nós decidimos que era melhor você não se lembrar, então nunca lhe contamos."

"Eu me senti como a pior mãe do mundo naquele ano. Você ia e voltava do hospital com as mais estranhas aflições. Abriram uma investigação contra nós para determinar se estávamos de alguma forma abusando de você. Foi um ano terrível, e quando você não se lembrou de nada, pensamos que era uma maneira de Deus te salvar de todo o sofrimento que você passou."

O que ela disse fazia sentido e eu imediatamente senti como se uma rocha tivesse se formado em meu estômago - merda, eu provavelmente faria o mesmo na situação dela - mas novamente aquela coisa no fundo da minha mente flutuava fora do alcance. Mas estava mais perto - algo sobre aquela música, talvez - mas ainda assim abaixo da superfície.

Eu fui para a cama cedo, que é onde estou escrevendo isso agora, porque, sinceramente, estou exausto. Espero conseguir dormir esta noite.
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Acabei de acordar com uma forte dor de cabeça e me sinto totalmente exausto, mas acho que não conseguiria voltar a dormir. Eu tive alguns sonhos bem estranhos, inclusive enquanto escrevo isso eles estão desaparecendo da minha mente, mas tenho que escrever o quanto eu me lembro - eu sinto que é importante.

Eu estava dormindo na minha cama quando de repente eu estava acordado. Não havia agitação das pálpebras nem em meu sono, eu simplesmente estava acordado. Eu me deitei, no escuro, ponderando isso quando ouvi algo no chão abaixo de mim.

Eu me sentei rapidamente.

Esperei por algum barulho, me perguntando se eu tinha sonhado, então novamente eu ouvi o som, como passos abafados se movendo para frente e para trás abaixo da minha cama. Em meu medo e repentino pânico, minha mente se lançou a conclusões imediatas de monstros debaixo da minha cama e eu tive que expulsar o medo antes que ele me consumisse. Eu sabia que me sentiria idiota depois, mas naquele momento, no meio da noite, tudo parecia possível.

Senti então uma onda de náusea tão forte que quase vomitei nos lençóis. Prendi a respiração e cerrei os dentes para conter a bile subindo pela minha garganta e quando tive certeza de que poderia me controlar até chegar ao banheiro, respirei fundo e saí da cama.

Assim que soltei o ar e comecei a receber oxigênio fresco, percebi o que me deixara tão enjoado. Minha casa cheirava a um banheiro no meio do verão, com um forte cheiro de excremento humano. Era um cheiro horrível que encheu meu nariz e minha boca e fez meus olhos arderem. Eu sabia que não chegaria ao banheiro e com o instinto e a velocidade de um homem que está a poucos momentos de vomitar, eu peguei a lata de lixo do canto da sala e vomitei por muito tempo em cima dos lenços e embalagens de barra de chocolate que estavam no fundo da lixeira.

O cheiro não desapareceu, mas eventualmente eu comecei a tolerá-lo. Quando acabei de vomitar o que parecia ser tudo o que eu havia comido, de repente me lembrei de ouvir o barulho no andar de baixo.

Eu corri para o meu celular e abri o aplicativo para acessar as câmeras que eu tinha acabado de montar, e o que eu vi na tela momentaneamente fez minha visão borrar e uma onda de adrenalina percorreu meu sangue.

Havia um grupo de pessoas, talvez uma dúzia ou mais, em pé na minha sala de estar.

Eu não conseguia acreditar no que estava vendo, mas estava na imagem em preto e branco granulada gerada pelo modo noturno da câmera. Eu procurei na multidão por rostos que eu conhecia. Havia algo neles que parecia familiar, mas eu não conhecia nenhum deles - isso era certo.

Espera.

Nos fundos, vi alguém que se parece muito com alguém que eu conhecia. Mas isso não era possível.

Ela se moveu ao redor da sala e, eventualmente, a câmera pegou uma quadro cheio de seu rosto - um rosto que eu conhecia de qualquer lugar, porque era o rosto da mulher que me criou. Era minha mãe.

Eu assisti em um confuso desconcerto enquanto as pessoas na sala abaixo de mim se moviam umas sobre as outras. Alguns deles tinham coisas em suas mãos e estavam fazendo algo no meio da sala, mas eu não conseguia ver exatamente o que era ou o que eles estavam segurando - eram muitas pessoas para poucos ângulos de câmera.

Perdi a imagem da mulher que eu pensava ser minha mãe, e no meu estado de choque, não consegui ouvir os passos que vinham em direção à porta até que era quase tarde demais.

Eu ouvi alguém se aproximando pouco antes do barulho de alguém virando a maçaneta. Eu já estava na porta e tive a sorte de pegar a maçaneta, girá-la de volta para o lugar certo e virar a chave.

Corri para a gaveta do criado mudo, peguei a arma a carreguei fazendo um barulho alto para que quem quer que estivesse do outro lado recebesse a mensagem.

Fui até a porta e coloquei minha orelha contra ela. Eu podia ouvir alguém do outro lado, respirando alto, arduamente.

“DoverHawk?” A voz disse. Era a voz que eu tinha ouvido no telefone apenas algumas horas atrás.

Não respondi no começo, estava muito ocupado fazendo as contas na minha cabeça. Ela mora a horas de distância. Que horas eram? Quase três da manhã. Eu falei com ela depois do jantar por volta das sete. Mesmo que ela estivesse em alta velocidade, ela teria, sem dúvida, que ter saído naquele exato momento se quisesse chegar aqui e falar comigo pessoalmente agora.

"Mãe?" Eu disse. "O que está acontecendo?"

"Abra a porta e eu vou explicar", ela disse calmamente como se eu fosse uma criança se escondendo no banheiro depois de quebrar uma lâmpada.

“Apenas explique assim. Quem são as outras pessoas?"

"Eles são alguns dos meus amigos que eu pedi para vir junto. Você conhece alguns deles, eu acho. Tem o Jason da delicatessen e a Martha que mora na rua de-"

"Mãe", eu disse, cortando-a. "Eu vou perguntar uma vez e espero por Deus que tenha uma boa resposta." Eu nunca tinha falado com a minha mãe assim, mas eu estava com medo, e já era tarde, e algo estava acontecendo que eu não conseguia nem começar a compreender. "Que porra está acontecendo?"

Ela estalou a língua com desaprovação. "Isso não é maneira de falar com sua mãe."

Segurei a arma mais forte. Eu não ia usá-la, muito menos com a minha mãe, mas isso me dava confiança. "Eu não me importo. Você precisa me dizer o que está acontecendo agora ou irei ligar para a polícia! Merda, eu poderia fazer isso agora mesmo."

O que ela disse em seguida foi claro e me atingiu na alma. "Eu não recomendaria isso."

Não tive a chance de perguntar por quê. Eu não tinha ouvido o som de alguém se aproximando, ou talvez eles se aproximaram ao mesmo tempo que minha mãe, e eu ouvi um chute alto contra a minha porta e a moldura da porta quebrou.

Dei um passo para trás e levantei minha arma.

"Saiam da porra da minha casa!" Eu gritei. "Eu tenho uma arma e eu vou puxar o gatilho para quem passar por esta porta!" As cordas se destacaram no meu pescoço enquanto eu gritava, e minhas mãos tremiam de raiva e medo. Eu sabia que faria porque seria uma reação instantânea. Minha mãe podia atravessar a porta e eu atiraria com a mesma rapidez que qualquer outra pessoa. Eu esperava que isso não acontecesse.

Mais um golpe sólido na porta e ela se abriu. Um homem grande vestido de jeans azul e uma camisa polo entrou e, assim como eu imaginava, o instinto assumiu e meu dedo puxou o gatilho.

Click.

Nada. Ele se aproximou de mim e eu tive talvez três segundos antes que ele estivesse perto o suficiente. Eu carreguei a arma novamente, verificando o pente, e vi horrorizado que não havia balas.

Eu tinha colocado as balas ontem, tinha certeza disso, mas elas tinham sumido.

As mãos do homem, grandes e carnudas, se fecharam em torno de meus braços enquanto eu observava a arma vazia em um torpor momentâneo.

Senti mais mãos me apalparem e vi que pelo menos meia dúzia de rostos me encaravam fazendo caretas quando as mãos me levantaram do chão. Eu chutei, gritei e lutei, mas havia muitas pessoas.

A arma caiu no chão e ouvi alguém pegá-la enquanto eu era carregado, lutando, saindo do meu quarto, descendo as escadas e entrando na sala onde vi velas acesas ao redor de uma velha cadeira de madeira. A cadeira tinha algemas nos braços e pés dianteiros.

Meus olhos se arregalaram e encontrei uma nova resolução enquanto me levavam para a cadeira. Meus pés deram alguns bons chutes e eu quase caí, mas quem quer que eu tenha chutado foi rapidamente substituído por outra pessoa. Eles me sentaram e, como minhas mãos e pernas estavam algemadas, vi o rosto de minha mãe, seus olhos cintilando à luz das velas, não com lágrimas, mas com uma sólida determinação, e implorei a ela que me deixasse ir.

Ela sorriu. "Eu estou prestes a deixar."

As pessoas ao meu redor começaram a cantar em uma língua que eu não conhecia e todas elas recuaram, formando um círculo ao meu redor.

Através da multidão de pessoas que agora enchiam minha casa, observei uma pequena figura se arrastar em minha direção. Era uma garotinha, talvez sete anos ou mais, e eu estava prestes a gritar com ela e dizer para correr e buscar ajuda quando ela atravessou a multidão e eu vi seu rosto na fraca luz das velas. Ela não tinha olhos.

Eu gritei e o mundo ficou preto.

Esse foi o fim do sonho. Mesmo quando eu escrevo isso e desaparece na minha memória, o sonho parece tão real, mas eu chequei minha porta e a moldura da porta está bem. Eu procurei por hematomas e não há nenhum. A arma ainda está na minha mesa de cabeceira, totalmente carregada. Tudo está onde deveria estar.

Normalmente eu não pensaria muito além disso, mas acordei sentindo-me estranho, e no tempo que me levou a escrever isso, vomitei duas vezes, e em vez de ver o jantar da noite passada flutuando na água do vaso sanitário, eu vi um xarope vermelho escuro afundando no fundo da tigela e sentia o gosto de sal e ferro na minha língua. Minhas mãos estão começando a doer também, e não posso deixar de pensar em como esses sintomas estão em paralelo com os registros médicos que li ontem. Acho melhor ir ao hospital. Me deseje sorte.




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Dinheiro Maldito

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Poderia ser apenas 50,00 reais, longe do valor módico dispersado por aquela quadrilha que em conluio com funcionários roubaram por aquela empreiteira através de projetos superfaturados para o governo. Mas achar o montante total em notas marcadas que foram repassadas à políticos seria quase impossível de se localizar. Uma fraude para se apropriar de outra. O dinheiro é uma coisa essencialmente suja, em todos sentidos.

Cerca de 90% das notas de real apresentam traços de cocaína, sem contar de outras impurezas que incluem até mesmo coliformes fecais, mas de moeda de troca se tornou objetivo num capitalismo feroz. Sabe-se lá por onde passa o dinheiro, mas mesmo o lendário 'Garganta Profunda' do caso Waltergate nos EUA do século XXI disse que se quisesse descobrir a verdade, seguissem o dinheiro.

Assim fazíamos na operação Lava Jato em mais um caso correlato com outros políticos de todas matizes, partidos e lados. Inicialmente a verificação de números de série ocorriam em bancos, mas tão logo fomos capazes de rastrear a próprio custo números de série.

Inicialmente a primeira pista veio de uma nota de 50,00 reais encontrada por acaso na casa de uma senhora morta em circunstâncias misteriosas. Descobrir de quem a senhora pegou, e dessa pessoa quem pegou, seguindo a linearidade inversa, poderíamos chegar até o ponto de origem. Mas para isso um trabalho de investigação por entrevistas e interrogatório se fazia necessário para se cruzar dados.

Todavia uma carta encontrada no local da morte da senhora nos chamou peculiar atenção. Nela dizia:

"Esse dinheiro é maldito! Desde quando meu neto o achou largado na rua 10, enfrente aquela mansão abandonada repleta de drogados a minha vida desabou. Agora entendo por qual motivo os próprios delinquentes a abandonaram na rua. Esse dinheiro, seja qual for a procedência é maldito, não apenas sujo. Mas essa maldita nota penetra meus sonhos e parece-me fazer enlouquecer enquanto somos assombrados por algo negativo que converge a tudo dar errado. Não aguento mais, vou desfazer dessa nota o quanto antes, antes que..."



O bilhete misterioso fora interrompido subitamente ali. A senhora caída ao chão fintando o vazio com seus olhos sem vida ainda segurava a caneta, estava com a língua roxa e inchada. A retina de seus olhos se deslocaram e momentos antes da morte parecia ter liberado muita adrenalina. Fosse o que fosse a apavorou de sobremaneira que fez a velha enfartar. Seguimos até o dito lugar que era refúgio de drogados que viviam à míngua como zumbis para que os grandes bandidos produtores disso ostentassem uma vida de luxo, grandes boçais! Mas mal sabia onde aquele dinheiro me levaria... A seguir a história da nota.

Um drogado recebeu um misterioso cortejo do traficante que fingindo estar comovido com a situação desesperadora do viciado que em constante estado de entorpecimento era submetido pela eterna dívida para com aquele lacaio do inferno. Mas a caridade tinha motivo, tudo pelo qual o traficante havia cheirado naquela nota uma semana antes quando estava numa orgia com 'novinhas' num baile funk, mas os efeitos daquilo foram maiores que o previsto, em ausência a qualquer proporção ao feito em si. Vendo uma sucessão de problemas surgirem, o meliante em desespero resolveu fazer uma "caridade" a um de seus clientes não somente perdoando sua dívida, como lhe dando a maldita nota em questão.

O homem parecia feliz, como pinto no lixo adentrou o recinto planejando quantas doses mais poderiam usar com aquele dinheiro afim de alimentar o insaciável vício. Mas tão logo ele iria passar o pior dia da sua vida como se já não vivessem num mundo cão. Trocando em miúdos, o homem sem querer usou uma seringa nova, mas ao perceber levantou e caiu de cara, e nisso um dos vizinhos lhe pegou a nota antes mesmo que ele a usasse. Aquilo desencadeou uma briga e na briga sem querer matou o colega usuário. Ao esconder o corpo tentou cavar para sepulta-lo ali mesmo, mas ao parar para pegar a nota passou mal. Aquilo bastou para que mesmo aquele esquálido trapo humano tentasse mudar de vida a começar jogando aquele dinheiro fora.

O traficante havia ganho o dinheiro do 'parça' que lhe devia uma grana, grana conseguida num assalto que deu errado, e ele matou a tiros um casal que estava brigando na rua. O noivo da moça havia conseguido o dinheiro ao comprar um relógio no camelô, com quem trocou a sua nota de cem sacada no banco ao receber o salário. A partir daquilo mais uma vez tudo deu errado, a noiva descobriu a traição dele, o relógio parou de funcionar e ao trocar o ambulante em questão havia sumido até que no meio de discussão foram assaltados, e mortos fazendo o assaltante levar a nota e o relógio com defeito. Todavia ao ser percebido por um segurança que deu tiros matando seu comparsa. O assaltante fugiu para descobrir que sua namorada estava com outro o levando quebrar a cara dela o que levou a mãe dele expulsa-lo de casa.

O fato é que o camelô também era um meliante suspeito que vendia relógios que na verdade eram de segunda mão, roubados. Afirmando o preço "camarada" ao cliente vendeu justamente o relógio encontrado no apartamento de um gerente de banco na Zona Sul, ao lado do dinheiro. O crime ocorrido pela invasão aconteceu de modo inusitado, encontrado o gerente morrendo com o pescoço cortado ao ter caído sobre o vidro do boxe no banheiro enquanto tomava banho ao perceber o barulho da invasão. O dinheiro estava sujo de sangue, e o bandido, temendo que fosse reputado a ele um crime além de invasão e furto, fugiu sem prestar socorro à vítima. Todavia, por azar ao chegar na esquina seu comparsa havia sido identificado e morto numa troca de tiros com um policial à paisana o levando fugir desesperado do apartamento da vítima e sabendo que estava sendo procurado pelo crime, correu para passar a mercadoria adiante, o camelô em questão que fora detido pela guarda municipal minutos após ter passado a mercadoria e a nota, na cadeia o camelô ainda fora violado sexual, não bastando o crime de receptação de mercadoria roubada.

O gerente do banco havia pego o dinheiro de forma desviada, ao atribuir o depósito de 500,00 em caixa eletrônico como extraviado. Burlando as câmeras de segurança ao gerar um loop no vídeo, o sujeito pegou o

envelope o qual as letras eram praticamente ilegíveis. Pensando ter sido escrita por um homem em desespero, usou aquilo como pretexto para não reconhecer a quem seria o beneficiário. Todavia, um funcionário viu o dolo e ameaçando-o avisou que iria denuncia-lo. Para impedir isto, o homem o ameaçou dizendo que senão recebesse parte da quantia roubada como suborno iria dar cabo de sua vida.

O sujeito temerário aceitou, pois sabia dos rumores do gerente ter costas quente com gente poderosa que não presta. Mas após aquilo, passou a receber cartas anônimas ameaçando denúncias igualmente anônimas caso não lhe desse dinheiro. Achando se tratar do funcionário em questão, imediatamente providenciou um meio de cala-lo, sem saber que o mesmo apenas havia relatado para seu tio, o invasor do apartamento em questão.

Por sua vez o homem que havia depositado o envelope havia adentrado o banco em desespero ao receber aquele dinheiro numa oferta na igreja onde era presbítero. Segundo ele, Deus havia revelado que aquele dinheiro era de Belial, e que poderia arruinar a vida dele. De fato, durante toda semana em que esteve em posse do dinheiro seu pai morreu, e sabendo disso a esposa dele, sua mãe, entrou em coma. A mulher brigou um dia antes querendo separação, o restante é história.

Tudo pelo motivo de que naquele dia o empreiteiro relacionado a empresa de construção que superfaturava obras estava arrependido. Segundo ele o montante ganho de forma ilícita havia sido oferecido num ritual maligno ao lado dos políticos envolvidos, incluindo o senador Vilson Barbacena. Um sujeito pego em gravações flagrantes, não somente negociando propinas como ameaçando supostas testemunhas do caso.

O ritual era singelo. Um enorme pentagrama com uma cabeça de bode decepada, enquanto no meio de desenho que se estendia pelo chão era morta uma galinha preta que esguichando seu sangue para todo lado o lançou sobre as notas em questão, recém tiradas do banco. 100.000,00 reais em notas de 50. Invocando entidades inomináveis as mentes sãs, o homem jurou que o dinheiro oferecido em louvor as entidades iriam dar prosperidade, mas ao receber parte do dinheiro, o empreiteiro, na mesma semana, descobriu que estava com câncer, para no dia seguinte sua filha morrer num assalto provocado pelo mesmo viciado desesperado que deixou o dinheiro no chão da rua.

O ocaso que moveu o acaso, levou a sucessão de encontros e desencontros que acarretou naquela sequência de infortúnios em desventurosa coincidência, pois o empreiteiro era sobrinho da senhora que morreu infartada com a nota.

Ando muito preocupado onde foram parar as demais notas de 50.

Autor: Gerson Machado de Avillez

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