Preciso apenas deixar minha nova família feliz!

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Sei que não é fácil você tentar fazer uma nova família feliz, até porque nós não nos conhecemos bem. Quando estacionei naquele casarão, no meio do nada, vi que havia outros carros e imaginei que poderia ser algum tipo de pousada. Após bater a porta, deparei-me com uma mulher e uma criança, apesar dos outros veículos, eram apenas nós três que habitavam naquele lugar. No momento em que pisei naquele local, foi aí que eu tentei formar uma família feliz, apesar dos machucados, agressões e ameaças constantes.


O meu objetivo é fazer com que todos estejam bem, essa é a minha missão aqui e não é tão fácil, dado que, a criança, aquela menina que tem nove anos, tenta sempre escapar, é agressiva e diz que eu não sou seu pai. A mulher, minha nova esposa, tem os seus momentos pacíficos, fica observando tudo como se fosse alguém aturdida assistindo um espetáculo de terror em uma platéia. Sei que eu posso manter o equilíbrio do momento e fazer com que ela continue nesse momento estável e, mesmo que eu não tenha sido pai, tentarei fazer com que a garotinha aceite de uma só vez o que está acontecendo.

Ninguém pode escapar, visto que as armadilhas estão em pontos estratégicos, não tem como você conseguir chegar até a estrada, encontrar ajuda, antes de ser capturado e levado de volta para o casarão. Dentro da floresta, ainda com os animais selvagens, você pode muito bem perder um membro do seu corpo por conta da violência daquelas máquinas. É tudo um plano que eu preciso seguir para fazer com que tenha um final feliz, preciso apenas manter aquela família equilibrada. Com todos esses acontecimentos, nos meus últimos dias, eu estou sabendo confrontar tudo da melhor forma possível. Não obstante, às vezes, saímos do nosso controle pessoal.

Já irá fazer quase três semanas que outras pessoas aparecem na mansão. Normalmente, são no máximo três indivíduos, amigos e famílias em viagem, precisando de ajuda, perdidos na região, mas eles não conseguem seguir as regras, pois tentam lutar, fugir e até a matar para sobreviver, contudo não conseguem superar o amor brutal da nossa moradia. Lembro da minha mulher dirigindo o carro e, quando ela morreu, eu tentei e estou tentando construir uma família feliz. A felicidade parece horrível quando você pensa nela muito, no entanto, faz parte desse convívio sangrento e mortal. Sei que eu pareço um monstro frio, ao descrever tudo que está acontecendo, no entanto, desde criança, eu fui criado para aprender a adaptar-me em certas situações e fazer com que tudo fique bem, mesmo dentro de uma jaula com tigres ao meu redor.

No início, não foi fácil me acostumar com a aparência daquela mulher, quando ela abriu a porta, e eu a vi. Sabia muito bem que não estava cuidando da sua fisionomia, mas não é apenas isso que lhe deixa um pouco assustadora: a sua cabeça é um pouco grande e o seu corpo é magro, apesar de carregar uma força grande, isso dificulta muito quando nós nos desentendemos e precisamos usar a força bruta. A parte que mais me incomoda é que ela não dorme, se dorme é por poucos minutos. A não ser que fique em pé, nas escadas, na porta, observando o meu quarto, olhando para a criança. Eu imagino que seja uma forma de proteger a menina ou impedir que ela escape, assim, evitar castigos severos e desnecessários. A Insônia Familiar Fatal deixa-me acordado também, e eu fico ouvindo os barulhos de lamentação da minha nova esposa e a sua respiração ofegante, mas tento não lhe arranjar mais uma forma de se sentir infeliz... As punições não são o que eu desejo.

Mesmo após quase dois meses, a menina tenta escapar, contínua dizendo que eu não sou seu pai e a sua última punição foi algo que passou dos limites até para mim, visto que ficou dois dias desacordada e recebendo tratamentos da sua mãe por conta dos ferimentos. Apesar disso, quando ela recordou, parecia mais calma e cooperativa. Eu me aproximei da cama, o meu braço esquerdo amputado já estava quase cicatrizado, e tentei carregar uma panela grande com alimentos, quase fraco. A garotinha murmurou bem baixinho no meu ouvido, que a mulher dormia. Faz muito tempo que a menina está aqui e sabe que quando a dona da casa está muito cansada acaba dormindo por poucos minutos.

Desde o momento que eu parei o meu carro aqui, precisando de ajuda porque estava perdido, foi quando o meu inferno começou. A minha esposa foi assassinada por aquela mulher, e eu tentei lutar para escapar da sua força descomunal e da sua aparência grotesca. No primeiro dia, acabei perdendo o braço em uma das armadilhas e estou aqui tentando me manter vivo e, ao menos, salvar a garotinha que não colaborava até o momento. Irei aproveitar, tentarei observar e aguardar o momento em que aquele monstro dormir porque irei esmagar o seu crânio com o martelo. Estou cansado das agressões, ameaças e ver o quanto a pobre criança sofre. O pior mesmo é você tentar carregar um sorriso no rosto, o tempo todo, e não parecer apavorado com aquele ser espectral nos observando.

Ela está na porta do quarto respirando sua respiração apavorante. Diferente dos outros dias, está mais cansada e caminha cada vez mais devagar nas madrugadas macabras e observadores. Esperarei até que apague, deixando de lado a sua guarda infernal, e pretendo destruir o seu crânio com apenas uma martelada precisa. Até que isso não aconteça, preciso apenas que minha família nova seja feliz seguindo as ordens da mulher. Tenho que me vingar por tudo que aquela criatura cruel fez comigo! De acordo com o que eu estou observando, ela não pode ficar por muito tempo segurando o sono...

Autor: Sinistro

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Abissais

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Tento correr.

Olho para trás e as faces famintas dos inquisidores se acendem em fúria – carregam tochas e arpões, e gritam palavras que profanariam até mesmo os santos. Reúno o fôlego enquanto adentro a selva densa e corro; corro rasgando os braços em espinhos e fustigando meus pés nos pedregulhos pungentes. Abro caminho em meio aos arbustos e contorno as árvores que me serviram de refúgio e lar em tempos de outrora.

Clamo aos meus ancestrais para que uma vez mais me libertem da perseguição, e que olhem com bons olhos para mim – sei que não sou a criatura imponente que deveria ser, e que meus olhos não são agudos como os da água, e que minhas pernas não me lançam às copas das árvores num único voo majestoso. Sou frágil, mas o espírito dentro de mim se acende com fogo milenar, e a floresta não reconhece em mim a chama mística que um dia a iluminou.

Eles se aproximam e seus braços se balançam ostensivamente com suas armas improvisadas e seus gritos de ódio; o penhasco detrás de mim balança com as ondas retumbantes que o acertam. O dia já está escurecendo e o mar tem a cor escura de uma noite recém-chegada, vibrando com a energia salina da transformação e da fluidez.

Os olhos dos homens se inflamam e os seus dentes se escancaram em risos funestos quando me pressionam contra o abismo, e ao recuar, hesitante, sinto uma brisa sulfídrica me encher os pulmões ao ouvir a água gemer com vida própria – à minha frente, saídos do mar, materializam-se criaturas das profundezas abissais com pele azulada e sussurros silvosos só entendidos pela própria água; seus olhos eram negros e seus dentes serrilhados e inúmeros – as criaturas se lançam vorazes aos corpos frágeis dos perseguidores, e as suas mordidas rasgam os pescoços pulsantes e abrem buracos em suas faces contorcidas pelo medo.

Tudo cheira a sangue e enxofre e os corpos se empilham desfigurados no chão, com músculos retorcidos e espasmos borbulhantes; as entidades se arrastam em minha direção, movendo-se como as ondas em movimentos ordenados e altivos – suas mãos me tocam a testa e me sinto queimar de dentro para fora, como o núcleo de uma estrela em erupção; meus olhos se fecham, e me sinto balançar com o mar em uma dança frenética e ancestral.

Quando acordo, meu corpo está jogado nos rochedos, estraçalhado pela queda – o que me chama atenção, entretanto, é o pequeno círculo gravado em minha testa como uma ferida há muito cicatrizada. Olho para o meu corpo nas pedras e então olho para as minhas próprias mãos enquanto flutuo no mar – sou translúcido como uma miragem e meus dedos se contorcem em ângulos indizíveis; as águas infindas se abrem ao meu redor, e se movem em ressonância com os meus pensamentos. Grito, em uma voz retumbante como o eco dos abismos oceânicos, um suspiro eruptivo de um vulcão há muito soterrado pela água fria – do horizonte até o litoral, manifestam-se as criaturas abissais, curvando-se perante o novo rei.

Autor: Ceruno

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Noite perigosa

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Eu estou com mau pressentimento e, além do mais, sozinha no metrô. Não é normal encontrar tão poucas pessoas, contudo deve ser o horário, está um pouco tarde. Sei que não é seguro uma garota ficar essa hora da noite aventurando-se sozinha, mas esperava encontrar alguns trabalhadores, pessoas que costumam passear à noite, etc. Sinto frio, está muito fria essa madrugada. O foda foi porque não trouxe o meu casaco. Não sei por que deu vontade de comer à essa hora da madrugada. Eu tinha que conseguir encontrar algo que não tivesse dentro da minha casa... Às vezes, tenho esse costume de sair para saciar a minha fome com algo diferente. Pode-se dizer que eu sou uma garota louca.

Daqui à uns minutos, chegarei em minha estação, estarei segura e salva em minha casa. O próximo ponto entraram apenas três pessoas: um casal, que foi para a parte da frente do saguão, e um homem estranho. Nesse momento, eu lembrei dos jornais falando sobre um possível assassino responsável por algumas mortes, a polícia alertou para que as pessoas não andassem sozinhas, trancassem as portas e que as crianças não falassem com estranhos. Aquele homem de fato é uma figura tenebrosa, no entanto o seu rosto é familiar. Estou com uma sensação estranha em relação àquele indivíduo, eu sinto uma atmosfera pesada saindo daquele sujeito... Espero que o próximo ponto logo chegue, onde irei sair para finalmente chegar à minha casa.

Finalmente, a minha parada chegou. Comecei a sair e notei que aquele homem estranho também estava saindo, andando no mesmo caminho que eu estou caminhando. Dobrei uma esquina, e ele dobrou também. Tenho certeza que estou sendo seguida por um estranho. Tive uma ideia, decidi pegar um táxi e, quando eu entrei no veículo, pedi para o cara dirigir por aproximadamente dez minutos, enquanto aquele homem segue o seu caminho na noite pretume. Após aproximadamente uns dez minutos dando voltas no quarteirão, eu pedi para o táxi parar em frente ao prédio onde moro, e então saí segurando minha sacola.

O porteiro estava dormindo, mas quando escutou o barulho da velha porta, despertou-se com os olhos fechando e deu uma bocejada de sono. No momento em que fechei a porta, o porteiro, com a voz cansada, deu boa noite, e eu ignorei subindo as escadas em razão de que eu tenho medo de lugares fechados, portanto não usei o elevador. É um trauma de criança, uma coisa que me aconteceu e deixou-me traumatizada. Estava na metade das escadas quando comecei a escutar passos pesados, tudo indicava que eram pisadas de um homem, por conta do som forte. Eu comecei a caminhar imaginando que poderia ser algum morador. No momento em que subia as escadas para finalmente chegar onde fica o meu quarto, notei que era aquele mesmo homem do metrô... Nesse momento, eu não sabia se corria ou gritava. Várias coisas ficaram passando em minha cabeça devido à tensão, uma delas é que fui seguida, ou aquele sujeito sabe onde eu moro.

Decidi que iria continuar caminhando, em razão de que não tem como mais voltar. O sujeito estava com as suas mãos tremendo, notei que tinha algo escondido embaixo do seu casaco e tenho uma leve impressão de que é uma faca. Enquanto estou subindo as escadas, observei uma marca vermelha em sua camisa, poderia ser sangue de alguém... Quando ele passou por perto de mim, o seu corpo esbarrou no meu e uma marca vermelha manchou a minha camisa, era sangue! Agora, um está de costa para o outro, ele continua descendo, e eu fui logo correndo para o meu quarto, trancando a porta.

Na manhã seguinte, alguns policiais bateram em minha porta, e eu abri. Os homens da lei queriam fazer algumas perguntas sobre um assassinato que havia acontecido na madrugada de hoje, eu não sabia o que estava acontecendo, até que os policiais falaram que um homem havia matado a sua ex-esposa após descobrir que ela estava se relacionando com seu irmão. A ficha logo caiu, eu sabia que aquele homem fora o responsável, contudo eu não falei nada sobre ter encontrado ele, disse apenas que não escutei barulho algum para os policiais.

Após alguns minutos tediosos dando informações aos dois bófias que estavam anotando tudo em uma caderneta pequena, foram embora deixando-me em paz. Logo em seguida, tratei de preparar o meu café... Eu demorei a noite toda para encontrar uma oportunidade de arrancar o coração de um morador de rua, ninguém se importa com eles mesmo, e estava com muita vontade de comer carne humana. Talvez nessa semana eu mate mais alguém para preparar um fígado, em razão de que não tem coisa melhor do que comer um fígado antes de dormir.

Autor: Sinistro

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Abissais

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Tento correr.

Olho para trás e as faces famintas dos inquisidores se acendem em fúria – carregam tochas e arpões, e gritam palavras que profanariam até mesmo os santos. Reúno o fôlego enquanto adentro a selva densa e corro; corro rasgando os braços em espinhos e fustigando meus pés nos pedregulhos pungentes. Abro caminho em meio aos arbustos e contorno as árvores que me serviram de refúgio e lar em tempos de outrora.

Clamo aos meus ancestrais para que uma vez mais me libertem da perseguição, e que olhem com bons olhos para mim – sei que não sou a criatura imponente que deveria ser, e que meus olhos não são agudos como os da água, e que minhas pernas não me lançam às copas das árvores num único voo majestoso. Sou frágil, mas o espírito dentro de mim se acende com fogo milenar, e a floresta não reconhece em mim a chama mística que um dia a iluminou.

Eles se aproximam e seus braços se balançam ostensivamente com suas armas improvisadas e seus gritos de ódio; o penhasco detrás de mim balança com as ondas retumbantes que o acertam. O dia já está escurecendo e o mar tem a cor escura de uma noite recém-chegada, vibrando com a energia salina da transformação e da fluidez.

Os olhos dos homens se inflamam e os seus dentes se escancaram em risos funestos quando me pressionam contra o abismo, e ao recuar, hesitante, sinto uma brisa sulfídrica me encher os pulmões ao ouvir a água gemer com vida própria – à minha frente, saídos do mar, materializam-se criaturas das profundezas abissais com pele azulada e sussurros silvosos só entendidos pela própria água; seus olhos eram negros e seus dentes serrilhados e inúmeros – as criaturas se lançam vorazes aos corpos frágeis dos perseguidores, e as suas mordidas rasgam os pescoços pulsantes e abrem buracos em suas faces contorcidas pelo medo.

Tudo cheira a sangue e enxofre e os corpos se empilham desfigurados no chão, com músculos retorcidos e espasmos borbulhantes; as entidades se arrastam em minha direção, movendo-se como as ondas em movimentos ordenados e altivos – suas mãos me tocam a testa e me sinto queimar de dentro para fora, como o núcleo de uma estrela em erupção; meus olhos se fecham, e me sinto balançar com o mar em uma dança frenética e ancestral.

Quando acordo, meu corpo está jogado nos rochedos, estraçalhado pela queda – o que me chama atenção, entretanto, é o pequeno círculo gravado em minha testa como uma ferida há muito cicatrizada. Olho para o meu corpo nas pedras e então olho para as minhas próprias mãos enquanto flutuo no mar – sou translúcido como uma miragem e meus dedos se contorcem em ângulos indizíveis; as águas infindas se abrem ao meu redor, e se movem em ressonância com os meus pensamentos. Grito, em uma voz retumbante como o eco dos abismos oceânicos, um suspiro eruptivo de um vulcão há muito soterrado pela água fria – do horizonte até o litoral, manifestam-se as criaturas abissais, curvando-se perante o novo rei.

Autor: Ceruno

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