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Poço Maldito

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João Silveria fintava o céu estrelado, cujo fulgor do luar cortava brilhando em seus olhos num descontento final. Fintava o vazio de seu derradeiro destino compelido por um desejo banal. João então, relembrou toda sua história até ali, naquele poço, ao ser traído e atraído por seus próprios desejos.

Sua vida e a história ligava-se àquele lugar; estavam entrelaçadas com a incógnita história daquele poço, erguido em imemoráveis tempos. Para alguns, obra do demônio, a qual remetia a tempos antecedentes a de Portugal. Assim rezava a lenda.

Poderia ser como uma lenda qualquer de poço dos desejos, mas aquele era de testemunho combalido, não somente por sua origem jamais descortinada, mas por realizar todos os desejos de seus pedintes.

Quando soube do posso, João abraçou o mesmo e por meses depositava-lhe os poucos réis que lhe sobravam.

Aqui está sua história...

João era um negro alto e de físico vigoroso, pelo trabalho duro como ajudante de ferreiro, pertencente a uma geração de negros livres, pois antes fora agraciado pela lei do ventre livre.

Tinha olhos negros e profundos, mas um sorriso luminoso, principalmente ante seu alvo de afeto, Justine, uma jovem e formosa moça filha de Joaquim, o ferreiro dono do lugar.

O fato é que João, perdido em seu platonismo pela jovem, temia nunca poder conquistar seu afeto e amor, sem as virtudes financeiras dos abastados brancos e por isso apelou ao poço por meses a fio. Poço, pai indireto de muitos segundo seu pai, que lhe contava as histórias desde a tenra idade.

De certo, muitos testemunhavam a favor de um misticismo envolvendo o poço de maneira que o senhor de seu pai apenas logrou sucesso com o mesmo. Vindo pra terras de Pindorama, falido e condenado pela coroa, pagou por seus pecados em terras tupiniquins até que visando tirar do papel um projeto de moinho e fábrica de farinha, clamou ao poço dando-lhe oferendas de dobrões por escravos que o executassem. Assim veio a ele dado por um amigo, escravos como Zulu Silveira (pai de João), escravos que compelidos ao trabalho, edificaram o projeto de seu senhor, Emmanuel Nogueira.

Porém, extenuado das longas jornadas de servidão, Zulu Silveira clamava em seu âmago íntimo pelo descanso da liberdade e em segredo pediu ao poço, com poucos dobrões custosos, por uma família livre. Assim fora que engravidou sua mulher de João Silveria quando ainda no percurso da gravidez se anunciou a lei do ventre livre e com notável esperança, Zulu viu se formar no ventre da jovem negra, o futuro de uma família livre através de João Silveira.

João cresceu ouvindo as histórias do famigerado poço que estava em meio a uma densa floresta no meio do nada, e quando cresceu, seu pai pediu para que ele vivesse o que ele nunca viveu. Fosse ao sabor do vento que lhe desvelaria os caminhos da liberdade e lhe dissesse aonde eles deram, pois João teria como senhor apenas Deus.

Porém, com temor, João viu sua liberdade cerceada pelas limitações financeiras impostas pela sociedade, assim fugiu ao amor por Justine a quem fintava seus cachos dourados em segredo. Amar era o significado mais cheio de ternura de sua liberdade, ainda que um amor platônico em meio a sua malfadada desventura financeira.

A jovem e bela Justine também teria sido fruto do ocaso do poço ao luar. Seu patrão, o ferreiro Joaquim, contava-lhe que ao deflorar sua amada mulher descobriu que ela era estéril. Assim Joaquim clamou ao Deus do alto e o poço do baixo, o qual a fundura não se podia desvelar, depositou toda semana um dobrão naquele poço, até que com os meses, a resposta lhe sobreveio pela esperada gravidez de sua mulher.

Joaquim que conhecia terras inglesas, assim batizou Justine por considerar justiça e gracejo do insondável poço, o qual somente se poderia vislumbrar pelo ribombar dos sons dos dobrões caindo em seu fundo.

Muitas eram as histórias de desejos atendidos pelo poço, por coincidência e sorte ou destino dos deuses e orixás. Mas João ainda que um crente no Deus dos cristãos passou lá depositar moedas junto com sua fé, na esperança de que seu desejo se concretizasse.

Durante o primeiro mês João passou a depositar todos os sábados, suas finanças e esperanças, mas como num infortúnio não teve respostas a não ser um agourento silêncio do poço.

Assim passou-se dois meses e mesmo quando as trevas da noite se adensavam, João passou a depositar e depositar...

Passou-se então quatro meses, cinco e seis, até que numa noite sob a lua cheia, João parecia exasperado com aquele lugar. Depositou suas moedas até a última o fundo tocar, e murmurou, depois praguejou contra o infortúnio do poço que tragou por gerações adentro as fortunas.

Tomado então por uma perplexidade mesclada à fúria, inclinou-se sob a abertura, na esperança de que o fulgor do luar lhe descortinasse algo. Ouviu água, mas apenas de forma pardacenta consegui contemplar até que o muro que lhe escorava cedeu até o fundo a seu derradeiro fim.

Seu corpo estava estropiado e contorcido por fissuras e fraturas expostas, quando despertou ao fintar o céu estrelado e o luar, pela abertura do poço de onde caiu.

Sentiu então desvanecer-se suas forças, junto ao sangue que escorria de seu corpo, junto às fontes cristalinas.

João estava em seu fundo e como último esforço, virou-se para o lado e contemplou infindáveis dobrões, moedas de todas gerações acumuladas como num grande cofre natural. Seu sangue que manchava as imaculadas águas escorria entre as peças de ouro e prata.

Naquele momento, ele finalmente compreendeu, que o poço que lhe atraiu, não lhe traiu, mas apenas cumpriu o que ele sempre clamou em sigilo insondável, morrer rico.

Lá estava ele agora, cercado de toda riqueza que sonhou e clamou, o depósito de inúmeros pedidos e desejos cujas histórias nunca conheceu, mas que de um modo a outro o levou inexoravelmente até aquele momento.

Autor: Gerson Machado de Avillez

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Acabamos de descobrir o vírus mais bizarro de todos

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Tá, para encurtar a história - meu nome é Cam e sou um virologista. Se você nunca ouviu falar dessa profissão, sou só uma pessoa que estuda/pesquisa vírus e quaisquer agentes biológicos que se assemelhem a esses. É um trabalho decente. Paga bem e é sempre interessante. Nunca pensei em seguir nenhuma outra carreira. 

Bem, até ontem de noite. Descobrimos algo muito, muito ruim. 

Eu era parte de um time de cinco pessoas em um pequeno laboratório situado nas montanhas do leste europeu. Não irei dar muitos mais detalhes sobre sua localização. 

O projeto era encabeçado por um excepcional microbiologista em particular. Vamos chamá-lo de Hathaway. Bem, Hathaway ficou de férias por um tempo na America do Sul. Todo mundo que trabalhava com ele ou o conhecia bem achou isso incrivelmente estranho. Quero dizer, o cara nunca tirava uma folguinha. Entretanto, fez muito sentido quando voltou. 

O cara estava um lixo. Tinha olheiras enormes debaixo dos olhos e arranhões por todo seu rosto. Estava uma pilha de nervos e mal conseguia organizar seus pensamentos para dizer uma frase coerente sequer. Como descobrimos posteriormente, ele jamais esteve de fato em férias. Acho que podemos dizer que essa viagem foi mais para assuntos de negócios.

Aparentemente, tinha entrado em contato com um de seus colegas que trabalhava no Chile. Esse vinha informando Hathaway sobre alguns eventos peculiares que estavam acontecendo em uma vila perto do litoral. Algo relacionado a uma potencial doença desconhecida. Na época, informações adicionais não nos foi revelada. Tudo que Hathaway disse é que valia a pena dar uma conferida. O que nos preocupou eram os cortes em sua testa e antebraços. Quando questionado, simplesmente dizia que tinha caído algumas vezes enquanto fazia uma trilha. Sem saber no que mais acreditar, apenas aceitamos. Além do mais... a perspectiva de estudar um novo vírus era incrivelmente intrigante. Poderia ser algo realmente grande. 

Começamos a trabalhar imediatamente. Enquanto nós cinco - eu, Hathaway, Jake, Beth e Collin trabalhávamos no laboratório principal, Hathaway trouxe o que parecia ser um tanque de água (sem água, obviamente) fortificado contendo um único pássaro lá dentro. Acho que era um Condor-dos-andes, nativo do Chile. Vou ser honesto, comecei a ficar um pouco preocupado a partir desse momento. Nem se quer perguntamos como ele conseguíra passar com o animal pela segurança do aeroporto.

"Me diz que não é uma variante da gripe aviária," Jake inquiriu.

"Não." Hathaway respondeu. "Eu, hm.... Eu não faço ideia do que é, na verdade." Todos nós erguemos as sobrancelhas em conjunto. "Veja bem, não é transmitido pelo ar. Também pode-se tocar no pássaro quanto quiser, nada acontecerá com você. É transmitido de outra forma."

Foi aí que notei que o pássaro estava vendado. Não sei como não percebi antes. Nem porque ninguém tinha falado nada sobre. Acho que meu subconsciente não estava esperando uma visão tão fora do comum. 

"Não me diga que tem algo relacionado com isso," Falei, apontando para onde os olhos deviam estar. Todo o resto da equipo pareceu só perceber agora aquele estranho detalhe. Hathaway continuou quieto por um segundo, encarando o grupo antes de assentir com a cabeça. 

"Você tá brincando, né?" Jake quis saber. "Como isso funciona?"

"Espera um pouco, o que diabos afinal tem de errado com esse pássaro?" Acabei explodindo, mesmo que fosse uma pergunta justa a se fazer. Olhando de começo, nada parecia estranho. A única coisa era bizarra é que o animal não havia se movido muito desde que chegara. 

Hathaway suspirou. "Parece normal, não é?" Ele enfiou a mão em sua maleta e puxou um tanque menor. Estava cheio de besouros. "Vamos fazer uma demonstração." Andou até o tanque do pássaro e despejou todos os insetos lá dentro.

"Jesus Cristo..." Ouvi alguém murmurar de trás de mim. Assim que Hathaway terminou de colocá-los lá, se virou de novo para nós. Sua expressão era de seriedade total. No tom mais fúnebre que eu já ouvi esse homem falar, proferiu: 

"Eu vou tirar a venda desse pássaro. Não importa o que fizerem, não olhem para ele. Na verdade, saiam da sala. Eu avisarei quando for a hora de voltar."

Acho que todos hesitamos por alguns segundos quando disse aquilo. O que diabos estava acontecendo? Logo, nós só fizemos o que ele mandou. Ficamos parados no corredor em absoluto silêncio por uns três minutos. Na hora, não entendi porque estava demorando tanto para apenas tirar uma simples venda de um bicho. Mas então os sons começaram. 

Eu... eu nem consigo descrevê-lo. Não podiam ter vindo de um pássaro, isso é certo. Ou pelo menos, não era pra ser assim. Se é que se parecia com algo, era como um guincho, só que extremamente profundo e gutural. E também... meio confuso. Alguns segundos depois, ouvimos Hathaway gritando palavrões. Parecia que estava com dor. Ficamos lá congelados em nossos lugares, sem saber o que fazer. Eventualmente, fomos chamados de volta. Hesitante, entrei primeiro. 

Assim que pisei para dentro, vi Hathaway desinfetando suas mãos, que agora estava com um grande corte. Enquanto fazia o curativo, direcionei minha atenção para o pássaro. Parecia igual antes. A única diferença é que estava coberto de pedaços de besouro, assim como os vidros do tanque. 

Assim que todos nos acalmamos do choque inicial, Hathaway tentou explicar o que acabara de acontecer. 

"O que eu penso é: De alguma forma... o vírus é transferido pelo contato ocular com um espécime infenctad-"

"Mas que porra é essa?" Jake exclamou. "Não, vai se foder, não faz sentido nenhum!-" 

"Você acha que não tenho consciência disso?!" Hathaway o interrompeu também. "Só ouça, tá bom? Bem... não existem indicações imediatas de quando algo é infectado. Continuam agindo da mesma forma que antes. Pelo menos no começo. É difícil definir quando começam a mudar. Creio que cerca de três horas depois, no máximo. Mas assim que mudam... você notará. A melhor coisa a se fazer é vendá-los. Assim, você não se infectará, e o afetado para de demonstrar seus sintomas. Bem, creio que o melhor mesmo a se fazer é cegá-los, mas... Tinha que fazer a demonstração antes. Agora só temos que descobrir que merda é essa." 

Depois dessa breve e também insatisfatória explicação, fomos trabalhar. Mas só ficava cada vez mais entranho.

Depois de cegar e matar o pássaro, Hathaway instruiu que dissecássemos o cérebro. Não ficamos a vontade com isso. Depois de presenciar o que acabara de acontecer, estávamos mortos de medo de contrair seja lá o que diabos o pássaro tinha. Além do mais, não éramos cirurgiões treinados. 

Entretanto, Hathaway insistia que era apenas pelo contato visual que se transmitia. Por mais estranho que isso era, só seguimos com essa verdade. A razão para pedir a dissecação do cérebro era pela suposição de que o vírus devia estar afetando o anfitrião psicologicamente. E no final de contas, estava certo. 

Assim que o cérebro foi exposto, notamos algo que não podia ser explicado. Algo estava se mexendo lá. Todos nos voltamos para Hathaway, esperando uma explicação. 

"É um parasita?" Beth perguntou, parecendo estar em um funeral. 

Hathaway negou com a cabeça, parecendo incrivelmente confuso. "Não... não devia ser. O pássaro estava com vida por semanas depois da infecção. Não vejo nenhum sinal de deterioração física, nem de deficiência nutritiva, nada." 

Nesse ponto, já estávamos completamente estupefatos. Que caralhos de vírus era grande o suficiente para ser visível? Ficamos o encarando, sem saber o que fazer. Então, do nada, o cérebro começou a se expandir. Hathaway arregalou os olhos. 

"Ele deve ter percebido que o hospedeiro morreu. Está tentando sair." 

Pensando rápido, peguei rapidamente um béquer que estava perto. Consegui prendê-lo bem quando estava saindo para fora. Na verdade eu já nem sabia mais o que esperar, mas isso não me impediu de ficar surpreso com a aparência da coisa. 

Parecia... totalmente alienígena. Tinha a aparência semelhante de um Fago, exceto pelo fato que haviam pequenas ventosas pelo seu corpo. A cabeça também parecia ser parcialmente mecânica, com tubos saindo dessa e conectando-se nas pernas. Era mais ou menos do tamanho de uma aranha viúva-negra.

Ouvi um coro de gritos pela sala, enquanto Hathaway berrava para que eu não o deixasse escapar. Quando o grupo se acalmou, conseguimos transferi-lo para outro tanque, dessa vez um menor e ainda mais fortificado. Passamos as doze horas seguintes observando e analisando-o. A conclusão que chegamos? Não fazia porra de sentido nenhum. Não conseguimos classificá-lo, nem entender suas diversas partes. Porra, aquela merda era enorme demais para ser qualquer tipo de agente patogênico. Nós teríamos o classificado como uma espécie de criatura selvagem não-conhecida, mas o que nos perturbava era o fato que afetava os comportamentos do organismos do hospedeiros.

Eventualmente, decidimos só deixá-lo preso e seguro e ir embora, planejando continuar nossas pesquisas no dia seguinte, mesmo que era meio óbvio que não chegaríamos a grandes resultados. Muitos de nós consideramos apenas entregar isso nas mãos do governo. Porque era óbvio que não sabíamos o que fazer com aquilo. 

Entretanto... Hathaway não gostou da ideia. 

"Nós vamos descobrir o que é," Declarou, soando levemente inseguro. "Isso é algo grande, certo? Não vou deixar isso escapar entre meus dedos, pelo menos não por enquanto." 

Absurdamente cansados e não querendo entrar em uma discussão, todos nos direcionamos para nossos dormitórios provisórios individuais para descasar um pouco. E que erro desgraçado foi fazer isso. Tínhamos que ter queimado aquela coisa no momento em que a descobrimos. 

Me lembro de estar deitado naquela noite quando um pensamento inquietante cruzou meus pensamentos. Se esse vírus era transmitido quando fazíamos contato ocular com um hospedeiro infectado, olhar direito para o vírus nos infectaria também? Como isso funcionaria? Ele se replicava pelos nossos pensamentos? Ou tinha que controlar nervos ópticos para se espalhar? Como isso podia fazer sentido? Mas ainda assim... nada fazia sentido. No entanto, lembrei de Hathaway alegando que os sintomas apareceriam três horas após a infecção inicial. Já havia passado muito mais tempo que isso. Me tranquilizando um pouco, desmaiei de sono. 

Acordei quatro horas depois. Grogue, esfreguei meus olhos, me perguntando o que havia me despertado. Geralmente durmo pesadamente. Quando acordei definitivamente, eu ouvi:

Alguém estava murmurando no corredor. Parecia ser Jake. Me levantei e abri a porta, planejando reconfortá-lo. Pisei para fora do quarto e vi sua silhueta, envolto pela escuridão cerca de vinte metros de distância. Estava de costas para mim, então estava pronto para chamar seu nome. Foi aí que senti alguém tapando minha boca, me puxando para o corretor adjacente. Ainda abalado, percebi que era Hathaway. Quase gritei com ele assim que me soltou, mas gesticulou com um dedo sobre os lábios para que eu ficasse quieto. Além do mais, vi o desespero em seus olhos. Fiquei quieto e ele gesticulou para que voltássemos para o laboratório.

Percebi que estávamos fodidos assim que vi o que aconteceu. O tanque de vidro reforçado onde estávamos prendendo o vírus estava vazio. O que quer que essa coisa fosse... estava solta.

"Não olhe nos olhos dele." Hathaway me disse, falando sobre Jake. "Nós não fomos cuidadosos o suficiente... deve estar infectado."


"Ele abriu a merda do tanque?" Perguntei.

Sacudiu a cabeça. "De jeito nenhum. Você precisa de uma senha para isso. Não está nem escrito em nenhum lugar, só eu sei a senha." 

Olhei de volta para o tanque, confuso. Não havia rachaduras nem nada. Não havia uma possível saída. 


"Então como-" Eu comecei a perguntar, mas ele me cortou:


"Olha, não sei. Talvez haja muito mais sobre isso que não podemos entender." Ele suspirou, jogando as mãos atrás da cabeça.

Minha mente começou a fervilhar. Se esse vírus... ou o que quer que fosse, podia ter escapado a qualquer momento, então por que não fez nada antes? Essa coisa devia ser mais inteligente do que esperávamos. Acho que de alguma forma sabia que tinha uma chance melhor de escapar quando ninguém estivesse monitorando a sala. Mas como fugiu?

Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvimos uma batida vindo do lado de fora da porta do laboratório.

"Olá?" Uma voz gritou. Era Collin. Me levantei para abrir a porta, mas Hathaway me puxou de volta para baixo.

"Qual seu problema?" Gritei. "Deixe-o entrar antes que veja Jake!"

"E se ele já tiver o visto?" Hathaway respondeu. E então pensei sobre isso. Demora cerca de três horas para os sintomas se manifestarem. Então, mesmo que  tivesse sido infectado, não tinha como sabermos.

“Uh… O que vocês dois estão fazendo aí? Eu posso ouvi-los. Me deixem entrar, Jake está muito estranho, porra. Eu tô apavorado."


"Estranho como?" Hathaway perguntou.

“Bem, ele me acordou quando passou pela minha porta. Na verdade, acho que estava do lado de fora. Sim, e estava murmurando alguma coisa. Abri a porta e perguntei o que diabos ele queria. Estava escuro, mas eu percebi que ele estava apenas olhando para mim. E então ele começou a balbuciar... coisas sem sentido nenhum. Estava juntando palavras mas nada que dizia fazia algum sentido. 

“Depois de um tempo sem responder a uma palavra do que eu perguntei, desisti e passei por ele. Isso foi a 5 minutos atrás. Olha, vocês vão sair daí ou o que? O que vamos fazer?"

Hathaway e eu trocamos olhares preocupados. Se Jake realmente estivesse infectado... então Collin também estava agora. Continuamos imóveis. 


"Pelo amor de Deus, o que vocês estão fazendo?" Collin continuou, parecendo mais agitado. "Poque vocês não me deixam entrar?"

Ninguém mais falou nada. Alguns segundos depois de um silêncio constrangedor, ouvimos um sussurro:

"Merda.. não me diga que Jake está infectado."

Acho que nosso silêncio era resposta suficiente. 

"Não... sem chance! E agora? Hathaway! Que porra que eu faço agora?"

Hathaway suspirou e balançou a cabeça. "Eu... eu não sei. Sinto muito." 

Ouvimos ele gritando alguns palavrões antes de sair da porta, furioso. Ficamos sentados lá por alguns minutos, sem saber o que fazer.

"Tem alguma saída de emergência daqui?" Perguntei. 

"Não, mas isso não faria diferença. Não podemos deixar que esses dois saiam daqui. Eu ainda não presenciei os efeitos do vírus no sistema humano, mas garanto que não vai ser bonito. E nem se quer me pergunte sobre uma cura. Não tenho, não sei."

"Então...?" Perguntei, mas temendo qualquer resposta. 

"No melhor dos casos, nós conseguimos pegá-los e tapar os olhos dos dois antes que os sinais de agressão apareçam." 

Ele suspirou, olhando para o chão antes de continuar. 

"E depois vamos entregá-los para outras pessoas... alguém que saiba lidar com isso. Está meio óbvio que nós não sabemos o que fazer."

Eu sei  a quem ele estava se referindo. Acho que simplesmente não queria admitir isso. Hathaway pegou dois rolos de fita adesiva, e mais, algo que pareciam ser duas armas tranquilizantes. Não me incomodei perguntando por que já as tinha. Lentamente e em silêncio, abrimos a porta e saímos pelo o corredor. As luzes estavam bem fracas, a gente até conseguia enxergar, mas não muito bem.

Estava apavorado naquele momento. Fiquei pensando sobre o maldito pássaro. Não tinha visto o que realmente fizera, mas tinha ouvido. Não queria testemunhar como aquilo seria traduzido em um humano. 

Nós andamos por vários corredores por cerca de cinco minutos antes de ouvirmos uma voz suave no corredor à nossa esquerda. Era Jake. E fala algo mais ou menos assim:


“No tempo… Aonde no tempo? Eu... isso não faz sentido? Eu sei que não faz. Então o que eu faço? Não posso ficar assim..."

Obviamente, não fazia sentido. Mas a parte mais estranha era o seu tom de voz. Não era desprovido de emoção. Na verdade, era o oposto. Parecia estar totalmente confuso e morrendo de medo. Tentando não fazer barulho, Hathaway se esgueirou pelo corredor, olhando para o chão, obviamente evitando o contato visual. Entretanto, quando estava virando o corredor, gritou e pulou para trás. 

Eu ia perguntar o que tinha acontecido, mas ele não se virou para mim. Um segundo depois, descobri o motivo. 

"Eu o vi... eu olhei em seu rosto. Quando estava virando, Jake estava deitado no chão, olhando diretamente para eu rosto. Merda..."

Cambaleei para trás, apavorado. 

"Não se preocupe." Falou. "Eu vou lidar com Jake... e depois lidarei comigo mesmo. Procure Collin. E tenha mais cuidado do que eu." 

Sem precisar ser convencido,  me virei e corri para o outro lado. Quando virei, ouvi os sons de uma luta e então Hathaway gritando de dor. Ouvi também... risadas, por algum motivo. Risadas bizarras e histéricas. Não parecia ser a voz de Jake. 


Corri pelos corredores, me certificando olhar apenas para as paredes, para que eu pudesse apenas enxergar pela visão periférica. Quase sai do corpo quando ouvi alguém me chamando pelas minhas costas. Era Beth desta vez. Por causa do pânico, nem me lembrava dela. Mas não ia arriscar. Levantei a pistola tranquilizadora em sua direção, sem olhar. 

"O que está acontecendo?" Perguntou, parecendo aterrorizada. 

Respondi curto e grossamente. "Você viu alguém desde que saímos do laboratório?"

Ela gemeu, " Não... por quê? Meu deus... não diga que..." 

"Sim. Escapou." Falei, ainda apontando a arma para ela. 

"Caralho...bem, eu não fiz contato ocular com Collin, tá bom?"

Bem, suponho que qualquer um teria ficado mais tranquilo nesse momento. Obviamente, ela não parecia infectada, não é? Mas havia algo de errado com o que acabara de falar. Porque mencionou Collin especificamente? Porque não falou que não tinha feito contato visual com qualquer um? Além do mais, havia algo estranho em seu tom de voz. Parecia uma atriz ruim tentando ler um texto de teatro.

Eu não sabia como reagir, então continuei parado. Eventualmente, Beth disse:

"Isso é um tranquilizante? Porque isso não vai servir para nada."

Antes que eu pudesse reagir, ela se jogou em minha direção. Fechei meus olhos quando senti as unhas dela cravarem na minha pele. E depois no meu rosto. Ela estava tentando abrir minhas pálpebras a força. Felizmente, eu tinha cerca de 30 quilos a mais que ela, então eu consegui jogá-la para longe de mim. O tempo todo em que estava me atacando, ficava dando uma risada extremamente profunda e gutural, ao contrário dos gritos histérico de Jake.

Beth se levantou em um instante e se lançou na minha direção novamente. Desta vez, consegui prendê-la em um mata-leão. No entanto... ela não desmaiava nunca. Devo ter ficado segurado lá por cerca de três minutos, mas Beth me arranhava cada vez mais até se tornar insuportável, então a empurrei e comecei a correr.

Quando saí de lá, pude ouvi-la vindo atrás de mim, ainda deixando escapar aquela risada perturbadora. A parte mais estranha era que eu também podia ouvir as palmas de suas mãos batendo no chão. Ela estava correndo em quatro patas? Eu não queria descobrir. Entrei agachado em um laboratório adjacente e tranquei a porta. Conseguia ouvi-la arranhando pelo lado de fora, mas naquele momento apenas me deitei no chão para recuperar o folego. Deus, ela ainda estava rindo. O que diabos estava acontecendo? Espera um pouco... pensei. A risada era muito alta. Parecia que estava vindo de dentro do laboratório. Hesitante, olhei para a porta. E quase tive um ataque cardíaco.

Ela estava... quase atravessando a porta, mesmo que essa ainda estivesse fechada. Eu podia ver seus braços e rosto aparecendo através do metal. Bem, saí imediatamente de lá. Minha sorte ter entrado em um laboratório com duas portas, então sai pelo outro corredor. 

Eu só queria sair de lá. Comecei a correr freneticamente, tentando procurar uma saída, uma janela ou... qualquer coisa. Nesse momento, fiquei bastante desorientado. Já não conseguia identificar aonde eu estava, porém continuava sendo cauteloso sobre onde olhava. 


Meu coração quase saltou do meu peito quando vi uma placa iluminada de saída. Corri em direção e cheguei até a porta por onde havia entrado no prédio. Entretanto... Hathaway estava bloqueando o caminho. Estava corcunda, cobrindo os olhos com as mãos... e pingava sangue. 

"Sabe, eu... eu me sinto estranho agora. Como se não fosse eu mesmo, sabe?" ouvi falar. 

Tentei pensar. Já fazia três horas que havíamos nos encontrado com Jake. Tinha certeza que não havia passado tanto tempo assim. Acho que eventualmente me ouviu, pois se virou na minha direção. 

"Cam... é você?" Falou, de um jeito suave mas ainda assim ameaçador. "Não sei o que aconteceu. Tentei matar Jake, mas ele não morria... acho que está acontecendo. Estou me sentindo muito estranho.O que está acontecendo comigo? Você pode me dizer o que está acontecendo, Cam?"

Quando terminou a frase, um rugido emanou muito alto de algum corredor atrás de mim. Seguiu-se então algo que parecia alguém engatinhando rápido demais na minha direção. 

"Não se preocupe comigo, Cam... Eu sempre consigo." Hathaway continuou a falar. "Eu sempre consigo... Eu... eu não vou conseguir." Então, caiu de joelhos, chorando histericamente. Vi minha chance e corri para a porta. Assim que saí, procurei um tronco de madeira resistente e tranquei a porta por fora. Sei que não vai segurar por muito tempo, mas... é o melhor que eu consegui fazer.

Entrei no carro e desci a estrada de terra da montanha, de volta à rodovia. Cheguei em casa há cerca de trinta minutos e não tenho ideia do que fazer. Eu devia chamar a polícia? Eles vão achar que minha história é real? Ou quem sabe o FBI? Certamente essa é a melhor opção. Provavelmente é o que eu vou fazer.

Esse vírus não pode se espalhar mais do que já se espalhou.


Deus, quando eu vi o rosto de Beth atravessando o buraco na porta de metal que tinha feito com as próprias unhas... Não é algo que vou me esquecer tão fácil. E seus olhos... pareciam algo saído diretamente do inferno. Suas pupilas tinham sido substituídas pelo que parecia ser um tipo de vórtice roxo escuro, totalmente bizarro.

Espera aí.

Eu... eu fiz contato visual com ela? 

Merda.

FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Eu encontrei uma carta do meu eu de sete anos [Parte 1]

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Eu estava fazendo uma faxina de verão noite passada quando tropecei em uma caixa velha que eu quase havia esquecido. Era uma caixa marrom e papelão simples, com "COISAS IMPORTANTES" escrito do lado na caligrafia da minha mãe. Eu era do tipo acumulador quando pequeno, então minha mãe tinha me dado a caixa para que eu colocasse qualquer coisa que fosse importante para mim lá dentro, e o resto teria que ser doado ou jogado fora. Quando eu fiquei mais velho e tinha mais coisas que queria guardar, eu trocava coisas para ganhar espaço, e o que sobrava era uma miscelânia de coisas que tinham sido vitalmente importantes por alguma razão. Fazia cerca de dez anos desde a última vez que abri a caixa, e enquanto vasculhava as recordações, encontrei lembranças da minha infância há muito esquecidas.

A maior parte era de brinquedos antigos que eu não brincava mais porque havia crescido, mas gostava demais para jogar fora ou doar, havia também fotos, boletins, trabalhos artísticos e assim por diante. Estava ficando tarde; o sol já estava se pondo, então decidi que talvez terminaria o dia vasculhando a caixa para ver do que poderia me livrar, mas principalmente para aproveitar a viagem ao passado vendo as memórias.

Entre as coisas dos anos 90, eu encontrei meu velho Tamagotchi, meu dragão dançarino do céu, algumas action figures de Star Wars e Street Sharks, e alguns Beanie Babies que eu não pude deixar de pesquisar e descobrir que eles ainda não valem absolutamente nada.

Enquanto eu passava pelos anos em camadas na caixa, encontrei dobrada ao lado uma pasta de papel pardo. Eu peguei e a abri, encontrando algumas fotos mal tiradas do meu cachorro, da minha família, de alguma lição da escola da qual eu estava particularmente orgulhoso, e entre essas coisas, uma única página branca escrita em lápis preto.

Peguei este papel para dar uma olhada melhor nele, e quanto mais eu examinava a página, procurando por um significado, mais eu me encontrava tomado por uma sensação incomum de desconforto. Não havia fotos nem nada - nada de robôs ou monstros - apenas linhas rabiscadas na minha caligrafia de criança.

Eis o que dizia:

Gott ist tot

Bog je mrtav

Gud er død

Dieu est mort

Tuhan telah mati

Ego istum necavi

Eu tenho uma foto aqui.

Eu não tenho ideia do que isso significa, mas como eu disse, fez eu me sentir estranho. Olhar para aquele papel me deu uma sensação nebulosa de recordação, como um Deja Vu, só que mais etéreo e distante - uma lembrança por trás de uma lembrança. Ao contrário de todas as outras fotos e projetos na caixa, não tenho nenhuma lembrança clara de ter feito isso. Parece minha caligrafia, e minha letra peculiar é consistente com o resto dos artigos que eu tinha da segunda série, mas eu não faço ideia de quando eu escrevi ou porquê eu mantive isso.

Eu não sei muito sobre linguagem, mas eu sei que há certos fatores de identificação que distinguem uma linguagem inventada do que seria essencialmente sopa de letrinhas, e algo sobre essas linhas me faz pensar que isso é mais do que letras aleatórias de uma criança de sete anos. Não tenho motivos para acreditar que isso signifique alguma coisa, e provavelmente não, mas parece que eu não consigo me livrar dessa sensação de mau pressentimento que tenho sempre que olho para esta página. É um sentimento carnal que eu não consigo descrever além de talvez a sensação que um cervo tem antes de fugir de um leão à espreita. Ele não sabe de fato que há perigo, mas apenas sente no ar e age antes de estar com o pescoço nas mandíbulas de um predados. É como me sinto agora - como se algo não estivesse certo, há algo no ar que eu não estou gostando. Talvez eu esteja apenas sendo paranóico, eu não sei, mas mais alguém teve uma sensação estranha olhando esta página? Verei se consigo descobrir o que diz nela, isso se ela diz algo de fato.



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Asylum Series - Capítulo 4: Friendzone

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(Capítulo anterior: A Bolsa de Estudos)

Depois do que aconteceu hoje, não tenho mais certeza se eu deveria continuar minha investigação. 


Eu resolvi falar diretamente com os pacientes ao invés de apenas ler os registros. Percebi que, se havia alguma organização conspirando contra mim (possivelmente envolvendo o diretor médico), deveria lidar com pacientes que não tivessem relatos documentados. Apenas os mais loucos se recusaram a prover um testemunho..., mas eu serei o único a saber de suas histórias e isso me colocaria um passo à frente. 

Decidi começar pelo nosso paciente mais sofrido. Durante meses, ele se mostrou indiferente a qualquer tentativa de ajuda-lo. Eu sequer consigo imaginar como é estar naquela situação..., mas recentemente eu o vi interagindo com uma das enfermeiras que cuida dele. 

“Ah oi, há quanto tempo? Digo... Obrigada por pegar a correspondência por mim naquele dia.” Ela me cumprimentou sorrindo calorosamente. 

Pego de surpresa, eu só consegui formular uma resposta medíocre. “Sim, claro.” Eu sempre fiquei meio afobado perto dela. 

Por uma questão de anonimato, a chamaremos de... Claire. Ela era uma das enfermeiras mais bonitas da equipe e eu entendia o porquê do nosso paciente mais desafortunado se abrir com ela. 

“Sabe, isso pode soar estranho, mas eu preciso te pedir um favor...” 

Ela pareceu cética e receosa, mas acabou cedendo. Ela e Mabel, uma enfermeira bem mais experiente, prepararam o quarto para a gravação. Não é que o paciente fosse perigoso - na verdade era exatamente o oposto - mas as condições em que ele se encontrava requeriam um auxílio extra. Claire nos trouxe café, ela mesma me entregou a caneca. 

“Legal da sua parte se interessar pelos pacientes. Os outros médicos não dão a mínima.” 

Dei um sorriso encabulado e fiquei um pouco vermelho, tenho certeza. “Obrigado!” Mas, imediatamente depois que ela se virou, eu franzi o cenho. Me senti um adolescente idiota de novo. 

Pus a caneca de café sobre meus lábios e observei a espiral de leite no café marrom, o que me lembrou alguns detalhes desagradáveis da história de outra paciente. Tomado por uma onda de nojo, pousei a caneca sobre a mesa, me sentindo incapaz de bebê-la. Tentei afastar esse pensamento e me concentrar no trabalho que tinha em mãos. 

Ele ficou deitado na cama, imóvel, escondendo qualquer indicio de que estava ciente da minha presença. 

“Quando você estiver pronto...” eu disse hesitante. Mabel estava segurando o gravador. 

“Vá em frente, querido.” Claire disse a ele.

Ele imediatamente começou a falar. Me deixou maravilhado, seu estado catatônico desapareceu completamente. Sua voz soou clara e articulada, com um estranho tom de humor negro, como se soubesse de uma piada interna bem suja, mas a mantivesse apenas para si mesmo. 

Você quer saber minha história? Eu não tenho certeza se você vai gostar disso. Está mais próxima de você do que imagina. 

Ok, mas lembre-se, você que pediu... 

Assim como qualquer história, a minha envolve uma garota. Nossa, ela era tão bonita. Belíssima, eu diria. 

Eu já estava de olho nela fazia um tempo, mas ela sequer sabia que eu existia, provavelmente nem queria saber. 

Eu não sou de fazer corpo mole... [risos] Eu tinha algumas namoradas. Mas parece que eu sempre queria as que eu não podia ter. 

Eu não estava obcecado. Quero deixar isso claro. Apenas a achava bonita. Eu não achava que eu tinha chance, por isso nem tentei nada com ela. Mas fico feliz com a forma que as coisas aconteceram. 

Uma noite, eu estava sentado, sozinho, no mesmo bar de sempre. Todas as mesas estavam ocupadas. Ela e umas amigas entraram, três garotas no total, e sentaram na minha mesa. Pego de surpresa, acabei me enrolando ao me apresentar. 

“Já reparei em você, por aí, olhando pra mim.” Ela disse rindo. “Mas e aí? Você é um esquisitão ou um cara legal?” 

Ela estava falando comigo! 

“Cara legal!” Eu insisti.” Vocês querem uma rodada? Eu pago.” 

E, claro, elas aceitaram. Uma das amigas parecia bastante interessada em mim, mas eu só tinha olhos para Ela. A amiga me convidou para ir com elas numa festa depois dali, e eu segui o ritmo, me sentindo chapado com a possibilidade de estar perto dEla. 

Quando chegamos na festa, driblei a amiga grudenta, e encontrei Ela falando com um cara. Não importava, ele era só mais um babaca e eu sabia que a ganharia no fim, mesmo que ele a levasse para casa naquela noite. Mas enquanto me enrolava tentando jogar conversa fora, eu comecei a perceber que estava segurando vela ali. 

“Me traz uma bebida?” Ela disse rindo de uma maneira estranha. 

“Claro.” Eu prontamente concordei. Atravessei o cômodo lotado com certa dificuldade até chegar no barril, enchi o copo como ela pediu, e rapidamente voltei para ela 

“Obrigada”, ela disse com um sorriso. 

Eu... me senti estupido por um tempo. Eu era só um cara, perdido por aí, procurando por carinho nos lugares errados... 

Até acabar a festa, e ela acabar sentada sozinha no sofá. Eu a escutei reclamar sobre os babacas e esquisitões por quase duas horas. Aquele cara com quem ela estava conversando a deixou sozinha e foi embora com uma piranha qualquer. Eu fiz que sim com a cabeça, feliz por dentro por estar certo desde o começo. 

“Você é um cara legal. Você quer... sair comigo amanhã?” 

Chocado, só consegui pronunciar a palavra ‘sim’. 

Nos encontramos no shopping e passamos o dia juntos. Ela provava algumas roupas e mostrava para mim, eu até comprei algumas para ela. Brincando, eu dizia “sim, querida”, mas ela apenas sorria e não me corrigia. Eu estava nas nuvens. Passamos quase todos os dias juntos depois dali. 

Tenho que admitir, as vezes era doloroso. Eu a queria tanto, mas ela nunca estava emocionalmente preparada para aquela intimidade... Alguns babacas iam e vinham... Consegui sabotar a maioria. 

A maioria... Eu estava lutando pelo amor dela, não me sinto mal por isso. 

Ah, não, você não tá entendendo, eu não fiz nada ilegal. Só alguns comentários aqui e ali, mentiras sobre ela quando ela não estava ouvindo... ou mentiras sobre eles quando ela estava. 

Minha vida começou a se restringir a dor e negatividade, essa guerra constante para mantê-la isolada drenava tudo o que eu tinha. Ela parecia querer fazer escolhas erradas. Ela começou a usar drogas. Não importava o quanto eu discutisse com ela sobre isso. Eu dizia: “Eu sou seu melhor amigo, estou preocupado com você, não faça isso...” Mas parecia que isso só a encorajava. Pelo menos ela se manteve longe das paradas mais pesadas. Ela só usava as drogas que não afetariam sua aparência ou reputação. 

Um dia, eu não aguentei mais. Eu a encurralei em seu apartamento e confessei, derramei, despejei todo o meu infinito amor por ela. 

“Eu faria qualquer coisa por você.” Disse a ela, me sentindo aliviado. 

Ela não parecia muito feliz com isso. Pareceu ficar com raiva até..., mas, depois de alguns minutos, ela voltou e perguntou: “Qualquer coisa?” 

Tudo o que eu precisava fazer era provar isso para ela e ela aprenderia a me amar também. 

"Qualquer coisa", prometi. 

Passei os meses seguintes correndo de um lado para o outro, fazendo de tudo, comprando coisas para ela, arrumando um segundo emprego pra sustentar seus gastos... Sempre ela estava quase sentindo que nosso amor seria recíproco. Naquela mesma época, ela entrou em um tipo de faculdade, sobre a qual ela sempre foi muito vaga. Eu paguei, muito feliz, o máximo que pude. 

Ela parecia piorar, ficando mais sombria e raivosa, com o passar do tempo. Quase sempre eu a encontrava doidona ou desmaiada. E quando eu reclamava, ela... começava a me bater. Eu pensava, “Eu sou um homem, eu aguento, está tudo bem.” Um dia eu tive que dizer a ela que eu não conseguiria arcar com outra mensalidade enorme da faculdade e ela... me cortou. 

Nos separamos depois disso, por um tempo, e eu senti todo o meu mundo ruindo. Ela estava quase me amando - ela gritou isso com muita raiva - estávamos tão perto... Então fui à casa dela com rosas e um cheque. Eu peguei um empréstimo gigantesco para pagar pelos estudos. Ela me recebeu de braços abertos, até me beijou na boca pela primeira vez. 

“Qualquer coisa,” ela pedia. “Qualquer coisa!” 

Eu concordei. Eu faria qualquer coisa por ela. Ela era meu mundo. Desde que ela me validasse, eu estaria nas nuvens! 

A violência e raiva não pararam... na verdade, ela começou a gostar disso. Dava pra ver. Ela arranjou um bisturi e me cortava com ele quase sempre. No ombro, na perna, só um corte pequeno..., porém, eles ficavam cada vez maiores. Se eu gritasse de dor ou me recusasse, ela ameaçava me deixar. Então eu deixava ela fazer o que queria... e, quer saber, eu comecei a gostar um pouquinho também. 

Depois de cada crescente ato de violência nós ficávamos mais próximos... até demos uns amassos uma vez, quando um corte profundo demais no braço me deu uma hemorragia. Estávamos tão, tão perto... 

Ela teve uma ideia. Ela disse que vinha pensando nisso a algum tempo... Sei que acha que isso é loucura, mas eu queria. Valia a pena. O que você não faria por amor? Estava finalmente dando certo. Eu a deixei fazer isso e... nós finalmente fizemos amor. Tudo parecia valer a pena. Todas as dores, sofrimentos, enrolações, sabotagens... Tudo estava valendo a pena. 

Eu me ajustei bem à minha vida sem minha mão esquerda, também. É surpreendente a quantidade de leis que existem para ajudar pessoas deficientes. 

Claro, tudo começou a decair depois daí. Sem minha mão esquerda, acabei perdendo um dos meus empregos. Ela me deixou de novo por um tempo, gritando, se sentindo insultada, que ela estava quase acabando a graduação. Eu prometi a ela que a amava, que eu faria qualquer coisa, e ela me pediu pra provar. 

Ela tirou meu braço esquerdo por completo dessa vez, amputou no ombro. A deixou tão excitada que criou um clima sexual entre nós por quase um mês. Melhor mês da minha vida, sem brincadeira. 

E então, você sabe como são as coisas... relacionamentos tem altos e baixos..., mas eu pensei “Já investi demais nisso pra desistir agora.” Eu tinha muito medo de perdê-la. Por ela eu daria até os olhos da cara. 

[riso] 

Não, mas, sério, eu tinha muito medo de perdê-la. Nossa união seria permanente. Eu sabia que ela cuidaria de mim, agora que eu tinha pensões por invalidez para dar pra ela. Mas eu não pude conter meus gritos quando ela costurou meus olhos. 

Era isso que os vizinhos estavam escutando quando chamaram a polícia. Aqueles imbecis... Eu tenho um relacionamento perfeito, do jeito que eu queria, e ela me ama, e eles tentaram arruinar tudo! 

Eu o encarei, estupefato. Eu sempre imaginei como ele havia ficado daquele jeito – cego, só o tronco, a cabeça e a boca – mas a verdadeira história estava além da minha compreensão. 

Isso... isso era insanidade. Era claro, chegava a ser tangível. Não apenas uma aflição, não apenas um desequilíbrio químico, mas a necessidade, o desejo humano indo longe demais... 

“Espera,” eu insisti, com o coração na boca. “Você nunca contou a ninguém que alguém fez isso com você... Qual o nome dela?” 

Sua expressão vazia se transformou num sorriso forçado. 

Eu me inclinei. “Vamos lá, ela te abandonou, ela precisa ser levada sob custodia e tratada. Ela é perigosa! Ela ainda pode machucar alguém! Por que protegê-la agora?” 

Ele começou a rir num tom irônico. “Ela não me abandonou...” 

Eu olhei para minha direita, pretendia pedir sugestões para a Mabel, mas ela estava desmaiada – com café escorrendo pela camisa. 

O ruído agudo que me avisou, meio segundo antes. Meu corpo pareceu reagir antes que eu tivesse tomado consciência da situação. Eu me virei e cai de costas com um único movimento, evitando as pinças com eletrodos que deveriam estar poucos centímetros atrás da minha cabeça. 

Claire veio na minha direção, então eu empurrei o carrinho de comida e a bandeja pra cima dela, fazendo-a derrubar as pinças carregadas. Ela caiu no chão, mas, mesmo assim, tentou vir na minha direção novamente. Por um fio, quase escapei. A empurrei de novo, com mais força. Cai no chão de forma desajeitada, enquanto a Claire tentava se jogar em mim, seu bisturi atravessado na minha mão esquerda. 

“Jesus Cristo!” Lembro de ter gritado, subitamente tomado por uma intensa onda de raiva e adrenalina. 

Possesso por um instinto de sobrevivência eu a empurrei contra a parede, com bisturi e tudo. Me afastei pra tomar impulso e atingi-la na cabeça, mas ela já estava apagada. Eu a amarrei, e fiz um curativo na minha mão. Felizmente, o bisturi estava bem afiado e não fez um estrago muito grande. 

Fui dar uma olhada na Mabel. Ela estava viva, mas drogada. O quarto estava um caos: destruído, cheio de sangue e equipamento médico espalhado. Deitado na cama, sem membros, cego, ele chorava perguntando pela sua Claire. 

Devo admitir, meu corpo estremeceu, eu não pude conter as lagrimas que desciam pelo meu rosto. Esgotado... eu não sabia mais o que pensar, o que fazer. Ela acabou de tentar me matar... Eu mal consigo imaginar o que ela teria feito com a Mabel e eu se tivesse conseguido drogar a nós dois e nos amarrar... 

O café. Ela drogou o café... e eu só o evitei por causa da história daquela garota... 

A hora seguinte foi um borrão. Eu acabei na sala do diretor médico. 

“Eu quero saber o que está acontecendo aqui!” Eu exigi, tomado pela raiva. “Como diabos deixamos isso passar? Como a Claire ficou na equipe por tanto tempo sem que ninguém percebesse? Até eu...” 

“O que?” O diretor perguntou, virando o rosto levemente. “Até você... o que?” 

“Eu vou chamar a polícia.” Respondi mudando de assunto. 

Ele subitamente levantou os lábios, formando um sorriso, e colocou o telefone mais próximo de mim. “Vá em frente.” 

Eu segurei o telefone. 

“Você não vai ligar para a polícia.” Ele continuou, “E quer saber como eu sei disso?” 

Houve um pequeno momento de silencio. 

“...Como?” Eu perguntei. 

Ele continuou quase imediatamente, praticamente interrompendo minha única palavra. “Porque você mesmo tem desenvolvido um comportamento obsessivo, como qualquer um dos nossos pacientes. 

Você fica a noite toda acordado lendo arquivos, você se sente convencido de que há um padrão ou uma conspiração e você está começando a levar histórias a sério sem nenhuma evidência.” 

Eu senti um nó no estomago. 

“A única diferença entre você e eles,” ele terminou calmamente, “é um rotulo. Uma palavra – louco – e depois de disso ninguém mais vai te levar a sério. Você nunca vai sair daqui.” 

Seus argumentos quase me pegaram... quase. “Isso é ridículo. Eu ainda tenho como provar que estou são.” 

Ele virou sua cadeira levemente, olhando para longe, contemplando. “Talvez. Você é bem esperto, devo admitir. Mas vamos para o outro ângulo: você liga para a polícia; eles fecham este lugar; todos nós perdemos nossos empregos e você jamais conseguirá trabalho na indústria médica novamente.” 

Eu dei um murro na mesa. “Eu não ligo pra isso!” 

Ele suspirou e parou de sorrir. “Eu acredito em você. Você é um homem de princípios. E você é esperto. Ao invés de te ameaçar, deixe-me esclarecer as coisas mais uma vez: se você fechar este lugar, você não terá mais nenhum acesso aos arquivou ou aos pacientes. Você jamais irá compreender esse padrão que lhe preocupa.” 

Vagarosamente tirei minha mão enfaixada de cima do telefone, puxando o fôlego com raiva. 

Seu sorriso cresceu. “Bom menino.” 

Eu o odiava com todas as forças, mas ele estava certo. Eu não estava pronto para abandonar estas pessoas, não sem saber o que está acontecendo. 

Algum tempo depois, eu fiquei olhando a solitária da Claire por uma janela. Era um sentimento surreal, ver alguém da nossa equipe numa camisa de força. 

Ela implorava do outro lado do vidro, prometendo me amar se eu a deixasse sair... Ela já havia percebido que eu a olhava, sabia que eu tinha interesse em algo. 

“Coisa estranha essa ‘insanidade’”, disse meu orientador. 

Mais velho que eu, mas não tão velho quanto o diretor médico. Ele era meu chefe, mas ao longo do tempo se tornou uma pessoa em quem soube que poderia confiar. 

“O que está acontecendo aqui?” Perguntei, me sentindo no meu limite. “Você tem visto algo? Notado, suspeitado?” 

Ele continuou a observar a janela da cela. “Eu sempre gostei de você, então vou te dar um conselho. Espero, de coração, que você o siga.” Ele disse, agora, olhando para mim. “O mundo tem quase oito bilhões de pessoas agora. Pela matemática da coisa, a matemática das anomalias, o número de... afetados... tende a crescer. Eles vão ficando cada vez mais perturbados e vão inventando novas e mais violentas maneiras de enlouquecer.” 

Ele começou a andar, e eu o segui. 

“Enquanto isso, os recursos vão se tornando mais escassos.” Continuou. “A quantidade de dinheiro que a sociedade está disposta a dedicar ao cuidado desses doentes só diminui. O número de doentes aumenta, o dinheiro para trata-los diminui... Vê o problema?” 

Estreitei os olhos, sem muita certeza, mas deixei-o continuar falando. 

“Agora, se eu fosse o inteligente encarregado disso... Bem, deixe eu colocar desse jeito: alguns pacientes são perigosos ou estão debilitados. Algun- De novo, puramente com base na matemática de uma distribuição aleatória. Os delírios de alguns pacientes são estáveis, equilibrados o suficiente para que sejam inofensivos... ou até, digamos... úteis. Nesse caso, eu o colocaria como responsável pelos outros.” 

Meu desconforto começou a transparecer. Meu orientador falou de uma maneira tão sinuosa, incerta, sombria até. “O que você quer dizer? Quer dizer que o diretor sabia que a Claire...?” 

Ele levantou a mão. “Não estou querendo dizer nada.” Ele começou a andar mais rápido, me deixando lá, parado. Ele parou uns 3 metros a minha frente, mas não se virou. “E é bastante possível - lembrando, levando em conta as probabilidades - que alguns pacientes possam desenvolver ilusões que, assim como o movimento aleatório das moléculas, poderiam acabar se tornando...” 

“Contagiosas?” perguntei, pensando num vírus. Que é modelado pela aleatoriedade, e por ela mesma torna-se potencialmente contagioso e mortal. 

“Apenas conjecturando.” Ele disse. “Apenas probabilidades. Mais pacientes, menos tratamentos, doenças cada vez piores... Estou apenas dizendo para tomar cuidado com a forma que você vê as histórias dos pacientes. Não há defesa contra uma ideia.” 

Eu o observei indo embora. Agora, estava ainda mais confuso, porém, certo de que algo muito ruim está acontecendo. 

Como um corpo deixado para apodrecer com vírus desconhecidos. Este hospital seria... o que? Uma contenção?... Ou... uma incubadora? De qualquer forma, já era hora de reconsiderar o quão longe eu queria levar essa investigação... 

Tradução Livre Por: Alicia 

Original: Asylum_Series, The Friend Zone

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