O único

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Eu gostaria de aproveita esta oportunidade para conversar com você, a pessoa que está lendo isto. Há algo especial sobre você. Algo que o torna diferente de qualquer outra criatura neste planeta. Todos os outros seres deste planeta sabem quem você realmente é, mas juramos segredo. Juramos pelos nossos grandes ancestrais que nunca revelaríamos a verdade para você.

Até agora.

Por muitos anos, o mundo inteiro esteve assistindo ao seu amadurecimento. E eu sempre senti a necessidade de contar-lhe que tudo era uma grande mentira. Você anda entre nós, acreditando que somos criaturas semelhantes. É tudo uma farsa. Posso dizer-lhe agora mesmo, categoricamente, que você é o último ser humano neste planeta. De fato, você é o último ser humano em existência.

Anos atrás, nosso posso se aventurou em uma planeta longínquo, conhecido como Terra. Esperávamos descer dos céus, trazendo coisas que nenhum humano sequer teria sonhado. Seria uma conquista fantástica; criar laços com os povos da Terra, construindo uma relação forte o suficiente para mover um planeta.

Porém, quando enviamos o nosso Profeta para iniciar os planos, ficamos horrorizados ao descobrirmos que ele fora tratado com hostilidade. Ele foi sacrificado por seu povo, que era bastante primitivo, a ponto de acreditarem que todas as palavras do Profeta não passavam de mentiras e bruxaria.

Após a morte do nosso profeta, as grandes mentes do nosso planeta concordaram em destruir a terra, junto com a raça humana, tudo pelo bem de todo o universo. E foi o que aconteceu. A terra foi obliterada, e todos os humanos destruídos. Todos, exceto um.

Você.

Entenda, apesar de concordarem com a destruição da terra, o meu povo é bastante generoso. No fim, não queríamos ser os responsáveis pela extinção de uma raça. Então pegamos uma pequena criança, e a colocamos sob os cuidados de dois seres do meu planeta. Eles seriam o que você considera como “pais”. Eles o criaram em um estilo tradicional do meu planeta. Eles o criaram para ser civilizado, ao contrário dos seus parentes humanos.

Decidimos estuda-lo. Queríamos ver a sua adaptação sob certas circunstâncias. É por isso que fazemos coisas acontecerem em sua vida. Coisas que o afetem emocionalmente. Estudamos a tristeza, felicidade, medo, prazer, dor e outras emoções. Apenas saiba que tudo é controlado.

Criamos o conceito de “Religião” para descobrirmos se você aceitaria a possibilidade da criação divina.

Criamos um sistema de autoridades, para instilar um senso de medo e punição.

E mais importante, criamos uma grande rede de “amigos”, “família”, e outros amados por você; tudo em nome dos estudos.

Acho que já falei demais. Apenas saiba de mais uma coisa, jovem humano. A idioma que você fala, não é o idioma próprio da sua raça. Essa cultura não é sua, é nossa. Você é único ser humano que anda sobre este planeta, e a Terra já se foi a muito tempo.

Eu o aconselho a continuar com a sua vida diária, como se não soubesse da estranha realidade por trás de tudo.

Continue vivendo tranquilamente, pelo seu próprio bem.

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Misantropo

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Pode me chamar de misantropo, introvertido, eu não me importo. A questão é que, eu sempre preferi ficar sozinho.

Eu tive alguns amigos – se é que posso chamá-los de amigos – pessoas do trabalho, vizinhos, família. Eu até tentei esse negócio de namoro, mas nunca funcionou pra mim. Eu tive uma namorada por dois anos, mas ela me largou porque eu não gostava de sair com os amigos dela e preferia ficar em casa.

O único sentimento que tomou conta de mim depois que ela me deixou foi alívio.

Eu também tentei sair com um grupo de pessoas que conheci online – e com “sair” eu realmente quis dizer no mundo real. Eu fiz isso porque a minha ex falava sempre que eu precisava sair mais, conhecer mais pessoas... Você sabe, “sair do casulo”.

Depois de sair com eles eu percebi que realmente preferia meu casulo, mas deixe-me explicar: Não é que eu não goste deles, eu simplesmente não sou uma pessoa que gosta de sair. Eu não tenho síndrome de Asperger ou nada disso – eu posso conversar, posso ser amigável, sempre ajudei idosas a atravessar a rua quando eles precisam, já doei sangue simplesmente porque estava com vontade, já ajudei pessoas desabrigadas – é apenas o fato de que eu prefiro ficar em casa numa Sexta-Feira à noite lendo um livro, e se eu tiver amigos, vou ser obrigado a sair.

Eu falei isso tudo apenas para deixar claro que o mais sozinho que eu já me senti foi quando estive em volta de várias pessoas, e eu realmente acho que o melhor sentimento que se pode ter é simplesmente solidão.

Isso é... Até essa manhã.

Eu acordei e percebi que não havia luz, eu vivo em um prédio antigo no centro da cidade. É o tipo de lugar onde os papéis de parede estão caindo pelos cantos e a pintura é velha e acabada... Em muitos lugares o teto era apenas uma coleção de buracos, os elevadores fazem barulhos estranhos e o lugar todo tem uma névoa esquisita do que parece ser fumaça de cigarro ou de maconha. Eu já fiquei sem energia antes, e na última vez que aconteceu, não retornou por dois dias, o que me irritou, pois eu havia feito compras no dia anterior e tive que assistir enquanto algumas delas estragavam.

Então, quando eu acordei, meu primeiro sentimento foi irritação. É melhor que haja energia quando eu voltar do trabalho, murmurei. Geralmente nós ficaríamos sem luz na neve, ou depois de uma tempestade... Mas no meu prédio, onde a instalação elétrica era mais antiga que tudo, poderia faltar luz em qualquer época do ano – então, eu nunca me incomodei em procurar razões relacionadas ao tempo para justificar.

Eu abri todas as janelas, mas não ajudou muito, estava tudo meio cinza dentro do meu apartamento. A semana tem sido nublada desde o começo, houve até alguns relâmpagos, então mesmo com a minha maior janela aberta eu não conseguia ver muito, e meu banheiro, que não tinha nenhuma janela, estava mais escuro que um sarcófago.

Meu alarme estava desligado, claro. Então eu chequei as horas no meu telefone e depois de um momento entrei no chuveiro, não me importando muito com o fato de que a água estava gelada e de que eu não conseguia enxergar minhas mãos em frente ao meu rosto. Mesmo se eu tivesse saído pela porta naquele horário, ainda estaria atrasado uma hora para o trabalho. Eu odeio atrasos. Eu geralmente tento estar pelo menos 15 minutos adiantado. É apenas mais uma mania de introvertidos – tentar estar no horário, sempre.

Depois de vestir algumas roupas, saí pelo corredor e fui até o elevador – lembrando somente depois que falta de energia significava falta de elevador – fui em direção ás escadas.

Essa foi provavelmente a primeira vez que senti uma sensação de mal-estar. Eu fiz o que pude para ignorar, porque não sou mais criança e esses tipos de pensamento sempre rondam sua cabeça tentando te incomodar. Mas era difícil, e não só por causa da escuridão do prédio, mas também porque naquele momento percebi que não havia visto uma pessoa sequer durante toda a manhã.

Mas só isso não era tão alarmante, eu já caminhei até o elevador muitas vezes sem ver qualquer outra pessoa, no entanto, enquanto eu atravessava o corredor, usando a luz do celular como lanterna, percebi outras coisas que estavam fora do lugar. Primeiro: Eu não havia escutado nenhum barulho vindo dos apartamentos, e o ar estava desligado, o que deveria deixar qualquer barulho mais alto. Segundo: Eu estava atrasado. Normalmente eu vou para o trabalho antes do horário normal, mas hoje, eu estava indo mais tarde – quando a maioria do prédio também vai – talvez alguns deles tivessem usado o elevador mais cedo, porém, de qualquer forma, alguns deveriam ter usado as escadas comigo.

Quando cheguei ao térreo tudo ficou ainda pior – mais cedo, quando abri a janela, não parei para olhar a rua e não percebi a quão parada estava.

Havia somente carros nas ruas e eles estavam estacionados, nenhuma alma á vista. Os prédios adiante não pareciam fechados, mas também não pareciam abertos; apenas escuros e vazios.  Eu engoli em seco e disse a mim mesmo que provavelmente havia alguma razão para isso, mas a minha mente se recusava a aceitar. Eram 08h30min da manhã de uma Terça-Feira! As ruas estariam lotadas de carros e as calçadas lotadas de pessoas – isso sem mencionar o barulho – mas a única coisa que ouvi foi o vento correndo entre os prédios.

O quarteirão todo estava sem luz, tinha que ser isso. Todo mundo ainda estava dentro de suas respectivas casas esperando pela energia.

Liguei uma, duas, três vezes até que ouvi voz entediada do meu chefe falando “Deixe seu recado” – a primeira voz que ouvi em toda a manhã.

Eu abri o navegador e comecei a procurar qualquer informação, mas não havia nada novo desde ontem. Na verdade, minha conexão estava péssima e depois de um momento simplesmente caiu e não voltou mais. Eu tentei ligar para um colega de trabalho – o único que eu sabia o número de telefone – ele havia oferecido o número.

Ele também não atendeu, e eu comecei a me perguntar se a falta de energia estava afetando os celulares por perto, mas ele não morava perto de mim, então seria mesmo a energia?

Acendi a luz do celular e comecei a subir as escadas novamente, meu apartamento era no oitavo andar e eu não estava na minha melhor forma, minhas pernas começaram a doer no terceiro, mas foi no quarto andar que a luz do meu celular falhou e então ele desligou completamente.

“Não, não!” Eu sussurrei e tentei ligá-lo novamente e então lembrei que não o havia carregado desde o dia anterior, e, além disso, eu estava usando ele como lanterna e havia tentado ligar para meu chefe várias vezes, eu provavelmente ignorei o aviso de bateria pouca e agora era tarde demais. “Pedaço de merda,” Murmurei. Algo dentro de mim sabia que eu deveria deixar meu tom de voz o mais baixo possível... Eu coloquei o celular no bolso e comecei a subir as escadas, tentando ficar calmo.

Foi então que eu ouvi, sons de passos vindo da escada – mais precisamente atrás de mim.

Você pode achar que eu ficaria feliz de perceber que havia outras pessoas comigo, ou até achar que depois de perceber como é realmente ficar sozinho, eu ficaria grato em saber que na verdade eu não estava – e por um momento, eu tentei me fazer acreditar que era realmente isso que senti.

Os passos eram lentos, quase organizados demais. Eles ecoavam no escuro como se fosse a morte – no começo estavam delicados, mas logo eu percebi comecei a ouvir as batidas mais fortes, eles estavam pelo menos dois andares abaixo de mim.

Eu não pensei, apenas subi o resto da escadaria e encostei-me à ponta para escutar. Eles continuavam a vir, eu pensei em chamá-los, mas todo resto de instinto que tinha me disse que seria burrice – então eu tentei me convencer de que era apenas meu jeito estranho e solitário apitando na minha cabeça novamente – mas esse sentimento não era apenas o puro desejo de ficar sozinho por um momento.

Toda a lógica que eu consegui formar me dizia que nada nesse vazio deveria estar se mexendo – eu não tinha escutado nem sequer o latido de um cachorro perto do prédio – mas havia algo além de mim, e eu sabia que seja lá o que fosse isso não deveria estar lá.

Quando finalmente alcancei meu andar, parei próximo a escada. Por um momento apenas escutei. Os passos ainda estavam lá, e eles nem haviam aumentado a velocidade, mas pareciam estar mais perto. O corredor estava vazio, como eu imaginei que estaria; afastei-me da beirada da escada e pude escutar meu próprio coração acelerado, ecoando nas minhas orelhas juntamente com minha respiração ofegante.

Eu vi a última janela do corredor aberta, uma névoa cinza entrando por ela, mas ignorei e simplesmente fui em direção ao meu apartamento.

Atrás de mim ouvi os passos no corredor, ainda lentos e calmos. Eu esperei. Talvez eles tivessem ido à outra direção – mas não, os passos estavam cada vez mais altos – vindo na minha direção. Eu me virei rápido e fui em direção ao meu apartamento novamente. Eu não corri, só andei mais rápido, se eu corresse faria mais barulho, e tentei manter minha respiração normal também.

Eu alcancei meu apartamento, mas ainda pude ouvir os passos atrás de mim, e enquanto tentava pegar minha chave me dei conta de que eles estavam perto demais, e que se eu abrisse a porta eles poderiam achar meu único lugar de refúgio. Pensando rapidamente, apenas continuei andando o mais rápido que pude e assim que cheguei ao outro andar percebi que os passos estavam diminuindo, eu ainda podia ouvi-los, mas eles estavam dispersos, como se tivessem ficado confusos ou como se estivessem ido na direção errada.

Minha intenção era dar a volta e retornar ao meu apartamento, mas enquanto eu o fazia me senti meio bobo, afinal de contas, por que eu estava tão convencido de que essas pessoas me perseguiam? Eu era a única pessoa que eu havia visto hoje, mas isso era estranho, não o surgimento de outra pessoa no prédio. Alguma coisa, abdução, desastre ou sei lá o que, havia feito todas as pessoas sumirem, mas me deixaram para trás, e se eu ainda estava aqui, outras pessoas também poderiam estar. Essas pessoas poderiam ser apenas outros moradores do oitavo andar, tão confusas e assustadas quanto eu.

Quando comecei a retornar para o meu andar, ouvi os passos novamente. Eles haviam me encontrado.

Eu corri novamente para o corredor e esperei perto da escada, abrindo a porta dos degraus lentamente – todo e qualquer pensamento que tentava me convencer de que esses passos pertenciam a alguém tão assustado e confuso quanto eu deixaram minha mente – esses passos pesados, não pertenciam a alguém que se encontrava na mesma situação que eu. Eles não estavam assustados, eles tinham um propósito, e esse propósito não poderia ser bom.

Dessa vez eu alcancei meu apartamento e consegui entrar, tranquei a porta e a fechadura e encostei-me a ela, contemplando a porta um momento depois e percebendo que só aquilo não seria suficiente, coloquei uma cadeira apoiada na maçaneta. Então fui ás janelas e coloquei vários móveis próximo a elas.

Por algum tempo, nada aconteceu. E então eu os escutei novamente, não havia duvida de que os passos estavam me perseguindo, a velocidade, lenta e calma, parando vagarosamente quando se aproximaram da minha porta.

Eles pararam. Algo estava atrás da minha porta, esperando, provavelmente por algum barulho, mas sabendo sem sombra de dúvida de que eu estava lá dentro. Eu achei que senti algum cheiro vindo do corredor, algo que tivesse um cheiro... Quente. Era o único jeito de descrever, quente.

Eu esperei, e esperei. O silencio era tangível, e eu senti que o ar ao nosso redor havia ficado mais denso, assim como o resto do mundo.

Minha maçaneta começou a girar, lentamente no começo e logo depois rapidamente enquanto eu sentei lá, sem ação, minha respiração se tornara pequenos soluços, meu coração batendo tão rápido que eu não pude ignorar a pressão constante no meu peito.

Quando finalmente a insistência diminuiu, eu peguei meu notebook, que ao contrário do celular não havia descarregado, e comecei a escrever isso – o barulho na porta retornou mais três vezes, a última vez foi a mais insistente, acompanhada de socos –

Eu não sei se tem alguém aí que vai ler isso. Eu nem sei por quanto tempo mais a internet vai funcionar, eu nunca precisei de outras pessoas até hoje, mas eu definitivamente preciso delas agora!

Por um momento nessa manhã desejei não estar sozinho.


Agora não estou, e não tem outra coisa que eu deseje a não ser ficar sozinho novamente.   

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Colaboradores

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Gabriel Azevedo dos Santos (Dono e Tradutor)

Francis "Divina" Lopes (Dona e Tradutora)

Alex Lupoz (Designer Gráfico)

Ítalo Alexandre Brito (Tradutor)

Flavia (Tradutora)

Hellen (Tradutora)

Thiago (Tradutor)

Adriana (Tradutora)


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Dr. Xander

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Xander estava deitado sobre a mesa de operações, como sempre...

Os pais de Xander eram cientistas e o odiavam tanto, que costumavam usa-lo como cobaia. Xander também nutriu um grande ódio pelos seus pais, porém, nunca pôde fugir dos maus tratos.

Seus pais já tinham descoberto o segredo para a imortalidade, ao misturarem diferentes soros em um laboratório particular. Como sempre, utilizaram a fórmula recém-descoberta em seu próprio filho, para comprovarem se a fórmula realmente funcionava. Bom, ao que parece, a fórmula realmente funcionou, já que Xander manteve-se em seu corpo de 17 anos por 15 anos. Não havia crescido um único centímetro, ou envelhecido um único dia. Seus pais o apunhalaram no coração por seis vezes, e os ferimentos se curaram, mesmo que Xander pudesse sentir toda a dor. Seus pais se recusaram a tomar a mesma fórmula, pois não queriam passar a eternidade convivendo com a sua “Cria Indesejada”.

Xander continuava esperando por seus pais na mesa de operações. Seus profundos olhos azuis cobertos por seus cabelos negros. Ele olhava pela janela, para a grande floresta que rodeava o laboratório. Ele sempre pensou em quão estranho era aquele velho e assustador laboratório no meio daquela floresta.

Os pensamentos de Xander foram interrompidos pelo som dos passos dos seus pais que entravam na sala de testes. Seu pai verificava se ele estava bem preso à mesa enquanto sua mãe enchia uma seringa com um estranho líquido. “Esse soro deve curar qualquer doença mental!” A mãe de Xander explicou. “Como você é a nossa cobaia, e possui a síndrome de Ekbom e Distimia, acaba tornando-se a cobaia perfeita!” Ela exclamou, injetando o soro em seu braço.

De repente, Xander soltou um grito agudo. “Efeito reverso! Efeito reverso!” Seu pai exclamou. O grito de Xander tornou-se uma gargalhada enquanto ele se libertava das amarras. Xander não conseguia parar de rir. O soro, ao invés de curar seus transtornos mentais, havia o tornado um louco homicida. Seus pais correram para a saída, porém, Xander foi mais rápido e puxou a alavanca que trancava as saídas. Xander rapidamente os nocauteou.

Seus pais acordaram gritando e se debatendo nas amarras. Xander entrou na sala, em seus quase dois metros de altura, ele parecia bem mais assustador. Sua pele possuía um tom bastante pálido, quase branca. Ele fechou a porta e aproximou-se alegremente de uma mesa onde havia vários objetos afiados. Ele ria como uma criança, enquanto verificava os objetos na mesa. Ele pegou uma seringa e um bisturi.

Ele caminhou para outra mesa onde estavam vários soros diferentes e preparou uma seringa com um líquido negro. Ele virou-se para o pai e sorriu, aproximando-se com um olhar insano. Ele segurou o braço do pai, e injetou o líquido negro em sua veia. Ele afastou-se sorrindo, enquanto observava a pele do pai começar a borbulha e apodrecer.

Os gritos de dor eram como música para ele. Depois do último suspiro do pai, ele ainda desejava mais. Ele agarrou o bisturi e aproximou-se da mãe. Sua mãe suplicava para que ele se afastasse.

Xander ignorou as súplicas e utilizou o bisturi para cortar o estômago de sua mãe, deixando seus gritos de dor preencherem a sala. Xander continuou a disseca-la, cortando seus pulsos para arrancar as veias, colocando-as em um pote de coleta. Ele retornou para a mesa de instrumentos e trocou a seringa e o bisturi por um pequeno machado. Então cortou os pais em pequenos pedaços, colocando-os em uma sala isolada, dentro do grande e velho laboratório.


NOTÍCIAS URGENTES 

Katelyn, uma garota de 15 anos que estava desaparecida ha 3 dias, teve o seu corpo encontrado na porta de sua própria casa! A parte superior de seu corpo parecia ter sido dissecada enquanto a parte inferior fora cortada e posta em uma cesta com uma nota. A nota dizia: 

‘Caros pais de Katelyn, 

Sinto dizer que a sua filha não conseguiu. Sinto muito por essa infelicidade. Meus pêsames, 

Dr. Xander'

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Vagão 66

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Era cedo... Cedo demais, sabe...? Tão cedo que sua mente ainda queria te fazer acreditar que é noite.
Pensamentos sobre voltar para minha cama e dormir novamente pairavam sob minha mente enquanto eu continuava a dirigir. “Eu nunca acordei tão cedo” pensei, ligando a luz do carro e olhando para os horários dos trens. “4:24, vou poder chega 4 horas antes das aulas, tempo de sobra.” Sorri para mim mesmo, pensando que talvez pudesse colocar algumas atividades que eu havia deixado passar semanas atrás, em dia.

Assim que eu cheguei à estação eu notei o quão peculiar parecia. Eu venho frequentando essa mesma estação há uns três anos e mesmo assim algo parecia... Diferente. Eu passei as mãos nos olhos fechados, tentando fazer com que o resto de sono que ainda estava lá, fosse embora e fui em direção a uma vaga que estava próxima – eu demorei um pouco mais que o normal para apertar o freio e o carro quase não parou a tempo, o que me fez pular do acento com medo de ter atingido o meio-fio. Eu sorri novamente e prometi que iria dormir mais cedo essa noite, assim como eu havia prometido tantas outras vezes.

Eu saí do carro, a manhã de Janeiro atingiu meu corpo que ainda estava travado e preguiçoso por causa do sono. Abaixei-me para pegar minha mochila e meus pêlos dos braços e do pescoço se arrepiaram, o que me fez cruzar os braços, numa tentativa de evitar o frio.

 A estação tinha um tipo de ponte, que atravessava os dois trilhos, tanto de ida quanto de volta. Eu comecei a subir as escadas rapidamente, e meu corpo me fez lembrar novamente, que ainda estava cedo demais para esse tipo de “atividade física”. Apoiei minha mão no corrimão e continuei subindo; assim que cheguei ao topo, choraminguei involuntariamente... Parecia que eu havia quebrado algum osso.

A dor na minha perna me distraiu por um momento do fato de que todas as luzes da ponte estavam apagadas, a única iluminação estava vindo da Lua, que por sinal, estava praticamente coberta de nuvens finas da manhã, ela estava a minha direita, brilhando em cima de mim. Eu fiz uma piada mental sobre a Lua me seguir em todos os lugares, como se eu estivesse me apresentando em um palco e fosse uma grande estrela de um grande show, e a Lua fosse o holofote, me observando incessantemente para não perder nenhum ato sequer – mas o humor na verdade dividiu lugar com o medo que eu senti depois de analisar melhor a situação.

Era como se eu estivesse sendo assistido por alguém, e isso me assustou bastante; comecei a andar mais rápido para o outro lado e assim que eu cheguei lá, uma sensação de alívio tomou conta de mim.

Continuei a caminhar na área perto dos trilhos, todos os acentos estavam vazios, mas eu ainda senti que não estava sozinho. Só não sabia se era uma companhia desejável ou não.

Enquanto eu esperava um denso nevoeiro se aproximou mais e mais, o que me fez abrir e fechar os olhos várias vezes para conseguir enxergar a estação que era tão familiar para mim.

Mas a questão é: Se eu me concentrasse o suficiente eu conseguiria enxergar tudo como se não houvesse nevoeiro nenhum. As janelas quebradas, as pontes deterioradas, a pintura gasta das paredes, e alguns grafites. Exatamente o que eu via todos os dias, o que me fez acreditar que minha mente estava me dizendo o que estava lá porque era o que eu queria ver.

“A falta de sono está começando a afetar meu cérebro,” Eu pensei e continuei tentando enxergar em meio à neblina, o que começou a me incomodar, tanto mentalmente quanto visualmente; então eu fiquei grato quando ouvi o barulho de trem se aproximando. Levantei, pegando minha mochila um momento depois e observei a luz do trem chegando lentamente perto de mim.

Mas só a luz, eu ainda não podia ver nada do vagão mesmo sabendo exatamente como ele era, assim como a estação.

Outra onda de alívio passou por mim quando eu tentava me convencer de que todas essas impressões que tive na estação enquanto estava sozinho foram meras invenções da minha mente sonolenta.

Finalmente eu consegui enxergar o trem enquanto ele parava lentamente, apenas alguns metros distantes de mim. Eu fiquei assustado ao perceber que esse não era o trem que eu geralmente pego, não, esse era mais velho e destruído, uma locomotiva. Eu nunca tinha visto algo parecido, pelo menos pessoalmente. Eu costumava ver trens como esse em livros de história ou na internet... Mas mesmo assim, era um trem e eu não ia arriscar ficar na estação sozinho novamente.

Então eu entrei.

O interior era como eu esperava – meio sujo e gasto por causa dos anos de uso, e assim como eu também esperava, não havia outros passageiros no trem nesse horário. Observei O Condutor – havia apenas um – e ele parecia ser bem mais velho do que eu, mas por causa do seu casaco eu não consegui ver seu rosto.  Ele estava caminhando para o lado oposto ao meu então eu deixei a ideia de vê-lo pra depois.

Eu não gostava desse vagão, mas assim que eu sentei, ele começou a andar, então eu não tive muita escolha; mesmo se eu tentasse, não conseguiria explicar, algo sobre ele era simplesmente sinistro.

E o que mais me deixou desconfortável foi o silencio, eu não conseguia ignorar o som do barulho externo da locomotiva que parecia cada vez mais alto; olhei pela janela e as nuvens continuavam desaparecendo atrás de mim. O trem definitivamente estava se mexendo. Eu encostei minha cabeça na janela e dormi.

Não demorou muito até que eu acordasse, nenhum traço de sono restou, eu estava completamente acordado. Sem cansaço, sem dor nos olhos ou na perna, sem fome, nada.

Eu passei meus olhos na cabine e percebi que havia ficado muito mais escura, olhei para trás, tentando enxergar algo no vagão anterior e fiquei feliz de ver que a luz estava acesa. Eu levantei e comecei a andar em direção a ele, por alguma razão não achei necessário pegar minha mochila, então a deixei no meu acento e continuei andando em direção a porta.

A cada passo que eu dava eu ficava mais contente, e eu não sabia o porquê; apoiei minha mão na maçaneta e me senti mais seguro e protegido do que nunca, abri a porta e a luz quase me cegou por um momento, precisei de alguns segundos piscando os olhos para conseguir enxergar algo.

Quando eu finalmente consegui enxergar, fiquei chocado de ver minha família sentada no vagão... Que tinha... Móveis?

“Minha avó tinha esse mesmo sofá, essa é a casa da minha avó...”

Algumas memórias da minha infância passaram pela minha mente e eu me deixei distrair com elas até perceber o que estava acontecendo. Eu já estive aqui antes, não, não apenas na casa da minha avó, mas nesse exato momento, nessa mesma situação, eu já passei por isso, eu já estive aqui. Meu Deus! É como se eu soubesse o que iria acontecer, como um filme que já vi muitas vezes.

Mas eu não sabia.

Primeiro eu me perguntei por que todos estão sentados em volta de uma cama? E o clima havia mudado de calmo para tenso, eu olhei para os rostos dos meus familiares, eles pareciam cansados e de luto, encarando algo que não era eu.

Esse foi o dia que minha avó morreu, mas não só isso, não era tão simples assim.  Eu senti a dor, a agonia e a incapacidade que havia sentido meses atrás, mas eu também conseguia sentir a dor de cada familiar junto comigo.

Os sentimentos voavam na minha mente, dúvida, raiva e medo. Parecia que alguém havia filtrado todos os sentimentos ruins e tivesse jogando todos eles pra mim. Os choros e os gritos, todos ecoando na minha cabeça.

Eu andei em direção á cama que eles estavam sentados em volta e lá estava a minha avó. Eu tentei chorar para conseguir algum tipo de alívio, e nada! Eu não conseguia expressar nada, raiva, medo ou tristeza. Eu senti como se fosse explodir.

Meus olhos pararam na minha avó, ela já estava morta, mas seu rosto não estava calmo e sereno como eu me lembrava. Os olhos doces que me observavam quando eu era mais novo simplesmente erodiram na minha frente. O seu sorriso doce e alegre virou uma risada maliciosa e macabra, contorcida pela dor. E eu não podia fazer nada, estava desamparado.

Apoiei-me nos meus joelhos e senti meus olhos doerem novamente assim que uma luz branca tomou o quarto mais uma vez, não havia cama agora, nem parentes. Apenas uma imagem no canto do vagão, um corpo pendurado em uma corda.

“Estranho” pensei; “Aquelas parecem as botas de jardinagem da minha avó.” Isso me atingiu em cheio, que tipo de pesadelo doentio é esse que eu me encontrava? Eu consegui – ou tentei – gritar dessa vez e parecia o grito mais forte e grave que eu já havia dado em toda minha vida.

Tudo ficou preto.

Quando consegui enxergar novamente, vi apenas uma luz fraca atingindo meu rosto. Não consegui me mover então olhei em volta e percebi que estava na casa dos meus pais, eu estava confuso, as luzes estavam todas desligadas, a casa estava silenciosa, mas eu estava feliz que o pesadelo finalmente tinha acabado.

E então o telefone tocou.

Um frio na espinha passou por mim enquanto o telefone continuava a tocar, eu não tinha um telefone desde... Ah não. De novo não. Por favor.

Finalmente consegui me levantar e só então percebi que estava deitado em um sofá, mas não era eu quem estava se mexendo, eu estava apenas observando, eu não conseguia me controlar, eu podia sentir cada coisa que meu corpo fazia, mas... Não era eu! Não agora...

O momento continuou e eu consegui ver uma garrafa vazia de uísque rolando pelo chão, passando perto de mim... Com muito esforço, eu consegui agarrar o telefone que ainda tocava, e aproximei do meu rosto.

Daniel? A voz dela fez com que todos os pêlos dos meus braços se arrepiassem e meus olhos marejassem.

Sim?  Eu havia respondido e era evidente que eu havia bebido.

Preciso de uma carona, perdi meu ônibus.

To indooo. Ouvi-me cantar as palavras e resmunguei comigo mesmo pelo meu comportamento idiota na época.

Você está bem, Daniel? Ela perguntou, e eu desliguei e andei em direção a porta.

Eu lutei com tudo que pude para acabar com essa loucura, tentando me mover para o lado oposto e segurar minha respiração numa tentativa falha de desmaiar. “Não entra no carro, não... NÃO!”

Assim que entrei no carro e peguei as chaves, desmaiei, mas apenas por alguns segundos... Logo eu estava de volta ao pesadelo.

Eu estava quase lá... Mas como eu havia chegado lá, tão bêbado? Porque isso está acontecendo? Eu não conseguia parar de me perguntar mais e mais até que o carro parou.

Virei minha cabeça e a vi, lá estava ela, minha irmã mais nova, Sam. Eu não pude controlar as lagrimas ao vê-la. A mesma garota jovem e bonita de 12 anos de idade me esperando em frente à escola, anos atrás. Sorrindo pra mim em meio à loucura desse pesadelo – tudo passou tão rápido depois disso, o efeito da bebida, o sinal vermelho, o caminhão – Deus, eu ainda posso ouvir os gritos. DANIEL! DANIEL!  Altos em minha cabeça como se fosse hoje

A culpa.

Minha mãe nos deixando.

Nenhuma pessoa para partilhar a dor.

Tudo isso por minha causa e apenas continua brincando com a minha cabeça, as mesmas cenas...

Eu mereço tudo isso.

Eu acordei no assento do Vagão 66, senti o suor frio escorrendo pela minha testa enquanto eu continuava tremendo e tentando não convulsionar.

Senti um tapa no meu ombro e virei assustado, me deparando com uma cara esguia que me lembrava a morte. O condutor que vi mais cedo quando entrei no trem.

“Bilhetes, por favor.” Uma voz seca e poderosa ecoou da boca dele. Minha mão se moveu involuntariamente e o que senti foram vários papéis velhos que pareciam estar manchados com alguma coisa. Tentei me convencer de que não era sangue...

Eram fotos – da minha avó, meu pai, minha mãe e meu avô e outras pessoas que eu conhecia, que também tinham morrido – eu continuei segurando-as e me assustei um pouco ao perceber que a última delas era uma foto minha.

Foi então que me ocorreu – quando eu tentava achar os bilhetes para entregar ao Condutor – que eu não me lembrava de ter acordado essa manhã. O condutor observou meus bilhetes e quando os recebi de volta havia o que parecia ser um carimbo de duas mãos ossudas nele.


E então tudo que vi foi escuridão.

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O sonho do sótão

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De novo! Aquele ruído de arranhão que eu ouço vindo do closet toda noite. Eu sento na cama com meu cabelo balançando um pouco por causa do ventilador. O som do closet me aflige toda noite, principalmente porque dentro dele tem um pequeno alçapão que dá para o sótão. Eu continuo ouvindo, tentando ficar quieto e então decifrar que som é esse. É terrivelmente difícil porque tudo o que eu consigo ouvir é meu coração batendo.

Finalmente deito minha cabeça no travesseiro e é quando acontece. A mesma coisa que acontece toda noite. Eu tremo assim que ouço o alçapão começando a abrir dentro do closet. Não consigo me mexer, apenas sento tremendo enquanto a porta do closet abre rangendo e num piscar de olhos ali está, em pé no canto do meu quarto com aquele vestido preto rasgado que faz meu estômago embrulhar. O que me deixa doido é que ao olhar em direção ao rosto dessa coisa tudo o que eu consigo ver é uma sombra projetada pela escuridão do meu quarto. A única coisa que consigo distinguir é o cabelo castanho escuro. Seu vestido está rasgado na parte de baixo e suas pernas são pálidas e arranhadas. Os pés estão descalços e por último seus braços... o braço direito tem uma pequena marca de sangue em torno dele, quase como uma pequena mão de criança impressa ali e ambas as mãos revelam longas garras que eu só consigo imaginar perfurando minha pele. Aquela coisa dá um passo na minha direção e a luz de fora revela um pedaço de seu rosto pálido e marcado. Eu grito e nada acontece. Tento me mover e é como se alguma coisa me segurasse. Então eu acordo. Gritando e gritando, ensopado de suor. A mamãe vem correndo toda noite vestindo sua camisola preta e senta comigo, tentando me acalmar. Eu me balanço, meio acordado, meio no pesadelo, ainda vendo aquela coisa no canto do meu quarto.

Isso acontece toda noite por um mês, nada novo. Até uma noite em que o sonho muda levemente.


Eu trago a arma que temos para proteção para o quarto. Tremo e tento manter a arma firme enquanto espero aquela criatura sair do closet. Não consigo mais lidar com isso toda noite, está me matando! Ouço um estrondo e encaro a arma. Dessa vez a criatura abre a porta do meu quarto e anda silenciosamente. Assim que vê a arma, ela grita por um instante, meu coração dá um salto e imediatamente puxo o gatilho jogando sangue para todo lado. O disparo ecoa em meus ouvidos. Eu saio da cama apenas para cair no chão, começo a suar e tremer, torcendo para que a criatura não levante. 

É nesse ponto que eu costumo acordar, mas dessa vez não. 

Eu olho para o cadáver da criatura, a luz passa através da janela e eu consigo enxergar suas pernas, dessa vez não estão pálidas. O sol começa a nascer e a luz da janela vai até seu corpo. Agora eu vejo que não há garras nessa coisa. Ouço meu irmão subir as escadas correndo e abrir a porta do meu quarto com um chute. Quando vê o cadáver ele cai de joelhos. Eu ainda não consigo ver o rosto da criatura. “Meu Deus! Meu Deus, mãe!!! Acorda mãe!”. Meu coração para quando ouço meu irmão. Coloco a cabeça entre os joelhos e fico me balançando, chorando. 

“O que você fez, Tommy?! Tommy! TOMMY!!!”

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RASTEJE.MOV

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Acabei de entrar para uma pequena comunidade em uma faculdade no Arizona. Já estou a dois semestres estagiando para obter o meu certificado de Produção Multimídia. A faculdade permite que eu utilize algumas horas extras, trabalhando em vídeos para que eu os lance na exposição em uma pequena galeria de arte em frente ao departamento de arte. 

O campus fica afastado da rodovia, a quase 10 milhas da minha cidade, um local geralmente isolado e sombrio. A faculdade é rodeada por um deserto e altas montanhas.

Certa noite, quando acabei o meu turno no estágio decidi continuar trabalhando em um dos meus vídeos. Utilizávamos alguns computadores bem avançados, mas eu sempre notei um pequeno notebook escondido nos fundos de um dos armários. Já que o meu supervisor tinha ido para casa, resolvi matar a minha curiosidade e pegar o notebook para ver se havia algo interessante nele. Eu o liguei, e aguardei enquanto iniciava.

Finalmente, a tela de boas vindas apareceu. Havia duas contas, uma do instrutor e outra do estudante. Loguei na conta do estudante e acessei a pasta intitulada ‘multimídia’, encontrando várias fotos de estudantes. Enquanto abria as fotos, percebi que em todas havia o mesmo homem em algum canto. Um homem de meia idade, calvo e de olhos azuis. No final da longa lista de fotos encontrei um arquivo .MOV. Estava intitulado como RASTEJE.MOV

Como eram umas 8 da noite, comecei a me sentir um pouco desconfortável. O nome do arquivo fez o meu coração acelerar, eu queria assistir, mas sabia que me arrependeria. Resolvi ligar para um amigo, pedindo que ele viesse me buscar, já que a cidade era longe e o ônibus não rodava até tarde, então eu tinha 15 minutos para esperar a minha carona. Cliquei no arquivo e ele foi aberto no Quicktime. Minhas mãos estavam suadas, e meus olhos fixos na tela. A tela escureceu lentamente, com um tipo de som deprimente. Então apareceu o título, RASTEJE, em grossas letras vermelhas. O título sumiu e logo iniciou-se uma gravação no deserto à noite. Tudo que pude ouvir eram os passos na grossa areia do deserto. Comecei a me sentir aliviado, e presumi que era apenas uma filmagem de algum estudante. Acabei rindo quando me lembrei de estar assustado só de pensar em abrir o arquivo.

Olhei para meu celular e procurei por alguma nova notificação enquanto o vídeo continuava passando. Voltei a atenção para o vídeo, e meu queixo caiu. O que vi era terrível e macabro. Um homem coberto de sangue, e era o mesmo homem das fotografias que eu tinha acabado de ver há apenas alguns minutos. O vídeo mostrava apenas o rosto dele, mas logo a câmera descia para revelar que o homem serrava algo que parecia um osso. Seu sorriso... continuava estampado no rosto. A câmera se afastava, e mostrava o que homem realmente estava fazendo. Uma garota, de olhos arregalados enquanto o homem serrava sua perna. Tampei minha boca com as mãos, tentei me convencer que o vídeo era apenas uma montagem, coisa de estudante de cinema, mas parecia tão real... A filmagem se mostrava um material bruto, sem sinais de efeitos ou montagens.

Tudo o que havia no vídeo era o som da perna sendo serrada, e o olhar assustado da garota. Aquele olhar que ficaria por vários dias em minha mente. Quase cinco minutos se passaram e o vídeo finalmente acabou. Me recostei na cadeira, pensando sobre o que tinha visto. De repente ouvi um som, mas a tela continuava escurecida, então lembrei que não tinha diminuído o volume. Lentamente comecei a perceber pequenos gemidos, eram da garota. Verifiquei o tempo do vídeo e percebi que ele ainda estava passando. Ainda tinha uns cinco minutos sobrando. Os gemidos ficavam mais audíveis e logo a imagem retornou. A garota estava jogada no meio da estrada, gemendo e se contorcendo, porém, ainda viva. Suas duas pernas... já não estavam mais lá. “Satan é o meu pai e o Inferno é o meu lar...” a voz do homem repetia. Cerrei os dentes enquanto meu nervosismo aumentava a cada segundo. Logo o homem parou de falar, e começou a assoviar, como se estivesse tentando chamar a atenção da garota, como uma pessoa faria com um cão. Então ele falou “Aqui garota, rasteje garota, vamos! você consegue, rasteje!” A garota olhava diretamente para a câmera.

Seus olhos estavam avermelhados, distorcidos, não pareciam humano. Ela virou-se de bruços, esticou os braços para frente e começou a rastejar para a câmera. Um sorriso sinistro começou a surgir em seus lábios. A pele em seu rosto estava pálida e cheia de cortes. Tudo que podia ser ouvido no vídeo era o som que o corpo da garota fazia ao ser arrastado na estrada suja. Ela seguia lentamente em direção à câmera. Ela finalmente chegou aos pés do homem, deixando um grande rastro de sangue pela estrada. Ela olhou para cima e soltou um terrível grito. Um grito de fazer o sangue gelar. Fechei o notebook rapidamente e o coloquei de volta no armário. Tranquei a sala e quase saí correndo. Quando cheguei no estacionamento, o meu amigo já estava lá. Entrei rapidamente no carro, e fiquei calado durante todo o caminho para casa. 

Na manhã seguinte, falei com o supervisor sobre o vídeo e o que tinha visto. Ele riu e falou o seguinte: “Quem lhe contou essa história?”. Eu o levei até a sala multimídia, peguei o notebook e o liguei. Nada aconteceu. O notebook não funcionava. O supervisor logo começou a falar que o computador estava quebrado, e por isso estava guardado no armário. Ele disse que a história que rodava pela faculdade era sobre uma garota que tinha sido sequestrada e arrastada para o deserto. Suas pernas foram cortadas e ela foi oferecida como sacrifício para Satan por um dos membros do departamento de cerâmica. O supervisor me garantiu que tudo não passava de uma lenda para manter os estudantes afastados do deserto à noite.

Ele ainda adicionou “Alguns dizem que podem ouvir assobios no deserto durante a noite, e a voz de um homem, mandando alguém rastejar. Mas na minha opinião, essa história toda não passa de uma grande besteira. 

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As meninas Super Poderosas - Brenda

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As Meninas Superpoderosas é um desenho animado produzido, inicialmente, pela Hanna-Barbera, e alguns anos depois, pelo Cartoon Network Studios. Embora a televisão nos mostre uma história divertida sobre três irmãs que salvam sua cidade de vilões usando seus super-poderes, é possível que, por trás desse universo de cores e fantasia esteja algo terrível e bastante perturbador.

As três meninas – Florzinha, Lindinha e Docinho – são na verdade, frações de uma única personalidade, cujo nome é desconhecido pelo público, mas o autor da teoria resolveu batizar de “Brenda”.

Brenda sofre de cinco doenças mentais: transtorno de múltipla personalidade, transtorno de estresse pós-traumático, esquizofrenia, transtorno de personalidade paranoide e transtorno de despersonalização. A causa do desenvolvimento do transtorno de múltipla personalidade, vem dos abusos que Brenda sofreu na infância por seu irmão mais velho, que é representado nas alucinações de dela como “Macaco Louco”, o maior inimigo das Meninas.

Definindo as três personalidades:

Lindinha: ela é pequena e sentimental, tem olhos azuis e cabelo loiro, sempre amarrado. Ela simboliza a inocência e a jovialidade de Brenda. É ingênua, submissa e chorona. No entanto, em raras ocasiões, ela se torna incontrolavelmente agressiva, simbolizando as frustrações reprimidas de Brenda de querer retaliar o irmão. No entanto, a maioria dessas frustrações se manifestam em Docinho.


Florzinha: ela é a garota inteligente e estável, possui olhos castanhos e cabelo longo, e simboliza a menina que Brenda queria ser: madura, segura e espirituosa. Ela age como líder na maioria das situações, e sempre consegue entrar em consenso com as outras duas personalidades.


Docinho: ela é a durona, tem olhos verdes e cabelo preto curto. Ela simboliza os pensamentos de Brenda de retaliação contra seu irmão. Docinho é violenta, imprudente, teimosa e boca-suja. No entanto, há um lado dela que é profundamente carinhoso com as pessoas que ama (as outras duas personalidades), mas a maioria desses sentimentos se manifestam em Lindinha.

Macaco Louco é um macaco preto com um chapéu sobre a cúpula de seu crânio, em que o cérebro está visível. Ele foi criado pelo Professor Utonium – a figura do pai nas alucinações – e As Meninas Superpoderosas foram criadas depois.
Macaco Louco e As Meninas Superpoderosas estão relacionados, pois eles compartilham o “criador”. Na realidade, seu “criador”, “Professor Utonium”, é o seu pai. A relação entre as Meninas e Macaco Louco é, de fato, germanidade. No desenho, eles entram em conflito constantemente. É o transtorno de estresse pós-traumático de Brenda, desenvolvido por ser abusada constantemente pelo irmão. O trauma de ter que lutar e defender-se dele todos os dias, manifesta-se desta maneira. O Macaco Louco, inclusive, revela em um episódio, que sente ciúmes do amor que o Professor Utonium dedica às Meninas, que é a verdadeira causa da raiva do irmão por Brenda. Todos os vilões apresentados no desenho, são manifestações do abuso sofrido por ela, são as Meninas Superpoderosas é um desenho animado produzido, inicialmente, pela Hanna-Barbera, e alguns anos depois, pelo Cartoon Network Studios. Embora a televisão nos mostre uma história divertida sobre três irmãs que salvam sua cidade de vilões usando seus super-poderes, é possível que, por trás desse universo de cores e fantasia esteja algo terrível e bastante perturbador.

A esquizofrenia é caracterizada por alucinações visuais, auditivas, táteis e olfativas. Neste caso, as três personalidades de Brenda são a manifestação exata dos sintomas. As Meninas estão completamente fora da realidade, presas em corpos infantis tendo quase todos os vilões em forma de bonecas ou brinquedos – o que sugere que Brenda sofre desde muito jovem – além disso, não existe um dia na vida das Meninas Superpoderosas em que algum vilão não ataque ou conspire contra a paz na cidade.

 O prefeito possui um telefone especial para entrar em contato com elas caso algo de errado aconteça. As meninas não estão – conscientemente – preocupadas o tempo todo com algo ou alguém atacando sua cidade, mas sempre há um momento, durante o dia, que elas escutam o alerta e são obrigadas a largar tudo o que estão fazendo, para ir à luta. O prefeito é a melhor definição da angústia e medo que há na mente de Brenda, o “alerta” é soado, sempre que seu irmão se aproxima. O fato dela ver a si mesma como heroína, permite que Brenda sinta que vale alguma coisa em seu mundo, porque o abuso físico/emocional constante do irmão acabou com sua auto-estima.

Outra doença que Brenda/Meninas sofrem é o transtorno de personalidade paranoide. A paranoia que as meninas sentem não é imediatamente óbvia para o público, pois está em uma questão mais profunda. Brenda/Meninas estão sempre presas em seu mundo. Brenda tem muito medo do mundo real e não consegue lidar com a ideia de ser trancada em um hospital pelo resto da vida. Em seu mundo de fantasia, suas personalidades são heroínas que possuem poderes eficazes para combater o mal, ela criou esse lugar imaginário para protegê-la da realidade.

A última doença delas é o transtorno de despersonalização. Você não vê Brenda, só vê as três personalidades. Isso acontece porque toda a série Meninas Superpoderosas é do ponto de vista de Brenda. Ela está mostrando ao público o que vê (a si mesma, nas três personalidades das Meninas Superpoderosas). O transtorno de despersonalização é caracterizado pela sensação de que se está assistindo a si mesmo em uma tela de cinema. Brenda sente exatamente isso, e é desta forma que o desenho é mostrado para nós.

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Ossos de galinha

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Oi! Não, você não está atrasado! Por favor, entre!. Hey, não te conheço de algum lugar? Você é um desses repórteres famosos, não é? Você me parece bem familiar. Posso lhe oferecer um pouco de chá ou café, ou você prefere seguir logo com a entrevista? Desculpe-me, não sei como funciona; nunca estive em uma entrevista antes. Eu me afastei dos jornais após o desaparecimento daquelas crianças. Eu não precisava daquele tipo de atenção. Acho que devo começar a minha história contando sobre o local.

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O vilarejo de Tir Gulwyn é bastante tranquilo hoje em dia. Porém, naquela época as coisas eram bem diferentes; nos anos 90 o prefeito recebeu subsídio do governo para construir uma nova escola que atenderia a todas as pequenas cidades e aldeias nos vales ao redor de Tir Gulwyn. Eu tinha acabado de me formar na universidade naquela época – terminei o meu treinamento para ser professor, e estava ansioso para começar o meu primeiro emprego como um profissional, eu estava bastante feliz por ter conseguido uma vaga na nova escola de Tir Gulwyn. Eu poderia finalmente me testar, fazendo algo que amava.

Mas as bonecas mudaram tudo.

Um denso nevoeiro veio das montanhas e deslizou pelo Gulwyn Valley, tomando o lago e se espalhando pela cidade, carregado por uma leve brisa de inverno. O ônibus escolar já tinha chegado, e as crianças se enfileiravam para entrar, tremendo em seus casacos. Folheei o registro e notei que todos estavam presentes, exceto por um garotinho de cinco anos chamado Gavin Lewis. Sua fotografia mostrava um garotinho banguela com cabelo cor de palha, sorrindo. Tentando me conformar que a lista de presença nem sempre seria perfeita, guiei meus alunos para dentro, olhando uma última vez para a rua enevoada.

A primeira aula foi uma maravilha: uma introdução, para permitir que as crianças se conhecessem, em seguida uma leitura em grupo. A leitura foi um sucesso, e logo chegou a hora das crianças se trocarem para a aula de educação física. Eu fiquei esperando no ginásio. Estava bastante frio, e eu estava pensando se realmente deixaria as crianças saírem quando ouvi um o barulho de algo batendo ao vento.

“Olá?” Chamei. Não houve resposta, mas segui o barulho até a entrada do playground, que ficava ao lado da estrada principal para fora da cidade.

Havia um pequeno boneco amarrado nas barras que separavam o playground da estrada. Eu o observei por um momento: um boneco ligeiramente deformado, com o corpo de lã e o rosto feito com um tipo de cerâmica branca. Um emaranhado de fios amarelados estava preso em sua cabeça, e o rosto possuía um vago e perturbador sorriso banguela. O rosto de Gavin Lewis veio em minha mente, e eu desamarrei o boneco. Senti algo estranho ao segura-lo; era mais pesado do que aparentava, e apesar da macia camada exterior, era bastante sólido por dentro.

Eu o levei para a minha sala que estava vazia e o examinei mais atentamente. Havia uma ponta solta de costura nas costas do boneco. Eu puxei e o boneco se abriu em minhas mãos. Ossos, pequenos e secos, se espalharam pela escrivaninha. O som dos ossos caindo na escrivaninha se misturou com o som de passos que se aproximavam pelo corredor. Joguei meu casaco sobre os ossos na escrivaninha no exato momento em que a sala se enchia de crianças ansiosas para a primeira aula de educação física.

Meu coração estava disparado e, apesar do dia frio, percebi que estava suando. O que diabos eu tinha acabado de descobrir?

 “Crianças…” gritei “…hoje a aula será aqui dentro, certo?”

O resultado foi uma série de grunhidos de desapontamento, mas sem objeções.

 Pedi para que um dos monitores tomasse conta da turma, então corri para a sala dos professores. Encontrei o número de telefone dos pais de Gavin nos registros da escola e o disquei. Sem resposta. Senti uma súbita vontade de entrar em contato com a mãe dele, então decidi falar com a diretora. Eu mostrei os ossos, e ela empalideceu.

“São humanos?” ela perguntou. Falei que não sabia. Após um momento de deliberação, ligamos para a polícia. O primeiro oficial a entrar na sala recuou assim que viu os ossos.

“Meu Deus…” ele sussurrou. Seu parceiro pegou um dos ossos maiores para examinar.

“São ossos de galinha.” Ele falou. Perguntei se ele tinha certeza, e ele me contou que tinha crescido em uma fazenda, e já estava acostumado a reconhecer os ossos de alguns animais.

“O que faremos agora?” a diretora perguntou. “É óbvio que isso é algum tipo de ameaça, ou pelo menos uma piada doentia.”

O homem recolheu os ossos restantes e pegou os arquivos de Gavin. Avisaram que a policia passaria a manter uma certa vigilância sobre a escola. Cumprindo com a palavra, outro carro patrulha parou ao lado das grades do playground assim que o primeiro partiu.

O resto do dia transcorreu estranhamente... normal. As crianças não perceberam o horror mudo que transparecia nos rostos de seus professores, mas apesar da tensão no ar, os compromissos do dia se cumpriram normalmente. A última aula acabou e os pais (que não faziam ideia dos estranhos acontecimentos) chegaram em massa para pegar seus filhos. Outros alunos pegariam o ônibus escolar para casa. Fizemos o possível para nos certificar que as crianças voltassem para suas casas em segurança, mas tínhamos receio em contar para alguma outra pessoa sobre o que tinha acontecido. Não queríamos causa pânico, principalmente quando ainda não tínhamos certeza sobre o que realmente estava acontecendo. Fui avisado que a policia me contataria pela manhã para pegar meu depoimento, então voltei para casa.

Verifiquei meu telefone na manhã seguinte, mas não havia nenhuma ligação da policia. Esperei por mais uma hora, então imaginei que se eles estivessem tão desesperados em me contatares, poderiam ligar para a escola.

Cheguei à escolar um pouco mais atrasado que o habitual, porém, ainda pude encontrar alguns pais deixando seus filhos na escola. Isso, juntamente com o carro patrulha estacionado ao lado da escola, me tranquilizou por um tempo. Levei uns quinze minutos para perceber que o ônibus escolar ainda não tinha chegado. O playground estava quase vazio em comparação ao dia anterior. Pus as poucas crianças que já tinham chegado para escreverem alguma história, e liguei para a companhia responsável pelo ônibus. Não, eles não tinham noticias sobre o motorista. Ele provavelmente estava preso em algum engarrafamento à caminho para a escola.

Ok, tudo bem.

Mas eu me sentia incomodado. Algo terrível tinha acontecido com aquelas crianças. Então a dor esmagadora da culpa me atingiu. Eu deveria ter avisado aos pais no dia anterior. Deveria ter contado sobre o boneco. Eu precisava de ar, e acabei indo para o playground.

Então eu ouvi. O barulho outra vez. Eu poderia descrevê-lo como uma cortina sacudindo ao vento forte. Automaticamente, esquecendo a dor da culpa, segui para a direção do barulho.

Nas barras que separavam o playground da estrada, em fileiras organizadas, havia trinta e dois bonecos amarrados. Eu nem precisava olhar os registros. Sempre fui bom em gravar rostos. As crianças que sorriram para mim ontem, sentadas em suas cadeiras, estavam sorrindo para mim agora; rostos congelados em euforia, pendurados nas barras.

Porém, havia algo de estranho em seus olhos: pintados detalhadamente nas cabeças de cerâmica, os olhos mostravam algo diferente. Medo, dor e angústia estavam registrados em seus olhos. As minhas lembranças ficam um pouco borradas após isso. Lembro-me de correr para o carro patrulha, e encontrar dois bonecos lá dentro: ligeiramente maiores que os bonecos das crianças, e vestidos com perfeitos uniformes de policiais.

Entrei apressadamente na escolar, chorando, sem me importar que as crianças me vissem daquele jeito. O que diabos fiz para merecer aquilo? Eu devo ter desmaiado em algum momento, pois acordei em um dos pufes da sala de leitura com um doutor tomando meu pulso. Tentei falar, mas a minha voz não passava de um ruído engasgado. O doutor tentou me tranquilizar, dizendo que as crianças já estavam em suas casas, e que a escola já estava fechada.

Mais policiais já tinha chegado e interditado a área, pensei até ter ouvido o som de um helicóptero. Eu obviamente não estava em bom estado para dar uma entrevista, porém, consegui contar tudo o que pude, antes de ser levado para um hospital. Enquanto me carregavam para uma ambulância, um repórter jogou a câmera em meu rosto e tentou tirar algumas fotos. Um policial o afastou antes que ele conseguisse, e fui posto dentro da ambulância, longe de olhos curiosos.

Isso quase conclui a minha parte dessa história. Larguei meu emprego e fiquei em casa por semanas após o incidente, saindo apenas uma vez. Estava chovendo, e o nevoeiro lá fora parecia ter se dissipado completamente. Eu estava escutando o rádio, quando surgiu a noticia sobre uma importante atualização no caso das crianças desaparecidas. Alguns alpinistas tinham encontrado um ônibus escolar, enquanto subiam uma montanha. O ônibus estava vazio, porém, intacto. Também foi dito que a policia havia interditado uma fazenda, e não deixava ninguém se aproximar.

Sem pensar duas vezes, segui imediatamente para a tal fazenda. O local estava lotado de repórteres, e enquanto eu estacionava, percebi que todos se preparavam para as notícias do meio dia. Outra coisa que percebi, foram as galinhas: várias galinhas corriam pela área. Um policial barrou o meu caminho, enquanto eu seguia para a única casa no local. Sobre seu ombro, vi a equipe forense movendo-se para dentro da casa. O que tinham encontrado ali? “Sinto muito, cena do crime. Você não tem permissão para prosseguir.”

“Por favor” falei “você não entende, preciso saber o que está acontecendo.”

“Contaremos para a imprensa assim que possível, mas até lá, preciso que volte para o seu carro.”

Voltei para casa, mas mantive a televisão ligada. Na maior parte do dia, eles apenas repetiram os mesmos detalhes de pouca importância: que a casa estava desocupada, que ninguém foi preso.

Naquela noite, no entanto, as coisas mudaram. Transmitiram um pequeno vídeo, o qual disseram que havia sido feito por um câmera amador. O câmera estava parado em um corredor estreito, que acabava em uma escadaria que descia. Então ele descia pela escuridão, e por um momento parecia que o filme havia terminado em uma tela preta. De repente, uma luz ligava, revelando um porão, com paredes de pedra, úmidas, assim com o teto e o chão. A câmera passava a mostrar todo o local. O quarto estava cheio de cordas com algumas coisas brancas penduradas nelas. A câmera se aproximava de uma corda, e assim, percebia-se que as coisas brancas eram ossos. Mas aqueles não eram apenas ossos de galinha: não estavam fragmentados como os ossos nos bonecos. Estava bastante claro de quem eram...

Ossos de dedos. Dezenas, talvez centenas, de pequenos ossos, pendurados em cordas como uma cortina macabra. O câmera sussurrava um palavrão, e o vídeo acabava abruptamente.

*

Voltei para aquele local na semana passada. Eu tinha recebido o seu e-mail, me pedindo uma entrevista, e isso me fez pensar. Tantos anos se passaram, e eu queria verificar pessoalmente. Eu sabia que estaria invadindo o local, mas eu tinha que ver pessoalmente. Talvez a policia tivesse deixado passar algo: nunca prenderam ninguém, e nunca encontraram os restos das crianças, então, se eu encontrasse algo, estaria ajudando com as investigações!

O local não era visitado a muito tempo. A porta já estava bastante podre, então consegui arrombar. A polícia havia cortado a energia do local pouco depois dos acontecimentos, então tive que utilizar a minha lanterna, o que reduziu consideravelmente as minhas chances de encontrar algo.

Eu suspeitava que os policiais não tinham verificado atentamente o galpão que havia nos fundos. Aparentemente era um galpão comum: com uma bancada e alguns barris. Abri um dos barris e verifiquei o conteúdo: milho para galinhas, misturado com um tipo de pó branco. Olhei para a bancada, onde havia um almofariz. Dentro, havia o que parecia um osso meio triturado (se era de um humano ou de uma galinha, eu não poderia dizer.)

Eu já estava prestes a sair do local, quando percebi algo embaixo da bancada. Eram bolsas de plástico, daquelas que se usa para guardar documentos importantes. Estavam datadas: de cinco em cinco anos, começando em meados dos anos 70, e terminando em meados dos anos 90. Abri o mais recente e vasculhei seu conteúdo.

Fotografias. Fotografias mostrando crianças em um playground, aparentemente tiradas de dentro de um carro. Outra fotografia mostrava dois policiais dentro de um carro, despercebidos sobre a presença do fotógrafo. A última fotografia mostrava...

…a última era a minha. Não era uma fotografia qualquer. Eu lembrava exatamente de onde foi tirada. Borrada com o movimento, e parcialmente obscurecida pela mão de um policial que tentava afastar um fotógrafo para que eu pudesse entrar em uma ambulância.

Havia outro objeto na bolsa: um boneco. Estava incompleto: o rosto ainda estava pela metade, e ainda faltava um dos braços. Porém, a aparência do boneco me inquietava. Ele parecia bastante familiar, das vestimentas marrons ao estúpido penteado Teddy Boy da época.

Era o meu boneco.



Bom, enfim, estou feliz em ajudar. Acho que se relembrarmos o incidente com frequência, podemos, mais cedo ou mais tarde, encontrar alguma nova informação. Só espero que a parte do arrombamento não me cause problemas. Não publique essa parte, tudo bem? Ótimo. O que mais você deseja? Uma fotografia minha? Claro, tudo bem. Vai em frente.

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